O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 8:54 pm

Se conseguimos superar essa perda e levar nossa vida adiante, não acha que brigar por aquela casa é algo pequeno demais?
Viu o que a dona Célia nos disse?
Que somos capazes.
Nós poderemos ter nossa própria casa.
Alzira falou e voltou-se para Célia:
- Eu terminei de ler o romance Entre o amor e a guerra.
Fiquei fascinada.
O livro me prendeu a atenção do começo ao fim.
Também passei a enxergar a vida de maneira mais positiva e menos fatalista.
-Esses livros são capazes de mexer com a gente e, por meio de leitura leve e agradável, nos trazem mensagens de conforto, esperança e paz.
Se você quiser, tenho outros romances de cunho espiritualista.
Posso emprestá-los.
-Oh, eu adoraria! - exclamou Alzira.
Célia encheu uma xícara de café e entregou-a para Aríete.
Em seguida, emprestou-lhe um lenço.
-Obrigada.
-Aríete, precisamos estar atentas para os tesouros que a vida nos oferece.
Precisamos dar mais atenção à força do pensamento, que é um atributo do espírito.
Veja que o pensamento é produzido pela sugestão, ou seja, a indução para fazer ou agir de determinada maneira.
Do pensamento surgem as crenças, que são conglomerados de pensamentos impressos em nossos circuitos emocionais.
Elas é que determinam o mundo ao nosso redor.
-Achei que o pensamento fosse mais forte que tudo - ajuntou Alzira.
-O pensamento tem a sua força, mas não é tão forte como a crença.
A crença é você aceitar no coração o imperativo de uma certa forma de pensar.
Aríete assoou o nariz, apanhou sua xícara de café.
Bebericou o líquido fumegante e remexeu-se no banquinho.
-Sempre quis ter uma vida independente.
Acontece que somos muito ligadas naquela casa.
Crescemos ali e, se partirmos, onde ficarão as lembranças que temos de nossa mãe?
-Tudo na vida é cíclico e passageiro.
Não ficamos estacionados no mesmo lugar para sempre.
A memória afectiva que vocês possuem jamais será arrancada, nem mesmo com a morte do corpo físico, porque é parte integrante do espírito, e o espírito é eterno.
As moças concordaram e Célia continuou:
-A fase pela qual estão passando agora é de desafio.
-Um enorme desafio - sibilou Aríete.
-O desafio nos move adiante.
Por meio do desafio, saímos do lugar comum para a maturidade, aprendendo a lidar efectivamente connosco.
Os desafios nos permitem enxergar as inúmeras possibilidades de escolhas que temos para ir ao encontro da nossa felicidade.
Cada uma de nós é dona de si.
-Eu sinto medo de sair de casa.
Tenho medo de fracassar e voltar a pedir ajuda para o pai.
Eu não quero mais que ele atire em nossa cara toda a comida que nos deu desde que nascemos.
Um pai que ama seus filhos jamais falaria assim.
-Você atraiu esse pai para fortalecimento do seu espírito.
Veja, Aríete, que a maneira como você foi criada fez de você uma mulher forte, de opinião e vontade de crescer, de ser independente.
Se tivesse um pai que a mimasse demais, poderia estar vivendo outra realidade e nem perceberia a força que tem para mover seu próprio destino.
-Nunca havia pensado dessa forma.
-Tudo o que diz faz muito sentido - anuiu Alzira.
Nunca fomos criadas para questionar as diferenças entre as pessoas.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 8:54 pm

Desde pequena eu me questionava o porquê de viver naquela casa.
E, recentemente, passei a questionar a vida.
Porque perdi minha mãe?
-Você não perdeu sua mãe - tranquilizou Célia.
Josefa simplesmente foi para uma outra dimensão, para um outro mundo.
A Terra é um mundo transitório, onde nosso espírito reencarna para aprender a reconhecer sua força e ampliar a sua inteligência durante determinado período de tempo.
-Acha mesmo que vamos reencontrar nossa mãe?
-Por certo.
Não se lembra de nossa conversa no Natal?
Falamos sobre espíritos, sobre a morte de sua mãe, sobre os seus pesadelos...
-É verdade. Aquela noite foi mágica.
-Foi mágica e tranquilizou-me o coração - acrescentou Aríete.
-Sonhei com ela dia desses - disse Alzira.
Mamãe estava numa espécie de hospital e havia muitos leitos, creio que mais de cem macas, com muitas enfermeiras e médicos oferecendo tratamento aos pacientes.
-O espírito de sua mãe deve ter sido levado até um posto de socorro que existe no mundo espiritual.
Ela desencarnou por conta de um câncer que destruiu seu corpo físico e afectou seu perispírito.
Assim que estiver livre das energias da doença, poderá partir para uma colónia de refazimento.
Talvez em breve você possa sonhar mais com ela e até ter um encontro.
-Será? - indagou Aríete.
-Sim. Jamais perdemos contacto com aqueles que amamos.
Os laços de amor são sólidos e eternos.
No momento oportuno, terão contacto com Josefa.
As irmãs estremeceram de prazer.
Sentiam-se muito bem na companhia de Célia.
Alzira queria saber mais:
-O que é perispírito?
-Boa pergunta, Alzira - Célia sorriu e respondeu com entusiasmo:
- Perispírito é o nome dado ao elo entre o espírito e o corpo físico.
Quando o espírito está encarnado, o perispírito serve como vínculo entre o espírito e o corpo.
Desencarnado, o perispírito torna-se o próprio corpo com o qual o espírito se manifesta e transita em outras dimensões.
-Nós vivemos muitas vidas?
Isso é verdade? - questionou Aríete.
-Sim. Vivemos muitas vidas e viveremos tantas outras quanto forem necessárias para a ampliação de lucidez que trará maturidade para nosso espírito.
A conversa continuou agradável e seguiu a tarde toda.
Passava das seis quando Aríete levantou de um salto:
-Preciso me arrumar.
Osvaldo vai me pegar daqui a pouco para um passeio.
Célia sorriu.
-Você gosta muito desse rapaz.
E ele gosta muito de você.
Serão muito felizes juntos.
Aríete sentiu um calor sem igual no peito.
Abraçou-se a Célia e agradeceu:
-Muito obrigada por me dizer essas palavras.
Era tudo o que meu coração gostaria de ouvir.
Ela se despediu e Alzira também se levantou.
-Por que vai embora agora? - perguntou Célia.
Seria um prazer ficar para o jantar.
-Eu adoraria, contudo preciso ajudar Aríete a se arrumar.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 8:54 pm

-Que nada, pode deixar que eu mesma me arrumo - assegurou Aríete.
-E se Gisele ainda estiver em casa?
Promete que não vai arrumar encrenca com ela?
-Fique mais um pouco.
De que adiantará ficar enfiada naquela casa?
A companhia lá não é das melhores - retorquiu Aríete.
-Tem razão.
Posso ficar, dona Célia?
-Com uma condição.
-Qual é?
-Você vai me ensinar a fazer um doce.
-Um doce?
-Sim. Eu tenho alguma coisa no armário.
O que faltar, pedimos ao Ariovaldo e ele vai buscar na padaria.
Alzira sorriu feliz:
-Está certo.
Vou fazer um bolo de cenoura de que gosto muito.
Aríete admitiu:
-O bolo de cenoura de Alzira é imbatível.
Nunca comi bolo mais gostoso.
-Então vamos comer bolo de cenoura! - tornou Célia.
Vamos comemorar porque sinto que a vida de vocês vai mudar para melhor.
-Mesmo? - indagou Alzira, esperançosa.
-Algo muito bom está para acontecer.
Acreditem.
As irmãs se entreolharam felizes.
-Deus a ouça, dona Célia.
Deus a ouça.
Aríete despediu-se da irmã e disse:
-Depois desta tarde agradável, nada vai me tirar do sério.
Nem mesmo a Gisele.
-Isso mesmo, Aríete.
Use sempre esta frase, com firmeza: dentro de mim, mando eu.
-Jamais vou me esquecer, dona Célia.
E, no caminho de casa, só uma frase se mantinha em seu pensamento, que Aríete repetia como um mantra:
"Dentro de mim, mando eu."

