O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 8:52 pm

Mas valera a intenção.
Teresa merecia sua consideração.
Inácio estava nervoso por conta da reunião com o grupo estrangeiro.
Era isso. Isabel ia dar um jeito de dispensá-la com classe, sem lhe passar a contrariedade do patrão.
- Senhorita Teresa, por favor.
Teresa levantou-se e foi até sua mesa.
- Sim?
- O Dr. Inácio está se preparando para uma reunião importante e...
Teresa sabia que corria esse risco.
Inácio e Mariana se acertaram e descobriram que ela havia aprontado com os dois.
Não precisava falar com ele, mas precisava fazer o perfume chegar até ele, mais nada.
Contaria com os préstimos de Isabel, que só faltava lamber-lhe os pés, tamanha a admiração que lhe nutria.
O que uma simples blusinha era capaz de fazer...
Por isso Teresa interrompeu o discurso:
- Inácio deve estar bastante ocupado.
Você pode fazer um favor para mim?
- Um favor?
- É.
- Claro. A senhorita é tão legal!
- Poderia lhe entregar esse embrulho?
- Pode deixar aqui, que eu entrego.
- Agora.
O tom na voz de Teresa soou implacável.
Isabel nem hesitou.
Levantou-se de pronto.
- Pode deixar.
Vou levar agora mesmo.
Ela pegou o embrulho.
Bateu na porta de Inácio e entrou.
Teresa ficou olhando para a mesa de Isabel e seus olhos pousaram sobre um talão de cheques.
Isabel fazia alguns pagamentos para a empresa.
Teresa vibrou de emoção.
Olhou para os lados e não viu ninguém por perto.
Abaixou-se e pegou o talão.
Ele estava praticamente cheio de folhas, quase sem uso ainda.
- Duas folhas de cheque não vão fazer falta.
Teresa pegou o talão e arrancou as duas últimas folhas.
Aproveitou e pegou uma carta que Inácio acabara de assinar.
Era útil ter a assinatura dele em mãos.
- Até a tonta descobrir que duas folhas foram arrancadas, eu já terei comprado minha passagem.
Preciso viajar por uns tempos.
Voltarei quando Inácio me ligar para vê-lo, cheio de amores.
Logo descansou o talão sobre a mesa, deixando-o do mesmo jeito que o encontrara.
Isabel entrou na sala de Inácio.
- Desculpe, mas a senhorita Teresa pediu-me para lhe entregar isto.
- O que é?
- Não sei.
Só pediu para lhe entregar.
- Pode deixar aí na mesa.
Isabel colocou o embrulho no canto da mesa.
- E o que digo a ela?
- Que suma, que desapareça.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 8:52 pm

- Dr. Inácio, a senhorita Teresa é tão bacana...
Não sei por que...
Inácio deu um murro na mesa.
- Basta!
Isabel assustou-se.
Ele nunca a tratara daquele jeito.
- Ponha essa mulher para correr do escritório, ou coloco você no olho da rua.
- Sim, senhor.
Inácio pegou o embrulho e nem o abriu.
Jogou directo na lata de lixo.
- Você não vai mais nos atrapalhar - disse ele, com firmeza e convicção.
Isabel saiu da sala e não sabia o que dizer para Teresa.
Nem precisava. Ela havia ido embora.
- Ué? Será que ela ouviu alguma coisa?
Isabel procurou e olhou nos corredores.
Nada. Ligou para a portaria e afirmaram que Teresa havia deixado o crachá no térreo.
- Caso ela volte a ligar, eu vou pedir desculpas.
A senhorita Teresa é muito especial.
Não merece ser tratada assim - disse para si, enquanto se sentava e voltava a preencher os cheques para fazer os pagamentos.
Virgílio andava de um lado para o outro da sala, impaciente.
- Se Nicole pegou esse dinheiro, está tudo acabado.
- Sossegue tio - volveu Cininha, tentando acalmá-lo.
O telefone tocou e Bruno correu para atender. Era Nicole.
- Onde você está?
Que susto você nos pregou!
- Quanta preocupação!
Estou bem.
Voltei da praia e estou na casa de uma amiga.
- Que amiga? - indagou Bruno, desconfiado.
- Estou na casa da Lurdes.
- Não conheço.
- É uma amiga dos Narcóticos Anónimos.
- Deixe-me falar com ela.
Nicole passou o telefone.
Uma mulher falou.
- Oi.
- Quem fala?
- Lurdes. Sou amiga de sua irmã.
- Onde você mora?
- Na Bela Cintra.
Bruno estava bastante desconfiado.
- Me passe o endereço. Preciso ver minha irmã.
- Olhe - tornou a mulher -, nós vamos sair para lanchar.
Depois eu deixo a Nicole em casa, tudo bem?
- Deixe-me falar com minha irmã.
- Está bem.
A mulher passou o telefone para Nicole.
- O que foi Bruno?
- Estou preocupado com você.
- Estou óptima.
Vou jantar com a Lurdes e antes da meia-noite estarei em casa.
- Precisamos conversar.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 8:52 pm

- Aconteceu alguma coisa?
Ele não sabia se perguntava ou não.
Por fim arriscou:
- Antes de viajar, você mexeu no cofre de casa?
- Eu?! Impossível!
Eu nem sei a combinação.
Por quê? Alguém mexeu no cofre?
Ele não quis perturbá-la.
- Não. Papai está à procura de alguns documentos e não os encontra.
- Quando chegar em casa eu os ajudo a procurar.
- Está bem. Cuida-se, irmã.
- Um beijo. Dê um beijo no papai.
- Tchau.
Despediram-se.
Virgílio estava ansioso:
- Aconteceu alguma coisa?
- Nicole está com uma amiga e disse que antes da meia-noite volta para casa.
Bruno tentou tranquilizar o pai:
- Ela não sabe nada do cofre.
- Ela está mentindo - afirmou Cininha.
Bruno olhou-a com estupor.
- Nicole pode ter passado por sérios problemas, mas é correcta.
Creio que você está sendo preconceituosa.
Só porque ela teve contacto com as drogas, vai carregar essa mancha pelo resto da vida?
Ela merece uma segunda chance.
- Nicole está mentindo.
- E por que mentiria? - perguntou Virgílio, nervoso.
- A minha mediunidade não me engana - disse a jovem com convicção.
Nicole está querendo ganhar tempo.
- Isso não faz o menor sentido.
- Faz, sim, tio.
Virgílio coçou a cabeça.
- Preciso dar um voto de confiança à minha filha.
Ela vai chegar até meia-noite. Você vai ver.
Cininha duvidou.
Em seu íntimo, tinha certeza de que Nicole nunca mais colocaria os pés naquela casa.
Nunca mais.
Nicole desligou o telefone do orelhão e sorriu, aliviada.
Artur beijou-a nos lábios.
- Não falei que era uma barbada.
- Nunca pensei ser tão fácil.
Eles acreditaram em mim - tornou Nicole, sorridente.
A mulher ao lado deles interveio:
- Fiz a minha parte.
Falei as besteiras que vocês mandaram dizer.
Agora me dê o dinheiro.
Artur tirou uma nota de cem dólares do bolso e entregou-a a mulher
- Quando quiserem passar novo trote, me chamem.
Por essa quantia eu até choro, se for preciso.
Eles se despediram dela, e, antes de atravessar a rua, Artur disse à mulher:
- Obrigado, Lurdes.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 8:53 pm

