O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 24, 2015 9:13 pm

-Não sou nada.
Quero unir o útil ao agradável, conhecer melhor esse doutor e saber o que essa vadia quer com nosso pai.
Acha que ela caiu de amores por ele assim - ela estalou os dedos - de uma hora para outra?
-Ela sempre foi mal-falada na redondeza.
Costumava estar sempre grudada no Rodinei, o dono do bar da esquina.
-Aí tem.
Aríete espalhou um pouco de desodorizante Mistral nas axilas e passou um batom de cor delicada sobre os lábios.
Em seguida, apanhou um frasco de Leite de Rosas e espalhou algumas gotas pelo colo e pescoço.
Saiu. Osvaldo a elogiou:
-Está bonita... e perfumada.
E conseguiu isso em tempo recorde.
Aríete levantou os ombros.
-Sou prática, não perco horas em frente à penteadeira.
Vamos, doutor?
Caminharam alguns passos e dobraram a esquina, sem conversar.
Aríete parou em frente ao portãozinho lateral da casa de Gisele e bateu palmas. Nada.
-Tem de entrar.
-Não! Não podemos invadir a casa.
Sou advogado e sei que, se entrarmos na casa sem consentimento...
Aríete o cortou com delicadeza:
-Conheço o tipo.
Ela está aí dentro com o meu pai.
Garanto que você não vai ser processado por ninguém.
Osvaldo nada disse.
Assentiu com a cabeça.
Aríete abriu o portão.
Estava enferrujado e fez barulho enquanto ela o empurrava para dentro e entrava na área que dava acesso à porta de entrada.
-Bom, estamos quase lá.
-Não sei se devemos - hesitou Osvaldo.
-Já disse.
Qualquer coisa, eu digo que vim procurar meu pai.
Fique sossegado.
Aríete girou a maçaneta e a porta estava destrancada.
Entraram e havia um grande silêncio na casa.
Caminharam por um corredor fétido - Gisele não era chegada em limpeza - e pararam na porta do quarto.
Aríete meteu a mão na maçaneta e empurrou.
A cena era digna de um filme de porno chanchada de quinta categoria.
Gisele estava deitada, ou melhor, esparramada sobre o corpo de Olair.
Ela estava nua e o pai de Aríete vestia uma cueca nada sedutora.
Tinha uma cor indefinida, estava larga e esgarçada.
Olair também vestia meias pretas.
Os dois roncavam alto. Havia garrafas de espumante barato sobre o criado-mudo e garrafas de cerveja no chão.
Aríete começou a bater palmas e gritar:
-Vamos lá, cambada.
Está na hora do almoço de Natal.
Levantem-se.
Osvaldo estava atrás dela, mudo, sem acção.
Na verdade, ele tinha uma grande vontade de rir.
A cena era, de facto, hilária.
Olair foi mexendo a boca, engolindo a saliva, passando a língua sobre os lábios.
Resmungou alguma coisa.
Gisele abriu os olhos, soltou um arroto e, olhos inchados, voltou o rosto para o ponto de onde vinha aquela voz alta.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 24, 2015 9:13 pm

Depois de alguns segundos, ao perceber que era Aríete à sua frente, deu um pulo seguido de um grito:
-O que você faz na minha casa, sua pirralha?
-Vim buscar o pai.
Só isso - respondeu Aríete, num tom irónico.
Foi então que Gisele notou estar nua.
Ela balançou a cabeça para os lados, empurrou Olair para o extremo da cama e cobriu-se com o lençol engordurado e que não via um tanque fazia um bom tempo.
-Se você continuar aqui, eu chamo a polícia.
Aríete riu alto.
-Chamar a polícia? Você?
Não me faça rir, pelo amor de Deus.
Você tem medo da polícia assim como o vampiro da luz.
Corta essa, Gisele.
A moça ficou sem ter o que responder.
Com uma mão ela segurava o lençol sobre o corpo.
Com a outra, esfregava os olhos.
Ao reconhecer o moço atrás de Aríete, deu outro grito:
-O que faz dentro da minha casa?
Isso é invasão de privacidade.
Aríete olhou para ele e em seguida para Gisele:
-Vocês se conhecem?
-Hum, hum - ele afirmou.
Em seguida, deu um passo para frente e cumprimentou:
- Como vai, senhorita Gisele Correia?
-Não posso acreditar que vocês se conheçam.
Eu o achei um rapaz tão distinto, tão elegante.
Não combina com essa zinha.
-Senhorita Gisele tem me evitado há um bom tempo.
Diante das circunstâncias - Osvaldo colocou um envelope sobre o criado-mudo - posso agora afirmar que a citação foi entregue.
O proprietário é um homem de bem e não quer escândalos.
Era para eu estar acompanhado de uma viatura de polícia na porta.
Quero fazer tudo de maneira discreta, claro, se a senhorita não se opuser.
Osvaldo entregou o documento para Gisele.
Ela fez uma careta.
Em seguida ele pegou uma cópia do documento, tirou uma caneta da parte interna do paletó, consultou o relógio e escreveu no verso.
Depois disse, sério:
-Execução da sentença de despejo entregue no dia25 de dezembro de 1975, às onze horas e trinta e dois minutos.
Aríete abriu e fechou a boca para evitar o estupor:
-Acção de despejo?
Quer dizer então que a madame além de boa bisca é mal pagadora?
Caloteira de carteirinha?
Gisele engoliu em seco.
Não sabia o que responder.
Estava evitando Osvaldo havia meses.
Sabia que mais cedo ou mais tarde teria de entregar o imóvel.
Ela estufou o peito e procurou dar um tom firme e ameaçador à voz:
-Nem vou ler a sentença.
-Por quê? - indagou Osvaldo.
-Porque falei com meu advogado...
Ele a cortou com delicadeza:
-Quando foi isso?
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 24, 2015 9:13 pm

Gisele pensou e disse:
-Em abril, acho.
Ele me assegurou que, ao receber a sentença do juiz, tenho ainda, no mínimo, três meses para sair daqui.
Osvaldo moveu a cabeça negativamente para os lados.
-Se entre a data da sentença da primeira instância e a execução da mesma houver decorrido mais de seis meses - e esse é o seu caso, senhorita - o prazo de desocupação do imóvel será de trinta dias.
O juiz fixou o prazo de trinta dias a contar da data de 13 de dezembro.
Como só consegui entregar a citação no dia de hoje, os trinta dias começam a contar a partir do dia útil subsequente à entrega.
A senhorita tem até o dia 26 de janeiro para sair daqui.4
Aríete ficou impressionada com a maneira natural de Osvaldo falar.
Ele parecia ter bom conhecimento das leis.
Gisele não se conteve.
Foi tomada de uma raiva súbita e quase partiu para cima de Aríete e Osvaldo.
Começou a xingá-los de tudo quanto era palavrão.
Alguns deles os jovens desconheciam.
Foi nessa confusão e gritaria que Olair acordou.
Só ergueu o corpo na cama, arregalou os olhos e ficou branco feito cera ao ver a filha ali, na porta do quarto.
Levantou-se de um salto.
-O que faz aqui?
Como se atreve?
Aríete deu um passo para frente e apontou o dedo em riste.
-Eu é que pergunto.
O que o senhor faz aqui nesta casa suja e fedida, com essa mulher igualmente suja e fedida?
Olair tinha vontade de dar uns tabefes no rosto da filha.
Gisele o conteve:
-Não vai adiantar brigarem aqui na minha casa - ela mudou o tom de voz, fez um beicinho e aproximou-se de Olair:
Deixe a pobrezinha em paz.
Ela não sabe o que diz.
Precisamos conversar.
Osvaldo percebeu o clima cada vez mais constrangedor naquele cómodo.
Tocou no braço de Aríete.
-Vamos embora.
Eu já fiz o que devia.
-Eu também - concordou a jovem.
Não sei por que diabos ainda estamos aqui.
Os dois saíram do quarto e minutos depois estavam fora da casa.
Osvaldo abriu novo sorriso:
-Você é corajosa, menina.
Gostei do seu jeito.
Aríete ruborizou e abaixou a cabeça.
Sorriu em seguida.
-Sou um pouco voluntariosa.
Quer dizer, sou uma boa pessoa, mas sou muito firme e determinada.
Não sou levada na conversa.
-É uma pena.
-Por quê?
-Porque eu adoraria levá-la na conversa!
-Você está me cantando? - perguntou Aríete, surpresa.
-Estou. Você sabe meu nome e sabe que tenho uma profissão.
Sou oficial de justiça e também dou expediente no departamento jurídico de uma imobiliária no centro da cidade.
Tenho vinte e seis anos, venho de família humilde.
Meu pai morreu quando eu tinha onze anos.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 24, 2015 9:14 pm

