O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 10:45 pm

Capítulo vinte

Frederico espreguiçou-se gostosamente na cama.
Estava radiante e feliz com a viagem para a Inglaterra.
"Estou morrendo de saudades da Europa" - disse para si, enquanto se levantava.
Ele calçou os chinelos e caminhou até o banheiro.
Abriu o duche e tomou um banho demorado.
Depois de se vestir e perfumar-se, desceu para o café.
Encontrou Américo sentado à mesa, tomando seu desjejum e lendo o jornal.
Frederico contornou a mesa e abaixou-se.
-Bom dia, vovô - cumprimentou, depois de beijá-lo na testa.
Américo abaixou o jornal e sorriu.
-Bom dia.
-Que tal as notícias?
-A economia parece ter entrado nos eixos.
-É, vovô. O Plano Real11 está dando certo.
Também pudera. Contou com a contribuição de vários economistas, reunidos pelo Ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso.
Sabe que foi por causa do plano que decidi estudar economia?
-E vai tomar conta das minhas empresas.
-Não sei. Talvez eu queira ter as minhas.
-É meu único herdeiro.
Quero que administre as minhas, perdão, as nossas empresas.
-Você fez a sua parte.
Criou e administrou as empresas.
Elas são suas.
-Mas um dia serão suas também.
Para quem vou deixar meu património?
-Para sua filha.
-Valéria não gosta de lidar com os meus negócios.
Sua mãe sempre foi boa em decoração - resmungou.
Tornou-se uma profissional altamente reconhecida no mercado.
Você tem afeição pelos supermercados.
Natural que administre os negócios.
Frederico abriu largo sorriso.
Sentia-se muito bem ao lado do avô.
Respondeu com sinceridade:
-Pode contar comigo, vovô.
Serei seu braço direito.
-E braço esquerdo também - disse Américo, rindo.
-Quando se aposentar...
Américo o cortou com doçura.
-De maneira alguma.
Só vou me aposentar quando morrer.
Vou trabalhar até meu último suspiro.
Se eu parar de trabalhar, morro.
-Melhor aproveitar a vida.
Você fez muito. Criou esse império.
Poderia deixar os negócios um pouco de lado e dedicar-se mais a sua vida afectiva.
-Eu?! - indagou Américo, surpreso.
-Claro!
-Passei da idade de namorar.
-Para cima de mim, Vó?
Você pode enganar minha mãe e meus tios, mas a mim não engana.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 10:46 pm

-Não sei do que está falando - dissimulou Américo.
-Eu o vi outro dia passando a mão sobre uma foto antiga, bem antiga.
E, curioso que sou, depois que você se deitou fui espiar a tal foto.
Não era a minha avó Amélia quem estava no retrato.
Américo remexeu-se na cadeira.
Sua respiração ficou alterada, por ora.
Ele pigarreou e mudou completamente de assunto.
-Como passou a noite?
Frederico meneou a cabeça e sorriu.
Conhecia bem o avô e sabia quando Américo não queria dar continuidade a um assunto que lhe causava incómodo.
Tomou um gole de café com leite e, enquanto passava requeijão sobre uma torrada, respondeu:
-Bem. Dormi bem.
-Nada de pesadelos?
-Esta noite não tive nada.
Ontem fui com a tia Natália até o centro espírita.
-Como anda seu tratamento espiritual?
-Acabou ontem.
-Graças a Deus! - disse Américo, levantando as mãos.
Frederico prosseguiu:
-Os médiuns me disseram que estou praticamente livre da obsessão.
E, obviamente, o resultado positivo do tratamento a longo prazo depende só de mim.
-Eu não entendo muito do assunto, mas seu tio Adamo me disse que é um espírito que o atrapalhava.
Então, o sucesso do tratamento não depende só de você.
-Tenho de mudar meu jeito de ser - falou o rapaz, enquanto bebericava sua xícara de café com leite.
Na verdade, tenho conversado muito com tio Adamo e sei que há algo em meu comportamento que atraía esse espírito.
-Por que será que ele atormentava você?
Você é um rapaz tão doce, tão bom.
-Os espíritos se aproximam de nós pela afinidade de pensamentos, Vó.
Se eu estou bem, atraio bons espíritos ao meu redor.
Se não estou bem comigo mesmo, acabo atraindo os espíritos perdidos ou desafectos do passado.
-O que fazer? - perguntou Américo, sério.
Parece que você fica sem saída para melhorar.
-Absolutamente! - disse Frederico, enquanto balançava a cabeça para os lados de maneira negativa.
A lição para se livrar da obsessão é cuidar melhor da nossa mente - apontou para a cabeça - e cultivar bons pensamentos.
-Está vendo como é inteligente?
Você é o meu orgulho.
Frederico riu.
-Você é meu avô e é suspeito para falar.
-De forma alguma.
Você é um rapaz doce, meigo, inteligente e muito bonito.
Diga-se de passagem, puxou a mim.
-Vejo as fotos antigas e realmente me pareço com o senhor quando jovem.
-Há um pouco de sua avó também.
Você tem os olhos de Amélia.
-Quisera ter alguma semelhança com minha mãe -Frederico falou e entristeceu-se.
-Não fique triste.
Você é esperto como Valéria.
-Esperto, sei... - Frederico pigarreou.
Ela não gosta de mim.
Américo pousou o jornal na mesinha de apoio.
Entendia o sentimento do neto.
Frederico sentia uma grande rejeição da mãe.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 10:46 pm

Não compreendia se o sentimento dela se devia ao facto de ele ser filho de Dário ou de ela ter tido de mudar o curso de sua vida quando descobriu-se grávida.
Antes de responder, Américo mordiscou o lábio e fechou os olhos.
Voltou rapidamente a um passado não tão distante...
A gravidez da filha pegara-o de surpresa.
E, ao descobrir que Dário era o pai da criança, Américo sentiu-se tomado por total impotência.
Queria que o rapaz assumisse o filho e casasse com Valéria.
Américo era homem criado em outros tempos.
Ele mesmo engravidara Amélia e tivera de sufocar seu amor por outra mulher para assumir o compromisso do casamento, mesmo não amando a esposa.
"No meu tempo a gente casava por obrigação" - ele disse em pensamento.
-Sei o que se passa na sua cabeça - falou Adamo.
-Não sabe.
-Claro que sei.
Aconteceu o mesmo com você.
-Comigo? - indagou Américo.
-Sim - respondeu Adamo.
Você engravidou Amélia quando estava apaixonado por outra.
-Foi um deslize.
Estávamos numa festa, bebemos além da conta.
Fomos tomados pela emoção do momento.
-E deu no que deu.
-Perdi meu amor, mas ganhei outro - resmungou Américo.
Valéria é tudo o que tenho.
Eu a criei sozinho.
-Deve se orgulhar do feito.
-Muito pelo contrário.
Hoje, sinto-me fracassado.
-Só porque sua filha engravidou antes de casar?
-Pois claro!
-Ora, Américo, você se deu conta de que tudo o que idealizou para sua filha não condiz com a realidade. Não é isso?
-Eu sonhei outra vida para a minha filha.
Agora ela está grávida e eu nem posso exigir que o pai assuma a criança e se case com ela.
-Isso você não pode mesmo fazer.
Infelizmente Dário morreu naquele acidente.
Valéria vai ser mãe solteira, assim como você foi pai solteiro.
-Ser pai solteiro é uma coisa.
Ser mãe solteira... bom, a sociedade não perdoa e faz comentários maledicentes nas costas da gente.
-E o que temos a dever à sociedade? - indagou Adamo.
Os tempos são outros e não importa o que as pessoas pensem, mas o que você pode fazer pela sua filha.
Dar-lhe apoio nessa hora é o melhor.
-Sei disso.
Eu nunca deixaria de apoiar minha filha.
Jamais a colocaria no olho da rua por conta dessa gravidez.
-Não entendo a sua preocupação.
-Eu desfiz meu noivado e casei com Amélia.
Não esperava que ela fosse morrer após o parto. É diferente.
-Diferente é a maneira como aconteceu, mas o resultado é o mesmo para ambos.
Depois da experiência que você teve nesses anos todos, melhor aceitar a gravidez de sua filha e ajudá-la no que for possível.
-Acho melhor Valéria não embarcar para a Itália.
-Pois creio que o melhor a fazer é deixá-la partir.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 10:46 pm