Ela irritou-se:
- Vão se catar!
Meu nome é Célia, oras.
Os jovens riram animados.
- Nunca pensei que fosse tão fácil conseguir documentos falsificados em tão pouco tempo.
Artur abraçou-a forte:
- Por cinco mil dólares, não é nada difícil achar quem se corrompa.
- Precisamos ir.
Nosso voo parte às dez da noite.
Fizeram sinal para um táxi.
Nicole beijou Artur nos lábios.
- Eu o adoro.
- Eu também a adoro.
Mas, a partir de agora, meu nome é Celso.
Não se esqueça.
Ela concordou com a cabeça.
- Está certo, Celso.
Entraram no táxi e Artur - agora Celso - ordenou:
- Vamos para o aeroporto.
- Congonhas? - perguntou o motorista.
Nicole deu uma risadinha safada.
- Não, vamos para o de Guarulhos.
Viagem internacional.
- Lua-de-mel - ajuntou Artur.
Letícia, depois de meses de treinamento, deu-se muito bem em seu novo emprego.
Aprendeu com rapidez a trabalhar com a máquina registadora.
Fazia serviço de caixa e atendia os clientes.
Sua simpatia era contagiante e, com isso, atraía mais clientes à loja.
Ao constatar que o público da farmácia era composto na maioria de pessoas idosas que moravam nas redondezas, ela teve a ideia de fazer o serviço de entrega de medicamentos em domicílio.
Rogério acatou a ideia com entusiasmo.
Contrataram um motoqueiro, e a clientela não só aprovou a novidade como também passou a recomendar o serviço a parentes e amigos.
O volume de negócios cresceu, e a farmácia despontou como a mais lucrativa da rede de Virgílio.
Por conta disso, Rogério ganhou participação e tornou-se sócio dessa farmácia em particular.
O salário aumentou e ele pôde realizar dois sonhos.
Um deles era o de comprar um apartamento para o pai.
Ismael poderia continuar seu trabalho de motorista, mas precisava ter sua casa, seu cantinho.
- Não creio ser necessário, filho.
- Chega de morar na casa dos outros.
- Dona Íngrid é excelente patroa.
O meu quarto tem banheiro e é bastante confortável.
Ela trocou a mobília faz pouco tempo.
- Não. Você precisa morar na sua própria casa - enfatizou Rogério.
- Por quê?
- E quando vierem os netos?
Eles vão querer ir à casa do avô.
Vou levá-los aonde? No quintal da Dona Íngrid?
Ismael emocionou-se.
Rogério fora filho fora do comum desde que nascera.
Honesto, trabalhador, estudioso.
Homem íntegro, filho prestimoso, coisa rara de se ver nos dias actuais.
Ele abraçou o filho com amor.
- Eu tenho muito orgulho de você.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 8:53 pm

- Eu também tenho orgulho de você, pai.
Devo o que sou ao senhor.
Você foi meu estímulo, meu guia.
Sempre me espelhei em você, na sua determinação, na sua integridade.
Eu agradeço todos os dias por tê-lo ao meu lado.
Ismael estava prestes a cair no pranto.
Controlou-se.
Era homem das antigas, não gostava de expressar seus sentimentos mais íntimos.
- Você disse netos?
- É.
- Ainda é muito jovem.
- Jovem apaixonado e feliz.
- Gosto muito da Letícia.
- Ela é a mulher da minha vida.
- Vai pedir a mão dela?
- Sim.
- Quando?
- Em breve.
Dei entrada num apartamento.
- Mesmo?
- Comprei no meu nome e no de Letícia, mas ela nem sabe disso.
Dona Nair é que me deu cópias de seus documentos.
Vou fazer lhe uma surpresa.
- Você a ama de verdade, não?
- Muito.
- E o apartamento, é bom?
- É espaçoso, confortável, três quartos, uma suíte.
Perto da farmácia.
E o apartamento que vou comprar para você é lá também.
Ficaremos todos próximos.
- Obrigado.
Abraçaram-se novamente.
Ismael sonhava ter netos.
Torcia para que Rogério e Letícia tivessem muitas crianças.
O outro sonho de Rogério era o casamento.
Estabilizado e com excelente rendimento, não via por que esperar para se casar.
Tinha certeza de seu amor por Letícia.
Estavam sempre juntos e não enjoavam da companhia um do outro.
Muito pelo contrário.
Ela sempre o ajudava a fechar as contas da farmácia.
Depois iam até o prédio de Rogério.
Ele tirava o carro da garagem e a levava para casa.
Toda noite. Sem excepção.
Naquela noite, porém, ele mudou o trajecto.
Depois que Letícia entrou no carro, eles deixaram a garagem do prédio e seguiram por alguns quarteirões.
Rogério parou o veículo em frente a um terreno.
Letícia não entendeu.
- O que foi? Acabou a gasolina?
- Não.
- Por que parou aqui?
- Vamos sair - ordenou ele.
Letícia atendeu e saiu do carro.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:03 pm

Na calçada, sem jeito, ela esperou.
- Pronto, saí do carro. E agora?
- Olhe - ele apontou.
- Para onde?
- Para frente.
Letícia riu.
- É um terreno. Grande, por sinal.
- Bem-vinda ao lar.
- Rogério, o que está dizendo?
Ela aproximou-se do namorado e cheirou seu hálito.
- Pensei que tivesse bebido.
- Você vai morar aqui.
- Eu?
O jovem tirou uma pasta que estava sob o braço.
- Veja.
Letícia pegou o envelope.
Abriu. Conforme lia, seus olhos começaram a marejar.
- Você está brincando comigo?
- Não - tornou ele, emocionado.
Acabei de comprar a nossa casa.
Vai ser aqui. Daqui a dois anos.
- Isso quer dizer...
- Quer dizer...
- Vai, fala!
- É uma maneira diferente de pedir sua mão em casamento.
- Oh! - Letícia deu um gritinho abafado.
- Agora você não tem escapatória.
O contrato está no nome de nós dois.
Você vai ter de se casar comigo.
Letícia abraçou-se a ele.
- Eu o amo tanto!
- Eu também a amo muito, Letícia - tornou ele, voz rouca de emoção.
Beijaram-se e em seguida foram a um restaurante para comemorar.
Tinham planos, muitos planos.
Rogério e Letícia estavam apaixonados e muito, muito felizes.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:03 pm

CAPÍTULO 23

Faltavam dez minutos para a meia-noite quando Ivana chegou em casa, atolada de sacolas de compras.
Jogou as sacolas no chão e chamou por um dos empregados.
- Sim, senhora?
- Leve estas sacolas para o meu quarto, agora.
O empregado assentiu.
Pegou as sacolas, fez incrível malabarismo e subiu.
Ivana foi até a sala de estar.
Estranhou ver Cininha, Bruno e Virgílio sentados.
E a expressão que carregavam no semblante não era animadora.
- Algum problema?
- Nicole - respondeu Virgílio.
Ivana bateu a mão na cintura.
- Essa é a preocupação?
- Mamãe - tornou Bruno -, Nicole ficou de chegar em casa até meia-noite.
Está quase no horário.
Temo que ela não venha.
- Por quê?
- Sumiu dinheiro do cofre - declarou Virgílio. Ivana não entendeu.
- O que foi que disse?
- O dinheiro que guardamos para emergências.
Nossos dólares sumiram.
- Como sumiram?
Cininha levantou-se e aproximou-se de Ivana.
- Acreditamos que Nicole tenha pegado o dinheiro.
Ivana deu um grito histérico.
- Meu dinheiro!
Aquela viciada pegou meu dinheiro!
Gritou e correu até o escritório.
Em seguida ouviram barulho de quebra-quebra.
Cininha assustou-se.
Virgílio acalmou-a:
- Não se assuste.
Sua tia está tendo um ataque de nervos.
- Está colocando o escritório abaixo - replicou Bruno.
- Ela é meio doida, não?
- Meio, não.
É doida por inteiro - disse Virgílio.
Logo passa, e Ivana vai reclamar de enxaqueca e vai dormir por uns dois dias.
Ela é assim.
- E não se preocupa com Nicole?
Bruno tocou em seu braço.
- Mamãe nunca se preocupou connosco.
- Mas Nicole pode estar correndo risco e...
Virgílio interrompeu-a:
- Eu sei, nós sabemos, e creio que Ivana também saiba.
Mas ela não liga.
Não quer saber de nada a não ser cuidar de si própria.
O badalo do relógio indicava ser meia-noite em ponto.
Virgílio desesperou-se.
- Vamos para a delegacia.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:03 pm