Eu tenho uma mãe maravilhosa e dois irmãos que adoro.
Eles são casados e eu ainda estou solteiro.
Actualmente, moramos em Diadema.
Pretendo um dia casar e morar na capital.
-Que mais?
-Vou sair de férias agora e retorno no fim do mês que vem.
Vou ajudar na mudança do meu irmão.
Jair perdeu tudo numa enchente e conseguimos lhe arranjar um bom sobradinho, num lugar alto, longe de rio ou córrego.
A conversa estendeu-se por um bom tempo.
Osvaldo falou sobre sua vida, suas dificuldades, sonhos e vontades.
Aríete fez o mesmo.
Sentiam-se muito à vontade um ao lado do outro.
Em determinado momento ela perguntou, de forma directa:
-Namora?
-Tive uns rolos, nada sério - respondeu Osvaldo, sincero.
-Nunca namorou sério?
-Ainda não. Depende de você.
-Como assim? - ela ficou surpresa.
-Quantos anos tem?
-Dezoito anos.
Vou completar dezanove em breve.
-Aposto que não namora - tornou Osvaldo.
-Está tão na cara assim? - perguntou Aríete, curiosa.
-Não. É porque você nasceu para ficar comigo.
Aríete engoliu a saliva e sentiu as pernas bambas.
Já tinha tido umas paixonites por uns meninos do bairro, mas nunca sentira aquilo.
Era um calor que subia e descia dentro do corpo, uma sensação agradável, prazerosa.
Ela encostou no portão para não cair.
Osvaldo aproximou--se e a tomou nos braços.
Ele era muito mais bonito de perto.
Seu hálito era cheiroso e ela não resistiu.
Fechou os olhos e encostou seus lábios nos dele.
Aquele foi o primeiro beijo de amor que Aríete deu na vida.
Sentiu-se a moça mais feliz do mundo.

4 Na época, era a Lei n. 6.239 de 19/9/75 que regulava as acções de despejo.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 24, 2015 9:14 pm

Capítulo quatro

Valéria e Dário foram passar as férias de janeiro em Guarujá.
Américo era dono de um casarão na praia da Enseada, construído no pé da areia, a alguns passos do mar.
O terreno tinha o formato de um bico, o que tornava difícil o acesso de banhistas ao local.
Assim, ele tinha um pedaço de mar só dele. Uma prainha particular, de facto.
A manhã começara abafada.
O céu estava nublado e nada de chuva.
Valéria ajeitou o biquíni e jogou-se na água morna e cristalina.
-Venha logo, Dário.
O rapaz estava meio grogue pelo excesso de bebida e maconha.
Foi caminhando lentamente até o mar.
Entrou na água e Valéria encostou seu corpo ao dele.
-E aí, bonitão. Vamos brincar?
-Estou meio enjoado. - Ela o empurrou com força.
-Que diabos é isso?
Toda hora está chapado?
Desse jeito fica difícil você me dar prazer.
-Desculpe, gata.
Eu preciso me controlar.
Tem momentos em que eu não quero fumar ou cheirar, mas aí sinto uma vontade louca, é como se um grupo de pessoas estivesse ao meu redor.
E escuto vozes.
Elas pedem mais. Sempre mais.
Valéria chacoalhou o corpo e mergulhou.
Voltou para a superfície e balançou os longos cabelos avermelhados.
-Só estamos eu e você aqui, Dário.
Que papo é esse de grupo de pessoas e vozes?
Tá ficando doido?
-É verdade.
Nesta madrugada, enquanto você dormia, eu vim na varanda e um homem me pediu um cigarro.
Eu dei.
Depois pediu um copo de vodca.
E daí sumiu.
Desapareceu na minha frente.
-To falando... você está fumando e cheirando demais.
Será que não pode parar um pouco?
Li numa revista que as drogas são capazes de destruir os neurónios e...
Dário a cortou:
-Não diga isso, gata.
-Mas é verdade.
Eles param de funcionar.
Você está sempre com bebida, fumo ou pó na cabeça.
Tem que ter um freio, oras.
Imagine ficar abobado daqui a um tempo?
-Tem razão. Vou pensar nisso.
Mas o que faço com as vozes?
-É coisa da sua cabeça.
-Acha mesmo?
-Acho.
Valéria aproximou o corpo quente ao dele.
Queria namorar um pouquinho.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 25, 2015 10:21 pm

Ele se afastou e mergulhou.
Voltou à superfície e pulou para cima dela.
Achava graça em dar um caldo, aquela brincadeira sem graça de passar o braço em volta do pescoço do oponente e fingir afogá-lo.
-Está me machucando, Dário.
O rapaz não a escutava.
Parecia estar tomado por uma força maior.
Agia de maneira bruta e agressiva.
Forçou a cabeça de Valéria para dentro da água e a muito custo ela voltou para cima, já branca e quase sem fôlego.
Empurrou Dário com força.
-O que pensa que está fazendo?
Quer me matar? - falou irritada, enquanto tossia.
-Só estava brincando com você, amorzinho. Um caldo...
-Idiota! Por que não vai fazer isso com seus amigos chapados?
Valéria tossiu novamente e cuspiu um pouco de água.
Em seguida, ela começou a chorar baixinho.
- Você nunca foi tão estúpido, Dário.
Ao vê-la chorar, ele voltou a si.
Era como se não tivesse consciência do momento em que entrara no mar e agora.
-O que foi que fiz, gata?
-Você me machucou.
Quase me afogou.
-Desculpe, Valéria, eu não sei o que me deu...
-Vou para casa.
Ela foi saindo da água e fez um gesto com a mão para ele parar de falar.
Valéria estava triste e começava a se cansar verdadeiramente de Dário.
Antes ele era um rapaz assediado e bom amante.
Era carinhoso e fazia muitas estripulias pela cidade.
De uns tempos para cá, o excesso de bebida e drogas começava a afectar o relacionamento.
Ela se lembrou das palavras de Natália, no Natal.
Foi caminhando na areia e em sua mente veio o rosto de Tomás.
Ela sentiu um friozinho na barriga.
Será que valia a pena disputar o amor de Tomás e enfrentar Marion?
"Será?" - ela perguntou para si.
As dúvidas eram muitas.
Valéria pensou e pensou.
Chegou a uma conclusão: queria desaparecer daquele lugar.
"Vou tomar uma duche, pegar a balsa e ir até Santos.
Preciso desabafar com minha amiga Natália."
Entrou na casa e dirigiu-se à sua suíte.
Deu de cara com Marion.
-O que faz aqui? - perguntou surpresa.
-Papai veio passar uns dias na praia.
Eu sabia que você e Dário estavam aqui.
Pedi para o motorista me trazer.
Tudo bem se eu ficar?
-O seu apartamento na praia das Pitangueiras é três vezes maior que esta casa.
Por que quer ficar aqui?
Marion iria responder e Valéria emendou:
-Por causa do Dário.
-Imagine - mentiu a amiga.
Eu namoro o Tomás.
Conheço você há anos.
Sei que tem uma queda pelo Dário.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 25, 2015 10:21 pm

