Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 11:00 am

O dia em que perceberem que não estão fazendo nada de errado, conseguirão compreender o que significa mesmo amar.
— Teríamos evitado tanto sofrimento?
— Sem dúvida.
Ninguém disse que precisamos aprender apanhando.
Podemos compreender de verdade, mas com o coração e não com a mente.
Aprender não é racionalizar. É sentir.
Quando isso acontece, somos capazes de suprimir toda a jornada de sofrimento e desviamos o nosso caminho para um atalho de amor.
Eu estava profundamente admirada.
Aquelas palavras possuíam uma beleza inigualável e eram muito reconfortantes.
Durante alguns minutos, permaneci calada, apenas digerindo o que Alfredo dissera.
Ele respeitou o meu silêncio, e nós ficamos ali, envoltos naquela aura de amor.
Só depois de muito tempo foi que continuei:
— Foi o mesmo em minha penúltima encarnação, não foi?
— Sim. A diferença de idade, mais uma vez atendendo a uma convenção social, foi outro meio que você tentou para se afastar de Daniel.
Contudo, mais uma vez, vocês não conseguiram e agravaram sua situação, Daniel com um homicídio, e você se suicidando.
Esse gesto foi tão violento e lhe causou tantos danos ao espírito, que você não conseguia escutar a voz de sua própria consciência, e foram necessários muitos anos para que você despertasse e compreendesse a gravidade de seu acto.
— Por fim, nascemos irmãos...
— A fraternidade, atendendo não a uma convenção social, mas a uma intervenção divina, serve para mostrar os verdadeiros valores morais e afectivos.
A família terrena une espíritos afins e não afins, plantando nos corações humanos a semente do amor puro e sincero.
Quando nascemos numa mesma família, é porque temos muitas coisas a trabalhar e fazer evoluir juntos:
sejam as afinidades, sejam os sentimentos, sejam as desavenças, sejam as dificuldades.
Não importa.
Quando somos pais, filhos e irmãos, estamos ligados por laços muito mais fortes do que simplesmente os consanguíneos, que servirão para nos ensinar o respeito e a compreensão.
— Não é bem assim, Alfredo.
Não quero me justificar, mas quantas famílias há por aí em que ninguém se entende?
— Foi por isso que lhe disse que todas as famílias têm muito a trabalhar e evoluir. Se são espíritos afins, óptimo.
Somente precisarão dar as mãos e crescer juntos, sempre se ajudando e amparando.
Mas, ao contrário, se são inimigos ou desafectos, a necessidade do amor se impõe, e todos terão que aprender, com seus atritos e divergências, que somente se respeitando é que poderão alcançar a paz.
A família, por sua natureza, já traz em si o germe da compreensão, que só precisa ser desenvolvido.
Quando nascemos na mesma família, temos toda a potencialidade para nos entendermos e nos ajudarmos, rompendo com as dificuldades que nos impeliram a reencarnar entre as paredes de um mesmo lar.
Alguns, mais conscientes e dispostos a aprender, conseguem vencer esses obstáculos e transformam o inimigo de ontem no amigo de todos os dias.
— E quanto a mim?
Quanto ao incesto?
— O incesto é uma mal sucedida tentativa de compreender e modificar, como se deu com você e com Daniel.
Quando optaram por reencarnar na mesma família, como irmãos gémeos, pensaram conseguir se libertar, mas, como das outras vezes, não estavam ainda maduros o suficiente, e os sentimentos próprios da fraternidade não conseguiram penetrar seus corações e romper a barreira do vício e da sensualidade.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 11:01 am

— Mas, Alfredo, por que as pessoas têm tanto preconceito contra o incesto?
Por que olham os incestuosos como aberrações da natureza?
— Por pura incompreensão.
As pessoas não conseguiram ainda compreender que a real finalidade da família é unir pelo amor, e não afastar pelo preconceito.
Talvez tenha havido também, como é de costume, uma compreensão equivocada ou distorcida das palavras de Deus, o que serve aos propósitos de cada um.
Lembre-se de que, em muitos povos, o casamento entre irmãos era comum.
É tudo uma questão de cultura.
E até entre nós, o incesto não é considerado crime pela lei dos homens, mas mero impedimento aos laços do matrimónio.
Mesmo os filhos chamados de incestuosos, que ontem não podiam ser reconhecidos por seus pais, hoje podem ser reconhecidos publicamente e gozam dos mesmos direitos assegurados à filiação tida por legítima.
Isso, minha filha, foi um verdadeiro avanço no pensamento humano, fruto da obra de espíritos incansáveis e generosos, encarregados de inspirar a mente do legislador terreno.
— Isso é maravilhoso.
Se já é horrível para nós sermos tratados como criminosos, imagine só para os filhos, frutos do pecado!
— Tem toda razão.
E os filhos que assim nascem, muito mais do que os pais, sofrem a necessidade de rever e trabalhar seus preconceitos, suas dificuldades e sua incompreensão.
Porque o casal incestuoso sempre tem a opção de deixar de sê-lo, ao passo que os filhos jamais deixarão de ser filhos.
— É mesmo.
A filiação será, para eles, considerada maldita, e eles terão que passar o resto de suas vidas carregando o estigma do pecado.
É horrível, desumano, injusto.
Ainda bem que, pelo menos, existem espíritos amigos que procuram minimizar esse problema.
— É verdade.
Mas não quero, com isso, fazer uma apologia do incesto, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Absolutamente, não é essa a minha intenção e nem quero que você interprete mal as minhas palavras.
Como disse, os laços de família foram criados para desenvolver o amor em sua acepção mais pura, livre do fogo da paixão, do sexo, do ciúme, do apego.
Esse é o propósito normal da filiação e da irmandade.
Mas, se esse amor é desvirtuado, aqueles que assim o desviaram não cometeram nenhum pecado.
Apenas não souberam superar suas dificuldades e precisarão retornar, em circunstâncias semelhantes, até que consigam vencer.
Alfredo me abraçou e finalizou:
— Bem, minha querida, agora tenho que ir.
Preciso visitar meus doentes.
Alfredo se foi, e eu senti o meu coração muito mais leve, pronto para enfrentar minhas próprias dificuldades.
Abracei--me a minha mãe e me deixei ficar, certa de que tudo acabaria bem.
Já não me julgava mais um monstro.
Contudo, naquele momento, a saudade de Daniel bateu mais forte, e comecei a chorar.
Como gostaria de poder abraçá-lo também, estreitá-lo contra o peito e dizer-lhe o quanto sentia por tudo aquilo, pedir-lhe perdão, pedir-lhe para não me odiar.
Desde que chegara ali, não tivera coragem de perguntar por ele.
Onde andaria? Estaria bem?
Minha mãe, como que adivinhando meus pensamentos, segurou minha cabeça entre as mãos e disse com doçura:
— Sabe, Daniela, apesar disso tudo, seu irmão está bem.
Também é meu filho e, da mesma forma como me preocupo com você, preocupo-me também com ele.
Procure esquecer que foram amantes e lembre-se apenas que são irmãos.
Não somos todos filhos do mesmo Pai?
Fechei os olhos e chorei, agradecida por poder estar ali, aconchegada no seio daquela mulher que me recebera em seu colo, ensinando-me os verdadeiros valores do amor.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 11:01 am

