O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 7:54 pm

Ela apanhou dois pacotes de notas, algo em torno de trinta mil dólares, que Virgílio mantinha em casa para eventual emergência, porquanto tempos atrás o governo confiscara o dinheiro de toda a população.
Por essa razão, ele criara o hábito de trocar moeda nacional por dólar e guardava gorda quantia no cofre de casa.
Nicole estava tão extasiada com a quantidade de dinheiro que não vasculhou mais.
Aquela dinheirama toda era suficiente para fugir.
Nicole enfiou tudo na bolsa.
Apanhou a mala e saiu pela porta da frente.
Se pegasse o carro, seria fácil localizá-la.
Olhou para os lados.
A rua estava praticamente vazia.
A jovem estugou o passo e dobrou o quarteirão.
Duas quadras depois chegou à Avenida Brasil e fez sinal para um táxi.
Ela sabia exactamente onde encontrar Artur.
Como se estivesse sendo movida por algo mais forte que ela, Nicole ordenou ao motorista, que acolheu com espanto o endereço que ela lhe dera:
- Toca para a Rua Aurora.
- Perdão, senhorita?
- É surdo ou idiota?
Eu disse Rua Aurora.
- Sim, senhorita.
Os dois espíritos estavam colados nela.
Um de cada lado.
- Agora vamos pegar esse dinheiro e torrar em droga.
- Isso mesmo - replicou o outro.
Vamos torrar em droga.
Mariana entrou no carro e cumprimentou Rogério, dando-lhe dois beijinhos no rosto.
Ajeitou-se no banco de trás.
- Você está muito bonita - disse ele.
- Obrigada - tornou ela, envaidecida.
Letícia ajuntou:
- Fazia muito tempo que eu não a via tão bem.
Quem sabe hoje tudo se resolve e você e Inácio reatam o namoro?
- Deus lhe ouça!
Rogério e elas foram conversando amenidades.
No trajecto, pouco antes de chegarem à casa de Íngrid, ele encarou Mariana pelo retrovisor.
- Eu tive um sonho duas noites atrás.
- É mesmo? - perguntou Mariana, sem muito interesse.
Ela não era fã de sonhos.
Somente se impressionara com os que ela mesma tivera com Teresa, mas já os havia esquecido por completo.
- Sim. Com você.
- Comigo?
- Sim - respondeu Rogério.
- Estou curiosa - tentou ser simpática. - Conte-me.
- Sonhei que um senhor, de aproximadamente uns cinquenta anos, cabelos bem prateados, óculos de grau, estava lá na sua casa.
- Até podia ser meu pai, mas, pela descrição, não confere.
Papai não tinha cabelos brancos, tampouco usava óculos.
Ela entortou os lábios e prosseguiu:
- E o que esse tal homem fazia na minha casa?
- Disse-me que tomava conta de sua mãe, às vezes, também tomava conta de você e de Letícia.
- Oh! Um anjo da guarda na família!
Que bom! Depois de tantos reveses, até que seria uma óptima ideia.
Rogério prosseguiu indiferente à ironia impressa na voz de Mariana.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 7:54 pm

Ele aproximou-se e pediu:
"Diga a Mariana que os factos não são nada daquilo que parecem ser.
As aparências enganam.
Ela não deve dar ouvido aos outros, e jamais deve acreditar no que os outros lhe dizem.
Ela pode discernir o que é certo e errado e tomar suas próprias decisões.
Ela não precisa dar ouvidos a ninguém".
- Grande coisa... - replicou Mariana, em tom de deboche.
Letícia interveio:
- Isso faz sentido, sim.
- Não vejo como.
- Você flagrou Inácio com uma moça num restaurante tempos atrás.
E foi até o restaurante porque recebeu um trote.
Você mesma não disse à mamãe que sonhara com Teresa e que desconfiava de que ela havia lhe passado o trote?
Mariana emudeceu.
- Mais ou menos.
- Não se faça de superior.
Você acreditou naquele sonho que teve.
Vamos, admita.
- Coincidência.
Eu andava muito nervosa.
- Coincidências não existem.
Não teria sido melhor ligar para Inácio no dia seguinte e contar-lhe sobre o trote?
A história poderia ter sido diferente.
Ambos teriam gasto menos tempo com dúvidas, inseguranças e desconfianças.
- Mas eu vi com os meus próprios olhos - tornou Mariana, com veemência.
- Poderia ter ido até eles e saber quem era a moça.
Pela reacção de Inácio, você saberia se era um flagrante ou não.
E você não lhe deu essa chance.
Preferiu acreditar num trote.
Mas fiquei feliz com tudo isso.
- Feliz? Como? - indagou Mariana, estupefacta.
- Por conta de seu desespero e insegurança, eu encontrei meu amor - suspirou Letícia.
Rogério beijou-a delicadamente nos lábios.
- Nosso encontro não foi por acaso.
Mas que o sonho tem algo de verdadeiro, isso tem.
Eu não tenho sonhos lúcidos e vivos com tanta frequência.
E eu posso jurar que saí do corpo e me encontrei com esse senhor, na sua casa.
- E ele tem nome, esse sujeito que mora lá connosco? - indagou Mariana, tom jocoso.
- Sim. O nome dele é Homero.
- Nunca ouvi falar.
Letícia retrucou:
- Eu também não.
Vai ver, é um guia espiritual, um parente distante, coisa do tipo.
- É - arriscou Rogério -, pode ser.
Pouco depois, chegaram à casa de Íngrid.
Mariana olhou a casa e sentiu um frio na espinha.
Precisava ser forte e conversa definitiva com Inácio.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 7:54 pm

CAPÍTULO 20

Nicole saltou do táxi em franco desespero.
O motorista recebeu o dinheiro da corrida e nem viu se a quantia estava certa, tamanho o medo.
Acelerou, dobrou a rua e desapareceu.
O ambiente não era dos mais agradáveis.
Aquele pedaço da rua era cheio de dejectos e lixo.
As calçadas estavam cobertas de adolescentes e jovens delinquentes, a maioria com um cachimbo na mão e fumando crack.
Outros ficavam agarrados a uma lata, dessas de molho de tomate, repletas de cola de sapateiro.
A garotada inalava a cola e entrava em transe, entorpecendo os sentidos.
Havia muitos deles jogados na rua, e os transeuntes que eram obrigados a passar por lá o faziam de maneira rápida e desconfiada.
A jovem desviou de dois rapazes estirados no chão, saltando sobre seus corpos, totalmente entorpecidos por cola.
Olhou o número do prédio e entrou.
A portaria estava aberta, sem porteiro, sem ninguém.
Era um prédio fétido, abandonado, sem energia, água ou infra-estrutura.
Estava à beira de ser interditado, tamanho o risco que oferecia.
Nicole estava acostumada a frequentar aqueles ambientes.
Era patricinha, admirava festas de embalo, mas, quando a situação apertava, ela e seus amigos corriam até o centro da cidade, ou lugares afastados na periferia, à procura de drogas.
Na hora de comprar, metiam-se em qualquer buraco.
Aos olhos humanos, o local era habitado por uma meia dúzia de desocupados, rapazes e moças que se drogavam e que mal tinham noção de onde estavam ou de como retornariam às suas casas, se bem que alguns nem casa tinham para voltar.
Aos olhos do espírito, o local era habitado por uma quantidade imensa de espíritos dependentes e viciados.
A grande maioria era composta por espíritos de jovens que desencarnaram ali mesmo, nas imediações da Cracolândia.
Esses jovens, sem noção alguma de espiritualidade, continuavam ali, fora da matéria, mas presos ao vício, aspirando, por meio dos encarnados, qualquer droga que fosse.
Ainda não compreendiam bem o facto de estarem mortos e ao mesmo tempo com necessidades de quando estavam vivos.
Isso não importava; eles queriam aproveitar e sempre se aproximavam de encarnados dependentes químicos para sentir os efeitos que a droga lhes proporcionava.
Nicole subiu dois lances de escada, dobrou o corredor e bateu numa porta.
Um rapaz de aspecto tenebroso, olhos injectados e vermelhos, pele escurecida e arroxeada, atendeu a porta.
- Fala - tornou ele, voz pastosa.
- Vim atrás do Artur.
- Entra aí. Ta lá no fundo.
Nicole encostou a porta.
O ar parecia querer sufocá-la, de tão pesado.
Uma névoa de fumaça cobria todo o espaço.
Ela adentrou pequeno cómodo, escuro e fétido.
Os jovens ali dentro estavam tão enlouquecidos pelas drogas, que alguns cheiravam cinzas de cigarro acreditando ser cocaína.
Estavam impossibilitados de distinguir a cinza do pó branco.
A jovem passou por cima deles e avistou o namorado.
No chão, quase sem consciência, estava caído Artur.
Nicole aproximou-se, abaixou-se e colocou a cabeça do rapaz sobre uma de suas pernas.
Acariciava seu rosto enquanto dizia:
- Voltei meu bem.
Não precisamos mais ficar neste buraco.
Ele mal conseguia articular som.
As palavras vinham desconexas.
- Meu amor, você está aqui - ele sorriu.
- Vamos sair daqui.
- Não temos como sair.
Fui despejado do meu apartamento, e neste estado não consigo trabalhar.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 7:54 pm

