Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 3:06 pm

— Isso tudo é muito confuso...
Gostaria de saber o que o fez mudar assim, tão de repente.
— Eu não mudei de repente.
Os sentimentos é que mudaram, porque as circunstâncias hoje também são outras.
— Daniel, acho que você está tentando me enrolar.
Por acaso está se referindo a Ana Célia?
— Sim, estou.
— Eu sabia. Foi ela, não foi?
Foi ela quem o afastou de mim.
— Engana-se, Daniela.
Ana Célia foi apenas uma consequência de algo que havia muito eu desejava que era a vontade de levar uma vida normal, o desejo de amá-la só como minha irmã.
Não sei por quê, mas sinto como se houvesse alguma força maior do que nós nos impelindo à transformação desse amor naquilo que deveria ter sido desde o começo: um amor fraterno.
É como se Deus quisesse me alertar de que, se nascemos irmãos, impedidos de nos envolvermos sexualmente, algum motivo sério há de ter.
Suspirei desanimada.
De onde Daniel tirara aquelas ideias?
Pensei que Ana Célia devia ter feito algum tipo de lavagem cerebral nele, porque ele não dizia coisa com coisa.
Aquela conversa não estava levando a nada e só servia para me confundir.
Creio que nem mesmo Daniel compreendia muito bem o que dizia.
Carinhosamente segurando o seu queixo, indaguei:
— E agora, Daniel?
O que será de nós?
— Não sei, Daniela, mas não podemos continuar nos encontrando.
— Oh! não, por favor, tudo menos isso.
Você não sabe como sofro com a sua ausência.
— Eu sei. Mas Ana Célia não quer que nos vejamos.
— Ana Célia... que direito ela tem de interferir em nossas vidas?
— Vamos nos casar.
— Mas eu sou sua irmã!
— Mas para ela você é uma rival.
Ela nos julga pecadores, obscenos, sujos.
Não pode compreender ou aceitar.
— E só por isso vai deixar de me ver?
— Por enquanto, teremos que nos encontrar às escondidas.
Mas depois vou tentar dar um jeito de reaproximar vocês duas.
— Oh! Daniel, não poderei suportar ver vocês casados.
Você não pode se casar com Ana Célia.
Ela não merece você e jamais saberá lhe dar o devido valor.
E depois, pense em quantas vezes ela irá lhe atirar na cara o erro que cometemos.
Qualquer coisinha e ela logo o irá acusar de devasso, não terá confiança em você, vai viver a atormentá-lo com suas desconfianças.
É isso o que quer?
— Está enganada, Daniela.
Ana Célia me ama e já me perdoou.
— Oh! sim, já o perdoou, mas com a condição de que nunca mais me veja.
Será que isso é perdão?
— O que você esperava?
Ela ficou chocada, é natural que não queira me ver envolvido com você novamente.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 3:06 pm

— É, mas e eu?
O que sou para sua noivinha?
Ela não se dizia minha amiga?
Não queria me ajudar? E agora?
Soube perdoá-lo, mas eu também não mereço o seu perdão?
Não que isso seja importante para mim.
Só estou tentando fazer você ver que Ana Célia não é uma alma assim tão generosa, pois o seu perdão está limitado ao seu interesse, e o seu interesse é unicamente você.
— Ela me ama e não quer me dividir com nenhuma outra mulher.
— Ela não sabe o que é amar.
— E você, sabe?
— Talvez sim, talvez não.
Mas pelo menos não fico por aí crucificando ninguém.
— Será mesmo?
E o que está fazendo com Ana Célia?
Não a está julgando, só porque ela não quer mais vê-la?
— Chega Daniel!
Não quero mais falar de Ana Célia.
Mas se você não quer contar a ela que nós fizemos as pazes, tudo bem, eu não vou discutir.
Vou aceitar o que você quiser.
Faço qualquer coisa para ficar junto de você.
— Então não deixe que ela perceba que estamos nos encontrando.
Caso contrário, serei obrigado a deixá-la.
Saí dali com o coração pequenininho, sem saber se poderia suportar aquela situação. Havia-me transformado em um farrapo de gente, mendigando o amor de meu irmão como se implora um prato de comida.
Era humilhante a minha degradação como ser humano, mas eu não tinha forças para lutar contra aquilo.
Já não tinha mais como me humilhar ou me anular, mas não via saída.
Ou me sujeitava às imposições de Daniel, ou perdê-lo-ia para sempre.
Só Marcelo poderia me ajudar, mas eu, embora quisesse sair daquele limbo, tinha medo de que Marcelo conseguisse me convencer a deixar de amar Daniel.
E isso era tudo o que não queria.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 3:07 pm

CAPÍTULO ONZE

Mas as coisas acabaram não saindo conforme o planeado.
Ana Célia, desconfiada de que Daniel se encontrara comigo, ameaçou romper o noivado e nunca mais falar com ele.
Meu irmão, embora não lhe contasse a verdade, teve medo de perder a noiva, e quem acabou dançando fui eu.
Ele voltou a me evitar, fugia de mim na rua, não atendia meus telefonemas.
Eu estava ficando desesperada.
Um dia, fui à casa de Ana Célia.
A criada que me recebeu fez-me entrar, acomodando-me na sala de visitas, e foi chamá-la.
Ela chegou toda cheia de si, ciente de sua superioridade em relação a mim.
Quando a vi entrar, toda altiva e arrogante, tive vontade de esganá-la.
Ela estava muito diferente da Ana Célia que eu conhecera na faculdade.
Aquela menina era doce e meiga, ao passo que essa se transformara numa mulher fria e cruel, totalmente despida de piedade ou compaixão.
— O que quer aqui? — perguntou, sem nem me cumprimentar.
— Preciso falar com você.
— Acho que já lhe disse que não temos mais nada que conversar.
— Está enganada. Temos um assunto em comum.
— Não vejo do que poderia se tratar.
— Daniel.
— Daniel é assunto meu, não seu.
— Você não pode afastá-lo de mim.
— Eu não o afastei de você.
Foi ele quem escolheu ficar comigo.
— Porque você o forçou.
— Ora, Daniela, seja realista.
Se Daniel não me amasse, se não me preferisse a você, não ligaria a mínima para minhas exigências.
Eu exigi que ele parasse de ver você sim, mas ele concordou porque quis.
Se você fosse assim tão importante para ele, com certeza ele teria me dado um fora e corrido para os seus braços.
No entanto, é comigo que ele está apesar de todas as facilidades que você lhe oferece.
— Sua cachorra!
Não lhe ofereço facilidade alguma.
— Não mesmo?
E por que se deita com ele, então?
— Porque o amo.
— Mas que amor é esse, que não respeita as leis de Deus ou dos homens?
— Não tenho culpa de amar a pessoa errada.
— Daniel não é a pessoa errada.
É uma pessoa proibida para você.
E por favor, Daniela, não me obrigue a expor todos os motivos que me levam a sentir nojo de você e desse seu amor.
— Não precisa, não estou interessada em sua opinião.
— Por que então se deu ao trabalho de vir até aqui?
— Vim pedir-lhe para nos deixar em paz.
— Eu? Mas não fiz nada.
— Está se interpondo entre nós.
— Não me interpus entre ninguém.
Daniel está comigo porque quer, eu não o forcei.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 3:07 pm

