O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 8:39 pm

-Meu pai sempre dizia que tudo o que vem fácil vai embora fácil.
Veja o que aconteceu com ele.
Perdeu tudo o que tinha.
-Seu pai perdeu tudo o que tinha porque era um irresponsável - rebateu Adamo.
Natália arregalou os olhos.
-Sim, mas...
-Mas - continuou Adamo - a vida responde primeiro às nossas atitudes.
-Sim, eu compreendo.
Meu pai foi punido.
-Não. A vida jamais pune.
A vida educa, isso sim.
O que enxergamos como negativo é simplesmente um estímulo da vida para que mudemos para melhor.
A vida sempre trabalha pelo nosso melhor.
Valéria interveio:
-Então, o que me diz?
-Não sei.
-Trata-se de uma proposta irrecusável - tornou Adamo.
Considere que tem nas mãos um bilhete premiado de lotaria.
-É uma mudança muito brusca - considerou Natália.
-E daí? - retrucou Valéria.
Eu bem me lembro quando você e sua mãe tiveram de sair daquele casarão para viver num sobradinho de dois quartos.
Quer mudança mais brusca que essa?
Ambas conseguiram superar as adversidades e adaptaram-se rapidamente à nova vida.
-Dessa vez ocorre de maneira diferente e muito melhor - ponderou Adamo.
Você vai para um país maravilhoso, conhecer pessoas interessantes, outra cultura, outros hábitos.
Vai estudar numa das escolas de arte mais prestigiadas da Europa e vai estar ao lado de Valéria.
E, de quebra, eu poderei vê-la mais vezes.
Natália sentiu o chão se abrir.
Não sabia se continuava olhando para Adamo ou se desviava os olhos.
Valéria percebeu e intercedeu:
-Tio, pode nos dar licença por instantes?
Preciso trocar de roupa.
-Pois não. Mas lembre-se - disse ele, olhando fixamente para Natália - que sua companhia me fará muito bem.
Adamo falou e saiu, fechando a porta com delicadeza.
Natália não movia um músculo.
Ficou parada no meio do quarto feito estátua.
Valéria fez um movimento gracioso com a mão para cima e para baixo, chamando a atenção da amiga:
-Ei! Aconteceu alguma coisa?
Natália voltou a si e sentou-se na cama, desarvorada.
-É impressão minha ou seu tio está interessado em mim?
-Interessado? - Valéria perguntou num sorriso maroto.
Ele está interessadíssimo.
Percebi faz alguns dias.
Ele ficava nos rodeando, pedindo para convidá-la para um chá.
Acho que você o fisgou!
-Nem acredito - Natália colocou a mão no peito.
- Eu estava interessada no Adamo, mas comecei a afastar a ideia de relacionamento sério.
-Ora, por quê?
-Adamo tem vinte anos a mais que eu, Valéria.
Tem idade para ser meu pai.
-Que comparação mais boba, Natália.
Qual o problema dessa diferença?
Eu não vejo nenhum.
Meu tio é bonito, solteiro, é inteligente e nem aparenta a idade que tem.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 8:40 pm

-Há uma grande diferença, sim.
Ele morou fora muitos anos, tem experiência...
-Experiência suficiente para chegar à conclusão de que vale a pena abrir o coração para você.
Eu nunca soube que tio Adamo tivesse interesse em outra mulher antes.
Nunca nos apresentou uma namorada.
-E foi logo se interessar por mim?
Uma garota comum, sem grandes atractivos?
-Pare de se colocar para baixo.
Você precisa valorizar suas qualidades.
Nem todos se interessam somente pela beleza física.
Se a pessoa não tiver conteúdo, o relacionamento não vai para frente.
A beleza um dia vai embora, mas o que somos e sentimos - Valéria botou a mão no peito - ninguém tira.
-Confesso que estou mais calma.
Adamo mexe muito comigo.
-Deixe de medos.
Vamos viajar juntas, viver juntas.
Somos praticamente irmãs.
A sua companhia vai me fazer tão bem.
-Vou conversar com mamãe.
-Isso mesmo. Reflicta e...
Valéria parou de falar.
Sentiu um torpor, uma náusea sem igual.
Colocou a mão na boca e correu até o banheiro.
Natália foi atrás.
-O que foi? - perguntou, aflita.
-Não sei. Tenho passado mal faz alguns dias.
-Por que nunca me disse nada?
-Bobagem, Natália.
Deve ser a ansiedade da viagem.
-Melhor consultarmos um médico.
-Não. Isso passa.
Uma das empregadas bateu na porta.
-Dona Valéria, seu chá.
Onde posso colocar a bandeja?
-Ali, sobre a cómoda - instruiu Valéria.
Ela limpou a boca, deu descarga e passou um pouco de água no pescoço.
-Sente-se melhor? - perguntou Natália.
-Sim.
Mas, ao chegar próximo da bandeja e sentir o aroma dos biscoitinhos, Valéria sentiu novo enjoo e voltou correndo para o banheiro.
-Não é normal - assegurou Natália.
-Algo que comi atacou meu fígado.
-Querendo ou não, vamos ao médico.
Valéria protestou, contudo Natália não sossegaria enquanto não marcassem uma consulta.
Ela concordou e no fim da tarde foram ao consultório.
O médico fez as perguntas de praxe e solicitou alguns exames.
Apesar da espera dos exames, os sintomas eram claros.
Valéria tinha enjoos logo na manhã, os seios estavam inchados e a menstruação estava atrasada.
Natália tinha certeza do resultado, mas esperou o médico dizer para Valéria, dias depois:
-A senhorita está grávida.
Naquela mesma tarde, Aríete chegou do trabalho muito cansada.
Havia dactilografado relatórios o dia todo e os dedos das mãos estavam doloridos.
Ela entrou em casa, jogou a bolsa sobre a mesinha lateral e estirou-se no sofá.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 8:40 pm

Alzira veio em seguida.
-Está cansada. O que foi?
-Nada. Um dia de trabalho como outro qualquer.
-Não está com a aparência muito boa.
Por acaso brigou com Osvaldo?
-De maneira alguma.
O namoro está indo muito bem.
Embora esteja cansada - tornou Aríete, sorridente - tenho um comunicado a lhe fazer.
-O que é?
-Osvaldo quer noivar.
Alzira levou a mão à boca.
-Jura?
-Hum, hum.
Quer que fiquemos noivos no Natal.
-Mesmo?
-E vamos nos casar daqui dois anos.
Alzira correu e puxou os braços de Aríete.
-Dê-me um abraço, minha irmã.
Como estou feliz por você.
Aríete levantou-se e abraçaram-se emocionadas.
-Vou me casar com o homem que amo e seremos muito felizes.
-Tenho certeza disso.
-E você e o Eugénio?
-Estamos indo.
Engatamos o namoro.
Vou conhecer a mãe dele semana que vem.
Ele vai dar um almoço para me introduzir a família - disse Alzira apreensiva.
-Por que está desse jeito?
-Não somos ricas.
Recebemos boa educação da mamãe, temos modos.
Mas não temos dinheiro.
-Eugénio sabe de sua condição e gosta de você mesmo assim.
Parece que a família dele não liga para diferenças de classe social.
Você é uma óptima pessoa.
Quem não se apaixonaria por você?
Alzira a abraçou com força.
-Depois de tudo o que passamos, nem acredito que o ano esteja indo tão bem.
-Para você ver!
Começamos o ano tão para baixo, desanimadas e sem estímulo.
O pai nos colocou para fora de casa e achávamos que nossa vida seria terrível.
No fim das contas, tudo melhorou.
Alzira concordou com a cabeça e ouviram a voz de Lurdes, vinda do corredor:
-Tudo melhorou e vai melhorar a cada dia que passa.
Merecemos o melhor.
As duas se aproximaram de Lurdes.
Abraçaram a tia e depositaram delicado beijo em sua face.
-Não sabemos como agradecê-la, tia Lurdes - disse Alzira, emocionada.
-Nunca vou me esquecer de sua generosidade.
Nós a amamos muito.
Lurdes sorriu e os olhos marejaram.
Adorava as sobrinhas.
O encontro com elas tinha sido a melhor coisa que lhe ocorrera em anos.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 8:40 pm

