O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 10:04 pm

Capítulo doze

Fazia pouco mais de três meses que Valéria deixara o hospital.
Ela se recuperou rapidamente dos ferimentos e das escoriações pelo corpo.
Fez algumas sessões de terapia e, aos poucos, foi superando o trauma do acidente.
Ela estava se recuperando, mas sentia um cansaço sem igual.
Valéria também tinha pesadelos com o acidente.
Nele, ela discutia com Dário e depois via nitidamente, na sua frente, o semblante de Tavinho.
Em seguida ela abria a porta do carro, rolava o asfalto e Tavinho tentava ampará-la.
Valéria gritava e acordava.
Natália estava sempre presente, ajudando a amiga a vencer todo aquele tormento.
-Você precisa reagir, Valéria.
-O que me intriga não é sonhar com o acidente, mas Tavinho aparecer na cena.
Não tem nada a ver.
Natália sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo.
-Eu sinto que tem a ver.
-Imagine, Natália - tornou Valéria, mexendo a cabeça para os lados - Tavinho morreu faz anos.
-Eu já lhe disse que o corpo de carne da gente é que morre.
O espírito se desprende do corpo físico e continua mais vivo do que nunca.
-Eu não sinto mais nada pelo Tavinho.
Nada. Por que pensaria nele?
-Você pode não estar mais afim dele, mas quem garante que ele ainda não goste de você?
-Vire essa boca para lá - Valéria bateu três vezes sobre a madeira da mesinha de cabeceira.
Espero que Tavinho esteja bem longe daqui.
Acaso você sente alguma coisa?
Natália fechou os olhos por instantes, inspirou e soltou o ar.
Depois os abriu e sorriu:
-Engraçado, eu não percebo o espírito de Tavinho aqui, tampouco de Dário.
Mas sinto uma presença.
Não sei identificar.
-Presença boa ou ruim? - indagou Valéria, desconfiada.
-Boa. Muito boa. Boa demais.
-Você tem facilidade em lidar com esses assuntos espirituais, Natália.
Veja se percebe mais alguma coisa, vai?
Natália fechou os olhos e em sua mente apareceu um jovem muito bonito.
Os olhos eram de um verde profundo, os cabelos eram abundantes e sedosos, e o sorriso era encantador.
Transmitia amor, puro amor.
Ela sorriu e abriu os olhos:
-Tem um espírito de homem ao seu lado.
De um homem bem bonito, aliás.
Valéria riu.
-É?! Bonito mesmo?
Assim como o Pedrinho Aguinaga?
-Mais ou menos.
-Será que você está vendo meu futuro namorado?
-Não sei - respondeu Natália.
Pode ser.
Em breve você vai para a Itália e fará o que mais gosta: estudar decoração.
Vai saber se não vai se apaixonar por um colega de classe?
Um italiano assim, alto, forte, um belo maschio.
As duas riram a valer.
Ficaram um bom tempo falando sobre o futuro, sobre os sonhos de cada uma.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 10:04 pm

Valéria, num determinado momento, comentou:
-Eu bem que tento, mas algo estranho está acontecendo comigo.
Será que estou com alguma perturbação espiritual?
Natália moveu a cabeça para os lados, numa negativa.
-Não sinto que haja perturbação.
Eu havia sentido uma presença de homem, mas era algo doce, terno.
Nada que pudesse perturbar você.
Valéria ficou pensativa por instantes.
-Talvez tenha sido o almoço e o telefonema da Marion.
Meu estômago não aguentou.
Natália sorriu com desdém.
-Marion continua ligando para você?
-Quando o Tomás veio me visitar, ela teve um ataque de nervos.
-Hum, o Tomás veio aqui? Quando?
-Semana passada.
Foi muito simpático, bastante educado. - Natália espremeu os olhos.
-Olha lá. O Tomás sempre teve uma queda por você, Valéria.
Até hoje não entendo por que não deu bola para ele.
Tão simpático, tão responsável.
-Vou confessar algo: senti um friozinho na barriga quando ele entrou no quarto.
-Hum - Natália sorriu alegre.
Tomás é um partidão.
-Passei por tantos problemas ultimamente.
Não sei se gostaria de começar uma nova relação.
Ainda me sinto insegura.
E, para piorar o quadro, parece que ele ainda está namorando a Marion.
-Não posso crer!
Marion estava interessada no Dário.
Pensei que esse namoro com o Tomás estivesse com a data de validade vencida.
-Negativo.
No dia do acidente, Marion me confessou que estava interessada no Dário, mas não abria mão de Tomás.
-Tomás não combina em nada com a Marion.
Eles são como azeite e vinagre, não podem se misturar.
-Mas continuam juntos, sim.
Tanto é verdade que Marion não para de me ligar porque ficou irritada de Tomás vir aqui sozinho.
-Ela não se emenda.
Essa garota é petulante, mimada.
Um nojo. Como pode ser tão fútil?
-Quer porque quer me visitar.
-Vocês nunca foram amigas - protestou Natália.
-Ela é insistente.
Marion tem um génio terrível, é voluntariosa, nervosa.
Um nojo, como você mesma disse.
Ela ligou para informar que vem aqui em casa mais tarde.
-Pelo que soube, ela foi convidada para fazer uma ponta num filme americano.
-Por isso não desgruda do Tomás.
A família dele é bem relacionada com o pessoal do cinema americano.
Marion não ama Tomás, entretanto fica grudada nele para conseguir se tornar uma estrela.
-Uma estrela - Natália riu com desdém.
Só se for uma estrela cadente.
Aquela mulher não tem brilho, não tem carisma.
-Mas é bonita, não podemos negar - ajuntou Valéria.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 10:04 pm

-Beleza não dura para sempre, amiga.
Um dia Marion vai envelhecer e sei lá o que pode lhe acontecer.
-Gostaria que você estivesse ao meu lado quando ela chegar.
Podemos dispensá-la rapidamente.
Natália nada disse.
Achou o pedido de Valéria muito estranho.
No entanto, preferiu não argumentar.
Valéria andava bastante indisposta e no mês seguinte seguiria viagem para a Itália.
Ela sentiria muito a falta de Valéria, mas o curso durava três anos e o tempo passava rápido.
-Como anda a faculdade? - perguntou Valéria.
-Estou adorando, fazendo o curso certo.
-Será uma óptima arquitecta.
-Sei disso.
-Quem sabe não seremos sócias no futuro?
Montamos o nosso escritório, você toca os projectos e eu decoro as casas, as lojas, os escritórios...
-Adoraria.
A conversa seguiu animada.
Uma das empregadas bateu na porta e anunciou que Marion estava no saguão de entrada.
-Foi só falar nela!
Valéria suspirou, contrariada:
-Melhor eu recebê-la agora.
-Vou me retirar.
-De jeito nenhum - protestou Valéria.
Quero você ao meu lado, já disse.
Esta casa é minha e você fica.
Marion que se atreva a pedir para você sair.
Eu volto a ser a Valéria de sempre e boto ela para correr.
Natália riu entusiasmada.
Contudo o riso durou pouco. Muito pouco.
Marion entrou no quarto.
Estava acompanhada de Adamo.
Natália sentiu a saliva desaparecer da boca.
Depois de se conhecerem no hospital, Natália encontrava Adamo quando ia visitar Valéria.
Ele estava hospedado na casa e só iria embora com a sobrinha a tiracolo.
Natália sentia os olhos de Adamo cravados nela, mas acreditava ser imaginação de sua parte que ele estivesse interessado.
Para não dar bandeira, ela o tratava com seriedade.
Deixava de ser espontânea e, dessa forma, Adamo entendia que ela não estivesse sentindo nenhuma atracção por ele.
"Puro engano" - ela disse para si.
"Adamo é o homem que sonhei ter ao meu lado, para o resto da vida."
Marion entrou no quarto de maneira efusiva, puxando Adamo por um braço e chacoalhando o outro, com uma revista nas mãos.
-Olhem bem, prestem atenção!
Jogou a revista sobre o colo de Valéria.
-O que é isso?
-O passaporte para o meu estrelato.
Valéria pegou a revista e viu a capa.
-Você saiu pelada?
-Pelada não - respondeu Marion, com a maior tranquilidade.
Posei. Fiz uma sessão de nu artístico.
-Nu artístico, sei - disse Natália, com desprezo.
-A Status é uma revista de nível.
-E sair pelada numa revista garante o passaporte para o estrelato?
Quem disse? - indagou Valéria.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 10:05 pm