5 BNH - por extenso, Banco Nacional da Habitação - foi um banco público criado em 1964, voltado ao financiamento e à produção de empreendimentos imobiliários.
Foi extinto em 1986.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 8:55 pm

Capítulo oito

Valéria voltou para Guarujá tarde da noite.
O encontro com Elenice e Natália havia sido muito bom.
"Como é bom estar próxima de pessoas que gostam de mim de verdade" - disse para si.
Ela embicou o carro na garagem e desligou o motor.
Entrou em casa e estava tudo escuro.
Acendeu a luz e logo depois uma das empregadas apareceu:
-Dona Valéria, precisa de alguma coisa?
-Não. Quero saber onde está o Dário.
A empregada enrubesceu.
Ouvira os gritos de prazer dele e de Marion, horas a fio.
O casal despudorado nem tivera a decência de manter a porta do quarto fechada.
A moça, em respeito a Valéria, simplesmente disse:
-O motorista da senhorita Marion os apanhou faz duas horas.
Eles foram para uma festa na Ilha Porchat.
Seu Dário mandou dizer que não tem hora para voltar.
Valéria sorriu aliviada.
Estava cansada de Dário, de suas bebidas, traquinagens e daquele namoro sem futuro.
Esperaria ele chegar e, no dia seguinte, terminaria o namoro. Era o melhor a fazer.
Ela caminhou até sua suíte, despiu-se e tomou uma bela chuveirada.
O calor estava insuportável.
Terminou o banho, passou uma colónia refrescante sobre o corpo.
Enxugou-se, vestiu um baby-doll e ligou o ar condicionado do quarto.
Fechou a janela, cerrou as cortinas.
Abaixou-se ao lado da mesinha de cabeceira e escolheu um disco.
Pegou um dos volumes da colecção Excelsior - A máquina do som e colocou o vinil na vitrola.
Acendeu o abajur de cabeceira e apagou a luz do quarto.
Deitou-se na cama e deixou-se envolver pelas melodias do disco.
Valéria adormeceu e teve uma noite de sono reparadora.
Às dez horas da manhã ela acordou.
Abriu os olhos, espreguiçou-se e notou que a agulha do disco batia no pino, voltava e batia no pino de novo.
-Esqueci que esse aparelho não tem desligamento automático.
Ela se levantou, pegou outro disco da colecção e começou a cantarolar a música enquanto subia as cortinas e abria a janela.
Da varanda do seu quarto, ela podia ver o mar.
O dia amanhecera nublado e o barulho cadenciado das ondas lhe transmitia profunda paz de espírito.
Valéria reflectiu sobre os últimos acontecimentos.
Não conseguia entender por que estava presa a um relacionamento sem futuro.
Ela não conseguira passar no vestibular e tinha vontade de fazer um curso de decoração na Europa.
Pensou, pensou e resolveu que conversaria com seu pai sobre a possibilidade de ingressar numa renomada escola de formação de decoradores, o que futuramente viria a ser design de interiores.
Pensou no instituto que havia em Florença, na Itália.
Américo havia lhe dado incentivo para ingressar no instituto.
Seu tio Adamo adoraria partilhar de sua companhia.
-Vou seguir o conselho do meu pai - disse Valéria, enquanto trocava de roupas para tomar o café da manhã.
Ela colocou um novo biquíni e uma saída de banho.
Saiu do quarto e deu com uma das empregadas.
-Quer que sirva o café na copa ou na varanda, dona Valéria?
-O dia está nublado, porém abafado.
Gostaria que me servisse na varanda.
-Pois não, senhora.
-O Dário apareceu?
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 8:55 pm

-Ele apareceu pouco depois das oito da manhã.
Chegou num estado deplorável, dona Valéria.
-Prepare o café e leve-o até a varanda.
Vou ver como está Dário.
Antes, Valéria ligou para o escritório do pai.
Américo atendeu com largo sorriso nos lábios.
-Filha linda! Quanta saudade!
-Eu também estou morrendo de saudades, papai.
-Como estão as coisas por aí?
Está se comportando?
-Estou sim.
Ontem passei quase o dia todo na companhia de Natália e dona Elenice.
Elas me fazem muito bem.
-Aprecio muito sua amizade com Natália.
Ela é uma boa moça e Elenice eu conheço há anos.
Perdeu dinheiro, mas continua sendo uma mulher de grande carácter e boa conselheira.
-Eu liguei porque tenho pensado em seguir seu conselho e me matricular naquele curso de decoração, em Florença.
Américo abriu e fechou os olhos, demonstrando extrema felicidade.
-Fico muito feliz que esteja pensando em seu futuro.
-Sei que o curso começa em agosto, que o ano escolar na Europa é diferente do nosso, mas estou decidida e vou me preparar para ingressar no instituto e fazer bonito.
Quero que você tenha muito orgulho de mim.
-Eu já tenho muito orgulho de você.
-Ah, antes que eu me esqueça, também quero que saiba que vou terminar meu namoro com Dário.
-Não sabe como estou feliz com essas decisões.
Fico feliz que tenha tido juízo e se dado conta de que esse rapaz, embora seus pais sejam meus amigos, não é homem para você.
-Obrigada por me apoiar, papai.
-Valéria - Américo disse, com a voz embargada.
Eu a amo muito.
-Eu também, papai.
-Ei, essa conversa está parecendo uma despedida.
-Tem razão - tornou ela, voz também embargada.
-Quer que eu desça para a praia no fim de semana?
-Não será necessário.
Eu vou terminar o namoro e subirei a serra hoje mesmo.
Você me faria companhia para o jantar?
-Adoraria.
Tenho uma reunião com o ministro dos Transportes, mas vou postergar para amanhã cedo.
Você é mais importante.
-Te amo, pai.
-Eu também te amo, filha.
Américo desligou o telefone e foi tomado por grande inquietação.
Sentiu o peito oprimido, como se alguma coisa ruim estivesse prestes a acontecer.
-Não é nada demais - disse para si em alto som.
Hoje à noite vou jantar com a minha filha.
Ele empurrou os pensamentos com as mãos e apertou um botão num aparelho acoplado ao telefone:
-Senhorita Mirtes, por favor.
Cancele a minha reunião com o ministro.
-Doutor Américo, ele veio para São Paulo só para conversar com o senhor.
-Diga que eu tive uma indisposição alimentar e que amanhã cedo nos encontraremos onde ele quiser.
-Está certo.
Américo voltou a concentração para seus negócios.
Por mais que tentasse afastar, aquela sensação ruim não saía de seu peito e agora também lhe embrulhava o estômago.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 8:55 pm

Ele se levantou, pegou um antiácido no armário, misturou com água e sorveu o líquido efervescente.
-Deve ter sido o café da manhã.
Aquela fatia de bolo de coco não me desceu bem.
Valéria pousou o fone no gancho e levantou-se.
Caminhou até o quarto de Dário, girou a maçaneta e abriu a porta.
Estava tudo escuro.
Um cheiro misturado de bebida e cigarro invadiu suas narinas.
Ela entrou e abriu a janela.
A claridade entrou forte e Dário acordou, assustado.
-Ei, o que é isso?
-Hora de se levantar.
-Cheguei da festa eram mais de oito da manhã.
Estou com sono.
-Você terá o dia todo para dormir
Agora levante-se.
Valéria aproximou-se da cama e puxou o lençol.
Dário estava nu.
Aquela imagem mexeu com ela.
Dário tinha um corpo espectacular.
Era naturalmente musculoso e estava com a pele bronzeada.
A marca da sunga o deixava ainda mais provocante, mais sensual.
-Precisamos conversar - disse ela, num fio de voz, tentando ocultar a excitação.
Estava difícil conter a emoção.
"Por que diabos sou tão fraca?" - perguntou para si mesma enquanto procurava desviar os olhos do corpo do namorado.
Uma voz sussurrou em seu ouvido:
-Porque eu a desejo e eu a quero, Valéria.
Você não sente atracção por Dário, mas sente atracção por mim.
Você vai se deitar com ele e eu vou poder sentir prazer por intermédio dele.
Vamos, você o deseja. Você o deseja.
O espírito de Tavinho falava com a voz carregada de volúpia.
Valéria bem que tentou, mas a força do espírito sobre sua vontade era bem maior.
Dário a abraçou e o contacto dos corpos fez ela se esquecer da promessa de rompimento, por ora.
Valéria deitou-se sobre o corpo do namorado e amaram-se para valer.
Tavinho aproximou seu perispírito da aura de Dário e passou a sentir a mesma emoção do rapaz.
E também controlava a mente de Dário.
"Faça assim", "Agora faça dessa forma".
Depois que terminaram de se amar, Valéria levantou--se e percebeu que caíra em tentação.
Brigou consigo mesma e Dário perguntou:
-E aí gata, vamos tomar nosso café?
Perdi o sono e estou com uma fome danada.
Ela nada disse. Vestiu o biquíni, irritada consigo mesma, e saiu do quarto.
Trancou-se no banheiro e chorou.
Pediu ajuda aos céus.
Lolla, um espírito amigo de outras vidas, aproximou-se e sugeriu, enquanto alisava seus longos cabelos avermelhados:
-Precisa fortalecer seu pensamento, minha querida.
Precisa aprender que você manda em si mesma.
Ninguém tem o poder de manipular sua vontade.
Isso acontece porque você facilita e deixa acontecer.
Eu não posso afastar Tavinho.
Você e Dário o atraem naturalmente.
No momento em que se sentir forte para se libertar de ambos, eles nada mais poderão fazer contra você.
Valéria estancou o choro.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 8:55 pm