-O pai foi muito duro connosco - disse Alzira.
Tínhamos medo da senhora.
-Por quê? - indagou Lurdes, curiosa.
-Porque seu nome não podia ser pronunciado em casa.
E o pai a chamou de rameira quando nos largou aqui.
Desculpe falar assim, tia - disse Aríete.
-Não precisa se desculpar - respondeu Lurdes.
-Não quero me intrometer, mas por que o pai não gosta de você? - perguntou Aríete, curiosa.
Lurdes fez sinal para elas se sentarem.
As moças concordaram com a cabeça e acomodaram-se no sofá.
Lurdes permaneceu sentada entre elas.
-Vocês são adultas e estão vivendo o amor.
Elas assentiram e Lurdes prosseguiu:
-Talvez entendam o que se passou comigo.
Olair e eu somos de uma família muito grande e muito pobre.
Viemos de Jutaí, no Amazonas, e fomos os únicos com coragem de descer o país até São Paulo.
Alguns irmãos permaneceram por lá, outros foram para Goiás.
Eu não tenho contacto com mais nenhum deles.
Eu era a única filha mulher entre nove irmãos.
Todos casaram e foram viver suas vidas.
Aríete e Alzira fizeram sim com a cabeça e Lurdes continuou:
-Olair era o meu protector.
Nós éramos muito próximos e muito amigos.
-Difícil acreditar - disse Aríete.
O pai sempre foi grosso e estúpido.
-Creio que Olair ficou assim por minha causa.
-Como assim? - indagou Alzira.
-Como disse, éramos muito próximos.
Olair conheceu Josefa, apaixonaram-se e resolveram casar.
Eu fui morar com eles.
-Nunca soubemos disso - interveio Aríete.
-Porque seu pai tem vergonha de mim.
Eu comecei a namorar um moço, também de família humilde, e tínhamos planos de casar.
Ficamos noivos e ele marcou a data.
Mas ele se apaixonou por outra e rompeu comigo.
-Que triste! - suspirou Alzira.
-Isso não era motivo para o pai ter tanta raiva de você.
-Não era - tornou Lurdes.
Depois de um mês do rompimento, descobri que estava grávida.
As meninas engoliram em seco.
Lurdes deu continuidade:
-Olair não se conformou.
Chamou-me de tudo quanto era nome feio.
Josefa tentou me defender, mas em vão.
Meu irmão, sentindo-se traído em sua honra, colocou-me para fora de casa.
-E o que aconteceu depois, tia? - perguntou Alzira, quase em prantos.
-Fui morar numa pensão para mulheres grávidas, lá em Santana.
No terceiro mês de gravidez, tive uma forte hemorragia e perdi o bebé.
Daí quis recomeçar minha vida.
Fiz amizade com Célia e Ariovaldo, que eram recém-casados e moravam perto da pensão, na época.
Eles eram muito amigos de um casal que morava aqui em Rudge Ramos e eles me acolheram.
Consegui um emprego numa montadora de veículos e fui levando a vida.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 8:40 pm

De vez em quando, trocava correspondência com a Zefa.
Eu mandava as cartas para a casa da Célia e Zefa fazia o mesmo, escrevendo e enviando cartas para mim.
Foi dessa forma que acompanhei o crescimento de vocês, o comportamento terrível de Olair, que piorou ao longo dos anos, a doença de Josefa...
Lurdes levantou-se, caminhou até o corredor e abriu a porta de uma pequena cómoda.
De lá tirou uma caixa grande.
Trouxe até o sofá e, ao abri-la, havia um calhamaço de cartas amareladas pelo tempo.
Ela mostrou o pacote de cartas delicadamente enrolado num laço de fita de cetim e mostrou uma foto para elas.
Aríete reconheceu a foto:
-Mamãe tinha essa mesma foto, mas estava cortada ao meio.
-Tiramos essa foto logo quando seus pais se casaram.
Naquele tempo, éramos muito felizes.
-E depois, tia.
O que aconteceu? - indagou Alzira, ansiosa.
-Dona Carminha e seu Orlando, o casal que me acolheu, morreram há alguns anos e, como não tinham filhos, deixaram-me esta casa de herança.
Eu continuei trabalhando e aposentei-me por tempo de serviço no ano passado.
A aposentadoria não é lá essas coisas, mas dá para pagar as contas e ter uma vida modesta, sem luxos.
-Nunca mais teve notícias do ex-noivo? - indagou Aríete.
-Não - respondeu Lurdes, olhando para um ponto indefinido da sala.
E também não quis mais saber.
Se o bebé tivesse vingado, talvez eu o procurasse.
No entanto, depois de tudo o que me aconteceu, para que ir atrás de quem não nos ama?
Aprendi a me valorizar e me amar.
-Tem razão, titia.
Devemos valorizar quem nos ama.
Por isso que não queremos mais saber do pai - disse Aríete, de maneira seca.
Não vou convidá-lo para o meu noivado e tão pouco para meu casamento.
Vou entrar sozinha na igreja.
-Seu pai não tem culpa de ser assim.
Olair fez o melhor que pôde.
-Tia, ele a expulsou de casa e não lhe deu abrigo ou mesmo protecção.
Como pode defendê-lo? - Aríete estava irritada.
-Porque eu conheço seu pai desde que éramos crianças.
-E daí? Não justifica sua grosseria.
-Nossos pais também não nos deram amor e carinho.
Tivemos uma vida muito dura e eu era um modelo de irmã perfeita.
Quando engravidei, meu irmão sentiu raiva por eu ter cedido a um homem que me trocou como quem faz troca num mercado.
Olair sentiu raiva do meu namorado, mas descontou em mim.
Se ele pudesse fazer melhor, com certeza teria tido outra atitude.
-Não me conformo! - protestou Aríete, enquanto Alzira concentrava-se nas cartas escritas pela mãe
-Não é questão de conformar-se ou não, minha querida - falou Lurdes, com amabilidade na voz.
Olair deu o melhor de si.
Ninguém pode dar o que não tem.
E, de mais a mais, eu me perdoei e perdoei seu pai.
O perdão traz libertação e podemos seguir a vida adiante.
-Eu tenho feito aquela afirmação de perdão todos os dias - anuiu Alzira - e tenho me sentido cada vez melhor.
-Perdoar a si e aos outros nos faz enorme bem - declarou Lurdes.
Veja quanta coisa boa me aconteceu nesses anos: ganhei uma casa e, agora, ganhei duas meninas de presente.
Eu as amo como filhas.
Aríete e Alzira se emocionaram.
Os olhos marejaram e ambas abraçaram-se a Lurdes.
Ficaram assim, unidas e em silêncio, por um bom tempo.
Do Alto, luzes coloridas eram despejadas como floquinhos de neve sobre elas e sobre a casa.
Da colónia onde estava, Lolla sorriu e disse para si:
- As três estão numa óptima sintonia.
Está na hora de nossa pequena Carolina voltar ao mundo.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 8:34 pm

Capítulo dezassete

Valéria andava de um lado para o outro do quarto, aflita.
-Acabou. Tudo acabou.
-Não diga isso, amiga - protestou Natália.
-Como não? Como vou estudar?
O que vou fazer da minha vida?
-Seguir adiante.
Você vai ter um filho.
Isso não vai impedi-la de estudar e construir sua carreira.
-Se você não tivesse aceitado a proposta do tio Adamo e não fosse comigo, juro que abriria mão da viagem.
-Nunca! Você, eu e o bebé seremos muito felizes na Itália.
Sabe - Natália estava radiante -, mamãe sonhou comigo e com você.
Disse que nos viu alguns anos lá na frente.
Jurou que seu filho só vai lhe trazer alegrias.
-Isso não me anima.
-Pois deveria, Valéria.
-Você não entende - gritou Valéria.
Essa criança é do Dário!
-E qual o problema?
-Eu jamais poderia imaginar ficar grávida!
E ainda por cima do Dário.
-Sei que você só se deitava com ele - tornou Natália.
Mas você mesma me disse que fazia tempo que não rolava mais nada entre os dois.
-E não rolava. Eu juro!
-Essa criança não é fruto do espírito santo - falou Natália, levantando as mãos e os ombros ao mesmo tempo.
-Fui fraca.
Eu bem que tentei me controlar, mas fui uma fraca!
-Por acaso se lembra de quando você se deitou com Dário?
-Foi no dia do acidente - respondeu Valéria, perplexa.
-Naquela manhã, eu queria conversar com Dário e terminar tudo.
Fui acordá-lo e não resisti.
Mas eu juro - ela estava em prantos - foi tudo muito rápido.
-Rápido o suficiente para você engravidar.
-Não posso ter esse filho!
-Calma.
-Se a gravidez não estivesse tão adiantada, eu tiraria.
Natália a fuzilou com os olhos.
-Tem ideia do que diz?
-É a pura verdade.
Não gosto de crianças.
Não suporto. Tenho pavor.
-Isso não é motivo para pensar em tirar.
Espiritualmente, eu não aconselharia você a fazer isso.
-E eu lá quero saber se arrancar esse feto é espiritualmente correcto ou não? - vociferou Valéria.
Você sabe que eu sempre detestei criança, Natália.
-E daí? A gente muda com a gravidez.
-Como sabe?
Nunca engravidou!
-Palpite.
-Não vou ser uma boa mãe.
-Não diga isso.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 8:34 pm

