Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

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Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 11:20 am

Desejo - Até onde ele pode te levar?
Mónica de Castro

Pelos espíritos Daniela e Leonel

Até onde você seria capaz de ir para satisfazer os seus desejos?

Daniela ainda era uma menina quando percebeu que não era como as outras.
Enquanto as garotas agiam de acordo com sua idade, ela tinha que lutar contra os próprios instintos e sufocar seus sentimentos mais íntimos, para não cair em tentação e revelar o seu terrível segredo.
Uma confissão chocante.
Uma vida marcada por julgamentos.
Uma história arrebatadora, que vai desafiar tabus e expor um amor obsessivo, originado em vidas passadas.

Ninguém, é culpado por amar, mas é responsável pelo mal que pratica em nome desse amor.

PARA DANIELA, que aguardou mais de dez anos para divulgar a sua história.
Que ela possa servir de exemplo aos que sofrem, a fim de que se e compreendam e parem de se culpar e sofrer.

NASCIDA NO RIO DE JANEIRO, Mónica de Castro é apaixonada por literatura desde criança.
Mas foi com o nascimento de seu filho que se sentiu inspirada a escrever seu primeiro romance, incentivada por Leonel, mentor espiritual que a acompanha há décadas.
Ligados há muitas vidas, os dois desenvolvem horas repletas de personagens marcantes e ensinamentos sobre a espiritualidade.
Por meio de casos reais, tirados dos relatos dos espíritos com quem mantém contacto, Leonel transmite mensagens com o objectivo de que as pessoas aprendam a lidar com suas culpas e frustrações e possam encontrar a felicidade.
Actualmente, com vinte livros publicados e mais de um milhão e meio de exemplares vendidos, a renomada escritora espiritualista tem se dedicado a levar ao público romances esclarecedores, voltados ao bem-estar e que estimulam os leitores a usar a auto-reflexão na modificação de valores internos, para a superação dos sofrimentos e descoberta de uma vida mais iluminada e feliz.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 11:25 am

EM DOIS MIL E UM, quando este livro foi escrito, tive certo receio de sua repercussão junto ao público.
Não foi por outro motivo que, por treze anos, ficou aguardando o momento certo de ser editado, até que as pessoas, então mais amadurecidas, estivessem em condições de conhecer sem julgar.
O momento é agora.
A obra aborda o incesto em sua expressão mais crua, sem rodeios, sem meias palavras, sem subterfúgios.
É a história real da vida de Daniela.
Se, por um lado, Leonel me deixa livre para inserir na trama os elementos de dinamismo e emoção necessários à composição de um bom romance, por outro, Daniela não linha o mesmo interesse.
O que ela queria, tão-somente, era contar o que lhe aconteceu em vida, na esperança de ajudar outros que vivenciam ou vivenciaram o mesmo drama.
É quase um relato, um desabafo, uma confissão.
Em alguns momentos, a narrativa se altera, para introduzir a participação de Leonel, a quem coube transmitir os ensinamentos morais de amor e respeito.
Para ele, foi mais uma oportunidade de fazer o que mais gosta: quebrar preconceitos.
Tudo começou numa tarde.
Estava eu em casa e, aonde ia, lá ia o espírito atrás de mim.
Eu só havia escrito dois livros e começava a me habituar à energia do Leonel.
Mas aquela, com certeza, não era a energia dele.
Como, em outras oportunidades, vários espíritos me assediaram, querendo contar suas histórias, na minha cabeça Daniela era apenas mais um deles.
Com certeza era, só que com a devida permissão da espiritualidade maior.
No começo, quis afastar de meus pensamentos os pensamentos que sabia não serem meus.
Mas ela ficava atrás de mim:
"É a Daniela, é a Daniela...".
Até no chuveiro ela me seguia.
Sentindo seu desespero, acabei cedendo e me dispus a escrever, surpreendendo-me a cada linha, a cada capítulo.
Foi difícil para nós duas, pois precisei ultrapassar alguns conceitos religiosos predefinidos sobre a questão.
Mas conseguimos.
Hoje posso afirmar, com certeza, que valeu a pena, tanto por ela quanto por mim e, mais ainda, pelos milhares de leitores, que, de uma maneira ou de outra, experienciam ou experienciaram igual situação.
Daniela é uma vencedora.
Não teve medo de viver nem de morrer, muito menos de reconhecer e assumir todos os seus actos.
Seu valor só faz crescer na proporção de seu desprendimento, na simplicidade de trazer a público sua própria história, impactante, chocante, verdadeira.
A todos os que lerem este livro, peço apenas compreensão, respeito e um pouco de amor.
Não se deixem seduzir pelo preconceito.
Não julguem.
Por Daniela e por aqueles que dividiram com ela os momentos de angústia aqui relatados.
Por todos nós, que não podemos afirmar, com segurança, nunca termos vivido, em qualquer outra vida, experiência semelhante.
Pelo amor que nos une e nos faz ver, cada vez mais, que somos todos um só.

MÓNICA DE CASTRO
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 11:26 am

PARTE UM - MUNDO CORPÓREO

CAPÍTULO UM

Gostaria de poder dizer que estava triste com tudo aquilo.
Mas a verdade é que não estava.
Meu pai foi um homem cruel e frio, e sua partida desta vida, com certeza, não deixaria saudades no coração de ninguém.
Muito menos no meu.
A meu lado, meu irmão chorava com olhos secos.
A dor transparecia em seu semblante como se fosse verdadeira.
E era. A dor era verdadeira, mas o motivo era bem outro, e só eu o sabia.
Passei a minha vida inteira a seu lado e o conhecia como ninguém, a ele e a meu pai.
Durante muitos anos, vivêramos em paz, mas logo após a morte de minha mãe meu pai se transformou num estorvo em nossas vidas, e nós o teríamos matado, não fosse a imensa covardia que nos dominava.
Eu estava distante, suando sob o calor daquele sol tórrido, e nem percebi que os agentes funerários já haviam terminado de baixar o corpo à sepultura.
Minhas tias, fingindo sofrimento, choravam copiosamente, talvez esperando que meu pai as houvesse agraciado com algum quinhão de sua pequena fortuna.
Ao fim dos serviços funerários, meu irmão se acercou de mim e disse:
— Por favor, Daniela, podemos ir?
Olhei para ele profundamente penalizada.
Sim, queria partir dali, segurar em sua mão e fugir com ele para bem longe, mas nossas vidas se haviam tornado sórdidas demais para serem compartilhadas, e não podíamos mais voltar a ser o que fôramos um dia.
Nenhum de nós podia.
Nem meu pai, que partira para o outro lado sem a chance de um adeus.
Depois de alguns segundos, acariciei o seu rosto e respondi com ternura:
— Está bem, Daniel, creio que já não há mais mesmo o que fazer por aqui.
Peguei na sua mão e comecei a me afastar, e os demais presentes puseram-se a nos seguir.
Seguindo pela alameda do cemitério, pude ouvir fragmentos de suas conversas:
— E agora, o que será deles? — indagou uma tia.
— Acho que Daniel vai cuidar da irmã — respondeu outra.
— Será?
Mas é tão novinho ainda — acrescentou uma terceira.
— Quase uma criança — observou uma vizinha.
E por aí foi à conversa.
Mas ninguém se atrevia a falar directamente connosco.
No fundo, eu sabia o que estavam pensando.
Queriam cuidar de nós, os abutres, para poderem colocar as mãos no dinheiro de papai, dinheiro que era nosso.
Mas não precisavam.
Eu já não era mais nenhuma criança e podia muito bem cuidar de mim e de Daniel.
E depois, eu sabia que eles não se importavam mesmo connosco.
Se se importassem, não teriam esperado papai morrer para demonstrar isso e teriam tentado superar a barreira de sua intolerância e rabugice para nos ver.
Mas não. Quando papai passou a destratá-los, eles se acomodaram, e nós fomos ficando esquecidos pelo resto da família.
Daniel e eu éramos gémeos e, por isso, recebêramos nomes semelhantes.
Eu nasci cinco minutos antes, forte e robusta, mas Daniel veio ao mundo extremamente magro e franzino, e quase não sobreviveu.
Talvez por isso tenha sido um fraco a vida inteira e sempre precisou de mim para cuidar dele e protegê-lo.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 11:26 am