-As grandes estrelas do cinema começaram assim - argumentou Marion, num muxoxo, levantando os ombros.
A Marilyn Monroe, por exemplo.
E tem artista que fez coisa bem pior.
Eu estou muito feliz.
O país inteiro me deseja.
Sou linda, gostosa e... rica!
Acabei de fazer uma ponta num filme de porno chanchada.
-A conversa está agradável demais - ironizou Natália -, mas a que devemos a honra da grande estrela porno?
-Engraçadinha.
Pode tripudiar sobre mim, porque o que vem de baixo não me atinge - Marion rodopiou pelo quarto e sentou-se ao lado de Valéria.
Adamo estava me ajudando a construir meu novo nome.
-Novo nome? Como assim? - indagou Valéria, sem entender.
-Meus pais estão um pouco nervosos com as fotos e com a "ponta" que eu fiz no filme brasileiro.
-Também pudera, Marion.
Você não acha que passou dos limites?
-Só porque eu apareço nua, correndo na praia.
Pode? Olha que bobagem?
Meus pais são muito caretas.
Marion Albuquerque de Miranda não é nome de estrela.
É aristocrático. Não vende.
-E Adamo chegou a uma conclusão? - perguntou Valéria, olhando para o tio.
Adamo sorriu desconcertado.
-Dei umas dicas, mas não sou lá muito criativo.
Eu vou deixá-las a sós.
Preciso resolver alguns assuntos.
Não se esqueça de que vamos embora mês que vem.
-Ah! - Marion fez biquinho.
Vou sentir tanto a sua falta, Adamo.
-Você tem o Tomás para suprir a falta dele, queridinha - contrapôs Natália, alterada.
-Tem gente demais neste aposento, Valéria.
Queria tanto ficar a sós com você...
Valéria olhou para Natália e mordiscou o lábio.
Adamo aproximou-se e a puxou delicadamente pelos ombros:
-Melhor deixarmos as meninas a sós, Natália.
-Melhor ficar com Valéria.
-Eu não vou matá-la, fofa - zombou Marion.
Vou falar sobre os meus planos futuros.
Agora veja se me deixa a sós com ela.
Vá fazer sala para o Adamo, vai.
Natália ia retrucar e Adamo a levou para fora do quarto.
-Por que fica tão nervosa na frente de Marion? - perguntou ele, intrigado.
-Por nada - respondeu Natália, ainda irritada.
Vamos descer.
-Precisamos de um chá.
-Precisamos nos livrar dessa infeliz.
Adamo mexeu a cabeça para os lados.
-Venha, vou pedir para nos prepararem um chá.
Você me acompanha?
Natália corou e fez sim com a cabeça.
Enquanto desciam as escadas, no quarto de Valéria a conversa corria solta.
-Eu vou me chamar Marion Krystal.
-Sério?
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 10:05 pm

-É. Meu agente foi quem sugeriu.
Para as pessoas fazerem associação com a Sylvia Kristel.8
-O filme dela foi proibido no país, Marion.
-E daí? Todo mundo se interessa pelo proibido.
O filme pode ter sido vetado nos cinemas, mas todos conhecem a actriz.
Eu vou seguir a carreira cinematográfica.
Agora que posei nua, não paro de receber convites.
Começo a sentir o gosto do sucesso.
-Mas o sucesso, nessas circunstâncias, é efémero - adiantou Valéria.
-Vou aproveitar a minha juventude.
-Um dia você vai envelhecer.
-Vou envelhecer, mas serei sempre linda.
Vou me cuidar, fazer exercícios, dieta, usar cremes caros que retardam o envelhecimento.
O dinheiro me manterá sempre linda e jovem.
-Acho difícil segurar-se tão somente na beleza.
Não acredita que é muito pouco, muito superficial?
-O mundo é superficial - tornou Marion.
Eu sou superficial. Viver é isso.
Eu nasci linda e rica.
Vou morrer linda e rica.
-Não pensa em conhecer melhor a si mesma e...
Marion a cortou com um gesto rápido de mão.
-Tudo besteira, papo furado.
O que conta no mundo é a beleza, a pele sedosa, a audácia de participar de um filme erótico.
Eu nasci para ser uma estrela.
-Que você tenha sorte.
Marion deu uma risadinha, levantou-se da cama.
Deu um novo rodopio sobre si mesma.
-Sabia que vou ficar noiva do Tomás?
-Estava desconfiada.
-Não gostei de ele ter vindo aqui, sozinho.
-Por quê?
Achou que eu iria devorá-lo?
Marion engoliu a raiva.
-Não. Claro que não, mas...
-Mas o quê, Marion? - perguntou Valéria, alterada.
Você parece que me persegue.
Sempre quis ter meus namorados ou paqueras.
-Eu?!
-Sim. Comecei a namorar o Tavinho na escola e você correu atrás dele.
Depois namorei o Dário e você também correu atrás dele.
-Grande coisa.
Parece que todos seus namorados morrem.
Será que você vai se tornar uma autêntica viúva negra?
-Sem graça.
-É. Parece que é de propósito.
Quando você não se interessa mais por eles e eu os quero, morrem.
-Que maneira mais cretina de expor sua opinião.
-Cretina nada, Valéria.
Somos da mesma laia.
Eu manjo você. Agora a situação inverteu.
Você quer o meu namorado.
Ou melhor, meu futuro noivo.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 10:05 pm

-Tomás? Não.
-Ele é rico, faz parte do nosso círculo social.
É um partidão.
-Isso não tem nada a ver.
Tomás é um amigo.
-Um amigo que sempre babou por você.
-Ora essa...
Marion a cortou de maneira seca.
-Pensa que nunca reparei?
-E daí, Marion?
Pode ficar com ele.
O clima não estava lá muito bom.
Marion tornou, irritada:
-O pai do Tomás conhece uns produtores de Hollywood.
-Agora entendi o motivo desse noivado.
-É. O Tomás vai ser a estrada dos tijolinhos amarelos que vai me conduzir ao estrelato.
-Você está usando o Tomás.
-Estou. Por isso que você não vai chegar perto dele, pelo menos agora.
-Que coisa mais pequena.
Usar uma pessoa para conseguir seus intentos.
-O mundo é dos espertinhos, Valéria.
Sabe - ela falou, enquanto tentava tirar o esmalte vermelho de uma unha - eu vou usar o Tomás do jeito que quiser.
Ele é bonito, mas fraco e altamente manipulável.
-Ele não é tão burro.
Se perceber que você não o ama...
Marion gargalhou.
-Amor? Ah, eu havia me esquecido.
Você é daquelas pessoas que acreditam no amor!
Santa ignorância.
-Tomás ainda vai perceber esse seu interesse escuso.
-Quando ele perceber já vai ser tarde.
Acha que na América eu não vou ser cortejada por algum figurão do cinema?
Eu troco o Tomás na hora.
Com esse corpo - Marion passou a mão pelo corpo cheio de curvas - sempre serei desejada.
-Estou cansada. Importaria de se retirar?
-Eu não queria ficar muito aqui, mesmo.
Vim só para lhe dar o aviso.
Não se meta com o Tomás.
Marion falou com os olhos injectados de fúria.
Apanhou a revista sobre a cama e caminhou apressada até a porta.
Bateu-a com força.
Valéria sentiu súbito mal-estar.
Deitou-se na cama. Estava indisposta.
Muito cansada e indisposta.

