Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 11:13 am

Capítulo 22

Durante o resto do velório, Augusto permaneceu ao lado da mãe, dando-lhe apoio e carinho.
Quando o corpo baixou à sepultura, o padre segurou a mão de Laura e chorou com ela, intimamente rezando para que o espírito do pai fosse encaminhado a um lugar agradável.
No final, agradeceu as palavras do padre encarregado do cemitério, que caprichara no sermão ao saber que o filho do falecido também era um sacerdote.
Despediu-se de familiares e amigos.
E, sempre ao lado da mãe, foi para casa.
Tudo estava como antes, provocando em Augusto uma leve nostalgia ao tocar os móveis e objectos tão conhecidos de sua infância.
Apenas a cor das paredes havia sido mudada.
Estava agora pintada de rosa claro, cor preferida da mãe.
Ela preparou um jantar caprichado para o filho, sem carne, e comeram juntos.
— Estava delicioso, mãe — elogiou Augusto.
— Obrigado.
— Seu pai não aprovaria essa comida sem graça, como ele dizia.
Mas sei que é do que você gosta.
Augusto apertou a mão dela e repetiu com olhos húmidos:
— Obrigado.
Fez-se um silêncio embaraçoso, até que ela prosseguiu:
— Seu pai gostaria muito de ter visto você uma última vez.
— Não tivemos tempo de nos despedir, mas fiz por ele uma oração sincera.
— Sei que fez.
Seu pai teria ficado orgulhoso dela, como ficou quando você se ordenou.
— Por favor, mãe, podemos não falar disso?
— Por que não?
Ouvindo a mãe afirmar o que ele considerava uma mentira, Augusto sentiu uma revolta insinuar-se em seu coração.
O velho ressentimento retornou, e ele, por mais que se esforçasse, não conseguiu conter o desabafo:
— Meu pai não ficou orgulhoso porque me ordenei padre.
Ficou aliviado porque não me tornei homossexual.
— Isso não é verdade! — objectou Laura, com veemência.
A carreira religiosa é muito bonita.
Não é qualquer um que tem o dom do sacerdócio.
Arrependido por ter dado vazão à revolta havia tanto contida, Augusto retrocedeu:
— Está bem, mãe. Tem razão.
— Não devia falar assim do seu pai — censurou Laura.
Ele fez o que era melhor para você.
— Não o estou culpando.
Já o perdoei por isso...
— Perdoou-o por querer o melhor para você?
— Por favor, mãe, chega.
Papai acabou de morrer.
Não vejo por que tocarmos nesse assunto agora.
Laura encarou-o com um misto de reprovação e culpa.
No fundo, sabia que o que ele dizia era verdade.
Jaime morria de medo e de vergonha de ter um filho homossexual.
E ela concordara com ele, aceitara o seminário como a salvação de seu menino.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 11:13 am

— O que pretende fazer agora? — prosseguiu Augusto, desviando-a de seus pensamentos.
— Continuar vivendo como sempre vivi.
— Vai ficar aqui sozinha?
Não acha que é melhor ir para o Rio comigo?
— Não, obrigada.
Não deixaria minha casa por nada.
E depois, não estarei sozinha.
Tenho parentes aqui.
— Vou ficar preocupado com a senhora.
E se precisar de alguma coisa?
— Não precisa se preocupar.
Meus irmãos estão todos vivos, seus primos vêm sempre me visitar.
E tenho telefone em casa.
Se tiver qualquer coisa, posso ligar para eles.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Não se preocupe. Ficarei bem.
— Como a senhora quiser.
Mas saiba que, a qualquer momento que decidir, basta um telefonema, e virei buscá-la.
— Sei disso — finalizou Laura, batendo de leve na mão de Augusto.
Você é um excelente filho. Sempre foi.
Havia um significado oculto naquelas palavras, quase como um pedido de desculpas.
Augusto, contudo, não estava disposto, naquele momento já tão conturbado, a retomar uma conversa sobre o passado.
— E o inventário? — indagou, displicente.
Vai ter que cuidar disso, sabe?
— Eu sei — disse Laura após um suspiro profundo.
Mas seu tio, que é advogado, ficou de providenciar tudo.
— Não vai precisar de mim?
— Não. Não entendo bem dessas coisas, mas você é herdeiro e deve ter que vir receber a sua parte.
— Não quero nada.
— Só o que seu pai possuía era essa casa, o carro e algum dinheiro na caderneta de poupança.
— É tudo seu, mãe, não quero nada.
Laura suspirou novamente, agradecida, e prosseguiu:
— Quanto tempo pretende ficar?
— Tenho a semana toda.
Augusto passou a noite em companhia de Laura, reflectindo sobre breve conversa que haviam tido sobre o passado.
A mãe não queria ouvir a verdade, e ele, por sua vez, tinha medo de revelá-la.
Não sabia se valia a pena remexer naquelas feridas, pois a dor que poderiam causar talvez fosse insuportável.
O que seria, para uma mãe, saber que contribuíra para a infelicidade do filho?
Augusto falara tanto de felicidade com Rafaela e não sabia o que dizer de si mesmo.
Não podia dizer que era infeliz.
Gostava do sacerdócio e de ajudar as pessoas.
Havia, contudo, um vazio que ele nunca antes pudera definir nem preencher.
Agora, porém, Augusto sabia.
Era o amor de uma mulher, o desejo de constituir família, sonhos que ele sepultara no seminário.
Como a mãe se sentiria ao saber disso?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 11:13 am