Pegou um pedaço de papel higiénico e assoou o nariz.
Lavou o rosto e tentou sorrir para sua imagem reflectida no espelho.
Sentiu nojo de si mesma.
Arrancou o biquíni e meteu-se embaixo do chuveiro.
Passou a bucha sobre o corpo todo, ensaboou-se várias vezes.
Chorou e orou com fervor:
-Por favor, Deus.
Ajude-me a me livrar desse sentimento em relação ao Dário.
Eu não o amo e não quero mais me relacionar com ele e com mais ninguém.
Valéria terminou o banho, enxugou-se, passou um pouco de hidratante pelo corpo.
Penteou os cabelos, escolheu um vestido curto, calçou sandálias de dedo e foi para a varanda.
Teve uma desagradável surpresa.
Marion tinha acabado de chegar.
-Bom dia, querida.
-Não foi até a festa com o Dário?
Não está com sono?
-Não. Eu preciso de pouco sono.
Sou jovem e cheia de disposição.
-Está certo - Valéria queria ficar em paz e não estava a fim de discussão.
Aproveite e tome o café connosco.
-Dário se levantou? Não acredito.
-Deve estar no banho.
Nada como uma duche fria para despertar.
-Tem razão.
Marion serviu-se de suco de melancia e passou manteiga num pãozinho.
-Você gosta mesmo do Dário? - perguntou ela à queima-roupa.
-Gosto.
-Com esse entusiasmo? - perguntou Marion.
-Marion, eu te conheço há anos, desde pequena.
Qual é a sua? Está interessada no Dário?
-Eu... eu...
-Não precisa gaguejar.
Pensa que sou boba?
Não sou. Eu sei que se atira em cima dele.
E tenho certeza de que já ficaram juntos.
Marion fingiu espanto.
-Imagine, querida!
Namorado de amiga minha para mim é mulher.
Eu jamais faria uma coisa dessas com você e...
Valéria a cortou com firmeza:
-Para cima de mim?
Não me venha com esse papo furado.
E o pobre do Tomás? Por que o trai?
Marion deu uma gargalhada, bem típica.
-Tomás é uma aplicação a médio prazo.
Ele vai me dar suporte para engrenar minha carreira artística no exterior, mais nada.
Não posso me livrar dele agora.
O Dário mexe comigo, sabe?
-Você não presta - falou Valéria, num tom de profunda ojeriza.
-Qual o problema?
Valéria suspirou contrariada.
Mexeu a cabeça para os lados.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 8:55 pm

-No momento o seu catálogo de desejos quer porque quer o Dário.
Estou certa?
-E isso a incomoda?
-Muito pelo contrário.
Adoraria que ficasse com ele.
-Está me entregando o Dário de bandeja?
Antes que Valéria respondesse, Dário perguntou:
-Quem está me entregando de bandeja?
Que conversa é essa?
-Nada - Valéria desviou o assunto.
Marion não queria perder a deixa.
Era o momento certo para causar a maior confusão entre o casal.
Era agora que iria abrir campo para ter Dário só para ela, mesmo que fosse por uma semana ou um mês.
-A Valéria não quer mais nada com você.
-Como assim? - ele não entendeu.
-Está te dando um pé.
Não quer mais namorar você. Entendeu?
Valéria levantou-se da cadeira.
-Marion, pega leve.
-Por que mentir para o Dário?
Por que fazê-lo de bobo?
-De bobo? Não é nada disso.
-É sim - Marion disse, num tom histérico.
A Valéria quer terminar com você, mas está com pena.
-Não coloque palavras que nunca disse na minha boca, Marion.
As duas começaram um bate-boca que quase caminhou para pancadaria, não fosse Dário apartá-las.
-Ei, que é isso? Para que brigarem?
No fundo ele estava adorando ser o centro daquela discussão.
Era amarradão na Marion e também sentia vontade de terminar o namoro com Valéria.
Mas Tavinho estava por perto e os desejos e vontades ali se misturavam.
O espírito de Tavinho ficou fulo da vida.
-Ela não pode largar você.
Valéria é a nossa bonequinha, o nosso amor.
Sem ela, não sei o que vamos fazer.
Dário sentiu um nó no peito.
Despejou as palavras de Tavinho como fossem suas:
-Sem você, Valéria, eu não sei o que fazer.
As duas pararam a discussão e o olharam com total surpresa.
Valéria não entendeu:
-O que foi que disse?
Tavinho continuava grudado em seu ouvido:
-Ela tem de ser sua, Dário.
Se perder Valéria, eu nunca mais poderei senti-la.
Nunca mais poderei amá-la.
Você é o único elo que me permite interagir com ela.
Você não pode deixá-la.
De jeito nenhum.
-Você não vai me deixar, de jeito nenhum - bradou Dário.
Valéria arregalou os olhos.
"Só pode ser o efeito da droga.
Dário não sabe o que diz."
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 8:56 pm

Marion interveio:
-Não preferem conversar a sós?
-Creio que seja uma excelente ideia - assegurou Valéria.
A sua presença aqui em nada ajuda.
A moça fez um biquinho e roçou seu corpo no de Dário.
-Depois que acertar essa pendência, não deixe de me ligar.
Estarei esperando.
Marion falou e se retirou.
Valéria nada disse.
Fez sinal negativo com a cabeça.
-Vamos conversar? - insistiu Dário.
-Me deu dor de cabeça.
Quero subir a serra.
-Eu vou junto.
-Pode ficar aqui se quiser, Dário.
Outra hora a gente conversa.
-Não.
-Estamos com a cabeça quente.
Melhor esfriarmos a cuca.
Conversaremos outro dia.
Ele a pegou nos braços e a chacoalhou com força:
-Você não vai me deixar. Não vai!
Por instantes, Valéria teve a nítida impressão de que vira Tavinho na sua frente.
"Não pode ser" - disse para si.
"Estou alucinando."
Ela abriu e fechou os olhos.
-Solte-me, Dário. Está me machucando.
Ele a soltou e disse em seguida:
-Vou subir a serra com você.
A gente vai conversando no caminho.
-Não creio que seja uma boa ideia subirmos a serra juntos.
-Eu vim com você e vou embora com você.
Vá arrumar suas coisas e vou fazer minha mochila.
Subiremos daqui meia hora.
Valéria estava cansada de brigar, de discutir.
Era melhor subir a serra com Dário e conversar em outro momento.
Ela estava louca para chegar em casa e abraçar seu pai.
Era só esse o seu desejo.
Meia hora depois, eles estavam no Maverick subindo a Via Anchieta.
Havia uma quantidade grande de caminhões que haviam abastecido no porto e o carro subia devagar.
Dário tentava cortar um caminhão, mas em seguida era obrigado a parar ante outro.
Estava ficando irritado.
-Malditos caminhões! - vociferou.
Valéria pegou uma fita cassete de música pop e ligou o som, a fim de amenizar o clima pesado.
-Vamos conversar - insistiu Dário.
-Não temos o que conversar, por ora.
Estou cansada de discutir com você.
-Mas eu a amo.
-Ama nada, Dário.
Você ama a maconha, a cocaína, a bebida, as mulheres.
Sei que me trai com várias garotas.
-Não é verdade.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 8:56 pm

