O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 10:38 pm

Era acometida por ondas de calor, suores nocturnos, depressão, e o pior: seu desejo sexual diminuíra bastante.
Ela consultou seu médico no Rio, o Dr. Martins, e ele lhe deu o diagnóstico: menopausa.
Íngrid não se sentiu à vontade para falar com o marido sobre essa transformação a qual toda mulher enfrenta geralmente depois dos quarenta anos.
Assim, aos poucos, a vida íntima do casal esfriou.
Aloísio apaixonou-se por Júlia, pediu a separação.
Íngrid, mesmo ferida em seu íntimo, assinou os papéis e decidiu mudar-se para São Paulo e morar com o filho.
Ainda amava o marido, e ser-lhe-ia penoso vê-lo saracoteando pelo Rio nos braços de outra.
Seu coração pulsava pelo marido, entretanto a razão a chamava à realidade.
Se ele não queria mais o casamento, ela precisava aceitar e procurar seguir adiante.
E era o que estava tentando fazer, nos últimos três anos.
O carro adentrou o shopping.
Íngrid fez sinal para o motorista.
- Encoste logo ali. Vamos saltar.
Você pode fazer sua hora de almoço, Ismael - disse ela, consultando o relógio.
Encontre-nos no saguão do estacionamento VIP daqui a duas horas.
- Sim, senhora.
As duas desceram do carro, caminharam até o elevador e subiram para a praça de alimentação.
Escolheram singelo e discreto restaurante numa das quinas da praça.
Queriam privacidade.
Assim que o garção anotou os pedidos, Sílvia sorriu.
- Estava com saudades do movimento, das pessoas, da agitação desta cidade.
- Fico feliz que esteja gostando.
Espero que fique bastante tempo aqui comigo.
- Minha intenção é essa, mamãe.
Quero ficar por aqui.
- E o trabalho, como ficou?
- Eu pedi demissão da prefeitura.
- Que pena!
A comunidade da Rocinha vai sentir muito a falta de excelente assistente social.
- Infelizmente.
Eu gostaria de continuar coordenando o projecto de conscientização de jovens quanto à gravidez precoce, mas há pessoas bem competentes lá para levar o projecto adiante.
Meus amigos vão continuar com o projecto.
- Eles são jovens inteligentes, sensíveis, e farão um belo trabalho.
- Eu pretendo procurar algo similar aqui em São Paulo.
Íngrid sorriu feliz
Passou delicadamente a mão no braço da filha.
- Você nasceu para abraçar o serviço social, minha filha.
- Por que me diz isso?
- Ora, você tem todo o perfil.
- Como assim?
- O assistente social tem perfil caracterizado pela habilidade e capacidade de desenvolver acções que aprofundem suas reflexões no tocante à justiça social, ao respeito à igualdade de direitos de cada um, ao compromisso ético, com vistas à formação de uma vida digna e à conquista da cidadania e da democracia para todos.
Íngrid sorveu um gole de refresco e prosseguiu:
- Trata-se de agente construtor da cidadania, capaz de interagir nos projectos e programas sociais dos sectores público e privado nas áreas de saúde, saúde mental, saúde ocupacional, relações de trabalho, educação, habitação, conservação e preservação do meio ambiente, relações de género, raça e etnia, direitos humanos e sociais, etc., etc.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 10:38 pm

Sílvia estava estupefacta.
- De onde tirou tanta informação?
- Assisti a um programa na televisão dia desses sobre pessoas que abraçaram o serviço social com amor.
Lembrei-me logo de você.
- Amo o que faço.
- Então está decidida mesmo a ficar connosco?
- Sem dúvida.
Continuaram a conversa, mas de repente Sílvia sentiu ligeiro mal-estar.
- Alguma coisa, filha? - perguntou Íngrid, preocupada.
A comida não está boa?
- Não é isso, é uma sensação...
Não sei explicar.
No mesmo instante, Teresa entrou no restaurante e veio ao encontro delas.
- Querida! Não quis acreditar quando a vi aqui, Sílvia.
Precisei esfregar meus olhos - exagerou.
Íngrid e Sílvia levantaram-se.
Sílvia olhou para a mãe de esguelha e Íngrid compreendeu o porquê do mal-estar da filha.
Sílvia procurou dar tom simpático à voz:
- Como vai, Teresa? Quanto tempo!
- Vou bem. Faz séculos!
Está de passagem por São Paulo?
- Pretendo ficar um pouco mais.
Talvez passar uma temporada.
Teresa riu maliciosa.
- Compreendo.
A propósito, fiquei sabendo do noivado de Mateus e Paula.
- Não seja indelicada - rompeu Íngrid, numa voz firme.
- Oh, desculpe-me.
É que as notícias correm. - Teresa foi rápida e mudou de assunto:
- Aceitariam jantar comigo esta noite?
Sílvia ia responder, mas Íngrid tomou a palavra:
- Sinto muito.
- Por quê?
- Inácio, meu filho, reservou lugar para nós hoje à noite.
- Óptimo! Eu me juntarei ao grupo.
- Hoje, não - respondeu Íngrid.
Teresa odiava ser contrariada.
Procurou disfarçar o ódio:
- Bom, poderemos marcar outra hora.
- Com certeza.
Teresa despediu-se delas e, antes de sair em definitivo, perguntou:
- Só por curiosidade, onde vai ser o jantar, querida?
Íngrid disse automaticamente:
- Num restaurante em Moema, não me lembro ao certo o nome.
- Fiquem com Deus, queridas. Até mais.
Teresa saiu do restaurante e ambas voltaram a se sentar.
Sílvia serviu-se de um copo de água e sorveu o líquido de um gole só.
- Meu Deus, essa garota me dá calafrios.
Agora sei de onde veio o mal-estar.
- Teresa é ardilosa, não gosto dela.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 10:38 pm

- Dizem lá no Rio que ela veio a São Paulo porque estava fugindo de traficantes.
- Não diga! - exclamou Íngrid, indignada.
- Você sabe que lá no Rio todo mundo se conhece.
Principalmente na zona sul.
- Boatos.
- Não, mãe - tornou Sílvia, com veemência.
Eu trabalhava na Rocinha.
Sei que Teresa se envolveu com um perigoso traficante, o Tonhão.
Íngrid assustou-se.
- Ela está no pé do seu irmão.
- Mesmo? Não pode ser perigoso?
Vai saber com quem ela se meteu...
- Concordo. Felizmente, Inácio me garantiu que não quer nada com ela.
- Tomara Deus!
- Seu irmão conheceu uma moça tão simpática, tão bonita...
- É?
- Sim. Você vai adorá-la.
Nair suspirou, olhou para o altar, fez sinal da cruz, levantou-se e, ao sair da igreja, deu um esbarrão em Salete.
- Desculpe. Estava tão concentrada nas minhas orações que não a vi.
- Como vai, Nair?
- Melhor. Agora já saio de casa, ajudo as meninas nos afazeres domésticos.
Comecei a costurar para fora.
Se precisar de um remendo, um ajuste de bainha, de barra, é só me procurar.
Salete riu com desdém.
- O salário de Octávio lhe faz falta, não?
- E como! - suspirou Nair.
Tenho duas filhas óptimas, e agora arrumei esse serviço de costura.
Estou muito feliz.
O dinheiro é pouco ainda, mas dá para pagar as despesas e levar nossas vidas com dignidade.
Creusa aproximou-se.
- Está com óptima aparência, Nair.
- Obrigada. Sinto-me bem melhor.
- As aparências enganam - suspirou Salete.
- Como disse? - indagou Nair, sem entender.
- Nada.
Salete falou, rodou nos calcanhares e saiu rápida.
Nair a pegou na porta da igreja.
- O que está acontecendo?
Do que me acusa?
- Sabe de uma coisa?
Eu não gosto de gente falsa.
- Falsa? O que eu fiz para me caluniar assim?
- Ainda vai trazer má fama para a vizinhança.
Santinha do pau oco!
Creusa intrometeu-se na conversa:
- Estamos na porta de uma igreja, Nair.
Não se faça de dissimulada.
Não minta em frente à casa de Deus. É pecado.
- Não estou entendendo.
Salete puxou a amiga.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 10:38 pm

