O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 9:33 pm

Virgílio era homem feito e apaixonado por Nair.
Mas Nair sumira de sua vida de uma hora para outra, sem motivo, sem explicação.
Desiludido e infeliz, ele aceitou casar-se com Ivana.
A consciência de Ivana às vezes tentava chamá-la à realidade e fazê-la pensar nos desatinos que cometera.
Virgílio e Nair estavam apaixonados e felizes.
Pensavam em se casar, e ela destruiu o sonho de ambos.
Com os olhos voltados tão-somente para seu próprio umbigo, louca para viver num mundo que sempre sonhara - o dos ricos -, Ivana deixava os pensamentos acusadores de lado e seguia em frente, sem remorso.
Ela arrumou-se com esmero para encontrar-se com Otília logo mais.
Bom, arrumar-se com esmero, para Ivana, era usar roupas espalhafatosas, combinações de gosto duvidoso, perfume forte e adocicado, além de ter o corpo coberto de jóias, da cabeça aos pés.
Assim que desceu as escadas e dobrou o corredor, deu de cara com a filha.
- Em casa a esta hora?
Estou de saída.
Pode ligar o som e escutar aquelas músicas esquisitas.
Nicole não respondeu.
Fez um gesto vago com as mãos e subiu um lance de escada.
- Ei, senhorita, estou falando com você!
Ivana alcançou-a e puxou-lhe braço.
Nicole olhou para o braço e em seguida encarou a mãe com rancor.
- Por que quer saber de minha vida se nunca deu a mínima para mim?
- Força de hábito.
- Estou cansada.
Quero dormir - disse a jovem, com voz pastosa.
- Você está drogada, isso sim.
Nicole permaneceu parada.
Não conseguia concatenar os pensamentos com lucidez.
As drogas começavam a afectar seu sistema nervoso.
Ivana mal se importou com o estado da filha:
- Afinal de contas, você mora nesta casa e é sustentada por mim e seu pai.
Aqui não é pensão.
Quando quero que me dê satisfações, você tem de responder.
- Você é completamente louca.
- Ah, sou louca?
A partir de agora vou cortar sua mesada.
- Isso não!
Você não tem esse direito.
Ivana gargalhou:
- Não só tenho como vou fazê-lo.
- Se fizer isso, vou infernizá-la até não mais aguentar.
Vou ficar o tempo todo em casa e trazer meus amigos para passar à tarde comigo.
Vou botar música no último volume quando você tiver enxaqueca.
- Você agora foi longe demais - suspirou Ivana, vencida.
Não suportaria conviver com você, esse bando de desajustados e sua música de péssimo gosto.
Minha enxaqueca não merece isso.
Continuarei lhe dando a mesada.
- Não me amole.
Nicole falou, empurrou o braço da mãe e subiu.
Ivana ia responder, mas ouviu a buzina familiar do carro de Otília.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 9:33 pm

Ela deu de ombros, apanhou a bolsa e saiu.
Bruno terminou de se arrumar e, ao sair de seu quarto, deu um esbarrão em Nicole.
- Que bom vê-la - disse ele, abraçando-a com ternura.
Nicole tentou falar, mas sua garganta estava seca, mal conseguia articular som.
Seu aspecto era terrível e havia vómito sobre sua blusa.
Bruno sentiu o cheiro característico e preocupou-se.
- Você não está bem.
- Passei mal, vomitei.
Estávamos numa festa, gente da alta sociedade, eu exagerei e quando percebi estava no hospital.
- Hospital?
- Tive de tomar uma injecção de glicose na veia.
Foi então que vomitei.
Mas melhorei, recebi alta e estou aqui.
Nicole falava com uma naturalidade espantosa.
Bruno pendeu a cabeça para os lados.
- O que foi que tomou?
Nicole balançou a cabeça.
- Vamos, minha irmã, não tenha medo de me dizer. Confie em mim.
O que foi que você tomou?
Nicole estava agitada, voz pastosa, porém havia um pingo de lucidez que a deixava envergonhada, principalmente na frente do irmão.
- Eu misturei bebidas, depois eu cheirei pó.
- Você precisa se tratar.
- Fui a essa festa com Artur ontem, bebi, então alguém nos ofereceu cocaína de graça, e...
Ela não terminou de falar.
Baixou a cabeça, envergonhada.
Tinha muito carinho e consideração pelo irmão.
Bruno era seu porto seguro, fazia o papel de pai e mãe.
Ela não se importava de lhe dar satisfações.
- Você saiu com o Artur de novo?
Não se lembra de nossa conversa na semana passada?
- Sim, mas...
Bruno foi seco:
- Enrico foi preso semana passada no aeroporto.
Trazia quilos de maconha na bagagem.
E sabemos que parte dessa droga iria para as mãos de Artur.
Esse rapaz não presta de maneira nenhuma.
- E daí? O Enrico saía com a gente de vez em quando.
Mas nada foi provado contra o Artur.
- Esses seus amigos só pensam em festas, noitadas, baladas, drogas...
- Isso é que é viver, meu irmão.
- Não! - protestou ele.
De maneira alguma. Isso pode destruir a vida de todos vocês.
- Minha vida está um caos total.
- Você é tão bonita, tão jovem, podia fazer tantas outras coisas...
- Me dê um exemplo.
- Estudar, é um bom exemplo.
- Estou na faculdade.
- Não, isso não.
Você está na faculdade por hobby.
Não estuda, não leva nada a sério.
Só se importa em promover festas com seus amiguinhos endinheirados.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 9:34 pm

- Não tenho vontade de nada.
- De nada?
- Nada. Não tenho interesse em uma profissão, em nada.
A vida para mim se resume ao namoro com Artur, baladas e... - Nicole parou.
- Baladas e drogas?
Ela não respondeu.
- Quer se destruir?
- Qual o problema?
Se eu morrer hoje, ninguém vai dar falta.
Talvez uma pequena matéria no noticiário, porque sou filha do rei das farmácias.
Na semana seguinte, serão outros que vão ocupar meu lugar e fim de papo.
- Não diga isso nem por brincadeira. Eu a amo.
A jovem deixou escapar uma lágrima.
- Eu sei. Se não fosse seu amor, eu estaria morta.
- Promete que vai se afastar do Artur?
- Eu gosto muito dele.
- Nicole, por favor.
Ela desconversou:
- Vou descansar.
A parada no hospital foi cansativa, e também preciso tirar esta roupa.
Não suporto mais este cheiro.
A gente se fala mais tarde.
Ela deu um beijo estalado no rosto de Bruno, entrou no quarto, despiu-se e deslizou sob os lençóis.
Custou a pegar no sono, e, quando este veio, foi assaltada por pesadelos.
Bruno meneou a cabeça para os lados.
A situação da irmã piorava a cada dia.
Ele acreditou que as sessões de terapia estivessem surtindo efeito, mas Nicole continuava amuada, triste, abatida e cada vez mais afundada nas drogas.
Bruno não sabia o que fazer. Iria conversar com o pai logo mais.
Virgílio poderia ajudar.
Bruno e Nicole foram criados à deriva, rodeados de pessoas estranhas desde o nascimento.
Ivana nunca quis saber de cuidar dos filhos e não media esforços e dinheiro para contratar boas babás e empregadas para as crianças.
Nicole sempre se ressentira desde cedo e sentia muito a falta dos pais por perto.
Ivana nunca participara de uma festinha na escola, de uma apresentação de teatro, nunca fora a nenhuma formatura da filha.
O pai estava sempre viajando e tinha suas desculpas.
Mas a mãe dividia o tempo entre casa, salão de beleza e shopping, mais nada.
Tudo isso magoava Nicole profundamente, e assim ela foi se tornando tímida, retraída e isolada em seu mundo.
Quando as festinhas adolescentes surgiram, Ivana não tinha tempo para levar ou buscar a filha.
Isso ficava por conta dos motoristas.
Ivana mal sabia quem eram os amigos de Nicole, nunca se importara com isso.
Na festa de uma coleguinha, aos onze anos de idade, Nicole teve contacto com o cigarro.
Aos doze, numa outra festinha, conheceu uísque e destilados em geral.
Aos treze ela teve contacto com seu primeiro cigarro de maconha e aos catorze já consumia tudo isso e mais um pouco.
Ela descobriu que a droga entorpecia seus sentidos e lhe permitia entrar em contacto com outro mundo, uma realidade imaginária, mas bem melhor do que aquela com que ela deparava todos os dias.
Por uma questão de essência, Bruno cresceu feliz, temperamento sereno, sorriso sempre cordato.
Tornou-se homem bonito, constantemente assediado pelas garotas de seu meio social.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 9:34 pm