-Você transou com a Marion ontem, na minha casa.
Ele remexeu-se no banco do carro e nada disse.
-Está vendo? Você é um babaca.
-Puxa, gata. Foi só uma brincadeira.
Eu não tenho nada com a Marion.
Sou amarradão em você.
-Diga olhando para mim: você me ama?
Valéria perguntou de maneira franca, com o coração.
Ela queria que ele fosse também sincero.
Dário iria responder que não, mas Tavinho, sentado no banco de trás do carro, interveio:
-Não vai dar para trás agora, cara.
Ela fez uma pergunta típica de mulher.
É só fingir, olhar bem fundo nos olhos dela e dizer "sim" ou "eu te amo".
Dário respirou fundo e falou:
-Eu te amo.
-Mentira. Você não me ama.
Ele não soube o que responder.
Virou o rosto para frente e concentrou-se na viagem.
Valéria abriu o coração.
Falou tudo o que sentia.
Dário, se não estivesse sob o domínio de Tavinho, teria entendido tudo e terminaria o namoro numa boa.
Mas a insistência do espírito era de doer. Tavinho azucrinava o ouvido de Dário.
Esquentava a orelha do rapaz falando um monte de barbaridades, distorcendo tudo o que Valéria lhe dizia.
Dário foi se enchendo daquilo tudo.
Não sabia se estava irritado porque Tavinho falava demais ou porque Valéria também não parava de falar ou, ainda, porque tinha muito caminhão e ele estava cansado de engolir fumaça.
Virou-se com os olhos cheios de rancor e gritou:
-Chega de falar!
Você vai ser minha e acabou!
A última coisa que Dário escutou foi o grito de Valéria.
Ele olhou para frente, mas era tarde.
Pisou no freio e o carro derrapou na pista.
Uma carreta que vinha logo atrás não teve tempo de brecar e prensou o Maverick, empurrando-o para baixo do caminhão da frente.
O acidente foi tão violento que, quando a polícia rodoviária mais os médicos e peritos chegaram ao local, não conseguiam distinguir os corpos sem vida ou mesmo separá-los das ferragens.
Foi uma cena muito triste.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 8:56 pm

Capítulo nove

Aríete deixou o teatro em prantos.
Osvaldo delicadamente tirou um lenço do paletó e estendeu para ela.
-Ficou tão emocionada assim com o Falso Brilhante?
-Nunca vi um espectáculo tão lindo em toda minha vida.
Nunca vou me esquecer desta noite.
As músicas mexeram comigo.
-É mesmo?
-Como diz o refrão da letra de Belchior, apesar de termos feito tudo o que fizemos, nós ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais - tornou Aríete, cabisbaixa.
Isso me fez pensar na minha intransigência em relação ao meu pai.
-Vocês não se dão bem?
-Não. O pai nunca ligou para mim ou para Alzira, tão pouco para nossa mãe.
Às vezes, seus olhos expressam grande melancolia.
É como se não tivesse vontade alguma de estar ao nosso lado.
-Não posso afirmar nada, pois não conheço seu pai.
-Ele é muito cruel.
Faz pouco tempo que mamãe morreu e ele pensa em se casar.
-Seu pai tem o direito de recomeçar, ou mesmo de viver a própria vida.
Aríete sentiu o sangue subir.
-Está defendendo meu pai? Vocês, homens, são todos iguais.
-Negativo - respondeu Osvaldo.
Seu pai é dono dele.
Ele é quem manda na própria vida.
-Mas tem a mim e Alzira.
Precisa pensar na gente.
Ele quer se casar e quer botar aquela lambisgóia da Gisele morando sob o mesmo teto que nós.
Isso é repugnante.
-Por quê?
-Porque, pela lei, metade daquela casa pertence a mime à minha irmã.
Não acho justo ele fazer o que bem entenderem nos consultar.
-Posso lhe fazer uma pergunta?
-Sim.
-Você ajudou seu pai a comprar a casa?
-Como assim? - perguntou Aríete, sem entender.
-Você contribuiu com alguma quantia?
-Claro que não.
Quando o pai comprou a casa, éramos pequenas.
-Ele tem o direito de fazer o que quiser, afinal, foi seu Olair quem pagou as prestações.
Aríete parou de andar e encarou Osvaldo nos olhos.
-Você é advogado e sabe que eu e minha irmã temos direito a cinquenta por cento daquela casa. É a lei, não é?
-Sim. Vocês, juntas, têm direito a metade da casa.
Se seu pai morresse hoje, acho justo que você e sua irmã tivessem o imóvel, usufruíssem dele para viver, ou para alugar e ter uma renda, ou mesmo para vender e fazerem um pé de meia.
No entanto, foi seu pai quem deu duro para comprar a casa.
No meu entendimento, ele pode fazer o que quiser.
-Não é justo.
Eu, minha irmã e minha mãe passamos privações para que ele tivesse condições de pagar as prestações.
Acha justo que não sejamos recompensadas pela privação a que fomos submetidas?
-Por quê? Vocês viveram naquela casa durante anos.
Tiveram um teto, não passaram frio, tinham como tomar banho quente...
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Ave sem Ninho

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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 8:57 pm

Aríete não podia acreditar.
-Você parece o pai falando.
É horrível!
Osvaldo meneou a cabeça para os lados.
-Escute, Aríete.
Sei que você se sente meio "dona"da casa.
A lei brasileira favorece e nos estimula a pensar dessa forma.
Quando nossos pais ou parentes morrem, queremos um pedaço de tudo o que construíram.
Infelizmente, vejo casos em que os filhos exigem a "sua parte" antes de serem donos legítimos de suas heranças.
Quem fez a fortuna deveria ter o direito de fazer dela o que bem lhe aprouvesse, tal qual ocorre com a lei americana.
-Não abro mão do que é meu.
-Está deixando de viver sua vida, ir ao encontro de suas realizações por conta de um pedacinho da sua casa.
Não age assim porque está com medo de sair de casa e viver sua vida de maneira independente?
Aríete corou.
-Eu estou namorando você, Osvaldo.
Penso que teremos uma vida juntos, em breve.
-Eu também penso assim.
Quero que você se torne minha esposa.
Contudo, acredito que todos somos úteis, inteligentes e possuímos muitas habilidades.
Adoraria que minha esposa pudesse ter uma carreira, ganhar seu próprio dinheiro, ter e sentir o próprio valor.
-E da casa, quem vai cuidar?
E dos filhos, quem vai cuidar?
-Os pais e empregadas, ora.
A esposa não deve fazer tudo sozinha, como nossas mães foram educadas a fazer.
Eu sou partidário de dividir as tarefas do lar com a minha esposa.
Nada de minha mulher ficar encostada no portão de casa fofocando com as vizinhas.
A mulher que vai se casar comigo deverá também pensar em si mesma e ter uma carreira, um trabalho, porque o trabalho dignifica o ser humano.
-Não tenho formação.
Acabei o colegial e nem pensei em fazer faculdade.
-Por que não? - perguntou Osvaldo, curioso.
-Insegurança, talvez.
-Ou você é daquelas que querem conhecer um bom partido, casar e ficar em casa o dia todo, levando uma vida fútil e sem graça?
-Falando assim, você me ofende.
Nunca quis me encostar em ninguém.
Continuaram andando e pararam em frente a uma lanchonete.
-Estou com fome - disse Osvaldo.
Aríete consultou o relógio.
-É tarde. Nunca cheguei muito tarde em casa.
-Comemos um lanche rápido e saímos em seguida.
Eu a deixarei em casa.
Aríete sentiu o estômago roncar. Concordou.
-Está bem. Um lanchinho e vamos embora.
Entraram na lanchonete e sentaram-se em banquetas, apoiando os cotovelos na bancada.
Fizeram o pedido e Osvaldo continuou:
-Aríete, estou sinceramente gostando de você.
Mas não posso lhe prometer casamento para agora.
Preciso ganhar um pouco mais, quitar algumas dívidas de família.
Daqui uns dois, três anos, poderei ter condições de subir ao altar.
-Tudo isso?
-Três anos passam assim - ele fez um estalo com os dedos - rápido.
Quero fazer um curso preparatório com duração de dois anos.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 8:57 pm