Era extremamente bonito e generoso, e eu o amava acima de todas as coisas na vida.
Nessa época, contávamos apenas dezanove anos e vivíamos sozinhos em uma bonita casa no interior, um pouco afastada do centro da cidade.
A casa era ampla e arejada, na verdade, uma pequena chácara, e meu pai era dono de uma próspera fábrica de vidros que lhe rendera uma fortuna razoável, que agora nos pertencia.
Não tínhamos vontade, meu irmão e eu, de administrar pessoalmente os negócios, então mandamos chamar um dos advogados de papai, doutor
Osório, pessoa da mais alta lisura e confiança.
Doutor Osório foi nomeado nosso gestor de negócios e deveria nos prestar contas no final de cada mês, depositando no banco o dinheiro que nos caberia.
Com isso, tínhamos mais tempo para nos ocupar um do outro, e isso era tudo o que queríamos.
Agora sim poderíamos realizar nosso sonho de viver as nossas vidas sem qualquer intromissão, sem alguém que nos dissesse o que era certo ou errado, ou que era hora de parar.
Pensando nisso, olhei para meu irmão e sorri, lembrando-me de quando tudo começou.
Certo dia, eu estava deitada numa rede na varanda quando vi Daniel se aproximar.
Ele vinha correndo, trazendo nas mãos uma rolinha ferida, provavelmente quando tentara alçar seu primeiro voo.
— Daniela! Daniela! Veja o que achei — e exibiu-me o pássaro ferido, todo encolhido na palma de sua mão.
Será que vai morrer?
Examinei o animal com olhar crítico e dei o meu diagnóstico:
— Não vai não.
Ele só está machucado.
Provavelmente, foi a queda.
— O que faremos com ele?
— Não sei. Talvez seja melhor perguntarmos a mamãe.
Tínhamos treze anos e ainda não havíamos descoberto o quão estranha e ingrata a vida podia ser.
Mas, naquele momento, nossa única preocupação era o animalzinho ferido, e corremos em busca de nossa mãe, que sempre resolvia nossos problemas com amor e bondade.
Fomos encontrá-la na cozinha, ocupada com os preparativos do almoço.
Tínhamos três empregadas em casa, mas minha mãe adorava cozinhar para meu pai.
Ela o amava e o colocava acima de qualquer coisa, à excepção, talvez, de mim e de meu irmão.
Ao ver-nos entrar apressados, soltou o frango que estava recheando e perguntou:
— Mas o que é isso, meninos?
Aconteceu alguma coisa?
— Mamãe, mamãe! — disse eu.
Daniel encontrou um passarinho, mas está ferido.
Mostre a ela, Daniel, vamos!
Daniel abriu a mão e mostrou o passarinho, mas ele não se mexia.
Na ânsia de salvá-lo, ele apertara demais a mão e o bichinho sufocara.
Ao ver o seu corpinho sem vida, Daniel desatou a chorar, sentindo-se culpado pela sua morte.
— Foi minha culpa! — repetia desolado.
Eu o matei!
— Não diga isso, meu filho — consolava minha mãe.
Não foi culpa sua.
Sei que foi sem querer.
— Foi sim! Foi sim!
Eu o matei e agora vou ter que pagar por isso.
Deus vai me castigar!
— Meu filho, Deus não castiga ninguém.
Foi um acidente, você não fez de propósito.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 11:26 am

— É, Daniel — intervim eu.
Pois se foi você mesmo quem tentou primeiro salvar o bichinho...
A muito custo conseguimos consolá-lo.
Daniel era um menino extremamente sensível e impressionável, e passou o resto do dia a lamentar a perda daquela rolinha.
Quando meu pai chegou, minha mãe contou-lhe o ocorrido, mas ele não deu muita importância.
Ao contrário, repreendeu Daniel duramente, e ainda hoje me lembro de suas palavras:
— Pare com essa bobagem, Daniel.
Até parece um mariquinhas.
Homem que é homem não chora!
Daniel viu-se obrigado a engolir o choro.
Tinha medo de papai e não queria levar umas palmadas.
Embora papai não costumasse bater em nós, por vezes nos aplicava uma palmada ou outra, o que, por si só, já era bastante doloroso.
Mas apanhar mesmo, nós nunca havíamos apanhado, até o dia em que o mundo desabou sobre nós.
Quando a noite chegou, fomos dormir, mas Daniel estava ainda muito abalado.
Por volta da meia-noite, a casa toda escura, ouvi passos perto de minha cama e me assustei.
Daniel estava lá, parado e chorando.
— O que você quer? — perguntei.
— Não consigo dormir.
— Quer deitar aqui comigo?
Ele fez que sim com a cabeça e eu cheguei para o lado, dando espaço para que ele se deitasse.
Ele se deitou perto de mim e me abraçou, pousando a cabeça em meu peito.
Logo adormeceu, e quem não pôde mais dormir fui eu.
Por alguma estranha razão, a presença de Daniel ali a meu lado me perturbava.
Eu podia sentir o seu corpo pressionando o meu, e aquilo foi me enchendo de desejo.
Apavorada, fechei os olhos e rezei, pedindo a Deus que afastasse aqueles pensamentos impuros da minha cabeça.
Daniel era meu irmão, e aquilo não estava direito.
Com o conforto da prece, o sono chegou e eu adormeci, somente despertando na manhã seguinte, segunda-feira, com minha mãe chamando:
— Daniela, acorde.
Já é hora de ir para a escola.
— Hum...— fiz eu, ainda sonolenta.
— Vamos, levante-se.
Abri os olhos e procurei meu irmão.
Ele não estava mais ali.
— Onde está Daniel? — indaguei.
— Acordou cedo e já se vestiu.
Em silêncio, eu me levantei e fui saindo em direcção ao banheiro.
Já na porta, minha mãe segurou-me o braço e falou meio sem jeito:
— Daniela, minha filha, quantas vezes tenho que lhe dizer para não dormir agarrada com seu irmão?
— Mas mãe — indignei-me —, que mal pode haver, se somos apenas irmãos?
— Mal não há.
Mas não fica bem.
— Ora, mãe, que tolice.
Você bem sabe que Daniel e eu sempre fomos muito unidos.
— Mas você agora já está uma mocinha, e Daniel já é quase um homem.
E depois, você sabe que seu pai também não aprova.
— Eu sei, eu sei.
Mas Daniel estava triste por causa do passarinho.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 11:27 am

Mamãe, você se preocupa à toa.
Somos irmãos, e não tem nada de mais dormirmos juntos.
Ela não respondeu e saiu.
Minha mãe sempre foi uma mulher bastante sensata e intuitiva, e creio que ali, naquele momento, pôde vislumbrar todo o drama que em breve se abateria sobre nós.
Em seu íntimo, ela devia se lembrar de tudo o que já acontecera em outras vidas e sabia por que havíamos nascido irmãos, assim como devia estar consciente de sua árdua missão de mãe.
Já na mesa do café, meu pai virou-se para minha mãe e disse:
— Eugénia, quantas vezes já lhe disse que não quero Daniel e Daniela dormindo na mesma cama?
Minha mãe olhou para mim, depois para Daniel, e abaixou a cabeça, tentando se desculpar:
— Ora, Gilberto, não foi nada.
O menino ficou impressionado com a morte do pássaro, e Daniela só quis ajudar.
— Mesmo assim, não quero.
Não fica bem. Daniela já é uma moça e tem seu próprio quarto.
E Daniel também já é um homem e não deve se impressionar com essas tolices.
Olhei para meu irmão pelo canto do olho, mas ele nem se atreveu a levantar a cabeça.
Depois do café, saímos e fomos esperar o transporte escolar na estradinha. Íamos em silêncio, com medo até de pensar.
Quando chegamos à escola, fomos para a sala de aula sem dizer nada.
Como tínhamos a mesma idade e a escola era pequena, estudávamos na mesma classe.
Entramos cabisbaixos e nos dirigimos a nossas carteiras.
A minha ficava duas atrás da de Daniel, e a seu lado sentava-se uma garota magrinha, de nome Rita, de quem eu não gostava muito.
Rita vivia a insinuar-se para meu irmão, mas ele não lhe dava a menor importância.
Naquele dia, porém, talvez em razão da bronca de papai, Daniel resolveu prestar-lhe um pouco mais de atenção, e ela derreteu-se toda para ele.
Na hora do recreio, Daniel e Rita desapareceram, e eu saí atrás deles, louca da vida.
Fui encontrá-los atrás do muro do pátio, beijando-se.
Horrorizada, não pude esconder a indignação e gritei:
— Daniel!
Ele soltou a menina e se virou para mim.
Estava confuso, envergonhado.
Mais que depressa, pus-me a correr de volta para a sala de aula e não disse mais nada.
Quando a sineta tocou, anunciando o término das aulas, levantei-me acabrunhada e saí para tomar a condução de volta, sem dar nem uma palavra sequer.
Em casa, depois do almoço, fui para o quintal, Daniel atrás de mim tentando puxar conversa:
— Ora, vamos, Daniela, o que foi que houve?
Por que está tão brava?
Eu não sabia o que dizer.
Na verdade, não deveria estar zangada, mas o facto era que estava.
Pior: eu estava morrendo de ciúmes.
— Pare com isso, Daniela, e deixe de besteiras.
A Rita é apenas uma menina, não significa nada para mim.
Parei e me virei para ele, fitando-o com o olhar carregado de angústia:
— Mas você a beijou — desabafei por fim.
E na boca! Eu vi.
— E daí?
— Como pôde me trair?
Ele já ia responder, mas não lhe dei tempo.
Segurando-lhe a cabeça, beijei-o apaixonadamente, e ele afastou-se de mim com um safanão.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 11:27 am