8 Sylvia Kristel, nascida em 1952, foi a actriz mais famosa do cinema europeu na década de 1970.
Tornou-se conhecida mundialmente interpretando a personagem principal na série de filmes eróticos Emmanuelle.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 10:05 pm

Capítulo treze

Marion desceu as escadas rapidamente.
Passou pelos empregados de peito empinado e dobrou até alcançar a copa.
-Adamo, eu já vou.
-Não quer ficar para o chá?
-Não gosto de chá.
E não gosto de determinadas companhias - falou, olhando duramente para Natália.
-Os incomodados que se mudem.
-Já estou de saída.
Antes - Marion passou o braço sobre o pescoço de Adamo - queria lhe entregar esse exemplar.
Vou autografar com meu novo nome.
Adamo nada falou.
Natália levantou-se, alterada.
-Vou até a cozinha ver se o chá está pronto.
Marion pegou uma caneta da bolsa e escreveu sobre a capa da revista.
Depois a entregou a Adamo e o beijou no rosto.
-Se eu não precisasse do Tomás para me dar bem na América, juro que me deitava com você. Que pena.
Ela sussurrou no ouvido dele, levantou-se e saiu, batendo o salto.
Adamo sorriu e balançou a cabeça para os lados.
-Essas mulheres! - disse alto.
-Falando sozinho? - Natália aproximou-se trazendo a bandeja com bule e duas xícaras.
-Fico espantado com a vaidade humana.
A vaidade castiga e dificulta, atrasa a caminhada do nosso espírito na direcção do bem maior.
Pobre Marion.
-Ela é muito fútil.
-Contudo não a condeno.
Cada um sabe o melhor que faz.
E, além do mais, plantamos o que semeamos.
Em vez de julgar, torço para que Marion tenha a chance de rever suas crenças e mudar sua postura, antes que seja tarde.
-Eu não gosto dela.
Só de ela ter passado por aqui peguei suas energias ruins.
-Você se envolve facilmente com a energia dos outros.
Natália sentiu o rosto enrubescer.
-Como assim?
Não estou entendendo.
Adamo esperou ela se sentar e serviu o chá.
Depois de bebericar o líquido quente e saboroso, disse, num tom sério:
-Tenho estudado o mundo das energias e como elas nos influenciam.
-Li alguma coisa a respeito.
Mas não me envolvo assim tão facilmente com a energia das pessoas.
É que nasci com muita sensibilidade e capto fácil tudo o que as pessoas pensam.
Sou uma esponja!
-É uma esponja porque quer.
Cabe a cada um de nós seleccionar o que entra e o que não entra em nosso campo áurico.
Não há vítimas no mundo.
Natália tentou dissimular:
-Não estou dizendo que sou vítima, mas sofro com a mente ruim dos outros.
-Você se deixa envolver, sim.
Vi como ficou perturbada com a presença de Marion.
-Ela é terrível - tornou Natália.
É uma pessoa mesquinha, fútil e que só pensa na beleza do corpo.
De que adianta ser assim?
O corpo envelhece e o que vale mesmo é o espírito.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 10:05 pm

-Eu não tenho nada contra a beleza do corpo.
-Acaso acha Marion uma mulher bonita?
-Claro! - falou Adamo, com sinceridade.
-Não posso crer! - exclamou, contrariada.
-Marion é linda.
Isso não podemos negar.
Se ela usa a beleza para conseguir as coisas e se acredita que só por meio da beleza é que vai ter tudo o que quer, isso é um problema dela, das ideias dela, da maneira como seu espírito vem vivendo ao longo de algumas encarnações.
Quem sou eu ou você para apontar o dedo e dizer o que está certo e errado?
-A maneira como ela age não tem nada de espiritual. Isso me irrita.
-Por que você se irrita?
Ela irrita você ou você se irrita com ela?
-Dá na mesma.
-Não - continuou Adamo, sério.
Fomos criados como vítimas.
Culpamos Deus e o mundo pelos nossos infortúnios.
Outros, ainda, jogam a culpa de seus fracassos nas encarnações passadas.
-Isso é verdade.
-Não é bem assim.
Claro que hoje somos um produto de todas nossas existências passadas.
Mas não podemos creditar ao passado tudo de ruim que nos acontece.
Dessa forma, se o passado interferisse tanto assim em nossa vida, caso fosse o único a influenciar decisivamente nossa encarnação actual, não vejo motivo para estar tendo uma nova chance de reencarnar.
Somos perfeitos no nosso grau de evolução.
Estamos aqui no planeta por dois motivos.
-E quais são? - perguntou Natália, enquanto bebericava seu chá.
-Para aprendermos a ser impessoais e, com isso, alcançar mais facilmente a nossa felicidade.
Reencarnamos para a felicidade.
-Eu sou impessoal.
-Não é. Você se deixa levar pelos outros.
Se a pessoa está irritada, você fica irritada.
Se a pessoa lhe diz algo de que não gosta, você se fecha e se machuca.
Ora, não podemos ficar a mercê das influências das pessoas.
Nós somos o comandante de nosso corpo, de nossa mente, de nosso espírito.
Temos de impor a nossa vontade acima de tudo.
Se alguém pensa diferente de você, precisa aprender a entender que cada um tem o direito de ser e falar o que quiser.
-É que...Adamo a cortou.
-Escute, Natália.
Você não pode se deixar influenciar pelos outros.
Precisa aprender a ser firme, a ser dona de seus pensamentos e não permitir que a energia dos outros invada você de maneira tão fácil.
Precisamos criar nossas barreiras energéticas para combater a negatividade do mundo.
Está na hora de criar um campo magnético positivo ao seu redor, a fim de ter consciência do seu poder de reger a própria vida.
-Aprendi que tenho de ser solidária à dor do outro.
Eu me envolvo.
Se minha amiga Valéria fica triste, eu também fico.
Eu sou assim.
-Um problema sério para seu amadurecimento espiritual, porque nunca estará bem o suficiente para ajudar sua amiga e, acima de tudo, ajudar a si mesma.
-Não posso evitar.
Eu gosto da Valéria.
-Pelo facto de gostar da sua amiga é que precisa ser impessoal.
Muitas pessoas confundem impessoalidade com frieza de sentimentos.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 10:06 pm

Não é nada disso.
Impessoalidade é não se misturar a energia do outro.
Se o outro não está bem, eu preciso estar bem para ajudá-lo.
De que adianta eu também ficar mal?
Vai ajudar em quê?
Adamo suspirou e disse:
- A coragem de se ver e de se bancar é o segredo da evolução.
Feche os olhos.
Natália pousou a xícara sobre a mesa.
Ajeitou o corpo sobre a cadeira e fechou os olhos.
-Comece a dizer para si mesma, com força:
"Eu decreto o meu poder".
Natália repetiu:
-Eu decreto o meu poder.
-Quem manda em mim sou eu.
E ela repetiu.
Adamo falou algumas frases de impacto positivo e depois tocou levemente na mão dela.
-Por ora é só.
O seu padrão energético já mudou.
-Nossa, parece que eu tirei um peso das costas.
-Você estava ligada a outras pessoas, por conta dos pensamentos conturbados.
-Desculpe-me.
Eu não devia ter me irritado com a Marion.
-Não precisa pedir desculpas.
Você se irritou porque leva tudo para o lado pessoal.
Quando aceitamos os desaforos do mundo, ficamos perturbados.
Quando você está perturbada, a perturbação aumenta.
Quando você está equilibrada, a perturbação não entra.
-Tem um jeito bem diferente de ver a vida.
-Aprendi na marra.
Eu sempre tive uma sensibilidade aguçada e captava todo tipo de energia, boa ou ruim, de encarnado ou desencarnado.
-Nossa, parece eu!
-E eu só me machucava.
Achava que tinha de sofrer por conta de débitos do passado.
Daí fui estudar mais profundamente a espiritualidade e aprendi que eu sou o responsável por tudo de bom ou de ruim que me acontece.
-Isentar o mundo das culpas não é uma saída digna.
-E culpar o mundo pelos seus infortúnios acaso é digno? - Adamo perguntou, de maneira séria.
Natália estremeceu.
-O mundo nos causa muito sofrimento.
-Vamos mudar a maneira de olhar para essa situação:
Você sofre porque se deixa levar pelo sofrimento do mundo.
Ou seja, você se deixa afectar porque quer.
-Fala como se eu fosse uma irresponsável.
É a minha sensibilidade...
-A sensibilidade é um dom.
Conhecê-la e usá-la a seu favor só vai fazê-la crescer no mundo.
A sensibilidade é um prémio e não um infortúnio.
-Aprendi diferente.
-Pois desaprenda - tornou Adamo, firme.
Use a sua força para seu crescimento e para sua felicidade e jamais para lhe causar dor.
-Acho que preciso rever todo o meu padrão de crenças.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 10:06 pm