Marion enrubesceu.
--Está enganada.
-Por que você enrola o Tomás?
O que quer dele?
Marion enfureceu-se:
-Não te interessa - ela deu uma gargalhada.
E posso saber o que tem a ver com meu namoro?
Acaso está a fim do Tomás?
Valéria não respondeu.
Marion propôs:
-Por que não trocamos de namorados?
-Como é que é?
-Isso mesmo.
Você me dá o Dário e eu lhe dou o Tomás.
Pode ser? Por uns dias.
-Você é maluca, Marion.
Acha mesmo que eu seria capaz de fazer troca de namorados, como se eles fossem objectos que a gente troca em feira?
Marion deu nova gargalhada.
-Eu vejo os homens como objectos.
Deles eu só quero dinheiro e prazer, mais nada.
Depois que consigo o que quero, jogo-os fora, como lixo.
-Onde está o seu namorado, posso saber?
-Deve estar trabalhando em alguma hidroeléctrica. Coisa de engenheiro.
Valéria meneou a cabeça para os lados.
-Se quer saber, não estou nem aí para vocês dois.
Vou tomar uma duche e dar uma volta.
Se quiser ficar aqui, pode ficar.
Não tenho hora para voltar.
Marion sorriu.
Fez uma carinha angelical, mas por dentro estava fula da vida.
"Por que raios o Dário dá bola para essa garota esquálida, branca e de cabelos vermelhos?
Ela parece um espantalho!
Eu sou muito mais mulher que Valéria.
Só namoro o tonto do Tomás porque ele vai ser o trampolim para eu chegar a Hollywood.
Depois que me tornar uma estrela famosa, dou um pé nele e fico com o Dário.
Ele vai ser meu. Ah, se vai."
Marion tinha uma fixação enorme por Dário.
Sempre fora ligada no rapaz, entretanto Dário nunca lhe dera bola.
Desde o tempo de colégio, ela dava em cima dele, e nada.
Ela queria ser artista de cinema.
Não faltava talento, mas Marion era uma mulher muito bonita, de beleza estonteante.
Nascera bela e morreria bela, afirmavam alguns.
Ela tinha uma capacidade especial de atrair os homens e fazer com que eles lhe satisfizessem todos os desejos.
Conheceu Tomás e, sabendo que seu pai era um rico banqueiro com conexões nos Estados Unidos, jogou todo seu charme sobre o rapaz e namoravam já há alguns anos.
A jovem não tinha um pingo de sentimento por Tomás.
Fazia dele gato e sapato e não deixava que mulher alguma se aproximasse.
"Enquanto eu não for para Hollywood e me tornar uma actriz famosa, Tomás vai ser meu.
Se alguma engraçadinha quiser se aproximar dele, eu tiro do caminho" - dizia para si.
Marion lembrou-se de Lina, a garota que beijara Tomás na festa de quinze anos de Valéria.
Gargalhou feito uma histérica.
"Pena ela não ter morrido.
Mas ficou manca. Isso já me deixa feliz.
Toda vez que ela inclinar o corpo para o lado vai se lembrar de mim."
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 25, 2015 10:21 pm

Marion era uma menina mimada, estúpida e arrogante.
Crescera numa família muito rica e, segura de sua superioridade em relação aos demais mortais por ter uma beleza estonteante, tinha um génio do cão.
Linda e com traços faciais tão perfeitos, fora convidada para ser capa da revista Pop, voltada para o público adolescente daquela época e, mais recentemente, da revista Realidade.
Marion tinha acabado de completar vinte anos e aprontava barbaridades.
Tinha até saído com amigos casados do seu pai.
Ela não tinha limites e seduzia todos que desejasse.
Depois os largava, o que aumentava o fascínio que exercia sobre esses homens.
O pobre Tomás mal desconfiava da infidelidade da namorada.
No momento, Marion estava se preparando para posar para a famosa revista de nu feminino Status, que fazia sucesso no país inteiro.
Os pais, muito conservadores, proibiram-na de fazer as fotos.
Marion deu de ombros.
Nunca, jamais e de forma alguma acatara as considerações de seus pais.
Ela iria pousar nua e deixar os homens mais enlouquecidos.
- Eu boto qualquer homem na minha mão.
Agora quero o Dário.
Ele será o meu novo brinquedinho, pelo tempo que eu quiser.
Decidida, Marion ergueu a já minúscula tanga.
Tirou a parte de cima do biquíni e seus seios ficaram à mostra.
Dessa forma bem desinibida, ela foi encontrar Dário.
-Quero ver se ele vai resistir!
Dário continuava no mar.
Mergulhou, nadou e caminhou até a areia.
Deitou na esteira, acendeu um cigarro e começou a pensar.
Logo ouviu a mesma voz que o atormentava havia um tempo:
-Precisamos arrumar outras mulheres.
Valéria é mulher para casar.
Precisamos ter mais jeitinho com ela.
Era como se houvesse alguém ao seu lado.
Dário respondeu, em voz alta:
-Preciso pegar leve com Valéria.
-Isso mesmo.
A Valéria sempre será nossa.
Mas, enquanto ela vai chorar as pitangas com a Natália, por que não aproveitamos e tiramos uma lasquinha da Marion?
O que acha?
A dúvida fora plantada e perturbou Dário profundamente.
-Eu nunca havia pensado nisso - respondeu, em alto som. - Marion é um pedaço de mulher.
-Pois deveria começar a pensar.
Que tal a gente levara Marion para um passeio na Ilha Porchat?
Ela é uma garota bem mais fácil de atender à nossa vontade.
Dário riu e não respondeu.
Ficou divagando por muito tempo.
Depois viu Marion aproximar-se.
Ela piscou para ele e entrou no mar.
Dário ficou indeciso se entrava ou não.
-Vai bobo, aproveita.
Valéria acaba de sair para encontrar a tonta da Natália.
Dário viu o Maverick sair da garagem e sumir na rua.
-Pega a Marion.
Vai deixar um mulherão desses escapar?
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 25, 2015 10:22 pm

Dário sentiu-se tentado e falou sozinho:
-Vou tentar.
E começou a caminhar em direcção ao mar.
Ao seu lado, o espírito de um rapaz com a mesma idade dele se divertia a valer.
Estava na companhia de Dário havia mais de três anos.
Enquanto Dário divagava e ria, o espírito pensava, rancoroso:
-Você vai pagar por tudo que me fez. Tudo! - vociferou.
Desde aquele incidente no dia de Natal, Olair mal falava com as filhas.
Era como se elas fossem as culpadas pela acção de despejo contra a pobre da Gisele.
Ficou mais fulo da vida quando Gisele entregou o imóvel e foi morar nos fundos do boteco de Rodinei.
Olair, todas terças e quintas, fechava a alfaiataria mais cedo e aguardava ansiosamente por Gisele.
Ela chegava perfumada e vestindo trajes sumários.
Olair deitava o colchonete e eles se amavam até alta madrugada.
Numa dessas noites, ele perguntou, pela enésima vez:
-Por que não vem morar aqui?
-Aqui na alfaiataria? Não!
-Por quê?
-Imagine como ficaria sua reputação.
Você acabou de ficar viúvo.
Tem as meninas. Não fica bem - dissimulou.
-Faz mais de dois meses que enviuvei.
Sou homem e tenho necessidades.
Você me completa como mulher nenhuma me completou antes.
-E a falecida?
Não tinham intimidades?
Olair deu uma risada jocosa, riu com desdém.
-Josefa era puritana.
Nas raras vezes em que fazíamos amor, ela pedia para apagar a luz.
Pobre de mim, tive de procurar fora o que não tinha em casa.
-E continua procurando fora de casa? - inquiriu ela, fingindo ciúme.
-De maneira alguma!
Depois que encontrei você, pare ide ir atrás de outras mulheres.
Gisele fez beicinho:
-Deixou mesmo de procurar por outras?
Olha que sou ciumenta!
-Dou-lhe a minha palavra.
Olair estava sinceramente apaixonado por Gisele.
E era um sentimento estranho, porque ele fazia parte de uma geração que não fora criada para o amor.
Acontece que Gisele mexia com seu coração bruto.
Segundo a herança cultural que fora transmitida a Olair, o homem tinha de arrumar uma boa moça para ser boa esposa e mãe exemplar.
O amor, o carinho, a intimidade, nada disso era levado em consideração.
Ele crescera acreditando que deveria arrumar uma boa moça e "aprontar" fora de casa.
Afinal, mulher casada era decente e não servia para satisfazer sexualmente o marido.
A esposa servia para procriar, cuidar da casa e da família. Ponto final.
Josefa fora uma moça bonitinha, de família humilde, que sabia cozinhar, passar, cuidar da casa e se saíra óptima mãe.
Aos olhos de Olair, Josefa tinha sido uma empregada que dormia na cama do patrão.
Olair não sentiu nada quando o médico diagnosticou o câncer da esposa e não se emocionou quando ela morreu.
Muito pelo contrário.
No dia do óbito de Josefa, ele agradeceu por não ter mais de gastar com remédios e conviver com aquele cheiro agridoce de morfina pela casa.
Agora ele conhecera Gisele.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 25, 2015 10:22 pm