Bruno assentiu com a cabeça.
Ele telefonou para Michele e colocou-a a par da situação.
Cininha apanhou sua bolsa e em seguida os três partiram rumo à delegacia mais próxima.
Michele desligou o telefone, apreensiva.
Sentiu o peito oprimido.
Daniel preparava-se para deitar.
Ele tinha o hábito de passar no quarto da irmã para lhe desejar boa noite.
Entrou e notou sua aflição.
- O que é que está acontecendo?
- Bruno me ligou.
Nicole não aparece em casa faz mais de dois dias.
- Isso é mau.
- Também acho.
Ele e seu Virgílio foram à delegacia.
- Será que Nicole teve nova recaída?
- Sim, Daniel. Receio que sim.
Precisamos fazer uma corrente de orações.
Você se incomodaria de ligar para Sílvia e pedir para que viesse ao nosso encontro?
- Mas passa da meia-noite!
- Precisamos orar.
Sinto que Nicole vai cometer uma grande besteira.
Daniel pendeu a cabeça para cima e para baixo, concordando com a irmã.
Ligou para Sílvia, e Ismael se prontificou a levá-la.
Era tarde da noite, e Michele e Daniel moravam na periferia da cidade, próximos da farmácia popular.
Meia hora depois, Sílvia chegou a casa dos irmãos.
Ismael os conduziu até o salão que utilizavam para atendimento e reuniões espirituais.
Michele convidou-o:
- Gostaria de participar?
Ismael sentiu-se constrangido:
- Sou católico, e...
- Não tem problema - asseverou Sílvia.
Precisamos orar pedir aos amigos espirituais que dêem protecção a Nicole.
Você reza à sua maneira.
O que vale é a intenção.
- Está certo.
Os quatro adentraram o salão.
Sentaram-se em volta de uma mesa oval e oraram por Nicole.
Michele sentiu os pêlos de o corpo eriçarem.
- Aqui se encontra um amigo espiritual de Nicole.
Todos a olharam com interesse.
Ismael assustou-se.
Michele procurou acalmá-lo, usando voz pausada e amorosa.
- Nada de mau vai nos acontecer, Ismael.
Não vou "receber" nenhum espírito.
Ele sorriu sem graça.
- Você consegue captar alguma coisa? - indagou Daniel.
- Sim. Ele nos pede que fiquemos em oração.
Nicole está viva e ainda está bem.
Ele pede que oremos, porquanto os próximos meses serão bastante difíceis para Nicole e sua família.
Sílvia também sentiu o peito oprimir-se.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:04 pm

- Não vamos nos deixar levar pela emoção. - tornou Michele, voz firme.
Nicole é dona de seu nariz e sabe o que faz.
Não somos responsáveis por ela, tampouco podemos mudar o curso de seu destino.
Só podemos orar e pedir que lhe aconteça o melhor.
Michele solicitou que todos se dessem as mãos.
Ela rezou um pai-nosso e em seguida proferiu sentida prece em favor de Nicole.
Os dias que se seguiram foram de tremenda angústia para Virgílio e Bruno.
Eles prestaram queixa na delegacia.
Um investigador amigo de Virgílio descobriu na polícia federal que Nicole havia embarcado para Paris, acompanhada de um jovem cujo nome era Celso Oliveira.
- Não conheço nenhum Celso - replicou Virgílio.
- Não poderia ser um namorado?
- Não - assegurou Bruno -, ela namorava o Artur.
Não sei quem possa ser esse Celso.
- Passamos os nomes à polícia internacional.
Assim que tivermos novidades, eu os aviso.
Isso ocorrera dez dias atrás.
A polícia internacional não conseguira localizar Nicole.
E nem conseguiria.
Tão logo desembarcaram na capital francesa, Nicole e Artur foram para a casa de um conhecido dele.
Chegando lá, começou a transformação de ambos.
Nicole cortou os cabelos, pintou-os de loiro, pagou por nova documentação falsa.
Artur também mudou o visual e, munido de documentos igualmente falsos, na semana seguinte pegaram voo com destino a Amesterdão.
A cidade era famosa pelos simpáticos canais que a cruzavam e desembocavam no rio Amstel e também porque o sexo e a droga, na Holanda, eram legalizados.
Nicole e Artur podiam comprar droga, qualquer tipo de droga, sem problemas, sem recriminações.
Havia até uma praça na cidade onde os usuários de drogas podiam cheirar fumar, injectar-se nas veias, sem ser incomodados.
Com bastante dinheiro ainda na carteira, os jovens alugaram quarto num hotel modesto e consumiram todo tipo de droga.
Para Nicole e Artur, aquilo, sim, era o paraíso.
Ivana acordou e ainda sentia as pontadas na cabeça.
Não acreditava que a filha podia ter chegado ao ponto de roubá-la.
- Além de drogada, é ladra - disse para si.
Ela levantou-se, acendeu seu cigarro e desceu para o desjejum.
Encontrou Cininha na copa.
- O que faz aqui?
- O almoço vai ser servido logo mais.
- Almoço?
- Já passa da uma.
Ivana fez muxoxo.
Gritou para uma das empregadas.
- Quero café. Preto e forte.
- Sim, senhora.
- Agora! - bramiu Ivana.
A empregada correu até a cozinha, apavorada.
- Tomara que ela tenha um treco - disse a empregada a si mesma entre ranger de dentes.
Só porque sou empregada, ela tem de me tratar assim?
Grossa, estúpida!
Ivana sentou-se à mesa.
Apagou o cigarro e acendeu outro.
- Tia, como consegue fumar tanto assim, logo que acorda?
- Problema meu.
- Deve ser horrível fumar de estômago vazio.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:04 pm

- O estômago é meu.
Ivana não acordara de bom humor, para variar.
Cininha mudou o tom.
- Faz quase um mês, e nem sinal da Nicole.
- Falar dela é que me embrulha o estômago.
- Tio Virgílio está bastante preocupado.
- Dane-se ele e sua preocupação.
Nicole não bota mais os pés nesta casa.
- Por quê?
Não pode lhe dar uma segunda chance?
Ivana alterou-se.
- Segunda chance?
- Ela pode voltar e...
- Ela não vai voltar.
Eu torço para que nunca mais volte.
- Ela é sua filha.
- Ela é drogada, ladra e inútil.
Nicole pode ser tudo, menos boa filha.
Isso não se faz a uma mãe.
- Ela se desesperou, deve ter tido uma recaída.
- Cale a boca, Cininha.
Você nunca morou aqui, não sabe o que foi aguentar anos e anos de drogas, vergonha, internações.
Você não sabe da missa a metade.
Nicole sempre foi um estorvo em nossas vidas.
- Mesmo assim, é sua responsabilidade de mãe e...
Ivana cortou-a abruptamente:
- Ela é adulta, dona de si.
- Entretanto, ao invés de pensar em si, não poderia pensar um tiquinho só na sua filha?
Não sente remorso?
Ivana irritou-se sobremaneira.
Não gostava de Leonilda e, por tabela, não gostava da sobrinha.
Não tinha obrigação de ficar ouvindo desaforos dentro de sua própria casa.
A menina era petulante e desagradável.
Estava na hora de dar um basta.
Cininha percebeu a irritação estampada no rosto da tia e lembrou-se de que Bruno a alertara sobre a irritação da mãe.
Mas ela não teve tempo de se proteger.
Ivana saltou da mesa e jogou-se sobre seu corpo.
Numa fúria incontrolável, Ivana bateu na menina com toda a força que tinha.
Puxou-lhe os cabelos, arranhou-lhe as faces, deu-lhe tapas e murros.
Cininha mal conseguiu se defender fora pega de surpresa.
Os empregados ouviram os gritos e, apavorados, ligaram para Virgílio.
Enquanto isso, duas empregadas fortes e robustas conseguiram afastar Ivana, que naquela altura estava sentada sobre o peito de Cininha, enchendo-lhe a cara de sopapos.
- Não aguento mais você! - vociferava.
Não aguento!
Cininha não conseguia articular som, estava cheia de dor e tomada de pavor.
Ivana ajeitou os cabelos e acendeu novo cigarro.
- Eu não a quero mais aqui! Não quero!
Ela falou e subiu para seu quarto, como se nada tivesse acontecido.
As empregadas levaram Cininha até a sala e deitaram-na no sofá.
- Ela está muito machucada - disse uma.
- O Dr. Virgílio ligou e disse que pediu ao Dr. Sidnei que viesse imediatamente para cá.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:04 pm