- Que trabalhar, que nada!
Você não precisa mais disso.
- Não?
- Não. Vamos viajar.
Artur esboçou leve sorriso.
- Adoro viajar.
Nicole batia no seu rosto.
- Não durma.
Preciso saber onde estão suas coisas.
- Eu não tenho coisas.
Vendi tudo por droga.
- Seus documentos, onde estão?
- Sei lá. Acho que na mochila.
Nicole olhou ao redor e vasculhou.
Só encontrou latas, restos de comida em estado pútrido, tudo rodeado de moscas e baratas e algumas garrafas e bitucas de cigarro.
A mochila de Artur desaparecera.
- Não está aqui.
Outro jovem, menos entorpecido, levantou-se devagarzinho.
- Ei, moça, a mochila do Artur foi roubada.
Um bando invadiu aqui ontem e rapou tudo.
Briga de gangues.
Nicole desesperou-se.
- Oh! Eu preciso dos documentos dele.
O rapaz deu meio sorriso.
- Se me der um papelote de cocaína, eu lhe dou o nome de um cara que é fera em falsificação.
Faz qualquer documento.
Ela se interessou.
Abriu a bolsa e apanhou um dos pacotinhos que tirara do bichinho de pelúcia e entregou ao moço.
Ele avançou sobre ela.
Contudo, Nicole estava sóbria e, portanto mais forte.
Deu-lhe um empurrão.
- Alto lá. Primeiro me dê o endereço do cara.
Depois eu lhe dou o pó.
O rapaz assentiu com a cabeça.
Tirou um cartão sujo e amassado do bolso da calça.
- Aí está. Procure por esse cara.
- Aqui diz que ele é advogado - afirmou hesitante.
- Tudo fachada.
Diga que foi o Gero que a mandou.
Nicole apanhou o cartão e entregou-lhe o papelote.
- Artur, acorde.
- Estou fraco, sinto moleza.
- Por favor, acorde.
Eu vou ajudá-lo a sair daqui.
Venha comigo.
Ela fez grande esforço, e aos poucos Artur levantou-se.
Abraçou-se a ela e saiu do prédio com dificuldade.
Hospedaram-se num hotel de quinta categoria, ali perto.
O estado de Artur era deplorável, mas, desde que tivessem dinheiro para o quarto, qualquer um podia se hospedar.
O gerente do estabelecimento estava acostumado a lidar com todo tipo gente, especialmente com jovens que lá se hospedavam somente para fumar crack ou mesmo cheirar cocaína.
Nicole, com tremenda dificuldade, arrastou Artur até o pequeno quarto e o estirou sobre a cama.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 7:55 pm

Tirou-lhe as vestes e abriu a janela.
A brisa suave da madrugada invadiu o quarto e Artur respirou com mais facilidade.
Nicole deu-lhe um copo de água.
- Descanse um pouco.
Vou buscar comida e tratar de arrumar-lhe documentos.
- Hã - balbuciou ele.
- Vamos fugir.
Os dois espíritos, que a acompanharam desde que saltou do táxi, sorriram satisfeitos.
Um deles cutucou o outro e disse:
- Não falei que ela era fraca?
O outro espírito assentiu com a cabeça e ambos se aproximaram de Nicole, totalmente receptiva à influência dessas entidades sugadoras e perdidas.
Everaldo nada pôde fazer.
A relativa distância assistiu àquela cena triste e, em pensamento, rogou ao alto que intercedesse a favor de sua pequena.
- Meu amor - suplicou a distância -, eu não posso tomar conta de você, tampouco protegê-la de tudo e de todos que a influenciam negativamente.
Você precisa mudar sua postura, mudar suas crenças e atitudes.
Eu não posso salvá-la.
A cura depende única e exclusivamente de você.
Disse isso entre lágrimas.
Nicole nem teria condições de captar a mensagem do espírito.
Estava muito perturbada.
Apanhou a bolsa cheia de dólares e, antes de sair, resolveu;
- Tem mais um pacotinho de cocaína aqui. Será que...
Os dois espíritos estavam loucos para que ela caísse cm tentação.
Não conseguiram se aproximar de outros jovens, porquanto eles já eram escravos de uma falange de espíritos drogados.
- Não custa nada.
É só abrir e pronto - insistiu um deles.
Nicole hesitou.
Por fim, influenciada pelos espíritos, disse para si;
- Vou cheirar só esta carreira.
Nicole pegou o papelote de cocaína, abriu-o e esparramou sobre uma mesinha.
Tirou um cartão de plástico da bolsa e fez duas fileiras.
Depois mais duas e depois mais outra.
Cheirou até suas narinas sangrarem.
Mariana cumprimentou Íngrid e, assim, que Sílvia desceu as escadas e postou-se à sua frente, ela quase deu um pulo para trás.
Ficou branca como cera. Íngrid perguntou, aflita;
- Aconteceu alguma coisa?
Mariana não respondeu.
Sílvia sorriu e cumprimentou-a;
- Você é Mariana! - exclamou.
Como estava ansiosa em conhecê-la!
Mariana balbuciou:
- Prazer. Você é...
- Sou Sílvia, irmã de Inácio.
Mariana abraçou-a e fechou os olhos.
Como tinha sido estúpida!
Por que não chegou sequer a pensar nessa possibilidade?
Por que só deixou a mente ser corrompida por pensamentos maledicentes?
Por que se deixou levar por um trote idiota?
Ela encarou Sílvia com profunda vergonha.
E, afinal, por que demorara tanto tempo para descobrir a verdade?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 7:55 pm

Mariana estava se entupindo de perguntas e querendo arrancar-se os cabelos, tamanho o arrependimento.
Mas suspirou e controlou-se a contento.
- Você não sabe quanto estou feliz em conhecê-la - tornou ela, sincera e aliviada.
- O prazer também é todo meu.
Nunca vi meu irmão se apaixonar antes.
Espero que vocês possam resolver suas diferenças.
Inácio gosta muito de você.
Íngrid interveio com delicadeza:
- Vamos até a copa tomar nosso lanche.
Enquanto isso - apontou para Mariana - Suba.
Inácio está no quarto, ouvindo música.
- Obrigada, Dona Íngrid.
- Vai ser uma grata surpresa.
Não contamos ao Inácio que você viria.
Mariana sorriu feliz.
Subiu as escadas, dobrou o corredor e respirou fundo.
Bateu com delicadeza, e nada. Bateu novamente.
Ela delicadamente virou a maçaneta e abriu a porta.
O ambiente estava inundado pela voz de Maria Bethânia.
A música tocava alto.
Inácio, deitado na cama, os olhos fechados, voz cadenciada, cantarolava a melodia:
De repente fico rindo à toa sem saber por quê.
E vem a vontade de tentar de novo te encontrar.
Foi tudo tão de repente, eu não consigo esquecer.
E confesso tive medo, quase disse não...
Mariana riu marota.
Esperou que a canção terminasse.
Inácio virou-se de lado e a música recomeçou.
Ele havia programado o aparelho para tocar somente essa faixa do CD.
Era a mesma que ouvira na casa de Mariana quando fora lá almoçar, muitos domingos atrás.
Ela delicadamente andou pé ante pé até a cama.
Sentou-se na beirada e passou delicadamente a mão sobre seus cabelos fartos e alaranjados.
Cantarolou a música.
Inácio reconheceu a voz e imediatamente abriu os olhos.
Tomou um susto e levantou-se.
Esfregou os olhos.
Só podia ser miragem.
- Mariana! - exclamou surpreso.
- Um dos dois tinha de tomar a iniciativa.
Estou aqui para conversar.
- Eu mal posso acreditar.
Pensei que nunca mais...
Ele não terminou de falar.
Apertou-a de encontro ao peito e, com voz que a paixão tornava rouca, declarou:
- Estava com vergonha de procurá-la.
- Vergonha? De quê?
Ele a puxou pela mão e Mariana deitou-se sobre ele.
- Eu me sinto um idiota completo.
- Por quê?
- Acreditei numa farsa, numa armação, e, ao invés de consultar meu coração e falar com você, resolvi dar ouvidos à maledicência alheia.
Fiquei tomado de ciúmes.
- Eu nunca lhe dei motivos para sentir ciúmes.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 7:55 pm