-Eu sou o pai dela.
Não posso permitir que minha filha embarque para um país desconhecido e sem a minha presença para ajudá-la.
Você bem sabe que eu não posso deixar os negócios.
- Compreendo.
Eu e Natália estaremos ao lado de sua filha.
Vamos enchê-la de mimos e cuidados.
Essa criança vai nascer num ambiente repleto de amor, carinho e compreensão.
Depois, Valéria poderá retomar o curso de decoração e formar-se.
Você vai ver, tudo vai dar certo, meu irmão.
Américo quis acreditar nessa história com um provável final feliz.
No entanto, a história seguiu outro rumo, porque, durante a gravidez, Valéria entrava em crises depressivas e batia contra a própria barriga.
Por milagre, não perdeu a criança.
Quando Frederico nasceu, ela não quis pegá-lo nos braços.
Depois, na hora de amamentar o rebento, ficou tão assombrada que seu leite empedrou e ela preferia sentir as dores horríveis a tentar dar de mamar ao filho.
Os anos foram passando e a distância dela em relação ao filho foi ficando nítida.
Valéria terminou o curso de decoração, voltou ao Brasil e Américo lhe deu o ateliê como prometido.
Ela associou-se a Natália e, com o tempo, o estabelecimento tornou-se um conhecido e respeitado escritório de arquitectura na cidade.
Valéria sentia-se realizada como profissional, mas um fracasso como mãe.
Reconhecia que olhar para o filho era ter de relembrar a sua recaída pelo resto de sua vida.
Aquela manhã em que se deitara com Dário em Guarujá repetia-se na sua mente dia após dia.
Ela bem que tentou fazer análise, entretanto a cena se repetia.
Ela pensou, pensou e decidiu:
o melhor a fazer era ficar longe do filho.
E assim fez. Valéria evitava ficar em casa.
Mergulhara no trabalho e pegava um projecto atrás do outro.
Não parava nem mesmo para se divertir.
Tinha medo de se envolver com outro homem e engravidar.
Tudo bem que Valéria se sentira atraída por Tomás, anos atrás.
Depois que Frederico nasceu, ela bem que tentou um contacto com o rapaz.
Descobriu que Tomás casara-se com Marion e eram, segundo as revistas de celebridades, muito felizes.
"Perdi a única chance de ser feliz" - dizia para si repetidas vezes.
Decidida a não se envolver com mais ninguém e evitar o contacto com o filho, Valéria viajava constantemente para fora do
país, pretextando que as viagens, feiras internacionais e contactos com fornecedores estrangeiros eram importantes para ela se manter actualizada e se tornar cada vez mais respeitada na profissão.
Frederico cresceu envolvido pelo amor de Natália, de Adamo e do avô.
Assim que casaram, Natália descobriu que não podia ter filhos.
Também não tinha vontade de adoptar uma criança e cuidou do sobrinho como se fosse seu filho.
O rapaz às vezes a chamava de mãe.
Natália sentia um frémito de emoção e, em seguida, mudava a atitude.
-Eu sou sua tia.
Valéria é sua mãe - dizia sempre, mesmo a contragosto.
Natália não queria que Frederico se afastasse da mãe por completo.
Entretanto, foi o que aconteceu.
Ele e Valéria mal se falavam.
Frederico era um bom rapaz, contudo, quando sentia a rejeição da mãe, era obsediado pelo espírito de Tavinho.
Impossibilitado de se aproximar de Valéria, Tavinho passou a vagar pelo mundo e alimentar-se da energia de pessoas que sentiam alto grau de rejeição, visto que ele sentia-se profundamente rejeitado, acreditando que Valéria o trocara por Dário.
Depois do nascimento do filho, Valéria mudou muito a sua postura e, por conseguinte, o teor de seus pensamentos.
Tavinho não conseguia mais aproximar-se dela, mas descobriu em Frederico uma fonte nova de energia para se manter no mundo terreno.
Quando o menino tinha recaídas por conta do sentimento de rejeição, Tavinho aproximava-se e sugava as energias dele.
Quantas vezes Natália teve de levar o sobrinho ao consultório médico, acreditando que a fraqueza e mal-estar do garoto fossem fruto de alguma doença!
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 10:46 pm

Adamo a alertava de que o problema de Frederico era espiritual.
Levaram o garoto com regularidade ao centro espírita e Frederico foi melhorando, porém, quando o sentimento de rejeição aumentava por algum motivo, Tavinho "encostava" no garoto.
Até o dia em que Frederico fez um tratamento complexo de obsessão e os laços energéticos entre ele e Tavinho foram desfeitos.
-Ele vai ter nova recaída e vou voltar - vociferou Tavinho, durante a sessão de desobsessão.
Eliel, espírito amigo e protector da família, meneou a cabeça para os lados:
-Não vai. Frederico está mudando o teor dos pensamentos.
Está se tornando um rapaz mais equilibrado emocionalmente e vai aprender a lidar com o sentimento de rejeição de maneira que não se machuque mais e, consequentemente, não abra espaço para você aproximar-se dele de novo.
-Um dia ele vai mudar, baixar o padrão e...
Eliel o cortou:
-Aqui nesta família você não tem mais vez.
Acabou. Os olhos de Tavinho estavam injectados de fúria.
-Não quero morrer. Quero ficar aqui.
-Você desencarnou há mais de vinte anos.
Por que insiste em ficar e não aceitar os desígnios da vida?
Por que não faz como Dário?
-Ele foi um fraco! Morreu e aceitou naturalmente a nova condição.
-E vive muito bem.
Dário aprendeu a ser menos estouvado, aprendeu a equilibrar o emocional.
Trabalha num posto de socorro próximo do planeta, especializado em acolher jovens que desencarnam em acidentes de carro e de moto.
-Ele é um bobo.
Não quis mais saber da Valéria.
Nem quis conhecer o filho.
-Porque não era para conhecer, oras.
-Tenho medo de partir. Ir para onde?
-Há inúmeros locais para você viver.
-Posso escolher? - indagou Tavinho, curioso.
-Não. Os lugares no mundo astral não são escolhidos pela vontade, como ocorre na Terra, mas pela afinidade energética.
O teor da sua aura é que vai determinar os lugares que pode frequentar.
-Estou cansado - Tavinho estava sendo sincero.
Eu ainda sou gamado na Valéria.
-Está ligado nesse sentimento por causa do passado.
Você já se relacionou afectivamente com Valéria, assim como Dário e Frederico.
No momento, o que importa para o crescimento espiritual dela é tentar conviver de maneira harmoniosa com Frederico.
-É verdade que eu poderei reencarnar?
Voltar ao planeta?
-Sim. Todos nós nascemos e morremos muitas vezes.
-Eu queria voltar. Gosto daqui.
-Então venha comigo.
Eu vou levá-lo para um lugar bem interessante, cheio de jovens como você.
E há outras gatinhas para você se interessar. O que me diz?
Tavinho abriu um largo sorriso.
-Hum, então posso conhecer uma menina e namorar?
-Pode, sim.
-Aceito!
Eliel sorriu satisfeito e, naquela mesma noite, Tavinho o seguiu até um posto de socorro próximo do orbe terrestre.
Depois dessa noite, Frederico melhorou bastante e, longe da influência de Tavinho, passou a desejar se livrar daquele sentimento que tanto o colocava para baixo e, consequentemente, empurrava-o para o contacto com espíritos menos equilibrados.
Intuído por Eliel, Frederico decidiu estudar na Inglaterra.
Partiria em duas semanas.
Américo relembrou todos aqueles anos num piscar de olhos.
Frederico o chamou à realidade.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 10:46 pm

-Vó, não está me escutando?
-O que foi que disse? - indagou Américo, voltando ao presente.
-Que minha mãe não gosta de mim.
-Bobagem. Sua mãe o ama.
Frederico pousou a xícara sobre o pires e deu uma sonora gargalhada.
-Essa é boa!
Minha mãe me ama?
Acha mesmo isso?
-Claro! Pode ser que ela não seja como a maioria das mães, mas, lá no fundo, Valéria o ama muito.
-É duro sentir-se rejeitado pela própria mãe.
Américo sentia vontade de dizer que o neto, em certo ponto, tinha razão.
Olhou para Frederico com sentimento de compaixão.
Se ele percebia a indiferença da filha, o que dizer do sentimento de Frederico em relação à mãe?
Ele não sabia o que dizer e sentiu grande alívio ao ver Natália entrar na copa.
-Bom dia a todos!
Américo levantou-se e a cumprimentou.
Em seguida, Natália deu a volta na mesa e beijou Frederico.
-Como vai, tia? Dormiu bem?
-Sim. Tive uma noite de sono agradável.
-Nada de sonhos ruins?
-Não. Nem vi tio Adamo sair.
-Ele tinha alguns assuntos para tratar e saiu bem cedo - tornou Américo.
-Adamo foi até o Consulado para tratar da papelada.
Estudar no exterior é óptimo, mas precisamos ter paciência e tempo para lidar com a burocracia.
-Eu disse para o tio que cuidaria de tudo - falou Frederico.
-Você fez o mais importante: estudou inglês, tirou o certificado e foi aprovado na entrevista.
Conseguiu a vaga na universidade.
A burocracia, nesse caso, fica por nossa conta.
-Confesso estar bastante aliviado.
-Estava conversando com um amigo e soube que não é qualquer um que consegue ser aprovado no IELTS12 - emendou Américo.
-Precisa de muita fluência na língua, Vó.
-O exame - prosseguiu Natália - é reconhecido internacionalmente como uma avaliação do nível de compreensão na língua inglesa.
Desde 1989, o IELTS tem provado ser o exame mais confiável para medir a capacidade de um candidato de se comunicar em inglês.
Foi desenvolvido pelo British Council em parceria com a Universidade de Cambridge após mais de quatro décadas de pesquisas.
Américo sentia um orgulho sem igual.
-Meu neto vai estudar na faculdade de economia da Universidade de Cambridge, na Inglaterra!
-Frederico é um rapaz muito aplicado.
Tenho certeza de que vai se graduar com mérito - tornou Natália, enquanto se servia de uma fatia de bolo.
-Nenhuma universidade no mundo supera os mais de oitenta Prémios Nobel ligados à Cambridge.
Não é para matar um avô de orgulho? - perguntou Américo, feliz e sorridente. - ícones da ciência como Isaac Newton, Charles Darwin e Stephen Hawking passaram por lá como alunos ou professores.
-É verdade - respondeu Natália.
-Como foi o processo de admissão? - Américo estava sinceramente interessado.
-Sabe, Vó, os estudantes que desejam ingressar na universidade para obter um grau inicial têm o seu dossiê de candidatura - chamado application - enviado para um colégio individual de sua escolha.
Em geral, a maioria dos colégios admite alunos interessados em cursar qualquer disciplina oferecida pela universidade.
As entrevistas presenciais são parecidas com um exame oral e abordam questões específicas sobre o programa das matérias estudadas pelo candidato nos dois últimos anos do colegial.
-Interessante - Américo passava os dedos sobre o cavanhaque branco e bem aparado.
-Esse menino vai longe - tornou Natália.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 10:47 pm

