O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 9:23 pm

Sentou-se na cama.
- Não mencionou a data em que vai chegar.
Só disse que é num dia desses, de manhã.
Isso é bem dela. Ai, que raiva, viu?
Essa menina tem o prazer de me tirar do sério.
- Sorte dela que ainda temos um quarto de hóspedes sobrando.
- Estava pensando em acomodá-la no quarto vago, que foi de Ismael.
- Está louca? - indagou Virgílio, perplexo.
- Por quê? Ela é minha sobrinha e...
- Ela é nossa sobrinha.
- Filha da minha irmã - esbracejou Ivana.
- Cininha nunca teve pai; eu me sinto meio pai dela.
- Eu não esperava que ela viesse. Não somos íntimas.
- Tive muito pouco contacto com ela, mas sempre lhe tive simpatia.
Era uma menina espevitada, falante, estava sempre bem-humorada.
- É por isso mesmo.
Ela é espevitada, fala pelos cotovelos. Não tem modos.
Não combina com nossa classe social.
- Pelo menos ela é autêntica e não é fútil como a maioria dessas garotas endinheiradas.
Ivana deu de ombros.
- Ela não é endinheirada e eu não gosto dela.
- Ela é sua única parente viva.
- E daí?
Virgílio, às vezes, não queria acreditar nas barbaridades que a mulher dizia.
- Sua irmã morreu há um ano.
- E eu com isso?
- Você nem foi ao enterro.
Ela levantou-se de pronto.
Acendeu mais um cigarro.
Tragou e, ao soltar as baforadas, foi enfática:
- Acha que eu iria ao enterro da minha irmã e perder o casamento da filha dos Capanema?
Eu jamais iria perdei aquele casamento.
Foi o acontecimento do ano.
- Em todo caso, vale ressaltar que era o enterro da sua única irmã.
- Azar o de minha irmã.
Oras morrer bem naquele final de semana?
- Você não tem coração.
É totalmente insensível.
- Argh...
- Só pensa em si mesma.
- E devo pensar em mais alguém?
Por acaso alguém pensa em mim?
Não. Então que se lixe o mundo e seus conceitos de benevolência para com o próximo.
Você não pode me dar lição de moral.
Estamos no mesmo barco.
- Eu tenho coração.
- Tem? Essa é boa!
- Eu e você somos diferentes - protestou Virgílio.
- Podemos ser, mas somos parecidos em muitas coisas.
- Me dê um exemplo.
- Nossos filhos.
Virgílio coçou o queixo.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 9:23 pm

- O que têm nossos filhos?
- Você também não liga a mínima para os dois.
Bruno se meteu com gente de classe social inferior e receio que seja contaminado pelos valores mesquinhos e limitados dessa gente pobre e miserável.
- Ele faz o que gosta.
Tenho pensado em conversar com ele a respeito de seu trabalho.
Perdi muito tempo longe de meus filhos.
Sinto que ainda a tempo de uma reaproximação.
Ivana sorriu maliciosa.
- Então creio que deva correr.
- Não entendi. O que quer dizer?
Bruno tem se saído muito bem e...
Ivana foi enfática:
- Não estou falando de seu filho.
Esse infeliz talvez caia de amores por uma pobretona e vai seguir sua vida, trocando o bairro dos Jardins pela periferia, cheio de filhos a tiracolo e feliz.
Vai ter uma vida limitada e pobre, mas feliz.
- Então não sei o que quer dizer.
- Falo de sua filha, oras.
- Nicole está terminando faculdade.
Soube que faz terapia.
Parece que não tem problema nenhum.
- Você me surpreende.
Não sei se é ingénuo demais ou dissimulado de menos.
Ele estava aparentemente confuso.
- O que está tentando me dizer?
Ivana fez um esgar de incredulidade.
Ela não tinha estrutura para lidar com o problema.
Ele que se virasse e ficasse com a bomba nas mãos.
- Nicole está cada vez mais afundada no vício.
- Vício?
- Ela se droga.
Virgílio não queria escutar.
Ivana estava exagerando, pensou.
Ele tentou argumentar:
- Ultimamente eu a tenho visto com bom aspecto.
Ela faz análise e...
Ivana foi seca;
- Faz séculos que você não vê sua filha.
Preocupa-se demasiadamente com o lucro das farmácias e mais nada.
Juro que não nasci para ser mãe.
- Tenho reflectido muito ultimamente.
Confesso que não fui bom pai.
Mas ainda há chance de melhorar meu relacionamento com meus filhos.
Essa fase de Nicole...
- Deixe de ser idiota! - atalhou ela.
Não é fase!
Sua filha é dependente química, é um caso sem salvação.
- Não creio!
- Ah, é? Sabe onde sua filha está?
- Não.
- Nicole está internada num hospital.
Virgílio preocupou-se.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 9:24 pm

- Internada?
- Sim. In-ter-na-da. Entendeu?
- Como? O que aconteceu a Nicole?
- Você não consegue deduzir?
Eu acabei de lhe dizer:
sua filha é fraca e é amante das drogas.
- E por que ninguém nunca me falou nada?
- Como não?
O Ismael lhe contou.
Eu sei que contou.
Virgílio coçou a cabeça, impaciente.
Tentara fechar os olhos à realidade.
Mas agora percebia que a situação havia passado dos limites.
Tinha de encarar o problema da filha.
- Tem certeza?
Ivana gargalhou.
- Nicole é fraca.
Acha que fazia terapia por conta de quê?
- Eu, bem...
- Crê que um punhado de sessões de terapia iria libertá-la do vício pesado em que ela se meteu?
Não se faça de ingénuo numa hora dessas.
Isso não combina com sua personalidade.
- Por que minha filha está internada? Responda-me!
- Overdose.
Virgílio desesperou-se.
Era a primeira vez em anos que se preocupava de verdade com os filhos.
Ele não se considerava um pai ausente. Muito pelo contrário.
O problema é que ele tinha de trabalhar bastante, dar um duro danado para que a rede de farmácias desse lucro e ele pudesse garantir uma vida boa à mulher e aos filhos.
Entretanto, depois que passou a encontrar-se e conversar com Nair, algo dentro dele mudou.
De uma hora para outra, Virgílio passou a interessar-se mais pelos filhos.
Conversava com Bruno sobre seu projecto de venda de medicamentos na periferia, por exemplo.
Mas esquecera-se completamente de Nicole.
Nisso ele havia falhado.
E sentiu um remorso sem igual.
- Diga-me, o que aconteceu à nossa filha?
- Nicole cheirou cocaína em excesso e foi hospitalizada. Bruno está com ela no hospital.
- E você fala comigo nesse tom?
Por que não me ligou no trabalho?
- Não queria atrapalhar...
Ivana virou-se e foi ao banheiro.
- Preciso de um banho relaxante.
Cininha chega nesta semana, talvez.
Tenho de me preparar psicologicamente para receber a fedelha.
Nada como um bom banho de banheira para começar.
Antes de entrar no banheiro, Ivana entregou a Virgílio um pequeno papel no qual constava o endereço do hospital.
- É onde Nicole está internada.
Virgílio afligiu-se completamente.
Vestiu o paletó, desceu as escadas aos pulos, pegou o carro e acelerou até o hospital.
Chegando lá, pediu informações na recepção e em seguida encontrou Bruno.
Aproximou-se do filho e viu-o abraçado a uma moça de belos traços, de beleza ímpar.
Ele sorriu para si, com satisfação.
Aproximou-se pé ante pé e deu um tapinha no ombro do filho.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 9:24 pm

