O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 9:29 pm

Guilherme perguntou:
- Está pensativa. O que foi?
- Nada, Gui, nada.
- Não quer viajar para a Indonésia.
Se não quiser, não tem problema, vamos a outro lugar.
- Não! De forma alguma.
Você se desdobra por mim, faz todos os meus caprichos.
Eu tenho de ceder um pouco.
Se você quer se casar comigo em Jacarta ou Bali, não vou me opor.
Ele a beijou nos lábios.
- Pois bem, rainha, prepare-se.
Viajaremos no fim do mês.
- Fim do mês?
- É. Pode comprar novos vestidos.
Eu quero que você cause furor naquelas ilhas todas.
- Você não existe, Gui.
Ivana adorou a ideia de morar em um flat.
Era cómodo, ela tinha tudo à mão, serviços os mais diversos.
O quarto estava sempre arrumado, a comida era servida na hora que bem entendesse, tinha bebida, cigarro, tudo.
Não trocaria essa vida por nada deste mundo.
Ela terminou seu banho e decidiu: agora que estava vivendo sua vida de solteira, iria flertar abertamente com Sidnei, para valer.
- Sou mulher, estou viva.
E creio que Sidnei ainda gosta de mim.
Ivana produziu-se de maneira espalhafatosa, como de costume.
Muito ouro, muitas jóias e penduricalhos pelo corpo, vestido de cor berrante e, para completar, um perfume extremamente adocicado.
Ela desceu e pediu para apanhar seu carro.
O rapaz da recepção cutucou o outro por baixo da mesa:
- Olha lá a perua do oitavo andar.
- Essa dona é exagerada, não?
Os dois riram. Ivana mal os notou.
Apanhou seu carro, entrou, acelerou e ganhou a rua.
Precisava falar com Sidnei.
Rumou para sua clínica.
Ao chegar, pediu para ser atendida.
- Lamento, mas o Dr. Sidnei está em consulta.
- Diga que Ivana Gama está na recepção.
Sidnei veio em seguida.
Cumprimentou-a e deu uma tossidinha.
O perfume o estava sufocando.
- Como vai, Ivana?
- Muito bem.
- Algo grave?
- Não. Por quê?
- Fui tirado do meio de uma consulta.
A minha secretária insistiu e achei que fosse alguma notícia de Nicole.
Ivana fez cara de desdém.
Entretanto, precisava ocultar a contrariedade.
Precisava mostrar-se cordata.
- Não trago notícias de minha filha.
Ela baixou o tom de voz:
- Preciso falar com você, em particular.
- Está certo.
Aguarde um momento, eu já vou terminar.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 9:29 pm

Ivana sentou-se numa cadeira e pegou uma revista.
Acendeu um cigarro e foi alertada pela recepcionista:
- Aqui dentro não é permitido fumar, senhora.
Ivana teve vontade de apagar o cigarro no braço da menina.
Deu uma longa tragada e apagou o cigarro, rangendo os dentes de ódio.
Logo Sidnei chamou-a até sua sala.
Ele encostou a porta e foi até sua mesa.
Sentou-se. Ivana sentou-se à sua frente.
- Em que posso ajudá-la?
- Bom, eu...
- Não me vá dizer que precisa dos meus serviços!
Eu sou geriatra, e creio que ainda não é tempo de você se tratar.
A não ser que tenha me procurado para começarmos um tratamento de prevenção.
Ivana segurou-se na cadeira para não avançar sobre ele.
Ela estava toda arrumada, perfumada, produzida, e ele vinha falar em tratamento geriátrico?
Era o cúmulo. Ela não era velha!
Como ele ousava?
- Não vim para tratamento nenhum.
Vim por causa de nós.
- Nós?
- Sim, nós.
Sidnei não entendeu de pronto.
- Você quer falar algo sobre o acidente com sua sobrinha, meses atrás?
- Não, não vim aqui para falar disso.
Vim falar de mim e de você. De nós.
Sidnei sentiu o sangue gelar.
Ivana olhava-o de maneira lânguida, passava a língua pelos lábios, mantinha a boca entreaberta, como se estivesse louca de desejo.
- Ivana, nós nos conhecemos há muitos anos.
Sou amigo de Virgílio e...
Ela o interrompeu:
- E estamos separados.
Sou uma mulher livre.
E sei que você me deseja.
Ele a encarou de maneira apopléctica.
- De onde tirou essa conclusão?
- Você me amava.
Eu o deixei para me casar com Virgílio.
Mas fui uma tola.
Confesso estar arrependida.
Podemos recomeçar.
- Faz parte do passado.
Eu gostei de você, mas depois os anos foram passando, e isso ficou lá atrás.
Não tem mais nada a ver. Garanto.
- Tolinho!
Ela se levantou e avançou sobre a mesa, encostando seu rosto no dele.
Os rostos estavam tão próximos que Sidnei podia sentir uma mistura estranha de perfume com cigarro.
Ele afastou-se e saltou da cadeira.
- Ivana, por favor.
- O que foi?
Não vai dizer que não me quer?
- Não é isso, é que... bem...
- Então o que é gatão?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 9:29 pm

- Estou comprometido.
- Bobagem.
Eu só preciso de carinho, mais nada.
- Por favor.
Eu tenho namorada e vou me casar. Eu sou-lhe fiel.
Ivana estancou o passo.
- Mentiroso!
Você nunca foi dado a namoro.
- Mudei. Estou pensando em me casar.
Encontrei a mulher de minha vida.
- Não pode ser.
Eu fui sua um dia.
- Há muitos anos. Acabou.
- Você está me rejeitando?
- Por favor, não insista.
Ivana deu um grito tão alto que a clínica toda entrou em grande rebuliço.
Sidnei acuou-se num canto do consultório, enquanto Ivana quebrava tudo que via pela frente.
Saiu de lá esbracejando e ruminando.
A secretária de Sidnei pegou o telefone.
- Vou ligar para a polícia.
- Não será necessário - ponderou Sidnei.
- Ela é louca, doutor.
Não se pode deixar uma louca dessas à solta pelas ruas.
- Deixe-a ir embora em paz.
Caso apareça novamente, aí então você liga para a polícia.
A secretária pousou o fone no gancho e meneou a cabeça para os lados.
Sidnei voltou para sua sala, pensando:
"Essa mulher é uma doida varrida.
Precisa ser internada num sanatório."
Ivana saiu da clínica completamente fora de si.
Se alguém aparecesse em sua frente, ela era capaz de tirar a vida do pobre coitado.
Ela foi até seu carro, deu partida e saiu queimando os pneus.
Precisava de Otília, a qualquer custo.
Meia hora depois ela chegou à casa da amiga.
Largou o carro de qualquer jeito e foi entrando, passos rápidos e nervosos.
Uma das empregadas de Otília, que conhecia bem o génio de Ivana, balbuciou:
- Dona Otília está no quarto.
Ivana nem respondeu.
Com o cenho fechado, subiu e irrompeu no quarto da amiga.
- Que susto! - exclamou Otília.
Você está com aspecto horrível. O que aconteceu?
Ivana acendeu um cigarro.
Tragou nervosamente e deu suas baforadas.
- Estive na clínica do Sidnei e ele me rejeitou.
Otília inclinou o corpo na cama e puxou os lençóis até o pescoço.
- Eu fui lá, linda e cheirosa.
Eu me ofereci a ele, Otília, me ofereci, e o canalha me rejeitou.
- Como?
- Disse que vai se casar!
Pode uma mentira dessas?
Ivana acendeu outro cigarro.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 9:29 pm

Estava possessa.
Seu rosto estava vermelho, inchado.
Parecia que as veias estavam prestes a saltar do pescoço.
- Eu não pude acreditar, amiga.
Fui lá, e ele veio com uma desculpa esfarrapada, dizendo que está namorando, que vai se casar.
Ela gargalhou.
- Essa foi boa! Sidnei nunca foi chegado a matrimónio.
Otília colocou o penhoar e aproximou-se da amiga.
- Ivana, em que mundo você vive?
- O quê?
- É isso mesmo.
Em que mundo você vive?
Não acompanha o noticiário?
- Não sei o que quer dizer.
Ela levantou a mão para o alto.
- Eu não queria falar, porquanto achava ser assunto constrangedor, mas...
- Mas o quê?
Otília olhou ao redor.
Havia muitas peças caras e valiosas em seu quarto.
Ela tinha certeza de que Ivana iria se descontrolar e quebrar tudo.
Então, com delicadeza, puxou a amiga e foi conduzindo-a até a beirada do hall, na ponta da escada.
- Ivana - disse séria. - Por favor, preste atenção.
- O que é?
Otília respirou fundo.
Soltou o ar e disparou:
- Sidnei vai se casar com sua sobrinha.
Ivana não entendeu de pronto.
- O que disse? - a indagou, como se estivesse surda, dando largas tragadas no cigarro.
- Sidnei vai se casar com a Cininha.
Deu nos jornais. Até na televisão.
A última palavra que Ivana registou foi Cininha.
E mais nada.
A sua vista ficou turva, ela perdeu o equilíbrio e rolou escada abaixo.
Otília deu um grito desesperador e correu até a amiga.
- Ivana, pelo amor de Deus, acorde!
Otília gritou e chamou, mas não obteve nenhuma resposta.
Nem poderia.
Ivana fora acometida de um derrame cerebral.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 9:30 pm