-É, pode apostar que vou - respondeu Frederico, com um leve grau de entusiasmo.
Natália notou o semblante iluminado do sobrinho.
Pousou sua xícara sobre o pires e olhou para Américo.
Ele levantou os ombros e sorriu.
"Preciso conversar com Valéria" - disse em pensamento.
"Meu sobrinho não pode partir assim, sem uma conversa com a mãe."

11 Plano Real foi um programa brasileiro com o objectivo de controlar a hiper-inflação que castigava o país.
Iniciado em 1994, criou uma nova moeda, o Real.
Mostrou-se, nos meses e anos seguintes, o plano de estabilização económica mais eficaz da história, reduzindo a inflação, ampliando o poder de compra da população e remodelando os sectores económicos nacionais.

12 IELTS é sigla para International English Language Testing System, que em português significa Sistema Internacional de Teste da Língua Inglesa.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 10:47 pm

Capítulo vinte e um

Valéria respondia as frases de forma lacónica e fria, sem tirar os olhos da maquete.
-Sei.
-Ele não pode embarcar assim - falou Natália.
-Assim como?
-Triste.
-Quem lhe disse que ele está triste?
-Sinto isso.
-Ele vai viver na Inglaterra.
Vamos lhe pagar os estudos.
De facto, Frederico tem nas mãos uma oportunidade única de crescimento e tenho certeza de que vai adorar a experiência de morar sozinho.
-Concordo.
Eu e você vivemos no exterior e sabemos como a vida na Itália nos fez tremendo bem.
Mas sinto que Frederico ainda está triste.
-O que eu tenho a ver com isso, Natália?
Se Frederico é um rapaz triste, o que posso fazer?
Já me dispus a pagar terapia.
Ele se recusa.
-O problema do seu filho não é terapia, mas falta de amor.
Valéria fez um muxoxo e continuou com os olhos no desenho.
-De novo essa história de falta de amor?
Vai me dizer pela enésima vez que Frederico cresceu assim por minha causa?
-E não foi? - perguntou Natália, alterada.
Você nunca gostou do seu filho.
-Não é questão de gostar ou não.
Você é muito dramática - disse Valéria.
Ela terminou de fazer os retoques na maquete.
-Pronto. O cliente vai adorar.
Se eu vencer com esse projecto de decoração, ficaremos ricas.
-Já somos - respondeu Natália, maneira ríspida.
De que adianta tanto dinheiro se você se sente tão triste?
-Não me sinto triste.
-Claro, me esqueci do detalhe: você é triste.
Valéria exasperou-se.
-Tirou o dia para me aporrinhar?
O que foi? Brigou com o Adamo?
-Não, não briguei com meu marido.
Está tudo muito bem.
Não gosto é de ter de olhar para o meu sobrinho e ver seus olhinhos tristes.
-Não olhe para ele.
-Como pode ser tão fria, Valéria?
-Não sou fria.
Frederico é praticamente um homem.
Daqui a pouco vai completar vinte anos de idade.
Vai conhecer um país fantástico, outra cultura, conhecer pessoas interessantes, se formar, arrumar uma boa esposa e ser feliz.
-Por que você o repele tanto?
-Fala como se eu sentisse repugnância pelo meu filho.
-E não sente?
-Não é isso.
Já lhe disse milhões de vezes.
Olhar para Frederico faz eu me lembrar daquela manhã, anos atrás.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 10:47 pm

Fui uma fraca e me deitei com o Dário.
Nunca vou me perdoar por esse momento de fraqueza. Nunca.
-Não acha que está na hora de deixar o passado para trás?
E daí que você se deitou com Dário?
Aconteceu e o que foi feito...
Valéria a interrompeu:
-O que foi feito não pode ser mudado.
Eu não tenho o poder de voltar ao passado e mudar o curso da história.
Adamo entrou na sala naquele momento.
Ele tinha acabado de escutar a resposta de Valéria e interveio:
-Não pode mudar, mas pode transformar.
A vida lhe deu um filho lindo, saudável, amoroso, cheio de virtudes.
Frederico é um rapaz doce, inteligente e sente muito a sua rejeição.
Quando Adamo falava, Valéria escutava.
Sabia que o tio era um homem justo e impessoal.
Adamo ajudava as pessoas sem se envolver emocionalmente nos problemas delas.
Uma lágrima rolou pelo rosto dela.
-É mais forte que eu, tio.
Não consigo tratá-lo de outra forma.
Toda vez que vejo meu filho eu... eu... vejo o Dário.
E agora que ele está crescido e homem feito, está a cara do pai.
É muito para mim.
-Frederico não tem culpa de nada.
Não importa que ele tenha sido fruto de um deslize.
Importa que você teve uma criança adorável.
A vida lhe deu a chance de criar um filho.
-Muitos de nós sonhamos com essa dádiva - emendou Natália.
-Fala assim porque não pode ter filhos.
Não quero ser grossa ou estúpida com você - Valéria estava emocionada e abraçou-se a amiga.
Pelo quanto ama Frederico.
Eu amo meu filho, mas não consigo ter uma relação melhor com ele.
Não sou uma mãe perfeita. Paciência.
-Poderia ao menos tornar-se amiga dele.
A essa altura do campeonato, tudo o que Frederico precisa é de pessoas que lhe dêem carinho, atenção, apoio...
-Se não consegui superar essa rejeição, não vai ser agora, depois de quase vinte anos, que vou conseguir.
Natália amava Valéria.
Tinha a amiga como uma verdadeira irmã.
Sabia que ambas tinham sido irmãs em vida passada e que entre seus espíritos havia um forte laço de compreensão e, acima de tudo, de afecto.
Sabia também que o relacionamento de Valéria e Frederico era um nó de desentendimentos criado ao longo de muitas existências que precisava ser desatado nesta vida.
Frederico fizera Valéria sofrer muito em vidas passadas.
Os séculos porém foram capazes de apaziguar esse sofrimento e ele aprendeu a amá-la e respeitá-la.
Não sentia raiva da mãe, mas tristeza profunda, pois seu espírito já havia desmanchado os nós dos desentendimentos.
Valéria poderia ter outro tipo de comportamento, não fossem os tropeços nos relacionamentos afectivos.
Se tivesse tido um homem ao seu lado, talvez a criação do filho fosse diferente.
Natália captou esse pensamento e disse, à queima-roupa:
-Se tivesse casado, seu relacionamento com Frederico seria completamente diferente.
-Não é verdade.
-Você não me engana, amiga.
Sei o quanto se sentiu mal quando soube do casamento de Tomás e Marion.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 10:47 pm