- Por que não me ligou?
Bruno virou-se e espantou-se com a presença de Virgílio no hospital.
Michele afastou-se e ficou num canto da recepção.
- De que adiantaria pai? - perguntou ar triste.
Você e mamãe estão sempre ocupados.
- Assim que soube, vim correndo.
- Obrigado por ter vindo.
- Sua irmã corre alguma risco de morte?
- Fizeram uma lavagem estomacal e parece que conseguiram desintoxicá-la.
- Sua mãe disse que foi cocaína.
- Ela não sabe o que fala.
Sua filha encheu-se de tranquilizantes. Quase morreu.
- Não me diga uma barbaridade dessas!
- Estou lhe contando a verdade - tornou Bruno, angustiado.
Por que vocês não se interessam um pouco mais pela própria filha?
Virgílio não respondeu.
- Eu vivo bem, pai, sei o que quero da minha vida e não preciso de conselhos ou amparo.
Mas Nicole é frágil, precisa de carinho e cuidado, de um braço forte que a apoie.
Virgílio deixou que uma lágrima escorresse pelo canto do olho.
- O que aconteceu de verdade?
- Nicole estava sem sono, deprimida, triste.
Exagerou na dose de calmantes.
Havia bebido uísque em excesso.
A combinação explosiva resultou num pré-coma.
A sorte é que uma das empregadas estranhou o silêncio no quarto.
Nicole, quando está em casa, liga o som no último volume, bem alto. Nice foi bem esperta.
Assim que chamou por Nicole e ela não respondeu, ela desconfiou, entrou no quarto e a encontrou caída no chão.
Correu até o telefone e chamou pelo resgate.
- E sua mãe?
- Para variar, estava na Óscar Freire, comprando não sei o quê, para não sei quem.
Virgílio passou nervosamente as mãos pelos cabelos.
- Santo Deus! - exclamou.
- Foi por pouco.
Virgílio abaixou-se e sentou-se no sofá da recepção do hospital.
Cobriu a cabeça com as mãos.
- Nunca fui bom pai.
Nicole está assim porque eu e sua mãe sempre estivemos distantes de ambos.
- Não adianta se culpar.
O melhor é esquecer o passado e começar uma nova etapa.
Procure se achegar de Nicole for seu amigo.
Ela é muito carente e precisa de seu apoio, de seu amor.
- Eu me dediquei esses anos todos ao trabalho para lhes dar vida boa, deixar-lhes bastante dinheiro, aumentar o património de vocês.
- Isso nada vale pai.
Dinheiro ajuda, mas não é o suficiente.
Às vezes é bom deixar que os filhos consigam amealhar seu património por força própria.
Isso nos enche ele valor, nos torna fortes e confiantes, donos de nós mesmos.
Um filho gosta e precisa de carinho, amor, aconchego.
Dinheiro é bom, é óptimo, mas a gente aprende a ganhar.
Faz falta danada não ter amor de pai e mãe...
- Não posso falar pela sua mãe, mas eu sempre os amei.
Não fiquei próximo como devia porque tudo girava em torno do trabalho.
Eu sempre fiz tudo sozinho.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 9:24 pm

De uns tempos para cá estou ficando mais relaxado.
Bruno esboçou leve sorriso.
Notou a tristeza nos olhos do pai e procurou contemporizar.
- Até que enfim! Quem o está ajudando?
Alguma empresa terceirizada?
- Não. Estou gostando muito do trabalho do Rogério.
- Fiquei muito triste quando mamãe o botou para fora de casa, junto com o Ismael - suspirou Bruno, triste.
- Eu também. Mas quem consegue enfrentar Ivana, quando está fora de si?
- É verdade - concordou Bruno.
Da próxima vez que o encontrar, diga que mandei um abraço.
- Sem dúvida.
- Gosto muito desse moço.
Isso, sim, é algo que você fez e de que me orgulho muito.
Você deu-lhe condições para que pudesse vislumbrar uma vida melhor.
Deu a Rogério a possibilidade de estudo e oportunidade de trabalho, e veja no que ele se tornou: um homem de responsabilidade, inteligente, e com todos os ingredientes para ter uma vida plena, próspera e feliz.
Basicamente, o que você fez com ele é o que eu e meus amigos tentamos fazer na periferia.
Virgílio interessou-se pelo trabalho do filho.
Haviam conversado superficialmente tempos atrás, mas agora ele se sentia verdadeiramente interessado.
- Conte-me mais.
Gostaria de ouvi-lo.
Bruno sorriu.
- Acredito que podemos estimular o potencial de crescimento que há em todo ser humano.
Promover o homem dar-lhe condições de estudo e trabalho.
Toda pessoa precisa ser estimulada para o melhor.
Depois que ela se contagia nesse ambiente positivo, geralmente vai querer só o melhor para si e para o próximo.
É uma cadeia da qual não podemos fugir.
Desse modo vamos nos impregnando dessa energia e promovendo uma vida mais digna e feliz para todos.
- Não sabia que você fazia um trabalho tão valioso.
Para mim, você só tinha a farmácia.
- Você sempre foi contra a criação da farmácia popular.
- Fui porque só pensava em lucro, em ganhar cada vez mais.
Entrei nesse círculo vicioso.
Agora entendo um pouco melhor o seu trabalho.
A sua margem de lucro é menor, todavia aqueles que não têm condições financeiras para ir a uma farmácia convencional podem pagar pelos seus medicamentos.
- No fundo, as pessoas não gostam de receber de graça.
O homem precisa de trabalho, precisa ganhar e se sente feliz em poder pagar.
Vendo os medicamentos a preços mais acessíveis, as pessoas se sentem realizadas por poder comprar, pagar, sem depender de ninguém.
Virgílio orgulhou-se do filho.
- Tive umas ideias e gostaria de discuti-las mais à frente.
- Fico feliz.
Os dois se abraçaram.
- Talvez esteja na hora de dar uma trégua no trabalho - ponderou Bruno.
As farmácias vão bem, você tem o Rogério, excelente profissional, ao seu lado.
Pode desacelerar sua rotina e curtir mais a vida.
Sua filha precisa de você.
- Tem razão, preciso pensar em muita coisa.
Michele estava afastada e, vendo que ambos haviam terminado a conversa, aproximou-se.
- Gostaria de lhe apresentar alguém, papai.
- Quem é essa bela moça?
- Essa é Michele, minha namorada.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 9:24 pm

Virgílio levantou-se admirado.
Sorriu com gosto.
- Prazer.
- O prazer é todo meu - devolveu-a, numa simpatia contagiante.
- Onde se conheceram? - interessou-se o pai.
- Michele trabalha no salão atrás da farmácia popular.
- Ah, sei.
Bruno prosseguiu:
- E também no projecto que visa a oferecer uma vida melhor aos jovens da periferia.
- Muito interessante.
- Sou assistente social.
- Sim, sim.
Virgílio encantou-se pela bela Michele.
Sentiu orgulho do filho.
Ele fora agraciado com uma moça bonita, que lhe transmitia simpatia e bem-estar.
- Meu filho é um homem de sorte - disse Virgílio em alto e bom som.
- Obrigada. Gosto muito do Bruno.
- Dá para notar pelo brilho de seus olhos.
Ele aproximou-se e sussurrou em seus ouvidos:
- Espero que faça meu filho o homem mais feliz do mundo.
Michele sorriu comovida.
Assentiu com a cabeça.
- Faz parte da minha missão - respondeu, rindo.
Bruno notou a cumplicidade dos dois.
Sorriu alegre.
Tinha plena certeza de que o pai aprovara seu namoro com Michele.
Logo em seguida, um médico fez sinal para Bruno, chamando-o para o quarto.
Ele puxou o pai pelo braço.
- Vamos.
- O que foi filho?
- O médico liberou e permitiu a visita.
Nicole precisa de nós.
Virgílio assentiu com a cabeça.
Ele, o filho e Michele caminharam esperançosos até o quarto de Nicole.
Antes, porém, Michele olhou para um canto do corredor e sorriu.
Bruno percebeu e indagou:
- O que foi? Para quem sorriu?
Michele respondeu com simplicidade:
- Um amigo espiritual de Nicole está nos dando às boas-vindas.
Bruno olhou para os lados, não viu nada.
Deu de ombros e entraram no quarto.
Um espírito em forma de homem, jovem e robusto, sorriu e agradeceu.
Everaldo sentia que Nicole poderia se libertar do vício e começar uma nova vida.
- Não esmoreça Nicole.
Estou ao seu lado.
Ele falou isso e atravessou a parede do quarto, postando-se ao lado da cama de Nicole.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 9:25 pm

CAPÍTULO 11

Às nove da noite, em ponto, Rogério chegou ao local marcado.
Letícia chegou em seguida.
Cumprimentaram-se e ela foi dizendo:
- Eu deveria estar esperando você, mas fiquei falando com minha mãe.
Ela não gosta que eu chegue tarde em casa, principalmente durante a semana.
Eu disse a ela que qualquer coisa, se eu sumir, deve denunciá-lo à polícia.
- É mesmo?
- Sim. Ela lembrou-se de você.
Qualquer sumiço, ela fará o seu retrato falado.
Rogério riu.
- Sua mãe não irá à delegacia, pode acreditar - disse entre sorrisos, mostrando os dentes perfeitamente enfileirados.
Vamos comer? Estou com tanta fome...
- Também estou faminta.
Eu me antecipei e comprei os ingressos.
Temos meia hora para nos alimentarmos.
- Você é muito eficiente.
- Façamos o seguinte... - ajuntou ela.
Eu paguei os ingressos e você me paga o lanche.
- Isso não é justo. O lanche custa mais caro.
Ela deu uma piscadinha maliciosa.
- Por isso mesmo.
- Trabalha em quê?
- Numa loja de roupas femininas dois andares aqui embaixo - apontou com o dedo para o chão.
- Deve ser interessante.
- Nem tanto.
- Você não me parece muito animada.
Pensei que gostasse do seu trabalho.
- Eu gosto - volveu.
Dá para dar uma boa ajuda em casa, pagar nossas contas.
- E isso não é bom?
- Claro. Entretanto, eu trabalho muito mais que todas as minhas colegas, por exemplo.
Eu faço quase todo o serviço que lhes compete.
Minha chefe é mulher insegura e não combina com vendas.
Está sempre de cara amarrada, insatisfeita com o serviço, com o atendimento.
Ela não é muito simpática.
- Em vendas, é essencial ter simpatia, saber ganhar o cliente com um sorriso, palavras doces.
- Lá na loja as coisas não funcionam assim.
Hoje mesmo eu estava atendendo uma cliente e logo depois chegou outra.
Eu não podia atender as duas de uma vez só.
Minhas colegas estavam em horário de almoço.
Chamei minha chefe e ela ficou furiosa.
- Furiosa?
- É. Disse que eu estava atrapalhando sua concentração.
Saiu da sala feito foguete, foi grossa com a cliente.
Tratou-a de maneira tão fria e impessoal que tanto a moça quanto a minha cliente foram embora.
- Sua chefe conseguiu perder duas clientes.
Creio que dificilmente elas voltarão.
- E o pior... - prosseguiu ela.
Minha chefe disse que eu sou incompetente e devia ter atendido as duas.
Botou a culpa nas minhas costas.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 9:25 pm