— Ficou louca, Daniela?
Somos irmãos!
Eu me atirei ao chão e comecei a chorar copiosamente.
— Eu sei, eu sei.
Mas não pude evitar.
Oh! Daniel perdoe-me.
Eu o amo e o desejo, e já não posso mais lutar contra esse sentimento.
Sei que é errado, é pecado, mas não paro de pensar em você, em sua boca, em seu corpo...
Daniel ajoelhou-se a meu lado e me acompanhou no pranto.
Como podia condenar-me se ele também lutava contra aquele sentimento?
Assim como eu, ele também me amava e me desejava, e só beijara Rita porque não podia me beijar, sua própria irmã.
Abraçou-se a mim e procurou a minha boca, beijando--me com sofreguidão.
Eu me assustei.
Não esperava que meu irmão me correspondesse, mas deixei-me ficar, perdida em seus beijos. Depois, começamos a nos acariciar e logo estávamos nos amando.
Depois desse dia, não pudemos mais nos separar.
Aonde um ia, lá ia o outro atrás.
Estávamos sempre juntos, de mãos dadas ou abraçados, e não saíamos com mais ninguém.
Evitávamos as rodinhas de amigos, não tínhamos namorados.
Rita ficou esquecida, Daniel nem olhava mais para ela.
A paixão entre nós crescia vertiginosamente.
Era um amor selvagem e carregado de culpa, mas nós não podíamos mais deixar de nos amar.
Em casa, nossos pais começaram a notar a diferença em nosso comportamento.
Eu já estava uma mocinha, e era natural que os rapazes telefonassem à minha procura.
Mas eu, sempre que podia, esquivava-me de falar com eles ou inventava uma desculpa para recusar convites para ir a festas ou ao cinema.
Daniel, por sua vez, também não dava importância às garotas e vivia trancado dentro de casa, sempre em minha companhia.
Mamãe e papai estavam seriamente preocupados.
Mamãe, sem saber por quê, tinha um estranho pressentimento, embora não pudesse sequer conceber a dura realidade.
Papai, bastante desconfiado, também se recusava a crer que seus filhos pudessem estar cometendo o mais abominável dos pecados, cujo nome tinha até medo de pronunciar: incesto.
Mas a verdade era uma só.
Estávamos vivendo um amor intenso e incestuoso e, apesar da culpa que nos roía, não podíamos mais nos separar.
Nada nem ninguém nos importava, só o nosso amor.
Até que, um dia, o pior aconteceu.
Havíamos chegado da escola e, como sempre, almoçamos e partimos para o quintal, para nos encontrarmos sob a sombra de nossa figueira preferida, lá embaixo, perto do laguinho.
Era um local escondido, e ninguém, a não ser nós, ia até lá.
Mas naquele dia mamãe resolveu nos seguir.
Talvez já não estivesse mais aguentando aquela suspeita.
Em silêncio, foi atrás de nós e parou quando paramos.
Logo começamos nosso ritual de amor, nos beijando e acariciando, até que nos amamos como dois animais.
Mamãe ficou chocada, tão chocada que não conseguiu falar.
Em silêncio, voltou para casa e telefonou para papai, pedindo-lhe que viesse com urgência.
Meu pai, que de nada sabia, retornou na mesma hora e logo foi colocado a par do que acontecera.
Quando voltamos de nosso passeio, estavam ambos sentados na sala, esperando por nós.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 11:27 am

Assim que entramos, a voz de papai se fez ouvir, forte como um trovão:
— Daniel e Daniela, venham até aqui imediatamente!
Nós nos olhamos alarmados.
O que estaria fazendo papai ali àquela hora?
Ao entrarmos na sala e vermos as fisionomias graves de nossos pais, já sabíamos que eles haviam descoberto toda a verdade.
— Muito bem — prosseguiu ele —, quero saber o que está acontecendo nesta casa!
Será que perderam a vergonha, o pudor?
Não adiantava fingir, nos fazermos de desentendidos.
Eles não eram tolos, e tentar enganá-los só serviria para aumentar ainda mais a fúria de meu pai.
— Pai, deixe-me explicar — arrisquei.
— Cale-se, sua ordinária, cadela!
Levantou a mão, acertando-me em cheio no rosto.
No mesmo instante, eu titubeei e caí, sentindo uma dor horrível na face, na boca um gosto amargo de sangue.
Tentei me levantar, mas ele correu para mim e tirou o cinto, desferindo diversos golpes nas minhas costas.
Comecei a chorar e a gritar, mas ele não parava.
Minha mãe, assustada, tentou intervir, mas ele a repeliu com um empurrão, e ela tombou no sofá, amparada por meu irmão.
— Papai, por favor—suplicou Daniel —, vai matar Daniela.
Subitamente, ele me soltou e virou-se para ele, os olhos injectados de sangue.
— Venha cá, moleque, que lhe darei uma lição.
Partiu para cima dele, acertando-o em diversos lugares.
Eu estava exaurida, não tinha mais forças para reagir, e minha mãe deixou-se ficar prostrada sobre o sofá.
Até que, de repente, ele parou, ajoelhou-se no chão e desatou a chorar.
Foi estranho ver meu pai ali, vencido, chorando feito uma criança desamparada.
Minha mãe levantou-se e acercou-se dele, abraçando-o com ternura.
Ela ergueu a cabeça e me encarou, e havia tanta dor naquele olhar, que eu senti uma forte pontada no coração.
— Por quê? — indagou sentida.
Por quê? Não fizemos tudo por vocês?
Por que foram nos trair dessa maneira?
— Mãe...
— Não, não. Deixe-me terminar.
Vocês são reles e não merecem o nosso amor.
Vocês traíram a nossa confiança, abusaram de nosso amor.
Como puderam ser tão sórdidos?
— Mãe, por favor, posso explicar.
— Não, Daniela, não há explicação para o que vocês fizeram.
Vocês são irmãos, têm o mesmo sangue, nasceram no mesmo dia e, no entanto, se deitam no meio do mato como dois animais.
É isso mesmo o que são: animais.
Porque só os animais copulam com seus irmãos e irmãs.
— É isso mesmo — concordou papai.
Vocês não são dignos de nosso amor e nosso respeito e, de hoje em diante, não os quero mais em minha casa.
Aprontem suas trouxas e ponham-se daqui para fora!
— Mas pai — chorava Daniel —, você não pode.
Aonde iremos? Somos menores e...
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 11:28 am

— Isso não me interessa.
Deveriam ter pensado nisso antes.
E depois, podem ainda ser menores, mas, com certeza, já não são mais crianças.
Eu bem que desconfiava, andando juntos, agarradinhos.
Como fui burro!
— Não se torture Gilberto, a culpa não foi sua.
No entanto, Daniel tem razão.
Você não pode mandá-los embora.
— Não posso?
Pois já os mandei.
— Mas eles são nossos filhos.
Devemos ajudá-los.
— Ajudá-los como, se são dois sem-vergonha?
— Ainda assim, devemos ajudá-los.
Eles devem estar doentes da cabeça, e podemos procurar ajuda psiquiátrica.
Um bom médico há de curá-los.
— Mamãe, por favor — objectei — não estamos doentes nem somos loucos.
Apenas nos amamos.
— Cale essa boca! — berrou papai, esbofeteando-me novamente.
— E não ouse repetir tamanha infâmia na nossa frente.
Vocês são irmãos, e isso que chama de amor é expressamente proibido para vocês.
— Ah, é? E por quem?
— Por Deus e pela Justiça.
O que vocês fizeram foi abominável e não merece perdão.
Meu pai estava rubro de ódio, e pensei que ele fosse enfartar naquele momento.
Minha mãe também deve ter pensado a mesma coisa, porque ainda tentou contemporizar:
— Gilberto, acalme-se...
— No entanto — prosseguiu ele, quase rugindo —, não vou mandá-los embora, apenas porque é sua mãe quem está pedindo.
Mas é condição para que fiquem que consultem um psiquiatra.
E não os quero mais juntos.
Estão proibidos de se encontrarem sozinhos.
— Pai, não pode fazer isso! — protestei.
Você não tem o direito de nos separar.
— Basta, Daniela!
Cale-se ou serei capaz de cometer uma loucura!
Achei melhor calar-me.
Não adiantava mesmo discutir.
Meu irmão estava apavorado e não ousava contrariar as ordens de papai, e tivemos que obedecer.
Fomos bruscamente separados e, depois de três dias, estávamos frequentando as sessões de um psiquiatra que nos olhava como se fôssemos uma aberração.
Nós o detestávamos, mas tínhamos que ir, um de cada vez.
Em nossa casa, papai redobrou a vigilância sobre nós.
Ele mesmo nos levava à escola e nos buscava, e deu ordens expressas à professora para que não nos deixasse sair mais cedo nem no meio da aula sem a sua autorização.
Embora ele não tivesse declinado o motivo daquela proibição, a professora também não perguntou nada e fez como ele pediu.
Ela nem de longe desconfiava do que se tratava, mas era assunto de família, e ela não tinha nada com aquilo.
Os outros alunos ficaram intrigados e não tardaram a criar uma história na qual todos passaram a acreditar, e logo se espalhou a fofoca de que Daniel e eu deveríamos estar envolvidos com drogas.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 12, 2015 11:28 am