- Vamos embora, Creusa.
Eu disse que ela, além de dissimulada, não prestava.
- Ei, como ousam falar assim comigo?
Exijo respeito.
- Ui! Além de sirigaita, é agressiva - volveu Creusa, em tom irónico.
Nair aproximou-se e meteu-lhe o dedo em riste.
- Dá para entender por que não se casou e nunca teve ninguém.
Você é estúpida e arrogante.
Creusa nem se importou. Disparou:
- Na nossa rua só moram pessoas decentes e honestas, de boa índole.
Não queira manchar a nossa reputação.
Pensa que a gente não vê aquele carro parado na sua porta todas as tardes?
- Que carro? - perguntou Nair, estupefacta.
Do que estão falando?
- Bem que você disse Salete - ajuntou Creusa.
Ela se faz de desentendida.
Está querendo nos fazer de bobas.
Mal o marido esfriou na cova e ela vai botando as asinhas de fora.
Salete olhou para Nair e fuzilou-a com o olhar.
- Não queremos mais sua amizade.
Somos pessoas de bem.
Não falamos com mulher de vida fácil.
As duas cuspiram no chão, rodaram nos calcanhares e saíram apressadas.
Nair estava completamente aturdida.
Não fazia a menor ideia do que elas diziam.
Padre Alberto aproximou-se.
- Eu ouvi o final da conversa, Nair.
- Ouviu padre?
- Ouvi.
- Não acredito que ouvi tamanha barbaridade na porta da igreja.
- Não se deixe contaminar pelo veneno delas.
- Padre, não sei do que estavam falando.
Não sei de nada.
- Não lhes dê ouvidos.
- Fazia tempo que eu não saía de casa.
Estou melhorando, costurando para fora.
Consegui vencer a depressão.
- Eu sei. Você é uma vencedora.
Ele apoiou-a no braço.
- Vamos até a sacristia.
Vou lhe dar um copo de água com açúcar. Aceita?
Nair fez sinal afirmativo com a cabeça e, apoiada nos braços de padre Alberto, voltou para a paróquia.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 10:39 pm

CAPÍTULO 8

Teresa mal continha sua ira.
Tão logo saíra do restaurante, dirigiu-se até o toalete mais próximo.
Entrou e lavou o rosto.
Precisava se acalmar.
Olhou para sua imagem reflectida no espelho.
- Aquelas duas me pagam!
Preciso fingir cordialidade com elas para conquistar Inácio.
Se eu me casar com ele, serei rica.
Poderei pagar a dívida aos traficantes.
Eu corro risco de morte.
Ademais, Inácio não pode me trocar por aquela suburbana.
Mariana é simples demais.
Teresa terminou de se ajeitar e, ao sair do toalete, deu de encontro com uma moça loira e de proporções avantajadas.
Iria soltar uns impropérios, mas a aparência da moça fez com que Teresa se lembrasse de Isabel, a secretária de Inácio.
Teve um lampejo, uma ideia fantástica, e veio-lhe o impulso de ligar.
Foi até a loja de uma conhecida e pediu para usar o telefone.
Discou.
- Oi, Isabel, como vai?
- Desculpe-me... Quem fala?
- Querida, sou eu. Teresa Aguilar.
- Como vai, Teresa?
- Bem.
- Sinto, mas o Dr. Inácio está numa reunião neste momento e...
Teresa respirou fundo.
- Não, querida, não quero falar com Inácio.
- Não?
- Liguei para falar com você mesma.
- Comigo? - perguntou a secretária, em tom surpreso.
- Isso mesmo.
- O que seria?
- Você sempre foi muito simpática comigo.
Eu gostaria de retribuir.
Estava passeando no shopping, como quem não quer nada, e vi algo que é a sua cara.
Não vou poder deixar de comprar.
Isabel envaideceu-se.
Suas faces coraram.
Ela era gordinha, baixinha, cabelos presos em coque, pele bem clara.
E usava óculos de grau, bem pesados.
A aparência não era seu ponto forte, e ela tinha dificuldade em lidar com sua baixa auto-estima.
Teresa continuou aplicando o golpe:
- Vi uma blusa perfeita para você.
No entanto queria confirmar seu número.
E tamanho médio, certo?
Isabel sorriu contente.
- Imagine Teresa. Meu número é...
É um pouco maior.
- Não posso acreditar!
Você é tão ajeitadinha, tem um corpo tão bonitinho...
Ah, você deve estar brincando comigo.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 10:39 pm

- Não, Teresa, eu...
- Está certo. Mas vou comprar para você um número maior, muito a contragosto.
Tenho certeza de que você vai ter de trocar por número menor.
- Obrigada, muito obrigada.
Agora era o momento do golpe de misericórdia.
Isabel estava praticamente em suas mãos.
Era o momento de Teresa arrancar o que queria, sem despertar suspeitas.
- Querida, me responda uma coisa.
- Pois não?
- Encontrei Dona Íngrid há pouco, e ela me falou que Inácio fez reserva naquele restaurante de Moema.
- Sim.
Teresa fez beicinho:
- Você geralmente lhe faz as reservas, não?
- Sim.
- Oh, eu preciso do número de telefone.
Você poderia dar para mim?
- Claro! Só um momento, por favor.
Isabel consultou a agenda e em instantes deu telefone, endereço, todas as informações de que Teresa precisava.
- Obrigada, querida.
Você é um amor de menina.
Não esquecerei o seu presente.
Desligou o telefone e bufou.
A vendedora olhou-a com ar desconfiado.
- Vai levar alguma coisa, senhorita?
Teresa deu uma olhada geral pela loja.
- Você tem alguma blusinha bem barata e bem grande?
- Grande como, senhora?
Teresa abriu os braços e os estendeu.
- Assim, tamanho "E".
- Perdão, senhorita?
Mas qual tamanho?
- Tamanho "E".
- Não entendo...
Teresa foi incisiva:
- "E" de enorme, compreende?
Para uma moça bem gorda e horrorosa.
A vendedora espantou-se.
- Sim... Quer dizer, não sei se trabalhamos com números tão grandes.
- Verifique no stock.
- Aguarde um momento, por favor.
Teresa sorriu feliz.
Agora precisava fazer duas coisas: impedir Íngrid de ir ao restaurante e avisar Mariana do jantar.
- Isso eu tiro de letra.
Se Sílvia chegou agora a pouco, não teve tempo de conhecer a namoradinha do Inácio.
A insegura da suburbana não vai gostar de ver seu namorado jantando com uma loira...
Enquanto Teresa sorria triunfante, sombras escuras dançavam ao seu redor, sugando-lhe as energias perniciosas que emanavam de sua mente.
Nair chegou em casa mais calma.
A conversa com padre Alberto havia sido proveitosa.
Não valia a pena dar trela a Salete ou Creusa.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 10:39 pm