-Eu não desejei esse filho.
-Melhor não falar assim.
O feto está em desenvolvimento, mas o espírito já está aí - apontou para a barriga de Valéria.
Tudo o que você diz ou sente passa para o bebé.
-Que se dane o que eu sinto ou penso.
Dane-se essa criança.
Meu Deus!
Um filho do Dário! -Valéria estava inconformada.
-Imagine a felicidade do pai dele.
Dário deixou umas ementinha, um herdeiro!
-Eu só não esmurro você agora porque é minha amiga.
Contudo, a minha vontade é essa.
Pare de dizer sandices!
-Pare você - disse Natália, maneira firme.
Valéria, caia na real.
Você está grávida e vai dar a luz a uma linda criança.
Eu vou ajudá-la a criar esse bebé.
Valéria atirou-se nos braços da amiga.
-Estou desesperada.
Estou com medo, muito medo.
-Calma.
Adamo bateu na porta e entrou no quarto.
Valéria afastou--se de Natália e se recompôs.
Enxugou as lágrimas com as costas das mãos.
-Oi tio.
-Como vai?
-Indo.
-Falei com Américo.
-Tem mais essa - disse Valéria, voz alteada.
Meu pai vai me esfolar viva quando voltar de viagem.
-Não. Américo a ama demais.
Está chateado, sim.
Não é fácil para um pai ver a filha grávida e sem ao menos poder exigir que ela se case ou que o pai assuma determinadas responsabilidades.
Afinal, o pai da criança morreu.
-Traí a confiança do meu pai.
Eu era a sua princesinha.
-E continua sendo - tornou Adamo.
Nada muda.
Américo é um homem de coração generoso.
Obviamente está surpreso, mas sabemos que tudo passa.
Quando ele pegar essa criança nos braços, vai se apaixonar e até agradecer por você ter lhe dado um neto.
-Não sei, tio.
-É verdade - interveio Natália.
Seu Américo é um bom homem.
Ele vai lhe dar todo o apoio. Você só tem a ele.
-Isso é.
-E também tem a mim e Natália - disse Adamo, sorrindo.
Tenho vontade de ir embora, entretanto estou apreensiva.
-Logo os meses passarão e você será mãe - ajuntou Natália, feliz.
-Só de pensar em ter um filho sinto arrepios - falou Valéria, passando um braço sobre outro.
Adamo a olhou sério.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 8:34 pm

-Se você não estivesse pronta, não estaria grávida.
Chegou o momento de enfrentar seus medos e aprender a ser mãe.
Valéria sentiu o suor brotar na testa.
-Por que está sendo tão duro comigo?
-Porque está se comportando como uma inconsequente.
-Eu tive um descuido.
Não acho justo ter de carregar essa mancha pelo resto da vida.
-Como ousa falar nesse tom? - perguntou Adamo, consternado.
Como pode falar assim de uma criança que poderá lhe trazer tantas alegrias?
-Estou confusa - Valéria falou e atirou-se nos braços do tio.
Meu pai não retorna dessa viagem de negócios e eu preciso embarcar.
Não sei se devo partir.
-O que prefere fazer?
-Ficar. Ter meu bebé aqui e depois ir para a Europa.
-E vai deixar a criança a cargo de quem? - indagou Natália.
-Por favor, me ajudem - implorou Valéria.
As lágrimas escorriam sem cessar e Adamo alisava seus cabelos.
-Chi! Fique tranquila.
Eu e Natália vamos cuidar de você e desse bebé.
-Você não está sozinha - ajuntou Natália.
Eu estarei sempre ao seu lado.
Prometo ser a madrinha dele, ou dela.
-Promete? - perguntou Valéria, numa voz quase inaudível.
-Sim. Vamos ajudá-la.
Adamo desprendeu-se dela e sorriu:
-Temos que nos preparar.
Nosso avião descola logo mais, a noite.
-Adiaremos a ida.
Prefiro esperar meu pai regressar da Argentina - protestou Valéria.
- Nada disso - rebateu Adamo.
Seu pai vai nos encontrar na Itália, semana que vem.
Ele tem uma reunião de negócios em Roma.
Depois vai pegar um trem até Florença.
Valéria mordiscou os lábios apreensiva.
Sentia grande medo de dar a luz.
Tinha pavor de morrer em seguida ao parto, como ocorrera com sua mãe.
"Mas não é só isso" - pensou.
"Esse medo parece ser antigo.
Tornar-me mãe poderá me acarretar desgraças."
Valéria estava com a mente longe.
Na verdade, lá no fundindo da sua alma, havia um medo que vinha do passado.
A experiência da maternidade não fora bem-sucedida em última vida e seu espírito rejeitava a ideia de ter de viver novamente experiências desagradáveis ligadas a maternidade.
-Você pode estar passando por experiências parecidas, mas o final pode ser diferente.
Tudo depende de você - disse uma voz amiga, ao seu lado.
Valéria não viu e não escutou, contudo, um espírito iluminado e sorridente tentava passar-lhe energias de calma e muito equilíbrio.
Afinal, ela estava carregando outro espírito em sua barriga e suas emoções atingiam directamente o feto.
-Ela é uma fraca, isso sim - vociferou uma voz bem mais atrás.
O rapaz falou e deu um passo à frente.
Levou um choque.
-Ai! - urrou de dor.
-Afaste-se dela - tornou o espírito iluminado, voz séria.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 8:34 pm

-Não vale - respondeu Tavinho, irritado.
-Como não?
Graças à sua contribuição, à sua influência, Valéria engravidou.
Devo admitir que a maneira não foi nada elegante, mas conseguimos o nosso intento.
-Isso me irrita profundamente.
Eu deveria ser o pai da criança.
Valéria é minha.
-Bobagem - disse Eliel, o espírito de luz.
Valéria iria engravidar de Dário de qualquer jeito.
Você precipitou a gravidez e o desencarne de Dário.
-Agora eu sou o responsável pela morte dele?
-Não foi o que eu disse - falou Eliel, voz pausada.
-Vocês, da luz, não dizem que tudo ocorre pelo livre-arbítrio?
-Sim. E daí?
-Eu sabia que Dário iria morrer naquele acidente.
Só quis participar do evento.
Fiquei feliz que ele saiu da cola da Valéria.
Por outro lado, fiquei triste porque Dário era o único elo que me prendia a ela.
Agora, sem ele por perto, não tenho como me aproximar.
Mas vou arrumar um jeito.
-Por ora não vai conseguir - tornou Eliel, paciente.
Valéria está grávida e tem protecção extra.
O espírito que carrega no ventre é muito meu amigo e não deixarei que nada nem ninguém atrapalhe a gravidez.
-Ah! Era só o que me faltava - protestou Tavinho.
Vou aguardar os meses que faltam.
Logo vou grudar em alguém e fazer essa pessoa se interessar pela Valéria.
E voltarei a amá-la, vai ver.
-Não vai.
-Como?! Só porque faz parte da ala iluminada do universo acha que pode me proibir?
-Não só proibir como ameaçar.
Valéria vai mudar muito depois da gravidez e não terá mais afinidade energética com você.
Melhor tratar de procurar outra para saciar-se ou então...
-Então o quê?
-Ora, venha connosco.
-Para quê? - resmungou Tavinho.
Para viver no meio de campos de trigo?
Passar o dia tocando harpa e meditando? To fora.
-Quem lhe disse que a nossa ala é assim?
Você foi acolhido num posto de socorro e depois fugiu.
Está vagando aqui no planeta há alguns anos.
-Vi na televisão.
Foi numa novela.
-Ledo engano - sorriu Eliel.
A nossa cidade é movimentada, bem agitada.
Trabalhamos, estudamos, temos muitas responsabilidades.
O espírito quando deixa a Terra tem mais actividades do que quando estava encarnado.
-Não acredito.
-Veja por você mesmo, Tavinho.
Venha e passe um dia comigo.
Se não gostar, eu o deixarei livre para voltar ao planeta.
Contudo, saiba que não terá como se aproximar de Valéria.
Tavinho sentiu um frio na barriga.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 8:35 pm