Aquilo foi extremamente duro para nós, porque todos os jovens, alertados por seus pais, nos evitavam e mal falavam connosco.
De repente, nós nos tornáramos delinquentes e não éramos mais companhia para os jovens de boa família.
Quando mamãe soube do que estava acontecendo, foi até a escola desfazer o mal-entendido, justificando a proibição de papai com a alegação de que estávamos pegando a mania de fumar escondidos no banheiro, o que não era assim tão ruim.
O mal-entendido e o isolamento se desfizeram, porque a maioria dos jovens fumava também, e tudo voltou ao normal, embora a proibição continuasse.
Quando voltávamos para casa, almoçávamos, e Daniel tinha que subir para o seu quarto, enquanto eu acompanhava mamãe aonde quer que ela fosse.
À noite, mamãe dormia em meu quarto, e eu só podia sair para ir ao banheiro ou beber água, e, assim mesmo, em sua companhia.
Durante as primeiras semanas, até que funcionou.
Mas depois, a ausência de Daniel começou a deixar-me louca.
Eu não podia viver sem ele, e fazer sexo com ele, mais do que uma necessidade, era uma questão de sobrevivência.
Até que, numa noite em que mamãe dormia profundamente, eu me levantei e saí na ponta dos pés, seguindo directo para o quarto de Daniel.
Experimentei a porta.
Não ficava trancada, para que ele pudesse ir ao banheiro, se precisasse.
Papai recusava-se a dormir com ele, e só eu era constantemente vigiada por mamãe.
Estando com ela, não poderia estar com Daniel.
Em silêncio, aproximei-me da cama de meu irmão, que dormia um sono agitado, e deitei-me ao seu lado.
Ele abriu os olhos assustado, e eu colei minha boca à sua.
Imediatamente, ele me abraçou e começou a me despir, enquanto murmurava baixinho:
— Oh! Daniela, que bom que veio!
Já não podia mais suportar...
— Mas o que é que está acontecendo aqui? — era mamãe, que acendia a luz, ao mesmo tempo em que saía porta afora para chamar papai.
Eu me desenvencilhei de meu irmão e corri atrás dela, implorando-lhe que não fizesse aquilo.
Mas ela não me dava ouvidos e continuou a avançar para o quarto de papai.
Apavorada, tentei segurá-la pela camisola, mas ela lutou comigo, até que se desequilibrou e caiu escada abaixo, rolando os degraus até chegar lá embaixo, o pescoço quebrado, já sem vida.
Ouvindo aquela confusão, papai correu para ver o que estava acontecendo.
Ao se deparar com mamãe morta, estirada no pé da escada, desceu correndo e começou a chorar feito louco.
Eu, penalizada, acerquei-me dele e falei com pesar:
— Pai, sinto muito... foi um acidente.
Ele me olhou sem nada entender e vociferou:
— Saia daqui!
Deixe-me a sós com minha Eugénia!
Vendo que nada podia fazer, fui para a sala e peguei o telefone para chamar um médico, que constatou o óbito.
Como ninguém sabia de nosso drama, a morte de mamãe foi dada como acidente, e nem sequer houve inquérito.
Mas papai passou a desconfiar de mim, pensando que eu a havia empurrado, e não pôde acreditar quando lhe disse que tudo não passara de uma fatalidade e que eu também estava sofrendo muito com a perda de mamãe.
Desse dia em diante, papai perdeu o interesse em nos ajudar e nunca mais nos obrigou a voltar ao psiquiatra.
Passamos a conviver debaixo do mesmo tecto, mas não de forma pacífica.
Ele começou a nos maltratar e humilhar e, por vezes, a nos ignorar, mas sempre nos atirando na face o pecado que cometêramos.
Mas não nos expulsava, e fomos ficando, acostumados àquela vida desregrada e desarmoniosa que se estabeleceu em nosso lar.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 11:33 am

CAPÍTULO DOIS

Falar de meu pai sempre foi muito difícil e complicado.
Desde pequenos, era-nos difícil compreendê-lo e aceitá-lo.
Ele era um homem duro, pouco compreensivo e nada transigente.
Vivia rodeado de padrões de moral distorcidos e jurara a si mesmo que Daniel e eu nos tornaríamos pessoas de bem.
No entanto, depois que tudo aconteceu, penso que ele passou a nos odiar porque, para ele, nós frustráramos o seu sonho de ter filhos perfeitos.
Não éramos mais pessoas de bem.
Para papai, teria sido melhor se nos tornássemos ladrões, desde que nos mantivéssemos dentro de seus padrões de moral e não o envergonhássemos.
E o incesto, para ele, era motivo de extrema vergonha, tanto que tentou nos ocultar da melhor forma possível.
Por isso não nos expulsava.
Tinha medo de que, se saíssemos de casa, pudéssemos levar ao mundo o conhecimento do que havíamos feito, do que nos tornáramos, de nossa condição de irmãos-amantes, e isso o apavorava.
Só de pensar que poderia ser apontado na rua, ele se desesperava.
Não. Em casa era mais seguro.
Ao menos assim, ele poderia ter certeza de que não seríamos vistos por ninguém e conseguiria manter aquela sua capa de perfeição e virtude, de homem íntegro, sem rabo preso.
Apesar de nos aceitar em sua casa, não nos aceitou mais em sua vida, pois não podia conviver com o facto de que éramos mesmo amantes, com todos os pormenores que essa condição implica.
Fazíamos sexo quase que diariamente e não nos dávamos nem ao trabalho de esconder de papai.
À noite, quando eu escapulia para o quarto de Daniel, ou quando ele vinha ao meu, tínhamos certeza de que papai nos estava vigiando, mas não nos importávamos.
Não havia mais o que esconder, e ele não tinha mais forças para nos separar.
Contudo, conforme ele mesmo pensava, ao menos fazíamos sexo dentro das silenciosas paredes de nossa casa, longe dos olhares dos curiosos, e não em qualquer motelzinho barato de beira de estrada, onde alguém pudesse nos ver.
Lembro-me de nosso décimo quinto aniversário.
Em outras circunstâncias, teria sido um acontecimento.
Mas, devido ao que nos acontecera, foi motivo de brigas e desentendimentos em família.
Eu estava sentada na sala, lendo um romance, e Daniel assistia à televisão, quando o telefone tocou.
A empregada atendeu e me chamou:
— Daniela, é sua tia Mara.
Quer falar com você.
Larguei o livro de má vontade e fui atender.
— Alô.
— Daniela, querida, como está?
— Bem, e você?
— Tudo indo.
Estou ligando para saber de seu aniversário.
Está próximo, e creio que vai dar uma bonita festa.
Afinal, não é todos os dias que se debuta.
— Escute tia Mara, não vai ter festa, não.
Papai não quer.
— Como não?
Pensei em ajudar, como sempre fiz.
— Agradeço, mas não creio que papai queira.
Depois do que aconteceu à mamãe, ele não se interessa mais por festas.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 11:34 am

- Ah! Mas não pode ser.
Tenho certeza de que sua mãe, se estivesse viva, gostaria muito.
Eu não estava nem um pouco a fim de perder meu tempo com aquela conversa, embora concordasse com ela que uma festa seria divertida.
Já fazia algum tempo que mamãe morrera, e uma festa serviria para nos descontrair um pouco.
E depois, ninguém, a não ser nós, conhecia a verdade sobre nossas vidas.
Mas, como sabia que meu pai jamais consentiria, tratei logo de encerrar a conversa e falei por falar:
— Está bem. Vou pensar.
Prometo falar com papai.
— Óptimo.
Depois que ele concordar, me telefone que eu os ajudarei com os preparativos.
— Pode deixar.
Desliguei e voltei para minha leitura.
Pouco depois, papai apareceu na porta da sala, me olhando cheio de ódio.
— Quem foi que disse que consentirei em dar uma festa?
Eu o olhei com desdém.
Sabia que ele andara escutando na extensão e respondi de má vontade:
— Ninguém. E nem estou a fim de festa nenhuma.
Só concordei para me ver livre de tia Mara.
— Pensa que me engana, é, sua sem-vergonha?
Então não sei o que lhe vai na cabeça?
Daniel, percebendo que iríamos começar outra briga, tentou intervir e apaziguar os ânimos.
— Papai, por favor, não comece.
— Fique quieto, Daniel.
Não lhe perguntei nada.
— Chega, pai — protestei eu.
Não me amole.
— Ah! Então sou eu quem a está amolando, não é?
Você que é a ordinária e ainda fica com raiva porque eu não aprovo suas sem vergonhices?
Eu me levantei revoltada.
Estava furiosa e, se pudesse, ter-lhe-ia dado uma bofetada.
Tentando conter os ânimos, falei entre os dentes:
— Pare, pai, não vou ficar aqui escutando isso.
— Pois não vai mesmo.
Vá agora para o seu quarto!
Está de castigo!
Soltei uma gargalhada estridente:
— De castigo? Essa é boa.
Desde quando você me coloca de castigo?
Você não manda mais em mim!
— Mando sim.
Você é minha filha, quer queira, quer não.
É menor de idade e vive à minha custa.
Obedeça-me agora ou vai apanhar!
— Mas, pai, ela não fez nada — objectou Daniel.
— Não lhe perguntei nada.
Cale-se você também, ou vai ser pior para os dois.
— Não, pai, Daniela não fez nada...
Mas ele não quis ouvir.
Estalou uma bofetada no rosto de Daniel, que logo se avermelhou.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 11:34 am