- Sei disso, meu amor.
- O que foi que fiz?
Inácio esboçou sorriso amarelo, sem graça.
Abraçou-a e beijou-a várias vezes.
Levantou-se e foi até a escrivaninha.
Pegou um envelope pardo e entregou-o para a namorada.
Ela perguntou:
- O que é isso?
- Abra e veja por si.
Mariana abriu o envelope e não conseguiu articular som de imediato.
Respirou fundo e recompôs-se.
- Essas fotos foram tiradas no dia em que...
- Não sei quando - disse ele, triste,
O que importa é que essas fotos foram tiradas com o propósito de fazer-me acreditar que você me traía.
- Mas este é...
- Sim - afirmou ele -, é o Rogério.
Agora sei quem é. Imagine meu espanto no dia que o encontrei abraçado à sua irmã.
Quando conheci o Rogério, descobri que as fotos foram uma grande armação.
Ele me contou como conhecera Letícia, que havia encontrado você no meio da rua, chorosa e perdida.
- Foi quando recebi um trote me instruindo a flagrá-lo com uma loira no restaurante e...
- E?
Ela mal sustinha a respiração.
Aquilo era obra de Teresa, agora tinha certeza absoluta.
De nada adiantaria falar, discutir, tirar satisfações.
Ela o amava, e tudo não havia passado de mal-entendido.
Mariana pendeu a cabeça para os lados.
- Eu também me senti envergonhada.
- Não tem motivos.
Eu é que fui idiota.
- Fomos os dois.
- Não entendo.
- A moça que vi ao seu lado no restaurante e julguei ser outra... era sua irmã.
- Sílvia?
Ela levantou e baixou a cabeça várias vezes.
- Sim.
- Você está brincando comigo.
Mariana beijou-o nos lábios.
- Não, meu amor.
A jovem puxou Inácio pelo braço e conduziu-o até a cama.
Baixou o volume do aparelho de som e contou-lhe tudo, desde o trote, os sonhos, a conversa com Rogério no carro, o estupor ao deparar com Sílvia.
- Acabei descobrindo que a loira era sua irmã.
- Quer dizer que você veio hoje aqui, mesmo sem saber se eu tinha saído com outra?
- Sim.
- Por quê?
- Porque eu o amo, Inácio, do fundo do meu coração.
Eles se beijaram com amor, longamente, repetidas vezes.
Mais calmos, ela tornou:
- Foi tudo armação da Teresa.
- Foi por essa razão que você a pegou no bar e lhe deu aquela surra?
Mariana envergonhou-se.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 7:55 pm

- Não gosto de violência.
Mas fiquei fora de mim.
Eu sabia que ela havia aprontado comigo.
- E comigo também.
- Ela teve o que mereceu.
Espero não ter que encontrá-la nunca mais.
Inácio passou a mão pelo seu rosto fino e delicado.
- Teresa não vai mais nos importunar.
Nem ela, nem ninguém. Acredite em mim.
- Eu acredito.
Nunca mais duvidarei de você.
- Ouviu a música?
- Como poderia esquecer? Naquele almoço, faz um bom tempo.
- Maria Bethânia é a nossa madrinha musical.
Esta vai ser a nossa música, para sempre.
Inácio aumentou o volume do som e conduziu Mariana até sua cama.
Deitaram-se e ficaram abraçados, ouvindo a música, cantarolando a melodia, trocando juras de amor.
Teresa imaginou que logo os pombinhos voltariam a se juntar.
Ela precisava continuar atirando pedras nesse relacionamento.
Tonhão estava cada vez mais no seu pé.
Ela tinha de arrumar um jeito.
Finalmente apareceu um.
Lembrou-se de uma amiga que se utilizava dos serviços de uma cigana que fazia trabalhos bem interessantes para amarração de homem.
Ela não hesitou e ligou.
A amiga foi solícita e deu-lhe o número de telefone.
- Essa cigana é boa mesmo?
- Ela não é cigana - riu a mulher do outro lado da linha.
O povo cigano tem código ético próprio e se dedica à música, vive de artesanato, da leitura da sorte e outras coisas.
Dolores finge ser cigana e utiliza a denominação para lhe conferir status, mais nada.
Mas uma coisa posso lhe dizer:
ela é poderosa. Pode acreditar.
Graças aos trabalhos dela, os homens me disputam a tapa.
Teresa sorriu maliciosa.
Terminada a ligação, imediatamente ligou para a mulher e marcou hora para o dia seguinte.
Dolores atendia num pequeno sobrado localizado em um bairro, classe média.
Era uma bela casa no Brooklyn, construção antiga, espaçosa, bem conservada.
No jardim da frente, bem cuidado e repleto de flores e árvores, havia algumas estátuas de ciganos.
Só para impressionar.
De cigana e de espírita ela não tinha nada.
Vestia-se com trajes ciganos e lia a sorte das pessoas à deriva.
Algumas vezes acertava muitas outras errava em cheio.
Isso porque sua mediunidade havia sido educada de maneira torpe.
No início, muitos anos atrás, Dolores fora cercada de entidades do bem, espíritos amigos que se comprometeram a trabalhar com ela para promover o bem das pessoas por meio de orientação, aconselhamento, dicas e atitudes positivas.
Todavia, ela foi depreciando suas virtudes, ignorando códigos de ética e respeito ao próximo.
Acreditando ser dotada de poderes sobrenaturais, passou a cobrar valores altíssimos pelas consultas, e, como recebia muitas clientes inseguras e perdidas no amor, Dolores especializou-se em amarração de homem.
A demanda foi crescendo, muitas mulheres inseguras e desesperadas corriam até ela e solicitavam seus serviços escusos, na tentativa de ter a seu lado o homem com quem tinham cismado.
No começo não deu muito certo.
Os amigos espirituais não compactuavam com esse tipo de trabalho.
Interferiam bastante e ela não tinha retorno, porquanto os espíritos do bem desfaziam o feitiço.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 7:55 pm

Mas Dolores não desistiu.
Tentou, tentou e persistiu no mal.
Até que um dia os espíritos de luz se cansaram dela, perceberam que estavam perdendo tempo e foram atrás de outra médium, que estivesse receptiva e disposta a trabalhar pelo bem das pessoas.
Dolores então ficou à mercê de espíritos trapaceiros, enganadores de verdade.
Com a mediunidade em descontrole, tornou-se serva desses espíritos aproveitadores e só fazia trabalhos espirituais para prejudicar os outros, sendo sua especialidade a prisão amorosa de homem - popularmente conhecida como amarração de homem.
Teresa foi atendida por uma empregada bem vestida.
Em seguida foi conduzida a uma sala ricamente decorada, ambiente muito fino.
Ela sorriu e gostou do que viu.
- Pelo menos não se parece com aqueles buracos que já frequentei.
Essa mulher deve ser muito boa mesmo.
O lugar me inspira confiança.
Ela foi conduzida e convidada a sentar-se à frente de uma mesa em que havia duas estátuas uma cigana e um cigano que, um de frente para o outro, pareciam estar dançando.
Tudo cena, somente para impressionar a clientela.
Dolores apareceu na sala, entrada triunfante, tudo ensaiado, só para causar impressão.
Ela se sentou do outro lado da mesa e a cumprimentou.
- Olá. Você é amiga da Joana?
- Sou. Ela vem sempre aqui?
- De vez em sempre - riu Dolores, deixando aparecer um sorriso sinistro, embora seus dentes fossem alvos e perfeitos.
- Preciso de um favor.
- Qual é?
- Tem um homem, sabe...
- Essa é minha especialidade.
- Ele está apaixonado por outra.
Preciso afastá-lo dessa sirigaita e casar com ele.
É um caso de vida ou morte.
Dolores fechou os olhos e fingiu fazer contacto com entidades do astral.
- Meus guias disseram que podem ajudá-la.
- De que forma?
- Com um perfume.
- Perfume?
- Sim, um perfume enfeitiçado.
- E funciona?
- É tiro e queda.
- Você me garante?
- E como, minha filha!
É só o trouxa passar umas gotas e vai se apaixonar pela primeira mulher que vir na frente.
- Não sei se vai dar certo.
- O que a aflige?
- Esse homem não quer me ver nem pintada de ouro.
Eu preciso estar junto?
- Não necessariamente.
Basta deixar o embrulho com uma foto sua.
Sem querer, ele vai olhar para o perfume e para a foto.
E só o que preciso para que dê certo.
- Se eu levar um frasco feito por você, ele vai desconfiar.
Esse homem só usa perfume dos bons.
É de marca importada.
- Não tem problema.
Compre um frasco do perfume e me traga.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 7:56 pm