-Concordo.
Se permanecer pensando e agindo dessa forma, como uma vítima do mundo, vai sofrer desnecessariamente.
Percebo que você é uma jovem bonita, talentosa e inteligente.
Precisa, primeiro de tudo, acabar com a crença de que sofrer é bom e faz crescer.
Sofrer dói muito.
Não prefere crescer na vida por meio da inteligência, em vez da dor?
Aquelas palavras tocaram fundo em Natália.
Adamo falava tudo ao contrário do que ela aprendera ou considerara válido como crença.
A dor e o sofrimento, acreditava, eram ferramentas importantes e úteis para sua evolução espiritual.
Adamo agora sugeria que tudo era uma questão de ponto de vista.
A sua mente entrou em choque e, depois dessa conversa com Adamo, Natália passaria a ver a vida com outros olhos.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 10:06 pm

Capítulo catorze

Olair estava se sentindo o homem mais feliz do mundo.
Havia se livrado daqueles dois estorvos.
Nunca gostara mesmo das filhas e agora se via livre para viver feliz ao lado da amada.
Tudo era feito para agradar Gisele.
Pintou e redecorou a casa, comprara novos móveis, electrodomésticos, tudo do jeito que ela queria.
Torrou dinheiro até na compra de uma televisão colorida, algo caro e presente em poucos lares na época.
-Não acha que está gastando demais, homem? - perguntou Ademar, um de seus clientes.
Olair respondia com um sorriso que ia de canto a canto:
-Guardei dinheiro a vida toda e agora posso me dar ao luxo de gastar com a minha nova esposa.
-Ei, mas você mesmo disse que não tinha dinheiro para pagar um médico particular para Josefa.
-Eu menti.
Acha que eu ia gastar dinheiro com aquela doença ruim?
A Zefa estava condenada, ia morrer mesmo.
Porque iria torrar meu dinheiro ganho a custa de tanto trabalho com uma esposa moribunda?
Ademar meneou a cabeça.
-Olair, que coisa feia.
A Josefa foi uma óptima esposa.
Sempre cuidou da casa, das meninas.
Sempre foi muito reservada, discreta.
-E vivia às minhas custas.
Eu colocava comida na mesa.
Se ela tomava banho quente e tinha uma televisão para assistir aos seus programas, era porque eu pagava a conta de luz.
Eu pagava por suas roupas, eu pagava por tudo!
Ela não fez mais do que a obrigação.
E, se quer saber, fez muito pouco.
Não sinto falta dela.
-Nem das suas filhas?
-Não. Aríete e Alzira sempre foram uma pedra no meu sapato.
Atrapalharam a minha vida.
Se eu não as tivesse colocado no mundo, teria conseguido juntar mais dinheiro.
Mas tive de gastar com material escolar, roupa, uniforme, mais comida na mesa...
Olair fez uma pausa, tragou seu cigarro e prosseguiu.
- Elas me custaram muito caro.
Fico muito feliz de elas estarem bem longe daqui.
Ademar deu de ombros.
Conhecia Olair havia muitos anos e sabia que o homem era esquentado, nervosinho e turrão.
Não gostava de ser contrariado e sua palavra era lei.
Procurou mudar o tom da conversa.
-Está feliz com Gisele?
-Muito - Olair era todo sorriso.
Essa é uma mulher com "m" maiúsculo, meu amigo.
Faz todas as minhas vontades e está sempre pronta para o amor.
Todas as noites se entrega para mim.
-Ela cuida da casa?
-Imagine! Está louco?
E eu quero uma mulher cheirando a água sanitária?
De maneira alguma.
Quero Gisele sempre limpa, bem-arrumada e perfumada, com suas enormes unhas vermelhas, para arranhar as minhas costas.
Eu contratei uma empregada doméstica para o serviço pesado.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 10:06 pm

-Vejo que agora você se tornou outro homem.
Quem te viu e quem te vê! - exclamou Ademar.
-O tempo passa, a gente envelhece, mas vai ficando mais esperto.
Eu fui usado e fiquei estagnado na vida por conta de três mulheres que nada me deram.
É como se eu tivesse parado no tempo, esses anos todos.
-Para onde foram suas filhas?
-Deixei com uma parente lá dos lados de São Bernardo.
Olair não suportava falar na irmã.
Tinha pavor de se lembrar da vergonha que passara com Lurdes, anos atrás.
"Aquela desgraçada merece queimar no inferno" - pensou, entre dentes.
-Então agora é só a nova esposa?
-Só. Sabe que até penso em lhe dar uma viagem de presente?
Um cliente rico lá do Jardim França me disse que os gran-finos estão viajando para Bariloche.
Penso em parcelar uma viagem para nós dois.
-Olha, Olair.
Estou impressionado com tanta devoção.
Espero que esse amor dure um bom tempo.
-É para toda a vida - respondeu ele, sério.
Gisele me ama e vamos viver muitos anos juntos.
-Que assim seja.
O cliente terminou de fazer a prova do terno, vestiu-se e foi embora.
Já era perto das sete da noite e hora de fechar a alfaiataria.
Olair apagou as luzes, cerrou a porta de ferro e meteu o cadeado.
Dobrou a esquina e passou na padaria.
É que Gisele não gostava - e não sabia - cozinhar.
Dizia que era chato ter de preparar comida e ficar com cheiro de tempero.
Olair concordava e virara hábito: todas as noites ele passava na padaria, pegava uns pãezinhos, um pouco de presunto e mussarela, uma garrafa de guaraná.
Chegava em casa cansado, mas feliz.
Ele contornou o portãozinho de ferro e subiu o degrauzinho.
Quando foi colocar a mão na maçaneta, a porta abriu-se e Rodinei saiu, sério.
-Rodinei! - Que surpresa.
-Olair, eu vim conversar com a Gisele sobre a casa.
Ela está me pressionando e...
Olair o cortou com amabilidade na voz:
-Bobagem.
Ela está assim porque quer que você nos passe a escritura.
-Vou providenciar isso para o mês que vem, pode ser?
-Claro. Ô Rodinei, você é como um irmão para mim.
Se eu não confiasse em você, nunca teria passado a casa em seu nome, só para as minhas filhas não terem direito a herança, a nada.
Rodinei deu uma risadinha e seu dente canino de ouro resplandeceu.
Esperto você, meu amigo.
Aproveitou que Josefa estava mal.
Eu me lembro do dia em que você a fez assinar a escritura.
-Josefa achou que era um documento de seguro de vida para as meninas.
Ela era tonta, bobona, não se atrevia a me contrariar.
Mas, graças a você, meu querido, eu consegui ficar com esse imóvel só para mim.
-E para sua nova esposa, certo? - emendou Rodinei.
-Claro, para a Gisele.
Rodinei se despediu e foi embora.
Olair entrou em casa, colocou os pacotes da padaria sobre a mesa da cozinha.
Gisele estava tomando banho.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 10:06 pm

-Tomando banho a essa hora, querida?
-Rodinei ficou empatando o meu tempo, amorzinho.
Desculpe eu me banhar só agora.
Sei que você não gosta e...
Gisele não terminou de falar.
Foi tomada por grande surpresa.
Olair arrancou as roupas, empurrou a cortina do banho e entrou no quadradinho minúsculo.
-Quero amá-la agora! - Gisele sorriu e fechou os olhos.
"Até quando vou ter de me entregar a esse pateta?
Detesto esse homem sujo e com bafo horrível.
Só estou fazendo esse esforço porque o Rodinei pediu" - disse para si.
Olair continuava se fartando com a esposa, e ela fingia prazer.
Continuava a pensar:
"Rodinei é que é homem.
Acabou de sair daqui e me deixou tonta de tanto prazer que me deu.
Agora tenho de fingir prazer com esse zé-ninguém.
Não vejo a hora de pegar a casa para mim e colocar esse infeliz na rua.
Vou fazer o mesmo que ele fez com as filhas."
Gisele estava cansada.
Havia passado quase a tarde toda nos braços de Rodinei.
Não tinha a mínima vontade de continuar naquela esfregação.
Apanhou o pote de champô e virou propositadamente nos olhos de Olair.
- Ai! Meus olhos estão ardendo.
-Ai, amorzinho, desculpe - disse ela, num tom infantil e fingido.
Eu me atrapalhei. Perdão.
Enfia os olhos embaixo da água.
Gisele se desgrudou do brutamontes e apanhou uma toalha.
Entregou-a ao marido.
-Pronto, Olair.
A dor vai passar.
Vamos continuar.
-Perdi a vontade.
Meus olhos estão doendo.
Vai preparar a mesa. Comprei pão e frios.
Gisele sorriu. Conseguira seu intento.
Enxugou-se, vestiu uma calcinha e uma camisola.
Foi até a cozinha e arrumou a mesa.
Preparou os lanches, encheu um copo com guaraná e sentou-se na cadeira.
-Vou esperar mais um mês e dar o bote.
Vou tirar tudo desse velho ordinário - falou entre dentes, enquanto mastigava seu lanche de boca aberta.
Fazia dias que Gisele estava eufórica.
Agora finalmente iria concluir seu plano diabólico.
E que plano era esse?
Voltemos um pouquinho no tempo, na época em que Josefa adoecera.
Gisele saíra da cidade de Aquidauana, no Mato Grosso do Sul - naqueles tempos, a cidade ainda fazia parte do estado do Mato Grosso - para tentar a vida na cidade grande.
Tentou Cuiabá, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e, por fim, chegou a São Paulo.
Depois de uns trabalhos aqui e ali, conheceu Rodinei.
Gisele se apaixonou perdidamente pelo dono do boteco.
Rodinei era nordestino, rosto duro e marcado por furos de acne e cabra-macho até o último fio de cabelo.
Numa conversa com o rapaz ela ficou sabendo que Olair, o dono da alfaiataria, estava com a esposa muito doente, morrendo de câncer.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 10:06 pm