E quer saber?
Foi você quem se interpôs em nosso caminho.
— Isso não é verdade.
Eu estava feliz com Daniel, até que você chegou e estragou tudo.
— Eu não estraguei nada.
E agora chega dessa conversa, está desperdiçando o meu tempo.
Saia daqui e nunca mais apareça.
Não quero contacto com gente de sua laia.
Aquilo foi demais para mim, e eu me descontrolei.
De forma impensada, estalei-lhe uma bofetada na cara, ela cambaleou e caiu no sofá.
Completamente aturdida e desfigurada, comecei a gritar:
— Sua cretina, vagabunda!
Pensa que me engana com esse seu jeitinho de virgem imaculada?
Aposto como já fez de tudo com Daniel, menos transar!
E ele me procura, não porque precise de sexo fácil.
Ele me procura porque só eu sou capaz de satisfazê-lo por completo, porque conheço cada milímetro de seu corpo e posso dar-lhe um prazer que você nunca conseguirá!
Ela estava apavorada e começou a gritar, chamando os empregados, e apareceu todo mundo.
A mãe saiu do quarto assustada, pensando que alguém havia atacado sua filhinha.
De repente, senti que mãos fortes me agarravam e me levavam para fora, empurrando-me para a rua.
Era um homem robusto, devia ser alguma espécie de segurança ou vigia.
Abriu o portão e me enxotou, como se eu fosse uma pestilenta.
Caída na rua, pude ainda ouvi-lo perguntar:
— Quer que chame a polícia?
Ana Célia olhou-me friamente e respondeu com azedume:
— Não é preciso.
Lugar de vadia é na sarjeta.
Bateu o portão na minha cara.
As pessoas que passavam na rua me olharam assustadas, e eu fiquei com muita vergonha.
Levantei-me meio trôpega e fui para um bar na esquina.
Sentei-me sozinha a uma mesa e comecei a beber.
Lá pelas tantas, já estava completamente bêbada, e logo um homem pediu para sentar comigo.
Concordei, e continuamos ali, enchendo a cara, até que ele me puxou e me beijou, e eu correspondi.
O homem, animado com a minha cumplicidade, começou a se aventurar e explorar o meu corpo, e eu dava gargalhadas, incentivando suas investidas.
Depois de certo tempo, ele me chamou para sair dali, e eu o conduzi ao meu apartamento.
Quando chegamos já passava da meia-noite, e subimos no elevador às gargalhadas.
Eu estava descalça, com as sandálias na mão, e, quando a porta se abriu, saímos tropeçando.
Meu apartamento ficava do outro lado do corredor, e qual não foi o meu espanto quando, ao chegar, deparei com Marcelo sentado na minha porta, meio adormecido.
O homem a meu lado indagou com voz pastosa:
— Ei, benzinho... quem é es...se... aí?
Marcelo, ouvindo a voz de meu acompanhante, despertou de sobressalto e logo se pôs de pé.
Eu estava completamente embriagada e comecei a rir, apontando para ele:
— Esse aí... — comecei a dizer — ... esse aí... bem... acho que é... que é... hum... vejamos... meu pai?
Não. Meu irmão?
Lógico que não... ninguém dorme com... o... irmão... não é mesmo?
Ele me olhou penalizado, eu comecei a chorar.
Havia tanta piedade naquele olhar, tanta compreensão, que eu me senti pequenininha diante dele.
Cambaleei, e Marcelo estendeu a mão para mim e me amparou, abraçando-me com força.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 3:08 pm

Em seguida, virou-se para o homem a meu lado e falou com voz incisiva:
— Muito bem, meu amigo, a festa acabou.
Pode ir embora agora.
— Mas... o que... é isso... meu camarada?
A moça... está comigo...
— Muito obrigado por acompanhá-la até em casa, mas agora pode ir.
— Não! Vim aqui para... me divertir... e é o que pretendo fazer... com ela...
— Ouça, amigo, você está alcoolizado e não quero brigar com você.
Por isso, saia daqui ou serei obrigado a chamar a polícia.
— Polícia?
O homem, com medo de que Marcelo chamasse mesmo a polícia, acabou por ir embora, muito contrariado.
Marcelo tirou a bolsa da minha mão e pegou a chave, abrindo a porta e levando-me para dentro.
Novamente cumpriu aquele ritual: despiu-me, deu-me banho, colocou minha camisola e fez um café bem quente e forte, que tomei forçada.
Mas eu não queria nada daquilo.
Queria ter sexo, e tentei puxá-lo para mim, como já havia feito tantas vezes.
Ele, porém, desenvencilhou-se de meu abraço e foi sentar-se na poltrona, do outro lado do quarto.
Embora o banho frio e o café quente me tivessem recuperado um pouco as forças, eu estava zonza e cansada, e recostei-me na cama, exausta.
Logo adormeci e só acordei na manhã seguinte, Marcelo dormindo na poltrona, todo torto.
Levantei-me e fui para a cozinha.
Estava com fome e preparei um café especial. Até bolo fiz.
Quando Marcelo despertou, encontrou-me tirando o bolo do forno, e eu o convidei para se sentar ao meu lado e saborear aquelas delícias.
— Fiz especialmente para você — disse.
Era a minha maneira de pedir desculpas pelo papelão que fizera na noite anterior.
Ele sentou-se e eu o servi de uma xícara de café com leite, coloquei manteiga e queijo no seu pão, servi-lhe um pedaço de bolo.
Ele ficou ali me olhando pensativo e começou a comer maquinalmente, até que eu disse:
— Marcelo, eu... quero que me perdoe.
Ele fez silêncio durante alguns segundos e só então respondeu:
— Não tenho nada a perdoar.
Você deve pedir perdão a si mesma por estar estragando a sua vida de forma tão lamentável.
Comecei a chorar e ele me abraçou.
— Oh! meu Deus, meu Deus! — supliquei.
O que posso fazer para acabar com isso?
— Por que não me ouve, Daniela?
Já não a convidei para ir comigo ao centro espírita?
Lá, eles podem ajudá-la.
— De novo com isso?
Sabe que não acredito nessas bobagens.
— Será que são mesmo bobagens?
Como explica essa sua obsessão por Daniel?
— Isso não tem nada a ver com espiritismo.
— Será que não?
Será que vocês já não se conheciam de outro tempo, de outro lugar?
— Não vai me dizer que acredita que tivemos outras vidas.
— É claro que acredito.
Chama-se reencarnação, e é através dela que compreendemos todos os nossos processos de evolução e sofrimento.
— Não sei se acredito nisso.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 3:08 pm

— Acredite, Daniela, porque é a verdade.
— Como pode saber?
Você se lembra de outras vidas?
— Não, não me lembro.
Mas muitas coisas por que passamos só podem ser explicadas através da multiplicidade de existências.
Você e Daniel, por exemplo.
Por que acha que o ama tanto?
— Não sei. Ironia do destino.
— O destino não é irónico, é perfeito.
— Grande perfeição.
— Imperfeitos somos nós, que pensamos que podemos moldar o destino segundo nossas conveniências.
Podemos alterá-lo de acordo com a nossa proposta de crescimento e evolução, mas não em prol da satisfação de nosso egoísmo.
— O que quer dizer com isso?
— Quero dizer que, antes de nascermos, nós nos propomos a cumprir determinada tarefa ou seguir determinado caminho, a fim de aprendermos com os erros do passado.
Isso significa que todo sofrimento, toda dor que sentimos, nada mais é do que um reflexo daquilo que nós mesmos escolhemos.
Mas esse sofrimento pode ser alterado no decorrer de nossa encarnação, desde que tenhamos compreensão suficiente para modificá-lo e acreditemos nisso.
Não podemos saltar experiências se elas são essenciais para o nosso amadurecimento espiritual.
Mas a dor, Daniela, não é necessária.
Somos nós que a atraímos com nossa ignorância, com nossas culpas, nossos medos, nossa desvalorização.
— Não compreendo nada do que diz.
E, por favor, pare com isso.
Está me deixando deprimida.
— Você se deprime porque tem medo de escutar a verdade.
Sua alma já conhece tudo o que estou dizendo, mas você, inconscientemente, se recusa a aceitar essa verdade, pois ela implicaria renúncia, e você não quer renunciar.
Aquelas palavras eram profundamente sábias, e eu sabia que deveria escutá-las, não com os ouvidos, mas com o coração.
Marcelo estava certo.
Se eu as aceitasse, estaria também admitindo que deveria renunciar ao amor de Daniel, e isso eu não podia fazer.
Além de ainda não estar pronta para acreditar na verdade, também não estava pronta para abrir mão de Daniel.
Eu precisava de tempo para aprender e aceitar, mas meu tempo estava se esgotando, porque eu mesma me encarregaria de encurtá-lo.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 3:08 pm

CAPÍTULO DOZE

Era dia da formatura de meu irmão, e eu estava louca para ir.
Ana Célia, porém, não queria minha presença e impediu meu irmão de me convidar.
Nesse dia, logo pela manhã, chorei muito, e Marcelo tentou me confortar da melhor forma possível, mas eu estava inconsolável.
Em determinado momento, pediu licença e saiu, e foi procurar Daniel.
Encontrou-o em seu apartamento, preparando-se para a cerimónia.
— Olá — cumprimentou Marcelo, quando ele abriu a porta.
Tudo bem?
Daniel olhou-o desconfiado.
Embora o tivesse convidado, não esperava que ele aparecesse por ali logo pela manhã.
Meio sem graça, Daniel respondeu:
— Oi, Marcelo, vou bem, e você?
— Tudo bem.
Então, animado para a formatura?
— Bastante.
Preciso sair mais cedo para ir buscar Ana Célia.
E a sua, quando será?
— Daqui a uma semana, mais ou menos.
Não vá faltar, hein?
Não, pode deixar.
Ana Célia e eu estaremos presentes, com certeza.
Marcelo ficou ali, à espera de que ele perguntasse por mim. Daniel, no fundo, estava louco para saber notícias minhas, mas tinha receio de perguntar e acabar se envolvendo.
Por fim, não podendo mais aguentar, indagou:
— E Daniela, como está?
— O que você acha?
— Não sei.
Por isso estou perguntando.
Sei que você é amigo dela e deve saber como vai.
— Sei sim. E se você também quer saber, posso lhe assegurar que ela vai muito mal.
— Mesmo? Por quê?
— Você sabe melhor do que eu.
Por que a está tratando desse jeito?
— Daniela anda se excedendo...
— Ela o ama.
— Eu sei. Também a amo.
Mas não posso deixar que minha irmã atrapalhe minha vida por causa de seus ciúmes infantis.
— Chama de ciúmes infantis a dor que lhe causou a separação abrupta, não do irmão, mas do amante?
Daniel levou um choque.
Achava que Marcelo desconhecia a verdade e abaixou a cabeça, envergonhado.
— Ela lhe contou? — indagou com voz sumida.
— Não precisou.
Eu mesmo percebi tudo.
— Você já estava desconfiado, não é?
— Estava. Como lhe disse certa vez, já havia notado algo de estranho em suas atitudes.
Daniel olhou-o assustado e considerou:
— Ouça, Marcelo, não quero que pense que somos dois depravados.
— Não penso nada.
Não tenho nada com isso.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 3:09 pm