- Santo Deus! - exclamou outra.
Que ele chegue a tempo de salvá-la.
O almoço de domingo na casa de Íngrid era imperdível.
Além dos filhos, vinham os namorados e amigos.
Íngrid gostava dos jovens, sentia-se bem entre eles.
Conversavam sobre todos os assuntos.
Íngrid não sentia que diferença de idade fosse empecilho, muito ao contrário.
Os jovens adoravam escutar suas histórias, ouvir falar de sua juventude.
O único assunto que ela não conversava era seu casamento.
Isso era assunto proibido na roda.
Daniel e Sílvia, e também Inácio e Mariana, sempre almoçavam juntos no domingo.
Letícia almoçava com Nair e depois saía com Rogério e Ismael.
Às vezes, no fim da tarde, os casais se reuniam e ficavam no salão de jogos, conversando, cantando, jogando cartas, tocando violão.
O almoço estava repleto de assuntos os mais variados.
- Descobriram o paradeiro de Nicole? - indagou Íngrid, interessada.
Daniel respondeu:
- Bruno me disse ontem que não há nenhuma pista. Nada.
- Será que ela... - Íngrid não quis concluir.
- Está morta? - perguntou Daniel.
Íngrid bateu três vezes sobre a mesa.
- Nem me fale uma coisa dessas.
- Michele garante que Nicole está viva.
Temos nos reunido toda semana e fazemos oração.
Emitimos vibrações positivas para ela.
- E o namorado? - indagou Sílvia.
- Isso é estranho - respondeu Daniel.
De acordo com o Bruno, a Nicole namorava tal de Artur.
E o cara desapareceu, sumiu do mundo.
- Engraçado - interveio Mariana -, esse nome me parece familiar.
- Conhece algum Artur?
- Pode ser coincidência.
Mas eu tinha um vizinho, mais ou menos da nossa idade, que se chamava Artur.
- Chamava? - perguntou Sílvia.
- Sim, porque esse Artur mudou-se faz anos.
Ele era um perigo. Um terror.
Cometia pequenos furtos, andava com uma turma de maconheiros lá do bairro e depois sumiu.
Faz anos que não o vejo.
- Artur é um nome comum - tornou Íngrid.
Não deve ser a mesma pessoa.
- É talvez não seja.
- O que deu em seu namorado hoje, Mariana? - perguntou Íngrid, preocupada.
Inácio anda amuado, cabisbaixo...
Mariana havia notado o estado de prostração de Inácio.
Ele estava sentado ao lado dela, mas não participara da conversa.
Parecia alheio, distante.
Mariana beliscou-o levemente.
- Ei, tem alguém aí?
- Hã?
- Está distante.
Aconteceu alguma coisa?
Inácio ajeitou-se no sofá.
Balançou a cabeça para os lados.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:04 pm

- São problemas lá na Centax.
- Algo desagradável? - perguntou Íngrid.
- Bastante, mãe.
- Pode nos dizer?
Ele exalou suspiro de contrariedade, mas precisava falar.
- Semana passada fui informado pelo nosso gerente financeiro de que uma quantia considerável de dinheiro foi sacada de uma das contas da Centax.
- Roubo? - perguntou Daniel.
- Aparentemente, sim.
Percebemos tarde demais.
E toda a culpa recaiu sobre minha secretária.
- Isabel? - perguntou Mariana, aturdida.
- Sim. Tive de demiti-la por justa causa.
Ela era responsável pelos pagamentos do meu sector.
E os saques em dinheiro no banco foram feitos com folhas do talão que Isabel usava.
- Isabel? Não posso acreditar!
- Eu também não acreditei.
Sempre confiei nela.
- Ela assumiu o desfalque?
- Não. Jurou que não sacou.
- E há como provar?
- O gerente do banco, antes de ser demitido, apontou Isabel como à responsável pelo saque.
Diante das evidências...
- Que situação delicada!
- A quantia não é tão grande assim.
O caixa pagou porque o gerente deu visto.
Sabe como é, cheque ao portador, qualquer um pode sacar.
Se não tivéssemos um bom controle financeiro, jamais descobriríamos.
- Isabel me parecia ser tão correcta...
- A mim, também - disse Inácio, levantando-se.
Não quero mais falar de assuntos desagradáveis e de trabalho.
Ainda é domingo.
Vamos mudar de assunto?
Mariana disse animada:
- Estou tão feliz com o noivado de Letícia e Rogério!
- Eles formam lindo casal - declarou Íngrid.
- Serão muito felizes - anuiu Sílvia.
- E nós bem que poderíamos ficar noivos também.
Ainda estamos no namoro - protestou Daniel.
- Tenho pensado em casamento - comentou Inácio.
Mariana e eu queremos muito nos casar.
Daniel interveio:
- Sua irmã está me levando na conversa.
Não quer assumir compromisso sério comigo.
Sílvia deu-lhe um tapinha nos braços:
- Mentiroso!
Você não quer casar porque acha que não pode me oferecer o mesmo padrão de vida que tenho.
- E não posso mesmo, ainda - considerou Daniel.
- Isso não importa meu filho - ajuntou Íngrid.
Vocês são jovens e se amam.
Você tem seu emprego e...
- Mas ganho pouco.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:05 pm

- Por enquanto. Logo vai ganhar mais.
Podem começar uma vida mais comedida, mais simples.
Sílvia não é dada a luxos.
Você pode oferecer-lhe uma boa vida.
- Preciso comprar nosso apartamento.
Depois, poderemos falar em casamento.
Sílvia fez beicinho.
- Vai demorar.
Eu não quero namorar por tantos anos.
Íngrid levantou-se, saiu do salão e entrou em casa...
Alguns minutos, depois voltou com um envelope nas mãos.
Entregou-o a Daniel.
- O que é isso, Dona Íngrid?
- Seu passaporte para o casamento.
- Como?
Ela abaixou-se e pegou na mão dele.
- Daniel, você é homem muito bom.
Ama sinceramente minha filha.
E sei disso porque eu sei o que é amar. - Íngrid pigarreou, estava emocionada.
Sílvia veio a São Paulo completamente desiludida, triste e infeliz.
Acreditava que nunca mais encontraria o amor.
E quando você apareceu em sua vida tudo mudou.
Sílvia voltou a ser como era antes: alegre, extrovertida, sempre sorridente.
Arrumou trabalho, sua vida só melhorou desde que o conheceu.
Eu lhe sou muito grata e, se eu puder contribuir para que continuem juntos e felizes, gostaria de dar-lhes este presente.
Daniel estava com os olhos marejados.
Amava Sílvia com toda a intensidade do mundo.
Pensava em casar-se, todavia queria comprar um imóvel.
Não gostava de pagar aluguer; achava que estaria jogando dinheiro fora.
Se quiser constituir família, precisava ter um lar, uma casa que fosse sua e de Sílvia.
O rapaz abriu o envelope e mal conseguiu articular som.
Abraçou-se a Íngrid e chorou, chorou muito.
Íngrid comprara um apartamento perto da clínica onde realizavam serviço social, de dois quartos, nada sofisticado, porém gracioso e suficiente para que sua filha e seu futuro genro pudessem começar seu ninho de amor.
Entre lágrimas, ele balbuciou:
- Meus pais morreram muito cedo, e eu e Michele batalhamos muito, lutamos sozinhos, tomamos conta um do outro.
A vida que levamos nunca foi fácil.
Vocês sabem - Daniel pigarreou - que, embora nosso país seja permeado pelo cruzamento de raças, sempre houve preconceito contra pessoas de pele negra.
A escravidão acabou há anos, mas muitas pessoas na sociedade têm preconceito.
Eu e minha irmã sofremos muito.
Imaginem:
ser preto e pobre no Brasil é passaporte para uma vida limitada e infeliz, sem perspectivas.
Eu e minha irmã nunca acreditamos nisso.
Foi muito difícil, mas estamos aqui, bem encaminhados na vida.
Seguimos à risca os desejos de meus pais: que pudéssemos ter uma profissão, acreditar no nosso potencial, vencer o preconceito, constituir família.
- Por isso me orgulho de você - disse Íngrid.
Minha filha não poderia ter escolhido melhor partido.
- Obrigado, Dona Íngrid. Muito obrigado.
Enquanto Daniel e Sílvia eram parabenizados, por Íngrid, Inácio e Mariana, dois espíritos envoltos muna luz cristalina sorriram felizes.
- Não falei meu velho?
Nossos filhos sempre nos deram muito orgulho.
- E nos darão mais orgulho, quando vierem nossos netos.
Eles beijaram a fronte de Daniel e desapareceram no ar. Daniel, naquele momento, lembrou-se de seus pais, e mentalmente mandou-lhes um beijo de saudade, misturado a agradecimento.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:05 pm