-Ela é minha.
-Pare com essa possessão.
Você está preso na adolescência.
Continua com dezoito anos de idade.
-Fiz as contas.
Se estivesse vivo, teria vinte e três.
-Com a cabeça de um garoto inconsequente.
Muitos de seus amigos no planeta se casaram, outros estão estudando e outros ainda vão desencarnar em breve.
A vida muda para todo mundo.
-E eu morri - disse num tom desanimado.
-Desencarnou - corrigiu Eliel.
-Desencarnei, morri, tanto faz.
Não fiz dezanove anos, não tive outras namoradas, não tive a chance de conhecer outras pessoas, de estudar, de ser alguém na vida. Não é justo.
-A natureza não faz nada errado - emendou Eliel, amável.
O seu tempo era curto.
Você foi muito irresponsável na última encarnação.
Poderia ter vivido muitos anos, mas atirou-se no vício do jogo e da bebida.
Desencarnou muito cedo.
-Conversa fiada.
Eu não me lembro de nada disso.
Eu me chamo Octávio Mendes Leyte Júnior, vulgo Tavinho.
Tive uma infância rica, mas nunca tive o amor de meus pais.
Não tive irmãos, cresci sozinho e, quando completei catorze anos, meu pai me deu uma moto.
Depois deixou eu pegar o carro dele para namorar.
Meu pai nunca me deu limite.
Se ele fosse mais enérgico comigo, eu estaria vivo.
-Hum, não culpe seu pai pela sua morte.
Você foi o responsável pelo próprio desencarne.
Tavinho, depois de muitos anos, sentiu profunda melancolia.
Só tenho a impressão de que Valéria era meu grande amor.
-Não. Você mesmo disse que nunca teve o amor de seus pais.
Quando Valéria lhe deu um pouco de carinho e atenção, você sentiu o afecto verdadeiro e jogou sobre ela o amor represado que nunca soubera como dar.
-Por que nunca recebi amor dos meus pais?
-Para aprender a valorizar a si mesmo e amar-se incondicionalmente.
De maneira consciente ou não, você escolheu seus pais nesta encarnação.
Sempre atraímos pais perfeitos para nós.
Tudo vai pela nossa vibração, pelo padrão de nossos sentimentos e postura de crenças ao longo de muitas vidas.
Tavinho pensou por um instante e em sua mente passou uma rápida imagem de sua penúltima vida.
Ele via-se caído numa calçada, bêbado e sem controlo sobre o corpo.
-Deixe o passado para trás e venha comigo - convidou Eliel.
Como disse, onde vivemos não prendemos ninguém.
Cada um é livre para ficar ou ir embora.
-Não sei - Tavinho hesitou.
-Vamos. Só um dia.
-Está bem. Eu vou.
Mas promete que Dário não vai se aproximar dela?
-Dário está no mesmo pronto-socorro que acolheu você.
O trauma do acidente foi muito forte.
Ele ainda vai ficar bons meses hospitalizado.
Fique sossegado que, nesses meses em que Valéria vai gerar essa criança, nenhum espírito com influências negativas vai se aproximar dela.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 8:35 pm

Tavinho fez um sim com a cabeça e logo os dois espíritos sumiram do ambiente.
Naquele instante, Valéria sentiu uma leve brisa tocar-lhe a face.
Sorriu e apanhou sua bolsa.
O medo de estar grávida havia diminuído, mas ainda uma incómoda sensação de insegurança permanecia ao redor.
Ela espantou os pensamentos com as mãos e desceu com Natália e Adamo.
O motorista os esperava.
-Cadé dona Elenice e Milton? - ela perguntou, enquanto se acomodava no banco traseiro do Opala.
-Eles já estão no aeroporto - assegurou Natália.
A amiga entrou no carro e Valéria apertou sua mão.
-Vai dar tudo certo, Valéria. Confie.
Valéria assentiu com a cabeça e o carro deixou o palacete do Morumbi.
Pouco depois, elas estavam em Congonhas, prontas para a viagem.
Minutos antes do embarque, alguém tocou no ombro de Valéria.
Ela se virou para trás e arregalou os olhos, espantada.
-Tomás?! - indagou surpresa.
O que faz aqui?
-Vim me despedir.
Valéria engoliu em seco.
A presença do jovem mexia muito com ela.
-Onde está Marion?
-Está rodando um filme no Rio de Janeiro.
Não sei quando vamos nos ver.
-Embarco daqui a pouco.
-Eu sei. Quero que saiba o quanto gosto de você.
Valéria sentiu as pernas bambas.
-Não é certo, Tomás.
Você vai se casar com Marion.
-Se você disser para eu não me casar, não caso.
-Não diga isso.
-Eu a amo, Valéria.
Por favor, me dê uma chance.
Valéria passou a mão pelo ventre e lembrou-se do bebé.
Não tinha condições emocionais de engatar um romance.
Algo dentro dela queria gritar sim.
Mas a razão prevaleceu.
Ela lembrou-se do filho que carregava dentro de si e do temperamento possessivo de Marion.
"Só faltava agora eu ser perseguida por essa desvairada" - pensou.
Tomás estava profundamente emocionado.
-Por você eu faço qualquer coisa.
-Por que me diz isso agora?
-Porque percebi que é você quem amo.
-Marion é louca por você.
-Qual nada - protestou Tomás, com um movimento de mão.
Marion está interessada em mim porque meu pai tem contactos com produtores de filmes no exterior.
Valéria sentiu vontade de se atirar nos braços dele e fazer Tomás rodopiar com o corpo dela enlaçado ao dele, como em filmes americanos românticos com final feliz.
Tomás prosseguiu:
-Deixe-me ir com você para a Itália. - Valéria sorriu.
-Você é especial, Tomás.
Juro que, se fosse em outro momento, eu aceitaria seu pedido.
-Aceite, vai.
-No entanto, isso é inviável agora.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 8:35 pm

-Por quê?
-Porque eu...
Adamo apareceu e disse, paciente:
-Nosso voo vai partir daqui a pouco.
-Já vou, tio, um minuto.
Adamo cumprimentou o jovem com um aceno e afastou-se.
-O que você ia dizer? - perguntou Tomás.
-Nada. Preciso ir.
Valéria inclinou a cabeça e beijou Tomás no rosto próximo do lábio.
Sentiu um frémito de prazer e corou.
Em seguida virou-se e aumentou as passadas em direcção ao tio e a Natália.
Tomás meneou a cabeça para os lados e foi embora cabisbaixo e triste. Muito triste.
A despedida foi emocionante.
Valéria estava sensível por conta da gravidez e chorou muito.
Uma hora depois, o avião descolou.
Elenice e Milton acompanharam os três e depois correram até o andar superior onde se podia ver os aviões descolarem.
-Que Deus proteja nossa menina - disse Milton.
-Ele vai protegê-la, sim - respondeu Elenice, emocionada.
Natália vai ser muito feliz.
Vai ter uma bela carreira e casar com o homem que ama de verdade.
Milton passou o braço pela cintura da esposa.
Sorriram felizes.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 8:35 pm

Capítulo dezoito

Gisele estava radiante e feliz.
Chegara o dia em que finalmente se livraria do estrupício do Olair.
-Demorou, mas chegou.
Hoje me livro desse porco imbecil.
Ela vestiu a sua melhor roupa, um macacão em poliéster dourado, com uma boca de sino imensa e sapatos plataforma que a deixavam bem alta.
Gisele carregou na maquilhagem.
Contornou os olhos com lápis preto e abusou do batom vermelho.
Esparramou uma quantidade exagerada de perfume barato sobre o corpo.
Olhou para sua imagem reflectida no espelho do banheiro.
-É assim que se faz, garota!
Ela mandou um beijo para si mesma e saiu sorridente.
Foi até o bar do Rodinei.
Quando ele a viu, sorriu e afastou-se dos clientes.
Fez sinal para ela contornar o balcão e ir para os fundos do boteco.
-E aí? - perguntou, ansioso.
É hoje que vamos botar o velho para fora de casa?
Gisele sorriu e fez biquinho:
-É. Hoje aquela casa será nossa. Só nossa!
-Tenho pena do Olair.
O otário confiou cegamente em mim.
Me deu a casa de mão beijada.
-Um tonto. Merece se danar - Gisele abriu a camisa de Rodinei e enrolou o dedo nos pelos do peito dele.
E nós vamos nos amar para sempre, não é?
-Claro, meu bem.
Se não fosse você, eu não ganharia essa casa.
Gisele consultou o relógio.
-Está na hora.
O imbecil já deve ter fechado a alfaiataria e está a caminho de casa.
Daqui a meia hora você aparece?
-Hum, hum - disse ele, maneira afirmativa.
Vou fechar o boteco mais cedo e corro para lá.
-Então, tá. Viu como estou linda para você? - ela fez beicinho, enquanto rodopiava o corpo.
-Exagerou um pouco no perfume.
-Depois você tira, no banho - ela falou de maneira insinuante.
Rodinei a beijou demoradamente nos lábios.
-Agora vá.
Faça tudo conforme planeamos.
-Está bem.
Gisele o beijou novamente nos lábios e saiu.
Chegou em casa em poucos minutos.
Entrou, acendeu a luz e correu para o quarto.
Olhou para o canto e sorriu.
-Olair ainda tem de me agradecer.
Eu fiz as suas malas.
Não vai sair da casa só com a roupa do corpo.
Em seguida, ela se deitou na cama, esticou o braço até o criado-mudo e ligou o rádio.
Começou a cantarolar uma música muito em voga na época, na voz de Barros de Alencar:
Eu sei que um homem não deve chorar.
Por uma mulher que o abandonar
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 8:35 pm