— Nós nos amávamos, mas agora acabou.
Acabou para você.
Mas Daniela continua amando-o da mesma forma..
— E o que quer que eu faça?
Que termine tudo com Ana Célia e volte para ela?
— É claro que não. Isso seria prejudicial para ambos.
— Então vai concordar comigo que o melhor a fazer é me afastar.
— Mas não dessa maneira.
Assim, desse jeito, você só a está repelindo, mas não a está ajudando.
Daniel não escondia a preocupação e retrucou hesitante:
— Como posso ajudá-la?
— Não a exclua de sua vida.
Fale com ela, trate-a com carinho e com respeito, mostre-lhe que a ama, mas que não a deseja mais.
— Já tentei fazer isso, mas ela não compreende.
— Será que tentou mesmo?
Ou será que disse que não queria mais o seu amor e, mesmo assim, dormiu com ela?
— Foi um erro — concordou Daniel, cabisbaixo e envergonhado.
— Um erro que a deixou confusa e cheia de esperanças e ilusões.
Sua fala não condiz com suas atitudes.
Como quer que ela acredite em você?
Ele ergueu as mãos para o céu e tornou com voz súplice:
— O que devo fazer?
— Já lhe disse.
Trate-a com carinho e respeito, mas sem desejá-la.
Faça com que ela participe de sua vida, mas que não interfira.
Mostre, com carinho, que são irmãos e que devem se amar de forma abnegada e sem interesses escusos.
— Ela não entende as coisas dessa forma.
— Com o tempo entenderá e se tornará sua amiga e de Ana Célia.
— Ana Célia não quer a companhia dela.
Recusa-se a aceitá-la e perdoá-la.
— Desculpe-me a franqueza, Daniel, mas não creio que Daniela precise do perdão de Ana Célia.
Daniel encarou-o como a implorar a sua ajuda.
Ele estava sofrendo também.
Queria continuar a me ver, mas não queria mais me amar e tinha medo de Ana Célia.
— O que faço Marcelo?
Por favor, diga-me.
— Quer mesmo ajudá-la?
— Você sabe que sim.
— Bem, então, para começar, convide-a para sua formatura.
Ela está louca para ir.
— Não posso fazer isso.
Por mais que deseje, não posso.
— Então não quer mesmo ajudá-la.
— Ouça Marcelo, quero ajudá-la, mas desde que isso não prejudique meu noivado com Ana Célia. Não é justo.
Marcelo silenciou por uns instantes, até que considerou:
— Está bem, então.
Se não quer convidá-la pessoalmente, não o faça.
Eu entendo. Mas deixe-me levá-la como minha namorada.
— Hum... não sei se seria boa ideia.
— Por favor, Daniel, ao menos isso você lhe deve.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 3:09 pm

— Ana Célia pode não gostar...
— Ora, o que é isso? Não fui convidado? — Daniel assentiu.
Então não vejo problema algum.
Se eu quisesse levar outra moça, tenho certeza de que nenhum dos dois se oporia.
— Mas é diferente.
Outra moça não teria o envolvimento de Daniela.
— Ela é sua irmã!
Daniel ocultou o rosto entre as mãos e suspirou.
Queria muito que eu fosse, sentia minha falta.
Mas o medo de desagradar Ana Célia era maior do que a sua vontade, e ele acabou cedendo ao desejo dela e não concordou.
— Olhe, Marcelo, não posso mandar em você.
Se quiser mesmo levar Daniela, não tenho como impedi-lo.
No entanto, não conte com a minha colaboração.
Se a levar, será à minha revelia.
E ainda devo alertá-lo de que ela poderá passar por situações constrangedoras.
— De que tipo?
— Bem, não posso lhe assegurar que falarei com ela.
E Ana Célia, com certeza, ainda a tratará mal.
Marcelo encarou-o com profunda tristeza.
Jamais supusera existir tanta incompreensão no coração humano.
Após alguns instantes, finalizou:
— Está bem, Daniel, você venceu.
Não submeterei Daniela a constrangimentos desnecessários. Gosto muito dela e não quero que sofra mais.
— Se gosta tanto dela como diz, por que não se casa com ela e a faz mudar de vida?
— Pensa que não desejo isso?
Eu seria capaz de qualquer coisa para fazê-la feliz e estaria disposto a passar por cima de tudo isso só para ficar ao lado dela.
Mas Daniela não me quer, diz que não me ama.
E nem sei se poderia chamar de amor o que ela sente por você.
Na verdade, é mais do que isso.
É algo assim como uma obsessão, uma doença, uma fixação.
E eu, lamentavelmente, não tenho forças para fazê-la se desapegar desse sentimento tão daninho.
Minha última esperança era você.
Pensei que, com o seu amor e a sua compreensão, você fosse capaz de libertá-la dessa prisão.
Mas, infelizmente, vejo que o seu desejo de ajudar não é assim tão forte.
Daniel abaixou os olhos e respondeu, quase num sussurro:
— Sinto muito.
Marcelo saiu dali arrasado e voltou para o meu apartamento.
Eu estava aflita à sua espera.
Ele não me dissera aonde tinha ido, mas eu tinha quase certeza de que fora mesmo procurar meu irmão.
Logo que ele chegou, interpelei-o ansiosa:
— E então, Marcelo?
Foi falar com Daniel?
O que ele disse?
— Daniela — começou ele com cautela —, venha até aqui e sente-se perto de mim.
Precisamos ter uma conversa muito séria.
Comecei a chorar.
Podia perceber, pelo tom de sua voz, que seu encontro com Daniel não fora dos mais felizes.
Ele correu para mim e me abraçou, sussurrando em meu ouvido:
— Acalme-se, menina, tudo vai acabar bem.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 3:09 pm

Eu estou aqui e a amo, e vou ajudá-la. Confie, Daniela.
Confie em Deus, confie em mim, confie, sobretudo, em você.
— Oh! Marcelo, por que Daniel me trata desse jeito?
Não é possível que me despreze tanto!
— Ele não a despreza.
Apenas tem medo.
— Medo de quê?
— Não sei. Medo de si mesmo, eu creio.
— Ele tem medo é de Ana Célia.
Tem medo de que ela o deixe, não é mesmo?
Pois seria bem feito.
Ela não o ama como eu.
Ela nem sabe o que é amar um homem de verdade.
— Isso não importa Daniela.
O que importa é que você não deve mais pensar nisso.
Procure esquecer.
Daniel e Ana Célia, infelizmente, não sabem compreender.
— O que farei Marcelo?
— Nada. Vamos sair dar uma volta.
Você acaba desligando e se distraindo.
Que tal se fôssemos ao cinema?
— Não quero, não tenho vontade nem disposição.
E depois, você foi convidado para a formatura. Deve ir.
— Não quero ir sem você.
— Mas você deve.
Por favor, Marcelo, não misture as coisas.
Isso só serviria para me desgostar ainda mais.
— Obrigado, mas prefiro ficar aqui com você.
—Não, não. Você deve ir.
Quero que mostre a ele que não ficou magoado e que é muito superior a tudo isso.
— Mas não preciso mostrar nada a ele ou a quem quer que seja.
Só o que me interessa é o seu bem-estar.
— Por favor, Marcelo.
Se quer mesmo o meu bem, então vá.
— Mas...
— Não discuta.
É um favor que lhe peço.
Vá e depois conte-me como foi.
Eu estarei aqui, torcendo por meu irmão.
Embora a contragosto, Marcelo não teve outro remédio e acabou se dando por vencido.
— Está bem — disse por fim.
Seja feita a sua vontade.
Horas depois, Marcelo se aprontou e saiu, rumo à festa
de formatura de Daniel.
Em sua inocência, nem desconfiou de que eu estava planejando algo.
E estava mesmo.
Depois que ele saiu, arrumei-me toda e fui para a rua.
Eram quase seis horas, e os bares já estavam abertos.
Busquei um café no calçadão e sentei, pedindo logo uma cerveja.
Depois pedi outra, e mais outra, e mais outra.
Dali a umas duas horas, eu já estava praticamente bêbada.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 11:53 am