CAPÍTULO 26

Teresa começou a arrumar as malas.
Guilherme puxou-a com delicadeza.
- Minha rainha, deixe isso de lado.
Temos empregados para fazer as malas.
- Eu quero escolher meus vestidos.
- Escolha-os, e os empregados lhe fazem a mala.
- E se esquecerem de alguma peça?
- Eu lhe compro quantas você quiser minha rainha.
Suas unhas estão tão lindas!
Não gostaria de vê-las quebrarem-se.
Teresa beijou-o longamente nos lábios.
- Eu o amo, Guilherme Moura, o meu Gui.
- Eu também a amo - declarou ele.
Agora vá se vestir.
Pegue sua mala de mão e vamos ao aeroporto.
As malas grandes seguirão em seguida.
Ela concordou com a cabeça.
Tomou banho, arrumou-se, escolheu um belo vestido Yves Saint-Laurent e apanhou sua bolsa de mão.
- Estou pronta.
Guilherme fez sinal a um dos empregados.
O rapaz aproximou-se e pegou as malas.
Colocaram tudo numa perua tipo van e partiram.
Dentro do avião, num voo de primeira classe, evidentemente, Teresa bebia sua champanhe e sorria feliz.
A cada dia que passava, o medo de Tonhão perdia força e ela foi se esquecendo da dívida, das falcatruas, do passado que a condenava.
É, mesmo sem um pingo de moral ou valor, completamente desonesta e impostora, Teresa estava se dando bem.
O voo decorreu tão agradável que ela nem percebeu que o avião estava aterrando.
Cutucou Guilherme, que dormia profundamente.
- Gui, o avião está pousando.
Ele remexeu-se na cadeira, sonolento.
- Mas já?
- Chegamos.
O avião fez o pouso.
Eles se livraram do cinto de segurança, pegaram as malas de mão e desceram do avião, abraçados e felizes.
Teresa contemplava o pôr-do-sol.
- Adorei a ideia de vir para cá.
Você é um homem encantador, Gui.
Guilherme colocou a mão no peito.
Seu rosto contraiu-se numa expressão de lancinante dor.
Teresa assustou-se:
- O que foi Gui?
- Nada - ele passou a mão pelo peito.
Dormi e esqueci de tomar meu remédio do coração.
Preciso ir ao banheiro.
- Vou com você.
- Não, rainha. Vá e pegue nossas malas.
Eu a encontro na saída, ao lado da Imigração.
Teresa assentiu:
- Está bem.
Guilherme dirigiu-se ao banheiro, arfante.
Teresa sorriu.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 9:30 pm

Pensou:
"Vou me casar e esse homem não vai durar muito.
Vou ficar rica, milionária, e ainda vou sair com os homens que quiser.
Vou escolher a dedo.
Deus está sendo muito bom comigo."
Ela olhou para o alto e murmurou:
- Nunca acreditei em Deus, mas agora estou até começando a acreditar.
Viver é muito bom.
Teresa disse isso e correu até a esteira para pegar as malas.
Demorou um pouco, pois havia muitos passageiros, mas ela estava feliz e não se importou com a demora.
Logo depois apareceram as malas.
Ela pegou-as e colocou as no carrinho.
Ficou esperando, mas Guilherme não aparecia.
Os minutos passaram, e nada.
Ela impacientou-se. Será que ele passara mal?
Teresa pensou em procurá-lo.
Empurrava o carrinho em direcção ao sanitário quando foi agarrada por duas mãos bem fortes.
Ela deu um grito de dor.
- Ei, o que é isso?
Um dos polícias alfandegários lhe respondeu em inglês.
Ela não entendeu.
Ele lhe apontou uma placa logo à sua frente.
Teresa entendeu algumas palavras.
Entretanto, ao olhar dois enormes cães farejadores sobre suas malas, ela gelou.
O outro policial, que dominava o espanhol e conhecia um pouco de português, foi categórico:
- Teresa Aguilar, você está presa. Narcotráfico.
Ela esperneou, gritou, mas não teve jeito.
Foi presa imediatamente.
Teresa implorou, falou de Guilherme, contou sua história, explicou que ele estava no banheiro e passara mal, tudo em vão.
Ele havia sumido.
Nenhum Guilherme embarcara com ela.
Afirmavam que era tudo fantasia de sua cabeça.
Ela fora pega em flagrante e agora tentava se defender.
Guilherme assistia a toda a cena escondido atrás de um pilar.
Usara outros documentos, evidentemente.
Embarcara como Leonel Strega.
Teresa nem percebera.
Ele sorriu e disse para si mesmo:
- Teresa, minha rainha.
Esqueci de lhe dizer que, sem querer, coloquei três quilos de cocaína na sua mala.
Ah - ele bateu a mão na testa -, esqueci também de lhe avisar que as leis na Indonésia são duras em relação ao narcotráfico.
Creio que você vai ter o que merece.
Ele rodou nos calcanhares e dirigiu-se à esteira.
Pegou outra mala, passou pela imigração e ganhou a rua.
Havia um motorista esperando-o no meio-fio.
Assim que chegou ao hotel.
Guilherme solicitou ligação para o Brasil.
- Alô, Tonhão?
Sou eu. Sim. Ela foi presa.
O que gastamos com vestidos e passagens compensa.
Ela vai para o inferno. Você se vingou.
Guilherme desligou o telefone e foi para o banho, assobiando uma antiga música do repertório de Roberto Carlos.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 9:30 pm

Você foi dos amores que eu tive o mais complicado e o mais simples para mim.
Você foi o melhor dos meus erros...
Nicole e Artur não resistiram aos excessos da droga.
O corpo físico de ambos estava com as funções vitais comprometidas.
Pouco tempo depois do envio da carta para Virgílio, o casal desencarnou.
Artur morreu primeiro.
Atacado por uma forte diarreia, seu corpo padeceu no banheiro do hotel.
Nicole, já quase cega e com a saúde bastante abalada, morreu horas depois.
Geralmente os que desencarnam por conta dos excessos de droga são imediatamente arremessados em um tipo de vale, no umbral, conhecido como Vale dos Drogados, ligado ao Vale dos Suicidas, porquanto o uso excessivo da droga não deixa de ser um tipo de suicídio, embora lento e gradual, porém fatal.
O plano superior permitiu que Everaldo e outros espíritos amigos de Nicole e Artur pudessem resgatá-los e encaminhá-los para um posto de atendimento próximo da crosta terrestre, exclusivo para atender espíritos desencarnados em consequência das drogas.
Mas, se ao desencarnar os drogados são arremessados automaticamente no vale, por que Nicole e Artur foram privilegiados?
Ora, não podemos esquecer que Michele e Bruno, juntamente com Daniel, Sílvia, Letícia, Rogério e até mesmo Mariana e Inácio, reuniam-se toda semana e faziam orações, enviavam a Nicole vibrações de conforto, equilíbrio e lucidez.
Cininha desgrudava-se do corpo físico e seu espírito prestava auxílio à prima.
Embora Nicole e Artur captassem muito pouco das vibrações, porquanto a atenção de ambos era voltada para as drogas, as vibrações foram suficientes para que, ao desencarnar, ambos pudessem ser socorridos.
Artur recebeu as vibrações porque estava ligado em Nicole.
O grupo de orações não sabia ser ele o namorado que viajara com Nicole, todavia enviavam vibrações a ela e tal de Celso.
O que valeu, nessa questão, foi à intenção do grupo pela melhora do casal.
Everaldo, lágrimas nos olhos, sustentou nos braços o frágil e debilitado perispírito de Nicole.
Outros amigos espirituais fizeram o mesmo com Artur. Inconscientes, os espíritos conduziram os jovens para o posto de atendimento.
- Não sinta culpa, Everaldo, de forma alguma - considerou Consuelo.
- É muito triste, eu bem que tentei ajudá-la.
- Não se esqueça de que ela escolheu seu caminho, e a maneira de desencarnar foi fruto daquilo que ela plantou ao longo de sua existência.
Nicole foi advertida, antes de reencarnar, que teria contacto com as drogas.
Ela prometeu superar o vício.
- Talvez, se não tivesse entrado em contacto com as drogas...
Consuelo bateu-lhe levemente no ombro.
- Nicole precisou confrontar-se com esse mundo da dependência química.
Como é que iríamos saber se seu espírito estaria forte o bastante sem passar pela experiência?
- Por isso existe a bênção da reencarnação.
A cada nova vida, vamos amadurecendo nosso espírito, fortalecendo nossa crença no bem.
A vida não erra Everaldo.
Nicole vai poder experimentar a possibilidade de nova vida na Terra, e talvez tenha a chance de vencer o vício.
Todos caminhamos para o melhor, sempre.
- Isso me conforta.
Espero sinceramente poder estar ao seu lado, numa próxima possibilidade de encarnação.
Creio que no plano físico eu lhe serei mais útil.
- Vamos aguardar e serenar.
Agora precisamos tirá-los daqui.
O tempo urge e, mesmo com amigos espirituais dedicados e amigos, logo seremos atacados por falange de espíritos ávidos por sugar o pouco de energia vital que ainda emana dos perispírito de Nicole e Artur.
Everaldo assentiu com a cabeça.
Num instante eles sumiram no ar e dirigiram-se ao posto de atendimento.
Virgílio não ficou sabendo de imediato da morte da filha.
Ele ficara cismado com a foto, com o detalhe que Cininha apontara na data, mas preferiu acreditar que a filha estava bem.
A seu modo, também rezava todos os dia para que nada de mau acontecesse a Nicole.
Isso ajudou bastante.
Salete também contribuiu favoravelmente para o resgate do espírito de seu filho.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 9:30 pm