Já não me interessa mais o teu amor
Pois todo meu pranto um novo amor secou
Olair entrou no quarto e perguntou, com um sorriso estampado no rosto.
-Bonito ver você cantar assim, querida.
-Gostou? - Gisele perguntou ao mesmo tempo em que desligava o rádio.
-Gostei. E estou fervendo de vontade de tê-la.
Olair falou, tirou a roupa com rapidez e jogou-se de cuecas e meias sobre Gisele.
Ela virou o corpo e saiu da cama.
Pulou para fora e Olair caiu sobre o colchão.
-Danadinha!
Quer brincar com o papai, quer?
-Não.
Gisele mudou o tom.
Passou a falar de maneira ríspida.
Estava cansada de fingir.
E mais cansada ainda de se deitar com aquele porco.
-O que foi?
-Nada. Vista-se e prepare-se para ir embora.
Olair não entendeu.
Sentou-se na cama e passou a mão pelo rosto.
-Não me lembro de marcarmos viagem.
Para onde vamos?
-Melhor mudar a pergunta.
Para onde você vai? - ela indagou, dando ênfase ao você.
-Não compreendo.
-Olhe para o canto do quarto - Gisele apontou.
-Fez as nossas malas?
Vamos viajar, é isso?
E eu aqui pensando em nossa viagem para Bariloche.
Você é mais rápida que eu. Danada!
-Não, Olair. Pare de ser idiota, homem.
Não vê que são as suas malas?
Quero que saia desta casa imediatamente.
-Como assim, sair de casa?
-Além de idiota é surdo? - Gisele estava irritada.
Acabou a farra.
O casamento de fachada também.
Não te quero mais.
-Assim, sem mais nem menos?
Olair estava tentando concatenar os pensamentos.
Estava difícil de ordená-los.
Era informação demais para ser processada em tão pouco tempo.
-Quero que saia da minha casa.
-Nossa casa. Aliás, minha casa.
Fui eu que comprei.
Você é quem deve sair.
Gisele gargalhou.
-Eu, sair?! Não.
Quem vai sair é você. Agora.
Olair irritou-se com a insistência da mulher.
O rosto começou a ficar vermelho de ódio.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 8:36 pm

-A casa está no nome do Rodinei, sua estúpida.
Eu faço assim - ele fez um estalo com os dedos - e ele passa a casa para mim.
Claro, depois que eu me separar de você, sua ordinária.
Ele falou, levantou-se de um salto na cama e pulou com as mãos cravadas no pescoço de Gisele.
Ela arregalou os olhos.
Sentiu a fúria do homem.
Tentou se defender, unhando as costas de Olair, enquanto suplicava mentalmente que Rodinei chegasse.
Rodinei apareceu acompanhado de dois homens, bem fortes e com cara de meter medo.
Ordenou:
-Parem com isso, vocês dois.
Olair continuou preso ao pescoço de Gisele.
Rodinei fez um sinal com a cabeça e os dois brutamontes aproximaram-se e o arrancaram à força.
Jogaram o homem sobre a cama.
Olair resmungou e encarou Rodinei.
-Não sei o que o fez vir até aqui, mas foi por Deus.
Se não viesse, eu juro que iria matar essa cadela.
-Não vai ser necessário - tornou Rodinei, voz calma, porém fria como gelo.
-Agora, por favor, Rodinei, leve essa ordinária para fora da minha casa.
Da minha casa - enfatizou.
-Ela já vai - respondeu Rodinei.
Antes, preciso que você pegue suas malas e saia.
-Hã? - Olair não compreendeu.
-Pegue suas malas e saia, Olair.
Você tem um minuto para deixar esta casa, antes que meus homens tomem as devidas providências.
-É Gisele quem tem de sair - falou Olair.
Esta casa é minha.
A loira interveio, nervosa:
-Idiota. Acreditou no Rodinei?
Acha que ele foi seu amiguinho e lhe fez um favor?
Acha mesmo que ele vai te devolver a casa?
Acorda, homem!
Você foi ludibriado.
-Ludibriado - consertou Rodinei.
Enganado, mesmo.
Olair passou o olhar de Rodinei para Gisele e voltou para Rodinei.
A ficha havia caído.
-Você usou da minha boa-fé para ficar com a minha casa?
Quer ficar com a casa que tanto me sacrifiquei para quitar antes do tempo junto ao banco?
-Exacto.
-Eu vou na Justiça.
Esta casa é minha.
-Não adianta, Olair.
Você foi muito idiota.
Fez a sua esposa assinar o contrato de venda.
-Foi um contrato de gaveta.
Posso me desfazer dele a qualquer momento.
-Negativo, meu amigo.
-Não me chame de meu amigo! - vociferou Olair.
Rodinei sorriu e prosseguiu:
-Fui até o cartório e passei a escritura em meu nome.
Esta casa é minha e ninguém tasca.
Agora poderei pensar em casar e ter um lar, constituir família.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 8:36 pm

Este sobrado não é lá um palacete, mas é arrumadinho, de bom tamanho.
Depois de uma boa reforma, vai ficar um brinco - disse, enquanto prendia o polegar e o indicador na orelha.
-Isso não pode ser verdade.
-Claro que é, imbecil - gritou Gisele.
O Rodinei te fez de palhaço.
Agora pegue suas malas e vá embora.
Vai sair daqui da mesma forma que fez com as suas filhas.
Olair sentiu o sangue subir.
Os olhos estavam injectados de fúria.
Nunca sentiu tanta raiva na vida, nem mesmo quando batia em Josefa ou puxava a cinta para as meninas.
Ele até sentiu uma ponta de prazer.
Um prazer sádico.
Teve vontade de matar o casal bandido.
Mas aqueles brutamontes eram sujeitos muito encorpados e, fatalmente, ele levaria a pior.
Olair pensou e pensou.
Parecia estar perdido.
Mil cenas perpassaram sua mente confusa e impregnada de ódio.
Ele se levantou e ia falar alguma coisa, mas não teve tempo.
Sentiu uma forte pontada e levou as mãos ao peito.
-Vocês me pagam... - balbuciou.
E caiu duro sobre o chão.
Olair teve um enfarto fulminante. Morreu na hora.
Gisele olhou para o corpo e o tocou com a ponta dos pés.
-Está morto?
-Parece que sim - afirmou Rodinei.
Ele abaixou-se e colocou dois dedos sobre o pescoço de Olair.
-O velho não aguentou tamanha emoção.
-O que devo fazer?
-Chamar a polícia, oras.
Seu marido estava alegre demais.
Quis amá-la, excedeu-se nas brincadeiras sexuais e teve um ataque.
Acontece todos os dias. Coisa normal.
-Tenho medo da polícia.
-Você é casada, quer dizer, foi casada com o defunto.
Olair não está machucado.
-Está com as costas arranhadas.
-Mais um motivo para acreditarem que Olair morreu enquanto vocês namoravam - tornou Rodinei.
Gisele concordou.
Foi até o corredor e pegou o telefone.
Discou para a polícia.
Depois que assinou os papéis e o corpo de Olair foi encaminhado para o Instituto Médico Legal, Gisele correu até a casa de Célia e Ariovaldo, para informá-los da morte dele.
Pediu, fingindo melancolia, que ligassem e avisassem as filhas.
Célia e Ariovaldo receberam a notícia com certa tristeza.
Não eram amigos de Olair, mas sentiam compaixão por ele.
Sabiam que ele havia metido os pés pelas mãos e estava completamente mergulhado no mar das ilusões do mundo.
Depois que ela se foi, Célia fechou a porta e sentiu um calafrio pelo corpo.
-O que foi, meu amor? - indagou Ariovaldo, preocupado.
-Nossa, tem alguma coisa ruim grudada na Gisele.
Não consegui identificar.
-Deve ser por causa da morte do Olair.
Ela deve estar perturbada.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 8:36 pm