-Ela tá com doença ruim.
Falaram aí na redondeza que é cancro - disse Rodinei.
-Eu tive uma tia que pegou essa doença e também morreu - comentou Gisele.
-O homem está nervoso.
Se a esposa morrer, metade da casa será das filhas.
Ele não quer dividir a casa com ninguém.
-Por quê?
-Porque disse que lutou muito para conseguir tudo o que tem, que nenhuma das filhas ajudou ele em nada.
O homem acabou de juntar aí um dinheiro e quitou a casa junto ao BNH.
Eu acho que Olair tá certo.
Gisele botou a cabecinha para pensar.
E veio a ideia brilhante:
-Por que não se oferece para ficar com a casa?
-Que é isso, Gisele?
E eu sou homem de ter dinheiro para comprar uma casa?
-Esse sobradinho deve valer pouca coisa.
-Mesmo assim, eu não tenho dinheiro.
Moro nos fundos do bar.
Um brilho malicioso perpassou os olhos de Gisele.
-E se ele passar a casa para você como se a tivesse vendido?
-Não entendi.
-É simples.
Você se oferece como comprador.
Vai ao cartório, o Olair passa a escritura em seu nome e, depois que a velha morrer, você e eu ficamos com a casa.
Tudo de fachada.
-Ele não vai ser idiota de passar a casa assim, de mão beijada.
-Você mesmo disse que Olair não quer dividir a casa com as filhas.
Tenho certeza de que ele aceitaria fazer o negócio, e digo mais: ele vai agradecer a você por ter se oferecido para emprestar o nome.
-Não sei.
Depois o homem pode ir à delegacia, fazer boletim de ocorrência e provar que nunca recebeu um tostão pela casa.
Quero distância da polícia.
-Bobinho - disse Gisele.
Olair não terá como provar nada.
E se quiser ir à justiça, do jeito que ela é lenta, nunca vai conseguir ter a casa de volta.
-Você é minha rainha e deve ser bem tratada.
Juro que faria de tudo para te dar conforto.
-Então bota a cabeça para funcionar.
-Não é má ideia.
Uma casinha caída do céu, sem ter de pagar nada... estou começando a gostar.
Gisele sorriu de maneira maliciosa e atirou-se sobre Rodinei.
Fez tudo o que ele gostava em matéria de amor e convenceu o moço a aceitar o plano.
Era tudo simples.
Ela se aproximaria de Olair e daria bola para o homem.
Depois que Josefa morresse, eles se casariam.
Passado um tempo, Gisele pediria a separação e iria viver com Rodinei, na casa que seria deles.
E, obviamente, Olair que se danasse.
Tudo correu conforme o planeado.
Josefa assinou a venda da casa e morreu uns meses depois.
Olair caiu feito um peixinho na rede de Gisele.
Apaixonou-se pela loira falsificada e casaram-se.
Agora era chegado o momento de revelar a verdade a Olair e pedir a separação.
Gisele estava cansada de viver com aquele homem sujo e de modos grosseiros.
Não via a hora de viver ao lado de Rodinei, o homem que amava de verdade.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 10:07 pm

Capítulo quinze

A vida transcorria tranquila e os dias pareciam cada vez melhores para Aríete e Alzira.
A companhia de Lurdes lhes fazia imenso bem.
Aos poucos foram se adaptando à nova rotina.
Na semana que chegaram à casa de Lurdes, Aríete ligou para Osvaldo e lhe contou o ocorrido.
O namorado foi ao encontro delas e conseguiu um emprego de dactilógrafa para Aríete, numa montadora de veículos ali mesmo em São Bernardo.
Com o passar dos meses, Lurdes notou o dom de Alzira para cozinhar e encorajou a sobrinha a fazer doces e salgados para vender.
Em pouco tempo, a vizinhança e os colegas de trabalho de Aríete faziam pedidos.
Como diziam, Alzira tinha mãos de fada.
Num sábado, Osvaldo passou para buscar Aríete em casa.
Iriam ao cinema para assistir ao electrizante Tubarão.
Lurdes convidou Alzira para visitar um casal de amigos e jogar cartas.
-Não, titia. Estou cansada.
Fizemos muitos doces e tortas na semana.
Gostaria de tomar um lanche e ir para o quarto ler.
E tenho de ficar de olho no gato.
-No gato? - perguntou Lurdes, surpresa.
O Sorriso é independente.
Adora sair pela noite e andar nos telhados da vizinhança.
Por que essa preocupação com o gato, agora?
Alzira não respondeu.
Lurdes andava preocupada com o comportamento da moça.
Alzira não tinha vontade de sair, não tinha amigos e não queria saber de namorar.
Todos os fins de semana, a jovem pegava seu exemplar gasto de Olhai os lírios do campo e trancava-se no quarto.
-Você já conhece essa história de cor e salteado.
Não prefere ler um outro romance?
-A dona Célia certa vez me emprestou um romance espírita.
-E o que achou?
-Gostei bastante.
Mas o livro do Veríssimo me marcou bastante.
Tenho enorme carinho - disse, enquanto alisava a capa do livro.
Lurdes tinha tempo de sobra e sentou-se no sofá, ao lado da sobrinha.
-O que a faz gostar tanto assim do livro?
-Eu me apaixonei pela Olívia.
Ela ama o Eugénio de uma maneira tão desprendida e sublime, tão linda!
-Eu não li o livro, mas sei da história.
Os olhos de Alzira marejaram.
-Será que um dia eu vou amar como a Olívia?
Os jovens não querem nada sério.
Sempre me chamaram de careta.
-Ora - contemporizou Lurdes -, Aríete tem um ano a mais que você.
Namora um bom moço e pensam em casamento.
Por que você também não poderia ter a mesma sorte?
-Porque Aríete é despojada, tem uma postura bem diferente da minha.
Ela é extrovertida. Eu sou mais tímida e reservada.
Difícil encontrar alguém.
-Depende de você.
Se ficar trancada em casa todos os fins de semana, vai ser difícil arrumar um namorado.
-Não tenho vontade de sair, tia.
Eu sinto como se fizesse parte de outro mundo, de outro século.
Eu não gosto dessa modernidade toda.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 8:37 pm