Ela podia ser fofoqueira, metida e bisbilhoteira ao extremo, mas nutria profundo amor por Artur.
Tinha o hábito de se confessar com o padre Alberto.
Ela estranhava não ter mais notícias do filho.
Sentia que algo grave havia lhe acontecido.
Padre Alberto sugeria que ela rezasse muito pelo filho.
Salete todo santo dia acendia uma vela branca, próximo a um altar que mantinha embaixo da escadaria de seu sobrado.
No altar, além da vela, deixava uma imagem de Nossa Senhora e um retrato de Artur, ainda jovem, sorridente e feliz.
A polícia encontrou os corpos uma semana depois, em adiantado estado de putrefacção.
Recolhidos ao necrotério de Amesterdão foi constatada morte por overdose de heroína.
Os documentos apreendidos naquele pequeno quarto fétido indicavam serem dois jovens brasileiros, de nome Ana e Celso.
Passados dois meses, e sem o aparente interesse da família, os corpos de Nicole e Artur foram enterrados no cemitério local.
Sem mais notícias da filha, e cismado com a insistência de Cininha de que algo ruim havia acontecido, Virgílio solicitou à polícia brasileira que entrasse em contacto com órgãos internacionais para localizar a filha e o namorado.
Enquanto isso, os irmãos Inácio e Sílvia acertavam os detalhes de seus casamentos.
Resolveram casar-se no mesmo dia.
Mariana tirou licença na clínica de Sidnei e, juntamente com Sílvia e Íngrid, trataram dos preparativos comuns de qualquer casamento:
Buffet, festa, convites e lista de convidados.
Nair e Cininha ofereceram-se para confeccionar os vestidos das noivas.
Os noivos, Inácio e Daniel, tratavam dos últimos detalhes da decoração de seus respectivos apartamentos.
Num domingo à tarde, numa chácara próxima à capital, os jovens se casaram.
Foi uma bonita cerimónia.
Um amigo de Daniel, juiz de paz, proferiu linda mensagem sobre a importância do casamento, da união de duas pessoas que se amam.
Falou do amor e, principalmente, da manutenção e sobrevivência desse nobre sacramento ao longo dos anos, sem se deixar influenciar por filhos ou por problemas naturais, financeiros, etc.
Após a cerimónia, os noivos, felizes e emocionados, receberam os cumprimentos dos convidados.
Íngrid estava muito feliz.
Era como se tivesse cumprido e encerrado sua missão de mãe.
Casara os dois filhos e tinha certeza de que ganhara uma nora e um genro maravilhosos.
Ela gostava muito de Mariana e tinha bastante admiração por Daniel.
Tinha certeza de que seus filhos seriam muito felizes e lhe dariam lindos netos.
Em uma mesa localizada a sombra de uma árvore, Íngrid, Virgílio e Nair conversavam.
Íngrid procurou entretê-lo, visto que ele andava bastante amargurado por não ter notícias da filha.
- Agradeço por ter comparecido.
Virgílio esboçou leve sorriso.
- Não poderia deixar de vir.
Meu filho gosta muito dos seus, e Mariana é como se fosse minha filha...
- Virgílio tem tentado levar vida normal - tornou Nair.
Entendo o esforço que vem fazendo.
Íngrid pousou sua mão sobre a dele, transmitindo-lhe força e coragem.
- Caso eu possa fazer algo, não hesite em me procurar.
- Obrigado - respondeu ele, sincero.
Íngrid trocou mais algumas palavras com os dois:
- E Ivana, como está?
Virgílio exalou profundo suspiro:
- Continua em coma.
O derrame destruiu muitas de suas funções.
Só saberemos do estrago efectivo quando ela voltar do coma. Se voltar.
- Isso é muito triste.
Uma mulher tão jovem! Jovem e inválida... - considerou.
- Mesmo que saia do coma, Ivana não vai sair da cama.
Isso Sidnei já confirmou.
O lado direito do seu corpo perdeu suas funções.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 9:31 pm

Ela não terá condições de andar nem de falar.
Íngrid botou a mão na boca, demonstrando seu estupor.
- Santo Deus! Que tragédia!
- Sem dúvida - replicou Virgílio.
Um braço tocou no ombro de Íngrid e ela voltou seu rosto para cima e para trás.
Ainda bem que estava sentada.
Ela perdeu a fala. Empalideceu.
Aloísio cumprimentou-a:
- Como vai, Íngrid?
Ela recuperou-se do susto.
- Pensei que não viesse.
Você deveria fazer par comigo no altar. Contudo...
Aloísio interrompeu-a:
- O voo atrasou, não pude chegar a tempo. Mil perdões.
- Viu nossos filhos?
- Acabei de parabenizá-los - disse ele, sorrindo.
Estou impressionado.
Nunca os vi tão felizes.
Íngrid recompôs-se.
Levantou-se da cadeira e apresentou-o a Virgílio e Nair.
Em seguida ele a puxou discretamente pelo braço.
- Preciso falar com você.
- Comigo?
- Sim.
- Aconteceu alguma coisa?
Eles se afastaram, e Aloísio conduziu-a até pequeno bosque, rodeado de flores as mais variadas.
Sentaram-se sob um caramanchão, revestido de trepadeiras cujas flores os convidavam à contemplação.
- Que lugar lindo! - suspirou ela, enquanto aspirava o perfume das flores.
- Faz-me lembrar dos bosques que percorríamos a pé, próximo de Estocolmo.
Íngrid sorriu.
- Quanta saudade daqueles bosques!
Tenho tanta vontade de voltar à Suécia.
Meus tios estão velhinhos, e, se demorar muito, irei me arrepender depois.
- Por que não vai para lá?
Agora que nossos filhos se casaram, você está livre e pode distrair-se.
- Penso nisso.
Mas vou esperar que tudo se ajeite.
O apartamento de Inácio ainda não ficou totalmente pronto, e ele e Mariana vão morar uma temporada comigo.
Nossa casa é muito grande.
- Nunca estive lá.
- Poderá conhecê-la.
É um casarão bonito, mas muito grande.
Eu me sinto muito só.
Aloísio apertou-lhe as mãos e olhou-a nos olhos.
- Íngrid, você está só porque quer.
- Não, por favor...
- Sim. Você está sozinha porque quer.
Tenho certeza de que outros homens a procuraram, mas você os recusou.
Você continua linda e exuberante.
Ela sorriu e em seguida fechou o cenho.
Levantou-se nervosa.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 9:31 pm

- De que adiantam os elogios?
Você me abandonou por uma mulher que tem a idade de nossa filha.
- Foi paixão, mas passou.
- Júlia tem a idade de nossa filha.
Você não tem vergonha?
Aloísio levantou-se.
- Não, não tenho.
Entendo o seu lado.
Sei que a desapontei que a fiz sentir-se triste.
Nosso sonho de amor ruiu.
Mas fui sincero.
- Como disse?
Ele a abraçou e trouxe a cabeça dela ao encontro de seu peito.
- Íngrid, meu amor, escute.
Eu poderia continuar levando nosso casamento e ter minhas aventuras extra-conjugais.
Nossa sociedade aceita e avaliza o adultério.
Um homem que tem amante é visto como másculo e viril garanhão.
Eu sempre lhe fui fiel. Sempre.
- Mesmo?
- Sim, sem dúvida.
Nunca me aproximei ou mesmo tive relações com outra mulher.
No entanto, você andava fria, me evitava, não queria mais fazer amor comigo.
- E por isso correu para o primeiro rabo de saia que lhe deu trela.
- Júlia me seduziu.
Eu estava carente.
Você não me dava mais atenção, recusava meus carinhos.
- Bom, eu... - ela tinha vergonha de falar sobre a menopausa, seus medos, as alterações do seu corpo.
Aloísio beijou sua mão e prosseguiu:
- Um dia, caminhando na praia, encontrei-me com o Dr. Martins, seu médico.
Íngrid gelou.
- E o que ele lhe disse?
Aloísio sorriu.
- Eu havia levado um chute bem grande da Júlia, andava cabisbaixo, triste.
Conversamos bastante e, num determinado ponto eu o indaguei se você havia lhe confidenciado algo.
Martins me disse que nunca trocaram confidências, mas que suspeitava que você tinha medo de me dizer que tinha entrado na menopausa.
- Mas...
- Eu sei minha querida.
Não deve ter sido fácil para você.
Mas o Martins me deu uma aula, explicou-me que, com a perda da produção de alguns hormónios na menopausa, a mulher fica com menos lubrificação vaginal, devendo ter maior cuidado durante o acto sexual, porquanto o ato poderá ser-lhe extremamente dolorido e desagradável.
Martins me explicou que você deveria usar cremes lubrificantes, bem como considerar a possibilidade de reposição hormonal.
Outro fenómeno que ocorre é a perda da gordura localizada nos grandes lábios, fazendo com que a vagina diminua de tamanho e esteja mais propensa a sofrer dor no coito.
- Eu tive medo de lhe contar.
Pensei que não fosse me entender.
Senti-me frágil.
- E eu me senti um completo idiota.
Nunca tivemos problemas de cama, e eu deveria suspeitar que algo errado estava acontecendo com você.
Fui tolo e mesquinho.
Comprei livros, estudei o assunto.
Agora sei como fazer, como tratá-la.
E gostaria que me perdoasse.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 8:19 pm