- Isso não é justo.
- Mas ela é cunhada da dona da loja.
Pode mandar e desmandar.
Sente-se poderosa.
Estou farta desses abusos.
- Também não gosto de chefes que abusam de funcionários.
- Não sinto que ela abuse de mim.
Percebo isso sim, que ela se sente insegura, diminuída, parece ter medo ele tomar decisões.
E, para finalizar, é muito grossa.
- Então ela não devia estar no cargo - concluiu Rogério.
A conversa fluiu e pararam em frente a uma lanchonete e fizeram o pedido.
Pegaram as bandejas com os lanches e escolheram uma mesinha encravada numa quina da praça de alimentação.
Letícia continuou:
- Eu sou muito organizada, sempre fui desde pequena e sou muito prática, também.
Sei que sou muito útil no trabalho.
Mas estou ficando cansada de fazer muito e não ter reconhecimento.
- E por que não pede demissão?
- Nem pensar!
O salário não é lá uma maravilha, mas paga as contas e ajuda muito em casa.
Outras despesas que temos são cobertas com as costuras que mamãe faz para fora.
Vivemos apertadas, mas estamos indo bem.
- Mas podia pensar na possibilidade de um novo trabalho.
Letícia suspirou, enquanto mastigava seu lanche:
- Ah, quisera eu poder mudar de emprego.
- Por que não muda?
- Eu tenho dezanove anos recém-completados e nunca havia trabalhado antes na vida.
Tive essa oportunidade e creio que, com o meu actual currículo, não encontrarei algo melhor.
Prefiro aguardar, engolir essa chefe, ter mais experiência.
- Vamos ver se a situação não se torna favorável.
- Que situação? - indagou Letícia, sem nada entender.
- Por ora, nada.
Estou aqui pensando numas possibilidades.
A jovem encolheu os ombros e terminou seu lanche. Consultou o relógio:
- A sessão vai começar. Vamos?
Fazia três dias que Inácio tentava ligar para Mariana e ela não estava ou não podia atender.
Isso era estranho, estavam bem, haviam passado o último fim-de-semana de mãos dadas, dias recheados de passeios românticos, e agora ela mal queria falar-lhe ao telefone.
Alguma coisa estranha devia estar acontecendo ou acontecera.
Esse comportamento da namorada não era usual, não era de forma alguma o habitual.
- Tem certeza de que ela vai voltar às seis horas da clínica?
- Isso mesmo.
- Eu liguei para a clínica e me disseram que ela já saiu.
Devia ter chegado em casa.
- Vai ver, ela parou na padaria.
Mariana sempre traz pão fresquinho para casa.
- Está bem, Dona Nair.
- Dê uma ligadinha lá pelas sete.
Porque ela chega, vai directo para o banho, etc.
Inácio suspirou resignado.
- Diga a ela que ligarei à noite.
Precisamos conversar.
Inácio desligou o telefone e ficou pensando.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 9:25 pm

Mariana estava estranha.
Estava evitando-o, era o que ele sentia.
De uma hora para outra.
Ele estava tentando agendar um jantar para apresentada à sua irmã, mas Mariana vivia uma semana "cheia de compromissos".
Os horários não batiam, ela nunca estava, e tudo isso soava muito estranho.
- Que diabos deu nela? - disse ele para si.
Seu telefone tocou e arrancou-lhe dos pensamentos. Era Isabel, a secretária.
- Dr. Inácio, a senhorita Teresa Aguilar encontra-se na ante-sala. Posso mandá-la entrar?
- Sim, pode.
Teresa irrompeu a sala e o ambiente foi contagiado por sedutora fragrância de perfume.
Ela estava impecavelmente vestida, os cabelos soltos e balançando sobre os ombros.
Teresa podia ser uma mulher vil, podia ser ardilosa e manipuladora.
Era a mulher sem um vestígio de moral.
Todavia, era linda, mulher de rara beleza.
Os cabelos eram castanhos e sedosos, lisos e bem cuidados.
Os olhos verdes eram sedutores e enigmáticos.
Os lábios bem-feitos e o nariz fino conferiam-lhe ar delicado.
Não havia homem no mundo que não se sentisse atraído por ela.
E isso incluía Inácio.
Teresa tinha sido o terror da zona sul carioca.
Namorava todos os jovens, saía com todos, fazia os rapazes de gato-sapato, entretanto Inácio era seu preferido.
Ela não o amava. Longe disso.
Sentia contentamento íntimo quando o pobre jovem lhe lançava olhares carregados de extrema cobiça.
Era puro prazer sexual, mais nada.
No entanto, vale ressaltar que Inácio alguns anos atrás não caiu nas graças ou mesmo nas garras de Teresa.
Saíram duas vezes lá no Rio, e mais nada.
Os jovens sempre cometem tolices, e uma das tolices de Inácio foi se empolgar com Teresa a ponto de colocá-la no carro e subir até a Barra da Tijuca, considerado o maior motel a céu aberto da América Latina nos distantes anos 70.
Inácio estava mais interessado nos estudos, e não deu muita trela para Teresa.
Divertiram-se e acabou.
Ele mudou-se para São Paulo e ela continuou no Rio.
Teresa era classe média e queria desesperadamente fazer parte da alta sociedade, fosse carioca, paulista, não importava.
Assim que Inácio se mudou para a capital paulista, ela passou a fazer pequenos trabalhos, até que caiu nas graças de um conhecido traficante carioca, o temível Tonhão.
Bonita e muito esperta, logo Teresa desfilava pela cidade com carro do ano e apartamento no bairro do Leblon.
Querendo mais e mais, bolou um plano e passou a perna no traficante, interceptando uma carga de cocaína vinda da Colômbia.
Vendeu praticamente toda a droga e sumiu do Rio de Janeiro, para ira do traficante.
Foi passar uma temporada no Pantanal e lá conheceu Artur, fotógrafo que estava trabalhando como freelancer para uma revista de ecologia.
Teresa seduziu o rapaz, e Artur logo se apaixonou.
Ele gostava de fumar um baseado de vez em quando e cheirar uma ou duas carreiras de cocaína.
Teresa presenteava-lhe com cocaína, e assim ele foi se tornando seu escravo.
Fazia tudo que ela mandava desde que o abastecesse de drogas.
Artur trouxe Teresa para São Paulo e viveram juntos por uns tempos.
Em seguida ele apaixonou-se por Nicole.
Teresa resolveu partir para conquistar Inácio.
Ela e Artur ainda se encontravam.
Ele fazia pequenos trabalhos escusos para ela, em troca de um punhado de pó.
O último trabalho que lhe fora solicitado foi seguir Mariana por uns tempos e tentar flagrá-la em alguma situação que, através das lentes de Artur, pudesse comprometê-la.
Mariana não era empecilho para Teresa, muito pelo contrário.
Mariana crescera cheia de medos e inseguranças.
Tentava ocultar os sentimentos e a total falta de firmeza interior por meio de atitudes forçadas.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 9:25 pm