Desejo, antes de mais nada, passar no concurso para juiz ou procurador.
Depois disso, estarei pronto para assumir um compromisso de casamento.
Poderei dar entrada num imóvel, comprar os móveis, planear, enfim, a nossa vida de casados.
-E eu terei de aguentar meu pai e minha futura madrasta por mais todo esse tempo?
-É uma questão de escolha.
-Eu não tenho escolha - tornou ela, de maneira seca.
Aríete falou e pegou o canudinho à sua frente.
Colocou-o dentro da garrafa de refrigerante e sorveu um pouco do líquido.
Osvaldo emendou:
-Minha querida, se você não aguenta seu pai e sua futura madrasta, por que não sai de casa?
-E iria para onde?
Eu não tenho trabalho, não tenho renda...
-Trabalho a gente arruma.
Sempre existe uma vaga de emprego. Sempre.
-Onde vou viver?
-Você e Alzira podiam ir para uma pensão de moças.
Ainda há pensões muito boas na cidade. O que acha?
-Não sei...
-Confie na vida.
Quando queremos fazer algo para o nosso melhor, a vida sempre nos ajuda.
Aríete não respondeu.
Nem sabia o que dizer.
Osvaldo falava-lhe o óbvio.
Se ela não estava contente naquela casa, deveria encontrar forças dentro de si, acreditar na vida e seguir em frente.
No caminho de volta, Osvaldo prosseguiu a conversa e a motivou sobre-maneira.
Aríete pensou bem e reflectiu. Osvaldo estava certo.
"Não adianta eu querer casar agora só para poder sair de casa" - pensou.
"Osvaldo está certo.
Eu sinto que o amo mas não estaria preparada para assumir um lar.
Não agora. Vou conversar com Alzira sobre o assunto."
-Ei, um cruzeiro pelo seu pensamento. Aríete riu.
-É muito pouco.
Pode aumentar o valor.
Eles riram e logo Osvaldo encostou o carro na calçada.
Despediram-se com um beijo afectuoso e Aríete o agradeceu mais uma vez pela noite agradável.
Assim que ela fechou o portãozinho e o carro de Osvaldo sumiu na rua, Aríete rodou nos calcanhares e deu um grito de susto.
-O que faz aqui?
-Eu é que pergunto - vociferou Olair, com os braços cruzados e fisionomia nada agradável.
Ao seu lado estava Gisele, com um sorriso maquiavélico.
Ela foi logo dizendo:
-Não disse a você, benzinho? - Gisele fez uma voz infantil e mordiscou a orelha de Olair.
Essa daí estava no maior amasso dentro do carro.
Eu corri para te chamar porque isso é muito feio.
O que os vizinhos vão falar de você, amanhã?
Aríete se defendeu.
-Essa daí está me caluniando, pai.
Eu e o Osvaldo não fizemos nada.
Ele muito me respeita.
Só me deu um beijo de boa noite.
Gisele deu uma gargalhada.
-Beijo de boa noite?
Aquilo foi de desentupir ralo de pia. Um nojo.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 8:57 pm

-Como você pode ser tão má, Gisele?
-Eu?! Só quero o bem-estar do seu pai.
Ele é o melhor alfaiate da região.
Não quero que a reputação dele seja degrenida por conta de uma filha de comportamento vulgar.
Aríete sentiu o sangue subir.
Balançou a cabeça para os lados.
-Você é ruim. Quer nos separar do pai.
E ainda fala errado.
É denegrida e não degrenida, sua burra.
Gisele deu de ombros e Olair meteu um tabefe na cara da filha.
-Chega! Além de me desrespeitar, namorando dentro do carro, na porta de casa, ainda destrata a sua futura madrasta?
Aríete levou a mão até o rosto.
Sentiu a face arder.
-Eu não aguento...
Olair a cortou, seco.
-Cale a boca! Chega de lamúrias.
Conversei com Alzira e ela já fez a trouxa dela.
Você vai fazer o mesmo.
Amanhã cedinho vocês vão embora.
-Para onde? - ela engoliu em seco.
-Não sei ainda.
Aqui nesta casa vocês não ficam mais.
Aríete abriu e fechou os olhos.
Tinha vontade de avançar sobre Olair e a namorada.
De que adiantaria?
Seu pai nunca havia lhe dado um pingo de carinho ou consideração.
Olair só queria saber dele e olhava tão somente para o próprio umbigo.
Aríete estava cansada.
Abaixou a cabeça e subiu os degrauzinhos.
Entrou em casa e correu até o quarto.
Alzira já havia feito a mala.
-Ele vai mesmo nos tirar daqui!
Não posso acreditar - disse Aríete.
-Não adianta discutir, mana.
O pai tomou a decisão agora à noite.
Disse que vai se casar com a Gisele e quer começar uma nova vida ao lado dela, sem a gente por perto.
-Ele quer nos apagar de sua vida. Ainda vai se arrepender.
-Não pense dessa forma - tornou Alzira.
Ficar na mágoa e no rancor em nada vai nos ajudar.
Precisamos, neste momento, ser fortes e confiar na vida.
-Osvaldo me falou há pouco sobre isso - confiar na vida.
-Eu e você somos saudáveis e podemos encarar qualquer tipo de trabalho.
A gente encara qualquer coisa, até fazer faxina, se for preciso.
Qualquer trabalho, desde que honesto, dignifica o ser humano.
O pai vai nos levar para uma pensão.
Arrumamos um emprego e vamos seguir nossa vida.
Só tem uma coisa estranha...
-O que foi, Alzira?
-O pai disse que encontrou seu Ariovaldo e tiveram uma conversa.
Depois, ele concordou e falou: "mesmo contrariado vou ter de levá-las até lá".
Onde será esse "lá"?
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 8:57 pm

-Não faço a mínima ideia.
Mas seu Ariovaldo podia dar apoio para gente e não dar conselhinhos para o pai.
Parece que todo mundo está contra nós, minha irmã!
-Não fale assim.
Não sinto que seu Ariovaldo tenha dito algo para nos prejudicar.
Ele e dona Célia são nossos amigos.
-Será? Me sinto tão insegura...
Aríete sentou-se na cama e levou as mãos até o rosto.
Cobriu-o e começou a chorar.
Desabou num pranto sentido.
Alzira sentou-se ao seu lado e, enquanto a irmã chorava um rio de lágrimas, passava delicadamente sua mão sobre os cabelos de Aríete.
-Chi! Vai dar tudo certo. Vamos confiar.
Na manhã seguinte, as meninas acordaram cedinho.
Alzira e Aríete fizeram o toalete, arrumaram-se e foram até a cozinha.
Alzira pegou o bule para preparar o café e Olair apareceu na soleira.
-O que pensa que vai fazer?
-Vou pôr água para ferver e coar o café. Esquentar o leite.
-Nada disso. Vamos sair agora.
-Eu estou com fome.
-A viagem vai ser longa.
Quero voltar a tempo de abrir a alfaiataria.
Alzira sentiu um nó no estômago. Perdeu a fome.
Aríete chegou na cozinha e escutou a mesma conversa.
-Melhor levar a gente embora.
Ou, se preferir, pode nos dar uns trocados que nos viramos.
Sabemos ler.
É só nos dar um mapa com a direcção.
Não precisamos da sua má vontade para nos levar aonde quer que seja.
Olair ia lhe dar novo tapa, mas Alzira se interpôs entre eles.
-Parem de brigar.
Vamos embora, de uma vez.
Aríete voltou ao quarto e pegou as duas sacolas.
Olair saiu e deu partida no carro.
Em pouco tempo estavam seguindo o trajecto para sabe-se lá onde.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 8:57 pm

Capítulo dez

O velório de Dário estava apinhado de curiosos e muitos jornalistas.
O pai era um banqueiro de sucesso e a mãe era uma socialite que morava nos Estados Unidos.
Apareceu um monte de gente do país todo, desde empresários e figurões da sociedade, passando por políticos e artistas.
O cortejo foi televisionado e a morte foi destaque nos principais jornais do país.
Por incrível que pudesse parecer, os pais não estavam nem um pouco consternados com a morte do filho.
Demétrio, o pai, estava de cara fechada e mal cumprimentava as pessoas.
Diziam que ele estava em choque.
Maria Augusta, a mãe, fingia um choro dorido.
Era tudo encenação.
Eles nunca se deram bem e criaram o filho com babás e empregadas.
Por isso Dário crescera sem limites.
Como não acreditavam em nada, eram totalmente desligados de qualquer credo ou religião, achavam que a morte era o fim.
Maria Augusta tinha certeza de que uma hora ou outra o filho iria botar os pés pelas mãos.
Fria e calculista, antevira o ocorrido e um ano antes fizera um seguro de vida para Dário, onde ela seria a beneficiária.
Após o enterro, Demétrio voltou para seus afazeres e Maria Augusta decidiu não ficar um dia que fosse no país.
Estava contente com o dinheiro do seguro que embolsaria.
Pediu para o motorista levá-la até o aeroporto.
Entrou no avião, sentou-se confortável mente em seu assento de primeira classe.
"Dário sempre foi um estorvo.
Não aguentava mais as suas estripulias.
Agora não terei mais problemas e ainda por cima vou embolsar uma nota preta" - pensou ela, enquanto bebericava uma taça de champanhe que a aeromoça acabava de lhe entregar.
Não muito longe dali, Valéria jazia num leito de hospital.
Américo e Natália não desgrudavam um minuto sequer.
Aguardavam pelo momento em que ela abrisse os olhos e voltasse à vida.
Valéria se salvara.
Com o tempo, ela se recordaria daquele trágico momento com detalhes cada vez mais vivos.
Quando a discussão ficou acalorada e Dário voltou seu rosto para o dela, Valéria sentiu que estava a um passo da morte.
Por instinto, abriu a porta do carro e jogou-se no acostamento.
Dário não teve tempo de nada.
O motorista da carreta que tombara também não.
A morte deles foi instantânea.
Valéria sofrera algumas escoriações nas pernas, joelhos e cotovelos.
O rosto sofreu alguns arranhões.
Diante do estado em que encontraram o carro e os restos de Dário, a moça tinha conseguido chegar perto do que se conhece por milagre.
Ela mexeu o rosto para os lados, de maneira lenta.
Abriu e fechou a boca, e passou a língua pelos lábios.
Sentiu sede e tentou abrir os olhos.
Eles pareciam pesar muito e com muito custo ela concatenou seus pensamentos.
As imagens apareciam de forma embaralhada, meio embaçadas.
Américo largou o jornal sobre a mesinha e levantou-se de um salto.
Aproximou-se do leito da filha e curvou o corpo.
Pousou suas mãos nas dela.
-Como se sente, filha?
-Tenho sede.
Natália apanhou uma jarra com água, na mesinha ao lado da cama, e despejou o líquido cristalino num copo.
Entregou-o a Américo e ele encostou o copo nos lábios de Valéria.
-Beba, filha. Devagar.
Valéria abriu lentamente os lábios e sorveu um pouco da água.
Passou a língua pelos lábios e abriu um olho.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 8:58 pm