Paguei a conta e fui, cambaleando, tomar um táxi rumo ao clube onde estava se realizando a festa.
Quando cheguei, procurei Daniel com os olhos, mas não o vi.
Havia muitas pessoas, e eu não conhecia ninguém.
Entrei no salão e continuei a procurar, mas nada.
Fui dando voltas, passando por entre os pares que dançavam ao som dos Beatles, mas não o vi.
De repente, porém, senti uma dor aguda no braço e me voltei.
Era Ana Célia, que cravara suas unhas em minha carne.
— O que está fazendo aqui? — perguntou, cheia de ódio.
Daniel e eu não a convidamos.
Puxei o braço com fúria e exclamei:
— Solte-me, sua lambisgóia.
Não estou aqui por sua causa.
— Sei que não.
Mas se veio em busca de Daniel, está perdendo seu tempo.
Ele não quer falar com você.
— Por que não deixa que ele mesmo me diga isso?
Ou será que tem medo de perdê-lo para mim?
Sabe que sou muito mais mulher do que você, não é?
Duvido que você lhe dê o prazer que só eu sei lhe proporcionar.
— Está bêbada.
Você é uma bêbada vulgar e ordinária, e seu lugar é a sarjeta.
Ponha-se daqui para fora imediatamente ou serei obrigada a chamar a segurança.
— Faça isso, sua covarde, antes que eu lhe parta a cara.
Acertei-lhe em cheio um soco no queixo.
Bati com tanta força que até minha mão chegou a doer.
Ana Célia rodopiou e desabou no chão, o sangue jorrando da boca.
Começou a gritar, e logo todos acudiram.
— Chamem a polícia! — esbracejava.
Essa louca acabou de me agredir!
Foi um corre-corre danado.
Os seguranças chegaram e me seguraram, levando-me para a sala da directoria do clube.
Eu fui arrastada aos berros, enquanto esperneava e xingava todo mundo, proferindo os palavrões mais obscenos que conhecia.
Foi uma cena horrorosa.
Os seguranças me atiraram dentro da sala e trancaram a porta.
Fiquei ali gritando, até que a porta se abriu e Marcelo entrou.
Estava arrasado.
Ele me abraçou, tentando me conter, mas eu não parava de me agitar.
Até que, por fim, sentindo o amor que emanava de seu peito, meu espírito foi se acalmando, se acalmando, até que desabei num pranto sentido e prolongado, implorando-lhe que me tirasse dali.
A porta novamente se abriu, e meu irmão entrou.
Em minha cegueira, pensei que ele estivesse ali para me proteger e me atirei em seus braços.
Daniel, porém, afastou-me bruscamente e disse com dureza:
— Francamente, Daniela, desta vez você passou dos limites.
Onde já se viu agredir minha noiva?
—Ah! Daniel perdoe-me, mas ela me provocou.
E teve o que merecia.
Aquela intrometida, falsa, invejosa...
— Cale-se, Daniela, e escute-me.
Não quero mais ouvir suas sandices.
Você quase me arruína a vida.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 11:53 am

Por pouco os pais de Ana Célia não descobrem toda a verdade.
Agora preste atenção ao que vou lhe dizer, porque vou dizer uma vez só.
A muito custo consegui que não chamassem a polícia.
Um escândalo agora só serviria para piorar ainda mais a situação, pois acabaríamos tendo que contar sobre o que fizemos, e isso não seria bom para ninguém.
Por isso, vá embora daqui e não volte nunca mais.
Faça de conta que eu não existo que nunca existi.
Esqueça-me. De hoje em diante, não tenho mais irmã, e, se cruzar com você na rua, vou fingir que não a conheço.
A partir de hoje, você é uma completa estranha para mim.
Eu o olhei admirada.
Não podia acreditar que estivesse ouvindo aquelas palavras tão ásperas e insensíveis.
Desesperada, tentei ponderar:
— Daniel, você não pode estar falando sério.
Sou sua irmã, você não pode fingir que não existo.
— Pois de hoje em diante não existe mesmo.
Marcelo, por favor, tire-a daqui e leve-a para bem longe de minha vista, onde nunca mais seja obrigado a pôr meus olhos sobre ela.
Marcelo me segurou firmemente e saiu puxando-me para fora.
Tudo estava perdido.
Eu estava destroçada, humilhada, arrasada.
Queria protestar, mas não tinha mais ânimo.
Sentia-me a criatura mais miserável do mundo.
Sabia que havia descido ao fundo do poço e que agora começava a me enterrar na lama.
Não tinha mais para onde descer.
Minha queda fora degradante, e eu já não tinha nem mais dignidade.
Lembrei-me de Marcelo dizendo que, quando se perde a dignidade, perde-se o respeito por si mesmo, e então pude compreender suas palavras.
Eu não poderia mais conviver comigo, sabendo-me tão indigna.
Tinha vergonha de mim, de me fitar no espelho, de olhar para dentro de mim mesma.
Quando saímos, não havia ninguém no corredor, e logo alcançamos a rua.
Chegamos ao estacionamento e entramos no carro de Marcelo.
No caminho, eu ia calada, na cabeça uma infinidade de questionamentos e dúvidas.
Quando chegamos, Marcelo me pegou pela mão e me levou para o quarto, cuidando de mim com o mesmo carinho de sempre.
Eu continuava calada, e ele também parecia não ter nada para dizer.
Deitou-me na minha cama, acariciou meus cabelos, apagou a luz e disse baixinho:
— Durma Daniela.
O sono lhe fará bem, e amanhã tudo isso já terá passado.
Olhei para ele e sorri.
Em meu íntimo, já sabia o que fazer.
Tomara minha decisão, e nada no mundo me faria voltar atrás.
Daniel seria meu, custasse o que custasse, fosse onde fosse.
Eu jamais admitiria perdê-lo para outra mulher e estava disposta a abrir mão de tudo nessa vida para tê-lo, ainda que só o tivesse após a morte.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 11:53 am

CAPÍTULO TREZE

O dia seguinte era domingo e Marcelo passara a noite em minha casa, como de costume.
Estava deitado ao meu lado, ressonando, e eu me levantei em silêncio, pisando na ponta dos pés para não despertá-lo.
Fui para o banheiro e liguei o chuveiro.
Um banho frio era tudo de que precisava.
Poucos minutos depois, ele apareceu e me sorriu.
— Bom dia — cumprimentou.
Dormiu bem? Sente--se melhor?
Olhei para ele com ar um tanto ou quanto alheado e respondi, tentando aparentar naturalidade:
— Sim. O sono me fez bem.
— Óptimo. Que tal darmos um passeio?
O dia está maravilhoso.
Podemos ir à praia.
— Não sei.
— Ora, vamos, Daniela.
Você precisa sair e se distrair um pouco.
Vai lhe fazer bem, você verá.
— Sei o que está tentando fazer por mim, Marcelo, e agradeço.
Mas não precisa tentar me animar ou me consolar.
Sou adulta e posso muito bem encarar os meus problemas.
— Sei disso. Você é uma mulher forte e corajosa, o que não significa que não precise de amigos.
Eu sorri, saí do chuveiro e o abracei apertado, murmurando em seu ouvido:
— Obrigada. Sei que você é meu amigo.
Talvez o único que já tive.
Ele ficou meio sem jeito e me devolveu o abraço com outro, ainda mais apertado.
Era um abraço carinhoso, amigo, desinteressado e, acima de tudo, carregado de amor.
Por fim, respondeu encabulado:
— Sabe que a amo muito, não é?
— Sei sim.
E serei eternamente grata por esse amor.
Por isso, vou lhe fazer um pedido especial.
— O que é?
— Gostaria de ficar sozinha hoje.
— Sozinha? Mas por quê?
Não sei se lhe fará bem.
— Preciso pensar.
Reflectir sobre o que me aconteceu ontem.
Por pouco não cometo uma loucura que poderia arruinar toda a minha vida.
E não quero mais isso para mim.
Não quero mais sofrer pelo amor de quem só me despreza.
Ontem pude perceber que Daniel não me ama mais.
Talvez nunca tenha me amado.
Mas isso não importa agora.
Não quero mais ser humilhada desse jeito.
Só o que quero é passar uma borracha nisso tudo e esquecer.
Preciso refazer a minha vida.
— Óptimas falas, Daniela.
Fico feliz que você tenha, finalmente, conseguido enxergar isso.
Você é jovem, bonita, inteligente. Merece ser feliz.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 11:54 am