Em seu íntimo, julgava-se sozinha e incapaz de tomar atitudes próprias.
Com a morte do pai, tentou se passar por valente, demonstrando ser moça forte e articulada de ideias, mas era pura fachada.
Em seu íntimo habitava uma moça insegura, triste e que não se sentia suficientemente boa para ter uma vida próspera e feliz.
As mulheres são extremamente competitivas.
Faz parte da natureza humana feminina.
A experiente Teresa percebeu o ponto fraco de Mariana e passou a tirar vantagem disso.
Totalmente desprovida de moral e valores, queria unir-se a Inácio somente por conta do dinheiro, mais nada.
Não seria uma suburbana desequilibrada que iria fazê-la lamber os dedos, à toa.
E havia um agravante:
Teresa corria o risco de ser morta.
Tonhão, o traficante, conseguiu descobrir seu paradeiro e ela foi posta na parede.
Ou pagava o valor da carga uma fortuna - ou seria morta.
E ela não tinha muito tempo para cumprir o trato.
Estava desesperada.
Teresa lançou sobre Inácio olhar significativo.
- Saudades.
- Que surpresa - disse ele por fim, após alguns segundos com os olhos paralisados sobre o extenso decote do vestido, mostrando o colo avantajado e robusto da jovem.
Inácio disfarçou e encarou-a nos olhos.
- O que faz aqui no meu trabalho.
- Amigos aparecem e são necessários nessa hora.
Inácio coçou a cabeça.
Ela continuou:
- Vim prestar solidariedade.
Ele não estava entendendo nada.
- O que diz? - indagou, carregando no semblante um enorme ponto de interrogação.
Teresa mordeu os lábios, jogou os cabelos para os lados e sacou da bolsa um envelope pardo.
Inácio com olhou com expressão interrogativa no rosto.
- Explique-se melhor.
- Desculpe, mas acho isso muito desagradável.
- O que é?
- Não gosto de me meter na vida de meus amigos, ainda mais quando são amigos de quem prezo muito a amizade.
- Não me venha com rodeios.
O que é isso?
- Olhe você mesmo.
Ele apanhou o envelope, abriu-o e, conforme ia vendo as fotos, suas mãos tremiam e seu coração pulsava acima do normal.
Logo uma grossa camada de suor escorreu pela fronte e pingou sobre uma das fotografias.
Ele as jogou nervosamente sobre a mesa.
- De onde veio isto? - indagou perplexo.
- Um amigo me deu.
Estava tirando fotos para uma campanha publicitária quando se interessou pelo casalzinho aí da foto e foi clicando.
No princípio acreditei ser pura coincidência, não quis levar a sério.
Mas, depois, olhando bem para as fotos, percebi que a moça em questão é a Mariana.
- Sim, é ela - balbuciou ele.
- Conhece o rapaz?
Inácio suspirou.
- Não sei, parece familiar. Estou nervoso.
Teresa adicionou com malícia:
- E as fotos são bem comprometedoras.
Realmente as fotos foram tiradas de um ângulo comprometedor.
Quem as olhasse teria a impressão de que Mariana e Rogério eram íntimos, bastante íntimos.
Ora a cabeça dela no ombro dele, ora uma mão sobre a outra, ou mesmo um sorriso cúmplice.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 9:26 pm

Talvez no momento em que Mariana, arrasada na calçada, apoiou-se nas mãos de Rogério para se erguer, o espocar da foto dava a impressão de que ela estava se atirando em seus braços.
E... Cada um vê o que quer.
Teresa queria forçosamente, claro, que Inácio visse um casal apaixonado.
E Inácio caiu na armadilha e viu um casal.
Não conseguia mais concatenar os pensamentos.
Teresa aproveitou o estado emocional do rapaz e deu-lhe o golpe de misericórdia:
- As fotos podem ser um erro, um engano qualquer.
- Não creio - disse ele, enfático.
Ela aproximou-se e tocou levemente em seu braço.
- Essas fotos podem ser armação, um truque de fotografia, talvez.
Inácio caiu na armadilha.
Nem sequer pensou que Teresa estivesse fazendo cena.
- Por favor, não queira proteger a Mariana.
Vocês, mulheres, são incompreensíveis.
Querem acobertar os delitos de alcova que cada uma comete.
Não tem piedade de mim.
Ela fez beicinho:
- Oh, querido!
Creio que estou me fazendo passar por lobo em pele de cordeiro.
Jamais agiria dessa forma.
- As fotos não mentem.
- Claro que não.
O circo estava armado. Teresa foi implacável:
- Diga-me uma coisa...
- O quê? - perguntou Inácio, mãos trémulas e suando frio.
- Notou alguma diferença de comportamento.
- Como assim?
- Ah, sei lá, Mariana tem se comportado normalmente ou está diferente?
Porque, se ela estiver agindo com naturalidade, se não há diferença de tratamento que você tenha notado então isso foi um equívoco e essas fotos devem ser queimadas e encerramos o assunto aqui.
Agora, se Mariana estiver se comportando de maneira estranha, o que não creio, então deve procurá-la para uma conversa.
- Mariana tem se comportado de maneira bem estranha, se quer saber.
- Jura? Como assim?
- Ela não atende aos meus telefonemas. Tem-me evitado.
Teresa escondeu o rosto entre os volumosos e sedosos cabelos para ocultar o sorriso de satisfação.
Recompôs-se:
- Bom, nesse caso, se ela tem adoptado comportamento estranho, então...
Ela deixou a frase solta no ar.
Inácio andava de um lado para o outro do escritório.
Estava possesso. Tudo se encaixava.
Ele, idiota, acreditando que Mariana estava brava, triste, e agora descobria que ela não passava de uma...
Ele censurou os pensamentos.
Não podia descer tanto em sua escala moral.
Estava bastante nervoso, e quando se está fora de si o melhor é não pensar nada, para não se arrepender depois.
O rapaz deixou-se cair pesadamente sobre a cadeira.
Apoiou os cotovelos sobre a mesa e cobriu o rosto, com enorme pesar.
- Ela me parecia ser tão sincera em seus sentimentos!
- A gente se engana com as pessoas - volveu Teresa.
- Se não fossem essas fotos, eu jamais acreditaria.
Teresa riu triunfante.
Nada como contar com a ajuda de um viciado.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 9:26 pm

Artur era excelente fotógrafo, mas não parava em nenhum emprego por conta de seu namoro com as drogas, pois elas começavam a interferir em seu trabalho.
Teresa já o conhecera na intimidade e sabia do gosto do rapaz por destilados e substâncias tóxicas em geral.
Foi só lhe oferecer um papelote de cocaína em troca do serviço.
Artur aceitou de pronto, e o serviço era uma barbada.
Em menos de uma semana conseguiu fotografar Mariana numa situação adequada aos interesses de Teresa.
No final das contas, Artur cheirou sua cocaína e Teresa abalou a relação dos pombinhos felizes.
Momentos antes, logo depois que Inácio conversou com Nair, ela desligou o telefone e olhou para a filha, estendida no sofá, rodeada de lenços de papel, aparência nada atraente.
Mariana estava prostrada no sofá, não tinha vontade de se alimentar, de tomar banho, de ir à faculdade.
Dera uma desculpa meio esfarrapada e saíra mais cedo da clínica do Dr. Sidnei.
- É a quinta vez que Inácio liga hoje - volveu Nair.
- Pode ligar a sexta e milésima vez, eu não vou atendê-lo.
- Por que está tão desconfiada?
- Mãe, contei milhões de vezes à mesma história.
Eu vi com meus próprios olhos.
Inácio estava de amores com uma fulana.
Ninguém me contou, eu vi.
- Não custa nada conversarem a respeito.
Pergunte a ele.
Caso diga que não fez nada naquela noite, que não saiu, caso invente uma desculpa que não confira com a realidade, então o melhor é se separar.
Não tem nada pior do que amar e desconfiar de alguém.
Amor e desconfiança não andam juntos.
- Eu sei mãe.
Não combinam.
- Mas - prosseguiu Nair -, se ele confessar que saiu e foi jantar fora naquela noite, então há uma chance de conversar, de retomar o namoro, e isso vai até acabar fortalecendo e melhorando a relação de ambos.
- Obrigada.
Mas tenho medo de encarar a verdade.
E se ele mentir?
Vou ficar mais decepcionada ainda.
Por enquanto a dúvida me assola, mas eu prefiro a dúvida à verdade.
- Melhor ouvir a verdade do que ficar sendo corroída pela dúvida.
Pelo menos você pode tomar alguma atitude.
- E ficar mais arrasada e mais decepcionada?
- Pior do que você está? Duvido.
Mariana fez força e sentou-se no sofá, indignada.
- Você sempre se pareceu muito comigo.
Pensávamos da mesma maneira.
Você tem mudado bastante.
Saiu daquela depressão, tem uma vida activa, começou a costurar para fora...
- Estou fazendo o melhor que posso.
Letícia me ensinou isso.
Cometi muitos erros no passado.
- Que erros?
- Isso não é da conta de ninguém.
Tem a ver com a minha vida, não compromete nem você nem sua irmã.
Aprendi muita coisa nesses anos todos, e agora cansei de ser triste.
Cansei. Ponto final.
- Não dá para mudar de uma hora para outra.
- Dá, sim. Com vontade e determinação, todos podemos mudar.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 9:26 pm