CAPÍTULO OITO

Eu já me sentia bem melhor.
Estava mais confortada, mais segura de mim, de minhas dores e de meus processos de amadurecimento.
Contudo, ainda sentia uma enorme saudade de Daniel e, um dia, resolvi fazer a Alfredo a pergunta que, desde que chegara, encontrava-se atravessada em minha garganta:
— Onde está Daniel?
Alfredo me olhou cheio de compreensão e respondeu:
— Está em outra colónia, perto daqui.
— Está bem?
— Sim, muito bem.
A princípio, encheu-se de ódio e revolta de você, mas depois, tomando conhecimento de tudo o que lhes acontecera, começou a compreender e a aceitar com mais naturalidade.
Daniel, ao contrário de você, estava mais firme em seu propósito de mudar e, não tivesse desencarnado intempestivamente, talvez tivesse conseguido alcançar seus objectivos.
— Oh! meu Deus, o que fui fazer?
— Nada que já não fosse esperado.
Quando reencarnaram, ambos sabiam que assumiam esse risco.
— Que risco?
De matar e morrer?
— Não exactamente.
Ninguém vem ao mundo para matar, pois isso significaria um estágio a mais a ser vencido.
Mas quem mata já traz em si essa potencialidade, já sabe que pode vir a matar, assim como quem morre já sabe que poderá ser vítima de um homicídio.
Da mesma forma o suicida.
Ele sabe que tem essa tendência, e é mais uma contra as quais deve lutar.
— Quer dizer que o meu suicídio já era esperado?
— Esperado, não.
Digamos, admitido como possível.
— Sabe, Alfredo, falando em suicídio, há certas coisas relacionadas ao meu que não compreendo.
— Refere-se à ferida em seu coração?
— Não, isso já entendi.
Refiro-me ao tempo em que passei no astral inferior.
Pensei estar perdida nas trevas, mas depois descobri que ficara o tempo todo em meu túmulo.
Como pode ser isso?
— O suicida, muitas vezes, permanece mesmo ligado ao corpo físico até que se escoe seu último fio de energia vital.
É muito comum acontecer isso, ainda mais com espíritos renitentes, que se negam a aceitar as verdades divinas em seu coração.
No seu caso, seu espírito também permaneceu ligado à matéria, mas sua mente, ansiosa por reencontrar seu irmão, somente podia pensar em buscá-lo, fosse onde fosse.
Assim, o vazio, as trevas, o frio, tudo isso foi criação de sua própria mente, que originou todo aquele espaço em que você se encontrava.
Era o seu coração que sentia daquela forma e, por isso, sua mente respondeu à altura, criando para você um espelho daquilo que encontrou lá no fundo de sua consciência, daquilo que você julgava merecer.
— Sabe, no fundo você tem razão.
Logo depois que me suicidei, sabia que estava morta, e, quando abri os olhos e não vi Daniel, pensei comigo:
"estou num beco sem saída, num caminho sem volta.
Sei que agi errado, mas agora não posso mais voltar atrás e consertar o meu erro.
Sinto-me tão sozinha e não sei aonde ir.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 11:01 am