Fiquei furiosa e parti para cima dele, esbracejando:
— Seu cachorro, covarde!
Por que não nos deixa em paz?
Ele, enfurecido, empurrou-me com violência e saiu em disparada, gritando enquanto subia as escadas:
— Se pensam que vão se divertir à minha custa, estão muito enganados.
Não estou aqui para apoiar depravações.
Daniel e eu nos abraçamos e começamos a chorar.
Nós nos sentíamos injustiçados, incompreendidos, rejeitados, e, com isso, só fazíamos alimentar o ódio que sentíamos de nosso pai.
Não preciso dizer que não houve festa alguma.
Quando tia Mara ligou novamente, papai mesmo atendeu o telefone e tratou logo de despachá-la.
Ela ficou indignada com a sua reacção.
Desde que mamãe morrera, papai passou a destratar todos os parentes, o que acabou por afastá-los de nós.
Fomos nos isolando cada vez mais, até que acabamos por ficar sozinhos, sem aquele convívio amistoso dos tios e primos.
O ambiente em nossa casa era praticamente insuportável.
Havia ocasiões em que papai fingia que não existíamos.
Lembro-me de quando terminamos o curso científico.
Em nossa escola, procurávamos ficar um pouco afastados dos demais alunos.
Conversávamos com eles sem, contudo, nos deixar envolver.
Nunca os convidávamos para ir à nossa casa, recusávamos quase todos os convites para sair, à excepção de uma festa ou outra, e não nos demorávamos depois da aula.
Mesmo quando havia algum trabalho em grupo, Daniel e eu sempre integrávamos o mesmo e marcávamos na casa de outros colegas para fazer o trabalho, nunca na nossa, com a desculpa de que não tínhamos mãe, e que nosso pai ficava fora o dia todo.
Tínhamos medo de que os colegas descobrissem nosso segredo e procurávamos agir da forma mais natural possível.
Com tudo isso, conseguimos nos formar e nos sentíamos orgulhosos.
Foi com alegria que Daniel levou a meu pai o convite de formatura.
Papai pegou o papel e, sem nem olhá-lo, atirou-o na cesta de lixo.
Daniel ficou chocado, e eu tive vontade de esmurrá-lo.
Frustrado, Daniel argumentou:
— Pai, estamos nos formando no curso científico.
Não está orgulhoso de nós?
Meu pai não respondeu, e Daniel insistiu:
— Não está feliz?
Não quer ir connosco?
Não sente nada?
Por favor, pai, fale alguma coisa.
Não adiantava.
Ele simplesmente nos ignorava.
Naquele dia, pude sentir a frustração nos olhos de meu irmão.
Apesar de tudo, era nosso pai, e seria extremamente constrangedor comparecer à cerimónia de formatura, que seria seguida de uma missa e de um baile, sem a presença de nosso pai.
Eu me acerquei de Daniel, segurei a sua mão e levei-o dali, tentando consolá-lo da melhor forma possível.
— Não se preocupe, Daniel.
Se ele não quer ir, deixe para lá.
— Mas, Daniela, a família de todos os nossos colegas estará presente.
A nossa também.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 11:34 am

Convidaremos nossos tios, nossos primos.
Eles irão, você vai ver.
Mas não foi assim que aconteceu.
No dia da formatura, ninguém apareceu.
Todos estavam chateados com papai e cheios de suas grosserias, e não queriam correr o risco de ter que aturar novas desfeitas.
Nós nos formamos sozinhos e, logo após a missa, deixamos a igreja e fomos para casa.
Não queríamos ir ao clube onde se realizaria o baile, ainda mais porque todos iriam perguntar comentar, bisbilhotar.
Isso foi causa de grande mágoa para nós, principalmente para Daniel, que, mais sensível, sonhava em terminar com aquela desavença e se iludia, pensando que papai, um dia, poderia nos entender e nos aceitar.
Isso nunca aconteceu, e papai morreu levando consigo o imenso desgosto que nós lhe havíamos causado.
De outra vez, Daniel resolveu pedir-lhe dinheiro para comprar um carro.
Alcançáramos os dezoito anos, e ele, como todo rapaz, sonhava com seu conversível.
Meu pai olhou para ele incrédulo e ironizou:
— Para que precisa de carro?
Para levar sua irmã ao motel?
Ele corou e respondeu indignado:
— Como pode falar assim de nós?
Somos seus filhos.
— É mesmo?
Que bom que falou, porque eu já havia me esquecido.
Entrei na sala e indaguei:
— O que é que está acontecendo aqui?
— Nada que seja de sua conta — respondeu papai mal-humorado.
— Se diz respeito a Daniel, é da minha conta sim.
— É que vim pedir a papai dinheiro para comprar um carro — apressou-se Daniel em explicar.
Mas ele não quer me dar.
— Posso saber por quê? — indaguei já sentindo a raiva crescer dentro de mim.
Você não tem esse direito.
— Tenho sim.
O dinheiro é meu e faço com ele o que quiser.
— Esquece-se de que temos a herança da mamãe?
— Herança... até parece.
— Temos sim.
Mamãe possuía bens.
Sei que temos nossos direitos, e você nunca nos deu um tostão.
— Porque vocês ainda não são maiores de idade e eu tenho que administrar o património da família.
— Oh! que magnânimo.
E tudo isso sem interesse algum.
— Pode debochar o quanto quiser.
Mas de mim não terão nem um tostão.
— Ah, não? E se eu procurar um advogado para reivindicar o que é nosso?
Sabe que eu faria isso sem hesitar.
— E por que ainda não fez?
— Porque não foi necessário.
Nunca nos faltou nada, e nós acabamos nos acomodando.
Mas agora Daniel quer um carro, e você tem que dar.
Não pode lhe negar isso.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 11:34 am

Ele pensou durante alguns minutos, até que deu de ombros e disse com indiferença:
— Está bem.
Se é isso o que quer...
Deu o dinheiro sem reclamar mais, e Daniel comprou o carro.
Mas nem se dera ao trabalho de ir vê-lo.
O que fazíamos com o carro não lhe interessava em nada, e continuamos a conviver daquela forma desarmoniosa e mesquinha.
A situação ficava cada vez pior.
No final, já perto de sua morte, não podíamos falar mais nada, porque ele levantava a mão para nos bater.
Quantas bofetadas levamos, Daniel e eu, em nome de seu ódio!
Papai sempre me considerou culpada pela morte de mamãe e, pouco antes de morrer, me dissera:
— Daniela, estou doente e sei que não duro muito... — eu não respondi e ele continuou:
— Sei que ficarão felizes quando eu me for, e eu também, pois só assim poderei reencontrar minha Eugénia e ficar livre de vocês.
Mas quero que saiba que jamais os perdoarei principalmente a você.
— Não preciso de seu perdão — respondi de mau humor.
— É bom mesmo, porque jamais o terá.
Você é uma ingrata, uma mal-agradecida, uma assassina.
— Não é verdade! — gritei zangada.
— É sim. Matou sua mãe!
— Eu não a matei.
Quantas vezes preciso lhe dizer que foi um acidente?
— Acidente sei.
Um acidente casual e conveniente... não é mesmo?
— Não pode me acusar.
Eu a amava e jamais a machucaria.
— E não a machucou?
Não a feriu com esse abominável incesto?
— Não quero falar sobre isso.
— É claro que não.
Não lhe convém expor os seus pecados, não é? .
— Pare, pai!
Não sou mais criança e não sou obrigada a tolerar isso.
— Enquanto viver sob o meu tecto, será obrigada a me aguentar sim, quer queira, quer não.
— Por que não morre de uma vez?
— É isso que você quer, eu sei.
Infelizmente, sei que morrerei mesmo, mas não quero que você se esqueça de que eu a odeio, porque você matou sua mãe e porque me envergonhou.
— Cale a boca!
Você não sabe o que diz!
— Ah, não sei, né?
Sei sim, e muito bem.
Você é uma criminosa e deveria estar presa.
Nem sei por que não a denunciei.
— Faça isso. Ainda está em tempo.
Mas você nunca poderá provar que eu a matei, porque não a matei.
Ela era minha mãe e eu a amava.
— Bem se vê o quanto a amava.
— Por que sente prazer em me torturar?
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 11:35 am