É uma questão de reforma interior, de mudança de atitudes, renovação de crenças e posturas.
- Isso é impossível.
Somos o que somos e não há como mudar nosso jeito de ser.
- O jeito de ser não muda, faz parte do espírito.
Entretanto, a maneira de enxergar os factos, de encarar a vida pode ser mudada.
Eu resolvi mudar.
Passei vinte anos ao lado de seu pai, como se fosse um vegetal, e, agora que as criei e cumpri meu papel de mãe, quero cuidar de mim.
- Estou espantada.
Você mudou bastante.
- Mudei e quero mudar mais ainda.
Quero ser dona de mim.
- Gostaria de pensar como você.
- É uma questão de escolha.
Prefere mudar ou vai continuar aí sofrendo e ruminando por algo que nem mesmo possa ser verdade?
Mariana não sabia o que dizer.
O espírito de Homero aproximou-se de Nair e ela, sem saber, captou o que ia em seu pensamento.
Com a modulação de voz levemente alterada, ela disparou:
- O que você tem a perder?
O diálogo é a melhor maneira de entendimento entre duas pessoas.
Ligue para Inácio, converse com ele a respeito.
Quem sabe você não terá uma grata surpresa e se sentirá uma tola apaixonada?
- Tola?
- Melhor se sentir tola do que perder a chance de viver uma linda história de amor.
Depois não venha me dizer que a vida lhe foi injusta.
Você está jogando sua felicidade pela janela.
Não faça como eu.
Nair falou num rompante, levantou-se da poltrona, rodou nos calcanhares e caminhou até a cozinha.
Mariana estava estupefacta.
A mãe estava bem mudada, já havia notado algumas mudanças desde quando Nair passou a costurar para fora e conciliar esse novo trabalho com os afazeres domésticos.
A casa estava mais bem arrumada, os móveis pareciam mais bem tratados, as louças bem mais limpas e impecavelmente dispostas nos armários.
E havia um brilho nos olhos da mãe que ela nunca notara antes.
Sua mãe num ponto tinha razão.
Era melhor saber toda a verdade do que ficar remoendo possibilidades, ficar presa nesse mar de inseguranças e aflições.
A dúvida não é boa conselheira, e estava na hora de dar um basta naquele estado de prostração. Homero soprou sobre a cabeça de Mariana, e logo a tonalidade cinzenta de sua aura foi adquirindo nova cor, surgindo um azul tímido a princípio, e logo uma tonalidade de azul mais intenso ganhou forma, espalhando-se ao redor de seu corpo todo, trazendo-lhe bem-estar e disposição.
Imediatamente Mariana lembrou-se de Inácio, de seu amor, dos momentos felizes juntos, e ligou para o escritório.
Isabel atendeu e passou a ligação justamente no instante em que Inácio acabara de ver as fotos, jogava-se na cadeira e apoiava os cotovelos sobre a mesa, cobrindo o rosto com as mãos.
Ele atendeu o telefone de maneira ríspida:
- O que foi?
- Desculpe Dr. Inácio, mas a senhorita Mariana está ao telefone.
Necessita falar-lhe com urgência.
- Impossível atendê-la.
Ele sentiu tremenda raiva brotar dentro de si. Finalizou:
- Diga a ela que estou numa reunião importante e que ligo depois.
- Sim, senhor.
Isabel transmitiu o recado a Mariana.
Ela desligou o telefone desapontada.
Ansiava falar com o namorado.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 9:26 pm

Entretanto, renovada em suas energias, sorriu para si mesma.
Deu de ombros e pensou alto:
- Quem sabe, dia desses, no fim da tarde, eu apareça no escritório?
Sairei mais cedo da clínica e lhe farei uma surpresa.
Ah, como eu o amo...
Homero riu com satisfação.
Consuelo aproximou-se.
- Não gostaria que interferisse na vida das duas.
- Só estou ajudando.
De certa forma me sinto responsável também pela felicidade das garotas.
Mariana se parece muito com a mãe.
Letícia é mais forte, independente, e sabe se virar.
- Todos sabem se virar, de uma maneira ou de outra - afirmou Consuelo.
Por favor, pense em sua própria melhora, nas coisas boas e nas pessoas que o esperam.
Ficar preso nesta dimensão não é apropriado.
As energias da Terra são naturalmente mais densas, e você pode ser atacado a qualquer momento.
Há muitos espíritos perdidos por aqui, e não temos como protegê-lo caso uma falange de espíritos infelizes se aproxime.
- Sei me defender dos arruaceiros.
- Entretanto vai chegar um ponto em que você não poderá mais ficar preso às energias deste mundo.
Você morreu, desencarnou, não faz mais parte deste ambiente.
Já percebeu há quantos anos está aqui parado, tentando inutilmente ajudar Nair?
- Preciso reparar meu erro.
Já fiz curso no astral, tentei melhorar por meio de terapia, mas não consigo.
Meu terapeuta disse que o melhor a fazer para diminuir o peso da minha consciência seria retornar e tentar remediar.
E aqui estou. Não importa se estou aqui há dez, vinte anos.
O tempo é o que menos importa.
Eu separei Virgílio e Nair.
Agora vou tentar uni-los de novo.
- Você é quem sabe. Marta está saudosa.
Homero sorriu emocionado.
- Marta é espírito evoluído e pode esperar.
Ela me prometeu.
Tenho certeza de que logo estarei quite com esses dois e com minha consciência e poderei partir.
- Mas...
- Por favor - ele suplicou.
Me dê um pouco mais de tempo.
- E se você tivesse uma conversa com Nair?
Não seria mais proveitoso?
Homero deu de ombros.
- Ela ainda tem raiva de mim.
- Vai precisar enfrentá-la, se quer mesmo se redimir.
Homero hesitou.
- Prefiro ficar oculto, ajudá-la à distância.
- Você é quem sabe - ponderou Consuelo.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 9:27 pm

CAPÍTULO 12

Nicole acordou e seus olhos timidamente procuraram identificar o local em que se encontrava.
Virou lentamente a cabeça para os lados, mas não reconheceu o ambiente de imediato.
Havia um homem próximo à cama e ela precisou espremer os olhos e fazer tremendo esforço para lembrar-se de quem era.
Virgílio apertou delicadamente sua mão.
- Onde estou? - indagou sonolenta, voz pastosa.
- Não se preocupe meu bem. Papai está aqui.
- Papai? - estranhou.
- Sim, querida. Estou aqui ao seu lado.
- Que lugar é este?
- Seu quarto.
Você está no seu quarto, em casa.
- Mas a ambulância, o resgate...
Estou com a mente embaralhada.
- Chi! Calma, meu amor.
Você teve ligeiro mal-estar ontem.
Foi hospitalizada e hoje cedo foi liberada.
Eu a trouxe para casa.
- Não me lembrei direito do que ocorreu.
- Não se preocupe.
Você vai ficar boa.
Vou ajudá-la na sua recuperação.
Nicole ia dizer mais alguma coisa, mas a quantidade de sedativos que lhe fora ministrada deixara-a sonolenta.
Ela virou o pescoço para o lado e adormeceu novamente.
Sidnei aproximou-se de Virgílio.
- Melhor deixá-la descansar.
Sabe Deus como vai reagir na hora em que ela acordar de fato.
- Por quê? Acha que Nicole possa ter uma recaída?
- Receio que sim.
Virgílio levantou-se impaciente.
- Isso não pode ser verdade.
- Nicole é dependente química, Virgílio.
- Minha filha não é viciada.
Cometeu alguns excessos, mas só.
Sidnei esboçou leve sorriso.
Deu um tapinha no ombro de Virgílio.
- Sei que é duro admitir que tenham sob nosso nariz um dependente químico, ou adicto - denominação preterida pela instituição Narcóticos Anónimos.
- Não posso crer. Minha filha não é nada disso.
Sidnei respirou e por fim disse voz pausada:
- Nicole é portadora de uma doença chamada dependência química, progressiva, às vezes incurável e fatal, conhecida também como adição.
Quem sofre disso tem obsessão para usar a primeira dose e, quando o faz, passa a sofrer de compulsão, fica impossível exercer controle sobre si mesmo e não se consegue mais parar.
O adicto deixa a droga influir em sua vida, entra em depressão, envolve-se em crimes e delitos.
- Isso é terrível.
- O importante é saber que sua filha se droga há muitos anos.
Se você não aceitar o facto de que Nicole é viciada, então não poderei ajudá-la no tratamento de desintoxicação.
Virgílio estava aturdido.
Admitir que a filha fosse viciada em drogas minava sua aura de suposto bom pai.
Ele se sentia um crápula, sua consciência acusava-o de abandono e desleixo na educação da filha.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 9:03 pm