Elas estavam cheias de pensamentos negativos e, pior, precisavam de muita oração para melhorar e sair do círculo vicioso de calúnia e fofocas.
- Vou tocar a minha vida e não dar ouvidos as duas - disse para si.
Entretanto uma pulga atrás de sua orelha dizia que elas não haviam inventado a história do homem parado à porta de sua casa.
Seria muita fantasia das vizinhas.
É facto que Salete enviuvara e passara bom tempo em estado de choque.
Não sabia explicar - ou tinha vergonha de dizer aos vizinhos - de qual doença seu marido padecera.
O sistema imunológico dele foi perdendo força, foi enfraquecendo.
As doenças oportunistas apareceram e ele não resistiu.
As más-línguas diziam que o pobre coitado morrera vítima de AIDS.
Severino, o falecido, era um nordestino arretado, e Salete não se permitia ter intimidades.
Era bastante carola, temente a Deus.
Severino, não podendo ter prazer com a esposa, passou a pegar meretrizes no centro da cidade.
Certa noite acordou suando muito, os lençóis ensopados, com febre contínua, e ele fora internado.
Em meados de 1980 não havia tratamento adequado para combater o vírus HIV e muitas pessoas morreram em consequência da AIDS.
Severino foi um deles.
Mas Salete jamais admitiu a doença do marido, mesmo ele internado e morto no Emílio Ribas, hospital da cidade de São Paulo que tratava única e exclusivamente de casos de AIDS naquela época.
Salete convenceu-se de que tinha sido pneumonia.
Os vizinhos esqueceram o ocorrido.
Pouco depois, o filho de Salete arrumou emprego em outra cidade e ela ficou só.
Mas será que ela tinha uma mente tão fantasiosa a ponto de afirmar que sempre via um carro parado à porta de Nair?
- Será verdade? - perguntou para si, insegura.
Nair espantou os pensamentos com as mãos.
Trancou a porta de casa, jogou a bolsa sobre o pequeno aparador e acendeu a luz.
Mariana estava na clínica e Letícia estava no trabalho.
Sozinha, ela jogou-se no sofá, tirou os sapatos.
Deu uma boa espreguiçada.
Depois, levantou-se e foi até a janela.
Pela fresta avistou, do outro lado da rua, Salete e Creusa conversando, olhando e apontando para sua casa.
- Será que essas duas fofoqueiras não têm nada melhor para fazer?
Nair bufou e foi para a cozinha.
Lembrou-se das palavras doces de padre Alberto e procurou desviar o pensamento.
Estranho um homem ficava parado, dentro do carro, à porta de sua casa, quase todas as tardes.
Será que era verdade?
E se fosse, será que seria perigoso?
Sim, porque na casa moravam três mulheres sozinhas, sem nenhum homem para protegê-las.
Nair sentiu um aperto no peito e medo, muito medo.
Correu até a sala e de novo puxou a cortina.
Um carro acabara de estacionar no meio-fio, em frente à sua casa.
Era verdade! O carro estava lá.
Salete era fofoqueira de mão cheia, mas não fantasiara.
O carro estava parado à sua porta.
Nair espremeu os olhos para enxergar melhor.
Olhou, olhou e, quando reconheceu o homem ao volante, deu um pulo para trás e um grito abafado.
- Santo Deus! Ele de novo?
Como me encontrou aqui?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 10:39 pm

Como descobriu meu endereço?
Nair tremia e mal conseguia articular som.
Seria prudente ir até lá fora e falar com ele?
Não. Isso não.
Salete e Creusa estavam na rua e com certeza iriam deitar e rolar sobre a situação.
Mas o que fazer?
Ela pensou, pensou e decidiu:
- Vou tirar satisfações.
Nair estugou o passo, abriu a porta, ganhou à calçada e praticamente atirou-se na frente do carro.
Virgílio tomou um susto danado.
Arregalou os olhos e abriu a porta.
Desceu do veículo meio sem graça.
- O que faz aqui? - a indagou, nervosa.
- De... Desculpe.
Não tive a intenção.
- Faz dias que me persegue.
- Eu, bem...
- Como chegou aqui?
Quem lhe deu meu endereço?
Por que fica parado na minha porta toda tarde?
- Calma. Vou explicar tudo, tudo.
Ela botou as mãos na cintura.
- Pode começar. Já.
Virgílio baixou o tom de voz. Sentiu vergonha.
- Na rua, não.
Nair hesitou.
Olhou para o lado e viu Salete e Creusa cochichando.
Ambas mexiam as mãos, gesticulavam, aparentavam estar indignadas.
Nair meneou a cabeça para os lados.
Estava farta daquelas vizinhas mexeriqueiras.
Botou a língua para fora, fez uma careta e as duas se espantaram.
Virou-se para Virgílio:
- Vamos, entre. Seja rápido.
Virgílio trancou o carro e entrou.
Nair fez sinal e ele se sentou numa poltrona.
- Explique-me tudo. Agora.
- Bom. .eu... Sabe...
- Sem meias palavras.
Você aparece depois de vinte e tantos anos, do nada, e me persegue? Por quê?
- Não a estou perseguindo.
- Como não? Eu o vi no enterro de meu marido.
Era você. Eu juro que o vi.
- Sim. Eu estava lá. Queria constatar.
Não acreditei quando soube.
- Não acreditou em quê?
- Que fosse você.
Pensei que meu pai a tivesse mandado para bem longe daqui, outra cidade, outro Estado, talvez.
Pensei em procurá-la, mas achei prudente ficar em silêncio.
- O que seu pai fez comigo não tem perdão.
- Não diga isso, Nair.
- Como não?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 10:39 pm

- Eu falhei, cometi um deslize.
- E preferiu casar-se com a víbora da Ivana.
Isso foi uma bela prova de amor que você me deu.
- Você desapareceu e não me procurou mais.
O que queria que eu fizesse?
Nair mordeu os lábios, receosa. Ele tinha razão.
Ela sumira, mas acalentou o sonho de que ele iria atrás dela.
E Virgílio não correu.
Ela se magoara, acreditando que, por não ter corrido atrás dela, ele não a amava.
- O passado está morto.
- Creio que temos muito que conversar.
- Não temos nada a conversar.
Você está casado, tem sua família.
- Como sabe?
- Quando vou ao salão de beleza sempre vejo a foto do casal feliz nas revistas de fofocas.
- Ivana adora aparecer.
- Então por que não me deixa em paz?
Por que quer me atormentar depois de mais de vinte anos?
- Não quero atormentá-la.
E que pensei, bom...
- Vamos, diga.
Virgílio respirou fundo.
Por fim disse:
- Eu ainda a amo.
Nair sentiu o sangue gelar e as pernas falsearem.
Precisou ser firme para manter o controle.
- Bobagens.
Não me diga besteiras, homem.
- É verdade.
Descobri esses anos todos que sempre a amei.
- Isso não é verdade.
- Por favor, escute-me.
Eu nunca deixei de amá-la.
Ela vociferou:
- E por que não foi atrás de mim?
Foi só eu dar um sumiço e em seguida você se casou com a Ivana.
- Não tive alternativa.
Eu vou me separar logo, você está viúva, podemos repensar nossas vidas.
Ainda podemos ser felizes.
- Estamos na meia-idade.
Não temos muito mais tempo assim.
- Não diga isso.
Não importa quanto tempo ficaremos juntos, mas pense.
- Não tem o que pensar.
- Você não me ama mais?
Nair baixou os olhos.
Não poderia encará-lo num momento desses.
- Não.
- Éramos felizes e nos amávamos.
Esse sentimento não pode ter se esvaído de seu coração.
- Mas foi. Eu o arranquei no dia em que você se casou.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 10:40 pm

- Eu estava confuso.
- Culpa sua.
- Eu sei. Meu pai me meteu numa grande enrascada.
- Não me fale no seu pai.
Só de pensar no Dr. Homero, sinto uma raiva descomunal.
- Após todos esses anos, percebo que ele não fez por mal.
- Não? Separou-nos por um golpe baixo.
Ajudou Ivana a engravidar de você.
Isso é baixeza, é uma falta de escrúpulos e de moral que não tem cabimento.
- Estávamos em dívidas.
Se fôssemos proprietários da farmácia do pai de Ivana, no centro da cidade, era certo que poderíamos saldar as dívidas e fazer fortuna.
Papai só quis aumentar e salvaguardar nosso património.
- E por que Ivana consentiria uma coisa dessas?
- Porque ela vivia uma vida classe média.
E sabia que seu pai não tinha tino para os negócios.
Ela sempre foi apaixonada pelo luxo e pela riqueza.
Sabia que, se meu pai fosse dono daquela farmácia, faríamos muito dinheiro.
Meu pai a convenceu disso.
Nair tentou ocultar, mas a lágrima escapou pelo canto do olho.
- Por favor, saia daqui.
Não temos o que conversar.
- Escute Nair.
- Não tenho o que escutar.
Por favor, retire-se de minha casa e não apareça mais.
- Por favor...
- Se voltar a encostar o carro na minha porta, eu juro que chamo a polícia.
E digo que você está me ameaçando.
- Mas...
- Sem, mas. Dou queixa na polícia.
Vou à delegacia e faço um boletim de ocorrência.
Compreendeu?
Virgílio nada disse.
Mordeu os lábios e saiu amuado, cabisbaixo.
Nair bateu a porta da sala com força e jogou-se pesadamente no sofá.
Não conseguiu conter o pranto.
Por que ele aparecia depois de tanto tempo?
Ela tentara sufocar seu amor por anos, casara-se sem amor, formou sua família, e agora ele voltava e cutucava em suas feridas ainda não cicatrizadas?
Isso não era justo, depois de tudo o que fizeram com ela.
O passado veio com força e ela permaneceu caída no sofá, chorando, remoendo suas emoções.
O espírito de Homero tentava a todo custo acalmá-la.
Outro espírito, contornos delicados e forma de mulher, aproximou-se.
- De nada vai adiantar, Homero.
- A culpa me corrói.
Eu preciso uni-los, Consuelo.
- Agora você é Deus?
- Não, mas...
- Quem disse que tem de fazer isso?
- Preciso acalmar minha consciência.
Ela não pára de me acusar.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 11, 2015 9:03 pm