No dia seguinte, Augusto tomou o café da manhã com Laura, ajudou-a a arrumar a casa, e passaram o resto da tarde folheando antigos álbuns de fotografias.
Nenhum dos dois tocou no assunto novamente, como se tudo o que tivesse para se falar já houvesse sido dito.
Havia coisas que Augusto gostaria de ter esclarecido e revelado ao pai, mas agora era tarde demais.
Aquele questionamento insistia em incomodá-lo.
Só não era mais forte do que a saudade que sentia de Rafaela.
Augusto não queria que a mãe sequer desconfiasse de que ele fora ali com uma moça.
Laura não entenderia e faria mau juízo dele.
Ao cair da noite, enquanto a mãe tomava banho, finalmente conseguiu telefonar ao hotel.
A ligação foi transferida para o quarto de Rafaela, que atendeu com voz ansiosa:
— Alô?
— Como está, Rafaela?
- E Está tudo bem. E com o senhor?
- B Bem, na medida do possível.
- E sua mãe?
- Está superando.
- Que bom... O senhor ainda vai demorar muito?
- Mais alguns dias. Só o tempo necessário para que minha mãe se sinta fortalecida.
- Entendo — Rafaela tornou decepcionada.
- Tenha paciência.
Em breve irei vê-la.
— Por favor, padre, não pense que estou lhe cobrando nada.
Sou-lhe grata por tudo o que tem feito por mim.
— Não precisa agradecer. Apenas tome cuidado.
Sei que é ruim ficar sozinha, mas ao menos você pode passear ao ar livre sem medo.
— Não estou me sentindo só, na verdade.
Conheci um rapaz aqui do hotel que conversou comigo hoje a tarde toda.
— Rapaz do hotel? — Augusto enciumou-se.
Que rapaz é esse?
— O pai dele trabalha no hotel, e ele cuida dos estábulos.
É um garoto bem jovem, mais novo do que eu, mas tem uma conversa agradável.
— Tenha cuidado, Rafaela.
Não vá confiando assim nos outros.
— Ele não representa nenhum perigo — a jovem gracejou.
— É só um adolescente.
— Mesmo assim, cuidado.
Não diga nada que possa comprometê-la.
— Não se preocupe.
Só conversamos hoje, e ele ficou de vir me buscar amanhã para darmos uma volta a cavalo.
Nada de mais.
O silêncio de Augusto não passou despercebido, revelando ciúmes não ditos.
O padre mudou o fone de um ouvido a outro e enxugou a testa, sem saber o que o preocupava mais:
se o risco a que Rafaela se submetia ou o facto de ela ter feito amizade com um jovem sem compromissos.
Augusto ouviu o barulho da porta do banheiro se abrindo, e Laura saiu enrolada em um robe, direccionando-se a seu quarto.
— Tenho que desligar — anunciou Augusto.
Amanhã torno a telefonar. Cuide-se.
— Pode deixar.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 11:13 am

Desligaram. Um calafrio percorreu a espinha de Augusto, um medo indizível de que algo de ruim acontecesse a Rafaela, ou de que ela e o rapaz acabassem se envolvendo afectiva ou sexualmente.
O ciúme apanhou-o em cheio.
Augusto queria desesperadamente ir ao hotel e certificar-se de que Rafaela estava no quarto. Sozinha.
Não foi possível sair.
Desconhecendo o torvelinho de emoções que tomava conta de Augusto, Laura chamou-o para o jantar.
Serviu-lhe uma lasanha de queijo e beringela, receita que copiara de uma revista de culinária.
Estava uma delícia, mas Augusto mal conseguiu comer.
O estômago estava revirando ante a ideia de que Rafaela podia estar, naquele momento, na cama com outro homem.
A ideia tornou-se fixação.
Quando Augusto se deitou para dormir, Rafaela era a única a ocupar seus pensamentos, disseminando o ciúme até nas palavras com que ele tentava formar suas orações.
Naquela noite, pela primeira vez em anos, não conseguiu rezar.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 11:14 am

Capítulo 23

A reacção de Augusto marcou o coração de Rafaela, que agora não tinha mais dúvidas sobre os sentimentos do padre.
Podia dizer que ele silenciara ao telefone por medo ou indignação, contudo, ela era mulher e sabia reconhecer em um homem os sinais do ciúme.
A certeza a agitou, fazendo vir à tona um desejo quase incontrolável de estar junto dele.
O único freio que impunha a si mesma ainda era a lembrança de Carlos Augusto.
Seu novo amigo não despertava preocupações.
Era um menino de dezassete anos, que conhecera quando dava uma volta nos arredores do hotel.
Montado em um lindo cavalo negro, parou quando a viu e puxou conversa.
Rafaela não podia perder a oportunidade de travar uma nova amizade e aceitou falar com ele.
Passaram a tarde juntos, conhecendo-se de forma inocente, até que o jovem a convidou para uma cavalgada no dia seguinte.
Sem enxergar maldade no convite, Rafaela aceitou.
Tomou o café bem cedo e partiu ao encontro do rapaz nos estábulos.
Embora não fizesse frio, uma névoa fininha infiltrava-se entre as árvores.
Ele estava terminando de preparar as montarias quando Rafaela se aproximou e o cumprimentou alegremente:
— Bom dia, Gérson. Cheguei cedo?
— É claro que não! — objectou o rapaz, abrindo um largo sorriso.
Já terminei aqui.
Então? Vamos?
Meio sem jeito, Rafaela aproximou-se do animal, que relinchou à sua presença.
— Ele morde? — a jovem indagou assustada.
— É claro que não, boba.
Vamos, pode subir.
— Tem certeza?
Olhe que não estou acostumada.
Sem conseguir se conter, Gérson desatou a rir.
— Do que está rindo? — queixou-se ela.
— Do seu sotaque chiado.
É muito engraçado.
— Engraçado é você, que fala feito um caipira — retrucou a jovem, de bom humor.
— Mas eu sou um caipira — afirmou Gérson, acentuando ainda mais seu sotaque mineiro.
Passei minha vida na roça.
Por isso é que sei das coisas.
Venha aqui, deixe-me ajudá-la.
Gérson ajudou-a a montar e, de um salto, montou em seu animal.
— Uau! — fez Rafaela admirada.
Pelo visto, você é fera nisso.
Gérson riu gostosamente e retrucou animado:
— Faço isso desde sempre.
— Ainda bem, porque eu estou apavorada.
— Tudo bem, não tenha medo — o rapaz tornou em um gracejo.
Vou puxar seu arreio.
— Não precisa. Quero aprender.
Partiram juntos, devagarinho, cavalgando lado a lado.
No começo, Rafaela mostrou-se insegura, mas aos poucos conseguiu dominar o animal.
Logo estavam passeando pela estradinha de terra.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 12:01 pm