A culpa corroía-o sem perdão.
- Diga-me uma coisa.
- Sim, colega.
- Como pode me ajudar?
- Tenho amigos e posso conseguir uma boa clínica para sua filha.
Nicole passará por processo de desintoxicação, e só uma clínica especializada em viciados, ou adictos, é que poderá dar-lhe o tratamento adequado.
O paciente torna-se agressivo, sente falta da droga, tem pesadelos e calafrios.
É uma tortura inimaginável para nós que não tivemos contacto com tipo nenhum de substância química.
- Sei disso tudo, mas é duro admitir que Nicole seja uma viciada.
Olhe como ela dorme bem.
Se fosse uma drogada inveterada, estaria agora agitada, clamando por alguma droga, não acha?
- Virgílio, sente-se aqui.
Sidnei indicou uma poltrona e pacientemente começou a conversar com o amigo.
- Segundo a Organização Mundial de Saúde, droga é qualquer produto, lícito ou ilícito, que afecte o funcionamento mental e corporal de uma pessoa, podendo causar-lhe intoxicação ou dependência.
- O que você quer dizer com lícito ou ilícito?
Não entendo.
- Pois bem.
As drogas lícitas, por exemplo, podem ser o álcool e o tabaco, e são consideradas lícitas porque a sua venda é legal. Incluem-se também alguns tipos de chá, o café e os inalantes, que não são ilegais a não ser no seu propósito de uso para querer se intoxicar.
As drogas ilícitas são substâncias controladas, algumas proibidas para qualquer pessoa, como a maconha, a cocaína, o ácido lisérgico...
- Ácido lisérgico é o LSD, que apareceu e caiu no gosto dos jovens nos anos 60
- Esse mesmo.
Virgílio desesperou-se:
- Eu cheguei a experimentar o ácido lisérgico na faculdade.
- E daí?
- Será que Nicole é viciada por minha culpa:
Isso é hereditário?
Sidnei apoiou seu braço no do amigo.
- Nenhum estudo científico, até hoje, conseguiu comprovar a origem da doença.
Tempos atrás, um pregador declarou sua satisfação de ter recebido educação evangélica e, graças a essa educação, fora afastado do envolvimento com drogas.
É um grave equívoco, porquanto nos centros de recuperação existem centenas de filhos e filhas de pastores, de católicos, de espíritas e toda sorte de orientação religiosa que, apesar da educação severa, se envolveram com drogas por causa da doença.
Assim como existem milhões de lares desajustados onde, apesar de todo o sofrimento, não existem dependentes químicos.
O médico exalou profundo suspiro e continuou:
- Portanto, meu caro, isso é característica de cada um, não tem nada a ver com hereditariedade.
Caso fosse assim, Bruno também teria queda por drogas.
E não acho que esse seja o caso de seu filho.
- Muito pelo contrário.
Meu filho nunca colocou um cigarro na boca e não gosta de bebidas.
Bruno é fã de refrigerante.
- Pois bem.
Então se acalme. Pare de se culpar.
Você precisa estar bem, em equilíbrio, a fim de ajudar sua filha.
- Obrigado, meu amigo.
Sabia poder contar com sua ajuda.
- Não há de quê.
Virgílio beijou a testa da filha.
Passou delicadamente a mão pelo seu rosto.
Voltou-se para Sidnei.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 9:04 pm

- Desculpe-me, mas você falava das drogas ilícitas.
O assunto me interessa.
- Além do LSD, há também uma variedade de plantas alucinogénias e oleáceos, e tantas outras que podem ser adquiridas por meio de prescrição médica, como os tranquilizantes.
Nicole deve ter algum médico amigo ou conhecido que lhe prescreveu as receitas para a compra desses tranquilizantes.
- É bem provável - anuiu Virgílio.
É fácil conseguir uma receita médica.
O médico continuou:
- E essas drogas ainda podem se classificar em depressoras do sistema nervoso central, tais como o álcool e os soníferos; podem também ser estimulantes do sistema nervoso central, como a cocaína; e ainda podem ser perturbadoras do sistema nervoso central, como a maconha e o ácido lisérgico.
- É tanta informação! Entretanto, acha mesmo que minha filha seja dependente química?
- Receio que sim - respondeu Sidnei, recostando-se na cadeira.
O usuário de drogas pode ser recreativo, usando-a por puro prazer, na hora em que bem entende.
Geralmente é usuário que sabe à hora em que começa e termina como quem bebe socialmente, por exemplo.
Já o usuário dependente usa a droga como meio de fuga da realidade e não pode, não consegue de forma alguma ficar sem ela.
A grande maioria dos usuários recreativos, como eu e você, que de vez em quando bebemos um uísque, nunca será dependente.
- Não é o caso de Nicole - disse por fim Virgílio, desolado.
- Creio que não.
Por acaso nunca deu falta de nada de valor em sua casa?
Um objecto, um quadro, uma jóia?
- Nunca dei falta de nada.
Creio que Ivana também não, porquanto ela controla tudo, é extremamente ligada em dinheiro, nas nossas jóias, na riqueza.
Mas Nicole ganha gorda mesada, talvez seja por isso que nunca tenha trocado algum objecto aqui de casa por droga.
- E notou por acaso reacções tóxicas agudas, como vómitos, dores abdominais, convulsões?
- Sinto muito, mas não tenho dado muita atenção à minha filha.
- Está na hora de ficar de olho na sua pequena Nicole.
Pelo bem dela e pelo seu próprio bem.
- Confesso - disse amargamente Virgílio - que fui um pai relapso.
Sidnei sorriu triste.
- Existem pais de toda sorte, meu velho.
As crianças e adolescentes precisam de limites e uma boa dose de autodisciplina para enfrentar o mundo moderno.
Entretanto também precisam de autoconfiança, de independência.
Por que há pais bem-sucedidos na criação de seus filhos e outros que não conseguem sê-lo?
- Talvez seja o meu caso.
- A pesquisadora Diana Baumrind, anos atrás, classificou os pais em várias categorias, tais como:
pais competentes, pais autoritários, pais negligentes e pais ausentes.
Na verdade, você se encaixa nesse último perfil.
- Está falando sério?
- Por que eu deveria mentir Virgílio?
Estou sendo sincero.
Nicole cresceu com ausência total de atenção e afecto.
Sua filha não recebeu alimento afectivo necessário para o reconhecimento de sua própria existência.
Nicole tem dificuldades no convívio social e é comum encontrar essa característica em jovens usuários de drogas.
Virgílio afundou a cabeça entre as mãos.
Era-lhe difícil escutar tudo aquilo de uma vez só.
Ainda mais vindo de um grande amigo seu.
- Se Nicole for internada, estarei assinando meu atestado de pai incompetente.
Não seria melhor tentar enchê-la de alguns carinhos, presentes, talvez um carro zero ou mesmo uma viagem ao estrangeiro?
Nicole iria mudar e não precisaria passar por clínica nenhuma.
- Isso até seria possível, caso sua filha tivesse começado há pouco tempo.
Pelo que conversei com Bruno, parece-me que faz uns bons anos que ela se droga.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 9:04 pm

Não feche os olhos para a triste realidade que se abate à sua frente.
Sei que é difícil.
Muitos pais não aceitam a verdade e tentam se apegar em fórmulas as mais mirabolantes a fim de se sentirem menos responsáveis.
- Farei o possível para ajudar minha filha.
- Faz bem. Fico contente em saber que vai deixar o orgulho de lado e fazer o possível para ajudar Nicole.
Eu não tenho filhos, mas, caso os tivesse, faria o mesmo - ponderou.
- Ainda a tempo de você ser pai.
Afinal, é poucos anos mais moço que eu.
- Falta encontrar a mulher ideal - suspirou.
- Cuidado. O tempo está passando, e daqui a pouco você vai precisar não de uma esposa, mas de uma enfermeira - tornou Virgílio, entre sorrisos.
- Sei esperar.
- Eu tirei Ivana de você.
Sidnei riu.
- Agradeço por você ter interceptado nossa relação e tirado Ivana de mim.
Olhe a esposa que eu iria ter.
Virgílio concordou.
- Estou pagando caro por isso.
- Não me leve a sério. Éramos namoradinhos, nada mais.
- Logo vai encontrar uma dona à altura.
- Quero alguém jovem, uma mulher mais nova.
Eu me sinto jovem por fora e por dentro.
Não me sinto com cinquenta anos de idade.
Preciso de uma companheira que sinta o mesmo.
De preferência alegre bem-humorada.
E as mulheres de nossa idade estão preocupadas com ex-maridos, filhos, menopausa...
Conversaram mais um pouco e por fim Sidnei despediu-se e colocou-se à disposição para ajudá-los no que fosse preciso.
Virgílio acompanhou o amigo até a porta de saída, sem antes dar à filha um carinhoso beijo no rosto.
Chegando à porta, agradeceu o amigo imensamente.
Por conta da discrição de Sidnei, a internação de Nicole não chegaria ao conhecimento dos jornais, revistas de fofocas ou programas vespertinos de televisão, daqueles que vivem à custa da desgraça de gente famosa para atrair a atenção do público e ganhar míseros pontos no ibope.
Virgílio despediu-se e fechou a porta.
Antes de subir as escadas, perguntou a um dos empregados por onde andava Ivana.
- Ela saiu logo cedo e disse que precisava visitar uma amiga em Campos do Jordão.
- Ivana subiu a serra?
Num momento desses?
- Sim, senhor.
Aquela atitude era bem típica dela.
Ivana odiava ser contrariada e não gostava também de aceitar a realidade e colaborar.
Ela estava pouco se incomodando se a filha estava enfrentando graves problemas com a dependência química.
Só pensava si mesma, sempre em si.
Virgílio sentiu um nó na garganta.
Seus olhos marejaram.
- Por que fui me deixar envolver e me casei com ela?
Por que não fui mais firme e fiz outra escolha?
Por que, meu Deus? Por quê?
Bruno acabara de chegar e acercou-se do pai.
Abraçou-o por trás.
- Não fique assim, meu pai.
Estou aqui ao seu lado.
Conte comigo e com Michele.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 9:04 pm