Qualquer homem menos cego de paixão ou mais experiente com as mulheres perceberia pela inteligência, de longe, que Gisele era mulher vulgar e interesseira, ou seja, uma golpista.
Olair estremecia de prazer toda vez que seus corpos se tocavam.
Estava chegando aos quarenta e cinco anos de idade, mas sentia-se um garoto de pouco mais de dezoito.
Tinha um fogo sem igual.
Gisele ajeitou a cabeça sobre o peito dele.
Enquanto enrolava os pelos do peito com as unhas compridas, afiadas e vermelhas, disse:
-Você é homem para casar, Olair.
Pena que está viúvo e, provavelmente, nunca mais queira se casar de novo.
Olair sentiu o coração bater mais forte.
-Por que diz isso?
-Sei lá. Você foi casado por vinte anos, teve duas filhas.
Viveu uma rotina estafante, teve de dar duro no trabalho para sustentar a família.
Não acho justo que você tenha de se amarrar em alguém de novo.
-As meninas estão crescidas.
-Mas ainda vivem com você - disse ela, de maneira provocativa.
-Vou botar as duas para trabalhar.
Pensam que vão continuar a depender de mim?
Agora que a mãe delas morreu, vou colocar ordem naquela casa.
-Ou elas poderiam arrumar marido.
-Já pensei nisso.
As duas me dão muito trabalho, gastam demais da conta.
Não sei por que motivo usam secador de cabelos.
Eu gasto uma fortuna com a conta de luz.
-Não é justo.
Você é trabalhador, merece usufruir do seu dinheiro.
Eu jamais faria algo que o prejudicasse.
Por isso acho que devemos ser somente bons amigos.
-Não quero ser só seu amigo.
Eu quero mais. - Gisele disfarçou o sarcasmo.
Se pudesse soltaria uma gargalhada estridente.
Mas teve de se conter. Falou com voz melosa:
-Se você não tivesse tantos problemas, eu bem que namoraria você, de verdade.
-Está apaixonada por mim?
Gisele mordeu o lábio inferior e fez biquinho.
-Eu seria capaz de largar tudo e ficar com você, ser sua esposa.
Mas não sei... suas filhas não gostam de mim.
-Aríete e Alzira não são problema.
-Como não?
Elas não me suportam.
Imagine eu vivendo sob o mesmo teto que elas?
Seria um inferno.
Não, eu não suportaria.
Olair coçou o queixo.
Pegou a mão de Gisele e beijou seus dedos.
-Se você me aceitasse, eu faria qualquer coisa pela nossa felicidade.
-Inclusive livrar-se de suas filhas?
-Sem problemas.
Gisele sorriu feliz.
Sussurrou no ouvido dele:
-Consegue imaginar eu, deitada na cama, esperando-o todas as noites, em vez de somente às terças e quintas?
Ele fechou os olhos e vislumbrou a cena.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 25, 2015 10:22 pm

Estremeceu de prazer.
-Quer se casar comigo?
-A minha resposta seria um sim, contudo, como disse, as suas filhas me odeiam.
-Que nada. Você vai ser a minha esposa.
Elas vão ter de aprender a aceitar a madrasta.
-Não sei. Alzira até que é mais obediente.
Mas Aríete tem génio ruim.
Lembra do que ela fez comigo no dia de Natal?
Até me chamou de vadia!
Ela nunca vai me respeitar.
-Claro que vai - disse ele num tom mais duro.
São minhas filhas e devem me respeitar.
Senão, eu meto a cinta nelas.
-Será? Olha, se elas não fossem um entrave à nossa relação, eu me casaria com você hoje mesmo.
-No duro? Não está de brincadeira comigo?
-De jeito nenhum - Gisele apertou os olhos e procurou se lembrar de uma cena romântica que vira na novela das 8.
Lembrou-se e repetiu:
- Eu o amo, mais que tudo nesta vida.
Ele a abraçou com força.
- Case-se comigo, Gisele.
- Tem certeza de que é isso que quer, meu bem?
- Sim. Eu a farei muito feliz.
Pode apostar.
- Então aceito.
Claro que aceito!
Olair a abraçou e beijou várias vezes nos lábios.
Em seguida, amaram-se de novo.
Ele sentia-se o homem mais realizado da face da Terra.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 25, 2015 10:22 pm

Capítulo cinco

Foi num domingo cedo, algum tempo depois, que a bomba caiu na cabeça de Alzira e Aríete.
Olair havia cortado o cabelo e passado creme Trim para deixá-los bem penteados para trás, sedosos e perfumados; fizera ajustes num terno de bom corte que um cliente não quisera mais; havia até comprado um frasco da colónia pinho Campos do Jordão, coisa que ele jamais usara.
Contratara o serviço de uma manicura e fizera as mãos, retirara os quilos de cutícula e até pedira para passar base transparente nas unhas.
Seus olhos estavam mais vivos, brilhantes.
Depois de coar o café e esquentar o leite, Aríete perguntou para a irmã, num sussurro:
-Percebeu como o pai está bem vestido e perfumado?
-Percebi. Será que vai à missa?
-Ora, Alzira, deixe de ser boba.
O pai nunca foi de frequentar missa.
-Eu fiz as contas e semana que vem vai fazer três meses que mamãe morreu.
Pode ser que ele tenha se lembrado e pediu ao padre para rezar uma missa para ela.
-Duvido, mas pode ser.
Alzira levantou-se da mesa e abraçou a irmã.
Uma lágrima escapou pelo canto do olho.
-Sinto tanta falta dela...
-Eu também - concordou Aríete.
Olair apareceu na cozinha com alguns pacotes.
-O almoço está todo nesses embrulhos.
A maionese deve ir para a geladeira e o macarrão mais o frango recheado com farofa devem ser esquentados.
Alzira, vê se dá um tempero especial em tudo isso e prepara a sobremesa.
-Sobremesa? Eu?!
-E quem mais seria?
Você sempre foi boa de forno e fogão.
Quero uma gelatina colorida com creme de leite.
-Não dá para fazer assim, de uma hora para outra, pai.
Olair pegou um dos embrulhos e tirou de dentro algumas caixinhas de gelatina.
-Aqui estão os pacotes.
Trouxe também o creme de leite.
Comece agora - ordenou, maneira cordata.
Elas se olharam surpresas.
Olair nunca fora simpático com as filhas.
Alzira sorriu e disse:
-Está bem, pai.
Pode deixar que eu cuido disso.
-Vamos almoçar ao meio-dia.
Darei uma saidinha de novo e vou ao bar do Rodinei.
Vocês poderão beber refrigerante.
Podem escolher beber Crush ou Grapette.
É uma data especial.
Não esqueçam de se vestirem com capricho.
Ele falou e saiu.
Alzira começou a abrir os pacotes e falou:
-Está vendo, Aríete?
Nós julgamos o pai erroneamente.
Ele, com certeza, se lembrou da data de morte da mamãe.
-E vamos comemorar a morte dela?
É isso? Se fosse a data do aniversário dela, até concordaria.
Mas aniversário de morte?
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 25, 2015 10:23 pm

Isso está me cheirando a tramóia.
Seu Olair vai aprontar alguma coisa.
-Não sei.
Nesses últimos meses, depois que fizemos amizade com Ariovaldo e a esposa dele, sinto que o pai se arrependeu das brigas que teve com a mamãe.
Deve estar sentindo falta dela.
-Não acredito que o pai sinta remorso.
Vamos aguardar. - Alzira fechou a geladeira e depositou o frango sobre uma assadeira.
Pegou a macarronada e despejou numa panela.
Colocou tudo em cima do fogão.
Abriu a porta do louceiro e apanhou potes de tempero.
-Tenho certeza de que você vai deixar esse almoço divino - considerou Aríete.
-Adoro cozinhar.
Aprendi tanta receita com a mamãe.
-Eu nunca levei jeito para cozinhar.
Sou melhor para limpeza da casa - tornou Aríete.
-Quando for lá pelas onze e meia, a gente esquenta a comida e põe a mesa.
-Perfeito.
Elas deixaram a mesa arrumada e lavaram a louça do café.
Ligaram o rádio e ficaram cantarolando as músicas.
Era um programa de rádio que tocava as mais pedidas da semana.
Num determinado momento o locutor anunciou a música Moça, do cantor Wando.
As duas deram gritinhos de prazer e cantaram em alto e bom som.
Assim que a música terminou, Aríete falou:
-Essa música fez eu me lembrar do Osvaldo.
Sabe que sinto muita saudade dele?
-Mesmo? - perguntou Alzira, sorrindo.
Será que ele vai mesmo voltar das férias?
Estão compridas demais, não acha?
-Ele precisou fazer a mudança do irmão e cuidar da sobrinha enferma.
O chefe lhe deu mais dois meses de licença.
-Ainda bem que vocês se falam ao telefone todo domingo.
Dessa forma diminuem a saudade.
-Estou ansiosa porque ele deve ligar a qualquer momento.
-Está apaixonada!
-Claro que estou - confessou Aríete.
Já fizemos muitas juras de amor.
Osvaldo vai voltar, vamos oficializar o namoro e, quem sabe, não nos casamos em breve?
Alzira abriu largo sorriso.
-Você merece toda a felicidade do mundo.
Só precisa ser menos mandona.
-Essa é minha maneira de ser, Alzira.
Sou mandona e as coisas têm de ser do meu jeito.
-Coitados dos seus filhos!
-Vou ser uma mãe bem durona.
Eles têm que estar sempre na linha.
Você vai ver como vou educá-los.
Tenho horror a criança mal-educada.
O telefone tocou e Aríete deu um gritinho de prazer.
-Só pode ser o Osvaldo.
Ela apressou o passo até o corredor.
Sentou-se na banqueta e pegou o fone do aparelho.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 25, 2015 10:23 pm