Entretanto, ele não ligava para namoro.
Achava perda de tempo namorar alguém que não tocasse seu coração.
Bruno estudou Economia por obrigação.
Virgílio queria preparar o filho para assumir a rede de farmácias, porém o jovem sempre fora avesso aos negócios do pai, ou à maneira como Virgílio os conduzia, sempre pensando em lucro e mais nada.
Durante a faculdade, surgiu a ideia de montar um tipo de farmácia que vendesse produtos mais baratos, mais em conta para a população carente.
Por meio de bons acordos com os fornecedores, ele poderia reduzir a margem de lucro e baratear os medicamentos.
Virgílio era contra essa ideia, porquanto isso diminuía em muito o lucro de suas farmácias.
Descontente com a falta de apoio do pai, Bruno associou-se a um amigo da faculdade e foi atrás de seu sonho.
O jovem sempre gostara de ajudar as pessoas, principalmente as carentes, de baixa renda.
Por isso estava sempre metido em acções voluntárias de ajuda a necessitados, fossem de favelas, comunidades pobres ou bairros bem distantes, que não possuíam adequada infra-estrutura nos quesitos saúde, educação e transporte.
O rapaz havia dois anos, passou a ter sonhos repetidos.
Sem saber ao certo o que ocorria, embora sempre ligado na intuição, Bruno acordou certo dia com a clara intenção do que tinha - e queria - fazer.
Com o dinheiro acumulado de mesada que ele regiamente depositava na poupança, ele e mais Daniel, seu amigo de turma, montaram pequena farmácia num bairro bem distante, bem pobre e carente de infra-estrutura básica.
O galpão onde instalara a farmácia tinha, nos fundos, um pequeno salão sem uso, utilizado como depósito.
Já fazia quase um ano que Bruno estava metido no negócio - sem a ajuda do pai, cabe ressaltar -, quando um pequeno grupo de jovens graduados em Serviço Social interessou-se pelo salão e quis formar um núcleo de ajuda e amparo aos necessitados.
A líder da turma era Michele, irmã de Daniel, assistente social de vinte e dois anos, negra de corpo escultural, olhos castanhos, lábios carnudos, cabelos pretos, longos e tratados à base de Henê Maru - conhecido creme alisante para cabelos.
Bruno tinha uma queda por ela, mas não queria misturar o trabalho com sentimento e tinha respeito por Daniel, que cuidava de Michele como um pai, visto que ambos haviam perdido os pais fazia alguns anos e criaram-se sozinhos.
A prefeitura passou a colaborar financeiramente, e logo muita gente passou a exigir que o pequeno salão nos fundos da farmácia, antes funcionando duas vezes na semana, fosse aberto todos os dias, de segunda a sexta-feira.
Isso era uma novidade e tanto no bairro.
Muitos moradores passaram a frequentar o local e a comprar mais na farmácia.
A procura por atendimento e orientação cresceu sobremaneira.
Logo Michele sentiu a necessidade de ampliar o local e prestar auxílio aos jovens da região que queriam livrar-se das drogas.
Bruno atirou-se de cabeça no projecto afinal, vivia esse problema dentro de casa e, mesmo com dificuldades financeiras, não se deixou cair no descontentamento.
Ele queria conversar com Nicole e ver se ela aceitaria participar de alguma reunião, mas nas poucas tentativas percebera que a irmã se esquivava, e ele jamais iria forçar Nicole a alguma coisa.
Bruno sentia que precisava ajudar a irmã.
Do mesmo jeito que sonhara com a farmácia, agora sonhava repetidas vezes com um rapaz que ele nunca vira, mas que encarecidamente lhe pedia para ficar mais próximo da irmã.
Bruno pensou em conversar com Michele a respeito dos sonhos repetidos.
Além de assistente social, ela era médium; talvez pudesse lhe dar alguma explicação.
Contudo, sempre que ele se aproximava da morena, ficava nervoso, não conseguia articular direito as palavras.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 9:34 pm

Bruno pegou a marginal do Tietê e depois de uns bons quilómetros dobrou numa larga avenida.
Continuou por um bom tempo até que a avenida foi diminuindo de tamanho, as calçadas foram sumindo, o asfalto também.
Logo seu carro deslizava sobre uma rua de terra batida, e, mais alguns minutos, ele encostou o carro defronte à farmácia.
Ele saltou do carro e foi ao encontro de Daniel, que, mal o viu, perguntou:
- Que cara é essa, rapaz?
- Estou preocupado com Nicole.
- Ela continua...
- Sim, continua metida em noitadas e drogas.
E hoje descobri que ela não está só fazendo uso da maconha.
Agora está envolvida com cocaína.
- Tem certeza?
- E como. Ela mesma disse.
Se você visse o estado deplorável em que ela se encontrava agora há pouco.
Cheia de olheiras, a pele seca e enrugada, às vezes eufórica e excitada.
Hoje chegou mais cansada porque terminou a noite num hospital.
Foi a cocaína.
Daniel preocupou-se.
- Além de viciar o indivíduo, outro problema em relação à cocaína é a adulteração pela qual o produto puro passa.
Por ser comercializada por peso, diversas substâncias são acrescidas ao produto inicial e, não raro, a cocaína chega ao consumidor final com apenas trinta por cento de pureza.
Vários produtos são misturados, como soda cáustica, solução de bateria de carro, água sanitária, cimento, pó de vidro, talco...
Vai saber o que tinha no pó que sua irmã cheirou...
- Tenho muito medo de que algo pior possa lhe acontecer.
- Conversou com Nicole para saber se ela quer participar de um de nossos encontros?
- Já pensei no assunto, mas tenho medo.
- Medo de quê? - indagou Daniel, confuso.
- Medo de que ela não queira mais me confiar seus segredos e se perca de vez no mundo do vício.
Sabe que Nicole só conta comigo.
Meus pais não estão à par do problema.
- Certa vez você me contou que um motorista da família encontrou um pacote de maconha no carro e desconfiou ser de Nicole.
Isso já era motivo suficiente para ficarem alertas.
Não tomaram nenhuma providência?
- Meus pais fecharam os olhos.
Mamãe achou natural, disse que era coisa de adolescente.
Papai ficou preocupado no início, mas depois voltou a afundar-se nos seus afazeres e esqueceu.
Pagaram terapia para Nicole e acreditaram que tudo se resolveria com algumas sessões de análise.
- Muitos pais preferem fechar os olhos para o problema e, quando o vício se agrava, eles ficam perdidos.
Daniel conversou com Bruno até que o sentiu mais calmo e despreocupado.
Aproveitou e perguntou à queima-roupa:
- Algo mais o aflige. O que é?
- Tenho sonhado de novo.
- Você tem a mente aberta e está sempre à procura da verdade.
Lembra-se dos sonhos com a farmácia?
- Hum, hum.
- Está tendo sonhos repetidos?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 8:24 pm

- Iguais aos da farmácia. Um rapaz aparece e me diz que preciso ajudar Nicole.
- Você o conhece?
- Não. Nunca o vi antes.
Daniel esboçou leve sorriso.
Puxou o amigo pelo braço e foram até a pequena sala contígua à farmácia, onde aplicavam injecções.
Os atendimentos ainda não haviam começado, e os dois rapazes puderam conversar à vontade.
Daniel fez Bruno sentar-se numa cadeira e sentou-se em outra postada à sua frente.
- Você é simpático ao Espiritismo, certo?
- Certo.
- Pois bem, o Espiritismo trouxe a primeira teoria realmente científica em relação ao sonho.
E, também, a mais completa, porquanto afirma ser o sonho desde uma manifestação puramente cerebral até o desprendimento do espírito e suas actividades fora do corpo físico.
- Você acha que, no meu caso, seria um encontro fora do corpo físico, além da matéria?
- Creio que sim.
Terminei de ler um livro de Léon Denis chamado No Invisível.
Nesse livro, Léon divide os sonhos em três categorias.
Na primeira encontra-se o sonho ordinário, puramente cerebral, simples repercussão de nossas disposições físicas ou de nossas preocupações do quotidiano.
A segunda categoria equivale ao primeiro grau de desprendimento do espírito, quando este flutua na atmosfera, sem se afastar muito do corpo; mergulha, por assim dizer, no oceano de pensamentos e imagens que de todos os lados rolam pelo espaço.
Por último, os sonhos profundos, ou sonhos etéreos.
O espírito desprende-se do corpo físico, percorre a superfície da Terra e a imensidade, visita parentes e amigos encarnados ou desencarnados, vai até as colónias espirituais, etc.
- Então tive um sonho profundo ou etéreo? - perguntou Bruno, aturdido.
Mas eu mal conheço aquele rapaz!
- Pode ser um amigo espiritual preocupado com o envolvimento de Nicole com as drogas.
Sabe que nossos amigos no astral têm uma visão mais ampla acerca dos acontecimentos que nos rodeiam.
Talvez queira alertá-lo a fim de poder ajudar sua irmã.
- Ela anda muito perturbada.
E, desde que começou a namorar o Artur, tudo piorou.
- Artur tem forte ascendência sobre Nicole.
Mas sua irmã pode escolher mudar e melhorar.
Ela tem livre-arbítrio.
- Li algo a respeito no Livro dos Espíritos, que você me deu de presente.
- Caso queira se aprofundar mais no estudo dos sonhos leia o capítulo 8 do livro.
- Por quê?
- Esse capítulo, intitulado Emancipação da Alma, trata com propriedade o sono e os sonhos.
Dê uma olhada nas questões 400 até 412, pelo menos.
Vale à pena.
- Vou seguir seu conselho.
Farei tudo que estiver ao meu alcance para ajudar Nicole.
Continuaram entabulando conversação até que em determinado momento os olhos de Bruno brilharam emocionados.
Daniel o conhecia muito bem.
- Há a possibilidade de conversar mais à fundo com Michele.
Ela é médium e entende mais de espiritualidade que eu.
Sou mero estudioso do assunto.
- Ela já chegou? - indagou Bruno, ansioso.
- Está lá no fundo, preparando as fichas para atender aqueles que necessitam de orientação.
Uma assistente social nata.
Bruno deu uma piscadela para o amigo.
Seu coração bateu descompassado.
Nunca sentira aquilo por mulher que fosse, e agora estava literalmente de quatro por aquela garota.
- Ah, Michele... - suspirou e, em seguida, ele rodou nos calcanhares e estugou o passo até os fundos do salão.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 8:24 pm

