Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 4:49 pm

Alfredo, como que lendo meus pensamentos, tornou compreensivo:
— Não se culpe Daniela.
— Mas eu errei, Alfredo.
Hoje posso reconhecer isso.
Não entendo como nem por que tudo isso aconteceu comigo.
Mas o facto é que aconteceu, e eu não agi da forma mais correcta.
— E qual seria a forma mais correcta?
— Não sei. Desaparecer, sumir do mapa.
— E estaria assim resolvendo seus problemas?
— Ao menos os estaria afastando.
— Mas eles continuariam ali.
Não pense Daniela, que você é a única criatura no mundo a falhar.
Todos nós, de uma maneira ou de outra, cometemos erros.
— Não tão graves como os meus.
— Quem é você para determinar a gravidade das coisas?
— Eu não quis dizer isso.
Mas tenho consciência de que cometi erros terríveis.
Se você soubesse...
— Sabe, Daniela, os erros existem porque precisamos deles para aprender e acertar.
Ninguém aprende sem a experiência.
Só quem já viveu ou passou por determinada situação é que pode dizer que sabe o que é ou como é.
Por isso é que não se erra no mundo. Experiencia-se.
— Tem razão, Alfredo.
Mas é que eu me julgo tão pecadora...
— Pois não se julgue.
A noção de pecado é muito relativa, e nós não costumamos usar essa palavra aqui, porque ela sugere algo que, por atentar contra as leis de Deus, dificilmente poderá ser reparado ou perdoado.
E hoje sabemos, Daniela, que não existe erro sem perdão ou reparação.
O erro não deve ser entendido no sentido vulgar do pecado, mas, como disse, no de experiência.
Digamos que seja um juízo mal interpretado e mal compreendido e que, por isso mesmo, nos leva a falhar naquilo que não estamos ainda maduros para entender e realizar.
— Falando assim, você até me faz sentir menos culpada.
— Você não é culpada. É responsável.
— Não é a mesma coisa?
— Não. A culpa traz em si o peso da condenação, e aquele que se sente culpado julga-se merecedor de todos os castigos, penas e aflições que venha a sofrer.
A responsabilidade, por sua vez, implica compreensão e consciência, que é a capacidade que temos de entender os nossos actos e as suas consequências.
E é essa mesma consciência que fará com que optemos por enfrentar determinadas situações, difíceis às vezes, como forma de aprender uma lição que não foi ainda bem compreendida.
— Você fala muito em compreensão.
Mas compreensão de quê, meu Deus?
— De nós mesmos, Daniela, de nossos gestos, nossas experiências, nossos sentimentos.
Daquilo que fazemos e que nos prejudica, a nós e ao nosso próximo.
Vou usar a palavra erro apenas como ilustração, para que você possa entender o que digo.
Quando compreendemos por que erramos, esse erro reverte a nosso favor e passa a ser a espinha dorsal de nossas atitudes.
Isso quer dizer que os erros actuam como modelo para aquilo que não nos serve mais, e pautamos as nossas vidas pelas experiências adquiridas, que irão nos compelir a buscar um caminho de acertos — ele pousou a mão no meu joelho e acrescentou com doçura:
— Agora venha. Chega dessa conversa.
Você já recebeu informações demais por hoje.
Voltei para o meu quarto profundamente impressionada, não só com a colónia, mas principalmente com Alfredo.
Ele era maravilhoso, tão maravilhoso que eu esperava que ele pudesse ser meu mestre dali para a frente.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 4:49 pm

CAPÍTULO TRÊS

Os dias foram passando e comecei a me sentir melhor.
Alfredo era um excelente professor, além de amigo sincero e desinteressado.
Aos poucos, fui me interessando pelos assuntos da colónia e busquei me instruir e aprender.
Passei a frequentar diversos cursos, assisti a palestras, parti em visita a outras colónias.
Foi maravilhoso e bastante proveitoso.
Não se poderia dizer, contudo, que eu estivesse feliz.
Faltava-me algo, e eu sabia bem o que era.
Durante todo o tempo em que estivera ali, não me atrevera a perguntar por meu irmão, mas a verdade é que Daniel ainda era único em meus pensamentos.
Certa noite, em que a saudade me apertava o peito profundamente, Alfredo me procurou, indo me encontrar sentada a um canto do jardim, apreciando as estrelas que iluminavam o céu.
— Oi — cumprimentou ele —, tudo bem?
— Tudo — respondi sem muita convicção.
— Sabe, Daniela, todos nós estamos notando o seu progresso aqui.
Você se dedica a aprender, não se queixa, não vive a se lamentar.
Até a ferida em seu coração já está melhorando e quase não sangra mais.
Tem feito excelentes progressos.
Eu sorri e retruquei meio acanhada:
— Obrigada, Alfredo, estou me esforçando.
No entanto...
— No entanto...
— Bem, a verdade é que sinto falta de meus... entes queridos.
Ele me lançou um olhar bondoso, segurou a minha mão e falou com ternura:
— Você se refere a Daniel, não é mesmo?
Eu corei e abaixei os olhos.
Nunca havia tocado no nome de Daniel com ninguém e me surpreendi com a pergunta de Alfredo.
Para mim, minha vida enquanto encarnada não era do conhecimento de ninguém, e respondi embaraçada:
— Alfredo, eu... não sabia que... bem, pensei que...
— Pensou que eu não conhecesse o seu passado, a sua história? — eu não respondi, limitando-me a assentir com a cabeça, e ele continuou:
— Na verdade, Daniela, sei de tudo o que se passou com você.
— Você sabe?
— Sei sim.
— Mas como?
Por que nunca disse nada?
— Porque não tenho esse direito.
Você nunca tocou no assunto, e eu não quis invadir a sua privacidade.
Cabe a você a escolha do melhor momento para se abrir, e eu não posso pressioná-la a me contar coisas que não me dizem respeito.
Abaixei os olhos e comecei a chorar.
Estava envergonhada de mim mesma e não tinha coragem de encará-lo.
Alfredo, porém, levantou-me o queixo e prosseguiu, olhando fundo em meus olhos:
— Por que chora, criança?
Não é preciso sentir medo ou vergonha.
Sou seu amigo e estou aqui para ajudá-la.
— Ah! Alfredo, o que não deve estar pensando de mim?
Deve julgar-me a mais reles das criaturas.
— Minha menina, quem sou eu para julgá-la ou a quem quer que seja?
Você é apenas mais um espírito em evolução, lutando para aprender e crescer com suas próprias experiências.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 4:50 pm

— Mas eu errei, e muito.
— É mesmo?
E no que foi que errou?
Eu me enchi de coragem e resolvi desabafar:
— Ora, no quê?
Para começar, tinha um romance ilícito e condenável com meu próprio irmão, cuja lembrança, ainda hoje, me domina e excita.
Por causa desse amor, causei a morte de minha mãe, meu pai se tornou um homem amargo e detestável e, o que é pior, destruí a vida de Daniel e de sua noiva, matando-o e me matando logo em seguida.
Sei que suicídio é pecado também.
Como vê, não posso ser considerada um exemplo de virtude.
— E o que é a virtude para você?
— A virtude?
Bem, a virtude são as nossas qualidades.
E eu, infelizmente, não tenho nenhuma.
— Não acha que está sendo severa demais com você mesma?
— Acho que não.
Tenho consciência de meus erros e sei que deverei pagar por eles um dia.
— Minha querida, não fale assim.
Você sabe que não devemos falar, propriamente, em erros.
— Não? E como chama as besteiras que fiz?
— Digamos que você ainda não compreendeu algumas coisas e, por isso, não conseguiu agir de uma forma benéfica e saudável.
— Dá no mesmo.
—Não dá, não.
Conforme lhe dizia no outro dia, quando encaramos nossas atitudes como erros, tendemos a nos sentir culpados, e a culpa é grande responsável pelos nossos fracassos.
Por causa dela, deixamos de lado as nossas acções e permanecemos inertes, porque não nos
sentimos merecedores de coisas boas ou, ao contrário, porque julgamos só merecer coisas ruins.
— Suas palavras são muito bonitas, mas continuo achando que querem dizer a mesma coisa.
Se eu ainda não compreendi algo e por isso agi de uma forma que não é benéfica nem saudável, na verdade, cometi um erro.
É a mesma coisa.
A única diferença está no modo como emprega as palavras, que você usa de forma a suavizar e diminuir o peso que elas realmente têm.
— Que seja.
As palavras servem apenas de instrumento para nossa comunicação, mas devemos prestar mais atenção à intenção com que foram proferidas do que ao seu real significado.
— Não entendi.
— Muitas vezes, as palavras não expressam aquilo que realmente queremos dizer.
O erro, por exemplo, é uma palavra que traz a ideia de algo que foi cometido em desacordo com as normas e convenções, sejam elas sociais, morais ou espirituais.
No entanto, procure entender o erro não com esse peso de imperfeição, de defeito, mas como ignorância ou mero engano quanto à interpretação daquilo que nos foi ensinado.
Erramos porque não compreendemos ou porque compreendemos mal.
Quando uma criança erra no seu dever de casa, ela não é punida nem castigada, e esse erro serve para que a professora a ensine novamente, e ela faz novo dever.
Pode errar ou não, e a professora irá ensiná-la tantas vezes quantas forem necessárias, até que ela compreenda a lição e não erre mais.
Entenda Daniela, nós só erramos naquilo que ainda não aprendemos.
— Você quer dizer que meus erros só foram cometidos porque eu não sabia o que estava fazendo?
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 4:50 pm