-Perturbada? A Gisele?
Nem pensar.
Eu não senti uma gota de tristeza vinda dela.
Ela não está sentindo nada pela morte do Olair.
-Será?
-Pode apostar.
No entanto, não nos cabe aqui julgar os outros.
Vamos nos sentar no sofá e fazer uma prece pelo espírito de Olair.
Sinto que ele não está bem - finalizou Célia.
Gisele fechou o portãozinho da casa de Célia e gargalhou.
-A encomenda saiu melhor do que o esperado.
Eu tinha medo de que Olair pudesse vir atrás de mim, me importunar e fazer da minha vida um inferno.
Mas o otário tinha o coração fraco e - pluft - morreu. Pobrezinho.
Preciso me arrumar para o velório e fazer cara de viúva triste para aquelas meninas intragáveis.
Faço tudo pelo homem que amo e pela casa que herdamos - falou entre dentes.
Gisele dobrou a esquina e não percebeu um vulto enegrecido de ódio praticamente colado nela.
Olair desencarnara e seu perispírito desgrudara-se imediatamente do corpo físico.
Seu espírito, cheio de rancor e ódio, iria ficar na cola de Gisele por muito tempo.
-Pobrezinha - ele disse, num tom raivoso e soturno.
Prepare-se porque, a partir de hoje, vou transformar a sua vida num mar de infelicidades.
Pode apostar!
Alzira foi convencida por Eugénio a alugar um pequeno salão próximo de casa, numa avenida movimentada, a fim de montar seu estabelecimento comercial, fabricando e vendendo doces e tortas salgadas.
-Sinto um frio no estômago só de pensar em ter meu próprio negócio - disse ela, emocionada.
-Você é competente, sabe o que faz.
-Não entendo de administração.
-Aprenda. Vá fazer cursos a respeito.
Sua tia Lurdes vai muito ajudá-la e tenho certeza de que a loja será um sucesso -tornou Eugénio, sorridente, enquanto abraçava-a pelas costas e escolhiam, alegremente, o nome do empreendimento.
Marion percebeu o interesse de Tomás por Valéria. Ficou furiosa.
-Agora que o pai do Tomás vai me conseguir uma entrevista com produtores americanos?
Eu não posso perder esse homem agora.
Não agora! - bradou em alto som, enquanto formulava uma maneira de reconquistá-lo e tê-lo pelo tempo que desejasse.
Assim que Valéria embarcou para a Itália, Marion correu para dizer a Tomás sobre a gravidez da amiga.
- Valéria está grávida de Dário.
Eu sempre soube que ela o amava - disse, num tom repleto de fingimento.
Tomás escutou tudo calado e, quando ia pensar em ficar só e repensar sua vida afectiva, Marion veio com uma surpresa daquelas de fazer perder o rumo:
estava grávida e eles deveriam se casar. Imediatamente.
No finzinho daquele ano, Valéria deu a luz um lindo menino, de nome Frederico.
Dois anos depois, Aríete e Osvaldo casaram e, no verão de 1980, nasceu a filha deles, Olívia.
O tempo passou e a vida, tecendo a teia de suas coincidências de maneira inteligente, fez com que, muitos anos depois, Olívia e Frederico se encontrassem.
Ou melhor, se reencontrassem.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 8:36 pm

1995 - 1999

Capítulo dezanove


Alzira terminou de assinar alguns cheques e entregou-os para Lurdes.
-Pronto, tia.
Esses são os últimos cheques da comprado ponto no shopping center.
Mais uma loja Olhai os lírios! -exclamou, com prazer.
-Fico preocupada.
Não acha que está dando um passo maior que a perna? - perguntou Lurdes, aflita.
-Sei que está nervosa por conta das escorregadas que demos no começo.
Mas aprendemos a duras penas.
-Depois dos cursos que fizemos no Sebrae9 tornamo-nos empresárias de sucesso.
Falhamos principalmente em duas questões fundamentais:
planeamento prévio e estruturação e gestão do negócio.
São aspectos para os quais não podemos deixar de dar bastante atenção.
Todos os esforços que fizemos para aprender, e não foram poucos, sustentaram até o momento a viabilidade do nosso negócio.
-E por que o medo? - indagou Alzira, sorridente.
-Tem razão.
Eu nunca pensei que teríamos mais de uma loja.
Eu me contentei em ter somente a loja de São Bernardo do Campo.
-Essa nova loja no shopping vai nos trazer mais prosperidade.
Continuaremos num caminho ascendente, de progresso.
-Você está correcta - anuiu Lurdes.
Eu me aposentei e jamais pensei que teria uma vida tão agitada.
É bom sentir-se útil e fazer o que gosta, mesmo estando velha.
Alzira levantou-se da cadeira e abraçou-se à tia.
-Imagine, velha!
Você está muito bem para quem passou dos sessenta.
Ainda tem chance de arrumar um companheiro.
-Eu? Isso não é para mim. Sou muito independente.
-Você deixou de jogar cartas e frequenta os jantares dançantes as sextas-feiras.
Tem um punhado de homem no seu pé.
-Tenho muito trabalho.
-Trabalho, sei...
Vejo como alguns clientes vão ao nosso estabelecimento só para vê-la.
Lurdes corou.
-Não diga bobagens.
-Verdade, tia.
O seu José do empório, por exemplo.
Não para de lhe mandar bilhetinhos.
-Não quero saber do José, do Manuel, de ninguém.
O assunto afectivo está encerrado em meu coração.
-Só porque teve uma decepção amorosa anos atrás?
Acha justo fechar o coração e não ter ninguém?
Lurdes estremeceu e sentiu saudade do namorado.
-Meu Deus! Faz mais de quarenta anos e eu não consigo esquecê-lo.
-Por que não vai atrás dele?
Ao menos para saber se ainda está vivo.
-Nem pensar - objectou Lurdes.
Ele é que deveria me procurar.
Se não me procurou, é porque deve estar até hoje atirado nos braços da outra por quem me trocou.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 8:36 pm

Alzira deu novo abraço na tia.
Entendia o porquê de Lurdes agir daquela maneira.
Meio que tomada por uma sensação de amplitude da consciência, tornou, amável:
-Sabe, tia, quando se termina um relacionamento afectivo, é comum ficarmos para baixo, nos sentindo desestimulados a procurar alguém, ainda mais quando não foi você quem quis terminar.
Ser trocada por outra, sentir-se abandonada, levar um fora pode nos causar um grande estrago aqui - Alzira apontou para o peito - contudo isso pode ser superado ao longo do tempo.
O problema ocorre quando você se sente rejeitada e incapaz de buscar novo relacionamento e, diante de tal rejeição, surge o medo de ficar sozinha para o resto da vida.
-De certa forma, é o que aconteceu comigo - disse Lurdes, chorosa.
Alzira balançou a cabeça para cima e para baixo e prosseguiu:
-A rejeição está directa e profundamente ligada à baixa auto-estima.
-Não é fácil superar o abandono.
-Como você se viu totalmente insegura, sentiu-se rejeitada e esse sentimento afectou sobremaneira o modo como você escolheu se relacionar durante todos esses anos.
Procurou afastar-se dos homens, colocando uma cerca em volta de seu coração, como se essa cerca imaginária fosse capaz de fazer você parar de sentir.
Lurdes estava profundamente tocada.
Uma lágrima escapou pelo canto do olho.
-As pessoas conseguem lidar melhor com a rejeição quando são muito seguras - falou, tentando se sentir forte.
Alzira concordou com a cabeça e continuou:
-Quando são muito seguras e possuem diversos pilares de sustentação, como uma boa estrutura familiar, um trabalho prazeroso e, acima de tudo, confiança em si mesmo.
Você tem todos esses pilares, e muito bem estruturados, diga-se de passagem.
-Sei, mas...
-Tia, eu aprendi isso ao longo dos anos.
Quanto mais baixa a auto-estima é maior a insegurança, mais difícil será lidar com o sentimento de rejeição.
E isso pode se repetir por vidas a fio.
-Passei da idade de me relacionar.
-Quem disse que há limite de idade para se relacionar?
-Adquiri muitas manias.
Não tenho mais o sonho de amor.
No fundo, gostaria de encontrar um companheiro, alguém para conversar, namorar... mas casar está fora dos meus planos.
Tenho a minha casa, o meu dinheiro e sou dona do meu trabalho e do meu nariz.
Vou arrumar casamento?
Encrenca? Para quê?
Alzira riu.
Lurdes continuou:
-A sociedade também não aceita que uma mulher na minha idade possa amar.
Meu corpo pode ter envelhecido, mas a minha alma ainda é jovem.
-Não podemos ligar para a sociedade, tia.
Eu sei o que é receber os dedos acusadores das pessoas.
Lembra quando voltamos de nossa viagem de lua de mel em Buenos Aires?
O mundo esperava que eu estivesse grávida.
-Se me lembro!
-Eu e Eugénio optamos por não ter filhos e somos crucificados por muitas pessoas.
É como se, escolhendo não ser mãe, eu estivesse cometendo um grande pecado.
-Não é porque nasceu mulher que é obrigada a ter filhos.
-Graças a Deus que você me entende.
Até cogitei a possibilidade de ter um filho.
Entretanto, depois que Olívia nasceu e passou a frequentar minha casa, não senti mais essa necessidade.
-Você é mais mãe de Olívia que Aríete.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 8:37 pm