Tenho certeza de que tudo faremos pelo bem de Nicole.
Michele passou a mão delicadamente sobre o ombro de Virgílio.
- Nicole precisa de carinho e atenção.
Entretanto, também precisa decidir se quer ou não largar o mundo das drogas.
- Ela não tem condições de tomar decisões.
- Sei que não é nada fácil para o senhor pensar nisso, mas sua filha é responsável por tudo que lhe acontece.
- Nicole foi criada à deriva.
Não tem culpa de ser assim.
- Engano seu.
Bruno também foi criado à deriva, e olhe a diferença.
Por que essa disparidade?
- Não sei.
- Porque ele não quis.
Seu espírito é mais forte.
E tem outra coisa...
Michele pigarreou e silenciou-se.
Bruno apertou sua mão como sinal de cooperação e apoio.
Ele virou-se para o pai:
- Michele é espírita.
- Que agradável.
- Acha? - indagou o filho, surpreso.
- Alguns anos atrás, cheguei a ler algo a respeito.
Deixe-me lembrar - Virgílio pousou o dedo no queixo. - Ah, já sei.
Ele se levantou e foi até o escritório.
Voltou em seguida com um livro nas mãos.
- É este aqui, Reencarnação Baseada em Factos, de Karl Müller.
Michele pegou o livro e sorriu.
- Há muitas obras que tratam do assunto de maneira leve e descomplicada.
Este livro em particular - apontou - é muito bom.
Eu já o li.
Inclusive, quem fez a apresentação da edição brasileira foi o Dr. Hernâni Guimarães Andrade, director do Instituto Brasileiro de Pesquisas Psicobiofísicas.
Virgílio admirou-se com a sagacidade de Michele.
Bruno beijou-a levemente nos lábios.
- Essa mulher, além de linda, é inteligente.
- Bem se vê - tornou Virgílio, bem-humorado.
- Dr. Virgílio - ela foi directo ao ponto -, sou assistente social e espírita.
Eu tenho sensibilidade bem apurada, ou mediunidade, caso fique mais claro.
- Interessante - comentou Virgílio.
- Lá na periferia, no tocante à população em geral, o assistente social actua principalmente com famílias, mulheres chefes de família, crianças e adolescentes, idosos, pessoas portadoras de deficiência e, em geral, pessoas em situação de risco social, fazemos um belo trabalho com os jovens, a fim de que não entrem no mundo das drogas.
Formamos um grupo de assistentes sociais, médicos e psicólogos.
Michele suspirou e prosseguiu:
- Às vezes, tratamos de jovens dependentes químicos.
Além de tratamento apropriado, rodeado de médicos competentes, concomitantemente temos pequeno salão onde promovemos debates, palestras, e também uma vez por semana realizamos sessões de passe, cura, oferecemos tratamento espiritual para aqueles que realmente precisam.
- Fico feliz que vocês estejam fazendo algo de útil e bom para si mesmos e para os outros.
Quero discutir depois com Bruno sobre a ampliação de farmácias populares e...
Bruno interveio:
- Agora não, pai. Temos assunto mais urgente a tratar.
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Ave sem Ninho

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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 9:04 pm

Virgílio pigarreou e recompôs-se.
- Desculpem-me. Eu me empolguei.
Falaremos nisso numa outra oportunidade.
Continue Michele.
- Nicole necessita de tratamento físico.
Ela é dependente e precisa se tratar.
Entretanto, sinto que ela sofre de interferência espiritual.
- Mesmo?
- Sim.
- Tem certeza? - indagou Virgílio, sinceramente preocupado.
- Quando cheguei ao hospital, senti uma sensação esquisita.
Hospitais geralmente me dão calafrios, mas logo na entrada, avistei um amigo espiritual.
Não sei se era parte de sua família, entretanto ele fez aceno com a cabeça e demonstrava estar preocupado com Nicole.
Após a visita, assim que saímos do hospital, deparei com um espírito muito bravo, próximo ao estacionamento.
Ele me xingou e disse que voltaria a assediar Nicole, que ela o tinha levado para o mundo do vício e agora ele estava se vingando.
Bruno foi categórico:
- Michele também tem vidência, pai.
- Santo Deus!
- É verdade, seu Virgílio.
Eu o vi. E conversei com ele.
- Conversou com ele? Como?
- Por telepatia.
Os espíritos percebem quando são notados.
- Não posso crer...
- Não foi muito difícil afastá-lo de Nicole.
Existem tantas pessoas que se drogam no mundo que uma a mais OU a menos para os espíritos nada significa.
Todavia este, em particular, dizia que ela o havia induzido às drogas.
- Não creio que minha filha chegasse a tanto.
Nicole não é má pessoa.
É somente uma dependente química.
- Pode ser de outras vidas.
Nunca saberemos.
Virgílio estava confuso.
Havia recebido muita informação.
Assim que concatenou algumas ideias, indagou;
- Mas, se você diz espírito, é porque está morto.
Se estiver morto, como pode ter vontade de se drogar?
- Ao desencarnar e se libertar do corpo físico, nosso perispírito ou nosso eu espiritual, carrega toda sorte de lembranças, vontades, tendências e vícios também.
Uma pessoa que morreu em consequência do abuso de drogas dificilmente vai se livrar do vício após a morte.
Seu espírito vai continuar preso às sensações e com forte necessidade de se drogar.
E, como no astral o espírito ainda não tomou consciência de como criar ou mesmo adquirir a droga, ele se aproxima, cola-se a uma pessoa encarnada que é dependente química ou apresenta forte tendência para se drogar.
- E esse espírito, então, se afastou de minha filha?
- Por ora, sim.
Mas, para que outros não se aproximem, é necessário que Nicole mude o teor de seus pensamentos.
Ela precisa dar um basta se tratar, procurar mudar seu estilo de vida.
É imperioso que ela faça amizades saudáveis.
E que também perdoe a si mesma, a fim de afastar inimigos de outras vidas.
- Entendo - tornou Virgílio, impassível.
- Além do tratamento em clínica especializada, Nicole poderia frequentar nossas sessões e fazer tratamento espiritual aliado ao de desintoxicação.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 9:04 pm

- Tudo que eu puder fazer por minha filha, eu farei.
A partir de hoje não vou mais desgrudar os olhos de Nicole.
Bruno emocionou-se:
- Obrigado, pai.
Saber que posso contar com você me alivia e me deixa muito feliz.
Abraçaram-se.
Virgílio beijou Michele na testa.
- Obrigado pela ajuda que está prestando à minha família.
Você está nos fazendo muito bem.
Eles mudaram de assunto e foram para a copa fazer um lanche.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 9:05 pm

CAPÍTULO 13

Mariana ligou outras tantas vezes, e Inácio continuava em reunião.
Aquilo era estranho.
Mesmo ocupado, antes ele a atendia e falava rapidamente.
E já fazia dois dias que ela tentava alcançá-lo, sem sucesso.
Mariana pousou o fone no gancho, um tanto desapontada.
Nair vinha da cozinha com alguns remendos e panos sobre uma grande cesta de vime.
- O que foi? Não conseguiu falar com Inácio?
- Não. Ele não me atende.
Está sempre em reunião.
- Ele é homem ocupado.
Talvez esteja num dia difícil.
- Sinto algo estranho.
- Como o quê?
- Um incómodo.
Ele ligou várias vezes nesta semana, e há dois dias não liga mais.
- Faz sentido.
Ele quis falar com você e não conseguiu.
Talvez tenha se afundado no trabalho.
- Não acha que é estranho as ligações terem parado de uma hora para outra?
Nair deu de ombros.
- Como disse, talvez seja bastante trabalho.
Escute, por que não se arruma e vai até o escritório
- Pensei nisso, mas não sei se seria correcto ir até o local de trabalho.
O pessoal da Centax não me conhece...
- Deixe de lengalenga.
Levante-se, tome um banho, coloque uma roupa bem bonita e vá esperá-lo na porta do prédio.
Tenho certeza de que ele vai adorar a surpresa.
- Será?
- Deixe a dúvida de lado e tente.
- Pode ser.
- Você o ama, filha?
- Muito.
- Então não tenha dúvida.
Vá se arrumar.
Mariana levantou-se de um salto do sofá, estalou um beijo na bochecha da mãe e subiu rapidamente as escadas.
Nair balançou a cabeça para os lados.
- Essa juventude! -suspirou.
Disse isso e botou a cesta de roupas sobre a mesinha de centro.
Ouviu barulho na porta de casa e afastou delicadamente a cortina com os dedos da mão. Era Virgílio.
- Essa não! - exclamou ela.
Mariana estava em casa.
O que sua filha iria dizer?
Nair teve um lampejo e gritou para a jovem, na ponta da escada:
- Vou levar encomenda para a Dona Elvira. Volto logo.
- Está bem, mamãe.
Vou tomar banho e prometo que voltarei feliz e contente.
Tranque a porta. Eu levarei a minha cópia de chave.
Nair torceu as mãos, aflita e correu até a porta.
Abriu no exacto momento em que Virgílio ia tocar a campainha.
- O que faz aqui?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 9:05 pm