- Você precisa se perdoar.
Assim vai facilitar as coisas.
- Não consigo.
Enquanto eu não os vir juntos, não vou sossegar.
Preciso reparar o mal que fiz a Nair. Ela perdeu...
Consuelo pousou suas mãos na dele.
- Chi! Não se esqueça de que não há vítimas no mundo.
Se Nair fosse firme e acreditasse no seu amor, as coisas poderiam ter sido diferentes.
Entretanto, ela não foi firme.
Não vou dizer que isso não o exime de sua danosa interferência na vida dela e de Virgílio.
Mas agora não vale a pena lembrar-se do passado.
O ambiente está carregado, visto que Nair está remoendo um passado cheio de dor.
Ao invés de entrar na mesma faixa vibratória que ela, que tal me ajudar a acalmá-la e limpar o ambiente dessas energias pesadas?
As meninas vão chegar logo e não é justo que encontrem uma casa cheia de energias nocivas e impuras.
Homero concordou com a cabeça.
Ambos se concentraram, esfregaram as mãos, ergueram-nas para o alto e em instantes ministraram um passe em Nair.
Aos poucos ela foi se acalmando, sentindo-se mais leve, e cochilou.
Homero fez rápida limpeza no ambiente, beijou a testa de Nair e, acompanhado por Consuelo, desvaneceu no ambiente.
Passava das sete da noite quando a empregada avisou Íngrid:
- Sua prima Elisa disse que chega daqui à uma hora.
- Minha prima?
- Sim, senhora.
Disse ser assunto urgente.
Íngrid estranhou o recado.
- Elisa nunca vem de supetão.
Ela me avisa com antecedência quando vem a São Paulo.
Tem certeza de que foi ela quem ligou?
- A empregada dela ligou e avisou.
Eu estava dando ordens ao jardineiro, talvez tenha me confundido.
Íngrid levantou-se desconfiada.
Elisa nunca usou a empregada para dar recados.
Estranhou o facto.
A empregada entregou-lhe um papel.
- Ela disse para ligar neste número.
Íngrid nem cogitou conferir o número com o da agenda.
A princípio, parecia ser apenas um recado estranho, mais nada.
Ela pegou o fone e discou.
O telefone tocou, tocou e ninguém atendeu.
Íngrid tentou de novo e tocou até cair à linha.
- Pode ser que Elisa esteja vindo para cá.
Sílvia estava sentada numa poltroninha próxima à sala.
- Mamãe, não se preocupe.
Fique à espera da prima Elisa.
Eu vou ao restaurante com Inácio.
Íngrid hesitou por instantes.
O filho desceu as escadas e ouviu o fim da conversa.
- Não me diga que não irá ao restaurante?
- É pena, meu filho, mas recebi um recado de Elisa, dizendo que deve chegar daqui à meia hora.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 11, 2015 9:03 pm

- Então esperemos por ela e vamos todos jantar.
- Não.
- Oras mãe.
- Elisa sempre se atrasa.
Deve chegar mesmo é daqui à uma hora.
Você estava morrendo de saudades de sua irmã.
Aproveitem o jantar para pôr a conversa em dia.
Inácio deu meia-volta e aproximou-se de Sílvia.
Beijou-a na testa.
- É verdade: eu estava com muita saudade de minha irmã.
Fico contente de saber que vai ficar um bom tempo connosco.
- Preciso aproveitar nossos poucos momentos juntos.
- Por que diz isso?
- Mamãe me falou de Mariana...
Os olhos de Inácio brilharam emocionados.
- Ah, estou tão apaixonado!
Encontrei a mulher da minha vida.
- Fico feliz por você.
Íngrid interveio, amável:
- Você reservou horário.
Não é de bom-tom chegarem atrasados.
Eu recebo minha prima e, se der tempo, peço para o Ismael me levar ao encontro de vocês.
- Está certo - concordou Inácio.
Eu e Sílvia temos muitos assuntos para conversar.
Ele puxou a irmã delicadamente pelo braço.
Despediram-se e partiram.
Nesse mesmo instante, Teresa ligava para a casa de Nair, perguntando por Mariana.
Nair atendeu e chamou a filha:
- Mariana, telefone para você.
- É o Inácio, mãe?
- Não. Diz que é uma amiga da faculdade.
Mariana acabara de sair do banho.
Ajeitou a toalha sobre os cabelos molhados, vestiu o robe e gritou do corredor lá em cima:
- Diga para ligar mais tarde.
Acabei de sair do banho.
- Ela diz que é urgente.
Mariana deu de ombros e por fim desceu.
Pegou o fone.
- Quem é?
- Oi, querida.
- Quem fala?
Teresa botou parte da mão sobre o bocal do telefone.
- Sou eu.
- Eu quem?
Teresa foi ligeira e cortou-a:
- Vou directo ao ponto.
Cadé seu namorado?
- Hã?
- Você não está com seu namorado, está?
- Não, Inácio não está aqui.
Mas, escute o que você quer?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 11, 2015 9:03 pm

- Não sou de arrumar encrenca.
Longe disso, sabe?
Mas eu vi seu namorado há poucos instantes abraçado a uma loira bem vistosa.
- Isso é um trote? - indagou Mariana, completamente nervosa.
- Quem avisa amiga é.
Acabei de ver seu namorado de braços dados com uma loira bem bonita.
Se eu fosse você, iria checar, viu querida?
Mariana bateu o fone no gancho com força.
- Aconteceu alguma coisa, filha?
- Ainda não sei. Vou saber já.
Mariana bufou e discou para a casa de Inácio.
A empregada deu o recado:
- Inácio saiu para jantar.
Devo anotar recado?
Ela nem respondeu.
Ele havia saído para jantar?
Quem ligara sabia do encontro.
O telefone tocou novamente.
Mariana atendeu esbaforida:
- Alô!
- Querida! Desculpe-me, mas creio que nesse tempo você ligou para a casa dele e soube que Inácio não está certo?
Mariana parecia estar fora de mim.
- Quem é você? O que quer?
- Ora, sou apenas uma amiga.
Teresa deu o nome e endereço do restaurante.
- Cumpri a minha missão.
Como disse quem avisa amiga é.
Eu não quero que você seja enganada, querida.
Teresa desligou o fone e caiu na gargalhada.
Mariana não sabia o que fazer.
De início ficou parada, olhando para o aparelho e pensando em tudo aquilo.
Inácio não podia ser canalha. Isso não.
Era um trote danado, pesado, mas ela não iria dar trela.
Era tudo bobagem.
Não iria se preocupar com uma bobagem desse naipe. Não?
Movida pela insegurança, Mariana hesitou.
Teresa não parava de rir.
Seus olhos expressavam seu contentamento.
- Bem feito! Essa suburbana de quinta categoria vai atrás dele.
Se bem a conheço, ela é toda certinha e não vai fazer alarde.
Mas vai ficar profundamente abalada com a cena de Inácio e Sílvia juntos.
Ah, sim - ela jogou os cabelos castanhos para os lados enquanto dizia para si -, Mariana não sabe que a loira é irmã de Inácio.
Coitada, que confusão para a cabecinha tola dela...
Mariana continuou estática, sem acção.
Nair saiu da cozinha e notou o estado apopléctico da filha.
- O que foi?
Aconteceu alguma coisa?
-... Não. Nada.
- Como nada?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 11, 2015 9:04 pm