Eu o enfeitiço para você.
Assim que ele espargir sobre o corpo, vai ficar de quatro por você.
Pode acreditar.
- Tem certeza?
Parece muito fácil.
- Se ele espargir um bocadinho, vai entrar na sua.
Ele ama muito essa mulher?
Teresa fez muxoxo.
Odiava ter de falar a verdade, mas estava diante de alguém que poderia afastar Mariana e lhe deixar o caminho aberto para sua redenção.
Entre cair nas garras de Tonhão e ter de baixar seu orgulho, ela escolheu este último.
- Ele a ama, quer dizer, parece que ama.
Os homens são todos iguais.
- Hum, então fica mais difícil.
Além de fazer o perfume, terei de montar guarda.
- Montar guarda?
- É. Vou ter de mandar uns guias para atrapalhar a vida dos dois, entende?
Vai ficar mais caro.
- Dinheiro não é problema, por enquanto.
Dolores suspirou alegre.
Pensou consigo mesma:
"Mais uma otária. Que bom!
Vou ganhar muito dinheiro à custa dessa aí."
No dia seguinte, Teresa correu até uma loja de perfumes que conhecia na Rua Augusta e comprou o perfume predilecto de Inácio.
Disso ela se lembrava, com certeza, visto que ele usava essa mesma fragrância havia anos.
Voltou até Dolores e entregou-lhe o frasco, para que ela fizesse o feitiço.
Uma semana depois, Teresa andava com o pacotinho debaixo dos braços.
Feliz da vida.
Nem telefonou para a casa de Inácio; resolveu arriscar e ir directo.
Assim que chegou e o viu abraçado a Mariana, quase teve uma síncope cardíaca.
Teresa procurou ocultar a irritação e o ódio:
"Então os dois haviam reatado?", indagou para si, desolada.
"Mas será por pouco tempo."
Ela pigarreou e procurou ser gentil.
Cumprimentou a todos.
Inácio e Mariana a cumprimentaram com um aceno.
Teresa percebeu que seria impossível entregar-lhe o presente.
Ela pensou e decidiu:
"Amanhã passo na Centax e deixo o embrulho com a foto nas mãos de Isabel.
Ela vai me ajudar."
Em seguida, Teresa pretextou compromisso, despediu-se e foi para casa.
Ivana arrumou-se como de costume, num exagero só.
Fazia dias que estava sem sair de casa.
Finalmente a enxaqueca a deixara livre por uns tempos e ela pôde voltar a pensar em saracotear pela cidade, como sempre fazia acompanhada de Otília Amorim, sua única amiga.
Exagerada, espargiu meio frasco de perfume sobre o corpo e ligou para a amiga.
- Quanto tempo seu motorista leva para me apanhar?
- Meia hora, Ivana.
Faz tempo que não saímos, e hoje você vai fazer vários programas comigo.
- Preciso ficar longe desta casa o máximo de tempo possível.
O clima aqui anda insuportável.
- Como está Nicole?
Ivana deu de ombros, enquanto se equilibrava no fone e passava rímel nos cílios.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 7:56 pm

- Sei lá. Acho que faz uns dois dias que não a vejo.
- Não se preocupa?
- De maneira alguma.
Nicole é adulta, que aprenda a cuidar de sua vida.
Eu não vou ficar correndo para cima e para baixo atrás de uma viciada.
Isso nunca.
Não tenho idade tampouco estrutura para isso.
- Você é impossível.
Confesso que, mesmo sendo sua amiga, não apoio sua atitude.
Ivana irritou-se, mas procurou controlar-se.
Evitava brigar com Otília. Afinal, era a única pessoa no mundo que a suportava.
- Eu e Nicole tivemos uma conversa dia desses.
Falei o que sentia e ela irritou-se, acredito. Foi viajar.
- Viajar? Como? - Otília preocupou-se de verdade.
- Simplesmente fez as malas e viajou.
Por que o espanto?
- Ela mal acabou de sair de uma clínica de desintoxicação, ingressou recentemente nos Narcóticos Anónimos.
- E daí?
Otília não conseguiu evitar o estupor:
- Isso é grave!
- Bobagem!
- Nicole pode ter uma recaída.
Ainda é muito cedo para viajar sozinha, não acha?
Ivana deu uma risadinha nervosa.
Otília era dramática e melosa.
Preocupava-se com o bem-estar de Nicole.
Entretanto, Ivana conteve-se.
- Assim que ela regressar de viagem eu lhe informo.
- Obrigada.
Otília acalmou-se e procurou dar novo rumo à conversa:
- E quanto à sua sobrinha?
Ivana fez um esgar de ojeriza.
Acendeu um cigarro para controlar sua fúria e acrescentou:
- Nem me fale nessa fedelha, Otília, por favor.
Não queira estragar o meu dia!
- Desculpe.
- A insuportável acha que vai ficar aqui por quanto tempo?
Pensa o quê? Você vai ter de me ajudar.
- Eu?!
- É Otília, você. Quero dar um basta.
Não quero mais Cininha na minha casa.
É extremamente desagradável.
- Bom, meu motorista vai sair.
Daqui a meia hora estamos aí - disse Otília num rompante, cansada das lamúrias de Ivana.
- Está certo. Até mais.
Ivana desligou o telefone, ajeitou a alça do vestido e desceu. Avistou Cininha sentada no jardim de inverno, aparentemente folheando um livro antigo, as páginas bem amareladas.
- Pegou esse livro do escritório? - perguntou num tom de reprovação.
Cininha levantou os olhos e sorriu.
- Não, titia.
Era de minha mãe.
- Sua mãe não era dada a leitura.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 7:56 pm

- Nos últimos anos de vida ela tomou gosto pela leitura.
- É difícil acreditar.
Sua mãe sempre foi meio ignorante.
Cininha era muito bem-humorada, estava sempre de bem com a vida e sabia tirar de letra as insinuações jocosas que a tia lhe despejava.
- Mamãe frequentava um grupo de estudos e me deixou muitos livros.
Ivana deu uma gargalhada.
- Essa é boa!
Sua mãe, participando de um grupo de estudos?
- Verdade.
- Sua mãe mal sabia escrever o próprio nome.
Era praticamente uma analfabeta.
Cininha levantou-se e aproximou-se da tia.
Ela nunca perdia o humor.
- Mamãe concluiu o primeiro grau.
Não era analfabeta.
- Não gostava de estudar, mal sabia escrever.
- Mas mudou muito, tia.
Ela fez supletivo, concluiu o segundo grau.
Só não ingressou numa faculdade porque se descobriu doente.
Era tarde demais.
Foi quando ela se associou a esse grupo.
- Que grupo?
- Um grupo dedicado ao estudo do Espiritismo.
Ivana injectou os olhos de fúria.
- Não diga asneiras, menina.
Cininha assustou-se.
- Mas por quê?
- Isso é coisa de gente atrasada.
Onde já se viu, falar de Espiritismo sob este teto?
Ficou louca?
- Não sabia que era preconceituosa.
- Sou mesmo.
Odeio os espíritas, os espiritualistas.
Tudo gente de cabeça obtusa, pequena.
Gente muito ignorante, assim como sua mãe.
- Muito se engana.
Nesse grupo em particular havia pessoas bem cultas, até de posses, lá da cidade de Vitória.
- Gente de posses e ignorante, isso sim.
Não vá me dizer que você acredita nessas coisas?
- Sim. Creio que a vida tem novo significado quando passamos a enxergar o mundo sob a óptica espiritualista.
Tudo faz sentido.
As guerras, as tragédias, os milagres, os acontecimentos fantásticos que ocorrem na vida de cada ser deste planeta...
Ivana cortou-a abruptamente:
- Idiotice. Pura idiotice.
Nascemos, vivemos e morremos.
E ponto final. Que mania ais disparatada de acreditar que a vida continua depois da morte.
- Há estudos sérios a respeito que falam sobre o assunto.
Allan Kardec, por exemplo...
- Quem?
- Um professor francês, responsável pela codificação da doutrina espírita.
- Nunca ouvi falar.
- E ouviu falar de Chico Xavier, Waldo Vieira, Emmanuel, André Luiz, Yvonne Pereira, Robson Pinheiro...
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 7:56 pm