Será que, no desespero de ter Daniel para mim, o que acabei conseguindo foi um nada, uma horrível solidão?"
— Viu só?
Lá no fundo, nos recônditos mais escondidos de sua alma, você tinha consciência da gravidade de seus actos.
Em seu íntimo, você sabia o que havia feito, pois já conhecia, inclusive, as consequências de um suicídio praticado em iguais circunstâncias.
Sabia que o reencontro com seu irmão seria extremamente prejudicial a ambos e, por isso, para fugir dessa realidade, você criou a ilusão de que poderia encontrá-lo, só que através de um caminho que, fatalmente, não conduziria a ele.
— Eu estava andando em círculos, não é mesmo?
— Mais ou menos isso.
— É impressionante.
Como pude criar tanta ilusão?
— Através da holografia.
Sabe o que é um holograma?
— É uma imagem tridimensional, não é?
Uma ilusão com altura, largura e profundidade.
— Exactamente.
O holograma cria a ilusão de que existem coisas onde, verdadeiramente, não existe nada.
Quando olhamos para um holograma, temos a impressão de que existe algo ocupando o espaço onde ele se faz visível, mas se experimentarmos passar a mão sobre ele, veremos que não há nada ali.
Foi tudo uma ilusão.
— Mas se é uma ilusão, como pode ser sentida?
— Ilusão não significa não existência.
Se você vê, é porque existe, seja em que nível for, e aquela ilusão será real para você.
Apenas será imaterial, uma construção toda particular da realidade que seu cérebro idealizou.
Na verdade, o cérebro é responsável pela criação de mundos externos tirados de nossos processos internos, mundos esses que gravitam em torno de percepções auditivas, visuais, sensitivas...
— Alfredo, isso é fantástico!
Jamais poderia supor que existisse algo assim.
Para mim, tudo aconteceu de verdade.
— Mas aconteceu, Daniela, só que não no plano físico que você imagina.
O plano holográfico trabalha em um nível não corpóreo, como de sonhos.
Quando sonhamos, acreditamos que tudo está acontecendo de verdade e somos capazes de ver, ouvir, sentir cheiros e até ter a sensação de dor e de morte.
Assim o holograma.
Ele cria essas passagens ilusórias a partir de algo que está dentro de nós, reflectindo no mundo exterior aquilo que habita em nosso íntimo.
— Há ainda uma coisa que não compreendo.
Durante minhas andanças pelo mundo ilusório das trevas, julguei sentir a presença de uma criatura junto de mim todas as vezes em que me masturbava.
Seria outro holograma?
— Com certeza.
Não havia ninguém ali, apenas a ilusão de que uma força estaria presente para partilhar com você aquilo de que você mais gostava e que a aproximava ainda mais de Daniel, que era o sexo.
Quando se masturbava, em quem pensava? Em Daniel.
E como Daniel não podia estar ali para satisfazê-la, sua mente criou algo que o substituísse.
Não com seu amor ou seu carinho, mas ao menos com sua presença.
Aquela presença seria, por assim dizer, uma imagem de Daniel.
Foi apenas uma projecção da sua mente, algo que você imprimiu em seu campo áurico para satisfazer e preencher a necessidade que sentia da presença de Daniel.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 11:01 am

Eu estava perplexa e admirada com tudo aquilo.
O universo era perfeito, Deus era, sem a menor sombra de dúvida, a imagem da perfeição.
Após alguns instantes de reflexão, porém, voltei meus pensamentos para Daniel e tornei a indagar:
— E Daniel?
Terá também sido vítima de seus próprios espectros?
Ele riu da minha comparação e respondeu:
— Não, minha querida, não dessa maneira.
Daniel passou muito menos tempo nas trevas e não sofreu os terrores por que você passou.
Ao contrário, logo lembrou-se de Deus e foi socorrido.
— Posso vê-lo?
— Não, Daniela, ainda não.
— Por quê?
É algum tipo de proibição?
— Você bem sabe que não está proibida de nada.
Se tiver mesmo muita vontade de ver Daniel, se essa vontade for muito forte e decidida, nós nada poderemos fazer para impedi-la.
O seu próprio pensamento a levará ao local onde ele se encontra.
No entanto, não creio que sua vontade seja assim tão forte, visto que você mesma possui dúvidas sobre a conveniência desse encontro.
— Tem razão. Desculpe-me.
É que sinto saudades...
— Ele também sente.
Hoje compreende bem as coisas e se arrepende de a haver repelido de forma tão fria, como ele mesmo diz.
— Você tem estado com ele?
— Algumas vezes.
Fui visitá-lo em companhia de sua mãe e levei-lhe notícias suas.
— Fale-me dele, por favor.
— Ele está bem.
Como disse, também sente saudades suas, embora não deseje vê-la por enquanto.
— Por quê?
Está com raiva de mim?
— Não, agora não.
No princípio, sim, sentiu bastante raiva.
Afinal, tinha planos para sua vida, havia acabado de se formar, estava apaixonado, ia se casar.
Mas depois compreendeu e quase enveredou pelo desfiladeiro da culpa, assim como você.
Daniel, quando encarnado, começou a sentir despontar dentro dele a luz da consciência, que o alertava da necessidade de se afastarem.
— Oh! Alfredo, por favor, deixe-me vê-lo.
Só por um instante!
— Daniela, pense bem.
Se você o vir agora, todos aqueles sentimentos contra os quais você pretende lutar virão à tona novamente, e a sua recuperação poderá se tornar muito mais difícil.
Será que gostaria de pôr em risco o seu progresso aqui, apenas por alguns instantes de prazer?
— Não é isso.
Eu só quero vê-lo, nada mais.
— Vê-lo seria extremamente prejudicial a ambos, principalmente a você.
Seja sincera com você mesma e diga se só a sua presença já não seria suficiente para perturbá-la.
— Tem razão.
Eu ficaria muito abalada, e talvez as culpas das quais pretendo me livrar viessem novamente bater à minha porta.
Afinal, fui culpada pelo seu desencarne...
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 11:01 am

— Está vendo?
Já está se acusando.
— É mesmo.
Você está certo, Alfredo.
Vou me fortalecer um pouco mais e só então tornarei a lhe fazer esse pedido.
— Excelente.
No entanto, há mais alguém que reclama a sua presença e por quem você, até agora, ainda não perguntou.
— Quem?
— Seu pai.
— Meu pai?
Eu fiquei chocada.
Não tinha a menor vontade de vê-lo, muito menos de falar com ele.
— Isso mesmo, seu pai.
Não quer saber o que aconteceu com ele?
— Para falar a verdade, não.
Não me interessa.
— Por que tanto ódio?
— Não é ódio.
É que nós dois não temos nada em comum.
— E isso é motivo para desavenças?
— Ouça, Alfredo, sei que suas intenções são boas, mas não estou a fim de falar com meu pai. Não agora.
— Quando?
- Não sei.
Quando estiver mais preparada.
— Engraçado, não, Daniela?
Você também quer se preparar para reencontrar Daniel e se propõe a fazer todo tipo de sacrifício para poder vê-lo novamente.
No entanto, quando se trata de seu pai, você não parece estar disposta a se dedicar com o mesmo empenho.
Abaixei os olhos, envergonhada.
Ele tinha razão.
Daniel era merecedor de todo o meu respeito, toda a minha preocupação.
Mas e meu pai?
Embora não tivéssemos nada em comum, eu não podia esquecer que ele me havia dado a vida.
Ao menos isso eu lhe devia.
Qualquer que fosse o motivo ele havia concordado em me dar a vida e me orientar na Terra, e não era culpa dele se eu, como sua filha, tinha resolvido não dar atenção a seus conselhos.
Realmente, ele fizera o melhor que podia, dera o melhor de si, e eu estava sendo por demais exigente ao pensar que o melhor dele deveria ser o que eu queria de melhor para mim.
Assim, acabei por concordar em encontrá-lo, e Alfredo se encarregou de chamar minha mãe, para que me acompanhasse naquela visita.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 11:02 am