Viu o pai e se emocionou.
-Oh, papai, estou viva!
Américo deixou uma lágrima escapar.
-Mais viva que nunca, meu amor.
Natália aproximou-se e ficou do outro lado da cama.
Pousou suas mãos nas da amiga.
-Valéria, eu e mamãe rezamos por você todos esses dias.
-Há quanto tempo estou aqui?
-Uma semana - respondeu o pai.
Aos poucos Valéria foi voltando a si e as cenas do desastre afloraram em sua mente.
Ela se desesperou e começou a se debater na cama.
-Foi horrível! Dário não teve tempo...
Dário não teve tempo...
Américo apertou o botãozinho da enfermagem e Natália correu até a porta.
Uma enfermeira entrou no quarto e, vendo o estado alterado da garota, aplicou-lhe um sedativo.
Em poucos segundos, Valéria voltou a adormecer.
-Ela ainda está em choque - disse a enfermeira.
Mais uns dias e ela estará boa, recuperada.
-Tem certeza? - perguntou Américo, inseguro.
-Sim. Sua filha está num dos melhores hospitais do país, atendida por excelentes profissionais.
As chapas não revelaram fracturas.
Valéria só sofreu algumas escoriações pelo corpo.
-Mas ela vai sempre se lembrar do acidente...
-Sim, seu Américo.
Quando for receber alta, o médico provavelmente vai indicar sessões de terapia.
Sua filha vai ficar boa, confie.
A enfermeira falou e saiu.
Natália aproximou-se de Américo e o abraçou.
-Sei o que sente, seu Américo.
-O acidente foi horrível.
Não sei se Valéria voltará a ser a mesma.
-Com certeza ela nunca mais será a mesma.
Essas tragédias mudam a nossa vida.
-Ela não merecia passar por isso.
-Quem somos nós para decidir as coisas pelas quais vamos ou não passar?
Ainda só temos controle do nosso livre-arbítrio.
Vivemos das nossas escolhas.
-Não entendo por que Valéria namorava esse moço.
Sei que a família dele deve estar muito triste pela morte dele, mas Valéria não combinava com Dário.
-Não combinava mesmo - respondeu Natália.
Mas a vida é inteligente, seu Américo.
Valéria precisou passar por essa tragédia para valorizar a vida e repensar suas crenças.
Ela já é uma mulher, tem condições de guiar a própria vida.
Não podia mais ficar nesse chove não molha, nesse namoro nada construtivo.
-Ela quase morreu.
-Disse bem: quase.
Ela está aí, vivinha da silva.
Vai ter condições de voltar à vida normal, só que agora de maneira mais madura.
Valéria é forte e vai superar essa tragédia.
Seu espírito vai sair fortalecido dessa experiência.
Américo sorriu.
-Você fala em espírito.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 8:58 pm

-Achou graça?
-Sim. Isso fez eu me lembrar de uma antiga namorada.
Ela acreditava piamente no mundo dos espíritos.
Tinha certeza de que a vida continuava após a morte.
-Ela estava coberta de razão.
-Tem certeza?
Acho tudo isso muito fantasioso - tornou Américo, desconfiado.
-Eu acredito na espiritualidade, na continuidade da vida.
Se não acreditasse nisso, não sei como aceitaria as diferenças sociais e económicas do mundo.
-Morrer e voltar?
Não parece coisa de novela?
-Como essa que está passando na televisão?6
-E.
-O que o senhor me diz?
Américo se afastou.
Mordiscou os lábios e disse pensativo:
-Não é obra de ficção?
-É um folhetim, obviamente, mas os textos da novela tiveram a supervisão do jornalista, escritor e professor José Herculano Pires, muito respeitado no meio espírita.
-Já ouvi falar no professor Herculano Pires.
Parece-me um homem sério.
-Muito sério, muito inteligente e muito estudioso.
Ele se dedica com muito amor aos estudos espíritas, daí ser convidado pela autora para dar orientação quanto às cenas que tratam da doutrina kardecista.
A novela mostra com clareza os temas básicos do espiritismo como mediunidade, as obsessões ou influências que recebemos dos espíritos, a comunicação entre encarnados e desencarnados...
Américo fez um ar de interrogação.
-Encarnados e desencarnados? - Natália sorriu.
-Desculpe-me, seu Américo.
Eu me esqueço de que nem todo mundo conhece o jargão espírita.
Encarnados somos nós, eu, o senhor, a Valéria - apontou para a amiga na cama -, as pessoas que vivem neste mundo, no corpo de carne que abriga o espírito.
Somos os encarnados.
E desencarnados são os que estão fora da carne, que não pertencem, temporariamente, ao mundo terreno, ou seja, são os "mortos".
-Pelo que me relata, parece que os mortos continuam mais vivos do que nunca.
Assim como na novela. É isso?
-Perfeitamente.
A autora, Ivani Ribeiro, é espírita.
Tem familiaridade com o tema e com as questões abordadas.
Além do mais, ela se baseou em dois clássicos espíritas para escrever a novela:
os livros Nosso Lar e E a vida continua, ditados pelo espírito André Luíz ao médium Chico Xavier.
-Gosto muito do Chico Xavier.
Eu o vi na televisão, alguns anos atrás, num programa de debates.
Fiquei impressionado com a sua segurança e como ele me passou, por meio de um tubo de tv, tanta tranquilidade, serenidade e bondade.
Se ele faz parte de um grupo que prega essa religião, algo de bom ela deve ter.
-Allan Kardec sempre foi claro nesse ponto.
O espiritismo é uma doutrina de carácter experimental-científico, de consequências filosóficas.
Não deve ser visto como religião, mas ele me conduz a uma intensa religiosidade.
Eu o aceito como religião natural, como ensina o professor Herculano Pires, sem nenhuma conotação com qualquer religião ou rito.
É a ciência da alma, digamos.
Américo assentiu com a cabeça.
-Ciência da alma. Perfeito.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 8:58 pm