— Para que a sua consciência não permita que você se esqueça do que fez e nunca pare de atormentá-la, pelo resto de sua vida.
— O que é isso, uma maldição?
— Entenda como quiser.
Sem responder, eu me levantei e saí.
Não queria mais ficar perto dele.
Sabia que ele estava mal, mas não me importava.
Ele se consumira pela raiva e deixara que o câncer de fígado o destruísse por dentro.
Já estava quase no fim.
Na noite seguinte, teve uma crise e foi hospitalizado.
Seu estado se agravava a cada dia, e Daniel e eu não podíamos deixar de desejar que ele morresse.
Não o aguentávamos mais.
Ele nos odiava, e nós, a ele.
Aos poucos, foi definhando e começou a tomar morfina para diminuir as dores.
No final, já não falava nem nos reconhecia.
Até que um dia, um sábado pela manhã, ele faleceu.
Daniel e eu suspiramos aliviados.
Estávamos livres daquele estorvo.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 11:35 am

CAPÍTULO TRÊS

Daniel entrou na sala e me encontrou dormindo no sofá, cansada das extravagâncias da noite anterior.
Desde que papai morrera, havia quase seis meses, praticamente não saíamos mais de casa e passávamos as noites nos braços um do outro, quase sem dormir.
Era maravilhoso poder ter Daniel só para mim, poder abraçá-lo, beijá-lo e amá-lo sem me preocupar com a vigilância de meu pai.
Das três empregadas que possuíamos somente Joaquina permaneceu connosco, porque era a mais antiga e ajudara muito a minha mãe, inclusive a nos criar.
As outras duas, nós as despedimos.
Não queríamos testemunhas de nosso romance ilícito.
Mas nós precisávamos de alguém que cuidasse da casa e de nós, e Joaquina ficou.
Nós lhe pagávamos muito bem, e ela não se importava com o que fazíamos.
Mesmo assim, nunca deixamos que percebesse que entre nós havia algo de proibido, e acho que ela nem desconfiava.
Talvez pensasse que nos drogássemos ou coisa parecida, mas não creio que soubesse o que realmente fazíamos.
Sei que ela nos achava estranhos, pois vivia dizendo que éramos jovens demais para nos enfunarmos dentro de casa, e que deveríamos sair e aproveitar a vida.
Tínhamos dinheiro e não nos faltariam opções de distracção.
Quando Daniel entrou, naquele dia, eu estava semi-adormecida e mal percebi o seu vulto se acercando de mim.
Já era quase meio-dia, e pensei que ele tivesse ido me buscar para o almoço
Quando o vi debruçado sobre mim, agarrei-o pelo pescoço e puxei-o, beijando-o com vontade.
Ele correspondeu ao beijo e me afastou logo em seguida, sentando-se no sofá e colocando minha cabeça em seu colo.
Alisando meus cabelos, começou a dizer:
— Daniela, tenho algo muito importante para falar com você.
— O que é?
— Bom, ano passado nós terminamos o curso secundário...
— E daí?
— E daí que eu estive pensando... gostaria de ir para o Rio de Janeiro estudar, ir para a faculdade.
Eu me levantei de chofre.
Estava indignada e considerava aquilo uma traição ao nosso amor.
— Ficou louco? — indaguei perplexa.
Como pode querer ir embora daqui?
E o nosso amor?
Ele abaixou os olhos e suspirou.
Não tinha coragem de me encarar.
— Sinto muito — prosseguiu —, mas já me decidi.
— Mas, Daniel, você não pode. E eu?
Ele me encarou e não disse nada.
Fiquei algum tempo em silêncio, pensando, até que desabafei:
— Não entendo Daniel, pensei que me amasse.
— Mas eu a amo — respondeu ele sem muita convicção.
— Daniel, você está mentindo! — comecei a chorar.
Sinto, pelo tom de sua voz, que já não me ama mais.
O que foi que aconteceu?
— Daniela, não chore, não houve nada.
Apenas penso se já não é hora de terminarmos esse romance tresloucado.
— Tresloucado?
É assim que chama o nosso amor?
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 11:35 am

— Não é isso.
É que eu já não quero mais viver assim.
Joaquina tem razão.
Somos jovens, temos nosso dinheiro, podíamos estar aproveitando um pouco mais a vida.
— Está bem.
Se é isso que quer, podemos fazer uma viagem, só nós dois.
Europa, Estados Unidos, onde você quiser.
Será até bom.
Ninguém saberá que somos irmãos e poderemos andar livremente pelas ruas, abraçados, de mãos dadas, podemos até nos beijar em público.
É, é isso. Você tem razão.
Estamos há muito tempo presos aqui e...
— Daniela, por favor, pare. Não é isso.
— Não é?
Mas você acabou de dizer que deveríamos aproveitar a vida.
— Mas não dessa maneira.
— Como, então?
— O que quero dizer, Daniela, é que não quero mais viver na obscuridade.
Quero pegar o dinheiro que papai nos deixou e aproveitar em outras coisas, não necessariamente em passeios ou distracções.
— Ora, e o que é que deseja, exactamente?
— Desejo estudar.
Quero me formar, ter uma profissão.
— Mas para quê?
Então não temos tudo o que queremos?
Nossa fábrica não dá bons lucros, e o doutor Osório, todo mês, não nos presta contas?
Está lhe faltando alguma coisa?
— Não é isso, Daniela, você ainda não entendeu.
— Não, confesso que não.
Temos tudo, podemos sair, viajar, o que você quiser.
— Mas o que quero é estudar.
E não adianta tentar me fazer mudar de ideia, porque já está tudo resolvido.
Daqui a uma semana parto para o Rio de Janeiro.
Vou me inscrever no vestibular.
Fiquei boquiaberta.
Estava abismada.
Meu irmão não podia estar fazendo aquilo comigo.
Ele tratara de tudo pelas minhas costas, sem nem me consultar ou participar.
Fora uma traição.
Mas eu o amava loucamente, mais até do que a mim mesma, e não poderia suportar viver sem ele.
Tentando controlar a raiva, o medo e a frustração, falei com frieza:
— Pois muito bem.
Se é assim, espero que saiba o que está fazendo.
Mas depois não vá se arrepender e voltar correndo para mim.
Vire-se sozinho.
— Pare com isso, Daniela, não seja tão dramática.
Eu não vou sumir, vou apenas estudar.
Quero me formar, ser arquitecto.
Você sabe que gosto de projectar casas, sempre gostei.
— Pois então vá.
O que está esperando?
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 11:35 am

— Não quero deixá-la assim.
— E como quer que eu fique? Contente?
— E por que não?
Afinal, estou tentando fazer algo que me agrade, e a minha alegria deveria ser motivo de contentamento para você.
Vamos, Daniela, não seja egoísta.
— Egoísta, eu?
Era só o que me faltava.
Pois fique sabendo, senhor Daniel, que não ligo nem um pouco se você quer partir.
Pode ir. Vamos, o que está esperando?
Só vou lhe avisar uma coisa:
se pensa em me trocar por outra, pode esquecer.
Mato você antes. Eu juro.
— Daniela, por favor...
— Saia daqui, não quero mais falar com você.
— Daniela, não seja criança...
— Saia daqui!
Suma! Desapareça!
Daniel, magoado, virou-me as costas e saiu, ganhando a rua.
Não retornou para o almoço nem para o jantar, somente voltando altas horas da madrugada.
Eu fiquei apavorada.
E se ele tivesse partido?
Desesperada, corri ao seu quarto, mas me tranquilizei ao ver que suas roupas ainda estavam ali.
Desapontada, deitei-me em sua cama para esperá-lo, até que adormeci e não vi quando ele chegou.
Somente no dia seguinte, quando o sol bateu em meu rosto, foi que despertei e vi que ele estava ali, dormindo placidamente ao meu lado.
Ao vê-lo, tão belo e tão sereno, não pude conter a emoção e exclamei:
— Daniel!
Ele abriu os olhos e me fitou ainda com sono, virando-se para o outro lado e voltando a dormir.
Eu, porém, ansiosa e agoniada, comecei a sacudi-lo pelos ombros, até que ele despertou.
— Meu Deus, Daniela, pare com isso.
Estou com sono.
— Daniel, meu amor, sabia que não iria me abandonar.
Comecei a beijá-lo e acariciá-lo, provocando-o.
Daniel não pôde resistir às ousadias de minhas carícias.
Além de tudo, nós nos havíamos especializado na arte de fazer sexo.
Como já vivíamos mesmo um amor proibido, nossa relação não encontrava limites ou censuras.
Vivenciávamos o sexo em sua plenitude, e tudo entre nós era permitido, sem pudores ou constrangimentos.
Assim, após breves instantes de provocação, Daniel cedeu aos meus apelos e me tomou nos braços, e nós nos amamos loucamente.
Eu estava extasiada.
Quanto mais o tinha, mais o queria, e não o perderia por nada neste mundo.
— Meu querido — sussurrei —, sinto se o magoei.
Ele segurou a minha cabeça e, olhando bem fundo nos meus olhos, acrescentou:
— Você me magoou mesmo. Pensei que quisesse me ver feliz.
— E quero.
— Então não crie problemas e deixe-me partir para o Rio de Janeiro.
— Você irá de qualquer jeito, não é?
Quer eu deixe, quer não.
— Irei. Já estou decidido.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 11:35 am