— Mais ou menos.
- Engano seu, Alfredo.
Eu sabia bem o que fazia, sabia que era errado e, ainda assim, não pude deixar de fazer.
— Nesse caso, você só compreendeu com o raciocínio, mas não estava ainda madura para compreender com o coração.
Não basta simplesmente aceitar a lição que nos é imposta.
É preciso que compreendamos de verdade, e a compreensão é fruto do amor, porque vem de dentro, de nossa alma, de algo em que acreditamos como verdade porque nos ilumina internamente e nos aquieta e aquece o coração.
É como o aluno que decora a lição porque não conseguiu raciocinar e compreender.
Ele simplesmente aceitou o que lhe foi imposto, mas não conseguiu alcançar o seu real significado.
Pode-se dizer que aprendeu?
É claro que não, porque ainda não conseguiu interiorizar aquele ensinamento e aceitá-lo com naturalidade.
Foi o que aconteceu com você.
Você só conseguiu decorar que incesto é pecado e que você e Daniel não deveriam se relacionar, mas não entendeu por quê.
— Mas incesto não é mesmo pecado?
Não foi errado o que fizemos?
— Você continua ainda presa ao conceito vulgar de certo e errado.
O pecado é criação humana, não de Deus.
Quando duas pessoas nascem ligadas por laços de sangue, vários motivos podem existir.
Falando no seu caso específico, você e Daniel optaram por nascerem irmãos para aprenderem a desenvolver um amor mais sereno, mais puro e menos pernicioso para vocês e para seus semelhantes.
— Como assim?
— Digamos que você e Daniel, há muitas vidas, venham se destruindo em nome desse amor.
Isso não é benéfico nem para você, nem para ele, nem para aqueles que, de alguma forma, estão relacionados a vocês.
— Quer dizer que sou responsável, ainda, pela queda de outras pessoas?
— Eu não disse isso.
Pelo amor de Deus, Daniela, nem pense numa coisa dessas.
Nós só somos responsáveis pelos nossos actos.
— Mas se você acabou de dizer que eu destruí pessoas ligadas a mim...
— Não foi isso que eu disse.
Disse que você e Daniel desenvolveram um tipo de sentimento que não foi benéfico para ninguém.
Se vocês prejudicaram alguém, isso só aconteceu porque esse alguém se deixou prejudicar, porque estava, de alguma forma, em sintonia com vocês.
Quando um homem mata outro homem, é claro que o que foi morto, conscientemente, não consentiu naquilo.
Mas pode ser que, internamente, tenha pedido aquele fim para resgatar, digamos assim, algo que fez e com o qual não pôde mais conviver.
Então, julgou que a melhor forma de aprender fosse morrendo assassinado.
— Quer dizer que o assassino agiu correctamente?
— Ele foi um instrumento, o que não significa que não seja responsável, ele também, pelo seu próprio acto.
Só serve de instrumento quem sintoniza com o gesto, pois que ninguém pode ser compelido a agir em desacordo com suas convicções ou com sua consciência.
Assim, quem matou já traz em si a semente do crime e nada mais fez do que extravasar uma tendência que já possuía, seja por desafecto, seja por vingança, seja por ambição.
Mas nada impediria, também, que o assassino houvesse, de alguma forma, evoluído naquele sentido e não quisesse mais assumir aquele tipo de responsabilidade.
Nesse caso, o homicídio não existiria, e poder-se-ia dizer que o criminoso teria dado um grande passo em sua escalada evolutiva.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 19, 2015 4:50 pm

Não se esqueça de que o homem possui livre-arbítrio e é, por isso mesmo, livre para agir de acordo com sua consciência e seu desejo.
— Alfredo, só você tem esse dom de me fazer sentir menos culpada.
— Não se culpe por nada, Daniela. Já lhe disse: tenha consciência, não culpa.
Entenda o que lhe aconteceu e procure transformar o seu sofrimento em fonte de aprendizado. Mas sem culpas.
— É tão difícil, Alfredo.
— Eu sei. Não estou dizendo que é fácil.
Todos nós vivemos carregados de culpas, e é por isso que ainda estamos aqui, lutando para crescer e nos libertar.
O importante, Daniela, é tentar.
Se você tenta, se você se esforça, está caminhando para a frente, para a sua própria evolução.
O que não podemos é simplesmente cruzar os braços e deixar acontecer, como se tudo fosse inevitável.
Tudo pode ser evitado e modificado. Basta querermos.
Mas, o que geralmente acontece, é que ainda não acreditamos que podemos fazer diferente e modificar o nosso destino.
Mas podemos.
Se eu escolhi passar por uma situação difícil que me trará muitos ensinamentos, isso não quer dizer que eu tenha, necessariamente, que passar por ela.
Posso muito bem, em determinado ponto de minha vida, acreditar que não preciso mais daquela dificuldade, porque acredito também que posso aprender de outra forma e, assim, modifico o meu destino.
Só que, na maioria das vezes, não conseguimos alcançar essa crença e acabamos mesmo por passar por tudo aquilo que programamos, e o que poderia ter sido evitado acaba por se tornar inevitável.
— Como se isso fosse fácil.
— Não, não é.
E muito poucas pessoas conseguem realizar isso.
Por isso é que há tanto sofrimento no mundo.
Mas não se preocupe.
Seja como for, o homem está aprendendo e hoje, com certeza, sabe mais do que há quinhentos anos.
Da mesma forma, nós, espíritos desencarnados, hoje sabemos muito mais do que ontem e vamos ajudando no progresso do mundo espiritual também.
— Como assim?
— Tomemos o seu exemplo.
Há quinhentos anos, um espírito suicida costumava passar séculos no umbral, até que se desse conta de seu estado, de seus actos, se arrependesse, desejasse se modificar e pedisse a ajuda de Deus.
Isso porque era ainda muito primitivo, tinha aprendido pouco, tinha tido poucas experiências.
Hoje, um suicida pode ficar muito menos tempo no umbral ou nem passar por ele.
Tudo vai depender do quanto esse espírito já tenha compreendido e aceitado, e muito mais rapidamente vai tomar consciência da impropriedade de seu acto.
E sabe por quê?
Porque talvez já tenha passado por aquilo antes e aquele aprendizado esteja guardado dentro dele mesmo.
Assim, ele vai accionar aquele ensinamento, vai recordá-lo e vai se conscientizar muito mais depressa.
Então, por que passar trezentos anos no umbral se ele já compreendeu?
— Foi o que aconteceu comigo?
— Sim. Você ficou lá pouco mais de vinte anos, e isso foi suficiente.
Ao contrário do que pensa, Daniela, você é um espírito que já alcançou um alto grau de compreensão, embora tenha ainda muitas coisas para aprender, dentre as quais, sua relação com Daniel.
Comecei a chorar de mansinho e abracei Alfredo.
Ele era maravilhoso, e eu estava muito grata a ele por tudo.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:33 am

Cheia de emoção, sem conseguir soltar-me de seu pescoço, disse, a voz embargada:
— Obrigada, meu amigo, muito obrigada.
Não sabe o bem que está me fazendo.
— Está feliz? — Eu assenti.
Então deixe-me dar-lhe uma notícia que, creio, muito irá alegrá-la.
Eu me afastei dele e perguntei espantada:
— Notícia?
Do que se trata?
— Sua mãe, em breve, virá visitá-la.
— Minha mãe? Mas como?
Meu Deus, não posso vê-la!
— Por que não?
Não sente saudades dela?
Não a ama?
— É claro que sim.
Mas não posso me esquecer de que sou culpada pela sua morte e...
— E você não compreendeu nada do que conversamos.
— Não é isso, é que...
— Daniela, não se culpe pelo desencarne de sua mãe.
Aquilo já estava programado.
Além disso, se nem ela a culpa, por que você deve se sentir culpada?
Ela a ama muito e está louca de vontade de vê-la.
— Verdade?
Não está chateada comigo?
— Mas o que é isso?
Sua mãe é um espírito amigo e sempre se preocupou com você e com seu irmão.
Mesmo depois que desencarnou, continuou a velar por vocês e muito contribuiu para o seu resgate das trevas.
— É mesmo?
Eu não sabia.
— Há muitas coisas que você não sabe.
Então? Não está satisfeita de saber que sua mãe venha visitá-la?
— Oh! Alfredo desculpe-me.
É claro que estou feliz.
Há muito gostaria de falar com ela, pedir-lhe perdão.
— Perdoar ao próximo e a si mesmo é uma grande virtude.
Então, aproveite a oportunidade.
Se pedir-lhe perdão irá acalmar o seu coração, faça isso.
Depois daquela conversa, voltei para o meu quarto.
Estranhamente, sentia-me mais feliz, mais segura, menos criminosa.
Pensei em minha mãe e comecei a chorar de saudade.
Há quanto tempo não a via nem ouvia falar dela.
Seria muito bom reencontrá-la, e eu, intimamente, voltei meus pensamentos a Deus e agradeci.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:33 am

CAPÍTULO QUATRO

Uma semana depois, eu estava em meu quarto, me preparando para receber a visita de minha mãe, quando Alfredo bateu à porta e entrou.
— Olá — cumprimentou sorridente.
E então? Animada para o encontro com sua mãe?
— Estou muito ansiosa — virei-me para o espelho e perguntei:
— Será que estou bem?
— Você está linda.
— Ora, mas que bobagem a minha.
Até parece que isso é importante aqui.
Nem sei por que tem esse espelho no meu quarto.
— Cultivar a beleza, Daniela, traz refinamento ao espírito e leveza ao coração.
Foi por isso que colocamos esse espelho em seu quarto, para que você possa se sentir bela, porque você traz em si o gosto pela beleza.
— Puxa, eu não sabia.
Pensei que ser bonito ou feio não fosse importante para os espíritos.
— Você está confundindo as coisas.
Quando falo em beleza, refiro-me ao cuidado pessoal, ao aspecto de limpeza, de serenidade, à luz que irradia de um rosto bondoso e alegre.
É o viço, Daniela, que enche de cor e de luz qualquer semblante feliz e em paz consigo mesmo.
O que é feio é a maldade, a sujeira, o desleixo, o mau humor.
Coisas que transformam até a mais linda face num espelho de feiura.
Cultivar a beleza é muito saudável e positivo, desde que se tenha o cuidado para que isso não se transforme em motivo de fútil ostentação.
Bem, agora chega.
Já está pronta?
— Estou.
— Podemos ir, então?
— Minha mãe já chegou? Onde está?
— Ela a aguarda no jardim.
Em silêncio, saímos do alojamento e seguimos em direcção ao jardim.
Estava um dia ensolarado e fresco, e avistei minha mãe sentada à beira de uma fonte, mexendo na água com as mãos.
Alfredo me indicou o caminho e se foi.
Não queria nos atrapalhar.
— Mamãe — chamei, emocionada.
Ela se virou para mim com um sorriso, e foi então que pude entender a concepção de beleza de que Alfredo havia pouco me falara.
Minha mãe estava, realmente, muito bonita.
As faces coradas, a pele lisa e suave, os cabelos grisalhos e lustrosos.
Era a imagem da felicidade.
Ao me ver, estendeu os braços para mim, e eu me aninhei neles, como um passarinho sob as asas da mãe.
Comecei a chorar, meu corpo todo tremendo de emoção.
Minha mãe deixou que eu ficasse ali, presa em seu abraço, acariciando meus cabelos com ternura e compreensão.
Senti tanto amor naquele gesto que, de repente, foi como se nada mais no mundo importasse de verdade, apenas o amor que ela tinha para me dar.
Depois de muito tempo (não sei nem quanto tempo ficamos assim), ela me afastou, segurou meu rosto entre as mãos e pousou em minha face um beijo carinhoso e prolongado, olhando-me em seguida nos olhos, bem profundamente, dizendo:
— Daniela, minha filha, como estou feliz em poder encontrá-la.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:33 am