CAPÍTULO NOVE

No dia seguinte, acordei com minha mãe batendo à minha porta.
Viera me buscar para irmos visitar meu pai.
Vesti-me apressada e saí com ela, evitando as palavras que pudessem denunciar o que me ia na alma.
Embora houvesse concordado com aquela visita, o facto é que não estava nem um pouco satisfeita com ela.
Não gostava de meu pai e não fazia a menor questão de aprender a gostar.
Contudo, acabara prometendo ir visitá-lo e não podia voltar atrás em minha palavra.
Pensei que, afinal, algum proveito deveria tirar daquela visita e segui em silêncio ao lado de minha mãe.
Meu pai não estava na mesma colónia que eu, mas junto com minha mãe.
No caminho, ela ia me explicando:
— Não se impressione com seu pai.
Ele ainda está um pouco confuso.
Tem consciência de tudo o que aconteceu, mas, algumas vezes, entrega-se ao desânimo, e outras, à revolta.
Não com seu desencarne e nem mais com o meu.
Em seu íntimo, sabe que você não teve culpa de nada.
Mas revolta-se contra sua incapacidade de orientá-los no caminho do bem.
Algumas vezes, culpa-os, a você e a Daniel, pela sua própria infelicidade, julgando-os responsáveis pelos infortúnios que se abateram sobre a nossa família e, em especial, sobre a sua própria vida.
Logo em seguida, atrai para si a culpa pelo que aconteceu, exigindo demais de si mesmo, mas acaba por justificar-se, alegando que só poderão se reconciliar quando vocês resolverem mudar.
— Nós? — falei, afinal, indignada.
Quem ele pensa que é?
Por acaso é algum santinho, é?
Até parece que foi muito bom pai.
— Daniela, por favor, não entremos nesse mérito.
Como lhe disse, seu pai está ainda muito confuso.
Pense que, assim como para você tem sido difícil superar certas dificuldades, para ele também é.
— Eu sei disso e posso até compreender.
Mas não vejo motivos para ele pensar que foi muito bom e nós é que fomos duas pestes.
— Eu não quis dizer isso...
— Mas foi a impressão que deu.
Francamente, mãe, se é para ouvir algum tipo de sermão, prefiro voltar daqui mesmo.
Não estou a fim de levar nenhuma lição de moral.
— Acalme-se, Daniela, o que há com você?
Então não percebe que seu pai está tentando assumir seus próprios fracassos?
— Não tenho nada com isso.
Ele que vá se tratar primeiro.
— Daniela, está sendo injusta, severa e nada caridosa.
Por que não pode ser mais tolerante quando se trata de seu pai?
Afinal, ele gosta de você e sente muito tudo o que aconteceu.
Quer ser seu amigo.
— É... como se diz por aí, com um amigo desses, quem precisa de inimigos?
— Por que está sendo sarcástica?
Por que não se olha e reconhece que também errou com ele?
— Eu? Mas em quê?
— Na sua intransigência, na sua falta de compreensão, no seu egoísmo, na sua arrogância, na sua teimosia, na sua falta de respeito.
Quer mais?
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 11:02 am

— Mãe, que horror!
Até parece que é assim.
— É assim mesmo.
Você e Daniel não estavam interessados em mais nada que não fossem seus próprios umbigos e não souberam reconhecer a ajuda que seu pai queria lhes oferecer.
Olhei-a espantada.
Nunca tinha ouvido minha mãe falar daquele jeito e fiquei surpresa com a veemência com que defendia meu pai.
Tentando ainda me justificar, disparei:
— Mas ele queria nos separar!
— Era a única maneira que conhecia de ajudá-los.
E depois, a questão não é essa.
Não estou falando do que ele fez nem de como fez, mas por que fez.
Tudo o que ele fez foi para separá-los sim, mas porque pensava que seria a única maneira de ajudá-los.
— Ora, mas nós não precisávamos e não queríamos essa ajuda.
— E por isso se esqueceram dos valores mais comezinhos que tentamos lhes passar, que foram o amor, a compreensão, a obediência e, sobretudo, o respeito.
- Queria que obedecêssemos e curvássemos a cabeça feito dois cordeirinhos?
— Não. Não lhes pedi subserviência, pedi-lhes obediência, é diferente.
É o que todo filho deve aos pais enquanto ainda está sob a sua guarda.
Mas vocês tinham medo, não de se separar, mas de terminarem de se relacionar sexualmente.
Se vocês se amassem mesmo, deveriam ser os primeiros a aceitar ajuda e tentar se modificar.
Por que acusa seu pai?
Ele pode ter errado, mas você também não acertou.
Lembre-se de que cada um tem os seus erros, e ninguém, absolutamente ninguém, tem o direito de apontar o dedo para seu semelhante e decretar que o erro dele foi pior e mais grave do que o seu.
Abaixei a cabeça, novamente envergonhada.
Tinha ainda muito que aprender e precisava tomar cuidado para não acabar me sentindo vítima do destino.
Agora que já não me sentia mais culpada pelo que fizera, precisava me cuidar para não chegar ao extremo oposto e me colocar na situação de coitadinha injustiçada, aquela pobre menina que lutou, tentou e não conseguiu controlar seus ímpetos, despencando novamente pelo desfiladeiro do erro, para depois poder dizer:
"Coitadinha de mim, que nunca faço nada certo!".
— Tem razão, mãe — disse arrependida.
Sinto muito.
Vou tentar esquecer o que houve e tratar papai bem.
O que passou, passou...
— Não, minha filha, você não deve esquecer.
Ao contrário, deve se lembrar de tudo para poder transformar.
Só quando essas lembranças não a estiverem incomodando mais é que você poderá dizer que tudo passou e não volta mais.
Chegamos à porta de uma casinha toda pintada de branco, com cortinas rendadas na janela e um lindo jardim coberto de flores.
Fiquei admirada.
— Papai vive aqui? — perguntei, atónita.
Afinal, eu ainda vivia no alojamento e sabia que poucas pessoas tinham conseguido conquistar o direito de morar em uma casa como aquela.
— Por que o espanto?
Pensa que seu pai não merece?
— Não... não é isso... — respondi confusa.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 11:02 am