-Alô.
-Oi, meu amor, como vai?
Ela reconheceu a voz de Osvaldo e sentiu leve tremor pelo corpo.
-Melhor agora!
-Fico feliz.
Estou morrendo de saudades de você.
-Eu também.
Não vejo a hora de vê-lo.
Osvaldo pigarreou e começou a cantarolar do outro lado da linha:
-Eu quero me enrolar nos teus cabelos, abraçar teu corpo inteiro, morrer de amor, de amor me perder...
Aríete ficou muda e quase perdeu os sentidos.
Depois de uns três "ei, você ainda está aí", ela balbuciou:
-Não acredito.
-O que foi? Não gostou?
-Sim... - as palavras lhe fugiam da boca.
-Canto tão mal assim?
Aríete riu-se.
-De forma alguma.
-Estava aqui ajudando minha irmã no almoço e tocou essa música do Wando.
Imediatamente me lembrei de você e não resisti.
Liguei assim que a música acabou.
-Eu também estava escutando o mesmo programa de rádio.
-Mais uma coincidência!
Será que agora você vai me dar bola, de verdade?
-Eu lhe dei bola desde o primeiro instante em que nos vimos.
Nunca escondi que gosto de você.
E esse nosso namoro por telefone é prova de que estou apaixonada.
-Também estou apaixonado por você.
Pode acreditar.
-Acredito!
-Eu liguei porque tenho um convite para lhe fazer.
-Convite?
Osvaldo estava radiante:
-Primeiro, antes de fazer o convite, quero dizer que voltei ontem à noite para casa.
-Oh! - ela exclamou.
Você está em São Paulo?
-Sim. Não vejo a hora de poder abraçá-la e beijá-la. - Aríete corou e perguntou, curiosa:
-Fale-me sobre o convite.
-Meu chefe teve de viajar para a praia e me deu de presente dois ingressos para assistir à Elis Regina no Teatro Bandeirantes.
Topa ir comigo?
-Está me convidando para assistir ao Falso Brilhante?
-Hum, hum.
-Não acredito!
Eu daria tudo para ver a Elis cantando nesse espectáculo!
-Então se arrume porque meu irmão me emprestou o carro dele.
Eu a pego por volta das sete, pode ser?
-Claro que sim.
Conversaram mais um pouco e trocaram novas juras de amor.
Aríete desligou o telefone e deu um grito de alegria.
Alzira veio até o corredor, terminando de enxugar uma xícara.
-Era ele? O Osvaldo?
-Era. E ainda cantarolou os versos da música do Wando.
Olhe como está meu coração - Aríete pegou a mão da irmã elevou até o seu peito.
Vai explodir de tanta alegria.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 25, 2015 10:23 pm

-Osvaldo voltou da licença?
-Voltou ontem.
E vai me levar para ver o espectáculo da Elis Regina.
-Que coisa boa!
Mas será que o pai vai deixar?
-Ele está mais interessado naquela ordinária da Gisele.
Nem liga se estamos em casa ou não.
-Em todo caso, melhor controlar essa animação.
Não deixe transparecer.
O pai é louco para acabar com nossa felicidade.
-Tem razão. Vou mudar meu jeito.
Hoje vou ficar quieta.
Se ele trouxer a rameira para o almoço, vamos fingir que está tudo bem.
Depois ele vai querer levá-la ao cinema, como faz todos os domingos.
Vai chegar altas horas, para variar.
Eu não vou chegar tão tarde.
Passava da uma da tarde quando Olair chegou com Gisele a tiracolo.
A mulher estava usando um perfume horroroso, de cheiro forte e tremendamente adocicado.
As roupas não mereciam comentários.
Ela usava um bustiê dourado e uma saia minúscula colada ao corpo.
Gisele podia ser um mulherão, mas se vestia mal e se portava mal.
Era vulgar da cabeça aos pés.
Ela sentou-se à mesa e, sem modos, pegou um pedaço de frango à passarinho.
Em seguida encheu o copo de cerveja.
-E aí meninas, como vão?
Aríete não respondeu.
-Tudo bem - disse Alzira, de maneira pouco empolgada.
-A casa está bem arrumada.
-Aprendemos com nossa mãe a deixar a casa sempre limpa.
Assim é mais difícil de entrar bicho - falou Alzira.
-Claro que, de vez em quando, mesmo com a casa limpa, aparecem uns bichos peçonhentos.
Não podemos evitar - disparou Aríete.
Gisele percebeu o tom e sentiu que estava sendo hostilizada.
Virou para Olair e dissimulou.
-Amorzinho, você tem cerveja preta?
Uma mauzebier?
-Não.
-Se importaria de ir buscar lá no botequim do Rodinei?
-Quer cerveja preta?
Não serve a...
Gisele o cortou com um gracejo e vozinha fina:
-Oh, querido!
É que eu adoro comer frango com cerveja preta.
Mas, se você não quiser, não tem problema - falou, num tom infantil e meloso.
Olair não falou nada.
Levantou-se e saiu em busca da cerveja.
Assim que ele bateu a porta da casa, Gisele as fulminou com os olhos:
-Suas idiotas.
Pensam que me enganam?
-Ei, olha o tom! - exclamou Aríete.
-Que tom, que nada.
Vocês duas me odeiam.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 25, 2015 10:23 pm

-Ainda não odiamos.
Mas que não gostamos, isso é verdade.
-Eu vou me casar com Olair e vocês vão ter de me aturar.
Querendo ou não.
-Eu não sou obrigada a viver com uma vadia sob o mesmo teto.
E, de mais a mais, somos donas legítimas de metade desta casa.
-Ah, é? - emendou Gisele, num tom ameaçador.
Só porque têm cinquenta por cento deste sobradinho chinfrim?
Ou vocês entram na minha bossa, ou eu farei da vida de vocês um verdadeiro inferno.
-Já não chega meu pai ser autoritário?
Não vou aturar uma bruaca mandando em mim.
Gisele riu alto.
Bebeu mais um pouco de cerveja, fez bochecho e engoliu.
Disparou:
-A bruaca vai mandar nas duas.
Vocês vão comer aqui - apontou - na palma da minha mão.
-Você não nos conhece - ajuntou Aríete.
-Conheço sim.
Eu sou macaca velha, sei com quem estou lidando.
Eu vou me casar com Olair e vocês vão fazer todas as minhas vontades.
Acham que vou estragar minhas lindas unhas vermelhas e compridas?
Eu não nasci para o tanque.
Não sei lavar, passar ou cozinhar.
Só sei amar. Nisso sou boa.
-Se formos perguntar aos homens deste bairro, aposto que muitos sabem o quanto você é boa nesse quesito - completou Aríete.
Gisele deu de ombros.
-Eu me deitei com muitos, sim.
E daí? Seu pai gosta de mim.
E vamos morar todas juntas.
E seremos felizes para sempre! - disse num tom provocativo.
-Não vou admitir.
Gisele encarou fundo os olhos de Aríete.
-Você e aquele advogado de quinta me tiraram a casa.
-Êpa! Peraí.
A justiça foi quem tirou a casa de você.
Pagasse o aluguei em dia.
Agora quer culpar o mundo pela consequência dos seus actos?
Assuma a sua parcela de responsabilidade diante da vida - tornou Alzira, voz conciliadora, porém firme.
-Não venham me dar lição de moral.
Agora você vai aprender a não se meter comigo.
-Não adianta me ameaçar.
Nós é que vamos fazer da sua vida um inferno.
Quer pagar para ver? - provocou Aríete, voz rancorosa.
Gisele deu um sorrisinho, terminou de comer seu pedaço de frango e, em seguida, encheu o copo de cerveja.
Alzira meneou a cabeça.
Aríete provocou:
-Não vai esperar a cerveja preta, querida?
-Tem razão - concordou Gisele.
Numa fracção de segundo, ela pegou o copo com cerveja e o jogou sobre o rosto de Aríete.
A jovem se levantou num salto e mal podia acreditar.
-O que pensa que faz, sua maluca?
Alzira pegou um pano e trouxe para limpar a irmã.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 25, 2015 10:23 pm