CAPÍTULO 5

Fazia pouco mais de seis meses que Octávio havia morrido.
Nesse tempo, suas filhas tentaram dar novo rumo às suas vidas.
Menos Nair. Ela continuava prostrada na cama.
Passava praticamente o dia todo deitada, dormindo, amuada, sem vontade de fazer absolutamente nada.
Nesse quadro depressivo, algo lhe fizera bem: a perda de peso.
Triste e sem apetite, Nair emagrecera bastante e voltara a ter cintura e quadris definidos.
Em compensação, os cabelos, o rosto, a pele, tudo parecia ter envelhecido anos em questão de poucos meses.
A falta de cuidados deixou-a mais velha, com aspecto doentio, até.
Nem à televisão ela queria saber mais de assistir.
Prostração total. Faltava-lhe estímulo para continuar a viver.
Letícia e Mariana passaram a administrar a casa e, com pequeno empréstimo de Inácio, fizeram mercado, pagaram as contas atrasadas, acertaram as dívidas do funeral.
Com o dinheiro emprestado, Mariana pôde continuar na faculdade de Enfermagem e concluir os estudos, finalizar o estágio.
Afinal, o ano chegava ao fim, ela estaria formada e teria chance de uma boa colocação profissional, talvez até fosse efectivada na clínica onde estagiava.
Letícia havia interrompido o cursinho preparatório para o vestibular.
Pensaria em faculdade em outro momento de sua vida.
Queria ajudar no pagamento das despesas e precisava de um trabalho.
Comprou jornais, procurou nas agências de emprego.
A situação do País continuava caótica.
A população ainda se encontrava abalada pelo confisco do dinheiro que o governo havia feito.
O Brasil parecia estar engessado, nenhuma empresa contratava, muito pelo contrário:
demitiam-se funcionários em larga escala.
De espírito batalhador, a jovem e ousada Letícia não desanimou e continuou à cata de um emprego.
Se por um lado ela não tinha nenhuma experiência profissional, por outro ela tinha simpatia e presença.
Bonita, estatura mediana, corpo bem-feito, cabelos negros e volumosos e olhos acinzentados, vivos e brilhantes, para Letícia não seria problema arrumar emprego de recepcionista ou vendedora, profissões para as quais uma boa aparência contava bastante.
Ela tentou, tentou, perseverou, até que apareceu uma vaga de vendedora numa loja de roupas femininas num dos tantos shopping centers da cidade.
O salário era comissionado, mas valia à pena.
Letícia acreditava em seu carisma, em seu potencial, e tinha certeza de que iria vencer e vender bastante.
Ela chegou à casa radiante.
Mariana ainda não havia regressado da faculdade.
A garota correu as escadas aos saltos e irrompeu no quarto de Nair.
- Mãe!
Nair levantou-se assustada.
Acendeu o abajur de cabeceira.
- O que foi? Aconteceu alguma coisa?
- Consegui um emprego! - tornou Letícia, radiante.
- Parabéns - comentou a mãe, sem um pingo de animação na voz, e voltou a deitar-se.
- O que foi?
- Nada, nada.
Estou cansada.
- Cansada de quê?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 8:24 pm

Nair não queria argumentar.
- Estou cansada de tudo.
De que adiantou me sacrificar tanto?
Seu pai morreu e agora eu não tenho mais motivo para viver.
Letícia botou a mão nas ancas.
Fazendo pose, considerou:
- Ei, que história é essa?
Muito drama para o meu gosto.
- Drama, drama...
Não foi você quem perdeu o companheiro de uma vida inteira.
- Grande coisa!
Se ao menos houvesse amor de verdade entre vocês dois, eu até lhe daria um pouco de razão.
- Não fale do que não sabe! - disse Nair chorosa, puxando as cobertas até as orelhas e encolhendo-se na cama.
- De nada vai adiantar ficar largada nessa cama.
Se quiser morrer, é melhor se internar num hospital e esperar pela morte.
Será atendida por profissionais experientes.
Eu e Mariana não temos tempo para tanta lengalenga.
Aqui em casa não quero nada disso.
- Na minha casa...
Letícia interrompeu a mãe:
- Na nossa casa, você quer dizer. Mariana está dando duro nos estudos e fazendo estágio a fim de conseguir seu diploma e boa colocação profissional.
Eu saí à cata de emprego e consegui um.
E você precisa fazer alguma coisa para melhorar, pelo amor de Deus.
- Não quero nada.
Letícia meneou a cabeça para os lados.
Estava ficando difícil tirar a mãe daquele estado depressivo.
A jovem sabia que mais cedo ou mais tarde Nair voltaria a si, era só uma questão de tempo e paciência.
Mas sua paciência com a mãe estava chegando ao limite.
Decidida a tomar um banho, ajeitou os cabelos e prendeu-os em coque atrás da nuca com uma fivela.
Nesse instante, Mariana, com sorriso aberto, adentrou o quarto da mãe.
- Que cara boa é essa? - indagou Letícia, surpresa.
- Tive uma reunião com o reitor da universidade.
Eles me deram bolsa integral.
Terei condições de me formar este ano.
Não dependerei do Inácio.
Não é uma maravilha?
Um acontecimento que merece comemoração!
Letícia exultou de felicidade e abraçou a irmã com carinho.
- Fico muito feliz que possa terminar sua faculdade sem depender de ninguém.
O mundo ficaria triste se não pudesse contar com uma enfermeira do seu porte.
- Tenho me dedicado bastante, estou prestes a terminar o estágio.
E, se tudo correr bem, o Dr. Sidnei disse que me garante uma vaga.
Creio que a enfermeira-chefe da clínica vai se aposentar em breve e uma das enfermeiras vai ser promovida.
Tudo indica que serei efectivada.
Estou feliz com os acontecimentos.
- O Dr. Sidnei é bom homem.
Sabe dar valor e reconhecer à distância um bom profissional.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 8:24 pm