— Mãe, eu... nem sei o que dizer...
Há tantas coisas que gostaria de falar, que nem sei por onde começar.
— Vamos nos sentar ali naquela sombra e poderemos conversar com mais tranquilidade.
Ela segurou a minha mão e foi me conduzindo para um banco, debaixo de uma árvore florida, bem em frente à fonte.
Logo que nos sentamos, deitei a cabeça em seu colo e desabafei:
— Perdoe-me, mãe!
Perdoe-me! Eu não queria...
— Psiu! Minha criança, não chore.
Você não me fez nada, não há o que perdoar.
— Há, sim. Eu matei você com meu egoísmo, minha paixão cega e enlouquecida.
Mas eu não queria, juro que foi sem querer.
Você não sabe o quanto sofri em silêncio após a sua morte, sentindo-me culpada...
Mas foi um acidente, juro.
Naquele dia, eu estava desesperada e tinha medo do que papai pudesse fazer connosco se você lhe contasse o que vira.
Só tentei impedi-la, mas você não quis ficar, queria ir chamar papai.
Eu me apavorei, segurei a sua camisola e você caiu.
Eu não a empurrei, mamãe, você caiu.
Por favor, acredite em mim.
Não foi de propósito, eu não queria.
Eu a amava... — eu soluçava quase em desespero.
Ainda a amo. Jamais faria algo para machucá-la.
Sei que a magoei com minha atitude, mas não foi por querer.
Eu só queria ficar ao lado de Daniel, era só o que me importava.
Sei que você tentou me ajudar, mas eu não queria a sua ajuda.
Não daquele jeito.
Por isso, não podia deixar que você falasse com papai novamente.
Ele iria nos mandar embora, iria nos separar de vez, e eu não poderia suportar.
Mas não queria matá-la.
Foi sem querer, foi um acidente infeliz, uma crueldade do destino.
Por favor, mãe, acredite em mim e perdoe-me! Perdoe-me!
Eu estava descontrolada.
A culpa, que me roera durante todos aqueles anos, finalmente saíra, e eu podia agora tentar me reconciliar com minha mãe.
Estava tão transtornada que mal podia concatenar as ideias, e as palavras foram saindo aos borbotões, meio desencontradas.
Eu chorava feito uma criança, agarrada ao colo de minha mãe, manchando suas roupas com minhas lágrimas sentidas.
Ela ficou acariciando meus cabelos e beijando minha cabeça, sem dizer nada, até que eu me acalmasse.
Minha mãe compreendia o que se passava comigo e deixou que eu colocasse tudo para fora, até quase me esvaziar.
Só assim estaria preparada para conversar com ela.
Mas eu precisava daquele desabafo, e muito me fez bem falar sobre aquele dia, ainda que depois eu compreendesse que nada daquilo era real.
Ao final de muito tempo, quando me acalmei e serenei o pranto, minha mãe disse com doçura:
— Está bem, Daniela, não precisa mais se desesperar.
Sei que é bom desabafar, mas agora deixe que eu fale.
Tudo isso já passou e não aconteceu assim, da forma como você coloca, cheia de peso e de culpa.
Eu sei que você não me matou, que não quis me ferir, que sempre me amou.
Naquele dia, fui em busca de seu pai porque eu também estava desesperada, sem saber o que fazer.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:34 am

Sou mãe, e a pior dor para uma mãe é ver o sofrimento de seus filhos.
Eu condenei vocês, sim, porque julguei um erro e um pecado aquilo que vocês estavam fazendo.
Quando encarnada, não tinha o conhecimento que tenho hoje.
Não sabia por que você e Daniel praticaram um acto que eu, na época, considerava abominável.
Em minha ignorância, pensei que vocês fossem desequilibrados ou loucos e achei que seria melhor separá-los, ainda que abruptamente, e que um psiquiatra resolveria aquele problema... — ela fez uma pausa, parecendo evocar as lembranças daquele dia, e continuou com lágrimas nos olhos:
— Eu estava errada...
— Mãe...
— Não. Deixe-me terminar.
Não quero falar sobre isso agora.
Falemos de meu desencarne.
Sei que não foi de propósito, também não foi um acidente.
Na luta para me desenvencilhar de você, eu perdi o equilíbrio e caí, fracturando o pescoço.
Aquilo estava programado. Minha alma já havia escolhido aquela forma de desenlace, assim como a sua também optou por estar presente naquele momento tão doloroso.
Não foi um acaso. Foi uma combinação, digamos assim, uma opção que fiz para me perdoar de algo que fiz no passado.
Há muitos anos, em outra vida, causei a sua morte em situação semelhante e, embora eu sinceramente me arrependesse, você não conseguiu me perdoar.
Daí porque nós duas escolhemos nos envolver naquele acidente.
Para mim, foi uma forma de passar por aquilo que infligi a você.
Não que quisesse me castigar.
Mas pretendia, com isso, rever a minha atitude quando, por descuido, empurrei você por um penhasco abaixo.
Para você, foi uma forma de reconhecer como é dolorosa a ausência de perdão, e você experimentou consigo mesma aquilo que, em outra época, não soube ou não pôde conceder.
Você quis experimentar como é se sentir culpada, para depois alcançar o perdão, e o perdão mais difícil de se obter é o da nossa própria consciência.
Infelizmente, você não entendeu esse processo, e a culpa a corroeu por dentro, fazendo com que deixasse de lado a prática do perdão, que você deveria aplicar em si mesma.
Eu estava surpresa.
Jamais poderia supor que a vida se engendrasse assim, de forma tão perfeita e maravilhosa.
No entanto, não podia ainda compreender por que minha mãe nos abandonara no momento em que mais precisávamos dela e perguntei:
— Mas por quê, mãe?
Por que teve que partir tão cedo, deixando-nos ao abandono?
— Não, minha filha, eu jamais os deixei ao abandono.
Durante todo o tempo, estive ao seu lado e de Daniel, rezando e pedindo por vocês, embora vocês não pudessem me ver ou sentir.
Acontece, porém, que eu tinha meu próprio tempo na Terra, e minha missão com vocês estava terminada no exacto momento em que desencarnei.
Eu pedi um tempo exíguo, para que pudesse orientá-los e mostrar-lhes o quanto aquele sentimento era prejudicial a vocês.
E foi o que tentei fazer, da forma como entendia, porque eu também precisava aprender com ele.
Mas era preciso que vocês mesmos conseguissem conter seus instintos e desejos, transformando aquele sentimento possessivo e adoecido em amor verdadeiro, sem ciúme, apego ou sensualidade.
Era o que esperávamos conseguir com a fraternidade, e foi por isso que você e Daniel nasceram irmãos gémeos.
Para que aprendessem a amar sem destruir.
— E papai?
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:34 am

— Seu pai também sofreu muito.
Mas ainda não é hora de falarmos sobre isso.
Ele quer se preparar antes de reencontrar você.
— Mãe, do jeito como fala, faz parecer que incesto não é pecado, que não é uma coisa feia ou errada.
— Minha filha, o pecado está no coração do homem, e não naquilo que se convenciona ser certo ou errado.
Deus não está preocupado com as convenções ou as normas.
Preocupa-se com que aprendamos a ser felizes, e a felicidade somente poderá ser alcançada no dia em que compreendamos o que é, verdadeiramente, o amor.
Quem ama não erra, não maltrata, não magoa, não fere.
Quem se reconhece amado não se deixa atingir, nem magoar, nem ferir.
O amor tudo pode, tudo constrói, tudo fortifica e fortalece.
Porque compreende.
A compreensão plena é fruto do amor verdadeiro, pois só um coração puro é capaz de ver na maldade e no sofrimento uma ponte para a perfeição.
No futuro, o mal e as dores não existirão, porque aqueles que praticaram a maldade já terão aprendido com ela que ninguém pode ser feliz fazendo o mal.
— Mamãe, você é tão boa, tão carinhosa, tão amiga...
— Sim, minha filha, serei sempre sua amiga e de Daniel, e sempre os estarei apoiando, não importa o que façam ou o que tenham feito.
— Você nos apoiaria, ainda que caíssemos novamente?
Estaria disposta a apoiar nossos erros sempre?
— Apoiar não significa compactuar, mas entender e ajudar, sem críticas ou julgamentos.
Chorei de emoção.
Minha mãe era maravilhosamente sábia, e eu fiquei muito feliz por ter tido o privilégio de ser sua filha.
Já me sentia menos culpada pelos meus erros e comecei a encarar a minha vida com mais naturalidade.
Dali para a frente, consegui enxergar, ao menos em parte, que tudo acontecera conforme o nosso preparo moral, porque era necessário para o nosso aprendizado e crescimento. Não que achasse certo o que fizéramos.
Não era isso.
Sabia que não era apropriado e tudo faria para me corrigir.
Mas conseguira tirar o peso da culpa de meus ombros e passei a me olhar, a mim e a Daniel, como crianças rebeldes que optaram por gazetear, em vez de estudar a lição.
Mas, como na vida, onde o aluno que não aprende é reprovado e tem que repetir o ano, assim também meu irmão e eu, que não conseguíramos entender nada do que nos havia sido ensinado, iríamos repetir o ano, e eu esperava que, na próxima oportunidade que nos fosse dada, pudéssemos, finalmente, aprender.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:34 am