- Perdoá-lo?
- Sim. - A voz de Aloísio estava entorpecida de emoção.
Íngrid, case-se comigo.
Ela procurou ocultar a emoção:
- Isso é impossível. Nós nos divorciamos.
- Não tem problema.
Casamo-nos de novo.
- O que me pede é insano, Aloísio.
- Não. Elisabeth Taylor e Richard Burton casaram-se duas vezes.
Eu me casaria tantas outras com você. Eu preciso de você.
- Aloísio, eu...
- Você é a mulher da minha vida.
Ele disse isso e a tomou nos braços.
Inclinou seu corpo e beijou-a demoradamente nos lábios.
Só terminaram e afastaram-se quando se viram cercados pelos filhos e outros convidados, batendo palmas e dando gritinhos de felicidade.
Íngrid abraçou-se a Aloísio.
Ela ainda o amava muito.
E estava pronta para lhe dar uma segunda chance.
E, também, de dar a si própria mais uma chance de ser feliz.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 8:20 pm

CAPÍTULO 27

Assim que passou mal, rolou escada abaixo e entrou em convulsão, Ivana foi levada para o hospital.
Otília conseguiu chamar rápido por socorro.
Afinal, nos casos de derrame cerebral, também conhecido como acidente vascular cerebral, ou AVC, quanto mais rápido se prestar socorro, menores serão as chances de lesões cerebrais que irão resultar em sequelas.
Infelizmente, isso não ocorreu com Ivana.
Sua amiga Otília era prestativa e a ambulância chegara a tempo.
O motorista, preocupado em chegar rápido ao hospital, ligou as sirenes e saiu a toda brida.
Foi cortando caminho até desembocar na Avenida 23 de Maio.
Mas ele não contava com um grave acidente que ocorrera ali minutos antes.
Um ónibus e um automóvel se chocaram e mais cinco carros envolveram-se no acidente.
O engavetamento congestionou a avenida e suas adjacências.
Por mais que o motorista da ambulância tentasse, não dava para passar por cima dos veículos.
Ele manobrou aqui e ali, mas não chegou ao hospital a tempo para que Ivana ficasse imune a lesões graves.
O acidente entre o ónibus e o automóvel fora ocasionado por um motorista bêbado, que levara uma fechada e, entorpecido pela bebida e com a coordenação motora comprometida, atravessou a pista e, na contramão, chocou-se com o ónibus.
O motorista, um ex-gerente de banco que fora demitido tempos atrás por avalizar o saque de um cheque falsificado, morreu na hora.
Dois passageiros que estavam em pé no ónibus foram arremessados pelo vidro e tiveram morte instantânea.
Duas velhas conhecidas.
Uma delas era Creusa, vizinha de Salete e Nair.
A outra era a gerente da loja onde Letícia trabalhara tempos atrás.
Uma pena.
Ivana foi medicada e levada para a unidade de terapia intensiva.
Otília conseguiu o telefone de Bruno e alcançou-o no serviço.
O rapaz correu até o hospital.
Sidnei realizava atendimento duas vezes por semana naquele mesmo ambulatório.
Bruno ligou para ele e Sidnei, ainda constrangido com a cena de escândalo que Ivana lhe aprontara horas atrás, foi para o hospital prestar ajuda.
Afinal, sabia separar as coisas, e seu lado profissional falava mais alto.
Sidnei chegou e conversou com os médicos que atenderam Ivana.
Uma hora depois, ele sentou-se com Bruno e lhe expôs a situação:
- É grave, doutor?
- Receio que sim.
- O que minha mãe teve?
Sidnei colocou-o a par do ocorrido:
- Muitas das pessoas que sofrem um derrame cerebral, infelizmente, chegam tarde demais ao hospital para que possam receber um tratamento eficaz.
Foi o que aconteceu com a sua mãe.
O trânsito na cidade hoje está impossível, todas as principais vias estão engarrafadas.
- E então?
- Para que você me entenda melhor, Bruno, é importante saber que o tipo de derrame mais frequente é chamado de isquémico, que acontece quando uma artéria que nutre o cérebro tem o seu fluxo sanguíneo interrompido por um coágulo.
Quando uma artéria se rompe, provocando derramamento de sangue dentro do cérebro, o derrame é considerado hemorrágico.
Na situação mais frequente, a do derrame do tipo isquémico, a administração intravenosa de um medicamento é capaz de dissolver o coágulo e restabelecer a circulação na área cerebral afectada.
Isso - ressaltou ele - se a intervenção for realizada a tempo, a fim de evitar as lesões cerebrais que resultarão em sequelas graves.
O ideal seria identificar o derrame o mais precocemente possível.
- Como assim?
- Ficar atento ao aparecimento repentino de sinais como, por exemplo, adormecimento no rosto, braço ou perna, especialmente se localizados em um lado do corpo; dificuldade de falar e de se fazer entender; dificuldade de andar, tonturas e perda de equilíbrio; e - finalizou - dor de cabeça forte, sem causa aparente.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 8:20 pm

Bruno assustou-se.
- Minha mãe tinha fortes dores de cabeça, sem causa aparente.
Sabe como é ela sempre foi nervosa, agitada, irritada.
- Quando essas dores começaram, Ivana devia ter sido avaliada por um neurologista, a fim de iniciar tratamento adequado.
- E agora, doutor?
- Creio que é tarde demais.
Não quero tirar conclusões precipitadas, mas Ivana, caso volte do coma, ficará com graves lesões.
- Que tipo de lesões?
- Talvez ela fique presa a uma cama e não possa mais articular som.
Não sei, por enquanto procure serenar seu coração e rezar.
Os médicos estão dando o melhor de si para ajudar sua mãe. Confie.
Bruno saiu do hospital desolado.
Sua vida havia progredido bastante.
Associara-se ao pai e tinha três farmácias populares, localizadas em áreas pobres da cidade.
Seu relacionamento com Michele estava indo muito bem e marcaram a data do casamento.
Entretanto, sempre que a data se aproximava, ele a adiava, na esperança de que a irmã voltasse a tempo de participar da cerimónia.
Embora Michele o alertasse nas reuniões de oração, que temia pela integridade física da irmã, Bruno acreditava que a esperança é a última que morre.
E agora sua mãe adoecia.
Embora Ivana tivesse cortado relação com todos logo depois de assinar a separação e ter se mudado para um flat, Bruno era seu filho e sentia-se na responsabilidade de fazer por ela o que estivesse a seu alcance.
Ivana fora uma mãe relapsa e ausente, mas isso era problema dela. Bruno aprendera com Michele:
- Sua mãe fez o que pôde.
Você não podia cobrar dela o que ela não podia lhe dar.
- Ao menos um pouco de carinho e consideração...
- Mas ela não achava isso necessário.
Ela tem seu jeito de ser.
Você é diferente e, por mais que queira lutar, seu coração está ligado ao dela.
Sei que é duro admitir, mas, mesmo com todos os defeitos do mundo, você ama sua mãe.
- Não posso negar.
Mesmo ela tendo temperamento estourado e dotada de atitudes frias e distantes, eu gosto dela.
- Sentimento não tem como deixar de sentir.
Se ela não o ama à sua maneira, problema dela.
Faça diferente: ame-a a seu modo.
Bruno entrou no carro e resolveu:
- Eu gosto muito de minha mãe e vou cuidar dela.
Se não fizer isso, terei forte crise de consciência.
Nicole e Artur receberam tratamento intensivo de desintoxicação no posto de socorro.
O posto assemelhava-se a uma pequena colónia espiritual, rodeado de um lindo jardim florido.
As janelas dos quartos eram grandes e, das camas, enfileiradas em harmonia, dava para apreciar um pouco do verde que se perdia no horizonte.
Quando os pacientes se livravam de miasmas e energias densas acopladas ao perispírito, tinham permissão para receber visitas de amigos do astral, bem como fazer curtas caminhadas nas alamedas do pequeno hospital.
Havia três pavilhões repletos de desencarnados, na maioria compostos por jovens recém-desencarnados, ora recolhidos do Vale dos Drogados, ora levados ali por parentes e amigos espirituais.
Outros dois grandes pavilhões estavam sendo construídos, em virtude do grande número de espíritos que desencarnavam em consequência do abuso de drogas.
Everaldo não arredava pé do posto.
Todos os dias conversava com médicos e enfermeiros, e alegrou-se quando soube que Nicole voltara à consciência e seu perispírito mostrava sinais de reequilíbrio.
Embora ainda estivesse com sua visão comprometida, ela sentia-se leve e aliviada.
Foi numa tarde ensolarada que ela recebeu a visita de Everaldo.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 8:20 pm