Nair, ainda deitada, interveio triste:
- Quem sabe eu vá parar nessa clínica?
- Que é isso, mãe? - retrucou Mariana, estupefacta.
A clínica é geriátrica e para pessoas bem doentes.
Você mal chegou aos quarenta.
- E o que posso esperar mais da vida?
Doença e morte.
- Hoje ela está no auge do drama - ajuntou Letícia.
Não a leve tão a sério.
- Que pensamento mais impróprio, mamãe - volveu Mariana.
Não pense assim.
Por que anda tão triste?
Não acha que está na hora de dar uma trégua à dor e começar devagarzinho a viver melhor?
- Não tenho vontade de nada.
Não quero mais viver.
- Se ela continuar insistindo nisso, vai mesmo morrer - tornou Letícia.
- Não fale assim com a nossa mãe! - censurou Mariana.
- É verdade!
Sabe que há estudos científicos atestando que a força do pensamento é capaz de produzir maravilhas ou mesmo arruinar com a vida de um ser humano?
- Não creio que sejamos tão fortes assim.
- Como não, Mariana?
Perdemos nosso pai, ficamos sozinhas e sem dinheiro.
Ambas acreditamos que iríamos superar nossa dor e dar a volta por cima, fortes e unidas.
E aqui estamos.
Eu consegui emprego e você ganhou bolsa integral, não precisa se preocupar em pagar a faculdade e pode concluir seus estudos.
Isso não mostra o quanto somos fortes e estamos encarando firmes o revés em que a vida nos meteu?
E também não mostra que por conta de nossas atitudes positivas estamos sendo agraciadas pela vida?
- É - concordou Mariana -, olhando por esse ângulo...
- Esse é o único ângulo, não há outro.
Se olharmos para o lado ruim, seremos tomadas pelo desespero, medo, e nada faremos.
Ficaremos assim, paralisadas, sem acção...
Como a mamãe.
- De novo me atacando, Letícia?
- E o que quer que eu faça?
Você fica largada nessa cama o dia todo.
Vai saber Deus quais os pensamentos que povoam essa mente.
Sabe que cabeça desocupada só atrai besteira.
Não acredito que esteja tendo bons pensamentos, caso contrário estaria activa, fazendo os deveres de casa, zelando pelo bom funcionamento do nosso lar, ou mesmo procurando uma actividade que lhe rendesse algum dinheiro.
- Não sei o que poderia fazer para ganhar dinheiro.
Não tenho profissão, a não ser a de dona de casa.
Isso não dá dinheiro.
Mariana teve uma ideia.
- Por que não costura para fora?
- Costurar para fora? - Letícia exultou.
- Isso mesmo, mãe.
Você sempre foi boa de costura.
Fez curso de modista na juventude.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 8:25 pm

- Isso faz anos.
Tive pouca prática.
- Não importa.
E só começar a costurar, botar a cabeça para trabalhar, que logo tudo que aprendeu vem à tona.
O conhecimento não morre jamais.
- Vou ganhar uma ninharia, isso sim.
De que vai adiantar?
- Pelo menos não teremos de encarar essa cara feia todos os dias - replicou Letícia.
- Fala comigo como se eu fosse uma desocupada.
Não tem pena de mim?
- Não. Tenho compaixão, entendo sua dor e sei que está passando por um momento muito triste e difícil de sua vida.
Entretanto, de nada vai adiantar ficar aí parada sem fazer nada.
Ou a senhora muda ou...
- Ou? - perguntou Nair, espantada.
- Ou então pedirei pessoalmente ao Dr. Sidnei que lhe arrume uma vaga na clínica.
Vai ser bom você passar um tempo com pessoas realmente doentes, cujo corpo físico se encontra deteriorado a ponto de tirar-lhes a perspectiva de mudar de vida.
Também sou dona desta casa e tenho o direito de exigir não ver cara feia aqui dentro.
- Sua irmã é cruel - resmungou Nair chorosa, levantando-se da cama e abraçando Mariana.
- Ela está nervosa, mãe.
Letícia acalentava ir para a faculdade ano que vem e teve de interromper os estudos.
Todas nós fomos atingidas pela perda de papai.
E, neste caso, concordo com ela:
creio que de nada vai adiantar você ficar caída na cama dia após dia.
Sua atitude não vai trazê-lo de volta.
Nossa vida não é mais a mesma, e temos de lidar com a realidade.
- Não sei o que fazer - disse Nair, pondo-se a chorar.
Fazia algum tempo que Nair pensava em retomar sua vida, voltar à normalidade.
Entretanto, parecia que uma força a minava, a deixava prostrada na cama, sem vontade própria.
Ela não encontrava forças para reagir e voltar a ser dona de si.
Pura depressão.
Nesse momento, uma luz, embora invisível aos olhos das três, fez-se presente no quarto e postou-se atrás de Nair.
A intensidade da luz recrudesceu e atingiu as meninas também.
Tocada pela luz, Letícia considerou, voz amável:
- Comece ajeitando a casa.
Você sempre foi zelosa, sempre cuidou bem do nosso cantinho.
Nair gabou-se:
- Isso é verdade.
Sempre mantive a casa limpa, cheirosa, de maneira impecável.
Até seu pai, que não era dado a elogios, admirava meu serviço.
- Retome esse gosto.
Nós e a casa agradecemos.
Mariana ajuntou:
- E que tal começar por uma sopa de legumes bem caprichada?
- Não sei...
- Mariana tem razão.
Está friozinho, e uma boa sopa vai nos esquentar - tornou Letícia, voz afável.
Estou com saudades de sua comida, do seu tempero.
- E poderemos nos sentar à mesa, como fazíamos sempre - disse Mariana.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 8:25 pm

Não sentamos juntas à mesa desde que papai morreu.
Que tal esta noite?
Nair balançou a cabeça e mordeu os lábios.
- Você tem razão.
Desde que seu pai morreu, não sentamos as três juntas na mesa da cozinha.
- Isso mesmo, mamãe. Reaja.
E, ademais, saiba que nós a amamos muito.
Mariana beijou a mãe nas faces e foi ao banheiro, junto com a irmã.
- Quando sair - volveu Letícia -, quero sentir o cheiro de sopa, hein?
Nair sorriu. Fazia tempo que não sorria.
Sentiu-se mais animada, com mais força para retomar sua rotina e vencer a melancolia.
A luz ainda se fazia presente no quarto e parecia colar-se nela.
Nair respirou fundo, espreguiçou-se e resolveu.
Um bom começo seria descer e preparar o jantar.
- Minhas meninas têm razão: todas precisamos nos alimentar adequadamente.
Ela calçou as chinelas e desceu para a cozinha.
Acendeu a luz, abriu a geladeira, pegou alguns legumes e levou-os até a pia.
As lágrimas escorriam sem cessar, e, enquanto descascava cenouras e mandioquinhas para a sopa, Nair fez um balanço de sua vida.
Sentia-se impotente para mudar, não conseguia enxergar um futuro promissor pela frente.
Como poderia?
Estava perto dos quarenta, sem profissão, viúva, sem dinheiro e com duas filhas ainda necessitando de sua ajuda.
Teria valido a pena largar seu amor por conta de um punhado de dinheiro?
Sua vida podia ter sido tão diferente...
Enquanto ela pensava e chorava de mansinho, uma voz familiar tentava acalmá-la:
- Você fez o que foi melhor.
Vivia pobremente e, diante dos fatos, preferiu ter seu filho e dar-lhe um lar.
Você pensou no filho que carregava no ventre e em mais ninguém.
Sua atitude foi nobre diante das forças que regem a vida.
Você fez o melhor que pôde.
Creio que está na hora de largar o passado e seguir adiante, sem culpa nem remorso.
Nair não saberia dizer se aquela voz era sua, da intuição ou do espírito santo.
Estava muito emocionada para tirar conclusões.
No entanto, aquela voz teve o dom de acalmar seu coração.
Pela primeira vez em meses, desde a morte do marido, Nair sentiu seu coração pulsar mais leve e suas costas ficarem menos sobrecarregadas de culpas, medos e frustrações.
Ela suspirou aliviada, esboçou leve sorriso e continuou concentrada no preparo do jantar.
Ao lado dela, a luz que se fizera presente, instantes antes no quarto começou a tomar forma.
Logo o espírito de um senhor aparentando não mais que sessenta anos de idade fez-se presente e sorriu-lhe feliz.
Homero, quando vivo, tinha sido homem bruto, sem escrúpulos.
E agora, anos e anos vivendo em outra dimensão, no mundo espiritual de facto, tinha clara noção dos desatinos que cometera e tentava, a todo custo, consertar ao menos uma parcela do estrago feito anos atrás na vida de Nair.
O espírito aproximou-se dela e delicadamente acariciou-lhe as faces.
O corpo dela estremeceu levemente.
- Minha menina, tenho certeza de que tudo vai se resolver.
Enquanto você não me perdoar, não vou sossegar e não vou partir.
Farei o que for possível para ajudá-la a reconquistar a felicidade.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 8:25 pm