CAPÍTULO 24

Virgílio andava de um lado para o outro da sala.
O tempo passava, e nenhuma notícia de Nicole.
Nada. Os papéis da separação haviam sido assinados e ele e Ivana estavam livres e desimpedidos.
Ele sonhara com esse momento por vinte e cinco anos, mas não sentia vontade de comemorar.
Estava triste. O sumiço da filha preocupava-o sobremaneira.
E se ela tivesse sido raptada?
E se ela tivesse sido morta?
Onde ela estava?
Eram tantas perguntas martelando sua cabeça, que nas últimas semanas Virgílio dormia à base de tranquilizantes.
O telefone tocou e ele correu a atender na esperança de ser sua filha ou de receber notícias dela.
- Alô!
- Oi, Virgílio.
- Nair, é você?
- Sim.
Ele ameaçou chorar:
- Estou desesperado.
- Eu sei. Letícia convidou Bruno e Michele, e eles vieram lanchar outro dia aqui em casa.
Conversei bastante com Bruno, e ele estava desolado.
Falou-me que você está muito mal.
- Estou. E você ligou para mim?
Aqui em casa? Isso me conforta.
- Bruno me informou que Ivana, depois da separação, saiu de casa.
- É verdade.
Ela assinou os papéis num dia e, assim que os advogados depositaram gorda quantia de dinheiro em sua conta-corrente, ela se mudou.
Foi morar num flat.
- Por isso arrisquei ligar.
Você deve estar muito só.
- Estou. Não tenho notícias de Nicole, e isso me consome a cada dia que passa.
É horrível. Não sei o que fazer.
- Que tal sair um pouco?
- Não. O telefone pode tocar.
- Você não pode ficar preso em casa.
- Enquanto eu não receber notícias de minha filha, não arredo pé.
Nair foi firme:
- Deixe de ser infantil, homem!
- É que...
Ela o interrompeu de supetão:
- E sua sobrinha?
Tem notícias dela?
- Cininha ainda está internada na clínica do Sidnei.
Deve receber alta por esses dias.
Fracturou uma costela, levou alguns pontos no supercílio.
Mas se recupera e passa bem.
- Deveria visitá-la.
- Eu ligo para lá todos os dias.
- Vamos sair.
Você precisa respirar ar puro.
E sua sobrinha só tem a você.
- Mas...
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:05 pm

- Sem, mas.
Vou tomar um táxi e irei até sua casa.
Daí seguiremos até a clínica.
Quero conhecer Cininha.
Sua filha está nas mãos de Deus, mas sua sobrinha está sozinha no mundo e precisa de você.
Virgílio concordou meio a contragosto.
- Está certo. Eu a espero.
A surra que Ivana dera em Cininha machucou-a bastante.
A jovem fracturou uma costela, teve escoriações pelo corpo todo, levou pontos nos lábios e no supercílio.
No dia do incidente, Sidnei foi rápido e chegou a tempo de socorrê-la.
A menina perdeu a consciência e ele a levou para sua clínica.
Fazia pouco mais de um mês que Cininha estava internada.
Recebia visitas de Bruno e Michele, assim como de Letícia, Rogério, Inácio, Daniel e Sílvia.
Toda a trupe ia ao hospital, em dias alternados, fazer-lhe um pouco de companhia.
Primeiro Bruno e Michele.
Depois, sabendo do ocorrido, os amigos apiedaram-se dela.
Afinal, Cininha mal chegara a São Paulo, e nem tivera tempo de travar amizades.
E ainda apanhara feio da própria tia.
Um absurdo. Letícia e Sílvia iam com frequência visitá-la.
Michele ia todos os dias.
E Mariana cuidava dela com zelo.
Afinal, a moça, após concluir o curso de enfermagem, fora efectivada e fazia parte do corpo de funcionários da clínica.
Mariana tornou-se uma das mais competentes e requisitadas enfermeiras da clínica de Sidnei.
Os pacientes a adoravam.
Mariana afeiçoou-se a Cininha.
Foi simpatia gratuita e imediata entre ambas.
Travaram amizade, e logo Letícia, Sílvia e Michele formaram grupo unido, ao qual os namorados deram a alcunha de Clube da Luluzinha.
Entretanto, havia alguém que se afeiçoara a Cininha de maneira diferente, digamos assim.
Sidnei a princípio condoeu-se com a brutalidade com que ela fora ferida.
Pediu que Cininha desse queixa na delegacia, mas ela não queria saber de confusões com Ivana.
- Melhor deixar para lá - rebateu ela.
Sidnei impressionou-se com a candura da moça, com sua alegria, seu humor contagiante.
Conforme Cininha se recuperava, mais voltava ao seu estado de espírito espevitado.
Isso mexeu com Sidnei e, pouco antes de ela receber alta, ele estava completamente apaixonado por ela.
Era algo novo, inusitado.
Sidnei era homem de mais de cinquenta anos.
Começava a acreditar que não iria se envolver a sério com mulher alguma.
Saía e se divertia.
As mais velhas não lhe atraíam, e, as mais novas, ou eram fúteis, ou queriam se aproximar por conta de seu dinheiro.
Cininha era diferente.
Articulada, conversava sobre qualquer assunto, era animada, inteligente.
E, para finalizar, era muito bonita.
Tinha um corpinho que mexia com os homens.
Foi assim que Sidnei se descobriu apaixonado.
Quando um funcionário da clínica fez comentário acerca dos atributos físicos de Cininha, Sidnei teve ciúmes, quase demitiu o rapaz e ficou bastante irritado.
Consultou seu coração e descobriu estar apaixonado.
Vislumbrou a chance de ser feliz.
Nair chegou a casa de Virgílio e de lá o motorista seguiu para a clínica de Sidnei.
Chegando ao local, o amigo os recepcionou.
- Como ela está?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:06 pm

- Muito bem. Recuperação fantástica.
Ela é jovem, forte, saudável.
E é tratada como uma princesa.
Todos na clínica estão de amores por ela.
Virgílio notou os olhos brilhantes do amigo.
Sorriu pela primeira vez em muitos dias.
- Você está diferente.
- Eu? - indagou Sidnei, surpreso.
Diferente como?
- Você sabe do que estou falando.
Sidnei deu uma risadinha.
Virgílio apresentou:
- Esta é Nair.
Sidnei arqueou o sobrolho.
- Você é a Nair!
Fazia tempos que eu estava querendo conhecê-la.
Virgílio me fala muito de você.
Mas, espere um pouco...
Ele a olhou de cima a baixo.
– Você não tem idade para ser mãe de Mariana.
É muito jovem.
- Obrigada.
Virgílio interveio:
- Sem galanteios.
Ela não pertence à sua faixa de caça.
Sidnei riu alto.
- Pode ficar sossegado, só estava tecendo um elogio.
Nair mudara muito sua aparência e jeito de ser nos últimos tempos.
Mais forte e mais dona de si, reconquistara a dignidade com o trabalho.
As costuras aumentaram sobremodo, e ela não dava mais conta do serviço sozinha.
Teve de contratar uma garota da vizinhança para ajudá-la.
Nair estava fazendo bom dinheiro.
Com isso, passou a se cuidar mais.
Depois de cair em depressão, por conta da morte de Octávio, não voltara a ganhar peso.
O corpo estava em óptima forma.
Passara a cortar os cabelos à moda e tingi-los numa tonalidade castanho-clara, que tornava seus olhos mais vivos e expressivos.
A maquilhagem e roupas da moda e de bom caímento enalteciam sua beleza e elegância.
Ela merecia o elogio de Sidnei.
Nair estava muito bonita, e muito bem consigo mesma.
Sidnei conduziu-os até o quarto.
Ele as apresentou e Cininha e Nair se deram muito bem.
Conversaram bastante, trocaram figurinhas, e Nair descobriu que Cininha havia feito curso de corte e costura em Vitória.
- Você tem trabalho?
Cininha riu.
- Quando pensava em procurar trabalho, levei esta surra.
- Aceita proposta?
- Qual seria?
- Trabalhar comigo.
Eu tenho pequena oficina nos fundos da minha casa.
Tudo muito simples.
Mas dá um bom dinheiro.
- Oh, adoraria! - exclamou a jovem, animada.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:06 pm