-Esse casamento era fato consumado.
Eu estava grávida.
Acha que Tomás aceitaria casar comigo naquele estado?
-Tomás casaria com você grávida ou de qualquer outro jeito.
Ele foi correcto quando aceitou casar com Marion.
Ela estava grávida.
Se quisesse, poderia tê-lo procurado depois de alguns anos.
-Para quê?
Para ele se separar de Marion e ela me infernizar? - indagou Valéria aturdida.
Posso suportar muita coisa na vida, mas não suporto mulher ciumenta e vingativa.
Marion é uma pedra que não quero no meu sapato.
-Tomás separou-se dela faz algum tempo.
-E daí? Não acompanha a vida da "grande estrela" nas revistas e nos programas de televisão?
Marion adora aparecer em programas sensacionalistas da tv para espezinhar alguém e, dessa forma, conseguir um pouco de ibope.
Ela hoje é mais conhecida por ser barraqueira do que pelo seu talento.
Quer dizer - Valéria corrigiu -, talento ela nunca teve.
Sempre foi uma boa bisca, isso sim.
Aproveitou o corpinho sensacional e usou dele para fazer carreira.
Contudo, o tempo passa e o corpo não permanece jovem para sempre.
-Marion passou dos quarenta anos e vai posar para uma revista de nu masculino.
O corpo dela ainda povoa a mente de muitos homens - asseverou Valéria.
-Ela pode até fazer sucesso no momento, mas é tudo passageiro.
Daqui a pouco vai chegar a meia idade e o corpo, naturalmente, não será mais o mesmo da juventude.
Marion não está pronta para envelhecer.
-Se ela está pronta ou não, o que importa é que o caminho para você retomar a história com Tomás está aberto.
-Ele nem mais se lembra de mim, Natália.
Faz vinte anos que não nos vemos.
Natália sorriu.
-Não se lembra? Vamos ver.
Ela falou e saiu da sala.
Em seguida reapareceu com um belo e sofisticado ramalhete de rosas vermelhas.
-Que flores lindas! - exclamou Valéria.
-São para você.
-Para mim? Como assim?
-Leia o cartão, oras.
Valéria abriu um sorriso e deu um passo à frente.
Pegou o maço nas mãos e aspirou o perfume delicado das flores.
Em seguida, apanhou o cartão e leu.
Ela enrubesceu.
- Foram enviadas pelo Tomás!
-Não disse que ele ainda se lembra de você?
-Mas por que só agora me mandou flores? - indagou - jeito curioso.
Natália deu de ombros.
-Se eu fosse você, ligaria para ele.
Tomás é empresário de sucesso.
Conseguiu desassociar sua imagem do pai rico que tinha.
Fez fortuna própria e ganhou maior simpatia quando se separou de Marion.
-Ele se separou de Marion faz mais de um ano.
Por que só agora enviou as flores?
-Até que está bem informada a respeito dele, hein? - cutucou Natália.
Valéria fez um gesto com a mão.
-Sempre sai uma notinha aqui e outra ali nos jornais.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 8:33 pm

-Ligue para ele.
-Será?
-Claro. Ligue agradecendo o ramalhete de rosas.
Quem sabe não vão jantar e poderão colocar esses vinte anos em dia?
-Você não sossega - protestou Valéria.
Quer me ver com alguém.
-Óbvio. Seu filho está crescido e logo vai ter seu núcleo familiar.
Vai ficar sozinha pelo resto da vida?
-Não é isso...
-Sente-se aqui ao meu lado - convidou Adamo.
Ele fez sinal e Valéria o acompanhou.
Sentaram-se num sofá e Adamo, firme, disse à sobrinha:
-Escute bem:
todos sentimos rejeição, num grau ou outro.
-Eu não sinto - sentenciou Valéria.
-Pode negar, mas já sentiu rejeição, sim.
Você reagiu com raiva por não ter tido mãe.
Cresceu com medo de gerar um filho porque temia morrer como Amélia, logo após o parto.
Valéria nada disse.
Mordeu o lábio inferior e olhou para o chão.
Adamo prosseguiu:
-A rejeição, de certa forma, faz com que a gente negue nossas vontades.
E, mal resolvida, traz consequências terríveis ao nosso progresso espiritual.
Você criou o tipo da mulher durona, independente, que não precisa de nada nem de ninguém.
Forçou um verniz que não é seu.
Acabou não sendo autêntica.
-Não sou falsa!
-Não é isso que estou dizendo - continuou Adamo.
-Você deixou de ser si mesma, de ser a Valéria alegre e namoradeira, por medo de atrair relacionamentos que se pareçam com os que viveu ao lado de Tavinho e Dário.
Isso ocorreu quando você era muito jovem, há muitos anos.
A experiência de vida a transformou em outra mulher.
Você pode vencer esse medo e buscar sua felicidade.
-Não posso - Valéria estava aturdida com a conversa.
-Eu me machuquei muito na vida.
-Entender a rejeição nos faz mais fortes e nos ajuda a não deixar que tal sentimento nos machuque tanto assim.
Você transferiu todo seu recalque para cima do Frederico.
Ele não tem culpa de ter sido gerado em um momento seu de fraqueza.
-Eu sei, mas é difícil, tio.
-Não é. Nada é difícil ou impossível.
Entender e dominar a rejeição tira o medo das coisas, da vida, das situações e, ao perceber que ela não pode nos destruir, sentimo-nos fortes para compreendê-la e para lidar melhor com ela.
-O mundo é ruim.
-É uma crença óptima que adquirimos ao longo das encarnações para não fazer mudanças significativas para o nosso crescimento espiritual.
É cómodo ficarmos parados numa situação e não enfrentá-la.
É fácil nos sentirmos vítimas do mundo.
Mas tudo não passa de ilusão.
-Nunca tive sorte de ter bons relacionamentos afectivos.
-E preferiu fechar seu coração porque não aguenta mais ouvir um "não" ou mesmo porque não quer mais ser enganada?
-Tenho medo...
Valéria estava profundamente tocada e emocionada com a conversa.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 8:34 pm

Adamo sorriu e prosseguiu.
-Em primeiro lugar, precisa mudar a maneira como enxerga a si mesma.
Precisa se dar mais atenção, olhar para suas necessidades e procurar supri-las.
Depois disso, terá condições de avaliar melhor as atitudes que tem em relação ao seu filho.
-Creio que seja tarde para isso.
Frederico já é homem feito.
-Vocês têm uma vida toda pela frente - disse Adamo, maneira empolgada.
Vamos esquecer o passado e nos concentrar no hoje, no que é possível ser mudado agora.
-Vou tentar.
Adamo falou e olhou para a esposa.
Natália fez sim com a cabeça e levantou-se.
Caminhou até sua mesa.
Abriu a gaveta e pegou uma caixinha.
Acomodou-se novamente no sofá e entregou-a para Valéria.
-O que é isso?
-Abra.
Valéria abriu e havia uma correntinha de ouro.
O pingente era um ideograma japonês - o kanji.
-Mas é tão delicado e bonito!
-Eu e Adamo compramos para você quando visitamos Tóquio.
-O ideograma significa amor - respondeu o tio.
Adamo prosseguiu:
-Quero que você use essa corrente e, sempre que o sentimento de rejeição aparecer forte, é só segurar o ideograma com a ponta do polegar e do indicador e dizer para si mesma:
"Não vou me deixar sofrer".
Valéria abraçou-se a eles.
-Não tenho palavras para agradecer gesto tão gentil.
-Não nos agradeça.
Use e sinta o amor por si própria, represado há tanto tempo - concluiu Adamo.
Natália levantou-se e delicadamente colocou o colarzinho dourado no pescoço da amiga.
-Vou deixá-la reflectir um pouco sobre o que conversamos - Adamo falou e beijou o rosto dela.
Natália fez o mesmo gesto e, antes de sair e fechar a porta, disse sorridente:
-Por favor, não deixe de ligar para o Tomás.
Valéria assentiu com a cabeça e ficou segurando o pingente por um bom tempo.
Sentia-se amada pelo universo e tinha certeza de que dali em diante sua vida seria bem diferente.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 8:34 pm

Capítulo vinte e dois

Aríete ligou para a casa da irmã e tranquilizou-se com a resposta automática:
-Fique sossegada que ela está comigo e com Lurdes.
Eugénio vai chegar logo mais e vamos jantar.
Depois ele levará Olívia para casa.
-Isso é demais, Alzira.
Não posso permitir que Olívia corra para sua casa toda vez que temos uma discussão.
-Você é muito turrona.
Aríete fungou:
-Eu, turrona?!
Está defendendo sua sobrinha?
-Estou. Você implica com a menina desde que ela nasceu.
-Não é verdade.
-É sim.
Você talvez nem perceba, mas pega muito pesado no pé da Olívia.
-Ela é osso duro de roer.
-E você não era assim, quando jovem?
Lembra como enfrentava o pai?
Aríete riu do outro lado da linha.
-Tem razão.
Às vezes me pego pensando em nossa adolescência e como enfrentávamos o pai.
Ele descia uns bons tabefes na gente e nem ligávamos.
-Não queira fazer com sua filha o mesmo que o pai fez com a gente.
-Não me compare àquele crápula.
Dei umas palmadinhas na minha filha, mas nunca dei surra.
-Você precisa parar de decidir o futuro de Olívia.
-Ela só tem quinze anos.
Queria ser Paquita. Pode?
-E acidentalmente - frisou - você errou a data da audição.
Aríete corou.
-Fiz isso pelo bem dela.
-Você não está dentro da sua filha para decidir a esse ponto.
Se Olívia estivesse metida com más companhias, se ela estivesse com um namorado encrenqueiro, eu mesma lhe daria todo apoio do mundo para intervir e tomar alguma atitude.
Acontece que sua filha é tão doce, tão meiga.
Nunca lhe deu trabalho na escola e nunca se envolveu com um rapaz.
-É verdade. Nesse ponto não tenho o que reclamar da nossa filha.
Eu e Osvaldo temos orgulho da educação que demos a ela.
-Se quer ser artista, que seja.
Ainda muita água vai rolar.
Olívia é novinha e as vontades mudam ao longo do tempo.
Deixe ela sonhar.
-Tenho medo, Alzira.
-Medo de quê?
-De que ela se transforme numa outra Gisele.
-O que tem a ver Gisele com Olívia? - indagou a irmã, aturdida.
-Gisele se dizia artista.
Dizia ser actriz e manequim.
Alzira riu ao telefone.
-Gisele inventou isso.
Ela não foi actriz ou modelo nem aqui nem na China.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 8:34 pm