-Não fiz por mal. É pura afinidade.
Aríete não entende a filha e vice-versa.
Vivem nesse conflito desde sempre.
Aríete quer tudo do seu jeito e Olívia é turrona, igualzinha à mãe.
Procuro, à minha maneira, fazer com que Olívia aceite a mãe com maior naturalidade.
-Por que será que elas são tão ariscas uma com a outra?
-Só se explica entendendo que nascemos e morremos muitas vezes, tia.
A reencarnação explica perfeitamente o caso de minha irmã e minha sobrinha.
Sei que há um sentimento de amor que uma nutre pela outra, mas, por outro lado, percebo certo estranhamento entre as duas, um forte sentimento de rejeição.
-Aríete nunca rejeitou a própria filha - protestou Lurdes.
-Olívia sempre rejeitou a mãe, desde que abriu os olhinhos.
Lembra-se como ela chorava toda vez que Aríete a pegava nos braços?
-Isso é verdade - concordou Lurdes.
Olívia só sossegava nos braços de Osvaldo, nos meus ou nos seus.
E nunca notei nenhum comportamento de Aríete que causasse essa repulsa da filha pela mãe.
-Faço o possível para que ambas se dêem bem.
Acredito que esse estranhamento vem de vidas passadas.
-Pensando assim, é natural que esse sentimento de animosidade entre ambas seja algo relacionado ao passado.
A conversa tomou esse rumo e logo foi interrompida com um estrondo na porta da sala.
Alzira e Lurdes arregalaram os olhos ao ver Olívia entrar afobada, em prantos.
A menina correu até Alzira e a abraçou.
-Tia, não quero mais voltar para minha casa. Nunca mais.
-Por quê?
-Minha mãe... eu não aguento mais a minha mãe! -exclamou, entre soluços.
-O que aconteceu? - indagou Lurdes.
Brigou com sua mãe mais uma vez?
Olívia fez sim, enquanto fungava e continuava com a cabeça encostada no ombro da tia.
-Briguei.
Ela quer que eu faça um curso de computação.
Disse que quando era moça fez um curso de dactilografia e graças a ele conseguiu emprego.
Eu não preciso e não quero trabalhar, ainda.
Lurdes interveio, amável:
-Seu pai não lhe prometeu que iria fazer intercâmbio na Inglaterra semestre que vem?
-Pois é, tia. Depois que minha mãe me sacaneou com aquele concurso, também está fazendo a cabeça do meu pai para eu não ir para a Inglaterra.
Falou que inglês se aprende na esquina de casa.
-Chi! - disse Alzira, enquanto afagava-lhe os cabelos sedosos.
Ainda bem que não precisa trabalhar ainda - ela frisou bem a última palavra - contudo, sua mãe se preocupa com seu futuro e bem-estar.
-Ela quer que eu faça o que ela quer.
Estou cansada de ser um joguete em suas mãos.
-Não exagere - remendou Lurdes.
Aríete se preocupa verdadeiramente com você.
Quer que desenvolva suas habilidades.
-Fazendo computação?
s duas não responderam.
-Quero fazer intercâmbio e depois um curso de teatro na Inglaterra.
Eu quero ser actriz!
A menina falou e voltou a chorar nos braços de Alzira.
Enquanto Olívia se debulhava em lágrimas, Alzira olhou para Lurdes e ambas fizeram sinal negativo com a cabeça.
A história era sempre a mesma e parecia que jamais teria fim...
Desde que começara a balbuciar as primeiras palavras, Olívia batia na mesma tecla: quando fosse adulta, seria actriz.
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Ave sem Ninho

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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 10:44 pm

O pai achava a ideia óptima e se gabava todo.
Aríete não se conformava com o desejo da filha.
-Filha minha não nasceu para o palco.
Olívia vai ser moça direita.
-O que é isso? - perguntava Osvaldo.
Estamos quase no século vinte e um e você fala como se estivéssemos vivendo duzentos anos atrás.
-Você faz todos os caprichos dessa menina - Aríete rangia os dentes.
-Faço e farei sempre que puder, desde que os caprichos a façam feliz.
Para agravar a situação, Olívia nascera com um leve estrabismo convergente, uma das formas mais comuns de estrabismo.
Seu olho esquerdo tinha um leve desvio para dentro, como se o olho desviado olhasse o próprio nariz.
Resumindo, Olívia era vesga de um olho.
Como a visão se desenvolve por completo por volta dos sete ou oito anos de idade, o diagnóstico precoce ajuda bastante para se ter um resultado altamente satisfatório, chegando praticamente à cura.
Osvaldo logo tratou de consultar um estrabólogo, médico oftalmologista especializado em estrabismo.
Olívia usou tampão no olho e, aos quinze anos de idade, ainda usava óculos.
Seu estrabismo havia melhorado sobremaneira, embora ainda houvesse pequeno desvio do olho.
A visão não fora comprometida, mas a aparência, sim.
A menina sofria com as brincadeiras de mau gosto na escola.
Zarolha, vesguinha, olho torto e outros apelidos infelizes foram comuns em sua infância e adolescência.
Olívia tinha certeza de que um dia seria "normal" como as outras amiguinhas.
Passado o tempo, ela quis porque quis ser uma Paquita10.
Ninguém conseguia demovê-la da ideia.
Quando soube que as assistentes de palco haviam atingido a maioridade e que uma nova leva de meninas na faixa dos quinze anos substituiria as antigas, Olívia azucrinou a família.
Fez o pai levá-la até o Rio de Janeiro para participar da audição.
Eram centenas de candidatas ao posto.
Aríete alterara as datas da inscrição e, quando Olívia chegou à cidade, as inscrições haviam se encerrado.
-Você fez isso de propósito - vociferou ela para a mãe, ao chegar em casa.
-Não fale com sua mãe assim - solicitou Osvaldo.
Ela trocou as datas. Confundiu-se.
-Mentira! Mamãe fez isso porque não gosta de mim.
-Imagine, Olívia.
Aríete a ama mais que tudo nesta vida.
Você é nossa princesinha.
-Sou a sua princesinha.
Ela não gosta de mim - repetia.
-Tenho certeza de que sua mãe fez isso pelo seu bem.
-Ela não quer que eu seja uma estrela, papai.
Ela quer que eu faça computação, estude contabilidade.
Disse que uma carreira sólida é que põe dinheiro na mesa.
-Ela tem razão.
-O pai do Netinho que estuda comigo no colégio ficou desempregado.
É formado em ciências contáveis.
Foi despedido por conta de contenção de gastos.
De que adianta ter uma carreira sólida?
Aliás, papai, o que é uma carreira sólida?
Osvaldo não soube o que responder.
A filha tinha razão.
Ele sempre foi da opinião de que uma pessoa deveria fazer o que gosta, o que lhe dá prazer.
Ele, desde pequeno, era fissurado pelo estudo e compreensão das leis.
Formara-se advogado, passara no exame da Ordem e no concurso para oficial de justiça.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 10:44 pm