E, no que depender de mim, estarei sempre ao seu lado.
A menos que você não me queira.
— É claro que o quero, bobinho.
Mas hoje não.
Hoje preciso estar só e espantar os meus fantasmas.
Por favor, Marcelo, compreenda.
Deixe-me sozinha um pouco.
Amanhã já estarei totalmente refeita e prometo partilhar com você os novos planos que pretendo traçar para a minha vida.
Ele me encarou com alegria.
Estava esperançoso e confiante, certo de que eu, finalmente, abrira os olhos e compreendera a loucura que era aquele amor impossível.
— Está bem — disse convencido.
Se é por uma boa causa, concordo em ir para casa e deixá-la.
Mas amanhã, bem cedo, passarei por aqui para vê-la.
E mês que vem estarei de férias, poderemos viajar. O que acha?
— Acho uma excelente ideia.
Marcelo saiu logo após o café.
Já passava das dez horas.
Eu me vesti e saí.
O dia estava maravilhoso, quente e ensolarado.
Tomei um táxi e dei o endereço do apartamento de Daniel.
Enquanto ia sentada, pensava em minha vida, no que me tornara por amor a meu irmão.
Chegara à degradação total, descera tão baixo que já não havia mais para onde ir.
Eu já não era mais uma pessoa.
Era apenas um espectro de alguém que, um dia, pensara ser uma mulher.
De repente, senti ódio e apertei a bolsa, sentindo a pressão que o cano do velho revólver de meu pai me imprimia na mão.
Quando saíramos de nossa cidade, Daniel insistira para que trouxéssemos a arma.
Dissera que o Rio de Janeiro era perigoso e seria bom termos com que nos defender.
Depois, quando partira, não levara o revólver, que ficara esquecido no fundo do armário, sem nenhuma serventia.
O Rio de Janeiro então nem era assim tão violento, e nenhum de nós tinha afinidade com armas de fogo, de forma que ela não nos teve, assim, grande utilidade. Até aquele dia.
O táxi parou em frente à portaria do prédio em que Daniel vivia, e eu desci, o coração aos pulos.
Passei pelo saguão e subi.
Ninguém me vira, e eu ia resoluta.
Ao chegar à porta do apartamento de meu irmão, experimentei a maçaneta.
Estava trancada, e eu me dirigi para a porta de serviço, torcendo para que estivesse aberta.
Com efeito, virei a maçaneta e a porta abriu vagarosamente.
Em silêncio, entrei pela cozinha e fui em direcção à sala.
Nada. Não havia um ruído sequer.
Entrei na sala em silêncio e os vi.
Eu não esperava encontrar Ana Célia ali.
Pensei que Daniel estivesse sozinho, mas aquilo não faria nenhuma diferença.
Seria até bom que ela presenciasse o que estava para acontecer.
Ela teria algo de que se lembrar pelo resto de sua vida, e a imagem de Daniel acabaria se transformando numa massa disforme de carne e sangue.
Eles estavam sentados no sofá, bem juntinhos, se beijando, e não notaram a minha chegada.
Mais que depressa, tirei o revólver da bolsa e apontei.
Ana Célia, talvez percebendo minha presença, abriu os olhos e me viu, afastando Daniel com um grito assustado.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 11:54 am

Meu irmão voltou para mim os grandes olhos castanhos e estacou.
Ia dizer alguma coisa, mas eu o impedi.
Em lágrimas, disse quase num lamento:
— Sinto muito, Daniel.
Se não posso tê-lo, ninguém mais o terá.
Você é meu, se não nessa vida, na outra, para onde levaremos o nosso amor. Só nós dois.
Atirei, acertando-o em cheio no coração.
Ana Célia soltou um grito de terror e se encolheu toda, o rosto sujo com o sangue de meu irmão, certa de que eu a mataria também.
Mas eu, ignorando-a totalmente, voltei o cano do revólver para o meu peito e disparei novamente, tombando morta no instante mesmo em que a bala atravessou meu coração.
Pronto. Estava feito.
Eu chegara ao extremo do desespero e adoptara aquela medida drástica como forma de estar a sós com Daniel.
Apesar de não dar importância ao que Marcelo dizia sobre espiritismo, acreditava na sobrevivência da alma e esperava encontrar meu irmão na outra vida.
Para mim, a morte seria apenas uma passagem para uma vida de prazeres ao lado de meu irmão, onde eu pudesse amá-lo e tê-lo só para mim.
Por isso poupara Ana Célia.
Matá-la também seria o mesmo que premiar Daniel com a companhia da noiva em outra vida, e eu o acabaria perdendo de novo.
Não. O que eu pretendia era separá-los para sempre, e eu sabia que os vivos não se relacionavam com os mortos.
Não de forma carnal.
Daniel e Ana Célia nunca mais se tocariam, ao passo que eu, livre da matéria, poderia amá-lo à minha maneira.
Eu imaginava que Daniel fosse ficar com raiva de mim.
Mas só um pouquinho.
Depois que a surpresa do primeiro impacto passasse, eu o faria ver que, realmente, fôramos feitos um para o outro, tanto que nos encontráramos até no mundo dos mortos.
Ali, naquele mundo, ele estaria livre da influência daninha de Ana Célia, de seus feitiços, de seu ciúme.
E nós voltaríamos a viver como antes, um para o outro, e teríamos toda a eternidade a nosso dispor.
Infelizmente, porém, eu estava bem longe de conhecer a verdade sobre o mundo dos espíritos e, menos ainda, sobre minha própria consciência.
E ainda hoje guardo na memória aquele dia, que foi o começo do que, realmente, se poderia chamar de sofrimento: 16 de dezembro de 1973.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 11:54 am

PARTE DOIS - MUNDO INCORPÓREO

CAPÍTULO UM


Abri os olhos lentamente, sentindo uma dor aguda no coração.
Por uns instantes, havia me esquecido do que fizera e pensei que estava em minha cama e acordara no meio da noite.
Aos poucos, porém, fui me recordando do acontecido e forcei a vista, tentando identificar o lugar em que me encontrava.
Mas não vi nada nem ninguém.
Só uma total escuridão.
Um vazio que parecia se estender por quilómetros.
Para onde quer que olhasse, não via nada, só o negrume.
E o frio. Aquele lugar era gelado, e comecei a tiritar.
Vagarosamente, experimentei o chão e me levantei.
Parecia sólido, e pude me suster.
Olhei para um lado, para o outro, e nada.
Tentei ver na escuridão, procurando por Daniel, mas ele também não estava ali.
Eu não compreendia o que estava acontecendo.
Tinha certeza de que não estava sonhando.
Lembrava-me bem de que havia atirado em meu irmão e em mim logo em seguida.
Podia ainda lembrar a cara de espanto de Ana Célia.
Só se não tivesse morrido.
Mas não. Eu morrera, tinha certeza.
Não sabia como, mas estava certa de que tinha morrido.
E Daniel também.
Mas onde ele estava?
Juntei as mãos em concha ao redor da boca e gritei:
— Daniel!
Estranhamente, porém, o som não se propagou.
Era como se só a minha boca se movesse, mas nenhum som saísse.
Tentei novamente:
— Daniel! Daniel!
Nada. Só silêncio e escuridão.
Fiquei ali a chamá-lo por um longo tempo, sem obter resposta.
Tanto chamei e tanto gritei, que o esforço deve ter soltado algo em meu peito, e eu, subitamente, senti nova dor no coração e me curvei sobre o meu corpo, apalpando o peito, desesperada.
Levei um susto quando senti o sangue em minhas mãos e pude perceber que havia um rombo bem na altura de meu coração.
Embora soubesse estar morta, o instinto fez com que apertasse as mãos sobre a ferida, tentando estancar o sangramento. Inútil, porém.
O sangue brotava aos borbotões por entre os meus dedos, escorrendo pelo meu corpo.
Só então me dei conta de que estava nua, completamente nua.
Então era por isso que sentia tanto frio!
De repente, fui acometida por imenso pudor.
E se alguém estivesse me observando?
Não queria que vissem a minha nudez.
Ainda mais com aquela ferida horrorosa no meu peito.
Mas aquilo era bobagem.
Não havia mesmo ninguém ali...
Eu estava de pé, sentindo o sangue escorrer, e não sabia o que fazer.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 11:54 am