-Mesmo?
-Claro. Pergunte ao Osvaldo.
Ele cuidou do processo que a despejou do sobradinho.
No processo, além dos documentos, devia constar a ocupação dela.
-Mudando de assunto - Aríete não gostava de se lembrar do pai ou de Gisele -, o que me diz de Olívia fazer intercâmbio?
-Ideia maravilhosa.
-Tem certeza?
-Claro, Aríete.
Essa viagem vai transformar positivamente a vida de Olívia.
E, de mais a mais, ao retornar, tenho certeza de que a relação de vocês vai melhorar.
-Ela não gosta de mim.
-Bobagem. Sua filha a ama.
-Ela gosta do pai.
É toda assim - Aríete juntou os polegares enquanto deixava o fone preso no pescoço - com o Osvaldo.
-Ele não a perturba.
Osvaldo conversa com Olívia, escuta o que ela sente, é mais amigo que pai.
Você deveria ser menos mãe e mais amiga da sua filha.
-Vou pegar mais leve com ela, pode acreditar.
-Fico feliz, minha irmã - Alzira falou e ouviu a voz de Eugénio.
O meu maridão acabou de chegar.
-Mande um beijo para o Eugénio.
Estou com saudades dele.
-Vou mandar.
Agora preciso desligar e vou servir o jantar.
Assim que terminarmos, Eugénio levará seu pimpolho para casa.
-Combinado.
Aríete desligou o telefone e sentiu uma leve sensação de bem-estar.
"Alzira tem razão.
Preciso ser mais amiga da minha filha."
Ela falou e levantou-se.
Passou pelo corredor e esbarrou no aparador, repleto de porta-retratos.
Um deles caiu e se espatifou no chão.
Aríete abaixou-se para pegar os cacos de vidro que se espalharam.
-Eu já devia ter mudado esse aparador daqui faz tempo - disse em voz alta, enquanto pegava os caquinhos com as mãos.
Depois, apanhou o porta-retratos que havia caído.
Era uma foto em que ela e Alzira estavam agachadas e abraçadas, ainda meninas.
Atrás delas, em pé, Olair e Josefa.
Ela sorriu ao ver a foto.
-Mamãe, quanta saudade.
Espero que esteja bem.
Em seguida, fixou seus olhos em Olair.
Fez um muxoxo e deu de ombros.
Lembrou-se nitidamente do dia em que o pai morrera e, passado o choque da notícia, Célia lera para ela um trecho do romance Entre o amor e a guerra, referindo-se ao destino de seu pai:
"A leis da justiça divina, imutáveis, dão a cada um segundo suas obras.
E o tempo, amigo constante, encarrega-se de restaurar a verdade na intimidade do ser."
Ela repetiu a frase e concluiu:
- Espero que você esteja bem, pai - Aríete falou e sentiu um arrepio na espinha.
Afinal, o que teria acontecido a Olair e Gisele?
Se você que está lendo ainda estiver com a história fresca na memória, vai se lembrar do estado em que Olair desencarnara.
O homem não morreu do coração, mas de ódio, puro ódio.
Assim que desencarnou, o espírito de Olair desprendeu-se do corpo físico.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 8:34 pm

Ele olhou para seu corpo caído no chão e para seu perispírito.
Viu o desdém de Gisele e Rodinei.
O ódio voltou e Olair sentiu uma pontada no peito.
Na sequência, ele estava atrás de Gisele.
Depois de ele gritar e ela não escutar, Olair perturbou-se.
Tentou dar um tapa nela, mas sua mão passou pelo rosto de Gisele como se fosse fumaça.
Olair olhou para a mão e esqueceu-se por instantes da amante traidora, retornando ao quarto onde morrera.
-O que aconteceu? - perguntou para si mesmo enquanto apalpava o próprio corpo perispiritual.
Um espírito atormentado, repleto de larvas astrais ao redor do corpo, aproximou-se dele.
Olair deu um passo para trás, tamanha sensação de repugnância.
O cheiro que o espírito emanava por conta dessas larvas grudadas pelo corpo era nada agradável.
Lembrava cheiro de caçamba de caminhão de lixo.
-O que quer de mim? - perguntou Olair, olhos arregalados.
-Eu não vou machucar você - falou o espírito.
-Quem é você?
-Faço parte de um grupo de vampiros astrais que sugam o pouco de energia vital que ainda sobrou do seu corpo de carne.
Olair olhou para o chão e viu a si mesmo.
-Como voltei ao quarto?
Eu estava na rua e...
O espírito deu uma risadinha sinistra.
-Quando morremos podemos andar neste mundo de outra forma, num outro ritmo.
Eu quero me alimentar disso - o espírito apontou para o cordão prateado13 que ainda mantinha o perispírito de Olair preso ao corpo físico.
Uma claridade muito forte se fez presente e um espírito de luz surgiu na frente dos dois.
O espírito com larvas deu um salto para trás enquanto Olair permanecia estático, olhos esbugalhados.
A sua voz era firme e nada amistosa:
-Não vai se alimentar de nada, por ora.
Se assim o fizer, Olair vai sentir uma dor muito grande.
-E daí? - retrucou o espírito embrutecido.
A dor não vai durar muito.
Eu preciso me alimentar.
-Não vai ser aqui.
Se quiser, vá até algum cemitério.
Há muitos recém-desencarnados neste exacto momento.
-Sei, mas para entrar no cemitério eu preciso de autorização.
Por isso pego um morto aqui e outro ali.
-Pode se retirar - a voz era potente.
O espírito enegrecido deu de ombros, falou alguns desaforos e partiu.
Olair aproximou-se e indagou:
-Quem é você?
-Sou Lolla, amiga de Josefa.
-Não conheço nenhuma Lolla.
-Você não se lembra de mim.
Não reencarnei com vocês desta vez.
A expressão de Olair era de total desconhecimento.
-Não temos muito tempo para conversar.
Vim porque Josefa pediu.
-Josefa?
Pediu para vir até aqui?
-Embora ainda esteja hospitalizada, pediu-me para ajudá-lo no processo de desencarne.
-Não estou entendendo nada.
Lolla sorriu e o encarou firme:
-Você morreu.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 8:35 pm

-Sim, mas estou conversando com você.
Não estou entendendo.
-O seu corpo de carne morreu.
O seu espírito continua vivo.
Simples assim.
A morte do corpo não é o fim da vida.
A vida não se esgota jamais. É eterna!
-Se morri, o que faço agora?
-Pode me acompanhar e vamos para um posto de socorro.
Você vai ser atendido por médicos dedicados e competentes.
Depois conversaremos sobre a colónia em que você poderá viver de acordo com a sua vibração energética.
-Não posso ir embora.
Tenho de acertar contas com Gisele e Rodinei.
Eles me passaram a perna e não vou deixar que se dêem bem.
-Isso faz parte do passado.
Você morreu e cada um colhe aquilo que planta.
Mais à frente, depois de esclarecimentos, você vai entender por que Rodinei e Gisele tiveram essa atitude com você.
-Eu nunca fiz mal a eles.
-Nesta vida. E em outra?
-Que outra?
-Nascemos e morremos muitas vezes - falou Lolla, maneira didáctica.
Você já viveu com Gisele e Rodinei antes.
Tiveram outra vida, outro corpo, em outra época, mas as crenças e atitudes não mudaram.
-Não me lembro de ter vivido antes.
-Logo vai se lembrar.
Na última vida, você ludibriou um casal de camponeses.
Tirou-lhes as terras e, por conseguinte, o sustento da família.
Você fez isso por ganância, e Rodinei e Gisele, depois que desencarnaram, não souberam perdoar você.
Algo dentro de Olair dizia ser aquilo verdade, contudo ele afastou a ideia com as mãos e alteou a voz:
-Eles vão viver assim, se dando bem?
-A probabilidade de eles serem infelizes é muito grande.
Deixemos ambos nas mãos de Deus.
Vamos seguir nosso caminho.
-Não vou. Você não pode me obrigar a ir embora.
Eu quero que eles paguem pela tramóia.
Não vou sossegar enquanto não me vingar.
-Nem pense nisso, Olair.
A vingança é um sentimento que corrói o espírito, assim como a ferrugem corrói o ferro.
Não vale a pena.
-Fala assim porque não foi ludibriada.
-Não tenho permissão para ficar mais tempo por aqui.
-Então pode ir embora.
Eu vou ficar até ajustar as contas com esses salafrários.
Lolla deu de ombros e suspirou:
-Que pena. Espero poder vê-lo em breve.
Ela falou e sumiu no ar.
Logo a claridade se foi e Olair se viu sozinho no quarto, ao lado do seu corpo.
O espírito cheio de larvas reapareceu e, num instante, avançou sobre o cordão prateado e o rompeu com violência, sorvendo de maneira bestial o pouco líquido vital que ali jazia, tal qual urubu sobre carniça.
O perispírito de Olair sentiu uma dor aguda e desfaleceu.