- Preciso de ajuda.
- Ajuda? - perguntou ela, surpresa.
- Nair, por favor, estou precisando de um ombro amigo.
- Há esta hora?
Uma de minhas filhas está em casa.
Você não pode entrar.
A expressão no rosto dele não deixava dúvidas:
estava mesmo desesperado, triste e abatido.
As olheiras tomavam lugar de destaque, formando uma faixa bem escura ao redor dos olhos.
Nair encostou a porta e perguntou:
- Aconteceu alguma coisa grave?
- Estou com sérios problemas e preciso que me ajude.
- Eu?
- Sim. Preciso de um conselho, de opinião amiga.
- Agora?
- Vamos, entre no meu carro.
- Não posso.
- Um minuto só.
Vamos até algum lugar sossegado.
Preciso desabafar.
Trata-se de minha filha Nicole. Estou desesperado.
Nair hesitou por instantes, mas sentiu que Virgílio estava falando a verdade.
Ele não iria usar o nome da filha em vão somente para sair com ela.
- Está bem. Dê-me um minuto, sim?
Ele concordou com a cabeça.
Nair entrou em casa, apanhou a bolsa e saiu.
Quando ela entrou no carro, Salete estava à espreita, do outro lado da rua.
Fuzilou Nair com os olhos.
Cutucou o braço de Creusa.
- Não disse que ela não prestava?
- Só vendo mesmo, para crer.
- Nair sempre foi leviana. Ela não presta.
As filhas também não.
Uma chegou outro dia com um desconhecido a tiracolo.
A outra nos trata com frieza, com aquele ar metido e snobe.
- Você está certa - assentiu Creusa.
Elas são um bando de levianas.
- Graças a Deus sou viúva de respeito e tenho um filho que vale ouro.
- É seu filho vale ouro.
Você e seu filho são exemplo aqui para a vizinhança, quiçá para o bairro.
Uma família pequena, porém perfeita. Você foi abençoada, Salete.
Salete sorriu e olhou para o alto.
- Sou abençoada mesmo, tenho a família perfeita.
Desde a entrega das fotos, Teresa ia todo fim de tarde até o escritório só para encher a cabeça do pobre Inácio de dúvidas e plantar insegurança, a fim de afastá-lo de Mariana.
Estava conseguindo.
Entretanto, faltava uma dose extra de veneno.
Ela precisava sair com ele.
E Inácio, mesmo descontente com Mariana, não se propunha a sair.
Ou estava metido em reuniões, ou então ia para casa e se afundava no sofá.
Ouvia músicas românticas e deixava o pranto correr solto.
Por que Mariana o fizera de palhaço?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 9:05 pm

Inácio não quisera se envolver afectivamente com ninguém.
Depois que os pais se separaram, ele não mais acreditou no amor.
Se seus pais, que se amavam e eram felizes, se separaram, por que ele deveria acreditar que as relações amorosas pudessem dar certo?
Isso era ilusão. Pura ilusão.
E ele havia se atirado de cabeça naquele namoro com Mariana.
Ela lhe parecera à mulher ideal.
Bonita, inteligente, companheira.
Amava Inácio pelo que ele era, e não pelo que tinha.
Isso o impressionara bastante.
Também havia Octávio.
Ele conhecera o pai dela e simpatizara muito com ele.
E agora sentia essa dor sem igual, como se seu peito houvesse sido arrancado.
Jamais se entregaria novamente dessa maneira.
Nunca mais.
Mas nesse dia Teresa estava convicta de que iria arrancá-lo do escritório e levá-lo até um bar.
Para isso apostou todas as fichas em seus dotes físicos e abençoados pela natureza.
Teresa foi ao cabeleireiro, fez escova, alisou os volumosos cabelos.
Fez as unhas das mãos e dos pés.
Passou parte do dia descansando o rosto em cremes e, após o almoço, passou no shopping.
Foi até uma loja elegante e fina, comprou um vestido de organdi pregueado, de cor vinho, bem decorado.
Muito bonito.
Ela chegou em casa, tomou banho demorado, passou hidratante, perfumou-se com esmero.
Maquiou-se com delicadeza.
Colocou o vestido, calçou um bom par de saltos altos, apanhou sua pequena bolsa e foi à Centax.
- Hoje Inácio não me escapa.
E teve essa certeza assim que chegou à garagem do prédio comercial.
Tão logo desceu do carro e entregou às chaves, Teresa foi motivo de muitas bocas abertas, queixos caídos e olhares de extrema cobiça.
Os homens não conseguiam deixar de reparar em tamanha beleza, e ela sabia disso.
Riu para si, e tomou o elevador, decidida a despertar algo mais em Inácio.
- Boa tarde, querida.
- Senhorita Teresa, como está linda! - exclamou Isabel.
- Obrigada.
Havia dois homens sentados na sala de espera, contígua à mesa de Isabel.
Nenhum dos dois conseguia deixar de apreciai o corpo bem-feito e aspirar o delicado perfume de Teresa.
Um deles suspirou:
- Se eu tivesse uma dona dessas, eu seria o homem mais feliz do mundo.
- E eu jamais olharia para outra mulher.
Mas a realidade é dura, e o que me espera em casa não chega aos pés dessa aí - reclamou o outro.
Teresa solicitou ser atendida e em instantes adentrou a sala de Inácio.
Nesse dia em particular ele não deixou de notar o mulherão à sua frente.
Talvez indignado pelo fato de Mariana o tiver traído - assim ele pensava - ou até pelo facto de se sentir carente, Inácio ficou de queixo caído assim que Teresa entrou em sua sala.
Ele não era de ferro.
- Você está linda.
- Obrigada.
- Vai a algum lugar em especial?
Ela o corrigiu:
- Nós vamos.
- Como assim?
- Vamos sair.
Chega de ir para casa e se afundar em lágrimas e melancolia.
Daremos uma espairecida, tomaremos um coquetel, jogaremos conversa fora.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 9:05 pm

- Não sei - disse ele, em tom hesitante.
Teresa mentiu:
- Estou preocupada com você. Está abatido.
- Não tenho fome, não tenho vontade de me alimentar.
E, se quer saber, nem tenho vontade de tomar banho.
Estou fazendo tudo no automático.
Perdi o estímulo por tudo. Estou arrasado.
Teresa aproximou-se e fez beicinho:
- Oh, judiação!
Vamos nos divertir uni pouco, está bem?
Inácio convenceu-se. Ir de novo para casa e chorar as pitangas pela namorada não valia pena.
Não aguentava mais ouvir música popular brasileira.
Estava cansado disso.
As fotos vinham fortes à sua mente.
Ele estava plenamente convencido de que Mariana estava lhe escondendo alguma coisa.
Teresa tinha sido bastante ousada e ardilosa.
Ao saírem da sala, Teresa fez questão de entregar lindo pacote, envolto por um grande laçarote vermelho, nas mãos de Isabel.
- O que é isso? - indagou a pobre moça, aturdida.
- Seu presente, lembra-se?
- A senhora estava falando sério?
- Claro querida.
Você é uma jovem muito bonita e atraente.
Eu queria lhe dar uma roupa que combinasse com você.
Isabel sorriu comovida.
Teresa era muito legal.
Preocupava-se com ela e a enaltecia.
Nem mesmo um cego seria capaz de elogiá-la.
- Obrigada.
Não precisava se incomodar.
- Um mimo para você.
Escute querida, se alguém da família ligar - Teresa mudou o tom de voz nessa hora, diga que estamos no bar do hotel Hilton.
Isabel anotou com satisfação e sorriu alegre assim que ela e Inácio passaram pelo corredor.
- Teresa é pessoa tão boa, tão simpática, uma mulher fantástica - deduziu Isabel.
Ivana estava cansada de fazer nada.
Havia três dias que estava no chalé de Otília, em Campos do Jordão.
Saíra da cidade a fim de não encarar os problemas de frente.
Gostava de ficar sozinha em casa, e agora isso era impossível.
Odiava dividir seu espaço com os outros.
Nicole levaria mais uns dias até se restabelecer.
Por esses dias também chegaria à sobrinha, vinda de longe.
A pequena e charmosa cidade não lhe atraía em particular.
Campos do Jordão fazia Ivana lembrar-se do passado, e ela não queria nada de lembranças.
Fez tremendo esforço para esquecer um monte de recordações desagradáveis.
Preferia que Otília estivesse na praia, ou em outro lugar qualquer.
Mas fazer o quê?
Ela não queria ficar sozinha e tinha de pagar o preço de subir a serra.
E foi o que fez, assim que Virgílio correu ao hospital para acompanhar a internação da filha.
Portanto, espairecer era o melhor, mas o ambiente estava ficando enfadonho.
Otília gostava de fazer caminhadas, respirar ar puro, fazer exercícios ao ar livre.
Ivana achava tudo isso muito chato.
Não gostava de se exercitar, e começava a ficar impaciente.
Sentia vontade de atirar algum objecto contra a parede.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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