Você está pálida.
O que aconteceu?
- Nada, mãe.
Nair tornou:
- O jantar está servido.
Mariana decidiu:
- Vou sair.
- Sair agora? Por quê?
- Precisam de mim na clínica - mentiu.
- Há esta hora?
- São ossos do ofício.
- Acabei de botar o jantar à mesa.
Você mal saiu do banho.
- Precisam de mim na clínica. Volto logo.
Mariana subiu as escadas, correu até o quarto e vestiu-se.
Desceu rápida, apanhou a bolsa a saiu.
Nem teve tempo de secar os cabelos.
Enrolou-os num lenço.
Bateu a porta com força.
Letícia desceu em seguida.
- O que deu na Mariana?
Ela mal me cumprimentou.
- Parece que precisam dela lá na clínica do Dr. Sidnei.
- Alguma coisa grave?
- Não sei.
Ela não me disse. Saiu e pronto.
Letícia deu de ombros.
- Bom, não vamos nos preocupar.
- Sua irmã sabe o que faz.
- Vamos jantar?
- Sim, vamos.
- Estou faminta.
- Venha, filha, vamos comer.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 11, 2015 9:04 pm

CAPÍTULO 9

Rogério era um rapaz bem apessoado.
Alto, moreno, delicada franja cobria-lhe a testa.
Os olhos eram amendoados e levemente esticados.
Era filho único de Ismael e Celeste.
Com a morte da mãe, quando ele mal completara dezasseis anos de vida, Rogério foi morar com o pai na casa de Virgílio, de quem Ismael era motorista na época.
O rapaz dedicou-se aos estudos e Virgílio percebeu que Rogério daria excelente profissional.
Diante da certeza, investiu nos estudos do menino e contratou-o para trabalhar em uma de suas farmácias.
O tempo correu célere e, de entregador de medicamentos, agora Rogério era o gerente da farmácia que mais dava lucro a Virgílio.
Rogério era educado, atendia muito bem os clientes, e a localização da farmácia, numa esquina da Avenida Ibirapuera, próxima ao shopping, atraía clientela distinta, endinheirada e fiel.
Infelizmente, alguns anos atrás Ivana implicara com Ismael.
Na verdade, Ivana sempre implicava com empregados.
Berrava com eles e destratava-os sempre.
Ninguém ficava mais que seis meses na casa.
Ismael segurou bem a onda.
Permaneceu no emprego por longos seis anos, mas chegou um momento em que nem ele queria mais ficar lá, mesmo tendo apreço por Virgílio, Bruno e Nicole.
Ismael era de grande valia para a família.
Certa manhã, Ismael disse a Ivana que tinha algo sério para conversar com ela.
- Se for aumento de salário, esqueça.
- Não é isso, Dona Ivana.
É que... Bem...
Eu levo sua filha às festas de suas amigas e tenho notado algo estranho.
- Estranho, como?
- Nicole vai quieta e bem comportada.
Quando passo para buscá-la, parece outra pessoa, eufórica, falante, excitada ao extremo.
- Ela se distrai se diverte e sai mais animada.
- Não, senhora.
Ontem fui buscá-la numa festa e, ao sair do carro, Nicole distraiu-se e deixou cair isto - disse ele, entregando-lhe um pacotinho.
- O que é isso?
- Acho que sua filha está metida com tóxico.
Ivana sentiu o sangue subir.
Desconfiava que Nicole estivesse envolvida com algum tipo de droga.
Mas achou que fosse coisa de adolescente, talvez um inofensivo cigarro de maconha e mais nada.
Mas, ao ver o pacotinho cheio de ervas, percebeu que sua filha caminhava para coisa pior.
No entanto, achou melhor fechar os olhos, esquecer e não encarar a realidade.
Ismael ficou parado, esperando uma resposta.
Com medo de que ele desse a língua nos dentes e fosse contar sobre o ocorrido a Virgílio, Ivana não pensou duas vezes e demitiu-o.
Num único dia ela colocou pai e filho para fora de sua casa.
Virgílio tentou argumentar, quis que ela reconsiderasse, todavia Ivana não deu ouvidos ao marido, bateu pé e, quando Virgílio ainda mostrou ânimo para convencê-la do contrário, Ivana começou a quebrar tudo que via pela frente, completamente fora de si, irascível. Ismael saiu da casa muito triste.
Gostava de Virgílio e das crianças e temia pelo futuro de Nicole.
Tempos depois, ao encontrar Virgílio ao acaso, e na tentativa de alertar o ex-patrão, ele comentou sobre o episódio da maconha, mas Virgílio também não lhe deu atenção.
Agradeceu, deu um tapinha nas costas de Ismael e jurou para si que sua filha não era barra-pesada e meteu na cabeça que aquele pacote de maconha era de alguma amiga de Nicole.
Ismael alugou um cómodo no centro da cidade e não desanimou.
Comprou jornais e esmiuçou os classificados, na tentativa de arrumar uma colocação.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 11, 2015 9:04 pm

Havia recebido um bom dinheiro de indemnização, mas seria o suficiente para dois meses, no máximo.
Em três dias, no entanto, Ismael estava empregado, foi admitido para ser motorista de Íngrid.
Ele tinha certeza de que se daria muito bem nesse novo emprego.
A entrevista com Íngrid correra tranquila, e houve simpatia imediata entre ambos.
Rogério, feliz com o novo emprego do pai, alugou pequeno apartamento próximo de seu trabalho.
Ia a pé, e assim economizava no combustível.
Deixava o carro na garagem do prédio e só o tirava nos fins-de-semana, para passear com o pai.
O rapaz insistia para que morassem juntos, mas o pai preferia seu quarto nos fundos da casa de Íngrid.
Ismael não queria ser um estorvo e também queria que o filho, nos seus vinte e dois anos de vida, pudesse ter suas liberdades e tocar a vida de seu jeito.
Eles se encontravam todo fim-de-semana e passavam os domingos juntos.
Iam a parques, eventos, museus, almoçavam, assistiam às vezes a uma partida de futebol e depois Rogério deixava o pai na casa da patroa.
Era o único dia da semana em que Ismael não dirigia.
Rogério, mesmo cansado, fazia questão de que o pai nem tocasse na direcção do veículo.
Nesta noite Rogério ficara até mais tarde na farmácia e foi um dos últimos a sair.
Ajudou a descer as portas do estabelecimento.
Despediu-se dos funcionários e dobrou a quadra.
A noite estava gelada, ele encolheu o corpo no, sobretudo e esticou o passo.
Ao dobrar uma alameda, deparou com uma jovem aos prantos, sentada à beira da calçada, aparentando profundo desequilíbrio emocional.
Momentos antes, Mariana saltara do ónibus na Avenida Ibirapuera e correu dois quarteirões para dentro da avenida.
Chegou arfante na porta do restaurante.
O maitre atendeu-a solícito.
- Alguém a espera, senhorita?
Mariana procurou recobrir o fôlego.
- Sim, tenho amigos que marcaram jantar comigo aqui esta noite.
Teria algum problema caso eu pudesse dar uma entradinha e procurá-los?
Creio que estou atrasada.
O maitre foi gentil:
- Faça o favor, senhorita.
Entre e procure à vontade.
Mariana agradeceu com um aceno e entrou.
Seus olhos ansiosos procuraram por todo o salão.
Nada. Ela forçou os olhos, espremeu-os e perpassou o olhar mesa por mesa.
Seus olhos grudaram num casal mais ao fundo do estabelecimento.
Um garção parou à frente da mesa e ela não conseguia determinar se o homem ali sentado era Inácio.
Teve de esperar mais alguns instantes.
Mariana estava impaciente.
Algo lhe dizia que o moço ali sentado era seu namorado.
O garção afastou-se, ela novamente espremeu os olhos e constatou: era verdade!
Inácio estava acompanhado de bela loira.
E pior: Inácio acariciava a mão da garota, passava a mão sobre seu rosto.
Pareciam bastante íntimos enamorados até.
A jovem sentiu o estômago embrulhar.
Desesperou-se.
O maitre veio até seu encontro, mas Mariana afastou-se, trôpega e com as mãos na boca, sentindo forte enjoo.
Numa rapidez desconcertante, ela deixou o restaurante e ganhou a rua.
A jovem dobrou a esquina, não sabia para onde ir.
Sentia-se sem rumo, desorientada. Totalmente perdida.
Aflita, dando largas à razão, disse para si:
- Bem que desconfiei.
Por que ele iria se sentir atraído por mim?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 11, 2015 9:04 pm