— Não precisa tentar se justificar Daniela.
Mas deixe que lhe explique.
Quem mora nesta casa sou eu, e só depois de muito tempo foi que obtive permissão para trazer seu pai para cá.
Ele passou muitos anos nas trevas, revoltado, e quando o resgatamos, tivemos que fazer um longo trabalho no hospital em que ele foi internado, trabalho esse que envolveu, inclusive, uma série de sessões terapêuticas.
Hoje ele está melhor e já pode viver aqui comigo.
Agora venha.
Abra o seu coração e nele receba o sentimento natural do universo, que é o amor, e partilhe-o com seu pai.
A porta se abriu e nós entramos.
A casa era muito simples, toda caiada de branco, com assoalho de tábua corrida e tecto alto.
Quase não possuía móveis, à excepção de uma mesa, quatro cadeiras, duas poltronas e uma espécie de cómoda alta, encostada na parede.
Sobre a mesa, uma toalha de renda também branca e um jarro cheio de flores perfumadas.
Era linda, e fiquei realmente admirada.
Passando os olhos pelo ambiente, avistei meu pai, que vinha chegando, vindo de outro cómodo da casa.
Vinha a passos largos, esfregando as mãos com ansiedade.
Ao me ver, parou e sorriu, meio sem graça.
Ficamos durante algum tempo nos olhando, como se estivéssemos nos estudando mutuamente.
Observando-o melhor, pude perceber que sua fisionomia ainda guardava traços da antiga dureza, se bem que agora demonstrasse uma certa tranquilidade.
Tinha engordado um pouco, parecia mais saudável e suas mãos não estavam mais trémulas.
Seus olhos pareciam haver adquirido um certo brilho, pois notei que deixara de usar óculos.
— Gilberto — começou minha mãe, tentando quebrar o constrangimento —, trouxe Daniela para visitá-lo.
Não está contente?
Ele olhou para ela meio desconcertado e disse:
— Si... sim... é claro que sim.
Como tem passado, Daniela?
— Vou bem. E você?
— Vai-se indo.
Aquela cena era insólita.
Éramos pai e filha, estávamos havia muito tempo separados pelo desenlace, vivêramos em mundos diferentes durante anos a fio e agora nos tratávamos feito dois conhecidos que se reencontram por acaso.
Eu também não sabia bem o que dizer ou fazer.
Estava muito sem jeito, com medo de falar algo que não devesse.
— Quer um refresco, Daniela? — perguntou minha mãe.
— Quero, obrigada — respondi, apenas para ter o que dizer.
Minha mãe saiu e nós ficamos ali parados, nos olhando pouco à vontade.
Até que, inesperadamente, meu pai abriu os braços para mim, convidando-me ao abraço, e acabei indo ao seu encontro, deixando-me abraçar feito um autómato.
Mas aquele abraço parecia tão sincero, tão amigo, tão acolhedor, que eu me enterneci e, emocionada, passei meus braços ao redor de seu corpo e comecei a chorar.
Hoje, pensando naquele momento, vejo como foi lindo!
— Daniela, eu... — começou ele a gaguejar — ... gostaria que... que me perdoasse...
Fui um tolo orgulhoso... não sabia ceder... não sabia ajudar...
— Papai! — exclamei em lágrimas.
Não diga isso.
Eu é que fui orgulhosa e egoísta.
Não soube reconhecer o seu amor.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 22, 2015 11:02 am