- Desses todos, só ouvi falar desse tal de Chico.
Mas é tudo crendice, charlatanismo.
Ninguém me convence.
Cininha deu uma risadinha.
- Engraçado, titia.
Mamãe me disse, meses antes de morrer, que você chegou a fazer uma cirurgia com o Zé Arigó, lá em Congonhas do Campo.
Ivana ficou branca.
Em seguida, a coloração de seu rosto passou para o vermelho e instantes depois para um arroxeado.
Aquela menina era o capeta!
Sabia de factos que ela mesma fizera questão de meter nos escaninhos da memória.
- A sua mãe...
Cininha continuou:
- Minha mãe a acompanhou, isso sim.
Parece que o Zé Arigó, durante uma cirurgia espiritual, extraiu um quisto do seu ovário.
Não é verdade?
Ivana irritou-se sobremaneira.
Aquela menina era mesmo desagradável e a tirava o sério.
Apanhou uma estátua de porcelana sobre a mesinha que estava próxima e atirou-a contra a parede.
Cininha tapou os ouvidos, para abafar o barulho.
- Diabos! Você me irrita.
Isso tudo é mentira!
- Minha mãe nunca foi dada a mentiras.
- Estava ficando dementada.
- Não, tia Ivanilda, nunca.
Ivana inflou o peito de ar e bradou, num tom extremamente alto:
- Odeio que me chame de Ivanilda, entendeu? Odeio!
Enquanto estiver na minha casa, se quiser continuar passando sua temporada aqui, nunca mais se dirija a mim usando esse nome.
- Sim, como queira... tia Ivana.
- Assim está melhor.
Ouviram uma buzina no lado de fora. Ivana suspirou:
- Graças a Deus, Otília chegou.
Apanhou a bolsa e saiu.
Ruminando e esbracejando, ela deu um esbarrão em Bruno, arriscou um palavrão entre dentes e saiu, sem antes bater a porta com força.
Bruno assustou-se de início, mas, ao ver Cininha rindo na saleta, descontraiu-se:
- O que aconteceu?
- Titia não quer que eu a chame pelo nome de baptismo.
Bruno riu.
- Você é impossível, Cininha.
Cuidado. Ainda pode se dar mal.
- É uma brincadeira.
- Mamãe é muito estúpida.
E se ela se descontrolar e lhe der uns sopapos?
- Tentarei me defender - respondeu a jovem, sorrindo.
- Nem o papai ousa chamá-la pelo nome de baptismo.
Ela simplesmente abomina esse nome.
- Mas é o nome dela, não é?
Por que não entrou com papelada na Justiça e trocou, ou mesmo alterou o nome?
- Ela preferiu omitir da sociedade, e ninguém sabe, ou finge não saber.
Ela riu e deu dois beijinhos no primo.
Ele olhou para a mesinha.
Interessou-se pelo livro.
- O que está lendo?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 7:56 pm

- O Livro dos Espíritos. Conhece?
Bruno admirou-se.
Abaixou-se e apanhou-o.
- Que capa mais bonita!
- Mamãe ganhou este livro de uma amiga.
Foi uma edição especial por ocasião do centenário do lançamento.
Essa amiga, percebendo que mamãe tinha se interessado pelo assunto, presenteou-lhe com o próprio livro.
Eu o guardo com todo o carinho do mundo.
É uma maneira de estar conectada à minha mãe.
Estudávamos juntas, sabe?
- Mesmo?
- Sim. Estudei tanto, que você pode me perguntar qualquer questão, e olhe que são 1.019 perguntas.
- Você conhece mesmo! - exclamou, admirado.
Desde quando estuda o mundo espiritual?
- Desde que minha mediunidade começou a aflorar.
Isso faz alguns anos.
Estava na flor da adolescência.
Foi tudo natural.
Mamãe me levou a um centro espírita, eu fiz tratamento adequado, fiz curso de orientação mediúnica.
Em seguida passei a me reunir com um grupo selecto de pessoas que estudavam o mundo espiritual.
- Estou boquiaberto - suspirou ele.
Fico muito feliz que você acredite nisso, porque eu também acredito.
Minha namorada é médium.
Cininha exultou:
- Que bom!
Poderemos conversar bastante.
Tinha certeza de que aqui na cidade encontraria pessoas que pensam como eu.
- Você vai adorar a Michele.
- Por que não a traz até aqui?
Bruno ressabiou-se.
- Acha que posso trazer alguém aqui com a mãe que tenho?
Ela é capaz de atirar um vaso na cabeça de Michele.
Sabe, mamãe é preconceituosa ao extremo.
- E daí?
- Michele é negra.
Mamãe jamais permitiria uma união inter-racial na família.
Ela é presa a velhos valores, tem conceitos muito rígidos.
Parece que vive no tempo da escravidão.
- Que pena! - Cininha suspirou.
- Acho muito pobre o ser humano querer dividir os semelhantes por raça, cor, orientação sexual.
Pelo contrário, deveríamos aceitar e enaltecer as diferenças.
Acho que, se todo mundo fosse negro ou branco ou se todos no planeta tivessem os olhinhos puxados - ela pousou delicadamente os indicadores nos olhos, puxando-os -, seria sem graça, não acha?
- Sim - disse ele sorrindo.
Isso nunca deveria ser problema.
Mas para minha mãe é.
- E para seu pai?
- Meu pai achou Michele linda.
Ele abençoou nossa relação.
Papai não tem preconceitos.
- É tio Virgílio me parece um homem sensato, de bem.
Conversaram um pouco mais, até que Cininha tocou em assunto delicado.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 7:57 pm

- Bruno, não quero me meter na vida de vocês.
Eu não sou da família e...
Ele a cortou:
- Claro que é.
Você é minha prima, filha de minha tia.
Embora não tenhamos travado contacto durante anos, somos parentes, e o mais importante é que sinto muita afinidade com você.
Parece que a conheço há muito tempo.
- Eu também sinto o mesmo em relação a você, seu pai, Nicole, tia Ivanil...
Opa, quer dizer, Ivana...
Eles riram. Bruno anuiu:
- Pode falar o que quiser.
Há algo aqui que a incomoda?
- Graças ao estudo de minha sensibilidade, tenho facilidade em perceber as energias dos lugares.
- Isso é fantástico.
Eu estou aprendendo.
É tão bom poder saber lidar com o mundo das energias, identificá-las, saber o que é nosso e o que é dos outros.
Isso nos faz crescer, amadurece o espírito, nos dá força para viver melhor e com menos interferências, sejam de encarnados, sejam de desencarnados.
- Sim. Eu tenho facilidade em captar as energias dos ambientes.
E é nisso que queria chegar.
- O que foi?
- É sobre Nicole.
- Você sente alguma coisa ruim? - perguntou Bruno, assustado.
- Faz dois dias que ela saiu de casa e não dá notícias.
- Engano seu.
Cininha franziu o cenho.
- Como?
- É. Nicole ligou para o papai hoje cedo.
Está na casa de uma amiga no litoral.
Disse que volta amanhã.
- Não acredito!
- Por quê? Ela saiu com pequena mala.
- O carro dela está na garagem.
Bruno sorriu.
- Ela viajou de carona.
Foi sensata.
Ainda está no processo de cura, preferiu não arriscar e não pegar no volante.
- Não é verdade.
- Por que diz isso?
Sabe de alguma coisa?
- Receio que sim. Nicole não está bem.
Quando cheguei a sua casa, ela havia sido liberada da clínica de desintoxicação.
Entretanto, consegui captar algumas formas-pensamento dela e notei que Nicole continua muito depressiva, tem baixa auto-estima e se deixa levar pelas influências e conversas dos outros, como se não tivesse opinião própria.
Sua irmã não tem posse de si mesma.
E por essa razão que espíritos perdidos, sem noção de responsabilidade e perturbados ao extremo, acercam-se dela, convidando-a de volta ao vício.
Tenho orado bastante e conversado com alguns amigos espirituais.
- Michele disse algo parecido em nossa última reunião.
Se minha irmã debandar de novo, afundar-se nas drogas novamente, creio que não terá mais salvação.
Uma lágrima sentida escapou pelo canto dos olhos de Bruno.
Cininha pousou delicadamente sua mão na dele.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 8:50 pm