Como a manhã estava um pouco gelada, Gérson procurava cavalgar ao sol, mostrando a Rafaela a beleza da região.
À beira de um riacho, desmontaram.
Rafaela estava encantada com aquela natureza praticamente intocada.
O rio serpenteava pela relva, borbulhando uma água gelada e cristalina.
A moça abaixou-se para experimentá-la, sentindo os dedos se enregelarem.
— Está muito fria! — observou, esfregando as mãos.
Gérson não perdeu tempo.
Apanhou as mãos da jovem e levou-as aos lábios, olhando-a com o fogo do desejo.
Fez menção de beijá-la, mas Rafaela, esquivando-se, rebateu confusa:
— Por favor, não.
Rafaela desenvencilhou-se do rapaz e voltou para onde estava seu cavalo.
Não podia dizer que não se sentia atraída por Gérson.
Embora dois anos mais novo, ele era bonito, musculoso e agradável.
Mas não era Augusto.
Dessa vez, Rafaela conseguiu montar sozinha e ficou à espera de que o rapaz se juntasse a ela.
Gérson montou em seu cavalo sem fazer qualquer comentário sobre o ocorrido.
O que tinha em mente não envolvia violência nem coacção, mas levaria ao fim tão desejado.
Continuavam a cavalgada como dois apreciadores das coisas belas da natureza.
Gérson só falava sobre as árvores, as flores, os pássaros.
Contava coisas da fazenda e da roça, levando-a a rir e soltar-se.
Aos poucos, a tensão do quase beijo foi-se dissipando.
Ela pensou que Gérson talvez a estivesse experimentando, mas agora, convencido, não tentaria mais nada.
Cerca de uma hora depois, pararam em um campo muito verde e desmontaram novamente.
Entre duas quaresmeiras roxas, cujos galhos quase tocavam o chão, havia uma mesa rústica de madeira, ladeada por bancos compridos, praticamente encobertos pela folhagem.
— Venha comigo — chamou o rapaz, puxando-a pela mão.
Rafaela acompanhou-o em dúvida.
No centro da mesa, duas taças foram colocadas ao lado de uma caixa de isopor, de onde Gérson retirou uma garrafa de vinho.
Ele indicou a ela um dos bancos e sentou-se a seu lado.
Apanhou as taças e encheu-as cuidadosamente, oferecendo uma a Rafaela.
— Você não é muito novo para beber? — questionou a jovem, apanhando a bebida.
— Nem tanto — contestou Gérson, fixando-a directamente nos olhos.
Rafaela levou a taça aos lábios, sorvendo o vinho lentamente.
Nem percebeu que, a seu lado, Gérson apenas fingia beber.
— Esse vinho tem um gosto estranho — Rafaela comentou.
— É porque é feito aqui na região — mentiu ele.
Não gostou?
— É diferente, mas gostei.
Está geladinho.
Enquanto bebiam, Rafaela ia admirando a beleza do lugar.
O vento afastara a névoa, permitindo que o sol esquentasse a manhã.
Mesmo assim, um arrepio percorreu a pele de Rafaela, e Gérson aproveitou para passar a mão pelo ombro da jovem.
— Está com frio? — indagou, puxando-a mais para si.
— Não — objectou Rafaela, afastando-se delicadamente.
— Não é o que parece.
Você está tremendo.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 12:01 pm