Talvez fosse melhor esperar que alguém viesse.
Mas quem? Daniel deveria estar à minha procura, ou então, quem sabe, talvez estivesse ferido em algum lugar, impedido de se locomover.
Aquela ideia me encheu de pânico e senti que precisava agir.
Não podia deixar que Daniel ficasse à mercê daquelas trevas.
Ele só podia estar por ali.
Afinal, eu me matara e a ele no mesmo dia, e acreditava que só poderíamos estar em algum lugar feito o inferno.
Como nenhum de nós era santinho, tinha certeza de que não estávamos no paraíso.
Só não entendia por que ainda não nos havíamos encontrado.
Pensei que o inferno deveria ser grande, e talvez Daniel tivesse ido parar em outro sector ou quadrante.
Era só questão de tempo até encontrá-lo.
Decidida, pus-me a caminhar.
A princípio, ainda hesitei, sem saber para que lado ir.
Mas depois, vendo que a escuridão era a mesma em qualquer direcção, girei o corpo ao acaso e fui em frente.
À medida que avançava naquelas trevas, menos conseguia enxergar.
Por mais que me esforçasse, a vista não se acostumava, e só o que via era o vazio.
Estiquei o braço, na expectativa de tocar em algo, uma parede que fosse, mas nada.
Caminhei, caminhei, até que comecei a me cansar.
Eu não sabia quanto tempo estivera andando, mas supus que fora muito, devido ao meu cansaço.
Parei e me sentei no chão, apalpando-o.
Percebi que era feito de pedra, uma pedra tão lisa que não possuía sequer uma ondulação.
Coisa mais estranha. Tudo ali era igual.
A escuridão, o frio, o solo.
Nada parecia mudar.
E eu, por mais que me movimentasse, não conseguia espantar o frio.
Era como se o corpo não se aquecesse.
Não havia nem vento.
Era uma temperatura baixa mesmo, invariável, como de um frigorífico.
Aquela mesmice foi me dando nos nervos.
O que estaria acontecendo?
E por que não havia mais ninguém ali?
Não era possível que só eu fosse mazinha e aquela parte do inferno fosse minha exclusividade.
Eu não acreditava em diabo, mas imaginava que deveria haver algum lugar habitado por ali, com gente bem ruim, os capetas da vida.
Só o que tinha a fazer era encontrar esse lugar.
Depois que descansei, levantei e continuei a caminhada, até que senti fome.
Mas não havia nada para comer, e eu tive que acostumar o estômago à fome e, logo, logo, também à sede.
Dali a mais algum tempo, tive sono.
Deitei-me e dormi.
Talvez, quando acordasse, alguma coisa tivesse mudado naquele inferno.
Ao despertar, porém, nada havia mudado.
O frio, a fome e a sede continuavam, e a escuridão ainda era a mesma.
Tudo permanecia igual, e comecei a ficar irrequieta.
Eu continuava só, e aquela solidão estava me enlouquecendo.
Não podia ficar ali, à espera de que algo acontecesse, e resolvi me levantar e retomar a caminhada, sabe-se lá para onde.
Logo que fiquei de pé, apurei os ouvidos, mas só o silêncio se fez ouvir.
Eu estava louca de vontade de ver Daniel e comecei a chamá-lo novamente, dessa vez com mais insistência.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 11:55 am

Chamei durante vários minutos, mas ninguém respondeu.
Daniel parecia haver desaparecido.
Subitamente, uma ideia atroz me atravessou o pensamento.
E se Daniel não tivesse morrido?
E se o tiro que lhe desfechara não tivesse sido fatal, e ele estivesse agora nos braços de Ana Célia, livre de mim?
Esse pensamento quase me enlouqueceu.
Se isso tivesse acontecido, podia-se dizer que o feitiço virará contra o feiticeiro, e o que desejara para mim, acabara por conceder a minha maior rival.
Fiquei tão desesperada com essa ideia que me pus a correr, até que a dor em meu peito me fez parar, quase sufocando.
Eu nem entendia como podia ter a sensação de estar sufocando se a morte levara consigo o alento.
No entanto, eu sentia como se respirasse, e o esforço da corrida me tirou o fôlego, não pelo cansaço, mas pela ferida aberta em meu peito, que sangrava sem parar.
Aquilo eu também não entendia.
Pensava que, depois da morte, não sentiria mais dor, não teria mais sangue, frio, fome ou sede.
Contudo, exactamente o oposto acontecia, e eu tinha em espírito todas as sensações que tivera na carne, inclusive o desejo de sexo.
Às vezes, quando pensava muito em Daniel, sentia um enorme desejo de possuir o seu corpo e então eu me masturbava, sempre pensando nele.
Nessas ocasiões, eu sentia como uma presença perto de mim, chegava mesmo a sentir o calor do seu hálito.
Essa coisa parecia flutuar sobre o meu corpo, alguns centímetros acima de mim, e quase me tocava em minhas partes mais íntimas.
Parecia que a vibração do orgasmo que eu alcançava em meu amor solitário alimentava aquela coisa, e era como se ela sorvesse todo o fluido que emanava de mim.
Em seguida, ia embora sem nem me tocar e muito menos dizer uma palavra.
Nas primeiras vezes em que isso aconteceu, senti um medo imensurável.
Mas depois, vendo que a presença não me tocava, comecei a me acostumar e até a gostar dela.
Ao menos era uma companhia. Invisível, é certo, mas uma companhia.
Tentei conversar, perguntar quem era, porque eu pensava que poderia ser um espírito que ali estava e que talvez fosse tão sofredor quanto eu.
Estava certa de que não era Daniel, mas, fosse quem fosse, era melhor do que aquela solidão insuportável.
A presença, porém, não respondia e permanecia apenas o tempo suficiente para se alimentar de meus fluidos.
Depois de certo tempo, passei a achar que ela só estava interessada na energia de sexo que eu, de forma tão desprendida, dividia com ela.
Mas não parecia interessada na minha pessoa e, por isso, não prestava a menor atenção ao que dizia, e era como se eu não existisse, apenas o meu sexo.
O tempo foi passando, e nada ali se alterava.
Até que, um dia, comecei a sentir certa comichão no corpo e, quando olhei para mim mesma, percebi algo estranho se movendo em minha pele.
Passei a mão pela coceira e fiquei horrorizada.
Não sei como nem por quê, mas em meio a tanta escuridão, eu conseguia ver a mim mesma e pude me certificar de que a comichão eram bichinhos que saíam de meu corpo, como minhocas irrompendo da terra.
Aquilo me aterrorizou, e eu comecei a gritar, esfregando o corpo numa tentativa inútil de tirar aqueles animais de dentro de mim.
Seriam sanguessugas?
Eu não sabia, mas comecei a sentir uma dor imensa, como se algo me estivesse devorando as entranhas.
Aquilo era pior do que a morte.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 11:55 am

Chorei muito, de dor, de medo, de abandono.
Eu chamava Daniel a todo instante, implorando que ele aparecesse e viesse me salvar.
Não sei dizer por quanto tempo permaneci naquele estado, sendo devorada viva.
Só o que posso afirmar é que me pareceu uma eternidade.
Durante aquele processo, desejei morrer, mas sabia que isso era impossível, porque já estava morta, e a morte não era o fim dos sofrimentos.
Ao contrário, com a morte eu conhecera a verdadeira dor e comecei a me revoltar.
Onde estava Daniel, que não me respondia?
Será que tinha conhecimento de meu estado e resolvera me abandonar?
Será que vivia e estava feliz com minha morte, desfrutando de sua liberdade com Ana Célia?
Desesperada ante essa possibilidade, eu chorava sem parar e o chamava com insistência, doida de vontade de encontrá-lo.
O mais estranho era que eu, mesmo com todo aquele sofrimento, nem sequer me lembrava de que Deus existia.
Eu nem mesmo o culpava pela minha dor, o que já seria um começo.
Ao menos eu estaria admitindo a sua existência.
Mas não.
Eu realmente não me lembrava de que existia alguém no mundo além de Daniel, e que esse alguém era a imagem da perfeição e da bondade, e que bastava apenas um gesto meu, um simples e sincero gesto meu, para que Ele viesse em meu socorro.
Eu não estava interessada em Deus.
Só me interessava por Daniel, mas Daniel era o único que não poderia atender aos meus apelos.
Os anos foram avançando sem que me desse conta disso.
Eu havia me transformado num molambo, com aquela ferida em meu peito que não parava de sangrar.
Além da presença que eu sentia quando me masturbava, ninguém nunca me visitou durante os anos em que permaneci naquele estado.
Nem os espíritos mais atrasados, que costumam povoar o umbral, pareciam interessados em mim.
Apenas as trevas e o frio eram os companheiros da minha solidão.
Até que comecei, realmente, a me cansar de tudo aquilo.
Afinal, para que tanto sofrimento?
Por que insistir em chamar Daniel, se estava claro que ele não podia ou não queria me atender?
Eu olhava para o meu corpo e sentia pena de mim mesma.
Meu corpo era, todo ele, uma imensa ferida, sujo, malcheiroso, coberto de crostas de sangue.
Era repugnante! Por que me suicidara?
Não sabia que era errado?
Não aprendera na Igreja que era contra as leis de Deus?
Em que me transformara?
E por quê? Teria valido a pena?
Diante de tudo o que me acontecera, comecei a pensar numa maneira de sair dali.
Eu entrara ali por algum lugar, então deveria haver alguma porta de saída.
Bastava encontrá-la.
Mas já havia caminhado tanto e nunca avistara porta alguma.
Pensei haver atingido o auge do desespero e da angústia.
O que fazer?
De repente, a imagem de Marcelo surgiu em minha mente, e eu quase o ouvi rezando por mim, e uma luz acendeu em meu coração.
Desesperada, atirei-me ao chão e desabafei, implorando em meio ao pranto:
— Oh! meu Deus, eu imploro o seu perdão!
Sei que errei, mas estou arrependida e não suporto mais tamanho sofrimento.
Por favor, ajude-me, ajude-me!
Disse isso com tanta sinceridade e sentimento que logo senti uma sensação estranha, como se algum sopro de vida me enchesse de ânimo, aquecendo meu corpo e espalhando um pouco de luz naquela escuridão.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 18, 2015 11:55 am