CAPÍTULO 6

Inácio entrou em casa e subiu apressado para o quarto.
Estava decidido a procurar Mariana, abrir seu coração e namorá-la.
Convicto de seu amor achava que o tempo estava passando rápido demais.
Era hora de tomar uma atitude.
Íngrid chegou logo em seguida.
Estava se aprontando para um jantar de gala.
- Tentei falar com você o dia todo, mas sua secretária não deixou.
- Tive tantos problemas no escritório hoje.
Sou engenheiro responsável, e a directoria da Centax conta com minha dedicação.
Isabel sabe que, quando é urgente, deve passar a ligação.
Íngrid sorriu. Admirava a competência e dedicação do filho.
- Realmente não se tratava de assunto urgente.
- O que você queria?
- Sua irmã vai passar uns dias connosco.
Inácio sorriu feliz.
- Tenho muita saudade de Sílvia. O papai vem também?
- Seu pai está namorando - rebateu ela, num tom ríspido.
Inácio percebeu o tom irritado da mãe, mas procurou disfarçar:
- Ele está firme com a Júlia?
- Parece que sim.
As más-línguas dizem que Júlia estava noiva, mas o rapaz descobriu em tempo que se tratava do bom e velho golpe do baú.
Tenho medo de que seu pai sofra.
- Mãe! - protestou Inácio.
- Não estou sendo cínica, nem mesmo irónica.
Seu pai é adulto e sabe o que é melhor para si.
Eu nunca me meteria em sua vida.
Aloísio é atraente, continua bonito, os fios grisalhos lhe conferem ar sedutor.
Todavia, tenho amigas na alta sociedade carioca e sei que essa moça não morre de amores pelo seu pai.
Júlia estava noiva daquele banqueiro, parente dos Guinle...
Inácio fez sinal com a mão, interrompendo a mãe.
- Papai sabe se safar das oportunistas.
Ele precisa de companhia, é diferente de você.
- De mim? - ela protestou.
- Você é auto-suficiente.
Seu sangue nórdico é bem diferente do sangue latino que papai carrega nas veias.
Ele gosta de ser paparicado, precisa ter alguém que o espere após o trabalho em casa.
- Eu sempre amei seu pai.
O meu sangue nórdico entendeu perfeitamente quando ele escolheu uma companhia mais jovem ao seu lado.
Aloísio esqueceu que ambos começamos a envelhecer. Ambos!
Seu pai não aceita os avanços da idade.
Acredita que desfilar com uma menina a tiracolo vai lhe trazer status, vigor e juventude. Não vai.
- Não quero me meter.
Em todo caso, se essa moça não estiver apaixonada, papai vai descobrir. Ele é esperto.
- Pode ser. Aloísio foi criado em fazenda, no pasto.
Ele aprendeu a distinguir uma ovelha de uma vaca.
Inácio riu gostoso.
- Você é muito divertida.
Aproximou-se e abraçou-a.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 8:25 pm

- Se para mim não foi fácil aceitar a separação, imagino como você ainda deve estar se sentindo.
Íngrid sentiu os olhos marejarem.
Ela percebeu o quanto Inácio sofreu com a separação e passou a viver desconfiado das meninas, fugindo dos compromissos.
Agora que ele parecia feliz e dava largas ao coração, não era justo preocupá-lo com seus problemas afectivos.
Íngrid respirou fundo e procurou ocultar sua fragilidade.
- Seu pai escolheu seu caminho.
Aloísio fez sua escolha e terá de arcar com as consequências.
Infelizmente não posso fazer nada.
Não tenho mais a ilusão de que seu pai volte para meus braços.
Entretanto, não gostaria que ele sofresse uma desilusão amorosa.
Nessa altura de sua vida, tal ocorrência seria devastadora.
– Ingrid mudou o tom.
- Bom, como seu pai sabe se safar das golpistas creio que ele vai saber direitinho o que fazer com essa tal de Júlia, caso ela esteja mais apaixonada pelo seu património do que por ele.
- Não devemos nos meter. Papai está bem.
Falei com ele ontem ao telefone, e ele estava bastante feliz.
Íngrid apertou a língua contra o céu-da-boca.
Tinha vontade de dar um grito, desabafar, mas precisava mostrar-se forte diante do filho.
- Torço para que seu pai seja muito feliz.
Aloísio merece.
Inácio terminou de ajeitar os cabelos e mudou o assunto.
- Quando Sílvia chega?
- Amanhã, na hora do almoço.
- Vem de avião?
- Sim, vem de ponte aérea.
- Quer que eu vá buscá-la?
- Não. Dedique-se ao seu trabalho.
Eu mesma irei. Já conversei com Ismael e acertamos o horário.
Vou buscá-la no aeroporto e seguiremos até um shopping.
Vamos almoçar fazer umas compras.
Assim que chegar do escritório, você nos encontra.
Podemos marcar e sair para jantar, os três juntos. O que acha?
- Óptima ideia. Vou reservar mesa para nós no seu restaurante predilecto.
- Não sei ao certo.
Sílvia é enjoada para comer.
Disse-me que só come peixe.
- Então vamos àquele restaurante japonês em Moema. O que me diz?
- Óptima pedida.
Sua irmã vai adorar o local: bem frequentado, ambiente agradável, e os donos são bem simpáticos.
- Combinado.
Vou pedir para Isabel fazer as reservas.
Inácio falava e ao mesmo tempo procurava uma jaqueta no armário.
- Está apressado por quê? - indagou Íngrid.
- Vou até a casa de Mariana.
Quero oficializar nosso namoro.
- Fico tão feliz! - suspirou Íngrid.
Mariana é óptima moça.
É bonita, boa família e independente.
- É um pouco ciumenta - ajuntou ele.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 8:26 pm

- Ciumenta?
- É. Mariana se faz de segura e forte, mas no fundo morre de ciúmes.
- Até eu sentiria, com essa Teresa por perto...
Inácio riu.
- Está falando sério?
- Sim. Ela não larga do seu pé.
Por que tem estreitado tanto a amizade?
Até agora não entendi por que ela largou tudo no Rio de Janeiro e veio atrás de nós.
Nunca fomos íntimos.
- Ela terminou o namoro, está se sentindo só.
- Ela sabe que você está comprometido?
- Sim. Eu disse a ela que estou apaixonado por Mariana.
- E qual foi a sua reacção?
Não vá me dizer que ela aceitou numa boa.
- Qual o problema? Teresa é boa moça.
Ela tem liberdade para se abrir comigo, mais nada.
- É raro uma mulher confiar seus segredos a um homem, a não ser que ele seja gay.
- Olhe o preconceito...
Íngrid levantou-se impaciente.
Apoiou-se no braço de Inácio.
- Meu filho, se fosse outra mulher, eu tentaria compreender.
Não sou preconceituosa, você sabe disso.
Tenho a mente aberta, respeito às pessoas, aprecio as diferenças.
E creio que possa haver amizade sincera entre um homem e uma mulher.
Mas, no caso de Teresa, isso não cheira bem. Tome cuidado com ela.
Inácio sorriu, mostrando os dentes alvos e enfileirados.
- Eu me cuidarei.
Ele apanhou uma jaqueta.
Vestiu-a e rogou:
- Torça por mim e Mariana.
- Vocês serão felizes juntos - finalizou Íngrid, sincera.
Inácio estalou um sonoro beijo na bochecha da mãe.
- Deus a ouça. Ficar com Mariana é o que mais quero na vida.
- Mas todo cuidado é pouco.
- Ah, mãe - Inácio fez gesto com a mão.
Teresa e eu saímos algumas vezes, e mais nada.
Somos bons amigos. Não tem nada a ver.
- Algo me diz que ainda tem a ver.
Teresa acalenta um dia casar-se com você.
Acha que ela se mudou para São Paulo a troco de que?
Crê que ela se cansou das belezas do Rio e resolveu vir de mala e cuia para cá?
Assim, de repente?
- Não acredito nessa história.
Você está afirmando isso ou ouviu alguma coisa?
- Os boatos correm...
Inácio interrompeu-a.
- Não podemos confiar em boatos.
- Meu instinto de mãe diz que Teresa é perigosa.
- Impossível.
- Fique atento.
- Não creio ser necessário.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 8:26 pm

Íngrid afastou-se do batente da porta e fez sinal com os dedos para o filho.
Inácio acompanhou os movimentos da mão e espantou-se ao olhar para o aparador próximo à porta do quarto.
Sobre o móvel, um vaso acolhia enorme ramalhete de cravos vermelhos.
- O que é isso?
- Leia o cartão - sentenciou Íngrid.
Inácio aproximou-se do móvel e apanhou o pequeno envelope branco.
Abriu-o e leu o cartão:
"Querido Inácio,
Nossa conversa ontem foi bastante prazerosa.
Gostaria de repetir. Que tal novo encontro?
Aguardo sua ligação.
"Com amor, Teresa"