Aríete limpou-se e devolveu o pano para a irmã.
Jogou-se sobre Gisele e não havia Cristo que pudesse apartá-las.
Gisele, de propósito, puxou a toalha da mesa e tudo veio ao chão:
pratos, copos, travessas com as comidas.
E, de propósito, permitiu que Aríete ficasse sobre ela e lhe desferisse alguns tapas.
Olair chegou em seguida.
Ficou aturdido com aquela confusão.
Largou as garrafas de cerveja e puxou
Aríete com força, machucando-a.
-O que está acontecendo aqui? - berrou ele.Gisele fingiu chorar e levantou-se devagar.
A roupa estava suja de pedaços de macarrão e os cabelos em desalinho, cheios de molho de tomate.
O rosto estava bem vermelho e marcado pelas bofetadas.
-Não sei o que deu nela - choramingou.
Foi só você sair e começaram a me agredir com palavras.
Eu procurei não dar ouvidos e Aríete se irritou.
Perdeu o controle e avançou sobre mim.
Alzira quis derrubar a mesa sobre mim.
Elas tentaram me matar, Olair!
Alzira protestou:
-Mentira dela, pai!
Eu não fiz nada.
Ela começou a briga.
Aríete também falou:
-Ela jogou cerveja na minha cara.
-Não, Olair! - suplicou Gisele.
Eu jamais faria isso.
Você me conhece.
Suas filhas me odeiam.
Gisele falou e levou as mãos até o rosto, fingindo um sentido pranto.
As irmãs se entreolharam sem acreditar naquela cena.
Olair as encarou com ódio.
-Vocês atrapalharam bastante a minha vida, desde que nasceram.
A mãe de vocês deu uma educação péssima e era uma mulher péssima.
Deu no que deu.
Aríete estufou o peito e o enfrentou:
-Não fale de nossa mãe.
Você não tem o direito.
-Tenho sim.
Fui casado com aquele estorvo.
E olha o que ela me deixou de herança:
duas meninas mal criadas e desaforadas.
Dois encostos.
Antes não tivessem nascido.
Ele falou e aproximou-se de Gisele. Abraçou-a.
-Está bem?
-Como posso estar? - falou numa voz chorosa.
Suas filhas não querem que fiquemos juntos.
É melhor eu voltar para o meu quartinho lá nos fundos do bar.
-De jeito nenhum. Daqui você não sai.
-Não tem problema - emendou Aríete.
Eu e Alzira vamos sair.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 25, 2015 10:24 pm

-Seria bom que voltassem só amanhã.
Ou nunca mais - falou Olair, numa voz rancorosa.
-Esqueceu-se de que a gente tem direito a metade desta casa?
O senhor vende, dá a nossa parte e cada um segue a sua vida.
O que acha?
Olair ia responder, mas Gisele o censurou:
-Não diga nada, querido.
As meninas estão nervosas e com raiva de nós.
-Tem razão.
Não vou dar ouvidos para duas desmioladas.
Sumam daqui, por ora - berrou ele.
Aríete correu até o banheiro e limpou-se rapidamente.
Molhou os cabelos, passou um pouco de lavanda no rosto.
Voltou, puxou Alzira pelas mãos e saíram de casa.
Foram andando desorientadas, sem saber para onde ir.
-Ela fez a cabeça do pai - falou Alzira.
Vai fazer da nossa vida um inferno.
-Gisele calculou tudo direitinho.
Como fui idiota! Deixei--me levar por essa infeliz.
-O que vamos fazer, Aríete?
Estou com medo.
-Medo de quê?
-Sei lá. Eu não suportaria viver sob o mesmo tecto que Gisele.
-Eu tampouco.
-Vamos orar e pedir a Deus que nos dê uma luz -suplicou Alzira.
-Já disse que poderíamos ir embora.
-Então, vamos.
-E deixar a casa de mão beijada para essa ordinária? Nunca.
-Aríete. Para que vamos brigar por esta casa?
Vamos arregaçar as mangas e seguir nosso caminho.
Somos fortes e podemos construir nossa vida sem depender do pai.
-Mas não é justo.
-Justo ou não, temos de pensar em nós e no nosso futuro.
Somos pessoas de bem e a vida vai nos ajudar.
Você está apaixonada pelo Osvaldo e tenho certeza de que vão se casar.
Eu vou seguir minha vida e logo tudo passará.
Seremos pessoas felizes e realizadas.
Aríete hesitou por instantes.
-Tem razão.
Precisamos pensar em nós duas.
-Tudo tem jeito na vida.
Temos uma à outra - ajuntou Alzira.
Elas se abraçaram e, naquele momento, um floco de luz foi despejado do alto sobre suas cabeças.
No instante seguinte, ao dobrarem a esquina, deram de cara com Ariovaldo e Célia.
Elas iam falar, mas Célia foi rápida:
-Acordei pensando em vocês duas.
Estávamos indo à sua casa para convidá-las para almoçar connosco.
As irmãs se entreolharam, abraçaram-se a Célia e começaram a chorar.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 25, 2015 10:24 pm

[b]Capítulo seis/b]

Valéria atravessou a balsa e dez minutos depois estava no apartamento de Elenice, localizado próximo do Orquidário, na praia de José Menino.
Ela e Milton estavam na praia e Natália encontrava-se sozinha.
Recebeu a amiga com um abraço afectuoso e em seguida afirmou:
-Não está bem.
-Não. De facto, não estou nada bem.
Elas se acomodaram sobre um sofá bicama.
Natália pegou um pouco de mate gelado e serviu Valéria.
-Tome. Acabei de tirar da geladeira.
Coloquei umas gotas de limão.
Valéria bebeu um pouco do líquido gelado e refrescante.
-Estava tudo bem lá na casa de praia.
Marion apareceu e veio com um papo esquisito.
Ela namora o Tomás, mas está a fim do Dário.
-Marion é louca, desvairada.
Só pensa em sua beleza. Usa os homens para saciar seus desejos e aumentar sua conta bancária.
-Ela me dá arrepios, Natália.
Lembrei-me da pobre Lina.
Marion foi cruel a ponto de atropelar uma pessoa.
Ela não é normal.
-Deixemos ela de lado.
Marion é uma menina que não merece nossos comentários.
Mas você não veio do Guarujá até aqui para falar de Marion.
Valéria concordou com a cabeça.
-É verdade. O problema é Dário.
Ele endoidou e quase me afogou.
Ele tem umas brincadeiras estúpidas, idiotas.
Não estou gostando desse jeito bruto de me tratar.
-Não gosto dele. Nunca escondi isso de você.
-Eu sei. Entretanto, a gente tem uma conexão íntima muito forte, Natália. Toda vez que eu tento me separar, ele me reconquista.
Eu acabo cedendo e voltamos.
-Um casal que se ama de verdade não pode viver com tantos altos e baixos.
Vocês brigam muito, discutem bastante.
Será que esse é o homem que quer ao seu lado por anos a fio?
-Não sei. Você bem sabe que eu até gostava do Tavinho.
Se não fosse...
Valéria não conseguiu terminar a frase.
Abraçou-se a Natália e começou a chorar.
Enquanto passava suavemente uma das mãos sobre os cabelos sedosos da amiga, Natália considerou:
-Você gostava mesmo do Octávio.
Uma pena ele ser tão inconsequente e ser fã de rachas.
-Eu não quero me lembrar daquela noite...
Valéria não queria, mas a imagem sempre vinha à sua mente.
Ela tinha completado quinze anos de idade e, no fim de sua festa de debutante, alguns amigos mais o namorado da época - Octávio, conhecido como Tavinho, com dezoito anos recém-completados - foram até uma avenida deserta perto de inter lagos para participar de um racha, espécie de corrida clandestina de carros.
Os rapazes e garotas estavam com bastante bebida na cabeça e queriam terminar a noite com um pouco mais de adrenalina no sangue.
Foram até o ponto em que essas corridas ocorriam.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 25, 2015 10:24 pm