— Não, não, minha filha.
Eu, em minha arrogância, me aproveitei da minha superioridade de pai para subjugá-los, pois inconscientemente pensava que assim poderia vingar--me de todo o mal que vocês me haviam feito no passado.
Fui injusto com vocês, não soube perdoar.
— Não diga isso, pai.
Todos nós erramos...
— Mas eu fui pai.
Assumi a responsabilidade de educá-los, de orientá-los e, acima de tudo, de amá-los.
Sinto que falhei em minha missão.
— Todos nós falhamos pai.
Não foi culpa de ninguém.
Fizemos o melhor que pudemos e amanhã poderemos fazer melhor.
— Será, minha filha?
— Tenho certeza.
Mamãe chegou, trazendo uma bandeja com os refrescos, e ficou emocionada ao nos ver ali abraçados.
Passamos o dia todo conversando.
Saímos, fomos passear, escutamos música.
Durante todo o tempo em que estive ali, meu pai e eu não tivéramos uma única discussão.
Eu sabia que ele estava se esforçando e notei que o seu esforço era sincero, e não uma mera tentativa de me aceitar só para satisfazer minha mãe ou enganar--se a si mesmo.
Não. Ele realmente sentia as coisas da maneira como falava, e aquilo me deixou bastante emocionada.
Fiquei admirada com a sua enorme força de vontade.
Parecia possuído por um inabalável desejo de mudar.
Fiquei sensibilizada.
Meu pai fora um homem duro e difícil, era verdade, mas não menos verdade era que lutava consigo mesmo para vencer o orgulho e nos perdoar.
Ao final do dia, despedi-me e voltei para meu alojamento.
Estava muito satisfeita comigo mesma.
Minha mãe me acompanhou até a porta de meu quarto, quando então perguntei:
— Mamãe, e Daniel?
Também já falou com papai?
— Há muito tempo.
Com Daniel foi mais fácil, porque ele nunca teve a sua arrogância.
No fundo, você e seu pai são muito parecidos.
Ambos sempre foram independentes, orgulhosos, arrogantes.
Por isso foi tão difícil a convivência entre vocês.
Um era o espelho do outro e nenhum dos dois queria admitir ou ceder.
— É verdade.
Mas hoje posso compreender isso e vou tentar me modificar.
— Sei que suas intenções são sinceras, assim como as de seu pai.
E tenho certeza de que irão conseguir.
Beijamo-nos e nos separamos.
Eu me sentia mais leve, parecia que havia tirado um enorme peso de cima de mim.
Não tinha a ilusão de que, dali para a frente, minha convivência com papai seria um exemplo de amizade e carinho.
Sabia que a vida espiritual favorecia os bons sentimentos, porque aqui estamos envoltos por uma aura de amor e paz.
Mas sabia também que, uma vez de volta à carne, longe dos fluidos benéficos que imantam o mundo espiritual, todas as mágoas e os ressentimentos poderiam aflorar novamente, e teríamos que ser fortes e estar firmes no propósito de vencer.
Pensando nisso, ajoelhei ao pé da cama e, pela janela, vi as estrelas que faiscavam no céu, sentindo ali a presença bondosa de Deus.
E orei, pedindo a Ele que nos auxiliasse na luta de cada dia, mostrando-nos o verdadeiro caminho do bem.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 23, 2015 11:47 am

CAPÍTULO DEZ

Depois desse dia, passei a visitar meu pai com mais frequência, e ele, às vezes, vinha me ver, sempre em companhia de mamãe.
Conversávamos, ríamos, trocávamos experiências.
Só não falávamos de Daniel.
Daniel parecia um assunto proibido.
Todo mundo evitava falar dele comigo.
Eu entendia e não insistia.
Sabia que me responderiam a tudo o que perguntasse, mas falar sobre meu irmão ainda não me fazia muito bem.
Eu ainda estava muito ligada a ele para não me deixar envolver e, todas as vezes pronunciava seu nome, sentia vontade de chorar.
Uma vez, fui abordada por Alfredo quando me encontrava no jardim, lendo.
Ele chegou sorridente e me cumprimentou:
— Bom dia, Daniela, tudo bem?
— Tudo óptimo.
Sinto que a cada dia estou me fortalecendo mais.
— Fico feliz em ouvir isso.
Mas agora vamos ao que interessa — eu pousei o livro sobre os joelhos e o encarei com uma interrogação no olhar.
Vim aqui perguntar-lhe se você não gostaria de fazer uma visita ao orbe.
— O quê? Visitar a Terra?
— Sim.
— Não sei, Alfredo.
A quem iria visitar?
Todos de quem gostava encontram-se hoje aqui.
— Será mesmo?
E Marcelo?
— Marcelo...
Puxa vida, há quanto tempo não tenho notícias dele.
Foi um excelente amigo, e foi dele que me lembrei em meus últimos momentos nas trevas.
Lembrei-me de seus conselhos e de suas explicações sobre o espiritismo, e foi isso que levou meu pensamento a encontrar Deus.
— Marcelo ainda é seu amigo e continua gostando muito de você.
Ele sempre pensa em você com carinho e lhe envia as mais sinceras orações.
— É verdade. Tenho-as recebido aqui.
Devo mesmo ser uma ingrata.
Marcelo sempre pensando em mim, mesmo depois de todos esses anos, e eu aqui, sem nem me lembrar de que ele existe.
— Então? Não gostaria de ir vê-lo?
— Será que devo?
— Você é quem sabe.
Mas é que ele sempre coloca seu nome na mesa de orações do centro que frequenta, e talvez seja bom para você ir receber essas preces pessoalmente.
Pensei durante alguns segundos e disse animada:
— Está certo, então.
Quando iremos?
— Depois de amanhã será dia de sessão. Que tal?
— Tudo bem.
Diga-me a hora, que eu estarei pronta à sua espera.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 23, 2015 11:48 am