- Sei que é triste não poder ajudar, pois sentimo-nos impotentes.
Principalmente quando amamos alguém. Não se esqueça de que a responsabilidade é toda de Nicole.
Ela procurou esse caminho, foi ela que o escolheu.
Não me venha dizer que foi por ter uma educação relapsa, por não ter tido o carinho e afecto dos pais.
- Por muitos anos pensei assim, entretanto Michele me mostrou que tanto Nicole quanto eu fomos criados do mesmo jeito.
Nenhum dos dois recebeu carinho, afecto e atenção...
- E olhe a diferença: você percorreu outro caminho.
Formou-se, trabalha, está ajudando as pessoas e vai ser feliz ao lado de Michele, porque a ama de verdade.
Nicole poderia escolher o mesmo caminho.
Portanto, sua irmã não foi influenciada pelo meio em que cresceu e viveu.
Seu espírito já tinha forte tendência ao desequilíbrio e já faz algumas vidas que ela crê que as drogas vão sensibilizá-la de alguma maneira, diminuir seus medos e inseguranças.
- Como sabe disso. - perguntou ele, surpreso.
- Eu tive um sonho dia desses.
Vi sua irmã numa vida passada.
- Pode ter sido só uma impressão, sugestão, sei lá.
- Não, eu vi Nicole em outra encarnação, numa situação muito parecida com a de hoje.
No entanto, mesmo que ela seja responsável por tudo que lhe acontece, podemos fazer alguma coisa para ajudá-la.
Receio que ela não esteja bem.
- Acha mesmo?
- Sim.
Bruno levantou-se nervoso.
- Oh! Mas papai me garantiu que Nicole ligou e...
No mesmo instante, Virgílio adentrou a casa.
Aparentava tranquilidade.
- Como estão?
- Papai - disse Bruno -, a Cininha está preocupada com a Nicole.
Virgílio acercou-se dela e abraço-a.
- Obrigado por mostrar preocupação, porém Nicole está óptima.
- Não é isso o que Cininha afirma papai.
Ele a encarou nos olhos.
- Por que acredita que minha filha não esteja bem?
Cininha mordeu os lábios.
- Tive um sonho ruim e, quando tenho esses sonhos...
- Diga - implorou VIRGÍLIO.
-... É porque é verdade.
Creio que Nicole está correndo sério risco.
Virgílio sorriu.
- Você se impressionou com tudo que ocorreu nesta casa.
É natural. Viu Nicole chegar, soube e acompanhou parte de sua triste história.
Posso lhe assegurar de que está tudo bem.
Ela me ligou hoje cedo e está na praia de Maresias, no litoral norte.
Está na casa de uma amiga.
Cininha não se convenceu.
Mas o que podia fazer?
Era sua intuição contra os factos que se lhe apresentavam.
Não respondeu nada.
Os olhos de Virgílio brilharam emocionados.
Bruno indagou:
- O que aconteceu?
- Meu advogado vai dar início ao processo de separação.
Bruno não sabia do acordo entre Virgílio e Ivana.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 8:50 pm

Acreditava que estavam juntos mais por convenção e comodidade, e incentivava o pai a procurar ser feliz ao lado de uma mulher que o amasse de verdade.
Isso ele só percebeu depois que conheceu Michele.
Assim que o amor aflorou em sua vida, Bruno desejou que todos ao seu redor também experimentassem viver no estado sublime a que o amor nos transporta.
Abraçou o pai com satisfação.
- Pensei que nunca fossem se separar.
E nunca entendi o porquê.
- Um dia você vai saber de tudo.
O importante é que meu advogado ligou e pediu alguns documentos.
Estão lá no cofre.
Volto num instante.
Virgílio saiu e foi ao escritório.
Cininha e Bruno ficaram na saleta de inverno, conversando amenidades.
Alguns minutos depois, Virgílio irrompeu na saleta, suando frio, tremendo muito e branco como cera.
Bruno levantou-se assustado.
- Papai, o que foi?
Não está passando bem?
Virgílio procurou recompor-se do susto.
- O dinheiro do nosso cofre sumiu, desapareceu.
Bruno e Cininha olharam-se atónitos.
Os três imediatamente pensaram a mesma coisa:
- Nicole!
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 8:50 pm

CAPÍTULO 21

Uma carta na mão. Íngrid já lera e relera a carta várias vezes.
Fazia alguns dias que ela andava meio cabisbaixa.
Ela era mulher de alto astral, estava sempre bem-humorada.
Sua filha resolvera ficar definitivamente na cidade, o que a alegrava.
Inácio havia reatado o namoro com Mariana e pareciam felizes.
No entanto, algo em seu peito a perturbava, a incomodava sobremaneira.
Íngrid não queria olhar para o passado, havia feito esforço descomunal para esquecer o trauma que a separação lhe causara.
Mas, então... espere um pouco. Íngrid não havia se separado de Aloísio numa boa?
Não havia assinado os papéis e vindo para São Paulo a fim de deixar o marido viver sua vida de solteiro sem constrangimentos?
Sim. Mas havia algo que Íngrid, mesmo passados quatro anos, não conseguia superar.
Por mais que ela tentasse lutar contra esse sentimento, no fundo do peito uma certeza permanecia:
ela ainda amava Aloísio.
Essa era a mais pura verdade.
Íngrid era mulher recatada, fina, elegante, e julgava estar bem casada.
Pouco antes da separação, ela e Aloísio haviam celebrado bodas de prata.
Tudo parecia bem.
Foi quando ele apareceu numa noite e disse, sem mais nem menos:
- Vou fazer as malas.
- Vai viajar?
- Não, vou embora.
- Como assim?
- Acabou, Íngrid.
Nosso casamento acabou.
Estou apaixonado por outra mulher.
O mundo dela ruiu por completo.
Íngrid precisou de toda a sua ascendência nórdica, de toda a firmeza do mundo para não se despedaçar na frente do marido.
Viviam um casamento admirado por todos, haviam comemorado as bodas numa festa que sacudira a cidade e entrou na lista das festas inesquecíveis do Rio de Janeiro.
Eram conhecidos como casal perfeito, um modelo a ser seguido.
Íngrid era esposa amiga, companheira, cuidava do corpo, fazia exercícios, estava sempre bem vestida.
Era culta e inteligente.
Os amigos de Aloísio faziam-lhe galanteios.
Era paquerada na rua.
Íngrid, na época da separação, estava com pouco mais de quarenta anos de idade.
Casara-se cedo.
Ela nunca beijara outro homem na vida, e Aloísio tinha sido seu único namorado, seu primeiro homem.
Aprendera os prazeres do sexo com ele, aprendera a amá-lo e satisfazê-lo em tudo.
Cuidava da casa e dos filhos com esmero.
Os anos foram passando, ela entrou na menopausa.
Nessa fase da vida da mulher, a falta de estrogénio causa a secura vaginal e afecta o desejo sexual, pois transforma as relações em algo desagradável e doloroso.
Íngrid acreditou que a intimidade não era mais tão importante e deixou de relacionar-se com o marido.
Ela foi criando desculpas, e Aloísio, ignorando o que acontecia com a esposa, cansou das desculpas esfarrapadas e deixou de procurá-la.
Júlia deu a ele o que lhe faltava em casa.
E, numa noite qualquer, ele resolveu ir embora, num piscar de olhos.
Íngrid mordeu os lábios e leu novamente a carta.
Nela, Aloísio dizia-se profundamente arrependido.
A vida íntima dele com Júlia esfriara e ele agora sabia por quê.
Júlia fazia parte do passado, e ele e Íngrid necessitavam conversar.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 8:50 pm