CAPÍTULO CINCO

Desde meu encontro com minha mãe, senti que minha vida começou a mudar.
Eu agora já estava um pouco mais calma, e a culpa, aos poucos, foi diminuindo.
Mas eu ainda tinha muitas coisas a trabalhar.
Afinal, o incesto, o homicídio e o suicídio não estavam ainda resolvidos, e eu também não conseguia dar conta dessas dores.
A ferida em meu peito, por outro lado, já quase sarara.
Às vezes, quando me emocionava muito, ela começava a sangrar, empapando as bandagens de algodão que Alfredo colocava sobre elas.
Meu perispírito fora muito maltratado.
Não só pelo ferimento à bala, mas também pela vida dissoluta que levara.
Eu sempre valorizara muito o sexo, tanto que não podia prescindir dele.
Mesmo quando Daniel me abandonara, eu havia precisado desesperadamente de sexo e, não fosse Marcelo, teria me entregado a qualquer um que me quisesse.
Além disso, havia começado a beber, e bebia bastante.
Não eram raras as ocasiões em que me embebedava, e o meu fígado já começara a se ressentir dos abusos.
Talvez pela raiva que sentia por perder Daniel.
Pensei se, como meu pai, não teria desenvolvido alguma espécie de câncer no fígado.
Tudo isso contribuiu para a lesão que imprimira em meu perispirito.
No entanto, minha vontade de mudar era tão grande que ele aos poucos foi se refazendo, e eu quase não sentia mais dor.
Um dia, estava no consultório de Alfredo para trocar as bandagens, e começamos a conversar.
— E então, Daniela, melhorou?
— Melhorei, sim.
— Hum... o ferimento já está quase cicatrizado.
— Alfredo, será que vai desaparecer?
Será que vou reencarnar com alguma sequela?
— Isso eu não posso afirmar.
Vai depender de você, do quanto você mesma vai se melhorar.
— Sabe Alfredo, hoje em dia me arrependo tanto de ter me suicidado.
— Que bom.
Já é um grande passo para a sua transformação.
— Por que o suicídio é tão prejudicial a nós mesmos?
— Porque interrompe o processo de evolução, destruindo algo que tomamos por empréstimo, que é o nosso corpo físico.
Quando você empresta algo a alguém, o mínimo que espera é que esse alguém tenha cuidado com o que lhe pertence e o devolva inteiro.
Assim é a nossa matéria.
Deus nos emprestou um corpo para que o usássemos segundo as nossas necessidades, para que ele cumprisse a sua utilidade, que é a nossa própria evolução.
Mas se nós não damos importância a isso, se destruímos o que está a nosso serviço, mas que não nos pertence, temos que prestar contas a quem nos emprestou.
— Hoje lamento muito esse ato impensado.
As consequências estão sendo terríveis.
Mas jamais serão irreversíveis.
Logo, logo, você estará livre de tudo isso.
— Assim espero.
Quando saí dali, fui dar uma volta.
Tinha muitas coisas a pensar e estava começando agora a me compreender.
No entanto, havia algo que eu não entendia e que havia muito me intrigava.
Por que Daniel e eu estávamos tão ligados?
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:34 am

Por que aquele sentimento nos unia quase como se fôssemos um só?
Eu precisava saber.
Só assim poderia, de verdade, transformar a minha vida e partir para um rumo melhor e mais bonito.
No dia seguinte, decidida, fui procurar Alfredo novamente.
Queria saber e pensava que ele poderia me esclarecer.
Quando expus minhas dúvidas, ele me encarou serenamente e perguntou:
— Quer recordar o passado?
— Se for a melhor forma de saber, sim.
— Está bem, Daniela, verei o que posso fazer.
Vou pedir autorização para esse processo de rememoração e, se for concedida, eu mesmo irei procurá-la para iniciarmos os procedimentos.
Saí agradecida.
No entanto, quando Alfredo me procurou, disse que o pedido havia sido negado.
Eu estava ainda muito crua no mundo dos espíritos, e lembrar do passado, naquele momento, só serviria para me confundir ainda mais.
Era preciso que eu esperasse, que aprendesse um pouco mais, que me preparasse emocional e psiquicamente para o que iria rememorar.
Não posso dizer que não fiquei decepcionada.
Fiquei, e muito.
Esperava sair dali já com tudo na cabeça, mas não foi o que aconteceu e eu tive que me conformar.
Passei então a me dedicar com mais empenho aos estudos e às orações.
Se antes eu só frequentava os diversos cursos que a colónia oferecia, agora assistia também às sessões de oração e comecei a ver em Deus não um protector benigno, porém distante, mas um amigo com o qual se pode contar em todos os momentos, sejam eles fáceis ou difíceis.
Aprendi que Deus não é um sonho distante, mas uma realidade bastante presente, porque aprendi a buscar Deus dentro de mim.
Foi muito bom me reconciliar com Ele.
Até então, embora eu lhe fosse muito grata por me haver tirado daquelas trevas, via na figura de Deus a imagem do Pai inacessível, que ampara seus filhos de longe, por detrás dos bastidores, sem se deixar ver ou tocar.
Mas depois que conheci os benefícios da prece, pude me sentir bem mais reconfortada, e a certeza de que Deus estava sempre presente, ao meu lado, fez com que eu O sentisse mais próximo de meu coração.
Foi só lá pela quarta tentativa que consegui autorização para relembrar meu passado.
Alfredo me acompanhou durante toda a sessão de rememoração que, no meu caso específico, se deu por um processo muito semelhante à hipnose.
Não vou tentar precisar quando tudo começou, porque as origens de meu amor por Daniel acabaram se perdendo em minhas próprias lembranças, de tão antigas que eram.
Creio que, desde os alvores do mundo, já nos amávamos, porque tive uma vaga lembrança de uma vida, no Egipto ou na Etiópia, onde éramos rei e rainha extremamente cruéis, e não hesitávamos em exterminar qualquer um que ousasse se interpor entre nós.
Revi brevemente algumas encarnações bem remotas, como na Grécia antiga, na Roma de Nero e até na índia, e estávamos sempre juntos, matando, roubando e tripudiando para alcançar nossos objectivos.
Em todas elas, nós nos uníamos para destruir e sabíamos que nossa união era poderosa, sempre a serviço do mal.
Além disso, havíamos desenvolvido uma sensualidade exacerbada e desenfreada, e não raras eram as vezes em que matávamos para nos excitar.
O cheiro de sangue funcionava como essência afrodisíaca, e costumávamos nos amar logo em seguida à execução de nossas vítimas.
Hoje, revendo tudo isso, percebo o quanto éramos primitivos, e o quanto também era primitivo o nosso amor.
Pude compreender por que estávamos tão ligados.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:34 am

Nós nos acostumáramos a nos encontrar sempre, e parecia que havíamos conseguido a ligação perfeita.
Éramos almas gémeas.
Esses encontros, que tinham começado havia muitos séculos, foram se repetindo a cada nova reencarnação, e nós sempre nos desvirtuávamos do caminho que primeiro havíamos escolhido, para nos entregarmos a todo tipo de loucuras e excessos.
Não poderíamos, portanto, nos desligar assim tão de repente.
Vivíamos praticamente em simbiose, tanto na carne quanto em espírito, e separar-nos era tarefa das mais árduas e dolorosas.
Era preciso que compreendêssemos a necessidade da separação, porque desperdiçáramos todas as chances que tivéramos para, juntos, conquistarmos a vitória.
Estava claro que nossa união, da forma como estávamos acostumados, jamais seria proveitosa e acabaria sempre nos atirando no mesmo precipício da imperfeição.
Lembro-me de uma vez, no princípio da Idade Média.
Eu era então uma nobre inglesa, sempre às voltas com meus tesouros e minhas terras.
Minha mãe fora mesmo minha mãe e morrera quando eu era ainda muito criança.
Fui criada por meu pai, hoje Marcelo, em meio aos mimos e caprichos, e crescera acostumada a ter tudo o que desejava.
Casei-me com um barão extremamente influente e importante, não porque o amasse, mas porque era rico e muito poderoso, apesar de bem mais velho.
Esse barão foi meu pai na vida que agora terminara.
Daniel era um rapaz musculoso e atraente, capitão do exército pessoal de meu marido (ou meu pai), casado com Ana Célia.
Dada a sua extraordinária beleza, logo me interessei por ele e tudo fiz para atraí-lo até minha cama, mas ele sempre se esquivava de mim, temendo uma reacção violenta de meu marido.
Até que, um dia, a sorte pareceu me sorrir, e ele foi a meus aposentos, levando um recado que acabara de ser entregue nas portas do palácio.
Meu marido, ausente numa caçada, informava que iria se demorar ainda um pouco mais, pois encontrara o rei de um feudo vizinho, muito amigo seu, que o convidara a passar uns dias em seu castelo.
Quando ele entrou, eu estava lendo uns pergaminhos e larguei-os logo que o vi.
Depois que o recado foi dado, o capitão se dirigiu para a porta do quarto, e eu, mais que depressa, me interpus em seu caminho.
Ele ficou confuso e estacou, com medo de me ofender.
Mais que depressa, segurei a sua mão e coloquei-a em meu seio, e ele não resistiu.
Agarrou-me com furor, e nós nos amamos ali mesmo, no chão, sem dizer uma palavra.
Quando terminamos, ele me beijou e se foi.
Daí em diante, sempre que meu marido saía, ele ia ao meu quarto e nós nos amávamos.
Com o passar do tempo, nosso amor foi se intensificando, e meu marido e a esposa de Daniel acabaram por se tornar um empecilho à nossa felicidade.
Decidimos nos livrar de ambos.
Foi fácil com Ana Célia.
Ela era uma moça pobre e sem títulos, e não haveria ninguém que se preocupasse com a sua sorte.
Eu mesma dei a Daniel o veneno com que iria matá-la, e ele deitou a poção em seu cálice de vinho sem que ela percebesse.
Minutos depois, o veneno fizera efeito, ela caíra fulminada, e a morte foi tida como natural, provavelmente por problemas de coração.
Já meu marido seria mais difícil.
Ele era poderoso e vivia cercado de guardas.
Fui procurar meu pai (Marcelo).
Ele gostava de mim e era muito ambicioso.
Sem pudor ou constrangimentos, contei-lhe de minha paixão por Daniel, pedindo-lhe conselhos sobre a melhor forma de me livrar de meu marido.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:35 am