13 Cordão de prata é o laço fluídico que liga a alma ao corpo.
Mais detalhes sobre o rompimento do cordão após a desencarnação, ler as questões 154 a 156 de O Livro dos Espíritos, bem como O Céu e o Inferno, Segunda Parte, Capítulo 1 - "O passamento", ambos de Allan Kardec.
Utilizamos a tradução, enriquecida de notas explicativas, feita pelo professor José Herculano Pires, publicada pela LAKE - Livraria Allan Kardec Editora.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 8:35 pm

Capítulo vinte e três

Depois do jantar, Olívia aceitou voltar para casa.
No caminho, entabulou conversa com Eugénio.
-Mas tio, minha mãe é muito controladora.
Eugénio escutava a conversa e nada dizia, somente fazia movimentos com a cabeça, para cima e para baixo.
Em determinado momento, perguntou a sobrinha:
-Por que há esse sentimento de rejeição pela sua mãe?
-Não entendi.
-Sinto que você sente forte rejeição por Aríete.
-Ora tio, imagine - Olívia tentou dissimular.
-Não gosto de me meter na vida de ninguém, entretanto você sempre teve um comportamento hostil em relação a sua mãe.
-Está defendendo minha mãe? - perguntou, aturdida.
-Não estou defendendo ninguém, mas estou fora da relação de vocês.
Quem está fora do conflito consegue enxergar a situação com total imparcialidade.
Você teve dificuldades para nascer.
Aríete demorou horas num trabalho de parto difícil e que quase lhe custou a vida.
-Nunca soube disso.
-Agora sabe.
-E o que isso tem a ver com a nossa relação?
Eu amo minha mãe.
-Sei que ama, mas há determinados componentes no seu comportamento que mantêm você distante dela.
-Também pudera.
Mamãe sempre me poda.
Não deixa eu fazer nada que eu queira.
-Não falo disso.
Aríete tem esse comportamento porque quer proteger você.
É comportamento de mãe super protectora.
-Não sinto assim.
Eugénio mexeu a cabeça para os lados.
-Sente, sim.
Tenho certeza de que essa animosidade entre ambas vem de outras vidas.
-Bobagem. Não acredito nisso.
-Não acredita ou tem medo de enxergar a verdade?
Olívia remexeu-se no banco do carro.
Fingiu ajeitar o cinto de segurança e virou o rosto para a janela do carro.
Suas tias Lurdes e Alzira estudavam e acreditavam na continuidade da vida depois da morte.
Olívia estava na adolescência e na fase em que só acreditava naquilo de que lhe mostrassem provas.
Crescera escutando conversas e, falando em "provas", mantinha fresco na memória certo dia em que visitara Célia e Ariovaldo.
O casal recebera Aríete e Osvaldo com extremo carinho e foram, como de costume, muito simpáticos com Olívia.
Até aí, nada de mais.
Ocorre que, num determinado momento, Célia chamou Olívia para ajudá-la na cozinha e comentou:
-Continua tendo aquele sonho?
-Qual?
-O sonho em que você se vê num hospital e receia voltar ao nosso mundo.
Célia se referia ao sonho que Olívia tinha desde os treze anos de idade e que ainda era recorrente.
A cena se repetia, como no início desta história.
Havia, no entanto, uma parte que sempre marcava Olívia sobre-maneira:
-Vai me dizer que minha mãe também vai estar lá?
-Vocês precisam se reconciliar.
De nada adianta o perdão aqui no mundo astral, se o mesmo não ocorrer numa próxima etapa reencarnatória, com o véu do esquecimento sobre as memórias pretéritas.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 8:35 pm

Passará por algumas experiências para que seu espírito vença essa rejeição.
A jovem abaixou a cabeça.
Sabia que vencer a rejeição seria dar um passo significativo para sua jornada evolutiva.
Sentia que precisava encarar situações que a fizessem confrontar esse monstro que tanto a machucara em algumas existências.
Ela respirou fundo e olhou fixamente para Lolla:
-Estou pronta.
Sei que sou forte e tenho amigos aqui no astral que vão me inspirar bons pensamentos.
Eu vou vencer.
Ela acordava sempre depois desse trecho.
Célia virou-se para ela e perguntou:
-Será que agora vai vencer?
Olívia estremeceu e indagou, suando frio:
-Como sabe disso?
Nunca contei esse sonho para ninguém, nem mesmo para minha tia Alzira.
Célia sorriu e nada disse.
Daquele dia em diante, Olívia passou a ler livros espíritas e interessar-se pelo assunto.
Olívia movimentou a cabeça para o lado e disse para Eugénio.
-Menti, tio.
Eu acredito que a vida continue depois da morte.
-Se acredita, pode abrir sua mente e seu coração para entender melhor a relação difícil que tem com Aríete.
O que custa você mudar sua maneira de ser?
-Eu?! Ela é quem tem de mudar!
-Se você mudar positivamente seu jeito de ser, garanto que as pessoas ao seu redor também vão mudar.
A sua mãe é uma dessas pessoas.
Por que não tenta?
-Não sei - Olívia sentia-se insegura.
-O que tem a perder?
Se você passar a entender melhor a si mesma, vai entender melhor a postura de sua mãe.
Aríete e sua tia Alzira tiveram uma vida difícil e têm uma visão de vida bem diferente da sua.
Enquanto você pensa em fazer teatro ou ir para a Inglaterra, sua mãe, quando tinha sua idade, estava cuidando da doença da sua avó Josefa e convivendo com um pai bruto e estúpido.
Antes que ela abrisse a boca para retrucar, Eugénio complementou:
-Sei que cada um tem a vida que merece.
Sei também que não há vítimas no mundo.
Sua mãe e sua tia atraíram os pais que tiveram para crescimento delas.
Só digo que não custa nada abrir seu coração e ver e escutar sua mãe com outros olhos e ouvidos.
Você é jovem, inteligente e sabe o que quer.
Tem uma mãe e um pai que amam muito você e que querem sempre o seu melhor.
Olívia assentiu com a cabeça, emocionada.
-Tem razão, tio.
Preciso ser menos birrenta.
Adorei conversar com você, como de costume!
Ele estacionou no meio-fio e a abraçou.
-Você tem tudo para se dar bem na vida, minha querida.
Dê uma chance a si mesma para melhorar a relação com sua mãe.
Aríete é uma boa pessoa.
Se não fosse, eu seria o primeiro a convidar você para viver comigo e sua tia Alzira.
Mas você tem pais maravilhosos.
Converse com eles, fale sobre sua vontade de ir para a Inglaterra sem impor sua vontade de maneira altiva.
Vá com jeito.
Se tudo der certo, eu prometo que lhe dou as passagens de ida e volta, de presente.
Olívia exultou de alegria.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 8:35 pm

-Fala sério, tio?
-Hum, hum.
Ela o abraçou e o beijou várias vezes no rosto.
-Eu amo você e minha tia Alzira. Amo muito!
-Nós também amamos você.
Agora entre e mostre a eles que você é uma boa filha.
Eles se despediram.
Eugénio deu partida e se foi.
Olívia respirou fundo e sorriu.
Entrou em casa e encontrou Osvaldo e Aríete na cozinha, conversando.
Ela respirou fundo e passou pelo corredor.
"Vou fazer de conta que está tudo bem.
Preciso ficar amiga de minha mãe, entendê-la melhor para ganhar a viagem para a Inglaterra" - pensou.
Olívia entrou na cozinha.
Beijou o pai no rosto e aproximou--se da mãe.
Aríete a fuzilou com os olhos:
-Não toma jeito!
Por que foi atrapalhar a vida da sua tia?
Custava ter ficado em casa?
Não podemos resolver os nossos problemas entre essas quatro paredes? - apontou para os lados.
Osvaldo levantou-se da cadeira e ia se posicionar entre as duas.
Sabia que a filha ia rebater feio.
Para sua surpresa, Olívia abriu um sorriso e meneou a cabeça para cima e para baixo.
Abraçou Aríete com enorme carinho.
-Tem toda razão, mamãe.
A partir de hoje, não vou mais importunar tia Alzira ou tia Lurdes com as minhas lamúrias.
Como diz o velho ditado, roupa suja se lava em casa.
Vou muda meu jeito de ser e não vamos mais brigar.
Olívia falou, beijou Aríete na face e caminhou até a pia.
Olhou para o lado e viu a panela fumegante sobre o fogão.
-Hum! Você fez sopa de fubá com couve picada!
Como gosto disso.
Pena que acabei de jantar.
Você guarda um pouco para eu tomar amanhã?
Aríete não sabia o que responder.
Osvaldo colocou as mãos na cintura.
-Você bebeu ou fumou alguma coisa estranha?
-Não, papai.
O senhor bem sabe que não gosto de bebida, tão pouco de cigarro.
É que passei momentos agradáveis ao lado de minhas tias e meu tio Eugénio.
Estou feliz, só isso.
Ela virou-se e abraçou Osvaldo.
Beijou-o na face e tornou:
-Vou subir, me banhar e quando descer vou tomar um copo de leite com açúcar queimado, do jeito que você me fazia quando eu era pequena, lembra mãe?
-Lembro - Aríete estava monossilábica.
A menina rodou nos calcanhares e saiu da cozinha.
Subiu a escada até o quarto.
Aríete estava realmente surpresa.
Não sabia o que dizer.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 8:35 pm