A disputa foi entre Tavinho e Dário. Aquele com o carro mais potente e que chegasse mais rápido ao outro extremo da avenida ganharia uma pequena quantia em dinheiro.
Valéria e as outras meninas foram para o local onde fora marcada a chegada do vencedor.
Dário e Tavinho aceleraram seus carros e a largada foi dada.
Os pneus cantaram e queimaram o chão.
Para fazer bonito, Dário quis fazer um cavalo de pau - aquelas manobras radicais feitas em veículos usando a mudança brusca de direcção e o freio de mão, causando derrapagem com giro entre 180 e 360 graus.
Foi assim que aconteceu a tragédia.
Tavinho assustou-se, perdeu a direcção e meteu o carro num poste.
Sua morte foi instantânea.
Natália a tranquilizou.
-Sei que foi terrível.
Poderia ter terminado sua noite de festa de outra maneira.
No entanto, quis sair com aquele bando de delinquentes.
-Depois do enterro, o Dário se aproximou, meio que se sentindo culpado, e fomos ficando juntos.
Eu me senti muito só, acabei me envolvendo.
-Você o ama?
-Não. Isso eu posso afirmar com certeza.
Gosto do Dário, mas não o amo.
-Você vai fazer dezanove anos, Valéria, já não é mais uma menininha.
É bonita, tem uma boa vida, um pai que a adora.
Por que viver nessa relação que nada de bom lhe traz?
-Não sei.
Como lhe disse, a atracção é muito grande.
Eu posso não amá-lo, mas quando estamos juntos eu fico louca, perco a razão e, quando caio em mim, o estrago já foi feito.
-O que me diz do que sente pelo Tomás?
Valéria deu de ombros.
-Você sabe que eu gosto dele.
Mas tenho medo da Marion.
-Esse medo está forte demais para o meu gosto -rebateu Natália.
-Como assim?
-Não sei.
A minha sensibilidade diz que tem algum espírito que a impede de se relacionar com Tomás.
-Ora, Natália.
Deixe de bobagens.
Um fantasma impede que eu me relacione com Tomás?
Essa é boa - rebateu Valéria, irónica.
Elenice chegou no apartamento.
Cumprimentou Valéria.
Em seguida cobriu-se com a saída de banho, ajeitou o chapéu, o guarda-sol e a esteira num canto da varanda.
Estava com aspecto óptimo.
Bronzeada e olhos vivos e brilhantes.
-Onde está Milton? - indagou Natália.
-Encontrou dois amigos da prefeitura e estão bebendo uma cerveja na praia.
O sol está muito quente e já me bronzeei bastante hoje.
-Sua pele está divina, dona Elenice.
-Obrigada - Elenice notou os olhos inchados de Valéria.
Aconteceu alguma coisa?
-Ela estava se lembrando da noite trágica.
Da morte do Tavinho.
Elenice sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 8:53 pm

Passou as mãos pelos braços.
-Só de falar nesse garoto eu fico toda arrepiada.
-Eu gostava dele, dona Elenice - falou Valéria, chorosa.
-Sei disso, querida.
Paixão adolescente todas nós tivemos.
-Se ele estivesse vivo, nós poderíamos estar noivos.
-Não creio.
Era namoro de adolescentes.
Você e Tavinho não tinham nada em comum.
-Será?
-Sim - observou Elenice.
Assim como você e Dário também não têm nada em comum.
-É o que eu estava falando para ela, mãe - interveio Natália.
Valéria e Dário não têm nada a ver.
-Talvez você precise conhecer um homem que lhe desperte o amor.
-Não acredito nisso, dona Elenice.
-Por que não? O Tomás sempre gostou de você.
É um bom rapaz.
-Não sei, tenho medo de me envolver de maneira séria.
-Entendi. Você não quer relacionamento sério.
Agora percebo porque só atrai relacionamentos atribulados em sua vida.
-Meu namoro com Tavinho era cheio de brigas e com Dário não é diferente!
-O amor lhe causa medo?
Valéria não soube o que responder.
Nunca tinha amado de verdade.
Entretanto, o facto de se ver envolvida com alguém a deixava tensa.
O namoro com Dário não contava.
Ela mesma sabia que aquilo não passava de um relacionamento com data de validade já vencida.
Percebia que precisava se tratar e superar aquele fascínio sexual que Dário tanto exercia sobre ela.
Em relação a Tomás, não sabia direito o que se passava.
Ela gostava dele, mas algo em sua mente sempre alertava para ter cuidado com Marion.
A voz era clara e ameaçava:
-Se ficar com Tomás, a Marion fará com você coisa pior do que fez com Lina.
Só de pensar naquela frase que martelava sua mente, Valéria sentia arrepios.
Presa em seus medos e inseguranças, abaixou a cabeça e permaneceu em silêncio.
Elenice fez um sinal com a cabeça e Natália levantou-se, cerrando a cortina da janela.
Em seguida aproximou o ventilador e ligou o aparelho perto delas.
O calor estava demasiado.
Elenice levantou-se e colocou uma fita cassete no pequeno aparelho ali perto.
Então, uma música clássica de rara beleza invadiu o ambiente.
Ela suspirou e disse:
-Fechemos os olhos e vamos nos sintonizar com a música.
Agora vamos deixar todas as coisas externas de lado, esquecer os nossos problemas, as nossas dúvidas e aflições.
Vamos nos ligar na força do bem, que é a única força que existe.
O bem eleva nossa alma, nos liga imediatamente com Deus.
Aquilo que podemos resolver, que Ele nos dê força, coragem e lucidez suficientes para podermos fazer a melhor escolha.
Aquilo que ainda não temos forças para entender, aceitar ou resolver, deixamos em Suas mãos para que Ele faça o melhor.
Ela exalou longo suspiro e prosseguiu:
-Que Deus e os bons espíritos nos protejam e auxiliem.
Assim seja.
Elenice terminou de falar e sentiu leve sensação no peito.
Abriu os olhos e Valéria continuava com os olhos fechados.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 8:53 pm

Adormeceu.
Ela fez sinal para a filha e ambas se levantaram sem fazer barulho.
Elenice pegou um travesseiro e o ajeitou por trás da cabeça de Valéria.
Depois foram para a varanda.
-Mãe, acha que Valéria está com alguma perturbação espiritual? - indagou Natália.
-Sinto que ela está com os sentimentos bastante confusos.
Deve ser algo relacionado à sua vida passada.
Ela tem um bloqueio emocional enorme que a impede de amar.
-Eu quis conversar com ela sobre espiritualidade e ela sempre me corta, com delicadeza.
-Precisamos respeitá-la.
As pessoas se interessam pela espiritualidade por dois motivos: pelo amor ou pela dor.
Precisamos deixar Valéria à vontade.
No momento certo, ela vai abrir seu coração para entender melhor os valores do espírito.
-O Dário e a Marion estão na casa do Guarujá.
Você bem sabe o que penso em relação a esses dois.
-Valéria precisará decidir por ela mesma com quem quer manter relações de afecto e amizade.
Não podemos lhe dizer que fulano ou beltrana são pessoas que não lhe fazem bem.
-Ora, se percebemos que Dário não é boa pessoa, porque mantê-lo ao lado de Valéria?
E Marion? É garota vaidosa, interesseira, fútil.
Ruim. Nunca gostei dela.
-De que adianta abrirmos os olhos de Valéria?
Já não lhe confidenciamos nossos sentimentos em relação a esses amigos?
-Já.
-E ela acatou nossas impressões?
Natália fez um sinal negativo com a cabeça.
Elenice prosseguiu:
-Não conheço Marion.
Não tenho o que dizer dessa menina.
Mas conheço Tomás.
Algo me diz que há algum tipo de perturbação espiritual que impede a aproximação dele com Valéria.
-Também sinto isso, mãe.
-Quanto a Dário, sinto que está perdido e perturbado.
Ele precisa de orações em vez de dedos acusadores.
-Difícil. Não gosto dele.
-Não cabe aqui o seu gosto pessoal, minha filha.
Que custa lhe mandar uma vibração positiva, direccionada ao seu coração, a fim de que ele mude sua postura em relação a vida e receba amparo espiritual?
-Sente mesmo que ele esteja perturbado?
-Sim. Algo me diz que o espírito de Tavinho está ligado nele.
Natália não se surpreendeu.
-Eu bem que desconfiava.
Dário tem tido atitudes muito estranhas desde a morte de Tavinho.
Se é o espírito dele que está influenciando negativamente Dário, como avisá-lo?
-Por meio de orações, de vibrações positivas.
Vamos envolvê-lo, sempre que possível, num círculo de luz.
Vamos imaginar Dário sempre bem e sorridente.
Deus fará o resto.
-Tem razão. Não custa nada tentar.
A conversa fluiu agradável.
Elenice e a filha conversaram animadas sobre o futuro de Natália.
Ela passara no vestibular para arquitectura na universidade e estava radiante.
Valéria não tivera a mesma sorte, mas começava a sentir vontade de estudar no exterior.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 8:53 pm