No dia combinado, Alfredo veio me buscar, junto com vários outros espíritos, para a sessão no centro de Alfredo.
— Quem são essas pessoas? — indaguei curiosa.
Pensei que fôssemos sozinhos.
— São espíritos que, assim como você, foram resgatados das trevas e estão sendo conduzidos ao centro para que possam ouvir e aprender.
Quando chegamos, a sessão estava para iniciar.
Em silêncio, dirigimo-nos para o lugar que os encarregados espirituais daquela casa nos indicaram e sentamo-nos.
A sessão correu normalmente e, na hora das incorporações, um dos mentores da casa me convidou para me manifestar.
Assustei-me. Nunca havia feito aquilo e não sabia como era.
O mentor me tranquilizou, prometendo-me ajuda.
Olhei para Alfredo, ansiosa.
Queria muito ir, e ele balançou a cabeça, sorrindo, dando-me seu consentimento.
Um pouco temerosa, dirigi-me para o local onde se encontrava uma moça de seus trinta anos, médium da casa, e incorporei nela.
Foi uma sensação indescritível!
Senti como se estivesse viva, experimentando o contacto com aquele corpo físico.
A moça estremeceu ligeiramente, como se sentisse um calafrio.
Ela (ou eu, não sei bem) abriu os olhos e eu ouvi nitidamente o chefe da mesa falar comigo:
— Seja bem-vinda, minha irmã, e que Deus a abençoe.
— Obrigada — respondi e assustei-me com o som de minha voz.
— Gostaria de nos deixar alguma mensagem?
— Sim, obrigada.
Há muito tempo desencarnei, vítima de impensado suicídio, e penso que expiei as minhas faltas.
Sofri muito no umbral, mas hoje já me considero mais refeita, pronta para novas experiências.
Há aqui presente alguém de quem gosto muito e cujo nome não gostaria de revelar, a fim de não embaraçá-lo ou constrangê-lo.
No entanto, em seu coração, ele saberá se reconhecer em minhas palavras, assim como saberá reconhecer-me em seu coração.
Estou bem, reencontrei meus pais, mas não pude rever meu irmão.
Sei que ele também está bem, porque assim me informaram meus amigos.
Mas não vim aqui para isso.
Vim para falar com esse amigo aqui da Terra, que nunca se esqueceu de mim e cujas orações sempre recebo com alegria.
Que você possa, meu amigo, sentir-se sempre abraçado por mim, e tenha a certeza de que tudo aquilo que você tentou me ensinar sobre as verdades da alma não foi em vão.
Não fossem seus ensinamentos, que muito me ajudaram a abrir os olhos, eu ainda hoje estaria nas trevas.
Não chore por mim nem lamente a minha sina.
Na verdade, eu só passei por aquilo que escolhi, e meu irmão também.
Não fomos vítimas nem algozes, fomos apenas seres humanos tentando ser felizes.
Tampouco pense que eu não soube reconhecer a sua amizade.
Você foi, sem dúvida, o melhor e único amigo que qualquer pessoa jamais poderia desejar, porque sua amizade por mim era sincera e leal, e sei que em seu coração nunca houve, nem nunca haverá, espaço para ressentimentos ou ódio — a médium soluçou discretamente, e eu concluí emocionada:
— Bem, agora preciso ir.
Muito obrigada a todos pela oportunidade, e que Deus e Jesus estejam sempre presentes em suas orações, auxiliando-os nesse grandioso trabalho que é o de orientar e esclarecer as almas sofredoras desse mundo e do outro.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 23, 2015 11:48 am

Eu saí.
Estava chorando, e os espíritos que tomavam conta da sessão me ampararam, acariciando-me com amor.
O mentor abraçou-me e conduziu-me para onde estava o meu grupo, e Alfredo me recebeu em seus braços.
— Sente-se bem? — perguntou.
Acenei com a cabeça e levantei os olhos, procurando Marcelo na sala semi-escura.
Ele estava chorando, não de tristeza, mas de emoção.
Reconhecera-me e estava feliz com a minha presença, principalmente por saber-me bem e confortada.
Alfredo acompanhou o meu olhar e depois, cutucando-me, apontou para um local na assistência, indicando-me uma mulher com duas crianças, de sete e nove anos, respectivamente.
Eram sua esposa e suas filhas.
Olhei para Alfredo emocionada e perguntei:
— Ele é feliz?
— Sim. Marcelo é uma alma boa e pura, muito afeiçoado a você.
Depois que você desencarnou, ele sofreu muito, mas não há dor que o tempo e a fé não curem.
Alguns anos depois, conheceu Liliana, com quem se casou e teve duas filhas, que são toda a sua alegria.
— Que óptimo. Fico muito feliz.
Sei que fui injusta com ele, mas nunca pretendi magoá-lo.
— Ele sabe.
Na verdade, Marcelo está muito acima dessas coisas e não se deixou vencer pelo desânimo.
Sempre confiou em si mesmo e acreditou na infinita bondade de Deus.
Depois nos calamos e ficamos assistindo ao restante da reunião.
Quando terminou, agradecemos aos espíritos encarregados daquela casa, que tão carinhosamente nos receberam, e partimos.
O grupo seguiu em direcção à colónia, mas eu pedira a Alfredo que me levasse até Ana Célia.
— Tem certeza de que é isso o que quer?
— Sim. Preciso vê-la, saber como está.
— Está bem.
Se é o seu desejo...
Ele pegou a minha mão e me conduziu até a casa de Ana Célia.
Ela também estava casada e tinha apenas um filho.
Quando chegamos, estava dormindo, seu espírito flutuando apenas alguns centímetros acima do corpo.
Nós nos aproximamos e Alfredo, cuidadosamente, chamou-a para junto de nós.
Ao ver-me, ela ameaçou partir para cima de mim, mas a luz que emanava de Alfredo a conteve.
— Ana Célia — disse ele —, viemos em paz.
— O que ela quer aqui?
Voltou do inferno para me atormentar, é?
— Não, Ana Célia, claro que não.
Nem pense uma coisa dessas.
Vim aqui apenas para conversar...
— Não tenho nada para falar com você.
Vá-se embora daqui.
— Ana Célia — interveio Alfredo —, não seja tão dura.
Não lhe queremos fazer mal.
— Você pode ser, visto que brilha até no escuro.
Mas ela...
— Ela é apenas um espírito, como eu, como você.
A única diferença entre nós é que você está encarnada, e nós não.
— A única diferença entre mim e ela é que eu sou uma moça honesta e decente, ao passo que ela não passa de uma vagabunda suja e ordinária.
Você é minha inimiga, e não dou conversa para inimigos.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 23, 2015 11:48 am