Marcelo, meu pai, a princípio ficou preocupado.
Até que gostaria de poder usufruir da fortuna de meu marido, desperdiçando-a em bebidas e mulheres, como era de seu prazer, mas tinha medo das consequências que a morte de um homem tão poderoso poderia gerar.
No entanto, a ganância acabou falando mais alto.
Invadido pela cobiça, meu pai concordou em me auxiliar, em troca de uma considerável soma em ouro.
O trato foi feito, e meu pai executou o seu plano.
Subornou o soldado de maior confiança de meu marido, oferecendo-lhe uma pequena fortuna, e ele o matou a punhaladas, em sua barraca, enquanto dormia após um longo e exaustivo dia de caçada.
Como ninguém vira nada, e o soldado escolhido era de inteira confiança, o crime acabou por passar impune e nós ficamos livres para viver o nosso amor.
Meu pai recebeu o seu dinheiro, e Daniel e eu passamos a viver juntos, após o período próprio do luto, sem levantar muitas suspeitas.
Mantivéramos um romance tão secreto que ninguém nunca chegara a desconfiar.
Eliminados todos os obstáculos, passamos a viver com relativa tranquilidade, mas nossa sensualidade desenfreada fez com que vivêssemos entregues a um amor promíscuo, envolvendo outras pessoas em nossas relações, homens ou mulheres, não importava.
A única coisa que tinha importância era que queríamos sentir prazer e escolhíamos sempre mais uma ou duas pessoas para fazerem sexo connosco, em geral adolescentes recém--saídos da puberdade.
Daniel e eu vivíamos pelo sexo e para o sexo, e só paramos de nos envolver dessa forma quando o peso da idade começou a tolher as nossas forças.
Apesar dessa vida dissoluta e criminosa, o facto é que a atravessamos sem maiores dificuldades.
Os crimes que cometemos jamais foram descobertos, e nós morremos levando connosco nossos segredos de horror.
Depois disso, lembro-me de outra época, ainda na Inglaterra.
Eu era agora uma jovem aldeã, filha de um pobre pescador, que nada tinha de meu.
Era bonita, e os homens da região viviam a me assediar, embora meus pais tudo fizessem para me afastar de seus olhares lúbricos.
Um dia, interessei-me por um jovem forasteiro que para ali fora juntamente com a família.
Era casado e tinha dois filhos, o que, a princípio, pareceu um empecilho aos meus planos de conquista.
No entanto, o jovem também se interessou por mim e, em pouco tempo, tornamo-nos amantes.
Sua esposa, de constituição frágil, adoecera subitamente, e víramos ali a chance que queríamos para viver plenamente nossa paixão.
Não precisamos matá-la.
Bastou que deixássemos a natureza agir e, em pouco tempo, ela havia perecido, vítima da febre.
É claro que o forasteiro era Daniel, e sua esposa, novamente, era Ana Célia.
Aquilo para nós foi motivo de imensa alegria.
Contudo, havia ainda meus pais, que não consentiram no meu consórcio com o rapaz.
Meus pais, dessa vez, foram outros, que não têm ligação com o resto da minha história.
Meu pai mesmo se encontrava ainda no umbral, e minha mãe permanecera na vida espiritual, na esperança de poder resgatá-lo.
Bem, eles haviam recebido a proposta de um fidalgo idoso e viúvo, cansado da solidão.
O homem era muito rico, e meus pais viram nele um excelente negócio.
Fiquei horrorizada e tentei protestar.
Eu era linda e jovem, e não estava a fim de enterrar a minha vida no castelo de nenhum velhote.
Contei-lhes de minha paixão por Daniel, mas eles nem me ligaram importância.
Disseram que aquele amor era impossível e que tudo já estava arranjado.
O casamento se realizaria dali a um mês, e eu me mudaria para o castelo.
Não tinha com o que me preocupar.
O homem era abastado e generoso, e me daria uma vida de rainha.
Mas eu jamais poderia aceitar aquela vida insossa, longe do homem a quem amava.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 20, 2015 10:35 am

Numa madrugada fria, fugimos, deixando para trás as duas crianças, adormecidas em seus leitos.
Mais tarde soubemos que elas haviam sido adoptadas por uma família da região, que não as tratava lá muito bem.
E assim fomos vivendo um para o outro, sem ligar a menor importância a quem quer que nos rodeasse.
Depois, revi outra encarnação, em que Daniel e eu nascêramos homens.
Éramos amigos e muito ligados.
Ana Célia e Marcelo eram meus irmãos, e meus pais continuavam os mesmos.
Desde a infância, Ana Célia demonstrou enorme interesse por Daniel e ele, a princípio, pareceu se interessar também por ela.
Mas eu, sem saber o motivo, também comecei a gostar dele, e aquilo me horrorizou.
Daniel e Ana Célia acabaram se casando, embora eu estivesse certa de que o amava acima de todas as coisas.
No entanto, naquela época, o homossexualismo era punido até com a morte, e pensei não estar disposta a enfrentar um preconceito que sabia não poder vencer.
Depois do casamento, eles passaram a morar em uma vila perto da nossa.
Marcelo era muito meu amigo, e minha mãe, muito boa e afectuosa.
Ela já começara a evoluir seu espírito, despertando para verdades que nós, Daniel, papai e eu, estávamos ainda muito longe de conhecer.
Todos os domingos, Daniel e Ana Célia vinham nos visitar, ou então éramos nós que íamos até sua casa.
Cada vez que o encontrava, meu sangue parecia ferver, meu coração disparava, a respiração me faltava.
Ele também sentia o mesmo por mim, e passamos a trocar olhares e a inventar desculpas para nos aproximar.
Tudo isso era feito sem que pudéssemos reconhecer para nós mesmos que estávamos apaixonados um pelo outro.
Éramos dois homens, e essa paixão, mais do que proibida, seria motivo de escândalo e vergonha para nossas famílias.
Até que, um dia, o pior aconteceu.
Nós dois saímos a cavalo e resolvemos parar para descansar.
Fazia calor e o sol estava muito quente.
Descemos do cavalo e fomos nos sentar debaixo de uma árvore frondosa, que fornecia uma sombra fresca e agradável.
Inocentemente, começamos a conversar sobre amenidades, até que a conversa se desviou para o campo amoroso.
Ele queria saber se alguma moça já me havia conquistado o coração.
Eu disse que não, que não havia ninguém, e começamos a rir e a fingir que estávamos lutando, como faziam os rapazes saudáveis da época.
De repente, eu estava sobre ele, imobilizando seus braços, e foi quando senti uma estranha sensação percorrer todo o meu corpo.
Ele sentiu a mesma coisa, porque paramos de rir ao mesmo tempo e nos beijamos e fizemos amor.
Quando terminamos, estávamos arrasados.
Éramos homens, como podíamos ter feito e sentido prazer com aquele sexo imoral?
Sabíamos que, se alguém descobrisse, seria o nosso fim, e juramos que aquilo não iria se repetir.
No entanto, como conter a paixão e o desejo?
Nós nos amávamos e não podíamos evitar.
Não sabíamos como tinha acontecido, mas o facto é que acontecera.
Embora lutássemos contra aquele sentimento, ele foi mais forte do que nós, e continuamos a nos encontrar e nos amar, cada vez mais intensa e loucamente.
Daniel, como era de se esperar, começou a ficar diferente em casa, e até eu tinha ataques estranhos, variando de humor a cada instante.
Minha mãe ficou muito preocupada, achando que talvez eu sofresse de algum tipo de loucura, e meu irmão conversava comigo, tentando fazer com que eu lhe contasse a verdade.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 11:22 am