-Ademais - anuiu Natália - religião significa a crença na existência de um poder ou princípio superior.
A palavra deriva de religare, do latim, que significa "ligar com" ou "ligar novamente",ou seja, restabelecer a ligação com esse princípio superior, que chamamos de Deus.
-Estou impressionado com a sua desenvoltura no assunto.
Eu a conheço desde pequena e nunca havia notado esse traço seu.
-Depois que meu pai perdeu tudo o que tinha construído durante toda vida, eu questionei o porquê de passar por experiência tão dolorosa.
De uma hora para outra perdi a casa confortável em que morava, a escola, os cursos, os empregados, o motorista...
Os amigos sumiram e, em seguida ao baque, papai e mamãe se separaram.
Foi uma época muito dura para nós duas, ficamos praticamente na miséria.
Américo ia falar, mas Natália fez um gesto com a mão:
-Praticamente todos os amigos sumiram, contudo devo admitir que o senhor muito nos ajudou, alugando para mamãe uma de suas propriedades por um preço irrisório e nunca corrigiu o valor do aluguei.
Sempre seremos gratas à ajuda que nos deu.
-Fiz o que qualquer pessoa de bem faria.
Sempre fui amigo de sua mãe e, quando Amélia faleceu, foi Elenice quem me ajudou a cuidar da pequena Valéria - ele se emocionou, pigarreou e concluiu:
- Eu é que devo agradecê-las.
Nunca quis cobrar o aluguei de vocês.
-Não é justo, seu Américo.
Tudo na vida é feito a base de troca.
O senhor nos deu uma casa e pagamos por morar nela, mesmo que esse valor seja bem pequeno.
É com muito prazer que depositamos o dinheiro em sua conta corrente, todos os meses.
-A sua maneira de ver a vida é fascinante, Natália.
Eu, que não vou demorar a chegar nos cinquenta anos, sinto ter menos conhecimento espiritual que você.
Nunca quis me ligar em religião.
Sempre enxerguei religião como algo que tenta pisar sobre o homem e tirar sua força, sempre com interesses escusos, manipuladora.
-Precisamos somente ter discernimento para separar o joio do trigo.
É bom acreditar em algo superior que rege a vida, desde que nos toque e aqueça o coração.
Mamãe, depois que perdemos tudo, foi atrás de conforto e encontrou no conhecimento espiritual forças para continuar a seguir em frente.
Confesso que não troco a vida que tenho hoje por nada desse mundo, nem pela vida de luxo que tinha.
Uma voz grave, porém melodiosa, disse atrás dela:
-Depois de toda essa conversa, interessei-me pelo assunto.
Natália virou-se e tomou um susto.
Deu um passinho para trás e sentiu as pernas tremerem.
Américo abriu largo sorriso e estendeu os braços:
-Meu irmão. Quanta saudade!
Os dois se abraçaram e Américo fez a apresentação:
-Natália, esse é meu irmão Adamo que vive na Itália.
Ela esticou o braço e apertou a mão dele.
Sentiu um choquinho, uma sensação muito diferente, prazerosa e excitante.
-Prazer.
Natália falou e abaixou a cabeça.
Insistia para que as pernas parassem de balançar.
Adamo abriu um sorriso lindo, demonstrando os dentes alvos, enfileirados de maneira perfeita.
Os lábios eram carnudos e os olhos eram castanhos.
Ele era encorpado, mais forte e bem mais moço na aparência do que Américo.
O bigode e as costeletas grossas lhe conferiam um ar bem viril.
Era um tipo para lá de interessante.
Ele fixou seus olhos nos de Natália.
-Confesso estar enfeitiçado.
Nunca vi moça tão bela.
Ela corou e Américo pigarreou.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Sabia que o irmão era galante e sedutor.
Cutucou-o e apontou para Valéria.
- Vá ver sua sobrinha.
Adamo sorriu, deu a volta pela cama e aproximou-se de Valéria.
Beijou-a no rosto e ficou a contemplar suas feições delicadas, porém machucadas.
Natália bem que tentou, mas não conseguia desviar os olhos daquele homem.
Lembrou-se de quando vira a foto dele num porta-retratos, meses antes.
"Ele é muito mais bonito pessoalmente.
Estou gamada" - pensou a jovem, enquanto procurava uma maneira de ocultar o que sentia.

6 Natália se refere à novela A viagem, de Ivani Ribeiro, considerada a primeira novela da televisão brasileira a tratar dos temas espíritas de maneira séria e clara.
Foi ao ar pela extinta TV Tupi de outubro de 1975 a março de 1976.
No elenco, Ewerton de Castro, Eva Wilma, Altair Lima, Tony Ramos, Elaine Cristina, Irene Ravache e outros nomes importantes da teledramaturgia.
A novela teve um remake em 1994, exibido pela Rede Globo, que alcançou o mesmo sucesso que a versão original.
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Ave sem Ninho

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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 8:59 pm

Capítulo onze

Fazia mais de quarenta minutos que Olair dirigia seu fusquinha.
As meninas, sentadas no banco de trás e segurando suas sacolas, tentavam imaginar para onde estavam sendo levadas.
Aríete não aguentou tamanha ansiedade e perguntou:
-Aonde está nos levando?
-Não interessa.
Cale a boca e vá apreciando a paisagem.
Aríete engoliu a raiva.
Alzira fechou os olhos e fez uma sentida prece.
O tempo foi passando, o carro entrou na Via Anchieta.
Depois de rodar alguns quilómetros, Olair saiu da estrada e seguiu uma placa.
Alzira leu e indagou:
-Rudge Ramos?
-É. Vocês estão no ABC.7
-Por que tivemos de atravessar a cidade?
Não havia pensões mais modestas no centro? - perguntou Aríete.
-Não vão para pensão coisa nenhuma.
Pensão é coisa de vagabunda.
-Um bom lugar para a Gisele viver, enquanto o casamento do século não sai.
Olair desprendeu a mão direita do volante e o braço voou para trás.
As meninas abaixaram a cabeça e ele atingiu o ar.
-Não falem mais uma palavra sequer da minha noiva.
Eu paro esse carro aqui na rua e meto porrada nas duas. Agora!
Aríete quis responder, mas Alzira a cutucou e fez um ar de súplica, mexendo negativamente a cabeça para os lados.
Aríete abriu e fechou a boca e preferiu não dar continuidade à discussão.
Alguns minutos depois, Olair dobrou uma avenida e contornou uma pracinha, parando numa rua calma, tranquila, com muitas árvores e casas modestas mas bem-arrumadas, com jardins bem cuidados.
As meninas se entreolharam.
Aríete disse:
-Nossa, aqui é bem mais bonito do que o lugar onde moramos.
Olair fingiu que não escutou.
Abriu a porta do carro, saiu e dobrou o banco do motorista.
-Podem saltar e sair.
É aqui que vão ficar.
Elas desceram rapidinho do carro segurando cada uma sua sacola de roupas.
Olair deu dois passos na calçada e parou defronte um sobrado bem bonitinho, todo revestido de tijolinhos.
As portas e janelas eram brancas.
Lembrava uma casinha inglesa, com entrada lateral e um bonito jardim na frente, cheio de flores variadas e que exalavam agradável perfume.
Ele ficou pensativo por instantes e tocou a campainha.
Alzira perguntou:
-Aqui é uma pensão?
Ele não respondeu e tocou a campainha, novamente.
Uma gota de suor escorreu pela testa e uma mancha grande começou a se formar sob seus braços.
Olair estava impaciente e parecia muito nervoso.
Uma mulher simpática na casa dos quarenta anos apareceu na entradinha lateral e levou a mão ao peito quando o viu.
-Olair?!
É você mesmo? - indagou, aparentando surpresa.
Ele não respondeu e ela foi até o portão.
Olhou por cima do ombro dele e viu as meninas.
Ao ver Alzira, lembrou-se imediatamente de Josefa.
Elas eram muito parecidas.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 8:59 pm

Ela tentou esboçar um sorriso.
As meninas continuaram quietas, sem saber o que era aquilo tudo.
Ele foi seco e grosso, como de costume.
-Nunca pensei ver a tua cara de novo.
Não estou acostumado a conviver com rameiras.
Mas a minha consciência me alertou para trazer as meninas até aqui.
Elas precisam de um lar.
-A sua consciência tem um nome: Ariovaldo.
Olair não respondeu e as meninas se entreolharam, assustadas.
-Vendeu a casa?
Perdeu a alfaiataria?
-Não lhe devo satisfações.
-Como não?
Chega na porta da minha casa, toca a campainha, me chama de rameira e...
Ele a cortou, seco:
-Não quero discutir.
Elas que fiquem com você.
Se não tiver condições de abrigá-las, mande-as para uma pensão.
Mas a minha consciência agora está tranquila.
Fiz o que tinha de fazer.
Ele falou, virou o corpo e, sem olhar para as filhas, entrou no carro, deu partida.
Contornou a pracinha e o carro desapareceu na curva.
Aríete e Alzira não se mexiam.
Estavam se sentindo muito constrangidas com a cena.
A mulher apressou-se em abrir o portãozinho e foi abraçá-las.
-Minhas sobrinhas, como é bom vê-las.
-Você é a tia Lurdes? - perguntou Alzira, emocionada.
-Sou eu, sim.
-Ah, não sabe como estamos aliviadas.
Pensamos que o pai fosse nos jogar na represa Billings!
Lurdes sorriu e as abraçou novamente.
-Olair é truculento, mas não chegaria a tanto.
-Uma pena minha mãe ter se casado com um homem tão bruto e tão estúpido.
-Sua mãe casou-se com um homem estúpido porque não se dava o respeito.
Sempre gostei de Josefa, mas a sua passividade me incomodava.
Ela nunca se esforçou para mudar sua atitude e enfrentar o marido.
Deu no que deu.
-Mamãe nunca teve opinião própria - emendou Alzira.
Deixava o pai bater nela e na gente.
Eu jamais deixaria um homem encostar o dedo em mim.
Isso é falta de amor-próprio.
Aríete fez sim com a cabeça, mas estava desconfiada.
-Por que disse há pouco que a consciência do pai se chama Ariovaldo?
Lurdes riu, marota.
-Depois eu lhes explico melhor a história.
-Antes de mais nada - interveio Alzira - podemos passar uns dias na sua casa até arrumarmos um lugar para morar?
-Imagine! Vocês vão viver comigo.
-Não, tia! - protestou Aríete.
Não queremos invadir a sua privacidade.
Nem sabemos se é casada ou...
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 8:59 pm