Meus olhos se encheram de lágrimas.
Depois de tanto tempo, Ana Célia ainda me odiava com todas as forças de seu ser.
Tentei ainda mais uma vez:
— Não fale assim.
Não sou sua inimiga...
— Vai me dizer que é minha amiga?
Há, há, há! Era só o que me faltava.
— Eu não disse isso.
Mas estou tentando me reconciliar com você.
— Reconciliar-se?
E quem disse que quero me reconciliar com você?
Você foi uma prostituta nojenta e me roubou o que mais amei na vida, que foi Daniel.
Por quê? Porque ele não queria mais você?
Porque você não podia ver a nossa felicidade?
Você ficou foi com inveja, isso sim.
— Não foi nada disso.
Por que não me ouve?
Porque não quero, não sou obrigada.
Agora saia daqui!
Está em minha casa, e eu não a convidei — virando-se para Alfredo, concluiu:
— Por favor, senhor, vejo que é mais educado do que essazinha aí.
Por isso é que lhe peço, com toda a educação: leve-a embora daqui.
Não quero mais vê-la nem falar com ela.
Vamos, desapareça!
Alfredo, penalizado, não teve outra alternativa.
Era um espírito por demais iluminado para invadir a intimidade de alguém e sabia como ninguém respeitar seus semelhantes.
Levantou-se, segurou a minha mão e disse:
— Venha, Daniela, não nos é direito impor nossa presença.
Adeus, Ana Célia, e que Deus possa iluminar a sua mente, abrindo sua consciência para que você, um dia, possa ver com os olhos do seu coração.
Partimos. Eu estava arrasada.
Não esperava por aquilo.
Alfredo, porém, mais conhecedor da alma humana e de seus processos de amadurecimento, tranquilizou-me:
— Não se preocupe Daniela.
Ana Célia um dia também conseguirá compreender tudo o que se passou com ela.
Por enquanto, porém, julga-se ainda vítima, e devemos respeitar o momento de cada um.
Vamos agradecer a Deus as lições do dia e pedir a ele que ampare Ana Célia, ajudando-a a entender que ninguém é vítima, senão de si mesmo.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 23, 2015 11:48 am

EPÍLOGO

Hoje, faz quase quarenta anos que me encontro no mundo espiritual.
Desencarnei aos vinte e quatro e passei outros vinte e quatro nas trevas.
Sei o quanto sofri no umbral, sei o quanto sofri na vida.
O que mais sofri, não sei dizer.
Sofri por Daniel e com Daniel.
Mas hoje posso compreender a necessidade de todo esse sofrimento.
Infelizmente, faço parte da imensa maioria que aprende a se transformar pela dor.
Mas tudo bem.
Valeu a pena, e como valeu!
Hoje sei o quanto tirei de proveito de tudo isso e posso dizer que sou outra pessoa, bem diferente da que era.
Estou muito mais amadurecida e confiante.
No entanto, é preciso continuar andando, e para a frente.
Quero passar mais algum tempo aqui, não estou ainda pronta para voltar.
Sei que o novo século oferece milhões de oportunidades, e vocês aí podem se considerar uns privilegiados por terem a oportunidade de participar de todas essas mudanças.
Mas eu, com tudo isso, não posso voltar.
Não quero. Devo ficar um pouco mais por aqui, me preparando para não cair novamente.
Ainda não me encontrei com Daniel e agora já começo a pensar nele de outra forma.
Sinto saudades, sim, mas não é mais aquela saudade desesperada, que parece sufocar com a ausência.
Não. É uma saudade mais madura, mais serena, mais esclarecida.
Quando penso em Daniel, penso nele como um ser muito amado e querido, com quem gostaria de poder partilhar todas as minhas aventuras e desventuras, pelo só facto de podermos trocar.
Não há nessa vontade nenhuma intenção escondida, nenhum artifício para estar perto dele.
Apenas o desejo de reencontrar alguém que me é muito caro.
Alfredo me diz que isso é normal e que eu estou a um passo de conseguir transformar esse sentimento em amor genuíno.
Contudo, tenho ainda receio de que, de volta à matéria, meu espírito apague essas lições e volte a se entregar àquela loucura.
Sei que isso é possível, porque o véu do esquecimento nos coloca no mundo cobertos por uma capa, e podemos fingir e mentir para nós mesmos o tempo todo.
Quando voltar, quero ser mãe de Daniel.
Embora tema enveredar novamente pela senda espinhosa do incesto, penso que o amor materno é o único capaz de transformar as pessoas.
Aprendi isso com minha mãe.
Pude observar o quanto ela nos ama, mesmo aqui, no plano espiritual, onde os laços de sangue se rompem.
Mas aprendi que a maternidade, a despeito do rompimento desses laços, constrói algo que é inabalável e indestrutível, que é o amor universal.
Quando a mãe recebe seu filho, sabe que o amará para sempre, não importa o que ele faça, não importa em quem se transforme.
O amor materno é incondicional e por isso é tão sublime.
Apesar do medo que sinto, estou me preparando para ser mãe de Daniel.
Há muitas vidas não experimento esse sentimento, que será algo novo para mim.
Na maternidade, poderei exercitar todo o meu amor e aprender com ele.
Aprender a ser mais humana, mais fiel, mais verdadeira.
Principalmente comigo mesma.
Bom, é isso aí.
Já dei o meu recado e estou muito grata por isso.
Agradeço a você, Leonel, a quem fui apresentada aqui na vida espiritual tão logo me prontifiquei a passar as minhas experiências.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 23, 2015 11:48 am

Você foi incansável, me orientando e auxiliando nessa nova e difícil tarefa que é a psicografia.
Sim, porque não é apenas o médium que sente dúvidas e medos.
Em muitos momentos, eu também fiquei insegura e tive medo de não ser bem compreendida e de acabar sendo julgada e rejeitada.
Mas o resultado foi excelente.
Tivemos óptimas oportunidades de aprendizado, Leonel, a médium e eu.
Espero que o meu relato sirva para auxiliar outros em situação semelhante à minha.
Espero que possam compreender que nem tudo está perdido, porque sempre existirá algo a que poderemos nos agarrar e que é indestrutível, que é a fé.
Agradeço à médium que me recebeu e que, a despeito de suas dificuldades e inseguranças, soube confiar e persistir.
Agradeço, enfim, a Deus, esse inigualável criador do universo, sem o qual eu nem sequer saberia que também sou parte dessa perfeita e maravilhosa força que é a vida.

Daniela

§.§.§- Ave sem Ninho
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

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