- Você também poderia morar lá em casa.
- Isso não! - protestou Virgílio.
As duas olharam-no de esguelha.
Virgílio não sabia o que responder.
Talvez fosse melhor para Cininha.
Ele não tinha cabeça para nada, e talvez Nair tivesse razão.
E se Ivana voltasse a casa e encontrasse Cininha?
Definitivamente, essa ideia não era nada agradável.
E ele ainda não tinha condições de propor compromisso a Nair.
Pensou que iria assinar os papéis da separação num dia e viver com ela no dia seguinte.
Mas a ausência de notícias da filha deixava-o aturdido.
Cininha gostou da ideia.
- Se não for atrapalhar, adoraria.
Não tenho para onde ir.
- Você não tem parentes, ou mesmo residência em Vitória? - indagou Nair.
- Não. Os parentes por lado de papai sempre foram distantes.
- E você não tem casa?
- Não. Quer dizer, eu tinha, mas precisei vendê-la para custear o tratamento de minha mãe.
Nosso sobrado era pequeno, não valia muita coisa.
Mamãe sofreu muito no final de sua vida, e eu não quis que ela se tratasse em hospital público.
- Você se desfez da casa para tentar salvar sua mãe? - perguntou Nair, emocionada.
- Não. Eu e mamãe sabíamos que seu fim estava próximo.
Mas mamãe, quando adoeceu, exigiu dignidade.
E morreu com dignidade, num quarto de hospital particular.
Como desejava.
- Virgílio, essa menina vale ouro.
Eu a quero como filha.
Cininha riu.
- Obrigada, Dona Nair.
Sidnei entrou no quarto.
- Você receberá alta depois de amanhã.
Cininha encarou-o nos olhos.
- Que pena!
Ele respondeu do mesmo jeito, encarando-a com amor.
- Que pena!
Teresa estava feliz da vida.
Conseguira sacar uma boa quantia no banco.
Fez excelente falsificação no cheque e, depois de uma noitada boa e uma pequena quantia em dinheiro dada ao gerente do banco responsável pela conta da Centax, ela viu que não teria problemas em descontar os dois cheques.
Sacado o dinheiro no banco, ela comprou uma passagem só de ida para Miami.
O restante, equivalente a pouco mais de cinco mil dólares, seria o suficiente para recomeçar sua vida longe de todos seus desafectos e, principalmente, longe de Tonhão.
Teresa comprou um lindo vestido e nem fez as malas.
Pegou sua bolsa Louis Vuitton, os dólares, a passagem - de primeira classe, naturalmente -, o passaporte e os óculos escuros.
Rumou para o aeroporto.
Precisava sair logo do País.
Quando estivesse em Miami, eles descobririam o desfalque no banco.
Provavelmente o gerente seria demitido por ter avalizado e autorizado o saque, e Isabel levaria a culpa.
E pagou mesmo. Isabel e o gerente não se bicavam muito.
Na hora da acareação na delegacia, um trocou desaforo com o outro, não se chegou a um único culpado e ambos foram demitidos de seus respectivos empregos.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:06 pm

Teresa não se importava.
Queria era salvar sua pele, e os outros que se danassem.
Pensando na desgraça alheia, ela apresentou o passaporte e a passagem no guiché da companhia aérea.
Tudo acertado e, em poucas horas, Teresa estava confortavelmente instalada na primeira classe de voo, sem escala, para Miami.
Seriam oito horas de sonhos e regalias.
Era a primeira vez que viajava de primeira classe.
Teresa passou a mão pelo assento - bem maior que o da classe económica - sentiu o cheiro de riqueza no ar.
A aeromoça serviu-lhe champanhe em seguida.
Ela pegou a taça e, ao aproximá-la do rosto, a espuma fez-lhe cócegas no nariz.
Teresa sorriu.
Um cavalheiro ao seu lado ofereceu-lhe um lenço.
- Obrigada.
- Não há de quê.
- Adoro viajar a Miami de primeira classe.
Não é um luxo para poucos?
O cavalheiro sorriu.
- Para bem poucos.
Ele fez uma pausa e perguntou:
- Escute, você viaja sozinha?
- Sim.
- Alguém a espera em Miami?
- Não. Estou só.
- Não acredito!
- Por que o espantei?
- Você tem alguém?
Namorado, marido?
- Não. Sou solteira.
Ela piscou para o homem.
- Livre e desimpedida.
- Não pode ser verdade!
- Pode acreditar.
- Uma mulher linda, como você, não pode estar sozinha.
Fizeram-lhe feitiço, só pode ser.
Teresa bebericou seu champanhe.
Passou maliciosamente a língua pelos lábios.
- Os homens são tolos e fúteis.
Ela fez voz infantil:
- Tive uma decepção amorosa e por isso estou viajando.
Quero esquecer e espairecer.
- Oh, pobrezinha... Se eu puder confortá-la.
Ela estendeu a mão:
- Prazer. Teresa Aguilar.
- O prazer é todo meu.
Guilherme Moura.
- O que você faz?
- Trabalho com gado.
- Gado?
- É. Tenho fazendas espalhadas por Mato Grosso e crio gado.
Vou a Miami para assinar contratos de fornecimento de carne.
Teresa arregalou os olhos.
Guilherme era homem bonito.
Maduro, quarenta e cinco anos, os cabelos curtos e levemente prateados lhe conferiam aspecto interessante.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:06 pm

Tinha o rosto quadrado, másculo, bem viril.
Algumas perfurações nas faces indicavam que ele tivera acne ou muitas espinhas na adolescência.
Essas marcas aumentavam mais seu charme, conferiam-lhe ar meio cafajeste.
Era alto, forte, e tinha uma mão bem grande.
- Você é casado?
- Divorciado.
- Tem filhos?
- Sou estéril.
Meus filhos são os meus bois.
Teresa fez beicinho:
- Que bonitinho Gui.
O homem arregalou os olhos:
- Como disse?
- Ah, desculpe.
É que lhe chamei por um apelido, um gesto carinhoso.
Desculpe, sou extremamente romântica - mentiu.
Ele envaideceu-se.
- Pode me chamar do que quiser.
Nunca ninguém me chamou com tanto carinho e tanta doçura.
Pode me chamar de Gui.
Ela encostou-se nele, e foi essa melação a viagem toda.
Gui para cá, Gui para lá, beijinhos, abraços e amasso.
Só não chegaram a ter mais intimidade por respeito aos passageiros ao redor.
Quando chegaram a Miami, Guilherme convidou Teresa para hospedar-se em sua casa.
Era uma mansão em Fort Lauderdale, bairro nobre da cidade.
Teresa não acreditou.
Parecia estar vivendo um sonho.
E estava mesmo.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:06 pm