Lurdes a cortou com amabilidade na voz:
-Sou solteira e vivo sozinha.
Tenho um gato branco, que se chama Sorriso.
Lurdes falou e o bichano veio em disparada do quintal.
Passou pelas grades do portãozinho de ferro e começou a circular as meninas.
Lurdes sorriu:
-Sorriso é danado.
Parece humano.
E gostou de vocês. Bom sinal.
Aríete abaixou-se e o pegou no colo.
-Oi amiguinho, como vai?
O bichano mexeu o nariz, abriu e fechou os olhinhos e miou.
-Ele está feliz com a chegada de mais gente - emendou Lurdes.
-Não acho justo chegarmos aqui, sem mais nem menos.
Nunca nos foi permitido ter contacto com a senhora.
Mamãe nunca nos contou nada sobre o afastamento de vocês.
-Tenho certeza de que Josefa deve estar por trás disso.
Alzira e Aríete se entreolharam.
Aríete tomou a palavra:
- Desculpe informar, mas mamãe morreu faz alguns meses.
Lurdes deixou uma lágrima escorrer pelo canto do olho.
- Eu sei. Estive no enterro.
-Mesmo? - as irmãs fizeram a pergunta ao mesmo tempo.
-Sim. Tenho uma amiga que mora no bairro e sempre me deu informações sobre Josefa e vocês.
-Ah... a senhora é amiga da dona Célia?
-Sim.
-Por isso falou no nome do seu Ariovaldo!
-Somos amigos de longa data.
Sei tudo sobre vocês por intermédio deles.
Eu acompanhei o crescimento das duas à distância, afinal, Olair não permitia que eu me aproximasse da esposa.
-Mamãe poderia ter insistido.
Ela deveria se impor -sugeriu Aríete.
-Sua mãe era uma pessoa muito passiva, submissa, com medo de expressar seus desejos ou mesmo impor sua vontade. Uma pena.
-Eu não sou como ela.
Se eu me casar com o Osvaldo, as coisas vão ser bem diferentes! - exclamou Aríete.
-Percebo que ambas são bem diferentes da mãe.
Infelizmente Josefa sofria de rejeição, não sabia lidar com os "nãos" da vida.
A rejeição não é agradável, mas precisamos aprender a lidar com ela para fortalecer nossa autoconfiança.
Talvez a Zefa aprenda isso no mundo astral.
-A dona Célia nos falou sobre o mundo astral.
Disse-nos que mamãe não morreu, mas foi o corpo de carne dela que morreu.
Mamãe vive em espírito e está se recuperando da doença num hospital - tornou Alzira.
-É isso mesmo.
Sua mãe continua viva em espírito e, quem sabe, em breve, poderemos ter contacto com ela?
-Será possível? - duvidou Aríete.
-Tudo é possível, minha querida.
Agora venham, vamos entrar e conhecer a casa em que vão morar.
As meninas pegaram suas sacolas e entraram.
O gato foi acompanhando-as enquanto Lurdes mostrava-lhes os ambientes.
Tratava-se de um sobrado modesto, mas muito gracioso, com poucos cómodos, bem ajeitadinho.
Lurdes era uma mulher organizada e a casa cheirava a limpeza.
Os móveis eram antigos, mas bem conservados.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Havia uma sala, uma cozinha, um banheiro e um quintalzinho na parte térrea.
Nos fundos, além do quintal, havia um quartinho e uma pequena área de serviço.
Na parte de cima, havia dois dormitórios.
O das meninas tinha um guarda-roupa de quatro portas, uma cómoda, uma penteadeira e duas camas.
Um criado-mudo separava as camas.
Nele, havia um pequeno abajur.
A cortina parecia ser nova, num tom rosado.
As paredes haviam sido pintadas na cor rosa-bebé.
Aríete continuava desconfiada.
-Este quarto está cheirando a pintura nova.
Os móveis são novos.
Por que a senhora teria um quarto completo para meninas, com duas camas de solteiro?
Lurdes riu alegremente.
-A Zefa me dizia que você sempre foi muito observadora e muito esperta.
Está certo. Não vou esconder.
Eu sabia que vocês viriam para cá.
-Como?
-Ah - tornou Alzira -, foi a dona Célia quem lhe contou?
Lurdes fez sim com a cabeça.
As meninas moveram a cabeça para os lados.
-A senhora é amiga da dona Célia e do seu Ariovaldo há muito tempo? - indagou Alzira.
-Somos muito amigas.
Eu, Josefa e Célia fomos amigas de infância.
-Dona Célia nunca nos disse que era amiga de mamãe - comentou Alzira.
-Ou da senhora - emendou Aríete.
-Porque Célia tinha medo de que, se vocês falassem alguma coisa em casa, Olair as proibisse de vê-la.
-Mas por que o pai não queria ela por perto ou nunca deixou que tivéssemos contacto com a senhora? - sondou Aríete, curiosa.
Lurdes deu um sorrisinho.
-Vocês são praticamente mulheres e não tenciono guardar meus segredos.
Nada de mistérios.
Um dia eu vou lhes contar porque Olair me odeia tanto e porque me privou da amizade com sua mãe.
No momento, o importante é saberem que Ariovaldo convenceu Olair a trazer vocês para cá.
Aqui era um quarto de costura.
Eu o desmontei e ajeitei para vocês.
Os móveis são bons, comprei em parcelas numa loja de móveis na rua Jurubatuba.
As moças ficaram alegres.
Sentaram-se na cama, sentiram a maciez dos lençóis, o perfume dos travesseiros.
O armário era até grande pelas poucas roupas que trouxeram.
-É tudo muito bom para ser verdade - Alzira disse, beliscando-se.
-Agora vocês têm um lar de verdade.
Aríete levantou-se da cama e abraçou a tia.
Beijou-a várias vezes no rosto.
Estava muito emocionada.
-Nunca terei palavras para agradecê-la.
A senhora está sendo mais que uma mãe para nós.
-Como aprovaram o quarto, eu quero pedir algo em troca.
-O que é? - indagou Alzira.
Pode pedir o que quiser.
-Não me chamem de senhora.
Que tal me chamarem de você?
Vamos fazer de conta que eu sou a irmã mais velha das duas, pode ser?
As meninas riram com satisfação.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 8:59 pm

-Você é muito bonita - observou Aríete.
-Obrigada, querida.
Aríete passou a mão pelo estômago.
-Desculpe, tia, mas estamos sem comer nada.
O pai não deixou que tomássemos o café da manhã.
-Deixem as sacolas sobre as camas, depois ajeitaremos e organizaremos tudo.
Vamos descer que vou providenciar um bom café com leite para nós.
Lurdes e Aríete tencionaram sair do quarto e Alzira permaneceu sentada sobre a cama.
-Você não vem, irmã?
-Já desço, Aríete.
Só um minutinho.
Aríete passou o braço pela cintura da tia e desceram as escadas.
Alzira fechou os olhos, sorriu e agradeceu:
-Obrigada, meu Deus.
Eu tinha certeza de que tudo iria terminar bem.
Obrigada, do fundo do meu coração.
Um espírito em forma de mulher acariciou-lhe os cabelos e beijou-lhe a testa.
- Querida Alzira, eu não podia ficar ao seu lado porque a energia que pairava sobre sua casa era densa e me repelia naturalmente.
Os pensamentos mesquinhos de Olair unidos aos pensamentos negativos de Gisele não me permitiam um contacto mais próximo.
Agora, estaremos cada vez mais juntas.
Nada será capaz de nos afastar.
Eu a amo muito.
Lolla falou e sumiu no ar.
Alzira sentiu uma forte emoção e deixou uma lágrima rolar pela face.
Sentiu indescritível sensação de bem-estar.

7 Também conhecido como ABC Paulista ou região do grande ABC, faz parte da região metropolitana de São Paulo, mas com identidade própria.
A sigla vem das três cidades que originalmente formavam a região:
Santo André (A), São Bernardo do Campo (B) e São Caetano do Sul (C).
Actualmente, apesar de não contribuírem para a sigla, fazem parte da região os municípios de Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.
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