— Mas não é de frio.
Engraçado... Acho que o vinho está me subindo à cabeça.
Estranho, bebi tão pouco...
— Tome mais um pouquinho — incentivou Gérson.
Para aquecer.
Rafaela achava que não devia, mas ele já havia derramado a bebida em sua taça antes que ela tivesse tempo de protestar.
Rapidamente, a bebida lhe subiu à cabeça, e uma tonteira gostosa foi tomando conta dela.
A seu lado, Gérson ria e tratava de manter sua taça sempre cheia, embora ele mesmo não bebesse praticamente nada.
Em um momento, Rafaela pousou a taça sobre a mesa e cobriu-a com a mão, impedindo que Gérson a enchesse novamente.
— Acho bom parar de beber — anunciou a jovem, um pouco zangada.
Estou ficando tonta.
Gérson não insistiu.
Serviu-se novamente e guardou a garrafa no isopor.
Como não havia bebido praticamente nada, sorveu a bebida de um só gole, deixando Rafaela impressionada.
Bem se notava que ele estava muito acostumado à bebida, porque não dava nenhum sinal de alteração, ao passo que ela via tudo rodar.
— Está se sentindo bem? — indagou Gérson, notando que Rafaela estava agora mais pálida do que o normal.
— Bebi demais.
Acho que vou vomitar.
— Respire fundo — aconselhou ele.
Que droga, devia ter trazido uma garrafa de café.
— Deixe para lá.
Podemos ir embora?
— É claro.
Gérson ajudou-a a pôr-se de pé, abraçando-a para que ela não caísse.
Seguiu apoiando-a, até quase alcançarem os cavalos.
Com o braço enlaçando a cintura da jovem, Gérson sentia o calor do corpo de Rafaela subindo pelo seu.
A mão pousada sobre seu quadril, apertando-a cada vez mais, a suavidade de seu seio lhe comprimindo o tórax, arrepiando-o até a nuca.
Em vez de ajudá-la a montar no cavalo, Gérson empurrou-a de encontro a uma árvore e beijou-a avidamente, as mãos agindo com presteza sobre o corpo da jovem.
Rafaela não opôs qualquer resistência.
Há muito se sentia carente.
As imagens de Augusto e de Carlos Augusto alternavam-se em sua mente, confundindo-a naquele torpor de prazer.
Gérson deitou-a gentilmente no chão, despindo-a com cuidado.
Aos poucos, dominou-a com mais facilidade do que esperava.
Rafaela, em momento algum, resistiu ou o rejeitou.
Ao contrário, demonstrava-se dócil, ansiosa, como se esperasse que ele fizesse justamente o que fazia.
Como um cordeirinho, ela se entregou ao rapaz, gemendo de prazer a cada vaivém do corpo de Gérson sobre o seu.
Dominada pela bebida e pela porção de vinho de jurema(10) que Gérson colocara na garrafa de vinho tinto, a mente se confundia, misturando a imagem do rapaz com a do ex-namorado e a do padre, ora fazendo-a sentir-se nos braços de um, ora nos de outro.
Assim entorpecida, Rafaela, embora percebesse o que fazia, não atinava bem com quem.
Para ela, o acto de amor se alternava entre o padre e o ex-namorado, tornando Gérson uma figura indistinta em sua realidade distorcida.
— Augusto... — sussurrava a jovem, apertando-se cada vez mais a Gérson.
Então Rafaela tinha um namorado e ele se chamava Augusto, deduziu Gérson.
Não fazia mal.
Não estava interessado nela para ser sua namorada.
O pai já o alertara sobre moças como Rafaela, que vinham da cidade grande cheias de ideias avançadas e sem nenhuma moral.
Serviam para o sexo, não para o casamento.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 12:01 pm

Quando tudo terminou, Gérson deitou-se ao lado da jovem e pousou a cabeça dela sobre seu ombro.
Em poucos segundos, aturdida pelo vinho de jurema, Rafaela fechou os olhos e adormeceu, deixando o rapaz com a sensação da vitória pendurada nos lábios, imaginando o que os amigos diriam quando soubessem que havia conseguido fazer sexo com uma garota do Rio de Janeiro.
Muito tempo depois Rafaela, por fim, abriu os olhos, sentindo o braço forte do rapaz sobre seu corpo.
Ele estava acordado e sorriu para ela.
— Você é mesmo uma dorminhoca — Gérson brincou.
Pensei que não fosse acordar mais.
— Que horas são? — tornou Rafaela, sentindo um gosto amargo na boca.
— Duas e meia.
— Tudo isso? Nossa, como está tarde!
Estou morrendo de fome.
— Vamos voltar ao hotel.
A essa hora, o almoço já acabou, mas vou-lhe arranjar alguma coisa para comer.
Também estou faminto.
A cabeça de Rafaela deu vários rodopios. O enjoo quase a fez vomitar.
— Bebi demais — anunciou.
Estranho, nunca bebi assim antes.
— Acontece. Você se lembra do que houve?
— Lembro — afirmou a jovem, abaixando a cabeça, com vergonha.
Vagamente.
Gérson deu-lhe um beijo na boca e acrescentou:
— Você foi fantástica.
— Obrigada.
Gérson a ajudou a montar, e fizeram o percurso de volta em silêncio.
Rafaela não sabia o que dizer.
Tinha plena consciência de que havia feito sexo com ele, embora não soubesse bem por quê.
Quando saíra do hotel, não tinha em mente nada semelhante.
Não compreendia por que se deixara envolver pela bebida e cedera ao desejo tão facilmente.
Dos detalhes, pouco se recordava.
Apenas de Gérson acariciando-a e se deitando sobre ela.
E do prazer. Lembrava-se de quanto prazer sentira com ele.
Pelo canto do olho, filou o garoto a seu lado, tão jovem e tão viril.
Riu intimamente, julgando-se dona da situação, uma mulher experiente levando um menino ingénuo a seus primeiros momentos de amor.
Nem de longe desconfiava de que fora usada por ele, um rapaz que, de ingénuo, não tinha nada.
Naquela noite, Augusto não telefonou, deixando em Rafaela um sentimento de frustração e perda.
Sentia-se sozinha, ansiava pela presença dele, ardia só de pensar que poderia fazer com ele o que fizera com Gérson.
Como Augusto não vinha, ela aceitou um novo convite de Gérson para passear, dessa vez, disposta a resistir.
Não queria magoar os sentimentos do rapaz, mas daria um jeito de explicar-lhe que aquilo não estava certo.
Assim, quando ele tentou beijá-la, sem o efeito do vinho de jurema, Rafaela mostrou-se um pouco mais arredia.
Já esperando aquela reacção, Gérson preparara uma garrafa especial, e foi dela que se utilizou para que tudo se repetisse como na véspera.
Longe da desconfiança, Rafaela bebeu tudo.
Embora se acreditasse apaixonada por Augusto, o apelo sexual era muito forte em sua vida.
Era-lhe difícil resistir quando todo o seu corpo ansiava por sexo.
E Gérson, apesar de novo, era ardente, másculo, carinhoso.
Tudo isso, associado ao vinho de jurema, levava Rafaela a deleitar-se nos braços do rapaz.
Já no terceiro dia, nada daquilo foi necessário.