Só meu pai parecia adivinhar o que estava acontecendo.
Certa ocasião, ouvi quando ele dizia a minha mãe:
— Esse rapaz anda muito estranho.
Já reparou como ele tem certos trejeitos efeminados?
E por que não se interessa por nenhuma moça?
É jovem, está na idade de aproveitar a vida.
No entanto, prefere ficar em casa e só sai em companhia do cunhado.
Será que não é homem, meu Deus?
Minha mãe, embora seu coração a alertasse, recusava--se a crer em suas desconfianças e procurava afastar aquelas ideias da mente de meu pai.
— Não pense nisso.
Ele é muito jovem.
Apenas não encontrou ainda a moça certa.
Meu pai se calava, mas não se convencia.
Um dia, saíramos para fazer um piquenique e, enquanto todos estavam repousando, Daniel e eu fomos dar uma caminhada.
Estávamos no alto de uma montanha, e o mar lá embaixo se agigantava revolto, as ondas batendo nas pedras com fúria.
Era uma visão linda e aterradora.
Daniel, de repente, sentiu uma tontura, e eu o amparei para que não caísse.
Nesse gesto, ele segurou minha mão e a levou aos lábios, beijando-me logo em seguida.
Começamos a nos acariciar e a nos despir com furor, até que ouvimos um grito agudo e estacamos apavorados.
Ana Célia e minha mãe estavam ali, paradas bem ao nosso lado, as faces pálidas de horror.
Ana Célia, desesperada, desatou a correr, e Daniel partiu em seu encalço.
Mas eu, de tão assustada, não pude me mover e fiquei ali chorando, implorando a minha mãe que me perdoasse.
Ela, sem saber o que fazer, partiu para cima de mim e começou a me esbofetear, e eu me deixei bater passivamente.
Minha mãe estava envergonhada e não queria que meu pai descobrisse a verdade, não queria que ele sofresse.
Ela me batia e gritava:
— Por quê? Por quê?
Não lhe demos tudo?
Por que nos envergonha assim, seu miserável?
Acabou me empurrando penhasco abaixo.
Até hoje me lembro da sensação do vazio, da queda livre no espaço, da momentânea liberdade de estar solta no ar.
Breve, porém, meu corpo atingiu a água e logo foi atirado nas pedras e engolido pelas ondas.
Eu morrera e quase passara a odiar minha mãe.
Em suas orações, ela me pedia perdão, jurava que não tinha feito por querer.
Afirmava que me empurrara num momento de loucura e que jamais poderia prever que eu despencaria daquele jeito.
Não pensou que eu estivesse tão na beira do penhasco e chorava de dor.
Eu, porém, viva do outro lado, escutava suas preces com indiferença.
Não podia perdoar aquele gesto cruel, que me arrancara da vida de forma tão abrupta.
Daniel, por outro lado, nunca mais foi o mesmo e passou a viver atormentado, com medo de tudo, envergonhado de si mesmo.
Meu pai só não cortou relações com ele por causa de Ana Célia.
Ela era sua filha, e eles precisavam manter as aparências.
Não iria aceitar uma filha descasada por causa do irmão, que se apaixonara pelo cunhado e com ele mantivera insidioso romance.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 11:22 am

Não, definitivamente, não.
Jamais poderia suportar tamanha vergonha.
Disseram a todos que o filho morrera tragicamente ao escorregar da beira de um penhasco.
Ninguém tinha motivos para suspeitar dessa versão, porque ninguém sequer podia conceber a ideia de que uma família tão ilustre pudesse estar manchada pela vergonha da pederastia.
Essa havia sido minha antepenúltima encarnação.
Na que sucedeu, meu pai foi novamente meu pai, e Ana Célia, novamente, minha irmã mais nova.
Minha mãe, como sempre, aceitara o encargo de me ter como filha, e assim foi.
Vivíamos bem, e meu pai planejara para mim um casamento de pompa com o jovem filho de um nobre vizinho.
Esse jovem era Marcelo e tinha um irmão mais moço, que era Daniel, à época com apenas seis anos de idade.
Eu, onze anos mais velha, casei-me com Marcelo e fui morar em sua casa, junto com seus pais e seu irmão.
Quando Daniel alcançou a idade de catorze anos, comecei a me sentir atraída por ele, e ele por mim.
A paixão novamente irrompeu em nós e tornamo-nos amantes.
Eu contava então vinte e cinco anos, e Daniel não era mais que um menino.
Ele e Ana Célia eram praticamente da mesma idade e logo começaram a namorar, o que me deixou louca de ciúmes.
Ele, porém, me tranquilizava, dizendo que seu amor era por mim e que só aceitara namorar Ana Célia para não despertar suspeitas.
Eu fui me acalmando e acabei aceitando, confiante no seu amor.
Um dia, porém, recebemos a notícia de que Ana Célia estava grávida.
Foi um choque para todos nós, especialmente para papai, de uma rigidez inigualável.
Daniel foi chamado e acabou por confessar a verdade.
Tinha, num momento de insensatez, arrebatado a honra da menina, mas se comprometia a reparar o erro, casando-se com ela.
A princípio, foi uma confusão danada.
Meu pai esbracejou, queria matar, expulsar a filha de casa.
Mas depois, quando o pai de Daniel foi conversar com ele, papai acabou aceitando a situação, e marcaram o casamento para breve.
Fiquei desesperada.
Aquilo não podia estar acontecendo.
Fui procurar Daniel para tomar satisfações, e ele me disse que eu, com meus trinta e poucos anos, já estava ficando velha, e que ele precisava de uma esposa jovem para manter as aparências.
Fiquei furiosa e resolvi que não permitiria.
Decidida, parti para a casa de meus pais e fui encontrar Ana Célia sentada no jardim, bordando uma colcha para o seu enxoval.
Sem fazer rodeios, sentei-me ao seu lado e contei--Ihe tudo.
Disse-lhe que o amava e que ele me enganara, jurando-me amor.
Mentira, dizendo que meu marido não ligava para mim e que, por isso, cedera às insistências de Daniel.
Minha irmã ficou indignada.
Como ele pudera fazer aquilo?
Ele fora um covarde, um cafajeste, era verdade, mas o que poderia fazer?
Ela estava grávida e seria uma verdadeira desonra se não se casasse.
Sentia muito por mim, mas o melhor seria que nós nos separássemos de vez.
Eu já era uma senhora, e ela era ainda uma mocinha, que só agora iniciava a viver.
Talvez, se eu tivesse filhos, tivesse com o que me ocupar e não pensasse mais em Daniel.
Depois disso, levantou-se e se foi.
Fiquei furiosa.
Além de não conseguir separá-los, ainda fora humilhada e, o que era pior, revelara meu segredo a alguém que não me parecia digna de confiança.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 11:23 am

Saí dali apressada e voltei para casa sem saber o que fazer.
Durante os dias seguintes, não pude falar com Daniel.
Ele me evitava e, quando eu ia ao seu quarto, não me atendia, fingindo dormir.
Casaram-se cerca de um mês depois, e Daniel mudou-se para a casa de meus pais, onde Ana Célia estaria mais bem assistida na hora do parto.
Mas Daniel não podia prescindir de meu corpo, acostumado que fora ao amor livre e sem preconceitos.
Pouco tempo depois, quando a barriga volumosa de Ana Célia começou a dificultar o acto sexual, ele voltou a me procurar, e eu me esmerei para agradar-lhe, praticando um amor cada vez mais agressivo e selvagem.
Ele estava encantado comigo, ou melhor, fascinado pela minha arte de amar.
Eu sabia, realmente, dar prazer a um homem e direccionava toda a minha técnica para satisfazer o único homem que amara em toda a minha vida.
Em casa, Ana Célia começou a desconfiar do que estava acontecendo.
Ele estava estranho, distante, frio, e ela adivinhou que ele, não podendo mais possuí-la, voltara a me procurar.
Certa noite, papai nos convidou, a mim e a Marcelo, para jantarmos em sua casa.
Sem desconfiarmos de nada, partimos, eu feliz da vida por poder rever Daniel.
Notei que Ana Célia estava acabrunhada, quase não falou comigo, e que papai estava um pouco exasperado.
Minha mãe, sempre alegre, parecia alheia a tudo o que estava se passando, e Daniel agia como se nada estivesse acontecendo.
Após o jantar, meu pai nos levou para a biblioteca e, inesperadamente, começou a atirar-me na face diversas acusações:
— Sua ordinária, vagabunda!
Então atreve-se a se deitar com o marido de sua irmã, um rapazinho?
Não tem vergonha?
E o seu marido? Não o respeita?
Fiquei horrorizada e pensei em fugir dali.
Mas papai me segurou com força e começou a me bater com violência.
Tombei no chão, e mamãe correu a me acudir, gritando para que papai parasse.
Mas ele não parava.
Parecia haver perdido a razão e partiu para cima de mim novamente.
Marcelo, em sua indignação, não fazia nada para me ajudar, e pensei que fosse morrer, até que Daniel resolveu interferir, pedindo a papai que me soltasse.
Papai estava enlouquecido e sacou de uma pistola, apontando-a para Daniel.
Mas Daniel, jovem ainda, facilmente o desarmou e acabou atirando nele, matando-o a sangue-frio.
Foi um alvoroço. Daniel foi preso e condenado à morte.
Após a execução, não pude resistir e me matei também.
Estava desesperada, não podia viver sem ele.
Como da última vez, pensei encontrá-lo no além, mas não o vi e fiquei perdida, vagando em meio às trevas, sempre em contacto com espíritos maus e odiosos.
Fiquei assim durante muitos anos, até que tomei consciência de meu acto, me arrependi e pedi uma nova oportunidade.
Infelizmente, porém, por mais que tentasse, a paixão por Daniel fora mais forte e eu, novamente, sucumbira, vítima de minhas próprias paixões.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 11:23 am