Eu sou da periferia, não pertenço à mesma classe social que ele.
Sou um brinquedo, um passatempo em suas mãos.
Ela amava Inácio com tanta intensidade, e ele aprontava uma dessas com ela?
Isso era o cúmulo do desrespeito.
Como pudera se enganar com aquele homem?
Como pudera ter sido tão cega?
Mariana não aguentou e esparramou-se na calçada.
Suas pernas não sustinham seu peso.
Sentia-se fraca e desamparada.
Arrancou o lenço dos cabelos ainda húmidos e cobriu o rosto com as mãos.
Desatou num choro compulsivo.
Rogério dobrou a quadra e, ao vê-la em franco desespero, desacelerou os passos e aproximou-se.
Hesitou por um momento e, por fim, perguntou:
- Algum problema?
Mariana levantou os olhos inchados e vermelhos.
- Estou desorientada.
- O que foi?
- Quero ir para casa, mas não sei qual ónibus tomar.
- Está perdida? - o indagou solícito.
- Não, só não sei como voltar para casa.
- Onde você mora?
- Na Vila Carrão.
Rogério coçou o queixo, pensativo.
- É, fica do outro lado da cidade, fora de mão.
Mariana continuava a chorar.
- Por que não toma um táxi?
- Não tenho dinheiro para um táxi.
- Quer que eu a acompanhe?
- Não... - Mariana desconfiou. - Não é necessário.
Rogério percebeu a desconfiança e sorriu.
- Escute, estamos no mesmo barco.
Você crê que posso lhe fazer algum mal e eu também posso estar sendo alvo de uma armadilha.
- Não entendo.
Ele olhou para os lados, temeroso.
- Jura que não tem ninguém com você?
Mariana sorriu pela primeira vez.
- Está desconfiando de mim?
- Sinto ser observado.
Ao aproximar-me, vi o clarão de um flash.
Por que não desconfiaria?
Só porque é bonitinha?
- Acha que sou assaltante ou coisa do tipo?
- Nesta cidade não dá para confiar em todo mundo.
Seja como for, você me passa a impressão de ser uma boa garota.
Não me parece ser pessoa de má índole.
Mariana sorriu novamente.
- Estou desconcertada.
Eu deveria suspeitar de você, mas creio que somos ambos inofensivos.
Rogério balançou a cabeça, sorridente.
- Isso é verdade.
Acabei de sair do trabalho.
- Mora longe?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 11, 2015 9:05 pm

- Moro aqui perto.
- No ponto lá perto de casa me indicaram qual ónibus tomar.
Não sei como voltar.
Conhece ónibus daqui que vá para a zona leste?
Ou mesmo que passe próximo ao metro?
Eu moro perto da estação Carrão do metro.
- Posso acompanhá-la.
- Não será necessário.
- São dez horas da noite.
É perigoso uma moça andar sozinha pela cidade.
- Se eu pegar ónibus e metro vou chegar em casa bem depois das onze.
Minha mãe deve estar preocupada.
- Façamos o seguinte... - propôs Rogério.
Eu a levo até sua casa.
- Não tenho dinheiro para duas passagens.
- Pegamos um táxi.
O trânsito está mais calmo há esta hora.
Em vinte minutos você estará lá.
- Não poderia...
- Não se preocupe.
Eu pago, depois você acerta comigo.
Mariana titubeou por instantes.
Rogério apressou-a.
- Pense logo. Está começando a garoar e o frio está de rachar.
Tenho boa saúde, mas não quero arriscar. Venha.
Rogério estendeu-lhe a mão.
Mariana apoiou-se nele e levantou-se.
Ele lhe parecia ser bom moço.
De repente ouviram passos e um barulho, em seguida outro flash espocou.
Rogério olhou para os lados, mas não viu nada, ninguém.
Mariana estava tão aturdida que mal se importou com aquele clarão.
Desejava ardentemente chegar rápido em casa e afundar-se nos travesseiros.
Continuaram a caminhar e nem notaram, perto deles, um jovem todo vestido de preto, atrás de um carro.
O rapaz colocou a máquina fotográfica na mochila e sorriu satisfeito.
- Teresa me arruma cada uma!
Faz uma semana que sigo essa garota.
Já estava desistindo.
Pelo menos vou receber meu pagamento em drogas.
Artur sorriu feliz. Tinha certeza de que, ao revelar as fotos, Teresa ficaria impressionada e lhe daria boa quantidade de pó.
Era isso que ele queria, mais nada.
Rogério e Mariana não o notaram e foram andando até alcançarem a Avenida Ibirapuera.
Rogério fez sinal para um táxi, o motorista encostou no meio-fio e eles entraram.
Mariana deu o endereço e o motorista assentiu com a cabeça.
No trajecto, Rogério perguntou:
- Desculpe, não quero me intrometer, mas poderia saber o que você fazia naquela calçada?
Parecia estar bem chateada.
- Magoada, desapontada, decepcionada.
- Discutiu com alguém?
- Não. Na verdade, recebi um telefonema.
- Um telefonema?
- Sim. Um trote. Uma mulher me ligou e disse que viu meu namorado com outra, num restaurante aqui em Moema.
- E você acreditou?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 11, 2015 9:05 pm

- A princípio pensei realmente que aquilo tudo fosse trote, uma farsa.
Não dei mais trela para a garota e desliguei o telefone.
Entretanto, fiquei com uma pulga atrás da orelha e...
- Desconfiada?
- Hum, hum. Não sei explicar, mas naquele momento era como se eu houvesse sido tomada por uma força estranha, um desejo enorme de ligar para a casa de Inácio e saber se ele estava lá.
- E ele não estava - arriscou Rogério.
- Não. E, logo em seguida, o telefone tocou de novo.
Era a mesma mulher.
- Como sabe?
- Era a mesma voz.
Então ela foi enfática:
"Eu não disse?" ou coisa do tipo.
Aquilo me pegou de um jeito...
Não aguentei e vim até aqui.
- Você gosta de seu namorado?
Mariana encarou-o séria.
- Claro!
- Mas não o suficiente para deixar que boatos interfiram na relação.
- Mas eu vi.
O pior é que era verdade.
- Você pode estar tirando conclusões precipitadas.
Ademais, se você gosta mesmo dele, não deveria se importar.
- Não?
- De maneira alguma.
Até que se prove o contrário, eu prefiro acreditar em quem amo, e nunca num estranho.
E, mesmo que ele estivesse numa situação, digamos, delicada, se eu gostasse realmente dele, daria a chance de se explicar, iria ouvi-lo e depois tirar minhas próprias conclusões.
Jamais iria jogar meus sentimentos no lixo por conta de besteira.
Mariana estava indignada.
- Você o defende?
- Não é isso.
- Claro! - ela bateu a mão na testa - Homens!
Vocês têm uma capacidade incrível de defender uns aos outros.
Rogério balançou a cabeça para os lados.
- Não foi o que eu quis dizer.
Resumidamente, diria que você não confia no seu namorado e, o pior de tudo, não confia em si mesma.
- Como?
- Falta de confiança, total e absoluta,
- Mas eu o vi agarrado com outra!
- E daí?
- O que os olhos vêem, o coração sente.
- Se seu coração se entristece com rapidez, impressiona-se com facilidade, não deveria ter visto.
Você não tem estrutura psicológica para enxergar os factos como realmente são.
- Claro que tenho estrutura! - bramiu Mariana, chamando a atenção do motorista, que os encarou pelo retrovisor.
Rogério prosseguiu:
- As coisas devem ser como você as idealiza.
Você quer ver de um jeito e só aceita ver os factos à sua maneira.
- Não. Sou flexível.
- Não é o que parece.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 11, 2015 9:05 pm