10. Jurema (Mimosa hostilis) é uma erva originária do nordeste brasileiro, que produz um vinho de efeitos alucinogénios.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 12:01 pm

Capítulo 24

O telefone no quarto de Rafaela não parava de tocar, deixando padre Augusto cada vez mais aflito e inquieto.
Fazia três dias que não conseguia falar com ela.
Entre irritado e apreensivo, desligou o telefone.
Assim que a mãe terminou o banho, anunciou no tom mais despreocupado que conseguiu impor à voz:
— Vou dar uma saída.
Quero olhar um pouco a cidade.
— Vá, meu filho, nada mais justo.
Desde que chegou, você não saiu do meu lado.
Só não me ofereço para acompanhá-lo porque não me sinto com ânimo para passeios.
— Não tem problema, mãe.
Vou dar uma volta, ir à igreja e logo mais à noite volto para casa.
— Quer que o espere para jantar?
— Não precisa. Talvez coma alguma coisa por aí.
Augusto acelerou o carro o mais que pôde até o hotel em que Rafaela estava hospedada.
Sem passar pela recepção, seguiu directo ao chalé que ela ocupava.
Bateu na porta, experimentou a maçaneta e nada.
Pelo visto, Rafaela não estava.
Na recepção, ninguém sabia dela.
Os chalés ficavam um pouco afastados da sede do hotel, de forma que os hóspedes que ali ficavam raramente eram vistos.
Augusto deu uma volta pelo hotel, procurando Rafaela nos arredores.
Sem a encontrar, voltou ao chalé, ainda vazio, e sentou-se no degrau da escada para esperá-la.
O sol já começava a se pôr quando a jovem apareceu, de mãos dadas com um rapaz que ele nunca havia visto antes.
Assim que o avistou, o sangue subiu ao rosto de Rafaela, deixando-o afogueado de vergonha.
A moça soltou a mão de Gérson, mas não correu, aproximando-se em um caminhar tranquilo e natural, embora, em seu coração, um vulcão estivesse prestes a explodir.
A situação inusitada deixou Augusto sem reacção.
Nunca antes se imaginara vivendo algo semelhante.
Desabituado a lidar com aquele tipo de sentimento, teve que lutar contra a vontade de gritar com Rafaela e esmurrar o rapaz.
Jamais havia sentido tantos ciúmes em sua vida.
Precisava controlá-los, pois reconhecia o perigo que representavam.
Vendo Rafaela aproximar-se devagar, Augusto se levantou, as mãos trémulas de raiva.
Enfiou-as no bolso da calça e olhou para a jovem com aparente calma.
— Padre — falou Rafaela, baixinho.
Não o esperava aqui hoje.
— Percebi — retrucou Augusto com ironia, para depois, arrependido, pedir perdão mentalmente a Deus.
Onde esteve?
— Gérson me levou para dar uma volta.
O olhar que Augusto deu ao rapaz foi fulminante.
O timbre de sua voz vibrava com a emoção:
— Gérson?
— Muito prazer, padre — adiantou-se o rapaz, estendendo-lhe a mão.
Sua bênção.
— Deus o abençoe — forçou-se a dizer, notando um certo tom de ironia na voz do rapaz.
Seguiu-se um clima constrangedor.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 12:01 pm

Rafaela, morrendo de vergonha e remorso, mal conseguia encarar Augusto, que olhava dela para Gérson com raiva e desprezo.
O rapaz sentiu o clima hostil, embora desconhecesse o motivo.
— O senhor é daqui? — Gérson indagou, mais para puxar conversa do que por curiosidade.
Augusto não respondeu.
Ainda encarando o outro com agressividade, perguntou com ar feroz:
— O que vocês dois estavam fazendo?
— Nós? — retrucou Gérson. — Nada.
— Não acredito.
— Por favor, Gérson, será que poderia nos dar licença? — intercedeu Rafaela.
Padre Augusto e eu temos alguns assuntos importantes a tratar.
— Padre Augusto? — espantou-se ele, lembrando-se do nome que ela, sob o efeito do alucinogénio, costumava evocar.
— Algum problema? — questionou o padre.
— Não, nenhum — respondeu Gérson, mal ocultando a surpresa.
Depois que o rapaz se afastou, Rafaela entrou com Augusto no chalé.
A jovem se sentou na cama, tirou os sapatos e olhou para o padre.
— O que estava fazendo com aquele rapaz? — Augusto indagou, sério.
— Nada. Apenas me divertindo.
— Divertindo-se como?
— Andando a cavalo por aí.
Gérson me mostrou toda a região.
— Não sabe que é perigoso relacionar-se com desconhecidos?
— Gérson é só um garoto e é meu amigo.
— Há três dias tento falar com você.
Onde tem estado?
— Por aí, já disse.
— Mandei-a ficar no quarto.
— Como espera que eu fique trancada o dia inteiro aqui dentro, se o senhor nem vem me ver?
— Quando trouxe você comigo nessa viagem, avisei-a de que vinha para o enterro de meu pai.
Não vim aqui para fazer turismo com você.
— Não quero parecer ingrata, padre, mas não vejo o que tem de mais me relacionar com um garoto que é quase da minha idade.
Ele me diverte.
— Como é essa diversão?
— Não tenho que falar sobre isso — respondeu Rafaela de má vontade, desviando os olhos dos de Augusto.
— Vocês estão fornicando, não é mesmo? — afirmou Augusto com raiva.
Igual a uma cadela no cio, você se atirou para o primeiro macho disponível, pondo em risco a própria segurança e o pudor!
As palavras de Augusto foram por demais ásperas, e Rafaela, afundando o rosto entre as mãos, pôs-se a chorar, magoada.
— Isso não é justo — murmurou ela.
Fiz-lhe confidências da minha vida porque confiava no senhor.
Não esperava que usasse isso para me ofender.
E a sua imparcialidade de confessor, onde está?
Na mesma hora, o arrependimento despencou sobre Augusto, pesando em seus ombros e seu coração.
— Não quero que nada lhe aconteça — justificou, fingindo que não sentia ciúmes.
Perdoe-me.
— Não precisava me ofender.
O senhor é muito bom, mas quando quer, sabe machucar com as palavras.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 12:02 pm