- Mãe, você está toda preocupada, só por causa disto?
- Bom, ainda acho que você deve tomar providências.
Não gostaria que ela prejudicasse seu namoro.
Gosto de Mariana.
- Você está vendo coisas demais.
Isso é só um agradecimento.
Tivemos uma conversa longa acerca do término do namoro dela com tal de Artur, mais nada.
- Então resolva a situação a contento.
Quanto mais rápido, melhor.
O jovem assentiu com a cabeça e saiu.
Otília e Ivana almoçavam num elegante e badalado restaurante, repleto de figuras da alta sociedade, empresários, artistas e políticos.
Era o restaurante da moda na cidade.
Ivana curvou o corpo sobre a mesa e baixou o tom de voz:
- Sabe que Teresa Aguilar está noiva do Inácio Menezes?
Otília suspirou triste.
- Dizem as más-línguas que essa menina aprontou no Rio de Janeiro, sumiu por uns tempos e veio fugida para cá.
- Mentira, tudo inveja.
- Conheço a família de Inácio.
Sua mãe é mulher extraordinária.
Deve estar triste com o namoro do filho e Teresa Aguilar.
Ela não é boa pessoa.
- Como sabe?
- Fiquei sabendo que Teresa namorava um fotógrafo na cidade, viciado em drogas.
Ivana deu de ombros.
- E quantos não se drogam nesta cidade?
- Teresa sustentava o vício do namorado, desde que ele tirasse umas fotos, digamos, comprometedoras de pessoas com as quais ela não simpatizava, somente para causar estrago e infelicidade a essas pessoas.
E às vezes arrancar-lhes dinheiro.
- E daí?
- O Artur fazia o trabalho, tirava as fotos e era fartamente recompensado em drogas, de espécies variadas.
Mas de uma hora para outra a Teresa resolveu apostar as fichas no Inácio Menezes e houve uma briga feia entre ela e o Artur.
Ela o ameaçou e dizem por aí que a prisão do Enrico...
- O playboy pego com droga no aeroporto?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 8:26 pm

- Esse mesmo - tornou Otília, preocupada.
Dizem que a Teresa armou uma cilada para a polícia prender o Artur, mas ele se safou.
Ela queria se vir livre dele e agora o rapaz a chantageia.
- Tudo invenção. Pode acreditar.
Otília baixou o tom de voz.
- Disseram-me que esse rapaz está namorando sua filha.
- E daí? Nicole é dona de sua vida.
- Não teme pela integridade de sua filha?
- Por quê?
- Ivana, você é mãe!
Ela impacientou-se.
Apanhou o cardápio e abriu-o.
Prosseguiu voz fria.
- Você não pode dizer nada sobre filhos. Nunca os teve.
- Mas tenho experiência de vida e sou sua amiga.
De certo modo, sinto que algo muito ruim pode acontecer a Nicole.
- Ela que se dane - disse Ivana, incisiva.
Não quero mais falar na minha filha.
Se continuarmos com esse lero-lero, vou perder o apetite.
Otília engoliu seco.
Mudou o assunto.
- E, por falar em filhos, como está Bruno?
Faz tempo que não o vejo em nossas festas e jantares.
- Esse parece odiar a riqueza - esbracejou Ivana.
Vive metido na periferia, vendendo remédio barato, promovendo trabalhos assistenciais, essas bobagens de gente com o coração mole.
- Bruno tem carácter, é íntegro. Gosto muito dele.
- Não sei por que vocês têm essa mania de querer pegar pessoas ignorantes e pobres e promovê-las, dar-lhes melhores condições de vida.
- Faz parte da vida, Ivana.
Ajudar as pessoas é algo bastante gratificante.
Quando descubro um artista em potencial, não tenho dúvidas: eu o ajudo a especializar-se, melhorar seu trabalho e mostrar seu talento ao mundo.
Se tivermos bastante dinheiro, é bom dividir com quem acreditamos valer à pena.
- O nosso mundo é dividido em classes, em castas.
Pobre deve ficar no seu lugar e rico no seu.
Branco com branco, preto com preto.
A mistura nunca deu certo.
É como óleo e vinagre.
- Não seja tão dura e preconceituosa, minha amiga.
- Sou realista.
- Por que essa visão distorcida acerca do mundo?
Por que não revê valores para mudar suas atitudes?
- Estou bem assim, obrigada.
- Você está plantando hoje o que vai colher amanhã.
Não custa nada mudar essa postura fria e arrogante.
Ivana foi incisiva:
- Sou sua amiga porque nunca me censurou.
Vai vir com aulas de auto-ajuda?
Acha que vou cair nessa baboseira de melhorar minha cabeça para ter uma vida melhor?
- Isso mesmo - sentenciou Otília.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 8:26 pm

- A minha vida está boa, oras.
Às vezes não sei por que sou sua amiga. Somos tão diferentes.
Como posso gostar de alguém que jura acreditar em duendes?
As duas riram a valer.
Otília gostava das tiradas bem-humoradas de Ivana.
- E o casamento, como anda?
- De mal a pior.
Daqui a alguns meses eu e Virgílio assinaremos os papéis da separação.
- Vocês nunca se deram bem mesmo.
Quem sabe você não vai começar uma nova etapa?
- Sem dúvida - afirmou Ivana.
Fizemos belo acordo financeiro no passado, e creio que nada vai dar errado.
Não agora, depois de tantos anos.
- Você nunca me contou direito essa história.
- Não interessa, vai acabar.
O que posso lhe dizer é que, se quiséssemos nos separar antes do prazo, todo o nosso património iria para o Bruno e a desmiolada da Nicole.
- Mesmo?
- Sim. Imagine a cena: o Bruno distribuindo dinheiro aos pobres e a Nicole comprando montanhas e carreiras de cocaína.
Otília meneou a cabeça para os lados.
Embora fossem amigas, havia muitos pontos em que ela discordava de Ivana.
Ela chegava a ficar zonza com os ataques que Ivana destilava contra tudo e contra todos.
Precisava de clima agradável para o almoço.
- O que acha do Dr. Sidnei?
Ivana sorriu.
- Sidnei é excelente partido.
Ele está no topo da minha lista. Vou confessar-lhe algo.
- O que é?
- Eu e Sidnei tivemos um namorico na adolescência.
- Vocês foram namorados?
- Faz muitos anos, mas ele gostava muito de mim.
- E por que não ficaram juntos?
Ivana fez muxoxo.
- Oras, Sidnei era um pé-rapado, não tinha onde cair morto.
Entre viver uma história de amor passando fome e um casamento sem amor polvilhado com robusto saldo no banco, preferi o último.
- Sidnei deve ter sofrido muito.
Parece homem correcto, amoroso.
- Ele nunca se casou.
Creio que goste de mim até hoje.
- Espero que Sidnei ainda nutra algum sentimento por você.
- Eu também.
- Está na hora de ir comigo até a cigana - replicou Otília, séria.
- Que cigana Otília?
- A que faz leitura da mão.
Você deve ir comigo.
Ivana fez ar de mofa.
- Você é tão inteligente...
Não sabia que era dada a crendices.
- E daí? Acredito em tudo.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 8:27 pm

Uma vez precisei tomar uma decisão muito séria, que poderia mudar os rumos de minha vida.
Era uma fase em que eu estava muito insegura, o casamento com Adamastor não ia bem.
- Por que não rezou? - indagou Ivana, lacónica.
- Eu rezei. Mas sentia grande desconforto interior.
Foi então que uma amiga me indicou a cigana.
- Não acredito nessas idiotices.
E o que mais ela fez para você?
- Nada. Mas minhas amigas não saem de lá e...
- Um bando de mulheres inseguras, isso sim.
Eu jamais pediria opinião a um estranho para dirigir minha vida.
- O que custa tentar?
De repente ela pode dar uma olhada na sua mão e dizer se Sidnei está mesmo na sua linha de destino.
- Não vou dar dinheiro a essas charlatonas desocupadas.
- Essa mulher até que é boa.
Tem um monte de gente - Otília fez largo gesto, e juntou os dedos - que a procura.
Dolores é poderosa.
- Sabe que não gosto disso.
Nunca precisei saber do meu futuro ou coisas do género. Sou dona de minha vida.
- Mas não custa nada tentar - atiçou Otília.
E se porventura Sidnei estiver interessado em outra?
Você terá tempo de agir e cortejá-lo.
Ivana riu.
- Quanta fantasia, Otília!
Não sou mais adolescente.
- Se quiser, é só me dizer.
Vamos aos pedidos?
Otília fez gracioso gesto ao garção.
Enquanto isso, Ivana ficou pensativa, alheia a tudo, por instantes.
Sidnei era muito bonito, um partidão, e também era bem discreto.
Podia estar enrabichado por alguma fulana e ela nem soubesse.
Até que não era má ideia saber se o caminho estaria mesmo livre para ela.
Seria um desgaste a menos na sua vida.
- Está certo.
Qualquer dia vamos procurar essa Dolores.
Vamos ver o que ela tem a me dizer.
A noite estava fria e a garoa caía fina.
Passava das nove quando Inácio chegou à casa de Nair.
Tocou a campainha e Mariana atendeu.
- Estava aflita. Você demorou.
- Trânsito e garoa.
- Combinação perfeita! - exclamou ela.
- A Avenida Radial Leste está entupida de carros, e a garoa faz todos dirigirem com prudência.
- Entre, acabei de passar café.
Inácio adentrou a casa, tirou a jaqueta húmida e beijou Mariana próximo ao lábio.
Ela corou de prazer e desconversou.
- Mamãe e Letícia descem logo.
- Não quero atrapalhar.
- Estão assistindo novela lá em cima - ela apontou.
- Estava com saudades.
- Eu também.
- Temos nos falado bastante ao telefone, mas mal a tenho visto.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 8:27 pm