- Não faz ideia de como é bom revê-la!
Nicole tinha grande dificuldade em enxergar, contudo, em seu íntimo, sabia reconhecer aquela voz.
Era-lhe profundamente familiar, além de lhe trazer sentimentos há muito tempo esquecidos nos escaninhos de sua alma.
- Quem está aí?
- Um amigo de longa data.
Everaldo aproximou-se da cama e tomou-lhe a mão.
- Como se sente?
- Um pouco melhor, embora bastante cansada.
Ontem fiz pequena caminhada, respirei ar puro, senti-me revigorada.
- Você vai ficar mais um bom tempo por aqui.
- Onde estou?
- Num hospital.
- Como fui encontrada?
- Eu e mais outros amigos preocupados com você fomos ao seu encontro.
- Estou cheia de dúvidas e...
Nicole começou a falar com voz entrecortada.
Estava visivelmente cansada. Uma simpática enfermeira aproximou-se da cama.
- Ela precisa descansar.
Vai ficar bastante tempo nesse estado, até que seu perispírito se veja livre das energias danosas que absorveu.
- Sua recuperação está indo muito bem, eu sinto isso.
No entanto, percebi que ela está com tremenda dificuldade de enxergar.
- Por mais que tentemos ajudá-la, Nicole provavelmente ficará com a visão comprometida.
Creio que, talvez numa eventual reencarnação e livre das drogas, seu novo corpo físico terá a visão limitada.
Ela enfrentará problemas, como todo deficiente, mas poderá ter um novo ciclo longe das drogas.
- Há males que vêm para o melhor.
- Sempre, Everaldo. Sempre.
Everaldo pousou delicado beijo no rosto de Nicole.
Ela adormeceu em seguida.
Ele se afastou e, ao ver a cama ao lado vazia, indagou:
- O Artur está passeando? Está melhor?
A enfermeira meneou a cabeça para os lados:
- Lamento muito, Everaldo.
- O que aconteceu?
- Fizemos o possível, mas Artur não respondeu bem ao tratamento.
Tão logo descobriu que não fazia mais parte do mundo terreno, revoltou-se e rebelou-se.
Agrediu um de nossos funcionários e partiu.
- Partiu?
- Sim.
- Mas para onde? Como?
- Não sei. Fizemos pequena oração em seu favor, mas ele está muito abalado.
E você sabe: nós não podemos prender ninguém nesta instituição.
Ninguém é obrigado a ficar aqui. Artur escolheu sair.
- Isso pode retardar seu processo de melhora.
- Sim. Mas o tempo cuida de tudo.
Em determinado ponto de sua evolução, ele será chamado a rever suas crenças e mudar sua postura.
Talvez, então, ele tenha uma nova chance de ser feliz.
Everaldo saiu do quarto desolado.
Sentia muito por Artur.
O espírito do rapaz devia estar em forte desequilíbrio.
Mentalmente ele lhe enviou vibrações positivas.
Ao tomar conhecimento de que morrera vítima de overdose, Artur negou-se a acreditar.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 8:20 pm

Agrediu funcionários do hospital, falou um monte de impropérios e, com sua força mental, seu espírito deslocou-se do posto de socorro e foi arremessado directamente ao Vale dos Drogados.
Em pouco tempo ele se juntou a um bando de espíritos rebeldes que partiam em caravana para a Terra, em várias partes do globo, à procura de pessoas que se drogavam.
Não era uma tarefa difícil.
Os espíritos os encontravam aos montes.
Íngrid resolveu e decidiu: ela amava muito Aloísio e resolveu dar a ele e a si mesma uma nova chance.
Casaram-se pela segunda vez e foram para Estocolmo, capital da Suécia.
Íngrid queria rever alguns parentes e depois fazer turismo pela Europa.
Aloísio e Íngrid conversaram bastante, falaram sobre suas frustrações, medos e inseguranças.
Estavam prontos para começar do zero, uma nova etapa.
Queriam ser felizes e, diante das afinidades e do amor que os uniam, foram se expressando e tornando mais intensa sua relação amorosa.
O casal parecia estar numa constante lua-de-mel. Saíram de Estocolmo e foram a Londres.
De lá, foram a Paris, depois Berlim e, por último, fizeram parada na Holanda.
Aloísio mantinha muitos contratos de fornecimento de carne com países da Europa e tinha dois grandes clientes holandeses.
Precisava rever os contratos e queria encontrar seus clientes pessoalmente.
Íngrid entendia e falava o neerlandês, a língua nativa dos habitantes dos Países Baixos.
Felizes e apaixonados, ele andaram pelos canais de Amesterdão, visitaram vários museus, entre eles o de Van Gogh, a casa de Anne Frank, bares e cafetarias e até casas nocturnas.
Foi num jantar com os clientes do marido que Íngrid soube de algo inusitado.
Dois jovens brasileiros haviam morrido há um bom tempo e a família não aparecera para reclamar dos corpos.
Entraram em contacto com a embaixada brasileira no país, mas não obtiveram retorno.
A conversa fluiu agradável, mas Íngrid ficou intrigada.
Ao seu lado, o espírito de Everaldo sussurrava-lhe palavras, implorava-lhe que se interessasse mais por aqueles jovens.
Por intermédio dela, Everaldo queria que o mistério do desaparecimento de Nicole e Artur fosse desvendado e que Virgílio e Bruno, assim como Salete, pudessem lidar com a trágica realidade e tocar suas vidas adiante, sem mais dúvidas ou esperanças.
No fim do jantar, Íngrid perguntou a um dos clientes:
- O que mais sabem sobre o caso desses jovens?
- Minha esposa trabalha na polícia.
Posso lhe arranjar os nomes, se interessar.
- Eu gostaria muito - tornou ela, agradecida.
No hotel, Aloísio estava intrigado:
- Por que esse interesse repentino no caso desses jovens indigentes?
Íngrid levou a mão ao peito.
- Não sei explicar.
É algo que está me atormentando.
- Pensou em nossos filhos?
- Também. Imagine os pais desses jovens!
Como devem estar se sentindo?
- Vai ver, eles nem tinham pais.
As famílias não apareceram.
E, segundo sei, os nomes foram divulgados na imprensa brasileira.
- Não sei ao certo, Aloísio. Estou preocupada.
Não sei por que razão, mas tenho pensado muito na filha do Virgílio.
- Por quê?
- Ela era viciada em drogas.
- Puxa, que maçada!
- Pois é. A menina vivia entre clínicas de desintoxicação e, tempos atrás, quando aparentava estar bem, ela roubou o próprio pai e fugiu com o namorado para a Europa.
- E daí? Muitos jovens fazem o mesmo.
Principalmente os filhos de pais ricos.
- Preciso ir mais fundo nesse caso.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 8:21 pm