— Muito bem.
Se é isso o que você quer, então não irei mais contrariá-lo.
Já me decidi. Eu irei com você.
Naquele momento, Daniel lançou-me um olhar indefinível, mas que, no fundo, queria me dizer muitas coisas.
Só que eu, tonta e apaixonada, não pude ou não quis compreender seu significado.
Daniel não disse mais nada, mas eu, em meu íntimo, sabia que ele não queria a minha companhia, embora não quisesse aceitar esse facto.
Eu devia ter notado que nosso amor, ou melhor, o amor de meu irmão, já se havia consumido, e o que ele buscava era uma vida de liberdade, na qual não se incluía a companhia de uma irmã, ainda mais de uma irmã feito eu.
Eu era sinónimo de pecado, e Daniel não queria mais pecar.
Ao contrário, ao optar por estudar no Rio de Janeiro, estava claro que Daniel buscava se afastar de mim, enterrando em seu passado aquele amor obscuro que vivíamos, carregado de culpas.
Afinal, ele mesmo dissera que já era hora de acabar com aquele romance tresloucado.
No entanto, devido à minha louca paixão, eu jamais poderia aceitar que ele se fosse sem mim e tudo faria para mantê-lo a meu lado.
Quem sabe ele não estivesse apenas cansado daquela vida de clausura, e os novos ares da Cidade Maravilhosa talvez lhe fizessem bem?
E, com o tempo, tudo voltaria ao normal e nós continuaríamos a nos amar.
Talvez até nos mudássemos em definitivo para o Rio de Janeiro.
Lá ninguém nos conhecia e poderíamos muito bem passar por namorados ou, quem sabe, até por marido e mulher.
Uma semana depois, lá íamos nós rumo ao Rio de Janeiro.
Logo que chegamos, nos hospedamos num hotel e, pouco depois, já havíamos alugado um apartamento em Copacabana, de frente para o mar.
Era uma beleza!
As inscrições para o vestibular já haviam começado, e ambos nos inscrevemos para arquitectura.
Eu não tinha a menor vontade de estudar, mas não poderia passar horas a fio sem a companhia de Daniel.
Assim, a única solução que encontrei foi fazer o vestibular junto com ele, rezando para que passássemos para a mesma faculdade.
Matriculamo-nos num cursinho e metemos a cara em livros e apostilas.
O tempo era curto e estudávamos dia e noite sem parar, até que o dia dos exames chegou.
Eu estava tão ligada em Daniel que sabia quais as questões que ele havia aprendido, quais as que ele não sabia e quais aquelas em que ainda tinha dúvidas.
Eu era mais inteligente do que ele e tinha possibilidade de fazer uma prova muito melhor do que ele.
No entanto, preferi marcar as respostas que eu sabia que ele marcaria, o que aumentaria as minhas chances de passar para a mesma faculdade que ele.
E assim aconteceu.
Passamos, ambos, para a mesma faculdade particular, e quando o ano lectivo se iniciou, lá estávamos nós, estudando na mesma sala.
Eu estava feliz da vida, e Daniel parecia também estar.
Apesar de tudo, ele estava satisfeito com a minha presença.
Eu cuidava de tudo, e ele não precisava se preocupar com nada.
Fizemos algumas amizades, mas, ao contrário do que eu imaginara, não conseguíramos ocultar nosso parentesco, e todos sabiam que éramos irmãos.
Dentre os amigos que fizemos, dois em especial se destacaram:
Ana Célia, que muito se afeiçoara a nós, e Marcelo, que parecia interessado em mim e vivia jogando piadinhas.
Mas eu não estava interessada nem nele, nem em ninguém.
Ainda assim, éramos bons amigos e muitas vezes saíamos juntos, para ir a algum barzinho ou boate.
Para Daniel tudo estava perfeito.
Ele rápido se habituara a vida tumultuada do Rio de Janeiro e tomara gosto pelas saídas nocturnas.
Eu, mais reservada, preferia gastar o meu tempo livre sozinha com ele, mas procurava não contrariá-lo e sempre o acompanhava.
Somente à noite ou nos fins de semana, quando estávamos sós ou viajávamos, é que nos entregávamos a nosso prazer pessoal e continuávamos a nos amar com a mesma paixão, com o mesmo ardor, com a mesma volúpia de sempre.
No fundo, Daniel sabia que eu era excelente amante, e não havia, naquela época, tantas moças disponíveis para o sexo antes do casamento.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 14, 2015 10:52 am

CAPÍTULO QUATRO

Um dia, resolvemos passar o fim de semana em Angra dos Reis e, a pedido de Daniel, convidamos Ana Célia e Marcelo.
Embora a contragosto, aceitei convidá-los.
Para mim, seria muito melhor passar dois dias esquecida com Daniel num paraíso do que ter em nossa companhia dois estranhos que, apesar de amigos, não compartilhavam da nossa felicidade.
Naquela época, creio que eu era meio ingénua, pois não pude perceber o que meu irmão pretendia.
Só depois, quando o pior aconteceu, foi que consegui juntar todos os pedacinhos de nosso drama e vi que Daniel, havia muito, planeava livrar-se de mim, atirando-me nos braços de outra pessoa, só para deixar-lhe o caminho livre.
Fazia um bonito dia e nós aproveitávamos o sábado nos tostando ao sol.
O hotel em que nos hospedáramos ficava de frente para o mar, e eu dividia um quarto com Ana Célia, enquanto Daniel dividia outro com Marcelo.
Essa combinação também não era de meu agrado, mas meu irmão acabou me convencendo de que seria a mais normal e menos suspeita.
A contragosto, novamente concordei.
Ana Célia e eu conversávamos animadamente, trocando ideias sobre determinada matéria da faculdade, quando Marcelo se acercou de nós e convidou:
— Daniela, por que não vamos nadar?
— Ah, Marcelo, agora não.
Estou com uma preguiça...
— Ora, mas o que é isso?
A água está uma delícia.
— Está mesmo — concordou meu irmão, que vinha chegando por detrás dele, sacudindo os cabelos para tirar o excesso de água.
Você devia aproveitar.
Ao final de alguns segundos, assenti, como sempre, para fazer a vontade de Daniel.
Já estava me levantando quando Ana Célia falou:
— Também vou.
Mas o olhar de meu irmão fez com que ela se sentasse novamente, e eu fui para a água em companhia de Marcelo.
Até então, nunca desconfiara de que meu irmão pudesse estar interessado em Ana Célia, ou vice-versa, e corri para o mar, atirando-me na água e mergulhando repetidas vezes.
Estava alegre, brincando com Marcelo, quando algo chamou minha atenção.
Ao olhar para a areia, vi que Daniel se achegara demais a Ana Célia, falando coisas em seu ouvido, e ela ria e balançava a cabeça, como se estivesse concordando com o que ele dizia.
Aquilo me deixou louca de ciúmes e eu, rápido, saí da água. Marcelo, correndo atrás de mim, segurava-me pelo braço.
— Daniela, o que foi que aconteceu? — perguntou ele.
Por que a pressa?
— Deixe-me em paz — respondi bruscamente, e ele me soltou.
— Nossa, que bicho a mordeu?
— Não é da sua conta.
Agora, com licença, preciso passar.
Sem compreender, Marcelo chegou para o lado, dando-me passagem, e eu corri para onde Daniel estava.
Eles gargalhavam e cruzavam olhares, por vezes até se tocando de forma estudadamente casual.
Quando cheguei, espumando de raiva, Ana Célia se assustou e indagou aflita:
— Daniela, aconteceu alguma coisa?
Você está esquisita.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 14, 2015 10:53 am