- A faculdade, o estágio...
Estou me esforçando bastante, e deverei ser efectivada na clínica.
- Gosto muito da clínica do Sidnei.
É conceituada, tem credibilidade.
- Não tenho tido tempo para sair.
- Precisamos conversar.
- Sobre o quê? - perguntou Mariana, desconfiada.
- Sobre nós.
A jovem estremeceu.
Algo dentro dela dizia que o namoro iria se transformar em compromisso mais sério.
Todavia, sua cabeça apontava o contrário.
Tomada pela insegurança, Mariana sempre esperava pelo pior.
Procurou ocultar a emoção servindo o cafezinho.
- O que quer falar? - indagou, num tom impessoal.
Inácio sentou-se no sofá e espantou-se com tamanha frieza.
- O que acontece?
- Nada.
- Você ficou fria de repente.
- Nada de mais - tornou ela.
- Quero oficializar nosso namoro.
Mariana derrubou a xícara. Inácio acudiu-a.
- Sou uma desastrada mesmo.
- Está feliz?
Ela balançou a cabeça para cima e para baixo.
Esperava pelo pior, e tudo não passava de pensamentos fúteis e desgastantes.
Mariana sentiu vergonha de si mesma por pensar de maneira tão negativa acerca do iminente namoro.
Inácio era bom moço, e ela achava que esse namoro era bom demais, que talvez ela não merecesse tanto.
Inácio esperou-a limpar-se e servir-se de nova xícara de café e tornou amoroso:
- Conversei com minha mãe hoje e cheguei à conclusão de que quero namorar você, e gostaria de falar com a Dona Nair.
Mariana corou de prazer novamente.
Suas faces ficaram vermelhas.
Estava apaixonada por Inácio e hesitava entre o medo da rejeição e o desejo de revelar ao moço o que ia a seu coração.
- Estou apaixonado e gostaria de namorá-la, buscá-la na faculdade ou no estágio quando possível levá-la para passear, viajar nos fins-de-semana, ouvir os discos de Maria Bethânia ao seu lado.
Quero estar cada vez mais perto de você.
Mariana não teve tempo de resposta.
Inácio aproximou-se e beijou-a demoradamente nos lábios.
Ela sentiu o chão sumir e corpo estremecer.
Beijaram-se com amor.
- Eu a amo.
Quero que seja a mãe dos meus filhos.
Você consegue entender isso?
- Sim. Não sei explicar, mas me apaixonei por você desde aquele almoço meses atrás.
Parece que o conheço há tanto tempo, como se estivesse com grande saudade, e agora me sinto mais calma.
- Seremos felizes, você vai ver.
- E aquela garota, continua no seu pé?
- Que garota?
Mariana fez gesto vago com a mão.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 8:27 pm

- A Teresa Aguilar.
Vocês têm-se visto?
- Não.
- Sinto algo estranho no peito quando a imagem dela vem à minha mente.
Não gosto dela.
Inácio abraçou-a e delicadamente encostou a cabeça da namorada em seu peito.
- Não ligue para isso.
Não vamos deixar que os outros nos ameacem.
Nós nos amamos, e creio que não há nada mais forte do que nosso sentimento para combater os comentários maledicentes dos outros.
A nossa força no bem é capaz de superar qualquer obstáculo.
- Não creio nisso.
- Por que tamanho pessimismo?
- Sinto que ela está apaixonada por você.
- Por que tanta certeza?
- Tive um sonho umas duas noites atrás.
- Um sonho? - indagou Inácio, surpreso.
- É, um sonho. Muito estranho.
Eu me vi rodeada de cravos vermelhos.
Eu andava e os cravos me perseguiam.
Corri, corri e, quando não tinha mais saída, fiquei atónita.
Então vi o rosto de Teresa.
Ela ria e gargalhava da minha cara assustada.
Acuei-me num canto e ela gritava:
- Afaste-se de Inácio.
Ele é meu, só meu.
Inácio gelou. Sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.
Lembrou-se dos cravos que recebera horas atrás.
Talvez fosse uma grande coincidência.
Ele afastou os pensamentos com as mãos e procurou esquecer.
"Tinha certeza de que era tudo mera coincidência, nada mais que isso."
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 10:37 pm

CAPÍTULO 7

Sílvia chegou à capital numa manhã nublada, tão nublada quanto seus sentimentos.
Triste e abatida, ela desceu as escadas do avião, contemplou ao redor e, através de seus grandes óculos escuros, vislumbrou o céu encoberto.
A jovem respirou fundo.
Precisava seguir adiante.
Passara as últimas noites sem conciliar o sono.
De uma hora para outra decidira:
tinha de vir a São Paulo e passar um bom tempo ao lado da mãe e do irmão.
Talvez eles pudessem ajudá-la a esquecer.
Sílvia não queria nem pensar no nome do rapaz.
Ela sentia-se profundamente rejeitada e triste.
Era moça bonita, loira como a mãe, cabelos lisos e sedosos.
Os olhos verdes contrastavam com o nariz fino, a boca delicada e o queixo arredondado.
Era disputada pelos rapazes, mas seu coração escolhera justamente apaixonar-se por um canalha.
Sílvia foi alertada pelas amigas, pelo pai, mas não resistiu.
Entregou-se de corpo e alma na relação, e agora, alguns anos depois, o resultado não poderia ser pior.
Estava desiludida, sem chão, sem rumo.
Ela tirou três grandes malas da esteira e colocou-as sobre o carrinho.
Estava com saudade da mãe.
Íngrid era sua amiga.
Sílvia precisava desabafar chorar, sentir o carinho e os braços ternos da mãe alisando seus cabelos, dando-lhe conselhos.
Caminhou célere e, no desembarque, seus olhos procuravam ansiosamente pela figura da mãe.
Até que os olhos de ambas se cruzaram.
Sílvia sentiu emoção sem igual.
Correu até Íngrid.
Abraçaram-se com amor.
- Oh, filha! Quanta saudade!
- Eu também estava saudosa, mamãe - volveu à jovem, chorosa.
- Moramos em cidades próximas, no entanto mal temos tempo de nos ver.
Gostaria que ficasse mais tempo comigo, e não só alguns dias.
Sílvia fez sinal com o dedo.
- Olhe minhas malas.
Acha que toda essa bagagem é para ficar apenas o final de semana?
Íngrid corou de prazer e satisfação.
- Vai ficar comigo por um bom tempo?
- Creio que sim.
Íngrid abraçou-a feliz.
- Você escolheu continuar no Rio, não quis se mudar para São Paulo comigo e seu irmão.
Sentimos muito a sua falta, entretanto você não queria distanciar-se de seus amigos e principalmente de Mateus.
Sílvia fez cara de poucos amigos.
Íngrid havia alertado a filha.
Sabia do carácter de Mateus e tinha certeza de que o desfecho daquele romance seria muito doloroso para sua pequena.
Íngrid foi incisiva:
- Como anda seu namorado?
A jovem não respondeu, e Íngrid percebeu os olhos tristes e marejados da filha, mesmo escondidos sob os óculos escuros.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 10:37 pm