Aloísio confessava não ter coragem de telefonar e gostaria de colocar tudo em pratos limpos.
Estava sinceramente arrependido.
Pedia por uma nova chance.
E agora? Ela ligava ou não?
Santo Deus, ela passara os últimos quatro anos tentando estancar a ferida que ardia em seu peito.
A mudança para São Paulo, na verdade, ocorreu porque Íngrid jamais suportaria ver Aloísio nos braços de outra.
Ele era o grande amor de sua vida, disso ela tinha certeza.
Mas o que fazer se ele não a queria mais?
Iria rastejar viver de migalhas de amor?
Não, isso não. Íngrid tinha lá seu valor.
E que valor.
Houve algumas paqueras, um flerte aqui, outro ali, mas nada sério.
Íngrid sabia que jamais iria se relacionar com outro homem na vida.
Seu coração pertencia a ALOÍSIO, era somente dele e de mais ninguém.
Sílvia aproximou-se por trás da poltrona e beijou a mãe na testa.
- Por que anda tão amuada ultimamente?
Íngrid fechou os olhos e suspirou.
Embora tivesse suas liberdades com a filha e ambas compartilhassem seus segredos mais íntimos, Íngrid não queria se abrir sobre o assunto.
Sílvia notou a carta presa à mão da mãe e, de longe, reconheceu a letra.
- Sei que você não gostaria mais de tocar no assunto - tornou ela amorosa.
Esta carta é de papai, não é?
Íngrid assentiu com a cabeça. Sílvia perguntou:
- E o que a preocupa?
- Esta carta mexeu comigo, obriga-me a olhar para trás.
Não queria mais confrontar o passado.
Está morto e enterrado.
- Você não vai ter como fugir.
- Enquanto lia a carta, lembrei-me de que, tempos atrás, você me disse que havia sonhado comigo e com seu pai.
Sílvia sorriu.
- Sim. E sonhei mais duas outras vezes.
Neles, vocês estavam juntos de novo.
Íngrid sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.
- Isso mostra que papai vai procurá-la.
- Não vou responder a carta.
Quem sabe, sem resposta, seu pai sossega e não me procura mais.
- Acho difícil.
- Por que diz isso?
- Papai não é de desistir. Vai vir atrás de você.
Íngrid amassou o papel e jogou-o a certa distância.
Levantou-se da poltrona totalmente indignada.
- Seu pai não pode fazer isso comigo.
- Por que não?
Íngrid andava de um lado para o outro da sala.
Estava visivelmente perturbada.
- Vivíamos felizes, estávamos apaixonados.
Eu sempre amei seu pai e não duvido nem um pouco que ele sempre me amou esses anos todos.
Todavia, seu pai fez sua escolha e...
Sílvia cortou-a com delicadeza:
- Ele fez uma escolha e errou. E daí?
- Como e daí? E eu?
Tive de penar bastante, tive de estancar meu amor.
Aceitei a decisão de seu pai, e nestes últimos anos tenho melhorado muito.
Não acho justo que ele volte de uma hora para outra, peça perdão e tudo volte ao normal. Isso não.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 8:51 pm

- Mas as coisas não precisam ser desse jeito.
Tudo pode ser diferente.
Papai pode ter mudado muito com essa experiência.
- Duvido.
- Papai percebeu que sempre a amou e o que sentiu por Júlia foi somente uma paixão.
Paixão é passageira.
- Não confunda minha cabeça, filha.
- Você não quer enxergar a realidade.
Fica presa às ilusões.
Se não ama mais o papai, tudo bem, diga-lhe que está tudo acabado e que você não sente mais nada, absolutamente nada por ele.
- Eu... eu não poderia fazer isso - balbuciou.
- Então consulte seu coração.
Se ainda o ama, por que se deixar levar pelas convenções sociais?
Por que se deixar levar pelo orgulho, arrastada num mar de preconceitos, com medo do que os outros irão dizer se no fundo ainda o ama?
Mamãe pense direito!
Talvez a vida lhe esteja dando a chance de viverem felizes, sem mais tropeços, sem mais paixonites.
Um amor maduro e tranquilo.
- Não.
- Dê-se mais uma chance.
Você tem a possibilidade de ser feliz.
Íngrid nada disse.
As palavras da filha calaram fundo em seu coração.
Ela não queria admitir, tentava a todo custo ocultar seus sentimentos.
Era difícil. Ela ainda amava Aloísio.
Aliás, nunca deixara de amá-lo.
E isso a irritava sobremaneira.
Aloísio pedira o divórcio, arrumara outra, e agora queria voltar.
Por mais que tentasse, Íngrid não conseguia deixar de amá-lo.
Ela abraçou-se à filha e deixou que as lágrimas dessem livre curso.
Íngrid estava cansada de lutar contra seu coração.
Ivana havia comprado muitas roupas.
A fim de controlar sua indocilidade e nervosismo, e na falta de atirar objectos contra a parede, ela gastava em compras.
Comprava de tudo, desde utensílios para a cozinha - que ela jamais utilizaria, porquanto nunca pisara na cozinha de sua casa até as roupas mais espalhafatosas e de preços astronómicos.
Seu ideal de bom gosto assemelhava-se ao da primeira-dama de País na época.
Portanto, dá para se ter uma noção do gosto duvidoso.
Ivana se vestia de maneira bastante extravagante.
Não era à toa que ganhara a alcunha de perua.
Ivana vivera uma vida pobre em todos os sentidos.
A mãe morrera quando ela tinha acabado de completar seis anos de idade.
O pai disse que a mãe fora viajar para Campos do Jordão e nunca mais voltou.
Everaldo, um pai jovem e viúvo, teve de cuidar dela e de Leonilda.
Ele não era muito chegado ao trabalho, todavia, quando Ivana completou dezasseis anos, um tio distante deixou de herança para Everaldo uma farmácia localizada num ponto nobre do centro da capital paulista.
Tudo começou a mudar.
Percebendo que o pai não tinha tino para os negócios, a esperta Ivana procurou pelo Dr. Homero, naquela época, comerciante próspero e respeitado na cidade.
Ele sempre dava uma passadinha na farmácia e enchia Everaldo de propostas.
Homero tinha muito interesse em ficar com aquela farmácia.
Comprando aquele ponto, ele poderia levar adiante seu plano de expansão de sua rede de farmácias.
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Ave sem Ninho

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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 8:51 pm

Ele já possuía três.
Se conseguisse a da família de Ivana, seu plano tinha tudo para deslanchar.
Everaldo, mesmo não sabendo lidar com o negócio, não queria se desfazer da farmácia.
Apesar de se mostrar desastrado nas finanças, obtinha lucro com o estabelecimento, e assim ele conseguia ter uma vida razoável.
Isso bastava para ele.
Ivana queria mais:
queria ser rica, muito rica, e sabia que, se as coisas caminhassem daquele jeito, o pai em poucos anos destruiria a única fonte de renda que tinham.
Ivana procurou Homero e bolaram um plano.
Ela tentaria engravidar de Virgílio e dariam grande soma em dinheiro para Nair, suficiente para ela desaparecer de suas vidas.
Dono de farmácia, Homero conhecia alguns medicamentos que eram capazes de causar sonolência, tirar a pessoa do ar por algumas horas.
Diante disso, Ivana procurou Virgílio e, sem que ele percebesse, ela colocou algumas gotas de um líquido na bebida do rapaz.
Virgílio ficou meio grogue, passou a alucinar e, ainda apaixonado, viu em Ivana a imagem de Nair.
Fizeram amor e Ivana engravidou.
Everaldo foi obrigado a vender a farmácia, em troca de ter salvado e imaculada a honra de sua filha.
Ivana casou-se com Virgílio e Everaldo mudou-se com Leonilda para uma cidade do Espírito Santo, porque lá a vida era mais barata e dava para ele viver bem.
O resto é história.
Ivana casou-se e tornou-se rica e admirada.
Os anos passaram e Ivana continuou cada vez mais rica e cada vez mais bela, mesmo vestindo-se de maneira extravagante, com roupas floridas, listradas, abusando das cores berrantes.
E, por que não dizer, tornou-se uma mulher cada vez mais insuportável.
Ao lado de sua amiga Otília Amorim, Ivana estava particularmente de bom humor.
- Faz tempo que não a vejo assim, Ivana.
- Assim como?
- Feliz sorridente.
Confesso que me assusto quando você está feliz.
- Por quê?
- Parece estar tramando algo.
Ivana deu uma gargalhada.
- Imagine! Estou óptima.
Afinal de contas, no fim do mês eu e Virgílio vamos nos separar.
- Já?
Ivana encarou a amiga com os olhos injectados de fúria.
- Quer acabar com minha felicidade?
- Não, eu...
- Vinte e cinco anos e você me diz "já"? Está louca?
- Tem razão.
- Aturei mais do que devia.
Agora estamos quites.
- Virgílio vai se unir àquela antiga namorada.
Acha que ele vai ser feliz ao lado dela?
Ivana deu de ombros.
- Não penso nisso.
- E por que teve aquele ataque violento de ciúmes?
- Não foi ataque de ciúmes.
- Mas você destruiu o carro e quase bateu nos dois!
- Eu sou esquentada, você me conhece bem.
Eu posso ter todos os defeitos do mundo, mas nunca traí o Virgílio.
Fazia parte do nosso pacto.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 8:51 pm