Passados alguns anos, depois de noites e noites mal dormidas, debruçado sobre apostilas e devorando livros de direito, conseguira passar num concurso para Procurador do Trabalho.
Osvaldo adorava o que fazia e ganhava bem.
Sentia-se realizado.
Se a filha queria saber do palco e dos holofotes, por que não deixá-la seguir a vontade de seu coração?
Ele alisou os cabelos castanhos e compridos de Olívia.
Abriu um sorriso.
-Você poderá ser o que quiser.
-Sempre soube disso.
No entanto, mamãe diz que pelo facto de ainda eu ser um pouquinho estrábica e usar óculos jamais serei actriz.
Diz porque diz que actriz famosa não usa óculos.
Ora, eu posso usar lentes de contacto, não posso?
-Pode. Claro que pode.
-Existem actrizes meio vesgas.
Elas fazem sucesso.
O estrabismo pode ser um charme, concorda?
-Concordo.
-Papai, deixe-me fazer intercâmbio e conhecer a Inglaterra.
-Por quê? Quer se separar de mim? - perguntou Osvaldo, sorridente.
-De maneira alguma.
Depois que mamãe fez essa sacanagem comigo...
Osvaldo a cortou:
-Olhe o tom. Sua mãe não fez sacanagem.
Olívia assentiu:
-Pois é, depois que mamãe sem querer trocou as datas da inscrição para a audição no Xuxa Park, eu bem que poderia fazer um ano de intercâmbio.
Depois, se eu gostar de lá, poderei repensar o meu futuro profissional.
-Temos bons cursos aqui.
Para que fazer fora?
-Porque dá mais prestígio, pai! - Olívia exclamou, de maneira divertida.
Osvaldo riu e a beijou no rosto.
-Vamos pensar.
-Me promete uma coisa, papai?
-O que é, meu bem?
-Você tenta convencer a mamãe para eu fazer um ano de intercâmbio?
-Se é o que você quer.
-É tudo o que mais quero.
-Está bem. Juntos, vamos convencer sua mãe.
Chegando do Rio, depois de ter absorvido melhor a sensação de derrota e não ter chegado a tempo de se inscrever para o teste de Paquita, Olívia impôs à mãe o desejo de fazer intercâmbio.
-Muito nova para sair de casa - foi a resposta seca.
-E se eu fizesse um curso de teatro?
-Nem pensar! - objectou Aríete.
Artista na família?
Jamais. Mil vezes jamais.
-Você fez eu perder o teste de Paquita.
Agora vai me proibir de fazer intercâmbio ou um curso de teatro?
-Vou.
-Que vida é essa?
Como pode ser tão má?
-Estou fazendo isso pelo seu bem.
-Meu bem? - Olívia estava estupefacta.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 10:44 pm

Arregalou os olhos e disse:
- Você sempre arruma uma maneira de me sacanear!
Aríete odiava que Olívia usasse essa palavra.
Levantou a mão e chegou perto do rosto.
A menina a desafiou:
-Reclamava que apanhava do seu pai, mas está louca para descer a mão em mim.
O que foi? Quer também aproveitar e me botar para fora de casa?
Aríete caiu em si e lembrou-se de Olair e das surras.
Abaixou imediatamente a mão.
-Você me tira do sério! - bradou.
-Eu só quero o melhor para mim.
Quero conhecer o mundo, fazer intercâmbio, ser actriz.
-Você vai estudar computação - repetiu Aríete.
Eu fiz dactilografia e consegui trabalho por conta disso.
Claro, depois que seu pai passou no concurso para Procurador do Trabalho eu pude deixar meu emprego na montadora e me dedicar a casa e a você.
-Só se dedicou à casa.
Nunca deixou eu fazer nada que quisesse.
-Como não?
Corri com você de consultório em consultório para que tivesse seu estrabismo curado.
Fiz de tudo para que você não tivesse problemas de visão.
-Consertou meu olho, mas não me deixa fazer nada que gosto.
-Filha, esse negócio de actriz não me cheira bem.
Você tem vocação para as artes, mas também tem bom senso de organização.
Você é adolescente e cheia de sonhos.
Logo isso passará e você vai encontrar alguma profissão e...
-Por que não? O que tem de mais?
Ser actriz é uma profissão como outra qualquer.
-Não é!
-Não entende que eu não sou você?
Não entende que nossos gostos não batem? - protestou Olívia.
-Chega de chorumelas! - gritou Aríete.
Sou sua mãe e você me deve o respeito.
Vai estudar computação.
-Não vou!
-Então não vai fazer curso nenhum e intercâmbio nenhum.
-Ao menos o intercâmbio...
-Não, Olívia.
Para que gastarmos uma fortuna para você aprender inglês no exterior?
Tem uma escola de línguas na esquina de casa.
Olívia enfureceu-se:
-Não é a mesma coisa!
E tem mais:
eu quero conhecer outras pessoas, outras culturas.
Não aguento mais ficar presa em São Bernardo.
-Eu adoro morar aqui.
Agora vai dar para reclamar da cidade onde nasceu?
-Você deturpa tudo! - respondeu tristemente Olívia.
Não é que eu não goste daqui, mas há um mundo aí fora para ser explorado.
Eu quero conhecer o mundo, mãe.
-Melhor conhecer o mundo com um curso de computação.
Vi uma matéria no Fantástico que dizia que a computação vai dominar o mundo daqui uns anos.
Viu como penso no seu melhor?
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 10:45 pm

-Não preciso que pense por mim.
Eu tenho cérebro!
Aríete estava perdendo a paciência.
-Chega! E sem televisão por uma semana.
-Não vou ficar de castigo.
Aríete aproximou-se e a fulminou com os olhos.
-Não me desafie, garota.
Sou sua mãe.
Olívia engoliu em seco.
Rodou nos calcanhares e saiu correndo.
Bateu a porta de casa com força.
Atravessou a rua e minutos depois chegou ao destino.
Precisava conversar com sua tia.
"Só a tia Alzira me entende" - disse para si enquanto dobrava o jardim e entrava na casa da tia.
Aríete levou as mãos ao rosto.
- Não sei mais o que fazer, Osvaldo.
Ele abraçou a esposa por trás.
Cochichou em seu ouvido.
-Deixe-a fazer o intercâmbio.
-Olívia é muito novinha.
-Tem quinze anos.
Está no segundo colegial.
É boa aluna.
-Sozinha no mundo?
-E criamos nossa filha para quê?
Para o mundo, oras!
-Estou insegura, querido.
-E quanto ao curso de teatro? Ela gosta.
-Tenho medo.
-De quê?
-Aquela salafrária da Gisele era modelo e actriz.
Osvaldo riu alto.
-A Gisele?
-Era o comentário que faziam lá no bairro.
-Bobagem. Gisele nunca foi actriz ou modelo.
Era pura invenção.
-Não sei, Osvaldo.
-Ela é jovem e tem sonhos.
Se sua alma tiver inclinação para o teatro, ela será uma óptima actriz.
Caso contrário, vai conhecer outras pessoas, de outras culturas e talvez se interesse por outra profissão.
Poderá expressar-se artisticamente de outra forma.
Tudo é possível.
-Tenho medo de que Olívia se perca na vida.
-Nossa filha tem o nosso sangue.
Ela nunca daria um passo maior que a perna.
Nasceu para sonhar, assim como eu nasci para as leis e você nasceu para mim!
Aríete sorriu e o beijou nos lábios.
-Eu o conheço há quase vinte anos e continua galante!
Você é o amor da minha vida.
-E você é o meu - respondeu ele, com amabilidade na voz.
Não queira impor regras rígidas demais a nossa filha só porque você e Alzira sofreram nas mãos de seu pai.
-É difícil.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 10:45 pm

-Por qual motivo?
-Não quero que nossa filha sofra.
-Não podemos impedir que isso aconteça, meu amor.
Olívia está crescendo, logo vai se tornar uma mulher e terá de encarar o mundo.
Vai sofrer decepções amorosas, vai aprender a ouvir "não", vai ter de conviver com piadinhas sobre seu leve estrabismo e vai ter de se virar.
Nós sempre fomos cúmplices e decidimos criar nossa filha para o mundo, e não para nós.
Eu e você a amamos demais e queremos ser amigos dela.
Cada discussão que você tem com ela a afasta mais do nosso convívio.
-Tem razão.
Vou ligar para Alzira.
-Por quê?
-Porque Olívia sempre vai para a casa da tia quando briga comigo.

9 O Sebrae faz parte de um sistema criado em 1972 - Centro Brasileiro de Apoio à Pequena e Média Empresa (Cebrae) - vinculado ao Governo Federal.
A partir de 1990, a entidade transformou-se num serviço social autónomo, denominado Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas - Sebrae.
Mais informações, acesse: www.sebrae.com.br


10 As Paquitas faziam parte do programa Xuxa Park.
As meninas eram assistentes de palco dos programas de televisão de Xuxa Meneghel, nascida em 1963 e considerada uma das apresentadoras de maior sucesso da TV brasileira até os dias de hoje.
A atracção foi ao ar nas manhãs de sábado pela Rede Globo entre 1994 e 2001.
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