Eu, até então, nunca pudera enxergar nada.
Nem paredes, nem portas, nem grades.
Nada. Só a escuridão e o vazio.
Apenas o chão parecia existir.
Eu sabia que pisava em algo, e era sólido, frio e liso feito uma lápide.
Uma lápide! Estaria eu em alguma espécie de tumba?
Fixando bem o olhar, comecei a divisar uma silhueta ao meu redor, como se houvesse ali algum tipo de parede.
Movi os braços para o lado, e eles bateram em algo sólido e frio.
De repente, senti cheiro de terra molhada e estiquei a mão.
Havia, por entre aquelas estranhas paredes, alguns buracos, onde o teto parecia ceder, e eu toquei em algo molhado.
Esfreguei os dedos e me certifiquei: era terra.
Mas como? Eu parecia estar confinada, mas como podia ser?
Fechei os olhos e tornei a pensar em Deus, implorando o seu auxílio.
Quando os abri novamente, eu me certifiquei: estava deitada em meu túmulo.
Estivera ali todo o tempo e nem me dera conta disso.
Confusa, tornei a fechar os olhos, desesperada, e suspirei.
E foi então que, realmente, adormeci...
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Ave sem Ninho

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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 4:48 pm

CAPÍTULO DOIS

Quando despertei, pensei que estivesse no céu.
Tudo era tão branco que eu me extasiei.
Era um contraste incrível com as trevas em que estivera.
Tudo ali era alvo: as paredes, a cama, os lençóis.
Até a luz que penetrava pela janela era extremamente clara e brilhante.
Parecia que o sol, ali, redobrava de intensidade e deitava raios de luz branca sobre todas as coisas.
Não havia ninguém naquele quarto, que me pareceu de hospital.
Achei engraçado estar morta num hospital, mas aceitei o facto com certa naturalidade.
Depois de tudo por que passara, aquele hospital era mesmo um paraíso.
Eu estava me sentindo tão bem ali que nem me importei de continuar só.
O ar parecia mais puro, livre de poluição.
Mas não era só isso.
Era como se eu respirasse um pouco do sopro de Deus, porque aquele ar, além de puro, era extremamente benfazejo, e eu me senti tranquila e refeita de minhas dores só pelo fato de o estar inspirando.
Ao pensar nas dores, de repente senti uma pontada no coração e pude perceber que havia sobre ele uma espécie de gaze, finíssima, que ao mesmo tempo aliviava e curava.
Embora ainda doesse, era uma dor mais confortável, daquelas que a gente sente em machucados que nossa mãe trata com carinho.
A dor está ali, mas só de a sabermos cuidada, aquilo nos enche de conforto e certeza de que ela logo irá sarar e de que nem é assim tão horrível.
Foi quando a porta do quarto se abriu e um senhor negro apareceu.
Usava óculos e vinha todo vestido de branco.
Julguei que fosse o médico dali e já ia enchê-lo de perguntas quando ele se adiantou e perguntou na minha frente:
— Então, Daniela, sente-se melhor?
Assenti sem responder.
De repente, perdera a vontade de falar.
É que a voz daquele homem era tão doce, tão carinhosa e me deu uma sensação de acolhimento tão boa, que não quis perder aquele momento.
Não respondi e fiquei ali a olhá-lo.
Ele, porém, vendo a ansiedade em meus olhos, continuou:
— Imagino que deva ter muitas perguntas a fazer.
No momento, porém, é melhor que repouse.
Você fez uma longa e exaustiva viagem e não convém que gaste suas forças falando.
Em breve você poderá perguntar tudo o que quiser e terá as respostas de que necessita para compreender o que se passou com você.
Ele se aproximou do meu leito e acariciou meus cabelos.
Comecei a chorar e segurei a sua mão, tão perfumada, e pus--me a beijá-la, molhando-a com minhas lágrimas de gratidão, de reconhecimento.
Eu estivera tanto tempo ausente que nem me dera conta do quanto sentia falta das pessoas.
Embora aquele homem fosse um desconhecido, um estranho para mim, era como se eu o amasse, e senti enorme prazer em sua companhia.
Depois de alguns minutos, em que ele deixou-se ficar preso a mim, eu o soltei e balbuciei a voz carregada de emoção, uma emoção nunca antes experimentada:
— Obrigada.
Ele se abaixou gentilmente e beijou-me na testa, saindo logo em seguida.
Da porta, virou-se para mim e acrescentou:
— Repouse.
Em breve voltarei para vê-la.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 4:48 pm

Depois que ele saiu, virei-me para o lado e comecei a chorar.
Estava grata àquele homem que eu nem conhecia.
Grata pela sua bondade, pela sua compreensão, pelo amor que demonstrara em seus gestos afectuosos para com uma estranha que ele talvez nunca tivesse visto.
Fechei os olhos e pensei em minha mãe.
Onde estaria? Será que estaria por perto?
Senti uma enorme vontade de encontrá-la, de falar com ela e pedir-lhe perdão.
Lembrei-me de meu pai e senti imensa angústia.
Eu nunca amara meu pai, porque não o compreendia, e ele também não pudera nos compreender.
Fora, depois da morte de mamãe, um verdadeiro estorvo em nossas vidas, ora nos acusando, ora nos ignorando completamente.
Além disso, culpava-me pela morte de minha mãe, como se eu a tivesse empurrado escada abaixo para que morresse e não atrapalhasse meu romance com Daniel.
Mas não era verdade.
Eu amava minha mãe e sofrerá muito com sua morte, roendo-me de culpa pela sua queda, como se eu a houvesse mesmo empurrado, não com ã mão do corpo, mas como se minhas atitudes a houvessem impelido para a morte.
Fora difícil conviver com aquilo durante todos aqueles anos, mas o amor que sentia por Daniel era mais forte do que qualquer outra coisa, e o problema com minha mãe acabou por ficar em segundo plano.
Daniel! Onde estaria meu irmão?
Eu estava louca para encontrá-lo também, mas tinha medo desse encontro.
Ele devia me odiar.
Afinal, eu o arrancara da vida como se extrai uma erva daninha, e Daniel tinha ainda muito que viver ao lado de Ana Célia.
Com certeza, não queria me ver, pois não se interessara por mim durante todo aquele tempo em que eu permanecera presa ao túmulo.
Tentei não pensar mais nele e adormeci novamente.
Mais tarde, quando acordei, o mesmo senhor de pele escura estava parado ao meu lado, sorrindo para mim.
Sorri de volta, e ele indagou:
— E então? Como está?
Mais refeita?
— Sim — respondi mais animada.
Sinto-me muito bem aqui e sou-lhe muito grata por tudo.
— Não precisa agradecer.
Para nós, aqui, o maior prazer é ajudar e ver que nossa ajuda está sendo bem aproveitada.
Fique sossegada.
Você é uma boa menina e logo, logo, vai sarar disso tudo.
— Sarar? Estou doente?
Ele apontou para o meu coração e respondeu:
— Sim, está.
— Oh! é verdade.
O tiro que dei em meu coração... parece que nunca mais vai ficar bom...
— Não, minha querida, não me refiro a isso.
— Não? Então a quê?
Não é meu coração que está ferido?
— Sim, mas a ferida que você desfechou em seu corpo físico, e que acabou por imprimir em seu perispirito, não é nada se comparada à imensa ferida que abriu em sua alma e que só o tempo, a compreensão e a vontade de mudar conseguirão fechar.
— Não estou entendendo.
O senhor fala de coisas que não conheço.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 4:48 pm