CAPÍTULO SEIS

É engraçado como tudo se repete.
Minha mãe, por diversas vezes, aceitou com generosidade a tarefa de me dar a vida e por ela me guiar, e sempre se mostrou disposta a aprender.
De todos nós, era a que mais rápido evoluía, pois sempre procurava cumprir tudo aquilo a que se propunha quando na vida espiritual.
Já com meu pai foi diferente.
Ele sempre se demonstrou irascível e orgulhoso, e várias vezes competira connosco pelo poder.
Mas nunca pudera nos sobrepujar, pois sempre encarnava em situação inferior à nossa e acabava preso em nossa teia, devorado por nosso temperamento implacável.
Isso fizera com que ele, ao longo dos anos, fosse alimentando por nós um ódio cada vez mais crescente, até que reencarnou como nosso pai.
Tencionava com isso ser responsável por nós para aprender connosco o valor do respeito.
Mas tudo saíra errado e ele, em vez de evoluir no respeito, descambou para um autoritarismo que beirava a tirania e o despotismo.
Ana Célia, por sua vez, jamais pudera me superar.
Se meu pai competia comigo pelo poder, ela competia no amor.
Sempre apaixonada por Daniel, acabava perdendo-o para mim.
Mas, como a alma feminina tende a ser mais sensível e maleável, era mais fácil alcançar seu coração, e ela acabava por aceitar as novas tentativas de poder viver com seu amado, desfrutando também de uma relação pacífica comigo.
A princípio, até que dava certo.
Mas depois, quando Daniel e eu passávamos a amantes, todo o rancor retornava, e Ana Célia, a exemplo de meu pai, enchia-se de ódio contra mim.
Marcelo, assim como minha mãe, era uma alma em franca evolução.
Errara e caíra, mas com que determinação se levantava!
Marcelo era o tipo de espírito que aceitava seus erros com naturalidade, sem o peso da culpa, e logo compreendeu a necessidade de mudar.
Sempre gostou muito de mim, daí porque estava quase sempre a meu lado, propondo-se a me ajudar.
Ao final de minhas lembranças, voltei para meu quarto sem dizer nada e fiquei pensando nisso.
Pensei no quanto éramos falíveis e como éramos orgulhosos, nos considerando perfeitos e melhores do que os outros.
Estávamos enganados.
Cada um de nós, à sua maneira, estava tentando aprender e tinha o seu quinhão a passar.
Envolvendo-nos ou não com a história dos outros, o facto é que tínhamos a nossa própria história e era com ela que aprendíamos o valor do amor e do respeito.
No dia seguinte, Alfredo veio conversar comigo.
Queria saber se eu estava bem, se havia compreendido o porquê de meus processos de crescimento, minhas lutas e meus sofrimentos.
Fiquei muito feliz ao vê-lo, porque estava ainda um pouco chocada com aquilo tudo.
— E aí, Daniela, qual foi o proveito que tirou de tudo o que rememorou?
— Não sei ao certo.
Penso que errei muito e continuo errando até hoje.
— Sim, mas, e daí?
Para que serviram tantos erros?
— Não sei.
Para me mostrar o quanto sou imperfeita, o quanto sou atrasada.
— E que conclusões pode tirar de tudo isso?
— Bem, creio que preciso ainda pagar por meus erros.
Fiz muita gente sofrer e só poderei dizer que sou feliz no dia em que me considerar quitada de tantos débitos.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 11:23 am

— Minha querida, você não precisa pagar por nada.
A gente só paga por aquilo que compra e, como a felicidade não está à venda, não tem preço, e ninguém precisa pagar para ser feliz.
Os erros são depurados pela conquista.
Quando você aprende com suas próprias atitudes, entende que elas são prejudiciais a você mesma e a seus semelhantes, você conquista o conhecimento do bem e, consequentemente, conquista a sua felicidade.
Por isso, não fale nunca em pagar.
Aqui não se paga por nada, não há dívidas.
Há, sim, experiências que adquirimos em função de nosso conhecimento ou de nossa ignorância, mas isso não significa que tenhamos contraído débitos que, mais tarde, tenhamos que saldar.
Essa definição traz a ideia de um negócio, de uma transacção, onde há sempre uma parte credora e uma devedora.
— Pensando bem, não é isso que realmente acontece?
Não seremos nós devedores daqueles a quem prejudicamos e credores de quem nos prejudica?
— Essa visão é mesquinha e falaciosa, além de encerrar uma desculpa conveniente para nossas acções ou omissões danosas.
Se assim pensarmos, seremos sempre credores e devedores ao mesmo tempo, pois não há acção que não tenha sido gerada por outra, seja nessa, seja em uma vida passada.
Quando eu falho com você, não o faço porque esteja cobrando um mal anterior nem porque você esteja pagando algo que me deve.
Não. Quando erro com você, é porque ainda não amadureci o suficiente para compreender o mal que estou infligindo a mim mesmo, seja porque não soube perdoar, seja porque sou ainda egoísta, seja porque sou orgulhoso.
Não importa.
A falta de perdão, o orgulho e o egoísmo nada mais são do que um reflexo de nossa própria ignorância e tendem a desaparecer na medida em que o ser humano evolui e descobre os verdadeiros valores da vida.
Ainda que eu aja com a intenção de lhe cobrar um mal que você me fez, ainda assim, não há que se falar em débitos.
Se eu lhe cobro algo, é porque ainda não aprendi a perdoar, assim como você paga porque ainda não aprendeu a perdoar-se a si mesma.
Olhei para ele e abaixei os olhos logo em seguida.
Estava envergonhada de minha burrice.
— Sinto muito, Alfredo, tem razão.
Você vive dizendo a mesma coisa, não é?
Deve ser para ver se entra na minha cabeça dura.
Foi uma asneira o que eu disse.
— Não foi asneira nenhuma.
É vergonhoso continuar na ignorância, com medo ou por orgulho de se expor e assumir que não sabe.
É como muita gente faz:
pede ao vizinho para ler uma carta porque os óculos quebraram e ela não enxerga sem eles.
Na verdade, não sabe ler e tem vergonha de assumir.
Não tenha receio ou vergonha de suas limitações.
Tenha, sim, vontade de aprender e coragem para assumir sua ignorância.
É melhor do que ficar fingindo que sabe algo que não sabe e que, mais tarde, você não poderá ocultar.
A vida sempre nos coloca diante de situações em que somos obrigados a assumir quem realmente somos.
Alfredo se despediu e saiu, e eu fiquei pensando.
Ele estava certo.
Eu havia feito muitas bobagens, era verdade, mas não fora a única.
Estava apenas tentando ser feliz à minha maneira, só que não sabia ainda que a felicidade a gente conquista por nossos méritos, e não passando por cima da felicidade alheia.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 11:23 am

Por outro lado, ninguém se submete às maldades de outrem se a elas não deu causa e, seja de forma consciente ou não, consente em que o mal invada suas vidas.
Agora eu começava mesmo a compreender a via de mão dupla em que nos encontrávamos todos, sem excepção.
Somos os únicos responsáveis por nossos actos, e todo o mal ou o bem que sofremos nada mais é do que o reflexo de nossas próprias atitudes.
Se alguém me ofende, posso me sentir ofendida ou não, e essa é a minha parte, o meu pedaço.
Mas quem me ofendeu também tem o seu quinhão e terá que aprender, um dia, a respeitar seus semelhantes.
Cada um terá que prestar contas de seus actos, independente da reacção de seu irmão.
Se a ofensa que me atiraram na face não me atingiu, óptimo para mim, porque reconheço que aquela ofensa não me pertence e não a recebo em meu coração.
Mas quem a atirou, mais cedo ou mais tarde, terá que reconhecer que não deve ofender seus semelhantes, porque não deve fazer aos outros aquilo que não gostaria que lhe fizessem.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 11:24 am

CAPÍTULO SETE

Era bem de manhãzinha quando Alfredo chegou a meu quarto, em companhia de minha mãe.
Sempre que podia, minha mãe vinha me visitar, o que me alegrava imensamente.
Naquele dia, senti necessidade de trocar minhas experiências passadas com eles, e ficamos conversando durante longas horas.
— Sabem de uma coisa? — comecei a dizer.
Agora posso compreender muitas coisas que se passaram comigo.
— Que bom, minha filha — falou mamãe.
As lembranças de vidas passadas somente têm sentido quando delas podemos tirar algum ensinamento útil.
— É verdade — acrescentou Alfredo.
De nada valeria recordar o passado se não se pudesse dele extrair valorosas lições para o futuro.
De nada adiantariam suas lembranças se o único sentimento que a movesse fosse, por exemplo, a curiosidade.
Saciada esta, de nada teriam valido as suas experiências e, ou elas cairiam no esquecimento, ou você acabaria por se revoltar diante de tantos infortúnios.
— Sim. Hoje entendo bem isso.
Ainda mais depois da conversa que tive com você.
— Fico muito feliz em poder ser-lhe útil.
— E então, minha filha? — prosseguiu minha mãe.
— O que tem a nos dizer de tudo isso? Como reverter suas lembranças em proveito próprio?
— Bom, creio que a primeira coisa foi tirar mais um pouco do peso do incesto de cima de mim.
Vi que Daniel e eu, há muitas vidas, somos apaixonados, e que nosso amor não poderia terminar assim, de uma hora para outra.
Só o que não pude entender muito bem foi por que tivemos que passar por tudo isso.
Sinto como se nosso amor fosse proibido, mas por quê?
— Deixe que lhe responda — apressou-se Alfredo.
— Como pôde perceber você e Daniel sempre viveram um amor intenso, embora destrutivo.
Vocês se uniram para, fortalecidos, esmagar seus inimigos e desafectos.
Em nome desse amor, não hesitaram em destruir quem quer que fosse, matando, humilhando, desvirtuando e abandonando aqueles que estavam próximos a vocês.
E tudo isso em nome de um egoísmo desmesurado, de um excessivo apego aos próprios prazeres.
O sentimento que nutriam um pelo outro não podia ser denominado, propriamente, de amor.
— Não? E o que era então?
— Uma espécie de enfermidade da alma, que não consegue enxergar nada nem ninguém e sai atropelando todas as barreiras só para poder viver aquilo que deseja.
Não é muito próprio falar em amor verdadeiro, pois, se não há verdade no amor, não há amor em seu sentido mais puro e genuíno.
— Desculpe-me, Alfredo, mas não posso concordar.
Tenho certeza de que o que sentíamos um pelo outro era mesmo amor.
E dos mais fortes.
— Não, minha querida, não confunda paixão, desejo, afinidade de propósitos e instintos com amor.
O amor é um sentimento puro e sublime, que eleva as almas à perfeição.
O amor jamais destrói.
Quando isso acontece, o que se tem, na realidade, é uma paixão ou uma fixação.
— Fixação? Essa é boa.
— Não entenda fixação em seu sentido vulgar.
Entenda-a como um sentimento doentio que faz com que a pessoa veja na outra a sua própria vida, e tudo o mais passa a não ter importância alguma.
Isso faz com que se torne possessiva, ciumenta, exclusivista e extremamente apegada.
O amor não faz nada disso.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 11:24 am