Osvaldo cutucou-se e disse, boquiaberto:
-Essa não é nossa filha!
Olívia foi abduzida por extraterrestres!
Ambos riram.
-É sim. Botou um pouco de juízo na cabeça.
Olívia sempre volta bem da casa de minha irmã.
Vai ver escutou poucas e boas da Alzira.
-Não sei - Osvaldo alisava o queixo.
Olívia mostrou outro comportamento.
Eu já estava preparado para a briga entre as duas e, no entanto, o clima foi de harmonia e paz.
-Ela está nos tratando assim porque quer ir para a Inglaterra.
-Será só isso, meu bem?
Não notou uma luminosidade diferente nos olhos da nossa pequena?
-Isso é.
-Quanto tempo que Olívia não lhe dava um abraço e um beijo assim tão carinhoso?
Aríete levou a mão ao rosto.
-Confesso ter sido pega de surpresa.
-Olívia está crescendo e mudando.
-Tenho medo de que ela se perca no mundo.
-Medo infundado.
Olívia tem juízo.
Sinto que o intercâmbio vai lhe fazer enorme bem.
-Vamos ficar sozinhos.
-Alzira convidou você inúmeras vezes para trabalhar.
-Pode ser que agora eu aceite o convite.
-Vamos confiar porque a vida sempre faz o melhor para nós.
Osvaldo falou e abraçou a esposa.
Aríete sentiu um nó na garganta.
Abraçou o marido com força.
-Não me deixe, querido - as palavras saltaram de sua boca, de maneira automática.
-Eu a amo - ele respondeu.
Prometo que lhe serei fiel até à morte.
-Até à morte?
-É. Depois da morte, cada um para o seu lado!
Aríete deu um tapinha no ombro do marido.
-Engraçadinho!
Quer dizer que seremos casados...
-Como diz a lenda:
até que a morte nos separe.
Ela riu e abraçou-se a Osvaldo, novamente.
Sentia grande amor pelo marido e pela filha.
Não entendia por que Olívia a rejeitava tanto, desde pequena.
Mas agora parecia que tudo mudaria para melhor.
Aríete tinha toda razão do mundo para acreditar nisso.
Naquela noite, depois de tomar um copo de leite morno com açúcar, Olívia adormeceu e logo se desprendeu do corpo.
Abriu os olhos e sorriu ao ver Lolla ao lado da cama.
- Quanto tempo!
Olívia correu e abraçou-se ao espírito amigo.
Lolla retribuiu o abraço.
-Faz um pouco de tempo.
Estou muito feliz com a sua mudança.
-Meus tios me ajudaram.
Hoje tive uma conversa com tio Eugénio que muito mudou minha maneira de ver a relação que eu tenho com minha mãe.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 8:36 pm

-Seu espírito desejou reencarnar como filha de Aríete.
Olívia fez sim com a cabeça e teve um lampejo de memória passada.
Os seus pais haviam morrido num acidente e ela fora criada pela tia.
Daí a sua afinidade com Alzira.
As cenas vieram de maneira rápida.
Em uma nova cena, agora Olívia era uma moça bonita, extrovertida.
Mas descobrira que sua mãe havia engravidado de outro homem antes de se casar e, pior, que ela não tinha morrido no acidente.
Aríete retornara depois de muitos anos e fora rejeitada pela filha.
Olívia não queria saber dela, mas Alzira tentou contemporizar e fazer com que todas vivessem bem e em harmonia.
Olívia não aceitou e mudou-se para outra cidade.
Aríete foi atrás da filha e Olívia decidiu deixar o país.
Ela mudou-se para Veneza, na Itália.
Conheceu um homem lindo por quem se apaixonou perdidamente.
Seu nome era Frederico...
Lolla tocou em sua testa e as memórias cessaram.
Olívia abriu e fechou os olhos várias vezes.
-O que aconteceu?
Parece que entrei num transe.
-Você teve acesso a cenas de sua última vida na Terra.
-Agora sei o porquê de sentir tanta repugnância pela minha mãe.
Ela queria o meu dinheiro.
Tentou me tirar a casa onde eu e tia Alzira morávamos.
-Aríete sofrera bastante.
O vapor em que ela estava com o marido afundou, e ela quase morreu afogada.
Aríete foi resgatada, mas perdeu a memória.
Perambulou aqui e ali até recobrar a memória.
Insegura e na meia-idade, quis a todo custo que você lhe desse sustento.
-Ela tentou fraudar documentos e me tirar a casa onde vivia.
-Aríete estava desesperada.
Tinha medo de morrer na rua, feito indigente, como ocorrera numa outra vida.
-Entendo muita coisa, mas antes de tocar minha testa eu vi um moço bonito.
Senti um calor percorrer meu corpo e abri os olhos.
-No momento certo você vai se lembrar com mais detalhes desse rapaz.
Em breve vão se reencontrar.
Olívia sentiu um frio na barriga.
Não sabia o motivo de sentir amor e ao mesmo tempo medo dele.
Lolla passou o braço em volta de seu pescoço.
-Fique tranquila, querida.
O importante agora é que você vai para a Inglaterra e nova etapa se inicia em sua jornada.
-Não vejo a hora de voltar à Inglaterra.
Quanta saudade!
-Precisa descansar.
De agora em diante precisará estar em equilíbrio e em paz consigo mesma.
Não esqueça de que estarei sempre ao seu lado.
-Mas como vou me lembrar?
Sei que vou acordar e vou esquecer toda nossa conversa.
-O seu espírito vai me chamar.
Fique sossegada.
Lolla beijou-lhe a face e Olívia retribuiu o beijo.
Voltou para a cama e seu duplo14 deitou-se alguns palmos acima do seu corpo.
A garota fechou os olhos e adormeceu novamente.

14 Segundo Jorge Andréa, em Psicologia Espírita - Volume II, o duplo etérico é a parte do perispírito mais grosseira e próxima do corpo.
É o reservatório de vitalidade necessário durante a vida física para a reposição de energias gastas ou perdidas.
Com a desencarnação, essa estrutura se desintegra com a própria organização física.
Mais detalhes, ver também Nos Domínios da Mediunidade, de André Luíz, Capítulo 11 - "Desdobramento em serviço", em especial as páginas 98 e 99. Utilizamos a 27ª edição da FEB.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 8:38 pm

Capítulo vinte e quatro

Ainda voltando alguns anos na história, Olair acordou e percebeu não estar mais no quarto.
Parecia estar em outro ambiente, mais pesado, sinistro e escuro, muito escuro.
Ele abriu os olhos e lembrou-se parcialmente da conversa com Lolla.
-Devo ter sonhado - disse para si.
Em seguida levantou-se e começou a tactear ao redor.
Ouviu uma voz naquele breu:
-E aí, camarada, gostou da sua nova casa?
-Nova casa?
Onde estou?
-No inferno, diriam os católicos - riu o outro.
Olair nada enxergava.
Sentiu frio e sede.
-Quero beber algo.
Onde tem água?
-Não faço a mínima ideia - retrucou a voz na escuridão.
-Adoraria sair daqui.
-Não é muito complicado.
-Se houvesse luz, talvez eu pudesse achar o caminho e seguir adiante.
-Vou te dar um conselho.
Tem alguém por quem você sente raiva, muita raiva?
-Tem - Olair respondeu, pensando em Gisele.
-Pois pense nessa pessoa.
Aproveite a escuridão do ambiente e coloque mentalmente ela na sua frente agora.
-Para quê?
-Faça isso e não me pergunte.
Obedeça! - a voz era firme.
Olair assentiu com a cabeça.
Nem precisou fechar os olhos.
A escuridão era absoluta.
Ele pensou em Gisele com tanta força e tanta raiva, que imediatamente ele se viu ao lado dela.
A mudança de um local totalmente escuro para onde ela estava, com certa claridade, cegou Olair por instantes.
Ele abriu e fechou os olhos muitas vezes, até sua visão acostumar-se com o ambiente.
Gisele estava se arrumando quando Olair apareceu ao seu lado.
Ela passou batom nos lábios, borrifou um perfume muito doce e muito forte no colo e nos pulsos.
Olhou para a imagem reflectida no espelho e mandou um beijo.
-Você está linda, garota!
Ela saiu do banheiro e caminhou até o quarto.
Rodinei estava deitado na cama.
No princípio, ele pensara em usar Gisele para ter a casa e dar um golpe em Olair.
Depois se livraria dela.
Não tencionava casar ou constituir família.
No entanto, com a morte de Olair, ele passou a nutrir sentimentos verdadeiros pela loira falsificada.
Ele espreguiçou-se na cama e sorriu:
-Venha, minha princesa.
Está na hora de dormir.
-Dormir? - ela fez um biquinho.
Pensei que fôssemos namorar.
-Se quiser.
Bem, sabe que estou sempre pronto.
Ocorre que hoje trabalhei muito no bar.
Teve muito freguês.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 8:38 pm