— Por favor, Rafaela, perdoe-me.
Deixei-me levar pelo medo.
Eu jamais me perdoaria se algo lhe acontecesse.
O erro foi meu. Não deveria tê-la trazido.
As lágrimas da jovem não apenas o comoviam, mas despertavam nele o desejo de estreitá-la de encontro ao peito.
Sob o manto da preocupação e do paternalismo, Augusto procurava ocultar a paixão.
Sem pensar em nada, aproximou-se da moça e abraçou-a, pousando a cabeça de Rafaela em seu ombro.
— Perdoe-me, eu lhe imploro — repetiu Augusto.
A última coisa que queria era ofendê-la ou magoá-la.
Você é muito cara para mim.
— Então, por que me disse aquelas coisas?
Foram ciúmes, ele quase disse.
Mas conseguiu se conter e retrucou indeciso:
— Não sei. Não estou acostumado a ter uma mulher tão próxima a mim.
Rafaela afastou-se um pouco, encarando-o tão profundamente nos olhos que o desconcertou.
Ele estava tão perto, era tão bonito, e ela o amava tanto, que não resistiu.
Pondo-se na ponta dos pés, beijou-o suavemente nos lábios.
Por cerca de cinco segundos, Augusto correspondeu ao beijo, o primeiro de toda a sua vida.
Naquela pequena fracção de minuto, foi como se um choque eléctrico percorresse todo seu corpo, veloz e aterrador.
Augusto sentiu medo.
— Não faça isso — protestou, repelindo-a com um leve empurrão.
— Por quê? — Rafaela contrapôs, em lágrimas.
— Porque não é certo.
Sou um padre, você é minha penitente.
Sou responsável pela sua alma.
— Não é...
Rafaela tentou aproximar-se novamente, mas ele a segurou pelos braços, impedindo que seus corpos se tocassem.
— Por Deus, Rafaela, não me comprometa mais do que já estou comprometido!
— Eu o amo — sussurrou a jovem.
E você me ama também.
— Não... objectou sem forças.
Amo-a como a uma filha.
— Mentira. Você me ama, sei que me ama.
Vejo isso em seus gestos, sua fala, seu olhar.
Por que não admite?
— Porque sou um padre!
Será que você não pode compreender isso?
— Compreendo.
Mas ser padre não impede que me ame também.
Você mesmo disse que é um homem.
— Não posso, Rafaela.
Por favor, não me obrigue a ir contra os votos do sacerdócio.
— Eu o amo.
Pode até ser pecado, mas não tenho como evitar.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 12:02 pm

Augusto parou de tentar negar seus sentimentos. Não adiantava.
Precisava apenas encontrar um jeito de resistir-lhes e dominá-los.
Não podia simplesmente ceder e deixar-se envolver com uma mulher.
— Se me ama mesmo, nunca mais torne a dizer essas coisas — pediu Augusto, sustentando o olhar de paixão que ela lhe dirigia.
Não tenho para dar o amor que você me pede.
Augusto soltou os braços de Rafaela e abriu a porta, voando para fora a tempo de evitar uma tragédia maior.
Mais um pouco e não resistiria.
Estava tentando sufocar dentro do peito um sentimento que dominava cada canto de seu corpo, sua mente, sua alma.
Deixá-la foi muito difícil, mas era necessário.
Ela era jovem, não tardaria a esquecê-lo.
O que Augusto não sabia era se ele a esqueceria.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 12:02 pm