Sílvia encostou a cabeça no ombro da mãe e disse chorosa:
- Oh, mamãe, sinto-me perdida, tão insegura!
A vida não tem sorrido para mim.
- O que está acontecendo?
- Estou muito triste.
Íngrid fez sinal para o motorista. Ismael acelerou e emparelhou o carro no meio-fio, desceu e cumprimentou Sílvia.
Ela respondeu com um aceno de cabeça.
Ismael pegou as malas do carrinho e colocou-as no porta-malas do veículo.
- Para casa, Dona Íngrid?
Ela acariciou os cabelos sedosos e volumosos de Sílvia.
- Creio que iremos ao shopping, dar uma volta, espairecer.
Depois almoçaremos num bom restaurante.
O que acha minha filha?
- Óptima ideia. Preciso desabafar.
- Vamos.
Ambas entraram no carro e continuaram a conversa.
Íngrid arriscou:
- Você e Mateus terminaram?
Sílvia fez sinal positivo com a cabeça.
- Quer falar a respeito?
A menina suspirou, limpou as lágrimas com as costas das mãos.
- Sim.
- Não quero ser chata, mas quantas vezes eu a avisei?
- Eu sei mãe, mas...
- Nem, mas, nem meio, mas.
O Rio de Janeiro inteiro sabe que Mateus sempre foi apaixonado por aquela pequena, a Paula Mendes.
Você se arriscou muito.
- Ele me jurou que estava tudo acabado entre eles.
- Eles viviam rompendo o compromisso.
- Ficamos dois anos juntos.
- O tempo não quer dizer nada, minha filha, principalmente quando as relações terminam de maneira dúbia, sem clareza.
- Eu estava apaixonada. Ele me cortejou.
Aí a Paula começou a namorar com outro, então me senti segura a continuar.
E descobri que faz mais de um ano que ela e Mateus se encontram às escondidas.
Uma amiga os flagrou aos amasso na Barra.
- Isso é verdade?
- Sim. Fui tirar satisfações, e sabe o que o infeliz me disse?
Que ainda a ama.
Íngrid suspirou.
- Pelo menos ele foi sincero.
Você sempre soube do risco que corria.
No fundo, sabia que havia forte possibilidade de ele reatar com a Paula.
- Oh, mamãe. Eles marcaram casamento.
Distribuíram os convites.
Isso eu não posso aguentar.
Não tenho sangue de barata.
Resolvi passar uns tempos aqui em São Paulo até que tudo se normalize.
- Vão se casar? Para valer?
- Isso mesmo.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 10:37 pm

Ela aprontou, fez cena, disse estar grávida.
E o pior: o Mateus acreditou.
Disse para mim que ainda nutre sentimentos por ela e tem responsabilidade, acima de tudo.
Fiquei tão nervosa!
- Ele deve estar confuso.
- Pô, mãe!
Eu fui super-compreensiva, disse que não me importava, que ele podia ter o filho com ela, poderia visitá-lo, etc., etc.
Ele nem me deu ouvidos.
No dia seguinte estava desfilando com ela lá na Marina da Glória.
Saiu até notinha no Globo.
- Não ligue para notinhas de jornal.
Fez bem em voltar.
- Quero ficar com você e Inácio.
- E seu pai?
Concordou com sua vinda?
- Papai nem liga mais para mim.
Íngrid defendeu o ex-marido:
- Seu pai é homem ocupado, tem muitos negócios.
Sílvia fez ar de mofa.
- Qual nada! Papai está apaixonado.
- Estou sabendo.
- Marcou casamento com a Júlia.
Íngrid fez um esgar de incredulidade.
- Não pode ser!
- Sim. Parece que ele foi fisgado de verdade.
- Pensei que fosse romance passageiro.
- Mas não é. Quer dizer, não parece.
Íngrid não sabia o que dizer.
Aquilo era duro de engolir. Nervosa, retrucou:
- Seu pai caiu nas garras da Júlia Albuquerque?
Os comentários chegaram até mim, mas achei que fosse passageiro, nada de compromisso sério.
Tem certeza de que vão se casar?
- Hum, hum.
- Ainda não consigo acreditar.
- Você e Inácio vão receber o convite em breve.
- Seu pai sempre foi tão esperto!
- Dessa vez ele parece cego.
Você nem imagina.
Precisa ver para crer.
- Sério?
- Uma loucura!
Papai está apaixonadíssimo.
Disse-me que, se a Júlia quiser, ele se casa num estalar de dedos.
- Não, seu pai não disse isso.
- Disse, sim, mãe.
Ele está disposto a levar essa sandice adiante.
- E você chegou a dizer a Aloísio que acha isso uma loucura?
- Sim.
- E ele?
Sílvia sorriu e balançou a cabeça para os lados.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 10:37 pm

- Falou que estou com ciúmes porque a Júlia tem a minha idade.
Papai disse para não me preocupar, porque ele continuaria me amando e viveríamos os três felizes, lá no Joá.
- Seu pai endoideceu.
- De vez. A Júlia foi minha amiga de colégio.
Frequentava nossa casa e papai nunca a notou.
Ela ficou noiva do pai da Estelinha ano passado e, quando o Dr. Alaor sentiu cheiro de golpe no ar, desmanchou o noivado.
A Júlia deu escândalo, mas depois mudou a estratégia e se encostou naquele jovem banqueiro.
Esse era descolado e sentia cheiro de golpista a larga distância.
Júlia não obteve sucesso com ele, mas finalmente encontrou alento em papai.
O negócio dela é dinheiro, mais nada.
- Aloísio é adulto e sabe se cuidar.
- Se o papai descobrir que ela está com ele somente por dinheiro, vai ser pior.
- Por que diz isso?
- Está se sentindo velho.
- Velho? Seu pai tem cinquenta e dois anos de idade.
Está bonito, corpo em forma e saudável.
- Mas sente-se velho.
Júlia o faz se sentir jovem, cheio de vida.
E como se fosse um troféu que ele carrega para cima e para baixo e adora mostrar aos amigos.
- Quanta insegurança!
Seu pai sempre foi tão inteligente...
- Nem tão inteligente assim.
Ele se separou de você.
- Isso não tem nada a ver.
- Como não? Você o amava.
Íngrid estremeceu por um instante. Sílvia continuou:
- Ele chegou e terminou, rompeu um casamento sólido e feliz.
E tenho certeza de que estava se sentindo no limite, meio velho, sem perspectivas.
Algo me diz que papai ainda vai voltar para você.
- Não diga uma coisa dessas.
Nem por brincadeira.
- Você ainda o ama, não é?
Íngrid não mentia para os filhos.
E não queria representar para Sílvia.
- Nunca deixei de amar seu pai.
Entretanto, a escolha foi dele.
E, diante disso, fui obrigada a mudar minha vida, a fazer as minhas próprias escolhas também.
Mudei de cidade, reconstruí a vida ao lado de seu irmão.
Você não quis vir por conta do namoro com Mateus e dos seus amigos.
Agora estou bem. Superei a dor, o mal-estar.
É muito triste chegar à meia-idade e ver que seu casamento ruiu mesmo recheado de boas lembranças e feliz.
Senti-me incompetente no início, como se tudo que fizera nesses quase trinta anos não tivesse valido a pena.
- Mas valeu né?
Íngrid sorriu.
- Sim. Hoje percebo que muita coisa valeu à pena.
Você e seu irmão, por exemplo.
Tenho muito orgulho de ambos.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 10:37 pm

Inácio e você são a razão de minha existência.
Sílvia abraçou-a.
- Eu a amo muito, mamãe.
- O seu amor e o de Inácio para mim bastam.
Eu e seu pai cumprimos o nosso ciclo.
- Será?
- Sim.
- Não pensa num retorno?
- Eu não vejo possibilidade de retorno.
Seu pai quis a separação e foi viver sua vida.
Eu aprendi a viver só e agora estou pegando gosto.
Faço os meus horários, programo as minhas actividades e não sou cobrada.
Também não preciso dar satisfações a ninguém.
É bom esse gostinho de liberdade, de dona de mim mesma.
- Creio que papai vai voltar a lhe procurar.
- Ele está apaixonado pela Júlia.
Logo vai se casar e até quem sabe ter um filho com essa golpista.
Sílvia meneou a cabeça para os lados, de maneira sinistra.
- Ele vai voltar.
- Por que diz isso com tamanha convicção?
Sílvia arriscou um tanto insegura:
- Porque eu sonhei mamãe.
Íngrid arregalou os olhos.
Sentiu um friozinho percorrer-lhe a espinha.
- Vo... Você disse que sonhou?
- Sim.
- Quantas vezes?
A garota encostou o indicador no queixo.
- Deixe-me ver...
Acho que umas três vezes.
- Três vezes seguidas?
- É. E você sabe que os meus sonhos repetidos se tornam realidade.
- Santa mãe de Deus!
- Prepare-se, mamãe.
Íngrid procurou ocultar o medo que se lhe apossava.
- Gostaria de consultar um especialista?
- Por enquanto, não.
Sinto-me bem.
Sabe que quando fico chateada e triste esses sonhos aparecem.
Lembra-se na época em que não passei no vestibular?
Eu tive aqueles sonhos repetidos com a tia Alzira e...
- Lembro-me perfeitamente.
E o que aconteceu no sonho aconteceu com sua tia.
- Então se prepare, porquanto papai voltará a procurá-la.
Íngrid remexeu-se nervosa no banco do carro.
Aquilo não podia acontecer de novo.
Amava Aloísio com toda a sua força, numa intensidade sem igual, ainda vibrante e pulsante em seu coração.
Entretanto, ela se sentira muito magoada quando ele propôs o divórcio.
Eles viviam bem até o dia em que Íngrid notou mudanças em seu próprio corpo e também em seu temperamento.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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