- O que a faz pensar nisso?
- Faz meses que Nicole não dá notícias.
Ela sumiu, desapareceu.
- Você acha...
Íngrid assentiu:
- Acho. Nicole teve sangue-frio para pegar toda aquela quantia.
Foram milhares de dólares.
Ela deve ter comprado documentos falsos.
Não sei Aloísio, mas gostaria de investigar melhor a morte desses jovens.
- Nosso voo parte depois de amanhã. Não sei se teremos notícias a tempo.
- Por favor - suplicou-a. - Cancele o voo.
Vamos ficar aqui até resolvermos essa questão.
Eu jamais me perdoaria se descobrisse que esses jovens são Nicole e o namorado.
Eu sou mãe, imagino como Virgílio deva estar se sentindo.
Aloísio sentou-se na cama e consolou-a:
- Chi! Calma. Você tem razão.
Uns dias a mais não vão comprometer meus negócios.
Aproveitaremos e faremos mais passeios.
- Obrigada.
Everaldo respirou aliviado.
Agradeceu Íngrid e partiu rumo ao posto onde Nicole se encontrava.
A triste notícia da verdadeira identidade dos corpos arrasou Virgílio e Bruno, como também devastou o pobre coração de Salete.
Virgílio era pessoa conhecida da mídia.
As revistas de fofoca tratavam o caso como algo circense, carregando nas tintas do sensacionalismo.
A imprensa não poupou a dor da família.
Quando os corpos foram trasladados para o Brasil, havia uma quantidade imensa de jornalistas e repórteres no aeroporto.
Afinal de contas, sabemos que todo cadáver tem o mesmo cheiro.
No caso de gente famosa ou conhecida da sociedade, o cadáver tem um cheiro especial, fede de maneira bem distinta dos pobres mortais.
Virgílio teve de ser afastado e levado para uma chácara no interior paulista até que a repercussão do caso fosse superada por outra tragédia.
Isso levaria alguns dias somente.
Bruno, devastado com a notícia da morte da irmã, teve forças para dar todo o apoio e assistência ao pai.
A presença de Michele naquele momento foi fundamental para ambos.
Eles conversavam, e, aos poucos, ela tentava mostrar a Virgílio que Nicole morrera por conta e risco do resultado de suas atitudes.
- Não é justo.
Quando percebi que podia ter minha filha de volta, quando decidi me tornar um pai amoroso e participativo, a vida a tirou de mim.
Chego a duvidar se Deus existe de verdade.
As conversas foram muitas.
Virgílio não se perdoava.
Afastara-se inclusive de Nair.
Não sentia mais vontade de nada. Sua vida acabara.
Durante um passeio pela chácara, Virgílio bateu na mesma tecla:
- Deus não existe!
Michele exalou profundo suspiro.
Precisava lhe falar certas verdades, e a hora era aquela.
Ela gentilmente o conduziu até um banco rodeado de gerânios e se sentaram.
- Creio que essa atitude não vai trazer sua filha de volta.
- Não me perdoo. Minha vida acabou.
- Você nunca seria capaz de resolver essa história.
- Como não? Era minha filha.
- Mas o problema não era seu.
Nicole poderia receber ajuda e tratamento, mas deixaria de se viciar somente quando ela quisesse - enfatizou.
Não é nada agradável ver um filho estirado num chão, cheirando ou injectando-se drogas pelas veias.
É uma doença terrível, que, por vezes, destroça uma família inteira, acaba com sua harmonia.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 8:21 pm

- Foi o que aconteceu comigo.
Eu e Bruno fizemos tudo que estava ao nosso alcance para que ela melhorasse.
Sabíamos que não podíamos contar com Ivana para nada.
Mas nós dois nadamos, nadamos e, no final, morremos na praia.
- Você acreditou que devia superproteger sua filha, desculpando-a por toda falha que cometesse, acreditando que com isso estivesse ajudando.
Ao contrário, esse comportamento aumentou a insegurança de Nicole, mantendo-a mais presa ao vício.
- Será?
- Sim. No momento em que o sofrimento se torna insuportável é que um viciado vai sinceramente atrás de ajuda, vai procurar a cura.
Ele usa sua própria força e consegue vencer.
No caso de Nicole, isso já vem ocorrendo há mais de duas encarnações.
Virgílio encarou-a estupefacto.
- Como assim?
- É a terceira vez que Nicole desencarna em consequência do abuso de drogas.
- Então fui um pai relapso três vezes! - exclamou entristecido.
Michele sorriu.
- Não. Nas duas últimas encarnações, você não foi pai de Nicole.
- Não?
- Posso garantir pelo que meus amigos do astral superior me disseram.
Virgílio - ela tocou em seu braço -, você não é responsável por Nicole nem pelo que lhe ocorreu.
Jamais poderia curá-la, porque isso é ilusão.
Um dia ela vai encontrar uma maneira de vencer essa fraqueza.
Talvez já na próxima encarnação.
- Juro que gostaria de estar com ela de novo.
- Nunca se sabe.
Não tenho informações de como sua filha está.
Aliás, a partir do momento em que Nicole desencarnou, ela deixou de ser sua filha.
- É duro admitir isso.
- Sei. Mas ela é um espírito livre, dona de si.
E você não pode estragar sua própria vida.
- Mas...
- Não adianta acabar com sua felicidade por conta de algo que não depende de você e não está sob seu domínio.
Bruno precisa muito de seu carinho.
- Ele vai se casar com você.
Não precisará mais de mim.
- Mas precisará do seu amor.
Pensa que ele não sofre?
Ele também perdeu alguém que amava muito.
Tente compreender.
A vida faz tudo pelo melhor.
Não deixe que a morte de sua filha atrapalhe seus sonhos.
Não transfira esse infortúnio para sua vida.
- É difícil separar as coisas.
- Mas precisa aprender a separar.
Você não tem o poder de mudar as pessoas.
Aceite essa verdade.
Não leve para casa energias pesadas que só irão infelicitá-lo.
- Eu não tenho lar.
Pus minha casa à venda.
Desde que soube da morte de Nicole, não entrei mais naquele lugar.
Bruno tratou de tudo:
desfez-se dos móveis, vendeu algumas peças, doou o resto aos empregados e instituições.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 8:21 pm

- E você vai ficar morando num hotel até quando?
- Não sei.
- E Nair?
Virgílio estremeceu.
Ele a amava tinha certeza disso.
Entretanto, não tinha forças para levar adiante uma nova relação afectiva.
A morte de Nicole ferira-o fundo.
Michele parecia tomada por algo mais forte que ela.
Com a modulação de voz alterada, considerou:
- Nair merece uma nova chance, merece viver num ambiente alegre e harmonioso.
Entregue sua filha nas mãos de Deus e pare de se torturar.
Cuide de sua felicidade.
Garanto a você que Nicole vai encontrar seu próprio caminho.
Ela não está só.
- Rezo por isso.
- Você deve pensar em você e preservar sua paz - finalizou Michele.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 8:21 pm

CAPÍTULO 28

Assediada diariamente por repórteres, Salete comeu o pão que o diabo amassou.
Quando a imprensa descobriu o verdadeiro nome do namorado de Nicole, bandos de jornalistas correram até sua rua, como moscas no mel, à cata de informações, para saber como era a vida do rapaz, quando ele entrou no mundo do vício.
Outro repórter, totalmente insensível, esmiuçou a vida de Salete e descobriu que o marido morrera em consequência da AIDS.
Isso intensificava ainda mais o drama de Artur.
A imprensa especulava, e escreviam-se as maiores atrocidades possíveis sobre Salete e o filho.
Diziam que o menino havia fugido de casa porque descobrira que o pai era aidético; que o pai contraíra o vírus da AIDS porque era viciado em drogas e usara agulha contaminada; que Salete nunca fora boa esposa e boa mãe, etc., etc.
Salete queria sumir do mapa.
A morte do marido a entristecera, mas perder Artur foi um golpe muito duro.
Ela nunca imaginara a possibilidade de perder o filho.
Isso ia contra as regras da natureza em que ela acreditava.
Ela não era benquista na vizinhança, porquanto se intrometia na vida de todo mundo.
Era fofoqueira e agora sentia na pele o que era invadir e comentar a vida dos outros.
Sua vida estava sendo exposta nos jornais, nos programas de televisão.
Estavam explorando cada momento trágico de sua vida, sem dó nem piedade.
Se Creusa estivesse viva, estaria ao seu lado.
Mas, depois que sua amiga morreu num acidente de ónibus, Salete ficou só.
Completamente só.
Os vizinhos que não a suportavam passaram abertamente a hostilizá-la.
Houve até quem atravessasse a calçada para não passar pela sua porta.
Diziam ser um lar amaldiçoado.
Nair trabalhava bastante e não dava atenção aos fuxicos e comentários maledicentes que os vizinhos faziam.
Mas, como o caso de Artur se confundia com o de Nicole, ela se sensibilizou e foi procurar à vizinha.
Salete não quis receber visita.
Fechou-se em sua casa, em sua dor, em seu mundo triste e despedaçado.
Alguns meses depois, Nair chamou o padre Alberto e foram a casa dela.
Salete não quis abrir a porta de imediato.
Ao reconhecer pelo olho mágico que Nair estava acompanhada do padre, ela se sentiu envergonhada, abriu a porta e os convidou a entrar.
Eles se sentaram e aguardaram que Salete fizesse o mesmo.
Salete era mulher de estatura baixa, cabelos curtos e prateados.
Andava sempre de vestido comprido, de mangas curtas e botões nas costas e uma blusa por cima.
Era fortona, rechonchuda.
Mas a realidade lhes mostrava outra pessoa: uma mulher pálida, olhos inexpressivos, muitos quilos mais magra e a pele do rosto toda enrugada.
Salete era uma sombra da mulher que fora.
Estava profundamente abalada e debilitada.
- Meu mundo acabou padre.
- Não pense assim, minha amiga.
Isso não é o fim. Você está viva.
- Fui escorraçada, invadiram minha privacidade - ela encarou Nair nos olhos e se envergonhou.
- O que passou, passou - interveio Nair.
Não estou aqui para tirar satisfações, não quero nada.
Estou aqui porque me preocupo com você.
- Sério?
- Claro. Você está sozinha, não tem parentes, não tem ninguém.
- Pensei que meus vizinhos fossem meus amigos, mas todos viraram a cara para mim.
Tem até gente que morre de medo de passar na minha porta.
Dizem que sou agourenta.
Se ao menos pudesse contar com a Creusa, mas ela não está aqui para me dar força.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 8:21 pm