-Fazer amigos é bom.
-Tenho a sua amizade - tornou Alzira, num tom amoroso -, tenho a minha irmã e a amizade de dona Célia e do seu Ariovaldo.
-Seria bom conhecer moças e rapazes da sua idade.
O Osvaldo insistiu para que você fosse ao cinema com eles.
Eu vi a tristeza nos olhos de Aríete quando você recusou o convite.
-Imagine! Eu vou segurar vela?
As duas riram.
-Aríete gosta da sua companhia.
-Sei disso, tia Lurdes.
Ocorre que não gosto do agito das noites de sábado.
E se fosse para assistir a um filme romântico, eu até que toparia.
Mas ver um filme de terror?
Não faz o meu género.
-Prefere ficar em casa.
-Prefiro. Você pode sair e encontrar seus amigos, jogar buraco.
Vou ler um pouco e, mais tarde, se ainda o sono não vier, vou assistir à Sessão de Gala.
Parece que o filme de hoje é daqueles antigos, em preto e branco.
-Você é quem sabe - Lurdes consultou o relógio de pulso.
Eu vou chegar tarde.
-Aproveite, tia.
-Mas, se mudar de ideia, sinta-se à vontade para passear.
A noite está bonita e estrelada.
Há uma brisa gostosa, fresquinha.
-Saia com seus amigos.
Eu vou ficar muito bem na companhia do livro.
Ouviram uma buzina.
-São meus amigos.
Se quiser sair, há uma chave reservada dentro do vaso de samambaias, próximo do portãozinho.
Lurdes beijou-a no rosto, e saiu.
Alzira fez um lanche, tomou um pouco de refresco.
Pegou o livro e sentou-se na poltrona.
Seus olhos, aos poucos, começaram a embaçar e o sono foi chegando.
Ela cerrou os olhos, adormeceu e sonhou.
Alzira estava sentada na varanda de um casarão antigo estilo colonial, no fim do século dezanove, olhando os campos verdes à sua frente.
Olhou para si mesma e espantou-se:
-Estou com roupas antigas.
Do século passado!
Ela se emocionou ao ver o camafeu delicadamente preso ao vestido de veludo na cor vinho.
Voltou os olhos para a frente e viu um homem de semblante amarrado se aproximar.
Alzira sentiu um frio no estômago.
-O que faz aqui? - indagou ela, irritada.
-Quero ver minha filha.
-Carolina não é sua filha - Alzira vociferou.
-E essa casa é minha!
-Também não é.
-Se eu soubesse que o marido da sua irmã era o comprador desta casa, jamais a teria vendido.
Vocês me usaram.
Quero minha casa e minha filha de volta.
-Está mais interessado na casa do que na filha, não é mesmo Malaquias?
-E daí?
Se essa menina - apontou para dentro do imóvel - me ajudar a reconquistar meu património, qual o problema?
O que você tem a ver com isso?
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 8:38 pm

-Tenho tudo a ver! - bradou ela.
Você não encosta um dedo na menina!
-Ora, ora.
Agora virou mulher valente? - indagou o homem.
Nunca teve coragem para fazer nada na vida.
Casou--se e o marido a deixou porque é seca e nunca vai poder gerar um filho.
Que homem se prestaria a gostar de você?
-Não admito que venha até minha casa falar-me nesse tom - ela protestou.
-Está bem. Não quero brigas.
Quero ver minha filha.
-Ela não é sua filha, Malaquias.
A minha irmã casou-se com outro. A filha é dele.
Os olhos do homem estavam injectados de ódio.
-Antes de casar com aquele idiota, a ordinária da sua irmã deitou-se comigo.
Ela casou-se com aquele janota por dinheiro.
E o idiota me passou a perna, comprando essa casa por uma ninharia.
-Vendeu porque quis!
-Se soubesse que ele era o comprador, jamais teria feito o negócio.
-Está falando assim porque perdeu a mulher e a propriedade.
Malaquias virou-lhe um tabefe na cara. Plaft!
-Seu animal! - ela gritou e levantou-se da cadeira.
Nunca mais ponha seus dedos sujos em cima de mim.
-A minha vontade agora não é só de botar as mãos em você - falou num tom profano e altamente perturbador.
Alzira corou e previu o que viria a acontecer.
Estremeceu.
Procurou dar firmeza à voz:
-Não se atreva!
-Saia do meu caminho.
Quero ver minha filha.
Alzira não pensou.
Partiu para cima do homem e começou a desferir-lhe tapas pelo corpo.
-Maldito. Eu o odeio!
Ele virou-se para ela e lhe deu novo tabefe.
Em seguida arrancou seu vestido e deitou-se sobre ela.
Alzira imediatamente viu-se num outro lugar.
Agora estava sentada num banco.
Havia um belo jardim à sua volta.
Ela viu uma mulher se aproximar e sorriu:
-Lolla!
-Como vai, minha querida?
-Que bom você ter aparecido.
Malaquias veio me bater e...
-Chi! Fique sossegada.
Isso faz parte do passado.
Lolla sentou-se ao lado de Alzira e pousou delicadamente as suas mãos sobre as da moça.
-Suas mãos estão frias!
-Foi o medo.
Malaquias abusou de mim.
-Já passou.
Isso foi há muitos, muitos anos.
-Éramos irmãs.
Eu, você, Ana Maria e Judite.
Por que só você não voltou?
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 8:38 pm

-Porque resolvi ficar.
Você e suas irmãs voltaram.
Lembra-se do planeamento?
-Sim. Judite seria minha irmã e Ana Maria seria nossa mãe.
-Isso mesmo. Josefa e Aríete estão ao seu lado.
-Josefa morreu.
-Desencarnou.
Cumpriu uma etapa de sua jornada evolutiva.
Em breve vocês poderão se reencontrar.
Alzira sorriu. Em seguida, fechou o cenho.
-Ainda sinto raiva só de pensar naquilo tudo.
Ele foi bruto, eu era uma mulher indefesa - Alzira falava e as lágrimas escorriam pelo rosto.
-Não se atormente mais.
Está na hora de se libertar dessa existência passada.
O seu espírito é o mesmo, contudo você vive hoje outra realidade.
-Ele foi o culpado de eu ter medo de amar.
-Não. Você atraiu aquela situação a fim de poder se tornar mais forte.
Era uma mulher que se desesperava por qualquer coisa, não tinha firmeza em suas decisões.
-Cresci rodeada de mimos.
Depois que meus pais morreram, fiquei sem rumo.
Minhas irmãs e minha sobrinha foram responsáveis por eu continuar viva.
-Você precisa perdoar o Malaquias e libertar-se dessa mancha em sua alma.
-Difícil. Por mais que eu tente, não consigo pensar em perdão.
-Quando perceber que você é responsável por tudo o que lhe acontece e que Malaquias nada mais foi do que um instrumento da vida para fortalecer o seu espírito a fim de se tornar forte e dona de si, talvez pense no perdão.
Na verdade, o perdão serve para aliviar a nossa alma e cicatrizar os buracos criados em nossa aura.
O verdadeiro sentimento de perdão nos torna seres mais fortes e lúcidos.
-Vou tentar.
-Você tem óptimo coração, Alzira.
Tem tudo para ser feliz.
-Eu, feliz? Não acredito.
-Pare de se punir.
Liberte-se do passado e dê uma chance para a felicidade aparecer em seu caminho.
Alzira abraçou-se a Lolla.
-Por que você não está connosco?
Sinto tanto a sua falta.
-Já disse.
Não planeei reencarnar com você, Josefa e Aríete.
Meu espírito tem outras aspirações.
O que são mais cinquenta, setenta anos separadas?
É nada diante da eternidade.
A vida de vocês vai passar num piscar de olhos e logo estaremos todos novamente reunidos, avaliando os passos dados nesta encarnação abençoada.
-Encarnação abençoada? - perguntou Alzira, estupefacta.
Malaquias reencarnou como meu pai e expulsou eu e minha irmã de casa.
Quer prova mais dura que essa?
-Malaquias agiu por conta da encarnação passada.
Olair ainda sente-se preso ao passado.
No entanto, você e Aríete tiveram a chance de uma vida melhor.
Vivem ao lado de Lurdes e, cá entre nós, vivem muito melhor do que naquela casinha.
-Pensando assim...
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 8:38 pm