Capítulo 25

Augusto entrou na casa da mãe como se houvesse atravessado uma tempestade.
Os olhos vermelhos, a pele húmida, a testa explodindo em febre.
Laura dormia em seu quarto, e ele se atirou na cama sentindo uma angústia devastadora a agitar seu peito.
Não queria chorar, contudo, as lágrimas, sem lhe dar importância, puseram-se a escorrer pela face febril.
Em seus pensamentos, um turbilhão de ideias se agitava, o corpo inteiro respondia ao clamor do nome de Rafaela.
Não queria pensar nela, mas a mente não se concentrava em nada que não fosse a jovem.
Imaginando-a nos braços de Gérson, o sangue disparou pelas veias, fervilhando de ciúmes.
Não podia mais mentir para si mesmo nem fingir que o que sentia por Rafaela não era amor, ou paixão, ou desejo, ou tudo isso junto.
Com a imagem de Rafaela brotando a cada instante em seus pensamentos, Augusto se revirava na cama, misturando o desejo que sentia por ela às orações de perdão e misericórdia que dirigia a Deus.
Em seu íntimo, queria voltar ao quarto dela e tomá-la em seus braços, para experimentar a concretização da paixão que nunca antes havia vivido.
Mas não podia.
Toda aquela bonita conversa sobre pecado e felicidade jazia agora no leito frio da teoria.
Falar era muito fácil, bem diferente de sentir.
Como padre, ele devia estar acima daqueles sentimentos.
Descobrir que não estava deixava-o deprimido e assustado.
Sem falar na culpa.
Um padre jamais deveria ceder ao impulso da carne, principalmente com uma ovelha de seu rebanho.
Nesse sentido, era um pecador.
A muito custo adormeceu, os sonhos dominados pela presença marcante de Rafaela.
Augusto agitava-se e murmurava coisas inaudíveis, repetindo o nome da jovem para a escuridão do quarto.
Assim passou a noite, até que, de manhã, não conseguiu se levantar da cama.
Laura acostumara-se a vê-lo de pé logo cedo e estranhou sua ausência.
Como o filho não aparecera para o café, correu ao quarto dele, temendo que estivesse doente.
Muito de leve, tocou sua testa, constatando a quentura.
Mesmo sem um termómetro, tinha certeza de que a febre era alta.
— Mãe? — chamou Augusto, percebendo a presença dela a seu lado.
É você?
— Sou eu, meu bem.
Você está com febre.
O que foi que houve?
Pegou um resfriado?
Augusto não respondeu e cerrou os olhos, certo de que a febre que o dominava não provinha de nenhuma gripe, mas do desejo insatisfeito por Rafaela.
— Pode me arranjar um copo de água? — pediu, tentando limpar a garganta seca.
— Vou lhe trazer água e o café da manhã.
Depois lhe darei um remédio para baixar essa febre.
Será que não é melhor ir ao médico?
— Não precisa. Vou ficar bem.
Provavelmente, é só um resfriado.
Amanhã, com certeza, estarei melhor.
— Você não vai poder viajar assim.
— Até o dia da viagem, não terei mais nada.
— Vamos esperar para ver.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 12:02 pm

Após tomar o anti-térmico, Augusto tornou a deitar-se, adormecendo rapidamente.
Quando acordou, já era quase hora do almoço.
Levantou-se e entrou no chuveiro.
Logo ouviu batidas na porta do banheiro, e a voz da mãe se sobressaiu acima do barulho da água:
— Vou levar o almoço para você na cama.
Quando Laura entrou no quarto, Augusto já havia se trocado e, recostado na cama, olhava o horizonte pela janela, imaginando o que Rafaela estaria fazendo àquela hora.
— Você ficou maluco? — repreendeu Laura, correndo a fechar a janela.
Quer pegar uma pneumonia?
— Deixe estar, mãe.
Já estou melhor.
A luz do dia e o vento fresco só podem me fazer bem.
— De jeito nenhum!
Se quer ar e luz, basta abrir os postigos.
Vai arejar o quarto sem enregelá-lo.
Augusto não discutiu.
Enquanto comia, Laura pôs-se a reparar no filho, só agora se dando conta do bonito homem em que ele se transformara.
— Gostaria de ter tido netos — divagou Laura, soltando um suspiro.
Pena que você não os pôde me dar.
— Sou padre. Não posso ter filhos.
— Não precisava ter sido assim.
Se você não... — calou-se, temerosa das próprias palavras.
Augusto engoliu o suco de laranja, sentindo uma pontada de raiva, que conseguiu dominar.
Pelo visto, era hora de ter com a mãe a conversa que vinha evitando desde sua chegada.
— Você e papai praticamente me obrigaram a ir para aquele seminário — disse com raiva.
E a senhora, se bem me lembro, morria de orgulho de ter um filho padre.
— Isso foi depois que... você sabe.
— Sei o quê?
— Olhe, meu filho, acho que não é hora de revolvermos o passado.
Seu pai se foi, não me sinto com ânimo para discutir essas coisas.
— Mas foi a senhora quem começou! — Augusto retrucou.
— Não devia ter dito nada.
— A senhora está se escondendo atrás da morte de papai para não conversar comigo.
Do que tem medo?
Que eu lhe cobre o futuro que não tive?
O veterinário que não fui?
— Pensei que gostasse de ser padre.
— Eu gosto.
Mas não era esse o meu sonho.
Nem posso dizer que era o de papai ou o seu.
— Eu não queria que você fosse — balbuciou ela, chorosa.
No começo, não queria.
Mas depois, comecei a sentir orgulho disso.
A carreira monástica é muito bonita.
— Tem razão.
Mas será que você nunca se perguntou se essa vida era para mim?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 12:02 pm