- Mas eu estou - declarou Nair.
Sei que você não foi muito simpática nestes anos todos.
Salete baixou os olhos e mirou o chão.
Estava sinceramente arrependida. Nair prosseguiu:
- Não estou aqui para julgar suas atitudes.
O sofrimento que vivência é para que se liberte dos seus enganos.
- Deus me castigou.
Tive uma língua ferina.
Destruí a vida de muita gente.
O marido da Norma a deixou porque eu fui fofocar.
Enchi a cabeça dele de minhocas.
Padre Alberto interveio amoroso:
- Deus não castiga ninguém, Salete.
Compreenda que isso não é verdade.
- Como não?
- Deus dispõe os fatos para que cada um de nós colha daquilo que plantou.
Ele não se vinga tampouco se compraz do sofrimento humano.
- Deus não tem compaixão por mim.
- Tem por você e por todos.
Sua compaixão se estende sempre, dosando a colheita de cada um de acordo com o que precisa aprender.
Não existe punição, somente aprendizagem, nada mais.
Cada um de nós precisa aprender a evoluir sem dor.
Minha amiga - ele a tocou delicadamente no braço -, a fé só vem pela experiência.
Quando isso acontece, muda nosso comportamento e nossa visão do mundo, das coisas, e, por conseguinte, afecta todas as nossas decisões.
Percebemos então os valores espirituais, e nesse ponto temos condições de ensinar.
- Eu não tenho o que ensinar.
Fui péssima esposa e péssima mãe.
- De nada vai adiantar se punir.
A culpa só maltrata e nos põe para baixo, limitando nossa capacidade de reagir.
E também nada vai trazer seu marido ou seu filho de volta.
Salete, uma criança que aprende os valores espirituais jamais vai se transformar num marginal, porquanto na infância o espírito está mais sensível e influenciável.
- Quem me dera soubesse disso antes.
Talvez as coisas fossem diferentes.
- Se você não pôde passar esses valores para Artur, poderá começar por si própria ou mesmo pelas crianças.
- Crianças? Que crianças?
- Da paróquia.
Dar a elas um pouco de sua atenção, de seu carinho, de seu amor.
Você pode fazer isso por elas.
O resto confie e entregue nas mãos de Deus.
Salete deixou que as lágrimas lhe escorressem livremente pelas faces.
Padre Alberto levantou-se e abraçou-a.
Nair, emocionada, limpou as lágrimas, levantou-se e disse:
- Vou até a cozinha fazer um chá de cidreira.
Creio que fará bem a todos nós.
Michele e Bruno casaram-se e mudaram-se para a periferia.
Ambos estavam com bastante trabalho e não desejavam enfrentar o trânsito pesado e caótico da cidade todos os dias para ir e vir do serviço.
Decidiram por uma casa térrea, grande, confortável, com uma bela varanda na frente e espaçoso quintal atrás, onde fizeram uma churrasqueira e geralmente nos fins de semana convidavam os amigos para um almoço, regado a carnes, saladas, pratos de maionese, cerveja, refrigerante, descontracção e muita conversa fiada.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 8:22 pm

Daniel e Sílvia compareciam sempre que possível.
Eles moravam não muito distante de lá, num pequeno, porém gracioso apartamento com que Íngrid os havia presenteado.
As farmácias de Bruno prosperaram e os atendimentos no salão dos fundos foram divididos em núcleos.
Michele viu-se livre das interferências da prefeitura e dispensaram ajuda da Centax.
Agora eram eles que ajudavam a empresa, enviando jovens estudantes que desejavam trabalhar.
Ela e o irmão somaram forças e logo compraram bom terreno e construíram excelente clínica de serviço social à população.
Outros amigos e profissionais se afiliaram, e a clínica cresceu e colaborou bastante para o progresso daquela região e de seus moradores.
A clínica possuía três andares.
No terceiro, Michele fez uma espécie de salão voltado para oração e estudos espirituais.
Três vezes por semana abriam as portas para quem precisasse, ministrando passes, proferindo palestras edificantes, desvendando de maneira simples os mistérios da vida espiritual.
Cininha e Sidnei se casaram e ela continuou trabalhando com Nair.
O negócio prosperou, a clientela aumentou e, confiantes e decididas, compraram um galpão e iniciaram a confecção.
Virgílio compreendeu e aceitou não ser responsável pela morte da filha e, livre do remorso, foi morar com Nair.
Ele sugeriu que se mudassem do pequeno sobrado e fossem para outro bairro.
Virgílio comprou belo apartamento perto do Parque da Aclimação.
Todas as manhãs eles faziam caminhadas pelo parque, tomavam uma água de coco.
Depois voltavam para casa e ele ia para seu escritório e Nair para a confecção.
Dois anos após a assinatura de seu divórcio com Ivana, Virgílio pôde oficializar a união com Nair.
Ele e ela fizeram uma pequena reunião no apartamento em que estavam morando.
Os presentes eram os filhos deles, somente.
Mais ninguém. Queriam uma reunião íntima e discreta.
Bruno e Michele estavam radiantes.
Ela estava grávida de cinco meses.
Letícia também estava grávida.
E insistiu para que Ismael fosse morar com ela e Rogério.
De que adiantaria viver sozinho num apartamento, se ele não queria saber de casar?
Preferiam ter Ismael por perto.
Ela e Rogério trabalhavam bastante, e seria formidável contarem com a ajuda do avô na criação do filho.
Virgílio suspirou feliz.
Logo seu apartamento estaria repleto de crianças, correndo para lá e para cá, fazendo estripulias.
Mariana não queria saber de filhos, por ora.
Fazia especialização.
Queria estudar mais um pouco e talvez mais para frente pensasse em filhos.
Sidnei a promoveu, e agora ela era a enfermeira-chefe responsável pela clínica.
Mariana mostrou-se profissional bastante competente.
Após a oficialização da união e terminado o almoço, Nair reuniu todos na sala e tornou:
- Precisamos conversar.
Está na hora de contar sobre o real motivo de meu afastamento de Virgílio, décadas atrás.
Os jovens acomodaram-se em cadeiras.
Letícia e Michele deitaram-se num sofá.
A gravidez não permitia que ficassem sentadas.
A barriga estava atrapalhando.
Nair começou:
- Como todos sabem, eu e Virgílio fomos apaixonados e não nos casamos por conta da interferência de sua família.
O Dr. Homero e Ivana me procuraram e pediram que eu me afastasse da vida de Virgílio.
O silêncio se fez enorme.
Estavam todos interessados e ansiosos.
Nair prosseguiu:
- Eu era pobre e estava grávida.
Virgílio encarou-a com estupor.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 8:22 pm

- Grávida?
- Sim, eu fiquei grávida de você, depois daquele final de semana que passamos na Ilha Porchat, em São Vicente.
Virgílio fechou os olhos e sua memória foi até aquele longínquo fim-de-semana.
Fora memorável, inesquecível.
Tinha sido o melhor e último fim-de-semana que passaram juntos.
Ele abriu os olhos, e uma lágrima escorreu-lhe pelo canto do olho.
Estava aturdido.
- Se ficou grávida, então Mariana é minha filha?
Mariana olhou para a mãe, incrédula, suplicando uma resposta negativa.
Nair meneou a cabeça para os lados:
- De forma alguma. Mariana e Letícia são filhas de Octávio.
- Então...
Nair pousou a mão na boca do marido.
- Quando seu pai me procurou, eu não sabia que estava grávida.
Ele me ofereceu um bom dinheiro e Ivana me ameaçou.
Fiquei com medo, não tinha a quem recorrer.
Peguei o dinheiro e comprei o sobrado no Carrão.
Um mês depois, eu conheci Octávio.
Contei-lhe que tinha herdado o sobrado e disse-lhe que, se ele estivesse disposto a um compromisso sério, poderíamos nos casar.
Octávio sofrerá forte desilusão amorosa e eu estava emocionalmente fragilizada também.
Virgílio interveio:
- Se soubesse que estava grávida, eu teria mudado tudo.
Talvez ficássemos juntos.
- Como eu disse, no começo eu também não sabia estar grávida.
No dia em que Octávio pediu a minha mão, saímos para comemorar e eu senti leve enjoo.
Na manhã seguinte, fui a um médico no centro da cidade e ele confirmou a gravidez.
Fiquei aturdida.
Não havia tido relações com Octávio e com homem nenhum.
Eu havia sido somente sua - ela pousou os olhos marejados sobre os do marido - e tinha certeza de que o filho era nosso.
Saí do consultório, trémula, as pernas bambas, muito tensa.
Não sabia que rumo tomar.
Estava aflita. Afinal, como contar a Octávio?
- Devia ter falado comigo - insistiu Virgílio.
- Eu não quis procurá-lo. Ivana me perseguia, e eu, acuada, resolvi não o procurar mais.
Afinal, havia recebido dinheiro e aceitara me afastar de você.
Nair respirou fundo e prosseguiu:
- Seja como for, logo em seguida houve o acidente.
- Acidente?
- Sim. Fui atropelada e socorrida.
Dei entrada no hospital e não tive fracturas, somente escoriações pelo corpo.
Mas perdi nosso filho - ela apertou a mão de Virgílio.
Suas filhas não contiveram o pranto. Virgílio a abraçou.
- E você escondeu isso por todos estes anos? Por quê?
- Não havia necessidade de contar nada a ninguém.
Por que deveria contar esse triste episódio às minhas filhas?
Elas não fizeram parte dessa etapa de minha vida.
Quando me casei com Octávio, esqueci de tudo e recomecei.
Pensei que nunca mais fosse encontrar você.
- É uma grande mulher, Nair.
Por isso eu a amo tanto.
- E tem outra coisa.
- O que é?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 8:22 pm