-Alzira, a vida lhe deu a oportunidade de renascer ao lado de um desafecto e desfazer os nós da amargura e da animosidade.
Josefa, você e Aríete superaram uma fase difícil, mas importante nesta encarnação e, a partir de agora, têm tudo para viverem felizes.
Josefa está se recuperando bem e em breve vai viver comigo.
A encarnação foi-lhe muito útil.
Agora ela conseguiu perceber o quanto se colocava para baixo.
Jurou para mim que vai ser forte e que nunca mais vai se curvar para as ideias do mundo.
-Fiquei meio traumatizada com tudo.
Perdi minha mãe, minha casa e tenho a impressão de que vou morrer solteira.
-Não está sendo dramática?
-De forma alguma! - Lolla riu.
-Pois me parece muito dramática.
Malaquias reencarnou seu pai e vocês nem mais juntos estão.
O livre-arbítrio separou-o de você e de sua irmã.
-Pensando melhor, com calma e com equilíbrio, minha vida melhorou muito depois que ele nos entregou aos cuidados de tia Lurdes.
-Viu? Tudo melhorou.
Perdoe seu pai.
Liberte-se dele sinceramente.
Faça uma prece de libertação para Olair e o desprenda de sua vida.
Ou prefere ficar no rancor e retornarem juntos em outra vida, passando pelas mesmas experiências de novo?
Alzira bateu três vezes na madeira do banco.
-Deus me livre e guarde!
-Então pense com carinho em tudo o que eu lhe disse.
E, em relação ao seu pai, afirme com sentimento:
"Estou sendo guiada para o meu verdadeiro lugar.
Deixo ir todas as coisas e pessoas que não fazem mais parte do plano de Deus na minha vida, libertando-as para que possam ser felizes em suas vidas e em seus propósitos.
Em nome de Deus".
Alzira repetiu e sentiu enorme bem-estar.
-Pratique essa frase quantas vezes quiser.
Ela funciona como ferramenta potente para afastar pessoas e situações com as quais não precisamos e não queremos conviver mais.
-Usarei isso em relação ao meu pai.
-Faça isso e verá que logo a sua vida vai melhorar ainda mais.
Afinal, quando abrimos espaço para nos libertar sinceramente de pessoas e coisas que não fazem mais parte de nossa vida, estamos abrindo novo espaço para pessoas e coisas interessantes no nosso caminho.
Experimente.
-Vou acordar e vou esquecer tudo.
-Talvez esqueça de nossa conversa, mas vou ajudá-las se lembrar da frase poderosa.
Alzira a abraçou com ternura.
-Você é um anjo em minha vida, Lolla.
Muito obrigada.
Lolla retribuiu o afecto e sorriu.
-Preciso ir embora.
-Ah, mas já?
Gosto tanto de sua companhia.
-Você vai voltar para seu corpo, acordar e sair.
-Não quero sair.
Não gosto de nada.
Tudo muito moderno.
Gostaria de viver como na última vida.
-Tudo muda com o tempo, minha querida.
A vida tornou-se mais dinâmica, ajudando as pessoas no planeta a se reequilibrarem com maior rapidez.
-Eu gosto da quietude, dos móveis antigos...
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 8:38 pm

-Poderá viver neste mundo mantendo a essência do passado.
Você pode, por exemplo - disse Lolla numa voz amistosa -, viver no campo e decorar sua casa com móveis de época.
-Uma ideia agradável.
-E, se eu fosse você, arriscaria dar uma voltinha.
Só uma voltinha.
-Por que está me dizendo isso? - indagou Alzira, desconfiada.
-Saia e verá!
Estou na minha hora.
Preciso partir.
Lolla abraçou-se a Alzira, beijou-lhe carinhosamente a face e se foi.
Em poucos instantes, Alzira remexeu-se na poltrona e abriu os olhos.
O gato estava sentado sobre seu colo.
Ela sorriu:
-Sorriso!
Você ficou esse tempo todo comigo?
O gato miou, como se estivesse entendendo e respondendo a pergunta.
Depois saltou e enrolou-se nos pés de Alzira.
Miou mais uma vez e saiu em disparada, pulando a janela da sala.
-Foi passear! - exclamou ela.
Alzira lembrou-se do sonho e sorriu.
Tinha consciência de que havia sonhado com uma linda mulher, mas não a conhecia direito. Lembrou-se de seu pai e as palavras saíram facilmente, como texto decorado, em alto e bom som:
-Estou sendo guiada para o meu verdadeiro lugar.
Deixo ir todas as coisas e pessoas que não fazem mais parte do plano de Deus na minha vida, libertando-as para que possam ser felizes em suas vidas e em seus propósitos.
Em nome de Deus.
Em seguida, disse:
-Eu o deixo ir, pai - Alzira fechou os olhos e pensou em Olair.
Procurou vê-lo sorrindo e continuou:
- Você não faz mais parte do plano divino na minha vida e, por isso, eu o liberto para que possa ser feliz em sua vida.
Em nome de Deus. Agora e sempre!
Alzira abriu os olhos e sentiu leve sensação de bem-estar.
Sentiu sede e levantou-se.
Apanhou o livro e o colocou sobre a mesinha da sala.
Foi até a cozinha e bebeu um copo de água.
-Talvez eu precise sair um pouco.
Esse sonho mexeu comigo.
Caminhou até o quintal e olhou para o alto.
O céu estava cheio de estrelas e uma gostosa brisa tocava-lhe a face.
Alzira decidiu:
-Vou dar uma volta.
Ela se arrumou, amarrou os cabelos num coque, passou um pouco de perfume e apanhou a bolsa.
-Aríete e Osvaldo foram ver o filme no cine Astor.
Eu sei chegar lá - disse para si.
Trancou a porta, atravessou a rua e pegou um ónibus que chegava até o alto da rua da Consolação.
Uma hora depois, ela desceu na esquina da rua com a avenida Paulista.
Caminhou até o Conjunto Nacional.
Ficou espantada com tanta gente.
Foi até uma livraria e ficou folheando um livro de receitas.
Alzira consultou o relógio e faltavam vinte minutos para o término da sessão.
-Tomara que eu os encontre - disse baixinho, enquanto os olhos apreciavam as fotos das receitas.
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Ave sem Ninho

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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 8:38 pm

-Gostou do livro? - perguntou um rapaz, de maneira muito educada.
Alzira levantou a cabeça e o encarou nos olhos.
-Muito bonito.
Mas as minhas receitas são bem melhores.
Ele riu.
-Por que não escreve um livro de receitas?
A jovem suspirou.
Fechou o livro e colocou-o de volta na estante.
-Quem me dera.
-Por quê? Não acredita no seu potencial?
-Claro que acredito.
Sou muito boa de cozinha.
-Então escrever um livro de receitas é um passo natural para quem sabe cozinhar.
-Não. Há uma grande distância entre fazer doces e vendê-los aos vizinhos e publicar um livro de receitas de sucesso como esse - apontou para o exemplar ali exposto.
-Se o desejo de escrever for da sua alma, nada vai impedi-la.
Tudo o que a alma quer a gente consegue.
-Quis muitas coisas na vida e não as tive.
-Porque não era para sua alma.
Devia ser desejo da mente.
-Não sei separar o que é da alma e o que é da mente.
É tudo a mesma coisa.
Um simpático vendedor aproximou-se e avisou que a loja fecharia em dez minutos.
O rapaz falou algo no ouvido do vendedor e Alzira foi saindo de fininho.
Ela saiu da loja e foi até o saguão do cinema.
Dali a pouco o filme iria acabar.
-Espero encontrar Aríete e Osvaldo - disse para si, enquanto consultava novamente o relógio.
O rapaz aproximou-se e Alzira levou um susto.
-Oi.
-Oi - respondeu ela, num jeito tímido.
-Deixou-me sozinho na loja.
-Estavam fechando.
Você foi falar com o vendedor e resolvi vir até o saguão do cinema.
O rapaz tirou um embrulho de uma sacola e entregou para Alzira.
-O que é isso? - perguntou ela, receosa.
-Um presente. Abra.
Alzira delicadamente rasgou o embrulho.
Era o livro de receitas que ela folheara na loja, minutos antes.
-Meu Deus!
Você comprou o livro?
-Hum, hum.
-É caro.
Por que foi fazer uma loucura dessas?
O rapaz riu gostoso.
-É uma loucura que vale a pena.
Alzira botou reparo no rapaz.
Era um moço bonito, altura mediana, de óculos de grau que escondiam grandes olhos pretos.
Os cabelos eram escuros e penteados à moda.
Vestia uma blusa cacharel na cor laranja e calça jeans.
O perfume que ele exalava era delicado e ela corou.
-Precisamos nos apresentar porque eu gostaria de escrever uma dedicatória no livro. Pode ser?
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Ave sem Ninho

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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 8:39 pm