Eu não respondi.
Não tinha o que dizer.
Minha vontade era de esganá-la.
Cerrei os punhos e disse entre os dentes:
— Quero ir embora.
— Meu Deus, Daniela, por quê? — quis saber Ana Célia.
Alguém lhe fez alguma coisa?
— Não... — balbuciei — ninguém me fez nada.
Mas não quero mais ficar.
— Ora, Daniela — objectou Marcelo —, alguma coisa deve ter acontecido para deixar você assim desse jeito.
E de repente...
Mas eu não queria ouvir nada.
Precisava fugir dali o mais rápido possível, ou seria capaz de cometer uma loucura, o que acabaria por nos delatar.
Saí correndo para o hotel e tranquei-me no quarto para chorar.
Estava desiludida, frustrada e não queria acreditar.
Aquilo não podia ser verdade.
Daniel não podia estar me trocando por aquela lambisgóia.
Na praia, ninguém entendia o que acontecera comigo. Só Daniel.
— Mas o que foi que deu nela? — insistia Marcelo.
Será que foi alguma coisa que eu fiz?
— Marcelo — repreendeu Ana Célia —, você não a desrespeitou?
Será que não tentou nada?
- Eu? Credo, Ana Célia, claro que não.
Está certo que gosto de Daniela, mas jamais ousaria tocá-la.
— E você, Daniel, não diz nada?
Daniel lançou-lhes um olhar enigmático e retrucou:
— Deixem Daniela comigo.
— Você sabe o que aconteceu?
— Provavelmente, ciúme.
— Ciúme?
Mas de quê, meu Deus?
— De você, Ana Célia.
— De mim? Por quê?
— Bem, desde que mamãe morreu, eu tenho sido a única pessoa na vida de Daniela.
E depois, com a morte de papai, ficamos ainda mais sós, passei a cuidar de tudo sozinho, e ela tem medo de que eu me case e a abandone.
Acho que, quando ela nos viu conversando, ficou com medo e reagiu dessa forma.
— Oh! — exclamou Ana Célia penalizada.
Mas que bobinha.
Logo eu, que sou tão sua amiga e jamais pensaria em deixá-la sozinha.
— Eu sei, mas o ciúme é algo irracional.
— Talvez seja melhor falar com ela — sugeriu Marcelo.
— Vou lá... — acrescentou Ana Célia.
— Não, não — interveio Daniel.
Acho que é melhor eu ir.
Afinal, somos irmãos e nossa ligação é muito forte.
Não se preocupem, continuem na praia que, logo, logo, eu a trago de volta.
Minutos depois, escutei batidas na porta, fui abrir e Daniel entrou.
Quando o vi, meu ódio aumentou, e voei no seu pescoço.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 14, 2015 10:53 am

— Desgraçado! — berrava.
Por que fez isso comigo, por quê?
Daniel agarrou-me pelos punhos com força e fez-me sentar na cama.
— Acalme-se — disse.
Não é nada disso.
Eu não parava de chorar.
Sentia-me traída, humilhada, e só queria ir embora dali.
Carinhosamente, porém, ele colocou minha cabeça em seu peito e começou a alisar meus cabelos, como sempre fazia, enquanto eu me debulhava toda, agarrando-me a ele.
— Oh! Daniel, por quê?
Eu o amo tanto!
Não me faça sofrer.
— Psiu! Minha querida, tenha calma.
Não é nada disso que você está pensando.
— Como não?
Eu vi, Daniel, ninguém me contou.
— Mas o que foi que você viu?
— Aquela metida da Ana Célia toda derretida para você.
E você... você... todo enrabichado!
— O que é isso, Daniela?
Você entendeu tudo errado.
— Vai agora tentar me enganar que vocês não estavam flertando?
— Bem, sim... mas não do jeito como você está falando.
— E de que jeito, então?
— Daniela, pense bem.
Ana Célia não sabe de nosso envolvimento e é natural que tente me conquistar.
Somos amigos, estamos sempre juntos.
E se eu a repelir, ela vai começar a desconfiar...
— Pare, Daniel.
O que pensa que sou, alguma idiota?
Posso ser louca por você, mas não sou burra.
Por favor, não subestime a minha inteligência.
Eu sei o que vi e sei que você e Ana Célia estavam flertando bem debaixo do meu nariz.
Ela, tudo bem, não digo nada, porque não sabe de nosso amor.
Mas você... você me deve fidelidade.
— Eu sei, minha querida, desculpe-me — falou vencido.
Você tem razão.
Sei que errei e lhe peço perdão.
— Eu o mato, Daniel.
Juro que, se você arranjar outra mulher, eu o mato e depois me mato.
Vamos ambos viver no mesmo inferno.
— Daniela, que horror!
Não diga isso nem brincando!
— Não estou brincando.
Nunca falei mais sério em toda a minha vida.
Eu jamais poderei suportar perdê-lo para outra.
Prefiro vê-lo morto e a mim também.
Ao menos no inferno poderemos nos amar sem restrições ou empecilhos.
Daniel saiu cabisbaixo.
Eu sabia que ele acreditara em minhas palavras, e eu estava, realmente, falando sério.
Se ele ousasse me abandonar, a vida não valeria mais a pena.
Daniel me pertencia, só a mim, e ninguém mais o teria.
O simples facto de imaginar outra mulher a beijá-lo ou tocá-lo me enlouquecia.
Eu gostava muito de Ana Célia, ela era minha amiga.
Mas jamais poderia permitir que ela me roubasse a única pessoa que eu fora capaz de amar no mundo.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 14, 2015 10:53 am

CAPÍTULO CINCO

Voltamos para o Rio de Janeiro na tarde de domingo.
Eu ia calada, procurando me esquivar das conversas.
O carro era de Ana Célia, e eu me sentei no banco de trás, ao lado de Marcelo, enquanto Daniel ia ao lado dela, conversando e rindo, como se fossem namorados.
Por vezes, passava a mão em seu cabelo, numa carícia disfarçada.
Marcelo tentava puxar conversa, mas eu o evitava, fingindo dormir.
Aliás, evitava tudo que não fosse meu adorado Daniel.
Quando chegamos, fui logo tratando de me despedir, alegando cansaço.
Marcelo, porém, ainda insistia para que fôssemos a algum lugar.
— Ainda é cedo — disse.
Podemos pegar um cineminha.
- Obrigada, mas estou cansada — desculpei-me.
- Ora, Daniela — falava Ana Célia —, a viagem não foi assim tão cansativa.
E você veio o tempo todo dormindo.
- Deixe Ana Célia — interrompeu meu irmão.
Acho mesmo que Daniela não está se sentindo muito bem.
Vamos fazer uma coisa: iremos para casa agora, e mais tarde, quem sabe, poderemos sair.
Qualquer coisa, eu telefono.
— Bem, vocês é que sabem.
Quando entramos em casa, comecei a chorar.
Não podia mais suportar aquilo.
Estava claro que eu o estava perdendo, mas jamais poderia admitir.
Jamais poderia aceitar, e muito menos permitir.
Daniel chegou perto de mim e me abraçou, tentando me acalmar.
— Não chore Daniela.
Eu estou aqui, não estou?
Quanto mais ele falava, mais eu me apertava contra ele e chorava.
Daniel, vendo que eu não conseguia conter o pranto, tomou-me nos braços e carregou-me para a cama.
Ele sabia como me acalmar e me fazer sentir segura.
Bastava me amar e me fazer sua mulher.
Naquela noite, não saímos.
Preferimos permanecer em casa, abraçadinhos diante da TV.
Daniel telefonou para Ana Célia e disse que não podíamos ir.
Na manhã seguinte, quando nos encontramos na faculdade, Marcelo veio ao meu encontro e me beijou nas faces, perguntando delicadamente:
— E então, Daniela, como vai?
Melhorou?
Olhei para Daniel, que sorriu, e respondi:
— Melhorei sim, Marcelo, obrigada.
— Você me deixou preocupado.
— Não precisava.
Foi apenas um mal-estar passageiro, nada de mais.
— Não acha que devia ir ao médico?
— Não se preocupe Marcelo — interveio Daniel.
Daniela já está melhor.
Coisas de mulher, você entende...
Depois da aula, fui para casa, mas Daniel, a pretexto de passar na biblioteca para apanhar um livro, não foi comigo e só voltou à noite.
— Onde esteve? — perguntei, logo que o vi aparecer na porta.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 14, 2015 10:54 am

Ele me encarou e respondeu de forma vaga:
— Por aí...
— Por aí onde?
— Fui dar uma volta.
— Uma volta?
Mas onde?
— Pela praia.
— Sozinho?
— Com uns amigos.
— Que amigos? Eu conheço?
— Nossa, Daniela, por que esse interrogatório?
Por acaso agora preciso de sua autorização para sair, é?
— Não... não é isso.
É que você demorou, fiquei preocupada.
— Pois não devia. Não tem motivo.
Sou grandinho e sei me cuidar.
Eu me levantei do sofá e fui para a cozinha, atrás dele, fingindo que ia beber água.
Abri a geladeira e tornei a perguntar, tentando parecer casual:
— Ana Célia também foi?
— Por que quer saber?
— Não pode me dizer?
— Daniela, chega de perguntas.
Não sou seu filho nem seu marido.
— É meu irmão...
— É isso mesmo, sou só seu irmão.
— ... e meu amante.
Será que Ana Célia gostaria de saber disso?
Ele soltou a garrafa de refrigerante que segurava e me agarrou, sacudindo-me pelos ombros.
— Ficou louca, é?
Quer estragar nossas vidas?
— Por quê?
Por que não podemos dizer a ela, a todo mundo?
— Porque somos irmãos.
Não entende que somos irmãos, e o que fazemos é incesto?
Isso é crime.
Não é não.
Andei me informando e sei que não estamos cometendo nenhum crime.
O que fazemos é anti-social, só isso.
— É errado, Daniela, e você sabe.
— Mas por quê?
O que pode haver de errado no amor?
— No amor, nada.
Mas o que fazemos não é amor.
— Não?
E o que é? Sexo?
— Pare, Daniela, por favor.
Vamos encerrar essa conversa.
— Você não me quer mais?
— Daniela, ouça, precisamos parar...
— Não me deseja mais?
Comecei a me despir, tão próxima a ele, que podia sentir seu hálito quente e sua respiração ofegante.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

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