- Seu pai.
- Nunca vai perdoá-lo, certo?
Nair reconsiderou:
- Por muitos anos tive raiva de Homero.
Letícia e Mariana se entreolharam, estupefactas.
Lembraram-se de que alguns anos atrás Rogério lhes falara que tinha sonhado com aquele homem.
Encararam Rogério, e ele sorriu.
Nair prosseguiu:
- Pensei muito e concluí: por que jogar a culpa sobre as costas dele?
E se eu não tivesse aceitado o trato e tivesse enfrentado Ivana?
Podia ter escolhido encarar tudo e todos e correr até você, explicar-lhe a situação.
Tomada de medo e insegura, recuei.
Por muitos anos eu não quis pensar no assunto.
Entretanto, Octávio morreu, minha vida mudou, eu o reencontrei.
Você passou por transformações dolorosas.
Nicole morreu, Ivana está presa a uma cama de hospital pelo resto da vida.
A experiência e maturidade me ensinaram a perdoar.
Portanto eu perdoei seu pai e, o que é melhor, perdoei a mim mesma.
Talvez esse tenha sido meu grande mérito.
- Perdoar-se é um ato divino e só fortalece o espírito - ajuntou Michele, voz entrecortada pela emoção.
Os jovens parabenizaram Nair pela coragem de se abrir e contar sobre suas fraquezas, seus medos, sua vida.
Ela era exemplo de mulher a ser seguido.
Perdera o marido, ficara sozinha no mundo, mas dera a volta por cima.
Suas filhas estavam bem encaminhadas, casadas e felizes.
Ela era uma empresária de sucesso, ganhava seu próprio dinheiro e não dependia de ninguém.
Reencontrar seu único e verdadeiro amor, nesta altura de sua vida, mostrava-a claramente que podia ter nova chance de ser feliz.
Por que não perdoaria Homero?
Não queria mais ficar presa ao passado, não queria mais responsabilizar ninguém pelas suas desgraças.
Aprendera a tomar posse de si e queria seguir adiante.
Nair perdoou Homero do fundo de seu coração.
Homero ouvia tudo e não conseguiu evitar o pranto.
Esperou muito, mas valeu à pena, pois finalmente recebeu o perdão de Nair.
Sentiu que ela estava sendo sincera.
Sua consciência não mais o acusava, e ele estava livre da culpa que se infligira anos a fio.
Marta acariciou seu rosto.
- Está na hora. Dê um beijo em Nair e Virgílio.
Estão juntos porque você deu uma forcinha.
- É verdade.
- Agora vamos seguir nosso caminho.
Não suportava mais esperá-lo.
Estava com muita saudade.
Marta pegou-o pela mão, e, após se despedirem dos presentes, os dois espíritos desapareceram do ambiente.
Homero sentia-se agora livre para continuar sua jornada evolutiva ao lado da mulher que sempre amara.
Virgílio estava profundamente emocionado.
- Por Deus, você perdeu um filho meu?
- Sim.
- Perdi dois filhos, então - as lágrimas corriam insopitáveis.
Como pude?
- Não se sinta culpado.
Eu também errei, aceitando o dinheiro de seu pai.
Por outro lado, foi por conta dele que pude dar um teto para minhas filhas.
Creio que estamos quites.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 8:22 pm

- Você poderia ter um filho meu! Um filho nosso!
- Ainda há tempo - tornou Rogério.
- Imagine! Não tenho idade.
- Mamãe! - protestou Mariana.
Hoje em dia muitas mulheres engravidam na casa dos quarenta.
Você ainda pode ser mãe.
- Eu vou ser é avó. Como posso pensar em ser mãe? - indagou, rindo.
Virgílio afirmou:
- Adoraria ser pai novamente.
- Por quê? - indagou Nair, surpresa.
- Gostaria de fazer tudo que não fiz pelos meus dois, quer dizer, três filhos: amar, criar, educar, ouvir as primeiras palavras, contar histórias de ninar, participar das festinhas na escola, ensinar os valores espirituais.
Seria um pai participativo.
- Podemos pensar no caso.
- Agora.
Nair bateu na mão de Virgílio:
- Virgílio! Olhe as crianças aí na frente. Perdeu a compostura?
Caíram todos numa grande gargalhada.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 8:23 pm

CAPÍTULO 29

Ivana ficara presa à cama de um hospital.
Não voltara do coma, suas funções cerebrais haviam sofrido graves lesões.
Ela não falava, e mal reconhecia as pessoas à sua volta.
Virgílio e Bruno iam visitá-la, mas ela não os percebia no ambiente.
Depois de meses, Sidnei transferiu-a para sua clínica.
Deu-lhe um quarto particular, bem aparelhado e monitorado.
Mariana e outras enfermeiras cuidavam de Ivana.
O trabalho não era fácil.
Deitada e imóvel, as enfermeiras precisavam virá-la de um lado para o outro a fim de evitar a formação de escara, um tipo de crosta resultante da morte de tecido, devido ao facto de o paciente permanecer muitas horas na mesma posição.
A cada par de horas dobravam o corpo de Ivana, ora de um lado, ora de outro, ora de costas.
Davam-lhe banho duas vezes ao dia. Com o tempo, Ivana foi emagrecendo e seu corpo tornou-se uma sombra do que fora um dia.
Seu espírito ficava adormecido, a alguns palmos de seu corpo físico.
O perispírito sofrerá lesões e também estava com órgãos comprometidos.
Levaria bastante tempo para se regenerar do trauma.
Às vezes seu corpo era assaltado por estremecimentos, e Ivana suava frio.
Tinha pesadelos de toda sorte.
Sonhava com Nicole, Bruno, Virgílio e até Nair.
Às vezes os via nitidamente em seus sonhos; de outras tantas, eles apareciam com outros rostos, outras vestes, como se estivessem em outras épocas.
Otília ia toda semana visitar a amiga enferma.
Ficava lá ao seu lado, contava-lhe histórias, fazia de conta que Ivana estava bem e podia ouvi-la.
Se Ivana registava ou não, isso não tinha importância.
Pelo menos, as tardes com Otília a deixavam longe dos pesadelos e das memórias de sua mente conturbada.
Eram suas memórias de vidas passadas que se confundiam com o presente, numa confusão mental, e levaria muitos anos para que Ivana pudesse atingir um nível de lucidez satisfatório e pudesse receber melhor ajuda no mundo espiritual.
Consuelo estava sempre presente.
Dava-lhe passes, procurava ministrar-lhe energias revigorantes e, quando os pesadelos se tornavam insuportáveis, ela ajudava Ivana a se libertar deles e entrar em estado profundo de letargia, às vezes por dias.
Nicole progredira bastante no posto e logo foi encaminhada a uma colónia espiritual.
Foi morar com Everaldo.
Entre os cuidados dispensados à sua amada e cursos e serviços prestados, de vez em quando ele vinha a Terra e visitava a pobre Ivana.
Numa dessas visitas ele encontrou Consuelo no quarto, terminando de ministrar-lhe um passe.
- Atrapalho?
- De forma alguma - respondeu Consuelo.
- Como ela está?
- Sobrevivendo.
Seu corpo físico foi bastante afectado e seu perispírito também.
Ivana está presa às recordações do passado misturadas às do presente.
Com as lesões cerebrais, não consegue distinguir o passado do presente.
- Ela vai ficar assim por muito tempo?
- Sim. Enquanto seu corpo físico resistir, ela vai ficar presa nessa cama.
É melhor para ela.
O coma vai lhe servir como uma trégua, um repouso.
Quando desencarnar, estará mais serena, menos irritada e agressiva.
- Você tem muita afeição por ela, não?
Consuelo sorriu.
- Gosto muito de Ivana.
Estamos ligadas há muitas vidas.
- Não me diga! - admirou-se Everaldo.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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