Quando o vi conversando com aquela fulana, me deu muita raiva.
Por que ele estava pulando a cerca?
Isso poderia colocar em risco nosso acordo.
Fiquei mais nervosa por temer ficar sem dinheiro do que por vê-lo com outra.
- Como assim?
- O pai de Virgílio fez com que assinássemos um belo acordo nupcial.
Se nesses vinte e cinco anos nós nos separássemos, ou mesmo se um de nós mantivesse vida dupla, toda a nossa fortuna iria para nossos filhos.
- Bruno e Nicole ficariam com tudo?
- É. O boboca do Bruno e a viciada da Nicole.
Eu não merecia passar por isso.
Provavelmente meu filho iria torrar sua parte em caridade e Nicole iria comprar uma montanha de cocaína para cheirar até morrer.
Otília mordeu os lábios.
- Não fale assim. São seus filhos.
Ivana fez ar de mofa.
- Filhos uma ova!
São duas sanguessugas, dois parasitas que me rodeiam.
Na separação, tenho certeza de que Virgílio vai transferir boa parte de seus bens para Bruno e Nicole.
Ele se preocupa demais com os filhos.
- É natural.
- Não é natural. É estranho.
Nós fizemos esse dinheirão todo.
A fortuna pertence a nós.
Não me sinto obrigada a dar aos meus filhos, e ainda de mão beijada, tudo que amealhei nos últimos anos.
Otília mudou de assunto.
Ivana estava falando num tom mais alto e logo iria gritar.
- Não sente ciúmes dele? - indagou, dando novo rumo à conversa.
- De Virgílio?
- É.
Ivana riu.
- Não. Casei-me por interesse, mais nada.
Nunca o amei.
- Você tem um jeito bem interessante de viver a vida.
- O jeito Ivana de ser.
Otília deu uma risadinha.
- Está de olho em alguém?
- Sim. Estou.
Otília deu um tapinha no braço de Ivana.
- Eu bem que suspeitava.
Quem é o seu alvo?
Ivana sorriu satisfeita e feliz.
- Sidnei.
- Seu ex-namoradinho de juventude?
- Sim, ele mesmo.
- Gosta dele tanto assim?
- Sinto carinho por ele.
Como eu lhe disse tempos atrás, foi meu namorado, era apaixonado por mim.
Mas Sidnei era um pé-rapado, não tinha onde cair morto.
Eu o troquei por Virgílio.
Nunca pensei que fosse ser dono de uma clínica e ficar rico.
- Tem tido contacto com ele ultimamente?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 8:51 pm

- Não. Mas soube que Noeli saiu com ele algumas vezes.
Parece que ele não é de se prender.
Mas eu vou usar de todo o meu charme, fazer lembrar-se do tempo em que namorávamos.
Otília foi espontânea.
Não quis de maneira alguma ferir os brios de Ivana.
- Noeli tem idade para ser nossa filha.
- E daí?
- Não percebe?
Sidnei só gosta de mocinhas.
Foi o suficiente para acabar com a felicidade de Ivana.
Seu cenho franziu tanto que a testa se enrugou por completo.
Ela irritou-se sobremaneira.
Mordeu os lábios com tanta força que logo sentiu o gosto amargo de sangue.
Algo nada palatável.
- Nunca mais diga uma coisa dessas.
- Desculpe Ivana, eu...
- Você é minha amiga ou não é?
- Sou sua amiga, sim. É que...
- Nem, mas nem meio, mas.
Se for para falar besteira, melhor manter a boca fechada, entendido?
Otília assentiu com a cabeça.
Tinha pavor de contrariar Ivana em público.
Ela mudou logo de assunto.
- Veja - apontou.
Aquela ali é Dolores.
- Que raio de Dolores?
- A cigana que faz leitura das mãos.
Ivana riu.
- O que vai fazer?
Pedir uma consulta aqui no meio do shopping?
- Não, vamos conversar.
- Você disse que ela é embusteira.
Otília concordou, mas insistiu:
- Não custa nada.
Você está interessada no Sidnei.
Quem sabe?
- Pode ser.
Otília chamou e Dolores virou-se.
Cumprimentaram-se e a apresentou-lhe Ivana.
- Tem medo do futuro? - perguntou a falsa cigana.
- Por que teria medo do futuro? - indagou Ivana, num tom irónico.
Sou rica e bonita.
Dolores aproximou-se e, sem cerimónia, pegou na mão dela.
- Deixe-me ver sua linha do destino.
Ivana levantou-se e girou os olhos sob as órbitas.
Aquilo era ridículo.
- Você vai viver muito.
- Sei.
Dolores espremeu os olhos e concentrou-se em outras linhas da mão de Ivana.
De repente, seus olhos se arregalaram e ela soltou a mão, num rompante.
Otília assustou-se.
- O que foi?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 8:51 pm

- Nada - respondeu Dolores, amedrontada.
- Como nada? O que você viu?
Dolores estugou o passo e afastou-se.
- Até mais.
Estou com pressa, tchau.
Otília preocupou-se:
- Dolores deve ter visto algo terrível.
Ivana deu uma gargalhada.
- Terrível nada.
Essa aí é uma tremenda farsante, isso sim.
Em seguida adentraram uma loja e esqueceram-se de Dolores.
Mas Dolores não se esqueceu da mão de Ivana.
Ela era embusteira, fazia muito serviço sujo, comprometera-se com espíritos do astral inferior e um dia teria de arcar com as consequências de seus actos.
No entanto, era dotada de mediunidade e, quando estava bem consigo mesma, sem pensar em dinheiro ou manipular as pessoas, de vez em quando previa o futuro.
O que vira nas linhas da mão de Ivana era de assombrar qualquer ser humano.
Dolores fez o sinal da cruz.
- Ainda bem que não estou em sua pele - disse para si.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 8:52 pm

CAPÍTULO 22

Inácio olhou-se no espelho e ajeitou a gravata.
Aquela reunião era-lhe muito importante.
Precisava ganhar o cliente.
Embora fosse o engenheiro responsável do sector e não tivesse ligação com a área de marketing, ele tinha de passar boa impressão ao grupo estrangeiro.
Se sua explanação dos produtos fosse bem-feita, talvez a Centax fosse incorporada ao grupo estrangeiro, o que faria com que Inácio ganhasse um punhado de acções, tornando-se sócio da empresa.
Seria sua ascensão profissional, sonho que tanto almejara.
Ele penteou os cabelos e aspergiu um pouco de perfume sobre a mão.
Delicadamente perfumou o pescoço e parte das orelhas.
Em seguida, sentou-se à mesa para passar última vista no relatório que iria apresentar.
Enquanto isso, Teresa adentrou o escritório.
Isabel abriu largo sorriso ao vê-la.
- Senhorita Teresa, como vai?
- Muito bem. E você, querida?
- Óptima. Procura pelo Dr. Inácio?
- Sim.
Isabel meneou a cabeça para os lados.
- Bom, ele tem uma reunião para daqui a pouco.
Verei se pode atendê-la.
Sente-se - Isabel apontou para um sofazinho - e fique à vontade.
- Obrigada, querida.
Teresa ajeitou-se no sofazinho próximo à recepção.
Numa mão segurava sua bolsa e na outra um embrulho, um pacote bem bonito.
Nele estava o frasco de perfume anexado a uma foto sua bem caprichada.
- A partir de hoje, esse homem vai gostar de mim.
Só de mim - disse para si.
Isabel ligou para a sala de Inácio.
- Sim?
- A senhorita Teresa Aguilar está aqui.
Inácio sentiu ligeiro mal-estar.
Teresa era sinónimo de confusão.
Ela quase destruíra seu namoro.
Ele fizera juramento para si mesmo e para Mariana:
nunca mais lhe dirigiria a palavra.
Ele foi ríspido:
- Não vou atendê-la.
- Mas, Dr. Inácio...
- Não quero falar com ela.
Se insistir, chame a segurança.
Eu não quero mais olhar na cara da Teresa.
- É... que...
Inácio irritou-se.
- Isabel, não insista.
- Sim, senhor.
A secretária desligou o telefone atónita.
Não podia ser indelicada com Teresa.
Ela era mulher tão bacana!
Havia lhe dado uma blusinha de presente.
Claro, que teve de correr à loja e trocar por dois números maiores.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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