Ele é livre e desapegado, e quem ama sabe reconhecer o amor em seu semelhante apenas pelos gestos de compreensão e carinho.
Amor é confiança, e quando se confia não se tem necessidade de prender, porque não se teme a perda.
— Seja como for que queira chamar, Alfredo, não importa.
O facto é que o meu sentimento por Daniel não é igual a nada que já tenha sentido por qualquer outra pessoa.
— É verdade.
Mas, se você o amasse verdadeiramente, saberia compreender e renunciar, em vez de tentar prendê-lo, à revelia mesmo de seus próprios sentimentos e desejos, como fez em sua última encarnação.
— Alfredo está certo — interveio minha mãe.
Veja o amor materno, por exemplo.
Quem já experimentou o amor de mãe compreende as necessidades dos filhos, sabe entendê-los e respeitá-los, e jamais se utiliza de artifícios para mantê-los por perto.
Ao contrário, sabe que, mesmo distante, continuam habitando seu coração, sem que o amor que sente por eles diminua com a distância ou a ausência.
Abaixei os olhos, novamente envergonhada de mim mesma.
Por que será que ainda insistia em dizer que amava Daniel?
Por que não queria perdê-lo?
Por que temia descobrir que, depois de tudo por que passamos, na verdade, nunca nos havíamos amado mesmo?
Ou seria o orgulho de admitir que me enganara, vivenciando um sentimento que servia apenas aos meus instintos mais primitivos e não ao meu coração?
Com voz sumida, respondi:
Têm razão.
Mas, naquela época, eu não podia ver as coisas desse jeito e achava que realmente o amava.
Nós estávamos cegos, não sabíamos dessas coisas e, em nome daquele amor, poderíamos justificar qualquer ato de insanidade.
— Será mesmo?
Será que não foram, por diversas vezes, alertados de que estavam se destruindo e destruindo seus semelhantes?
— Não sei.
— Pois foram.
Todas as vezes em que desencarnaram, você e Daniel foram esclarecidos sobre seus actos, tomaram consciência do mal que fizeram e sempre desejaram repará-lo.
No entanto, ao se verem novamente na carne, o vício que possuíam voltou com toda força, e vocês não conseguiram se desapegar um do outro.
— Acha mesmo que era um vício?
— Acho não, tenho certeza.
Esse sentimento daninho, que não consegue se libertar e retroceder em nome do bem, nada mais é do que um vício, uma dependência, e se não estamos dispostos e bem preparados, não conseguimos largá-lo.
É como o fumo ou a bebida.
Quantas vezes pensamos em parar de fumar ou beber, e até conseguimos, desde que longe do cigarro ou do álcool?
Mas, na primeira oportunidade que temos, voltamos ao vício e nos damos por vencidos e convencidos de que não somos capazes.
Então, assumimos nossa impotência diante da dificuldade e nos entregamos ao mal novamente, nos enganando que tentamos, mas que a dependência foi mais forte do que nós.
Sempre nos desculpamos, afirmando que tentamos algo que está acima de nossas forças, quando a única coisa que basta para medirmos o tamanho de nossa força é a confiança que temos em nós mesmos.
Somos capazes de muitas coisas, mas não acreditamos que podemos, e aquilo que seria difícil transforma-se em algo quase impossível, porque nos recusamos a crer que somos capazes.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 11:24 am

Assim foi com você e com Daniel.
Todas as vezes em que reencarnaram, levaram consigo o germe da vitória, mas como era preciso que esse germe fosse alimentado com luta e com esforço, vocês desistiram no meio do caminho, sem disposição para a batalha.
Na verdade, não queriam enfrentar-se a si próprios, pois a luta mais difícil é aquela que travamos contra nossas tendências e pendores.
— Foi por isso que nascemos em situações que, a princípio, deveriam dificultar nosso encontro?
— Foi por isso que nasceram em situações que, em face das convenções humanas, os impeliriam ao amor genuíno, fraterno, sem desejos ou paixões.
No entanto, vocês não estavam, verdadeiramente, dispostos a mudar, e o corpo não foi suficiente para conter a avassaladora paixão a que estavam acostumados.
— Foi por isso que cheguei a nascer homem?
— Nas primeiras encarnações que você recordou você pôde perceber o quanto sua união com Daniel era prejudicial, principalmente a vocês mesmos, pois emperravam o seu crescimento.
Vocês mataram, roubaram, mentiram, subornaram... abandonaram crianças indefesas às agruras da orfandade.
E tudo isso para quê?
Para poderem viver livremente suas paixões, saciando seus instintos inferiores, satisfazendo sua luxúria.
Com isso, foram se enterrando mais e mais no egoísmo e na soberba, aniquilando um sentimento que poderia ter sido puro, se soubessem renunciar.
Quem renúncia é porque ama muito, pois só um amor verdadeiro é capaz de compreender a hora de recuar, de ceder, de abrir mão.
O amor deve fluir de coração para coração, e não de sexo para sexo.
É claro que o sexo é complemento sublime do amor, mas o sexo desenfreado se utiliza do amor como pretexto para justificar-se a si mesmo.
É apenas uma roupagem, uma carcaça que se desnuda logo que confrontado com as verdadeiras consequências do amor.
Eu continuava calada, e ele prosseguiu:
Quanto ao fato de você haver nascido homem, não foi para proibi-los de amar.
Foi apenas para que vocês pudessem tentar transformar aquele sentimento.
Como lhe disse, as convenções sociais, ainda mais naquela época, tendem a nos impor padrões de conduta que, muitas vezes, nos auxiliam a encontrar o caminho do bem.
Não quero com isso dizer que o homossexualismo seja um erro ou que é certo ter preconceitos.
Em absoluto.
O homossexualismo, como tudo mais, existe por uma necessidade do espírito, para fazê-lo crescer.
Nada na natureza de Deus é errado, e a única coisa que importa é o que vai no coração dos homens.
— Quer dizer, então, que o homossexualismo é irrelevante aos olhos de Deus?
— Como na natureza tudo é perfeito, nada pode ser irrelevante.
Se existe, é porque tem importância para o crescimento humano.
Mas não confunda relevância com defeito.
Tudo o que existe é relevante, porque é importante para o aprendizado, o que não significa que apresente defeitos.
Ser homossexual é relevante porque, quem assim nasce, optou por essa condição para poder crescer.
Se houve essa escolha a serviço do bem, não pode ser irrelevante, como não o seria se desvirtuada para o mal.
Mas não há erro ou engano na condição de homossexual, porque só é errado aquilo que vai de encontro à lei universal de Deus, que é a lei do amor.
Se dois homossexuais se amam, não há nada de feio ou de errado nisso.
Mas se, para concretizarem esse amor, tiverem, por exemplo, que trair, enganar, mentir, há um desvio a ser corrigido, que não é o do sexo, mas o dos métodos utilizados para a realização de seus objectivos.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 21, 2015 11:24 am

No seu caso, Daniela, você não nasceu, propriamente, para ser homossexual.
Nasceu para ser uma criatura do sexo masculino porque pensou que, diante dos preconceitos, você poderia se libertar da paixão por Daniel.
Era sua intenção aproveitar-se de algo que já existia muito antes de você e que poderia muito bem servir aos seus propósitos, que é o preconceito.
Não estou dizendo que é certo ter preconceito. Pelo contrário.
Toda forma de preconceito deve ser abolida, porque cria uma distinção em factos que Deus jamais distinguiu.
Mas, como tudo o mais, ele pode estar a serviço de uma causa maior, quando serve para nos mostrar certas coisas que não queremos ver.
— Eu escolhi passar pelo preconceito?
— Não. Você escolheu aproveitar-se do preconceito para se conter.
Foi uma imposição que fez a si mesma.
Poderia não ter escolhido isso.
Mas você quis escolher aquele corpo, a fim de vencer-se a si própria, afastando a paixão por Daniel.
No entanto, o sentimento que os unia estava além do corpo físico, e apenas a igualdade de sexos não foi suficiente para impedi-los de se relacionar.
Os sentimentos não são limitados pelo sexo.
Em muitos casos, o sexo ajuda bastante, desde que se compreenda.
Não significa que tenhamos que lutar contra nós mesmos, por medo ou preconceito.
O que precisamos vencer é a forma como nos relacionamos com o outro.
Não a forma corpórea, mas a maneira de sentir e de externar nosso sentimento.
— Quer dizer então que não adiantou nada Daniel e eu nascermos homens só para contermos o nosso amor?
— Como pode o sentimento, que é imaterial, ser contido pela matéria?
É impossível.
O amor transcende o corpo físico e independe dele para se manifestar.
Vocês não deveriam conter o sentimento.
Deveriam transformá-lo.
Vocês não estavam proibidos de se amar porque eram homens, porque essa proibição não existe.
A masculinidade foi apenas um instrumento, uma tentativa de transformação.
Mas se, ainda assim, o sentimento falasse mais alto, como falou vocês ainda tinham a chance de viver aquele amor de maneira sublime, sem atingir ou ferir ninguém.
Estariam então aprendendo a transformar pelo amor genuíno, sem precisar passar pela dor.
— Mas como?
Daniel era casado, e eu também era homem!
Como poderíamos não atingir os outros?
— Com a verdade.
— Verdade? Seríamos execrados.
— A certeza da verdade dá ao espírito forças para enfrentar as vicissitudes.
Vocês escolheram reencarnar como homens para tentar transformar o sentimento de vocês em amor genuíno.
Mas, se ainda assim, não conseguissem, ninguém poderia acusá-los de nada.
Se tivessem falado a verdade, a despeito do horror e da decepção que causariam em seus familiares e na sociedade, teriam tido a chance de vivenciar um amor que, embora incompreendido, já estaria se transformando, porque verdadeiro.
Ninguém é culpado por amar, mas é responsável pelo mal que pratica em nome desse amor.
Aos outros e a si mesmos.
— Fala como se fosse fácil.
— Sei que não é.
E é por isso que vemos tantos homossexuais reprimidos ou caídos na marginalidade.
Porque eles são os primeiros a não se aceitarem e a não acreditarem que não estão cometendo nenhum pecado.
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Re: Desejo - Até onde ele pode te levar? -Daniela e Leonel / Mónica de Castro

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