CAPÍTULO 25

Após longos e infindáveis seis meses, Nicole deu notícias.
Mandou uma carta ao pai e uma foto.
Dizia estar bem e que estava aproveitando bastante a vida na Europa.
Logo estaria de volta, porquanto os dólares estavam acabando.
A carta fora postada de Paris.
Virgílio telefonou para um amigo investigador ligado à Interpol - Organização Internacional de Polícia Criminal.
Com sede em Lyon, na França, a Interpol é uma organização internacional que coopera com polícias de diferentes países.
Entretanto, ela não se envolve na investigação de crimes que não envolvam países-membros ou crimes políticos, religiosos e raciais.
Trata-se de uma central de informações para que as polícias de todo o mundo possam trabalhar integradas no combate ao crime internacional, ao tráfico de drogas e aos contrabandos em geral.
O amigo ficou de investigar e dar-lhe notícias.
Tudo em vão.
Eles vasculharam e nenhuma pista do paradeiro de Nicole.
Era muito estranho.
E era mesmo, porquanto ela escrevera a carta em Amesterdão e mandara ser postada na França por uma conhecida sua.
Na verdade, Nicole estava quase sem dinheiro, e ela já devia a alguns dealers - nome dado aos fornecedores de drogas - e pretendia voltar para casa.
Faria novo tratamento de desintoxicação e fugiria de novo para a Europa, com mais dinheiro.
Era assim que ela traçava seu futuro.
Todavia, Nicole e Artur estavam tendo caso tórrido de amor com a heroína.
Artur estava completamente dependente da droga.
O corpo estava perfurado, todo arroxeado.
Os calafrios eram constantes.
Nem ele nem Nicole conseguiam ter controle sobre seus estômagos e intestinos.
As dores abdominais tornaram-se cada vez mais insuportáveis.
O quarto em que viviam se transformara num lugar fétido e pútrido, extremamente malcheiroso, por conta das diarreias e vómitos constantes.
Os efeitos colaterais neles eram cada vez mais gritantes.
Artur apresentava delírios constantes e suas válvulas cardíacas estavam inflamando cada vez mais.
Nicole começava a apresentar quadro de cegueira agudo.
Ambos estavam prestes a entrar em coma.
Everaldo entrou em desespero:
- Eles vão desencarnar Consuelo!
- Fizemos todo o possível, você bem sabe.
Mas eles não captaram nossas ideias, não quiseram nos ouvir.
Eles têm livre-arbítrio.
Nicole e Artur são responsáveis por tudo que lhes acontece.
Devemos orar bastante para que, após o desencarne, tenhamos permissão de resgatar seus espíritos.
- Preciso fazer com que ela melhore.
- Impossível.
O corpo físico de ambos está completamente debilitado, não há como salvá-los.
Nicole começa a ficar cega e Artur vai entrar em coma, não vai demorar muito.
- O que podemos fazer?
- Orar, meu amigo.
- Eu falhei, Consuelo.
Como guia, eu fui um fracasso.
Ela o abraçou carinhosamente.
- Você fez o melhor que pôde.
Acompanhou seus passos, sussurrou-lhes palavras de estímulo e força.
Nicole captou bem suas ideias quando estava em tratamento.
Foi às reuniões dos Narcóticos Anónimos porque você lhe sugeriu.
Ela escolheu outro caminho.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 9:27 pm

- Por que tanta dor?
- O sofrimento às vezes se faz necessário.
Ele nos faz crescer e nos tornar mais fortes.
Esta encarnação tem sido muito proveitosa para Nicole.
Nada está perdido.
Tudo é experiência e aprendizado.
Afinal, temos muitas vidas pela frente.
- Você tem razão - tornou ele, triste.
- Poderia dar um beijo nela?
- Mande-o daqui.
Nicole e Artur estão rodeados de espíritos que sugam suas energias para sentir o prazer da droga, como quando estavam encarnados.
- Mas são um bando de abutres.
Assim vão matá-los.
- Não - finalizou Consuelo, entristecida.
Eles já estão se matando.
Virgílio tentou esconder de si mesmo a verdade.
No fundo sentia que sua filha não estava bem.
Algo lhe dizia claramente isso.
Entretanto, apegou-se à foto e à cartinha.
Embarcou na ilusão a fim de continuar a viver, levar sua vida e ter esperança de que logo Nicole estivesse de volta.
Ele consultou o relógio.
"Nair me espera para o almoço", pensou.
Entrou no carro e foi para a casa dela.
Lá chegando, encontrou Salete quase à porta.
- O senhor vem muito aqui.
- Sou amigo da Nair.
- Sei bem que tipo de amigo... - a desdenhou.
A senhora não tem mais o que fazer?
- Perdão?
- Não tem casa para cuidar, marido para preparar almoço, filho para educar?
Salete ia responder, mas ficou sem acção.
Virgílio falou e entrou na casa de Nair sem lhe dar mais atenção.
Fora curto e grosso.
Ela ficou parada lá fora, encostada na mureta.
Ela não tinha ninguém.
Salete era uma mulher triste e solitária.
Ainda era-lhe duro aceitar a morte do marido.
Quer dizer, a morte ela aceitara, mas a maneira como ele morrera - AIDS - era demais para seu orgulho.
Salete morria de vergonha só de pensar.
Sorte sua que alguns vizinhos que souberam da doença do falecido haviam mudado faz tempo e os outros que ficaram não mais tocavam no assunto.
A cabeça de Salete era preconceituosa; a dos vizinhos, não.
E havia seu filho. Seu único filho.
Já fazia muito tempo que não lhe dava notícias.
Ela suspirou e foi se arrastando até sua casa.
- Ah, Artur!
A mamãe tem tanta saudade de você...
Espero que esteja bem e que volte logo para mim.
Virgílio entrou e sentiu o cheiro gostoso de comida fresquinha, feita na hora.
- Hum, que delícia! - murmurou ele.
Nair enxugou a mão no avental e deu-lhe um beijo.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 9:28 pm

- Está com a cara boa.
O que foi?
- Novidades.
Antes, porém, ele considerou:
- Muito intrometida essa sua vizinha da frente, não?
Nair riu.
- Qual delas?
- Não sei. Uma fortona, que está sempre na rua, observando o mundo todo.
- É a Salete - confirmou Nair.
Antes eu implicava com ela.
Achava um absurdo ela querer tomar conta da vida de todos nós aqui da redondeza.
Salete não passa de mulher carente, solitária, sem brilho, sem vida.
- Ela não tem família?
- Ela perdeu o marido há alguns anos e o filho trabalha no Pantanal, se não me engano.
Não voltou mais.
- Ela tem outros filhos?
- Não. Só tem o Artur.
- Artur?
- Sim. Você nem imagina - disparou Nair.
O menino deu trabalho para a pobre da Salete.
Cresceu rodeado de cuidados.
Salete não desgrudava do pé dele, ficava em cima, controlando seus passos, seus amigos, sua vida.
Quando o marido morreu, foi uma tortura.
O menino tornou-se adolescente rebelde, passou a praticar pequenos furtos na vizinhança e se envolveu com tóxico.
Virgílio fez sinal com as mãos.
- Nem me fale em tóxico.
Já basta minha cota de sofrimento com Nicole.
É, estranha coincidência, Nicole tinha um namorado chamado Artur, e ele era viciado também.
Você nunca mais o viu?
- Quem?
- Esse menino, Artur.
- Não - respondeu Nair.
Quando completou dezoito anos ele prestou concurso e foi trabalhar para um jornal, tirar umas fotos.
Foi o que Salete me disse.
- Então não é o mesmo que Nicole namorou.
O namorado de minha filha sempre morou aqui.
- Definitivamente não é o mesmo.
- Recebi carta de Nicole.
Nair exultou.
- Mesmo?
- Sim.
- E como ela está?
- Aparentemente está bem.
Mandou até uma foto.
Veja como ela está óptima.
Virgílio pôs a mão por dentro do paletó e tirou o envelope.
Entregou-o a Nair.
Ela viu a foto e considerou:
- Como ela está bonita!
Está bem, alegre.
Cininha, no quarto ao lado, terminou um bordado e fez pausa para o almoço.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 9:28 pm