Mariana explodiu:
- Ele me traiu!
Não é o suficiente?
- Será?
- Ninguém me contou. Eu vi.
- Conhece quem estava com ele?
- Nunca a vi antes.
Deve ser uma dessas patricinhas endinheiradas.
Meninas da mesma classe social que ele.
- Ah, ele é rico - suspirou Rogério.
- É. Bem que desconfiei.
Por que um homem bonito e rico iria se meter comigo?
No fundo, ele queria era se aproveitar de mim.
Mas eu não quis ouvir minha cabeça, deixei o coração ir à frente. Isso que dá.
- Isso é preconceito de sua parte.
- Está me chamando de preconceituosa?
Rogério riu com gosto.
- Estou. Por que um homem bonito e rico não pode se apaixonar por moça de classe social mais baixa?
- Porque é a regra - sentenciou Mariana.
- Que regra?
- Regra da sociedade.
Assim é que as coisas funcionam.
- Você dá muito valor às aparências.
E por essa razão sente-se insegura.
Desse modo não vai segurar esse homem por muito tempo.
- E nem quero. Ele me traiu.
Não é de confiança.
- Tem certeza?
- Eu juro para você que o vi com outra.
- Nessas horas é melhor sentar e conversar.
Ele pode ter uma amiga.
Mariana cortou-o:
- Homens não têm amigas.
- Porque não?
- Só se for com outra intenção.
Rogério espantou-se:
- Está vendo? Você é preconceituosa e vê maldade em tudo.
Como pode querer ter uma vida saudável, próspera e alegre se seus olhos só registam negatividade em tudo que vê?
Mariana deu de ombros.
- A vida é dura.
- Porque você acredita assim.
- Mas é. Perdi meu pai, quase perdi a faculdade.
Minha irmã dá um duro danado para ajudar a sustentar a casa e minha mãe agora está se recuperando, colaborando nas despesas, costurando para fora.
Ainda está se adaptando à viuvez.
- Seu pai morreu faz pouco tempo?
- Alguns meses.
- É difícil adaptar-se a nova realidade.
- Você tem pai? - indagou Mariana, mais calma.
- Sim.
Ela meneou a cabeça para os lados:
- Então não sabe do que estou falando.
- Por outro lado - retorquiu Rogério -, não tenho mãe.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 11, 2015 9:05 pm

- Irmãos, você os tem?
- Não. Sou filho único.
- Sinto muito.
- Não há o que sentir.
Eu e meu pai nos amamos e nos damos muito bem.
- Mas é triste saber que um dia eles se vão.
A morte é algo muito triste. Isso me desagrada profundamente.
- Faz parte da vida.
- Não concordo.
- Não se trata de concordar, mas de entender e procurar aceitar.
Afinal, nascer e morrer é algo o qual não podemos fugir neste mundo.
- As pessoas que amamos nunca deveriam morrer.
- Isso causaria uma explosão demográfica no mundo - considerou o jovem, esboçando novo sorriso e mostrando os dentes alvos.
Por outro lado, a saudade nos ensina muita coisa.
- Ah, essa é boa! A saudade só traz dor.
- Depende do ponto de vista.
Saudade é quando sentimos a falta de algo ou alguém e isso nos faz reflectir.
Por isso, quando encontro meu pai, por exemplo, procuro viver intensamente os momentos que temos juntado.
Não quero desperdiçar nem uma gota de segundo e, quando surge uma desavença, procuro acalmar logo com a questão e encarar o lado bom da situação.
Minha mãe me ensinou muita coisa.
E graças a ela hoje eu sinto saudade, ao contrário de muitas pessoas, que, ao invés de saudade, sentem remorso.
- Sinto falta do meu pai.
- É natural, afinal de contas você o amava.
É duro, mas a gente aprende.
Logo você vai se casar formará uma família, terá filhos e saberá distribuir melhor o seu amor.
E nossa vida se torna esse vaivém de gente.
Já percebeu quanta gente entra e sai de nossas vidas?
Mariana assentiu com a cabeça.
- Sim.
- Nossa vida funciona assim.
O carro aproximou-se da casa de Mariana.
O motorista encostou e puxou o breque de mão.
A jovem saltou e Rogério pediu ao motorista que o aguardasse.
A jovem tocou a campainha impaciente e, assim que Nair abriu a porta, ela se jogou nos braços da mãe, chorosa e aflita.
Nair e Letícia estavam preocupadas.
Nair abraçou a filha e desabafou, num tom preocupado:
- Liguei para a clínica e disseram que você não esteve lá.
Onde se meteu, filha?
Ela não respondeu.
Chorava, e a aflição impedia-a de dizer alguma coisa.
Letícia olhou por cima do ombro da mãe e avistou Rogério.
De repente seu corpo estremeceu levemente.
Ela aproximou-se.
- Olá.
O rapaz sorriu.
- Boa noite. Meu nome é Rogério.
Encontrei sua irmã chorando numa calçada, perto do meu trabalho, e a trouxe até em casa.
Nair voltou-se para ele:
- Algo grave?
Ela foi assaltada?
Molestaram minha filha?
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Ave sem Ninho

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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 11, 2015 9:06 pm

Ele procurou acalmá-la:
- Não aconteceu nada de grave, senhora.
Nair levantou as mãos para o alto.
- Graças a Deus!
O rapaz concordou com a cabeça e prosseguiu:
- O importante é que sua filha está sã e salva.
- Que você seja abençoado, meu jovem.
Obrigado por trazer minha filha para casa.
- Não há de quê.
Rogério sacou a carteira do bolso do, sobretudo e tirou um cartão.
Estendendo-o a Letícia.
- Ligue-me qualquer dia desses.
Podemos marcar um almoço e então lhe conto tudo.
O táxi está parado lá fora, me esperando, e o taxímetro não dorme no ponto.
Elas riram. Rogério despediu-se e Mariana aproximou-se, estendendo-lhe a mão.
- Obrigada. Você foi um anjo que me apareceu na hora certa.
- Não tem o que agradecer.
Senti vontade de ajudá-la e aqui está no aconchego de seu lar. Agora preciso ir.
Ele despediu-se de Nair e, ao virar-se para sair, esbarrou seu braço no de Letícia.
Ele sentiu um choquinho percorrer-lhe o corpo, seus pêlos eriçaram.
Ele a olhou e sorriu.
- Espero sua ligação. Boa noite. Letícia respondeu alegre:
- Boa noite.
O jantar decorreu agradável, e pouco antes da meia-noite Inácio e Sílvia estavam em casa.
Haviam trocado confidências, conversado bastante sobre suas vidas e principalmente sobre seus relacionamentos afectivos.
Ele estimulou a irmã para que esquecesse Mateus e se abrisse para encontrar um novo amor.
E procurou encher a cabeça da irmã de esperanças, ao contar-lhe sua própria descoberta amorosa.
Inácio e Sílvia se davam muito bem, pois, além de irmãos, eram muito amigos.
Não tinham pudores e adquiriram alto grau de confiança, revelando um ao outro todos os seus segredos.
O jovem estacionou.
Desceram do carro contentes e entraram em casa, abraçados.
Íngrid estava esticada numa poltrona, folheando uma revista de moda na saleta de inverno.
- Acordada ainda?
- Sim - respondeu, sem tirar os olhos da revista.
- Onde está Elisa? - indagou Inácio.
- Não tem Elisa nenhuma aqui em casa - esbracejou Íngrid.
Brincadeira de mau gosto. Trote feio esse, viu?
- O que aconteceu? - indagou Sílvia, preocupada.
- Elisa não tirou os pés de Jundiaí.
Disse que tenciona vir a São Paulo somente no fim do ano.
- A Maria deu o recado direitinho?
- Deu. Ela jurou para mim, de pés juntos.
Disse-me que uma das empregadas de Elisa ligou e avisou que ela chegaria por volta das nove da noite.
- Estranho... Você não ligou para a casa dela?
Íngrid bufou:
- O telefone que Maria me deu não é o da casa de Elisa.
Eu, tonta, nem me dei conta de procurar na agenda.
- Talvez seja um mal entendido, mãe - tornou Sílvia.
- Não sei, não. Algo me diz que fui impedida de ir a esse jantar.
- Como assim?
- Não sei coisas da intuição. - Íngrid mudou o tom de voz, agora mais doce.
Contem-me, como foi o jantar?
Colocaram todas as conversas em dia?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 11, 2015 9:06 pm