-Pode - falou meio sem jeito.
Eu me chamo Alzira e você?
-Eugénio.
Alzira estremeceu.
Sentiu uma leve tontura e Eugénio a segurou nos braços.
-O que foi?
-Nada.
-Como nada?
Eu falo meu nome e você quase tem um piripaque?
Ela procurou ocultar a emoção e respondeu:
-Prazer. Meu nome é Alzira.
Eugénio fingiu estremecer.
-O que foi?
-Você já disse o seu nome.
Estou brincando com você.
Quero saber por que ficou tão mexida quando me apresentei.
-Não foi nada.
-Algum ex-namorado com o mesmo nome?
Ela dobrou a mão no ar.
-Imagine! É bobagem.
Uma grande bobagem.
-Adoro bobagens - tornou Eugénio.
-Você vai rir de mim.
-Nunca faria isso - ele falou de maneira séria.
-É que, bem, eu sou apaixonada por um livro do Érico Veríssimo.
E tem um personagem num de seus livros que mexe muito comigo.
-Ah! Você só pode estar falando de Olhai os lírios do campo.
-Você conhece? - indagou, aturdida.
-E como! - suspirou Eugénio.
Mamãe teve contacto com esse livro ainda menina e pediu ao papai que, se tivessem um filho homem, que o guri deveria se chamar Eugénio, por causado personagem. Acredita?
Alzira queria gritar e dizer que sim, que acreditava em sonhos, em bruxas, em qualquer coisa.
Estava por demais emocionada.
O rapaz à sua frente chamava-se Eugénio por conta do livro que ela tanto amava.
O que dizer?
Que havia encontrado o homem de sua vida em menos de quinze minutos?
Ele iria tachá-la de louca e sairia correndo assustado, isso sim.
Mordiscou os lábios e respondeu:
-Acredito.
E adoraria conhecer sua mãe!
"Deus do Céu!
O que foi que eu disse?
Melhor ficar de boca calada" - disse em pensamento.
Eugénio ia responder, mas as portas do cinema foram abertas.
Alzira levantou a cabeça.
-Está esperando alguém?
-A minha irmã e o namorado vieram assistir a um filme aqui.
Quer dizer, foi o que me disseram.
Alguns minutos depois e ela avistou Aríete e Osvaldo, mãos dadas e sorridentes.
Ao ver a irmã ali parada, Aríete levou um susto.
-O que faz aqui?
Aconteceu alguma coisa com a tia Lurdes?
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 8:39 pm

-Não. Eu resolvi sair e vim encontrá-los. Arrisquei.
Mas não quero, de forma alguma, segurar vela.
-Você não vai segurar nada - disse Osvaldo, enquanto a cumprimentava.
Em seguida, notou o rapaz atrás de Alzira.
-Eugénio! O que faz por aqui, homem de Deus?
Os dois se abraçaram e Aríete puxou Alzira de lado.
-Você nunca sai de casa.
De repente, eu a encontro aqui na porta do cinema, num sábado à noite, ao lado de um rapaz bonito.
Estou tendo alucinações?
Será que o filme do tubarão mexeu com a minha cabeça? - Aríete beliscou-se.
-Não - respondeu Alzira, rindo.
É que tive de novo aquele sonho.
-Na fazenda?
-É. A mesma cena.
Só que dessa vez foi pior.
Senti uma coisa muito ruim.
Acordei sobressaltada.
A tia Lurdes saiu com um casal de amigos para um jogo de cartas.
Não quis ficar sozinha em casa.
Tive vontade de sair e arrisquei vir até aqui.
-E o rapaz?
-Conhecemo-nos na livraria.
-Quando?
-Faz menos de meia hora! Acredita que ele se chama Eugénio?
-Sim, e daí? - indagou Aríete.
-Ele tem o nome do grande amor de Olívia. Entende?
Aríete mexeu a cabeça para cima e para baixo.
Osvaldo aproximou-se das moças.
-Querida, esse é Eugénio Salles, um amigo de escola.
Ele estava fazendo um curso de especialização nos Estados Unidos.
Eugénio meneou a cabeça para os lados.
Aríete levantou o rosto e trocaram beijinhos.
-Prazer. Eu sou Aríete, namorada do Osvaldo e irmã da Alzira.
Eugénio abriu largo sorriso.
-O prazer é todo meu.
Nas cartas que eu trocava com o Osvaldo, sempre ele fazia referências a você.
Mas nunca me disse que a namorada tinha uma irmã tão bonita.
Eugénio falou e olhou para Alzira.
Ela enrubesceu e Osvaldo emendou:
-Nunca comentei nada porque sou muito reservado.
E, de mais a mais, você estava namorando a Celinha.
-O namoro acabou.
Celinha conheceu um político americano e casaram-se.
Está grávida do primeiro filho.
-Você namora? - perguntou Aríete.
-Acabei de chegar dos Estados Unidos.
Estou pensando em montar meu escritório de advocacia e me estabilizar por aqui.
Amo meu país.
Osvaldo percebeu o interesse de Eugénio por Alzira.
Cortou a conversa e sugeriu:
-Estou morrendo de fome.
Vamos comer um sanduíche ali na rua Augusta?
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 8:39 pm

-Também estou com fome - respondeu Aríete.
-Eu estava andando sem rumo - tornou Eugénio.
Mal acabei de chegar e ainda não tive tempo de rever os poucos amigos que aqui deixei.
Alzira nada disse.
Estava muito emocionada.
Sentia uma "coisa" muito estranha.
O seu rosto estava quente, o coração parecia querer saltar da boca e um friozinho teimava em percorrer seu estômago.
"Será que tudo isso é amor?" - perguntou-se enquanto caminhavam até a lanchonete.
Alzira olhou para o céu e contemplou as estrelas.
Sentiu uma felicidade indescritível.
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 8:39 pm

Capítulo dezasseis

Faltavam poucos dias para Valéria embarcar para a Itália.
As passagens aéreas já haviam sido compradas.
Ela já havia feito as malas e partiria com seu tio Adamo.
-Vou sentir muito a sua falta - disse Natália, enquanto abraçava a amiga.
-Não sei por que não vem com a gente.
-Eu?! Está louca, Valéria?
Batalhei tanto para entrar na universidade e vou largar tudo?
-Sem dramas, Natália.
Você pode trancar a matrícula.
Venha estudar na mesma escola que eu.
Se não gostar, você volta e recomeça o curso aqui.
Vai perder um ano.
O que é um ano diante de tudo o que tem para viver?
-Você é optimista.
É uma louca desvairada.
Esqueceu que temos uma vida simples?
Não tenho como comprar passagens ou mesmo pagar por esse curso.
-Já disse que isso não é problema.
Você é minha irmã do coração - emendou Valéria.
Meu pai declarou que pagaria com prazer as passagens e o curso para você.
-Não posso aceitar. Não é certo.
-Por que não é certo? - era a voz de Adamo, na porta do quarto.
-Oi, tio. Escutando a conversa dos outros? - perguntou Valéria, num tom de brincadeira.
-Estava passando pelo corredor e não pude deixar de escutar - Adamo aproximou-se de Natália.
Ela sentiu o corpo esquentar.
Ele perguntou-lhe a queima-roupa:
- Por que é tão arrogante?
-Arrogante? Eu?!
-Sim. Você se faz de humilde, de coitadinha porque não sabe receber.
A vida está lhe abrindo os braços, dando-lhe uma grande oportunidade de crescer em vários
sentidos e você vem com esse discurso barato de "não posso aceitar"?
-Falando assim, você me ofende! - Natália fitou-o de maneira desafiadora.
Como ousa?
-Além de tudo, não suporta escutar a verdade dos outros.
Temos de tomar cuidado para falar com você, caso contrário, fica toda melindrada, ferida em seu amor-próprio.
Valéria intercedeu:
-Tio, não acha que está sendo muito duro?
-Duro? indagou Adamo, surpreso.
Estou sendo sincero, falando para Natália o que ela sempre precisou ouvir.
Falo isso pelo seu próprio bem.
Muitas vezes deixamos boas coisas escaparem de nossas mãos por conta de condicionamentos errados, crenças infundadas que fomos absorvendo ao longo de muitas existências.
Natália é uma mulher forte, de carácter íntegro.
Percebe-se a sua bondade nos olhos.
Entretanto, porque deixar de receber algo tão bom que possa transformar positivamente sua vida?
Por que abrir mão de um presente de Deus?
-Eu não estou acostumada com isso - disse Natália num fio de voz.
-Pois então que se acostume.
-Tenho medo das coisas que vêm muito facilmente nas mãos.
-Por quê?
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Re: O próximo passo - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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