Entrou na sala e cumprimentou o tio:
- Que bom vê-lo!
Estava com saudade!
Ele a abraçou e a beijou no rosto.
- Eu também estava com saudade. Como está?
- Cada vez melhor.
Cininha estava morando com Nair, e a experiência estava sendo bem agradável.
Cininha era falante, bem-humorada.
Em pouco tempo havia se curado da surra e abraçou o serviço de corte e costura.
Ia até a Rua 25 de Março, comprava aviamentos, fazia moldes.
Estava se realizando no trabalho.
O entusiasmo de Cininha contagiou a freguesia, e o negócio foi prosperando cada vez mais.
Nair interveio na conversa:
- Ela está cada vez melhor. Recebe visitas constantes do médico.
Virgílio brincou.
- Sidnei não larga do seu pé, hein, menina?
- Não larga mesmo. Estou feliz.
- Ele tem idade para ser seu pai.
Cininha pôs a mão na cintura.
- Que horror!
Sidnei tem idade para ser meu companheiro, isso sim.
- Não adianta - ponderou Nair.
Cininha está apaixonada pelo Sidnei.
Creio que nada possamos fazer para impedir que isso termine em casamento.
- Vocês estão se vendo com frequência?
- Sim.
Virgílio bateu a mão na cabeça:
- Fiquei tanto tempo preocupado com Nicole!
E nem vi que você estava sendo assediada por um marmanjão.
- Tio! - protestou Cininha.
Nair ajuntou:
- Virgílio está feliz porque recebeu notícias de Nicole.
- Recebeu?
- Sim - respondeu ele, satisfeito.
Uma carta e uma foto.
Antes de Cininha pedir, Virgílio pegou o envelope sobre a mesa e entregou-o à sobrinha.
Cininha leu a carta e em seguida viu a foto.
- Viu como ela está bem? - indagou Virgílio.
Você dizendo que ela não anda bem, que precisava de oração, etc.
E Nicole anda sorridente e feliz, passeando pela Europa.
Nair declarou:
- Com trinta mil dólares, até eu passaria uma temporada na Europa.
- Isso é passado.
Dinheiro eu recupero.
Se esse valor fez minha filha feliz e a afastou das drogas, ainda foi pouco.
- Mesmo assim, pegar uma quantia de dinheiro dessas e sumir?
- Quando Nicole voltar conversaremos.
Ela precisa de meu carinho e meu amor, e não de punição.
Cininha empalideceu.
Ao olhar aquela foto, teve certeza de que os sonhos que tinha eram encontros com Nicole.
Seu espírito se desprendia do corpo físico e ela ia ao encontro da prima, guiada por Everaldo e Consuelo.
Juntos, eles ministravam um passe, tentavam revigorar o sistema físico de Nicole, em irreversível estado de deterioração.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 9:28 pm

O dela e o de Artur.
Sabia que eles estavam muito mal.
Cininha ficou inspeccionando a foto, atenta a todos os detalhes.
Examinando a marca d'água impressa no verso da foto, ela notou algo esquisito.
Olhou, olhou.
- Tio.
- Sim?
- Reparou bem na foto?
- Sim. Veja como Nicole está bem.
- Nesta foto - enfatizou - ela está muito bem.
- Então não temos com que nos preocupar e você - encostou o dedos na cabeça de Cininha - pode deixar de dizer que anda preocupada com sua prima.
Está tudo bem.
Cininha meneou a cabeça para os lados, desolada.
- Desculpe tio, mas esta foto foi tirada há mais de um ano.
- Não. Você é que está enganada.
Esta foto estava anexada à carta que Nicole enviou para mim.
Foi colocada no correio semana passada.
Cininha apontou para trás da foto.
Era quase imperceptível, mas estava lá.
A data indicava que a foto fora tirada há mais de um ano.
Teresa viveu vida de rainha em Miami.
Por três meses morou no luxo, comprou vestidos de grifes famosas, perfumes, jóias.
Guilherme não media esforços para agradá-la.
Ela parecia viver no sétimo céu.
Se fosse sonho, não queria acordar, de jeito nenhum.
Guilherme tencionava oficializar a união e queria fazer discreta cerimónia em outro país.
Ela implicava:
- Não, Gui, vamos nos casar aqui em Miami.
Adoro a Florida.
Você pode convidar seus amigos, e faremos uma grande festa.
- Não. Quero algo só para você e para mim.
Só nós dois.
Quero que você seja a minha rainha.
Eu sou seu súbdito e quero agradá-la para todo o sempre.
Teresa adorava ouvir os galanteios do noivo.
- Ai, Gui, você não existe!
É o homem que eu pedi a Deus.
Confesso que nunca sonhei encontrar a felicidade neste mundo.
E você me mostra que é possível ser feliz.
Eu o amo.
Beijou-o longamente nos lábios.
- Eu tenho uma surpresa para você - disse ele.
- O que é?
- Adivinhe...
Teresa fez beicinho:
- Não faço ideia, Gui.
Guilherme tirou uma chave do bolso da calça e entregou-a a Teresa.
- Quando voltarmos de viagem, você terá seu próprio carro.
- Você comprou?
- Mustang conversível e vermelho, como você queria.
Está na garagem.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 9:28 pm

Ela mal podia acreditar.
Saiu dando pulinhos e gritinhos de felicidade pela casa até chegar à garagem.
Não pôde acreditar no que viu.
O carro estava envolto por um enorme plástico transparente enlaçado por gigantesca fita vermelha.
- Que este carro lhe traga muita sorte.
- Gui, você não existe.
Ela entregou-se a ele ali mesmo na garagem.
Amaram-se até seus corpos se cansarem.
Depois do acto, Guilherme acendeu um cigarro e, entre uma baforada e outra, tornou:
- Vamos para a Indonésia.
Quero fazer uma cerimónia completamente diferente.
- Ai, que lindo!
Sempre quis conhecer a Indonésia e suas ilhas.
Guilherme fechou os olhos e prosseguiu, extasiado:
- Já fiz o roteiro.
Primeiro desceremos na capital, Jacarta.
Depois seguiremos viagem pelas Ilhas Indonésias.
Iremos à Ilha de Sulawesi, Malang, Java e, para finalizar. Bali.
Teresa gemeu de prazer.
- Bali. Veremos um dos mais espectaculares pores-do-sol do mundo, restaurantes, boates...
Guilherme apertou-a contra o peito.
- Você vai adorar essa viagem, minha rainha, tenho certeza.
E - prosseguiu, cheio de planos - quando voltarmos vou comprar outra casa.
- Jura?
- E você poderá decorá-la como quiser, a seu gosto.
Ela o abraçou, emocionada.
Teresa se sentia a mulher mais feliz e mais esperta do mundo.
Tentara ludibriar Inácio e quase conseguira.
Mas Guilherme valia mil vezes mais que Inácio.
E tudo que ela fizera valeu à pena.
Cometera pequeno desfalque na conta da Centax, causara a demissão de Isabel e do gerente do banco, mas sua consciência de nada a acusava.
A frieza de Teresa era algo para ser estudado pelos mais renomados psiquiatras.
Era linda por fora, mas, por dentro, era dura e bruta como uma rocha.
Teresa nunca se importara com nada ou ninguém.
"Gente tonta existe no mundo para se aproveitar delas.
Isabel sempre fora idiota e insegura, e aquele gerente de banco era um sedutor de quinta categoria."
Teresa não sentia remorso pelo mal que causara.
Isabel custou a arrumar um emprego, porquanto a situação do País estava em polvorosa.
O presidente da República havia acabado de sofrer impeachment.
Isabel penou, penou e por fim conseguiu uma vaga de vendedora numa loja de roupas femininas num shopping.
Por incrível que pareça, sempre existia vaga naquela loja.
Não havia vendedora que aguentasse a estupidez e azedume da gerente.
Por coincidência, era a mesma loja em que Letícia arrumara seu primeiro emprego.
Isabel engolia seco as broncas da gerente, que continuava grossa e estúpida, cada vez mais insuportável.
O gerente do banco amargou muito.
Perdeu o cargo, o carro que o banco lhe bancava, os salários extras.
A esposa, não aguentando mais, separou-se, foi embora com os filhos, e ele, sem rumo e desesperado, atirou-se à bebida.
Teresa não sabia disso, nem queria saber.
O único incómodo, a única perturbação que assolava seu íntimo era cair nas garras de Tonhão.
Isso nunca poderia acontecer. Jamais.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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