Atirei em meu corpo físico, sim, e sei que meu espírito traz as marcas de meu crime, embora não entenda por quê.
Mas esse tal de peri... peri...
— Perispírito.
— Isso, perispirito.
Esse aí não conheço, não.
— Perispírito é o invólucro semi-material que reveste o espírito e que o acompanha mesmo após a morte do corpo físico.
— Como assim?
— Numa linguagem mais clara, é aquilo que você vê e percebe.
O espírito, enquanto criação divina, não é dotado de forma.
Como, porém, no estágio em que nos encontramos, precisamos ainda de uma aparência para que possamos nos identificar, usamos o perispirito para moldar essa aparência.
É por intermédio dele que reconhecemos os espíritos que convivem connosco.
— É como brincar de massinha?
Ele riu e concordou:
— Mais ou menos isso.
— Que engraçado.
E esse perispirito sofre as consequências de nossos actos?
— Podemos dizer que, em certos casos, o perispirito é o espelho da carne.
Muitas vezes, quando maltratamos o corpo físico em demasia, esses maus-tratos acabam por ferir também o perispirito, que sofre por aquilo que o corpo físico não sente mais, porque não existe mais.
O corpo, a matéria, se desmancha e volta ao universo, ao passo que o perispirito leva consigo as marcas e impressões que infligimos ao corpo.
— Muito interessante, porém, confuso.
— Mais ou menos.
Mas deixemos isso para depois.
Você está ainda muito debilitada para se envolver em questões complexas.
Mais tarde, quando estiver totalmente refeita, e se desejar, poderei levá-la a uma aula sobre perispirito.
Eu não disse mais nada.
No fundo, aquela conversa me interessava porque era uma forma de não pensar em meus erros e na minha miséria, e eu podia fingir que não estava sofrendo.
Queria parecer forte e corajosa para aquele homem, e procurava agir como se tivesse superado todo o horror por que passara.
Como se isso fosse possível assim, de uma hora para outra.
— Como se chama?
— Alfredo.
— O senhor é médico?
— Sou sim.
Mas não precisa me chamar de senhor, não.
Aqui abolimos essas formalidades.
Todos nos respeitamos muito, mas o respeito nada tem a ver com os pronomes ou as formas de tratamento.
O respeito vem de dentro, da intenção da alma e não precisa de formalismos para se exteriorizar.
— É verdade.
Sabe, Alfredo, gostaria que soubesse que estou muito feliz por estar aqui, embora não saiba se mereço tanta consideração.
Ele sorriu para mim e me acariciou novamente.
Como era boa aquela carícia, que só transmitia amorosidade!
— Não diga isso, Daniela.
Todos merecemos a mesma parcela de consideração.
Somos todos filhos de Deus, e um pai não faz distinção entre seus filhos.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 4:49 pm

— Será?
— O pai amoroso e consciente, que aceita a responsabilidade de educar os filhos, recebe a todos com igual consideração e respeito, embora às vezes, devido a circunstâncias especiais, deva dedicar um pouco mais de atenção a um ou a outro.
— Está certo, Alfredo, você me convenceu.
Não quero entrar no mérito dessa discussão, porque nem tenho conhecimento suficiente para isso.
Bem se vê que você é infinitamente mais inteligente do que eu.
— A inteligência, minha cara, é qualidade do espírito, que evolui com ele.
Mas conhecimento não é inteligência, assim como sabedoria também não se confunde com ela.
O conhecimento se adquire com dedicação e estudo, ao passo que a sabedoria se alcança com a vivência e a experiência das verdades da vida e das leis divinas.
— Você é muito profundo, Alfredo, e não sei se o que você tem é sabedoria, conhecimento, inteligência ou tudo isso junto.
Mas acho você o máximo.
— Obrigado, Daniela.
Você é uma menina inteligente, e a sua inteligência lhe abrirá as portas da sabedoria e do conhecimento.
Basta que você deseje.
A porta do quarto se abriu novamente, e uma enfermeira entrou, trazendo uma bandeja com um prato de sopa e algumas frutas, além de um jarro com água.
Ela sorriu e me cumprimentou, depositando a bandeja na mesinha ao lado da cama.
Em seguida, virou-se para mim e, ainda sorrindo, indagou:
— Olá, Daniela. Como está?
— Bem, obrigada.
— Sente fome?
— Hã, hã.
— Óptimo. Então coma.
Trouxe-lhe um caldo quente e nutritivo e algumas frutas.
Isso vai reanimar suas forças.
Agradeci e tomei a colher, mas minhas mãos estavam trémulas, e eu a deixei cair, sujando o lençol e o chão.
— Oh! Desculpe — falei constrangida.
— Não foi nada, querida — retrucou a enfermeira ainda sorrindo.
— Pode deixar que, num instantinho, eu limpo isso.
Ela saiu e voltou logo em seguida, trazendo um pano e uma colher limpa.
Segurei a colher com mais força, mas continuava a tremer, e a enfermeira veio me ajudar.
Pacientemente, foi colocando o caldo em minha boca, e eu fui sorvendo aquele líquido, maravilhada com seu sabor.
Embora não identificasse os ingredientes do qual fora feito, estava uma delícia e me fez muito bem.
Quando terminei, peguei uma fruta e comi com vontade.
Estava docinha e foi um imenso prazer saboreá-la.
Só depois que terminei foi que percebi o quanto estava com fome.
Parecia que eu não comia havia séculos, e devia mesmo ser, porque não tinha noção do tempo em que permanecera nas trevas.
Em seguida, servi-me de um copo de água.
Era fresca e cristalina, e eu me senti muito bem.
— Agora você vai se levantar um pouquinho, que é para eu trocar os lençóis — disse ela, logo que se certificou de que eu terminara a refeição.
— Que tal um passeio pelo jardim? — sugeriu Alfredo.
— Posso? — perguntei ansiosa.
Eu adoraria.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 4:49 pm

— Pois então vamos.
Será um prazer caminhar ao lado de tão bela companhia.
Ele me ajudou a descer da cama, e eu cambaleei.
Estava ainda fraca para andar, mas Alfredo me amparou.
— Será que vou conseguir?
— É claro que vai.
Vamos devagar.
Não temos pressa.
E depois, o sol e o ar fresco lhe farão muito bem.
Em silêncio, tomei o seu braço e saí com ele, passando pelo corredor, onde se viam diversas portas, lado a lado.
— Isso tudo são quartos? — perguntei curiosa.
— São sim.
— Há gente aí?
— Assim como você, muitos outros pedem auxílio e são trazidos para cá para tratamento.
— Trazidos de onde?
— De diversos lugares.
Alguns vêm para cá logo que desencarnam.
Outros permanecem vagando, perdidos.
Outros ainda, como você, ficam presos ao túmulo.
Varia muito de espírito para espírito.
— Por quê?
— Porque nem todos são iguais, e a experiência de um pode não ser a mesma de outro.
Cada qual passa por aquilo que escolhe passar.
— Sabe, Alfredo, ainda não perguntei, mas onde é que estive e por quanto tempo?
— Uma coisa de cada vez, Daniela.
Breve você terá as respostas para todas essas perguntas.
No momento, porém, não convém que você se envolva com fatos e lembranças que poderão ser extremamente dolorosos e que, no momento, só serviriam para amargurá-la e dificultar o seu restabelecimento.
Nesse momento, atingimos o jardim e fomos nos sentar sob uma pérgula coberta de trepadeiras floridas.
Ao longe, o som de uma cascata.
O aroma das flores enchia o ar com perfumes dulcíssimos.
Parecia um verdadeiro paraíso, e eu não pude conter a admiração:
— Mas que lugar é esse tão lindo, que eu nem pensava existir?
Será o céu ou o paraíso?
Alfredo riu gostosamente e respondeu:
—Nem uma coisa, nem outra.
Estamos numa colónia espiritual, situada acima da cidade do Rio de Janeiro, para onde são trazidos espíritos que, como você, precisam de auxílio e protecção.
— E o que é, exactamente, uma colónia espiritual?
— Já disse. Um lugar para onde são trazidos espíritos enfermos que precisam de ajuda para curar suas feridas e compreender suas dores, preparando-se, então, para nova jornada de aprendizagem.
— Que jornada?
— Isso vai depender de cada um.
Alguns preferem ficar por aqui algum tempo, estudando e trabalhando, enquanto outros partem para nova reencarnação.
Sabe o que é isso, reencarnação?
— Já ouvi falar. Na Terra, tinha um amigo, Marcelo, que tentou me ensinar essas coisas...
Comecei a chorar. Era verdade.
Marcelo tudo fizera para que eu entendesse, mas eu não quis compreender.
Em vez disso, preferi permanecer alheia àquelas verdades, pois assim não estaria compromissada com a responsabilidade pelos meus próprios actos.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

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