-Talvez eu converse com Américo.
Se ele mandar Valéria estudar na Itália, as chances de ela e Dário continuarem o namoro serão bem pequenas.
-Faça isso, mãe.
Seu Américo gosta da gente e sempre lhe deu ouvidos.
-Gostamos de Valéria e vamos orar e pedir pelo melhor.
Eu gostava muito de Amélia.
Fomos amigas de colégio. Se eu não estivesse aqui e você estivesse enfrentando os mesmos problemas, tenho certeza de que Amélia a ajudaria.
Sentada no sofá, Amélia, em espírito, acariciava os cabelos da filha.
-Agora você será obrigada a escolher, meu anjo.
Que Deus a ampare.
O espírito se levantou, atravessou a parede e envolveu Elenice num carinhoso abraço.
-Obrigada.
Sabia que você estaria por perto e cuidaria da minha filhinha - e, virando-se para Natália, observou:
- Você é uma amiga de verdade.
Que Deus ilumine seus passos, sempre.
Amélia beijou a fronte de Elenice e fez o mesmo com Natália.
Depois, seu espírito desvaneceu no ar.
Elenice e Natália sentiram agradável sensação.
Elenice lembrou-se da amizade com Amélia e das peraltices que ambas praticavam nos corredores da escola, deixando as freiras de cabelos em pé.
Natália riu a valer e assim o tempo foi passando.
Duas horas depois, Valéria despertou muito bem-disposta.
-Dona Elenice, fazia tempo que eu não cochilava tão gostoso.
Estou me sentindo leve, renovada.
-Fico feliz que esteja se sentindo bem.
-Essa dormidinha me abriu o apetite.
Vocês não estão com fome?
Elenice consultou o relógio e passava das duas da tarde.
-Milton vai passar a tarde toda na companhia dos amigos.
Que tal nós três irmos a um restaurante aqui na esquina?
Eles servem um peixe maravilhoso.
E depois poderemos tomar sorvete e caminhar pelos lindos jardins da orla.
-Estou de acordo.
Natália também assentiu e, minutos depois, as três estavam confortavelmente instaladas no restaurante, conversando, gesticulando muito e fazendo seus pedidos.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 8:54 pm

Capítulo sete

Depois do almoço, Célia convidou as moças para um cafezinho no quintal da casa.
Era um sobrado bem simples, mas bem arrumadinho.
Ariovaldo fizera questão de manter as árvores no quintal.
Fizera uns bancos de madeira com restos de caixotes, pintara-os de verde-escuro e improvisara uma mesa com cavaletes de ferro, que o director da escola lhe dera.
Sobre a mesa, um caramanchão formado por primaveras e hibiscos vermelhos.
Enquanto levava a bandeja com o bule e as xícaras, Alzira confessou:
-Sua casa é pequena, mas muito aconchegante.
-Este quintal é divino.
Nem parece que estamos no mesmo bairro - emendou Aríete.
-Eu e Ariovaldo levamos muitos anos para conseguir comprar o terreno.
Depois foram mais anos até construirmos a casa.
Ela é pequena, mas atende às nossas necessidades.
Iara, quando vem de Buenos Aires com o marido, fica instalada no quartinho ali nos fundos - apontou.
No fundo do quintal, entre as árvores frutíferas e outras plantas e flores, havia uma área de serviço e um pequeno e gracioso quarto com banheiro.
Lembrava uma casinha de bonecas.
-Eu adoraria viver numa casa assim - disse Alzira. -Toda arrumadinha, pintada, organizada. Eu gosto muito de uma casa bem-arrumada e organizada.
-Alzira nasceu assim - continuou Aríete.
Desde pequena arrumava as camas logo cedo, passava uma vassoura pelos cómodos e ajudava mamãe na cozinha.
Aliás, ela tem uma mão muito boa para salgados e doces.
Célia admirou-se.
-Você gosta de cozinhar?
Alzira fez sim com a cabeça.
-Prefiro doces a salgados.
Mamãe me ensinou a fazer uns pães, umas rosquinhas doces que ela aprendera com a minha avó.
Parece que essas receitas se perpetuam no tempo, têm passado de geração para geração.
-Nunca pensou em ganhar dinheiro com isso?
-Não, dona Célia.
Eu penso em estudar letras.
-Quer ser professora? - perguntou Célia.
Aríete mexeu os olhos para os lados e para cima, indecisa.
-Gosto de ler os clássicos da literatura brasileira.
Aprecio muito Orígenes Lessa e Érico Veríssimo.
-Sente vontade de ensinar?
-Não sei ao certo.
-Feche os olhos - pediu Célia.
-Como assim?
-Confie em mim, vamos.
Feche os olhos e me dê as mãos.
Alzira concordou e os fechou.
-Imagine que você está dando aulas, numa sala repleta de alunos.
Você está dando aula de literatura brasileira.
Alzira forçou a mente, espremeu os olhos fechados e começou a imaginar.
Célia prosseguiu:
-Qual a sensação?
-Difícil de expressar.
Não sinto nada.
-Mantenha os olhos fechados.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 8:54 pm

-Certo.
-E, se, neste momento, você deixar a sala de aula e entrar numa cozinha bem equipada, com todos os utensílios?
Imagine que você se aproxima de uma mesa e começa a preparar massas, tortas e bolos.
Alzira suspirou e abriu largo sorriso.
-Nem precisa perguntar o que sinto.
Estou adorando estar nesta cozinha.
Minhas mãos deslizam com suavidade pela massa de doces.
Oh - Alzira se surpreendeu - apareceram outras moças, elas estão me ajudando, parece que estou na cozinha de uma confeitaria.
Consigo até sentir o cheiro dos doces!
Célia pediu que ela abrisse os olhos.
-O que prefere?
Dar aulas ou fazer doces?
-Sem sombra de dúvidas eu prefiro passar o dia fazendo doces - admitiu.
-Você pode gostar de literatura, mas sua alma quer outra coisa.
Você poderá ler todos os livros que quiser.
O facto de gostar de ler não quer dizer que tenha de ser professora.
-Não temos condições para fazer nada.
Ainda mais agora que o pai está namorando a Gisele.
-Por que ainda vivem com ele?
Pelo que me contaram no Natal, você vai fazer dezanove anos - apontou para Aríete - e você, Alzira, vai completar dezoito anos.
São praticamente donas do próprio nariz.
Ambas têm condições de arrumar um trabalho.
Podem se sustentar e sair de casa.
-Parte da casa é nossa - disse Aríete.
O pai pensa em colocar aquela lambisgóia dentro da nossa casa.
Não vou permitir.
-Por que não, Aríete?
Por acaso você se vê tão impotente a ponto de achar que precisa da casa que seu pai comprou como dinheiro dele?
Não sente que tem condições de conseguir o que deseja por mérito próprio?
-Não. Minha mãe deu duro para que ele pudesse pagar as prestações da casa, financiadas pelo BNH5.
Economizou tudo o que podia.
Chegamos a passar vontades porque todo o dinheiro que entrava era para o pagamento da casa.
De uns dois anos para cá, ele endoidou e botou na cabeça que tinha porque tinha de quitar a casa.
Não acho justo agora entregá-la de bandeja para ele e aquela rameira.
-Aquela casa pertence ao seu pai e sua mãe.
Não vou negar que vocês tenham direito a metade dela, até porque a lei lhes dá esse amparo.
Mas você vai deixar de viver a sua vida para brigar por metade daquele sobrado?
Vai abandonar seus anseios, sonhos e realizações, deixá-los de lado, para infernizar um casal que, aparentemente, quer tentar ser feliz?
-Desse modo, faz eu me sentir a vilã da história.
Eu sou a vítima - protestou Aríete.
-Não há vítimas no mundo.
Somos responsáveis por tudo o que nos acontece.
-Não concordo.
Não pedi para ser filha dele - resmungou Aríete.
-Pediu sim.
Se não pediu, ao menos foi atraída para aquela casa por afinidade de ideias.
Deus não erra nunca, minha menina.
Aríete baixou os olhos e deixou que as lágrimas descessem livremente.
Alzira aproximou-se e passou o braço pela cintura da irmã.
- Não se revolte, Aríete.
Nós somos unidas e temos força para enfrentar qualquer situação.
Perdemos a mamãe, que tanto amávamos.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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