- Uma boa parte - asseverou Inácio.
- Eu falei pelos cotovelos.
Dei um caldo nas orelhas de meu irmão.
- Fico contente. Sua irmã chegou muito tristonha.
Eu gosto de vê-la assim, feliz, sorridente.
Essa é a minha filha.
- Teria sido mais gostoso se você tivesse partilhado nossa companhia - volveu Sílvia, beijando-lhe as bochechas.
- Vejo que o jantar foi prazeroso.
- Bastante. - Sílvia estava feliz.
Sabia mamãe, que Inácio tem um amigo que trabalha com jovens da periferia?
- Sim. Até pensei em lhe contar isso no caminho do aeroporto ao restaurante.
- E por que não o fez?
- Naquele momento não queria falar de trabalho.
Você estava triste, queria desabafar, falar do rompimento do namoro com o Mateus.
- Que Mateus? - perguntou Sílvia, voz irónica.
Íngrid levantou-se da poltrona e abraçou a filha.
- Fico contente de que tenha esquecido esse playboy de araque.
Você vai encontrar companheiro à sua altura. Acredite.
Sílvia fez sinal afirmativo com a cabeça.
- Lembra-se do Daniel, mãe? - interveio Inácio.
- Aquele rapaz simpático que almoçou connosco dia destes?
- Ele mesmo.
Está metido nesse projecto com o filho do Dr. Virgílio e da Dona Ivana.
- Não posso crer que o filho de Ivana esteja numa empreitada dessas.
- Por que não? - perguntou Sílvia.
- Ivana odeia a pobreza, trabalhos voluntários.
Ainda é daquelas que distingue o ser humano por faixa de riqueza, raça, cor.
Trata-se de mulher fútil, dondoca.
Vive dividida entre compras e shoppings.
Nem deve saber que seu filho participa de um projecto social.
- Bruno é bom rapaz, mãe.
Nem parece pertencer à alta sociedade.
Ele é bastante simples, não gosta de luxo, tem a fala mansa.
Gosto muito dele.
Vou levar a Sílvia comigo dia desses.
Algo me diz que os dois têm muito em comum.
- Vê só, mãe, como as coisas estão se encaixando?
Eu tinha de vir para cá e ficar com vocês.
Já estou até arrumando trabalho na minha área!
- Vou apresentada ao Daniel - repetiu Inácio.
Tenho certeza de que ele vai querer que você trabalhe junto de sua irmã.
- Fico muito contente.
Esse Daniel é bonito?
Inácio deu uma gargalhada.
- Você está impossível hoje.
Deve ser o saqué. Bebeu demais.
Sílvia achegou-se ao irmão.
- Quando terá uma folga em seu trabalho?
- Na sexta-feira.
Tenho algumas horas para descontar, e pretendo sair mais cedo.
Será um prazer levá-la até Daniel.
- Assim espero - afirmou Sílvia, feliz e contente.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 11, 2015 9:06 pm

CAPÍTULO 10

Alguns dias depois, Letícia ligou para Rogério.
Ele atendeu sorridente:
- Pensei que fosse dar uma de difícil.
- Eu?
- É.
- Não, sou directa, não gosto de rodeios.
- E por que motivo não me ligou antes?
Eu lhe dei meu número e, confesso, queria que me ligasse logo no dia seguinte.
- Tenho trabalhado bastante, me desculpe.
Não quis me passar por difícil.
E, agora que minha chefe me deu uma trégua, resolvi ligar.
- Você não sabe o quanto estou feliz.
Fiquei sonhando com sua ligação.
- Agora pode parar de sonhar - disse ela, em tom de brincadeira.
Quando vai me convidar para sair?
Ele admirou-se:
- Você é sempre assim?
- Assim, como?
- Directa?
- Somente por quem me interesso.
- Uau!
- Eu gostei de você - Letícia foi sincera.
O jovem corou do outro lado da linha.
Passou a mão nervosamente pela franja, jogando os cabelos para trás.
- Quando... Quando poderei convidá-la para jantar?
- Quando quiser.
- Pode ser hoje?
- Sim.
- Eu saio da farmácia por volta das oito.
E você, a que horas sai do trabalho?
- Devo ficar até mais tarde também.
Vamos marcar as nove?
- Pode ser.
- Venha até o shopping - solicitou Letícia.
Comemos um lanche e pegamos um cineminha.
- Adoro cinema. Não acredito ter encontrado alguém que goste de cinema, de verdade.
- Pois encontrou uma cinéfila à altura. Adoro filmes.
- O que você está pensando em assistir?
- Estou louca para ver Ghost - Do Outro Lado da Vida, com a Demi Moore e o Patrick Swayze.
- Também estou morrendo de vontade de assistir a esse filme.
Desde a estreia não tive tempo, e o público e a crítica afirmam que é lindo, tocante.
- Também li a respeito e assisti ao trailer.
Tem sessão às dez da noite. Vai dar tempo de comer um lanche e ainda pegar a sessão.
Vou ligar para minha mãe e dizer que o anjo que salvou Mariana vai me levar para casa.
Ele riu.
- Se eu for mais uma vez à sua casa, talvez aprenda o caminho e queira voltar mais vezes.
- Isso veremos.
- Combinados. Encontro você às nove.
Rogério anotou o endereço do shopping e o local onde deveriam se encontrar.
Escolheram a praça de alimentação, local de maior visibilidade e fácil acesso.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 11, 2015 9:06 pm

Ele desligou o telefone com largo sorriso nos lábios.
Simpatizara bastante com Letícia e agora tinha certeza de que estava começando a gostar da moça, de verdade.
Ivana estava impaciente.
Andava desconcertada de um lado para outro do quarto.
Numa mão, dois dedos prendiam o cigarro e, na outra, um telegrama.
Tentou inutilmente apagar o cigarro, mas o cinzeiro estava cheio.
Num acesso de fúria, atirou o cinzeiro contra a parede e apagou o cigarro no próprio carpete, fazendo considerável rombo no piso.
- Amanhã ligo e mando trocar - esbracejou.
Eu odiava mesmo essa cor.
Estava ficando enjoada.
Ela sentou-se na cama, acendeu novo cigarro e desdobrou novamente o telegrama:

CHEGO ESTA SEMANA -
NO TREM DA MANHÃ -
BEIJOS -
CININHA.


Um telegrama curto e grosso, simples.
Só isso, mais nada.
- Não posso crer que aquela doidivanas venha para minha casa.
O que a infeliz vem fazer aqui?
- Falando sozinha? - indagou Virgílio.
- Já chegou?
Não percebi sua entrada.
Ele nada disse.
Dirigiu-se até a janela e subiu os vidros.
- Só depois que me mudei de quarto foi que notei como este aqui tem cheiro forte de cigarro.
- O quarto é meu.
- Não sei como aguenta ficar trancada neste quarto com esse maldito cheiro de cigarro.
- Não sinto cheiro nenhum.
- Quantos maços fumou hoje?
- Isso não é da sua conta - rangeu Ivana, entre dentes.
Nunca se preocupou com minha saúde.
Poupe-me de seus comentários.
- Mas está exagerando.
Você não cuida da saúde, abusa do cigarro e da bebida.
- Sou forte e saudável.
- Precisa se exercitar.
- Deus me agraciou com belo corpo.
Não tenho tendência para engordar e estou muito bem, obrigada.
Virgílio sabia que era difícil entabular conversa com a esposa, principalmente quando Ivana aparentava estar contrariada.
- Que bicho a mordeu hoje?
- Nenhum.
- Como, não?
E esse estrago no chão.
O cinzeiro espatifado aqui no canto do quarto? Não foi à toa.
- Nada.
- Quando exagera, é porque aconteceu alguma coisa. O que foi?
Ivana amassou o telegrama e jogou-o no chão.
- Minha sobrinha Cininha chega esta semana.
- Esta semana? Que dia?
Ela mordiscou os lábios.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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