-Claro. Aprendi a fazer bolinhos de bacalhau.
Não sou muito chegada numa cozinha, mas esses bolinhos eu sei fazer desde pequena.
Aprendi lá em Aquidauana, com uma portuguesa amiga da minha mãe.
-Chega mais perto.
Gisele aninhou-se junto ao corpo de Rodinei.
-Por que tanto batom?
-Para marcar o corpo do meu homem.
Ela falou e gargalhou.
Em seguida passou a beijar várias partes do corpo de Rodinei.
Olair olhou para aquilo tudo e sentiu uma raiva descomunal.
-Como podem se amar?
Eu acabei de morrer!
Meia hora depois, estavam cansados e com muito sono. Gisele sentiu sede.
-Quer água, meu amor?
-Um pouco.
-Vou até a cozinha e volto num instante.
Ela levantou-se da cama, calçou os chinelos de dedo e foi até a cozinha, completamente nua.
Gisele podia ser uma mulher venal, contudo tinha um corpo espectacular.
Olair a acompanhou.
-Por que fez isso comigo, Gisele? Eu te amo.
Ela nem notou a presença dele.
Pegou um copo, abriu a geladeira e apanhou uma jarra de água.
Encheu o copo, bebeu e o encheu novamente.
Olair continuava entre a raiva e a rejeição:
-Por que me trocou por Rodinei?
Por que me deram esse golpe?
Gisele lembrou-se dele e disse em voz alta, enquanto guardava a jarra na geladeira:
-Olair morreu faz um ano e parece que morreu há séculos.
Não sinto falta dele. Nada.
Olair coçou o ouvido.
-Será que ouvi bem?
Ela disse que eu morri faz um ano?
Mas eu morri ontem...
Gisele continuou a falar em voz alta:
-Aquele estropício morreu tarde.
Ele confiou em mim e se danou.
Eu confiei no Rodinei e me dei bem.
Vamos nos casar e vou ajudá-lo cada vez mais lá no bar.
Vamos ter uma família, coisa que eu jamais sonharia com aquele porco sujo.
Ela falou e fez uma careta.
Olair sentiu toda a raiva voltar com força.
Sentiu um ódio descomunal e soltou um grito tão estridente que o vidro de uma das portas do louceiro trincou.
Gisele deu um grito e correu até o quarto.
-O que foi? - perguntou Rodinei.
-O vidro do louceiro rachou.
-E daí?
-Não sei, Rodinei.
Senti um frio na espinha.
Ele gargalhou.
-Acredita mesmo naquilo que o freguês te disse outro dia?
Que o espírito do Olair devia estar vagando no mundo, feito alma penada?
Gisele tremeu de medo.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 8:39 pm

-Acredito. Nunca fui religiosa, nunca frequentei igreja ou culto.
Mas tenho medo de alma penada.
-Olair partiu desta para melhor.
O otário deve estar ao lado da esposa, de mãos dadas, sentados numa nuvem branca.
-Não sei não, Rodinei.
Faz um ano que ele morreu e tive alguns pesadelos.
Neles, Olair sempre gritava comigo e tentava me sufocar.
-Ficou impressionada com a maneira como o velho bateu as botas.
Ele caiu mortinho na nossa frente.
-Deve ser isso.
-Melhor esquecer.
O homem morreu e a casa é nossa.
Vamos casar e teremos uma família linda.
Quero um monte de filhos.
Gisele gargalhou alto.
-Nem tanto, Rodi. Nem tanto.
Olair estava estupefacto.
Não podia acreditar que aqueles dois ordinários pudessem se dar bem.
Eles haviam lhe feito mal.
Um espírito aproximou-se dele.
Olair tomou um susto.
-Como entrou? - perguntou, assustado.
-Do mesmo modo que você, oras.
-Conhece esses dois?
O espírito abriu um sorriso.
Seus dentes eram amarelados e escurecidos pela nicotina.
-Sou desafecto do Rodinei.
O cabra da peste me tirou a vida.
Deixe eu me apresentar.
Me chamo Evanildo.
Ele estendeu a mão e Olair fez o mesmo.
-Prazer. Eu sou Olair.
Evanildo era baixinho, mas robusto.
Os olhos eram naturalmente vermelhos.
Metiam medo.
Ele usava roupas de cangaceiro e tinha uma peixeira de puro aço a tiracolo.
-Eu frequentava o catimbó15 e era um homem de bem.
Cultuava as ervas e atendia à população.
Conheci Rodinei quando ele levou a namorada, doente.
O meu grupo a curou e nos apaixonamos.
Rodinei sentiu-se traído e veio tirar satisfações.
Eu bem que tentei acalmá-lo, contudo ele me matou.
No dia seguinte, matou a Maria das Dores.
Depois fugiu para São Paulo.
-Onde está a Maria das Dores?
Os olhos de Evanildo brilharam de emoção.
-Ela está bem.
Aceitou a morte e vive no Jurema.
-Onde fica esse lugar?
Nunca ouvi falar. Vive onde?
-No Jurema.
Evanildo riu-se.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 8:39 pm

-Pelo jeito, não entende nada do mundo espiritual.
Olair mexeu a cabeça para os lados, de maneira negativa.
-Foi católico, pelo menos?
-Tive criação católica, mas nunca frequentei nada.
Mas já ajuda para entender.
O universo espiritual do catimbó segue o mesmo padrão do catolicismo, cujas crenças de céu, inferno e purgatório são bastante difundidas entre os catimbozeiros.
Hã, sei...
-A diferença é que há também para nós o Jurema, onde habitam os Mestres da Jurema e seus subordinados.
O Jurema é composto de um monte de aldeias, cidades e estados, com organização hierárquica rígida, envolvendo todas as entidades catimbozeiras, como caboclos da jurema e encantados, sob o comando de um ou até três Mestres.
-E por que não vai viver lá, ao lado da sua amada, a Maria das Dores? - perguntou Olair, curioso.
-Porque depois que morri não consegui conter a minha raiva.
Das Dores já tentou me convencer a mudar de ideia, contudo a raiva é muito grande.
-Mas se você era um homem de bem, por que diacho agora vai se meter com vingança?
- E olha quem fala?
Você não está aqui pelo mesmo motivo?
Olair espantou-se.
- Como sabe disso? - Evanildo riu-se.
-Pela cor da sua aura.
Eu também consigo perceber o pensamento dos outros.
Sinto que você quer se vingar dela - apontou para Gisele.
-Você era homem religioso.
Eu não era. Por isso não entendo a sua vontade de querer se vingar.
-Por vontade pura.
Depois que Rodinei derrubar uma lágrima de arrependimento, eu vou sossegar.
Quanto a você...
Evanildo parou e fez sinal com a cabeça, aguardando por um pronunciamento de Olair.
-Ela e o Rodinei aprontaram comigo.
Me tiraram a casa e a vida.
Não posso permitir que eles fiquem juntos e felizes.
Têm de pagar pelo que me fizeram.
-Concordo.
-O que podemos fazer?
Já me joguei em cima dela, mas não sente nada.
É como se eu não conseguisse atingi-los.
Nós temos mais força que eles.
Vou lhe mostrar.
Evanildo pegou a peixeira e a ergueu com o braço.
Proferiu algumas palavras estranhas ao conhecimento de Olair.
O ambiente foi se enchendo de parasitas astrais.
Esses "bichinhos" vindos dos pântanos do umbral começaram a grudar nos corpos de Rodinei.
Imediatamente ele sentiu uma coceira.
Gisele perguntou:
- Está se sentindo bem?
-Não sei - respondeu Rodinei.
De repente, comecei a sentir um comichão, uma coceira pelo corpo todo, como se estivesse sendo picado.
Gisele olhou com acuidade.
-Não tem nada em você.
-Mas está coçando.
-Espere que vou pegar um pouco de álcool na cozinha.
Ela se levantou e foi buscar o frasco.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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