— E não era?
— Não sei.
Nunca me questionei sobre isso.
Por medo, simplesmente aceitei o destino que vocês me impuseram e acabei me acostumando.
Tem o lado bom de ajudar as pessoas.
Sempre gostei de ajudar as pessoas.
— Então, meu filho?
O sacerdócio não lhe fez bem? — Augusto não respondeu.
Você hoje tem uma vida da qual pode se orgulhar, coisa que não teria se...
Laura nunca conseguia concluir as frases de suas suspeitas, como se tivesse vergonha até de pensar no futuro de Augusto se não fosse ligado à Igreja.
— Se o quê? — insistiu Augusto, irritado.
Se o quê?
Vendo a irritação do filho aumentar, Laura se remexeu constrangida.
Olhos baixos, sussurrou:
— Você sabe.
— O que eu sei, mãe?
Que a senhora e papai selaram meu destino só porque julgavam que eu não era homem?
Pensavam que eu era pederasta, bicha, veado?
Laura abriu a boca, chocada, e tentou protestar:
— Não fica bem um padre usar essa linguagem, ainda mais na frente da mãe.
— Sou um homem primeiro, mãe!
Com todo respeito que tenho pelos homossexuais, não sou um deles.
Nunca fui!
— Não é porque a Igreja o salvou.
— Não sou porque isso não está em mim!
E, ainda que fosse, não era motivo para vocês me mandarem para o seminário contra a minha vontade.
Mas o facto é que não sou.
Nunca se perguntou por que eu, durante todo o tempo em que estive no seminário, jamais me envolvi em escândalos com outros garotos?
— Porque padre António não descuidava de você.
— Não, mãe!
Porque nunca senti desejo por outro homem.
Nunca! O que tive com Reinaldo foi fruto de uma amizade pura, que você e papai conseguiram manchar com suas suspeitas maldosas.
Com seu preconceito, sua moral distorcida, fizeram seu próprio julgamento e me condenaram a uma vida de privações que eu não teria seguido se tivesse tido a oportunidade de escolher.
— Não é justo você me acusar.
Você mesmo disse que gosta da Igreja.
Por que está me dizendo essas coisas?
— Porque sou homem — repetiu Augusto.
E, quer a senhora e a Igreja gostem ou não, sinto desejo por mulheres.
— Você não pode falar assim!
— Eu não devia, concordo.
Mas posso, porque é o que sinto.
A minha vida inteira me reprimi por medo de algo que não sou, acreditando que era, porque vocês me convenceram que sim.
Eu era uma criança, não entendia nada e tive medo.
Não queria queimar no fogo do inferno.
Hoje sei que tudo não passou de um equívoco, uma insanidade.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 12:03 pm

Nunca me interessei por garoto nenhum no seminário porque, mesmo sem saber, sempre fui heterossexual.
— Não acredito. Você está falando isso só para que eu me sinta mal.
Sendo padre, você pode dizer que é qualquer coisa, porque não tem como provar.
— Estou falando porque é a verdade.
E não preciso provar nada.
Cada um é do jeito que é.
Eu sou heterossexual, repito sem nenhuma chance de errar.
Laura ocultou o rosto entre as mãos e começou a chorar.
— Eu não sabia — angustiou-se.
Seu pai e eu só queríamos proteger você, evitar que caísse na perdição, que vivesse em pecado com outros homens.
— Hoje não acredito mais nessas coisas.
Acho que as pessoas têm o direito de ser o que são sem ninguém para julgá-las.
— Mas meu filho, é errado!
— O erro está em criticar e tentar modificar a natureza do próximo.
Se há uma coisa que aprendi no sacerdócio, ouvindo tantas confissões, é que o valor do ser humano está no equilíbrio do seu coração.
As distinções da carne foram criadas pelo homem.
Deus não diferencia ninguém.
De olhos baixos, Laura só conseguiu balbuciar:
— Achávamos que estávamos fazendo o melhor para você.
Perdoe-me se erramos tentando acertar.
Laura caiu em um abatimento maior do que o que vinha vivendo.
Durante toda sua vida, perguntara-se se haviam agido correctamente.
Jaime sempre a tranquilizara, dizendo que sim.
Ela sentia orgulho do filho, porque Augusto se tornara um padre de respeito, um homem de Deus, superando, em definitivo, aquelas tendências malignas.
Esse fora seu conforto, a compensação pela falta de netos, de alguém que desse continuidade ao nome da família.
Agora, depois de tantos anos, depois que Jaime se fora, Augusto aparecia e lhe atirava aquelas coisas na cara, fazendo-a sentir que errara em sua maior decisão e que tudo, toda a sua vida, poderia ter sido diferente.
Na mesma hora, Augusto sentiu que havia ido longe demais.
Exagerara em suas palavras, em suas acusações.
De que adiantavam as cobranças àquela altura da vida?
A mãe e o pai só tinham feito o que achavam que era certo.
Nada diferente do sacerdócio parecia aceitável.
Ele, o único filho, repositório de todos os seus sonhos e desejos, não correspondia às expectativas que haviam traçado para ele.
Não era culpa sua, não era culpa de ninguém. Se cada um é como é, cabia a ele tentar compreender e aceitar a posição dos pais, principalmente porque, como sacerdote, havia muito descobrira aquela verdade.
— Não, mãe, sou eu que peço perdão — tornou Augusto, sinceramente arrependido.
Não devia tê-la acusado.
Acho que a vontade de Deus, no fim, sempre se faz.
Nós é que nos iludimos com nossas escolhas.
No fundo, está tudo certo na vida.
Augusto levantou-se para abraçá-la, pousando a cabeça da mãe em seu peito e permitindo que ela desabafasse ali o pranto amargurado.
— Eu não sabia de nada disso — Laura desculpou-se.
Devia ao menos ter imaginado, ter-lhe dado uma chance.
Fomos precipitados, estragamos sua vida.
Você, um homem bonito, hoje podia estar casado, com filhos, exercendo a profissão de veterinário com a qual sempre sonhou.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 12:03 pm

— Deixe para lá, mãe.
Não tem importância.
Agora já está consumado.
Fiz meus votos, exerço o sacerdócio com responsabilidade e amor.
O que poderia sentir por uma mulher, substituo pela minha dedicação aos fiéis.
Sou feliz assim.
— Se fosse feliz de verdade, não me teria dito nada disso.
Você gostaria de ter tido uma vida comum.
— Gostaria, mas não foi possível.
Hoje estou acostumado à vida que tenho e gosto dela. Não pretendo mudar.
— Nem se conhecer uma mulher por quem se apaixone?
Augusto engoliu em seco.
Os olhos encheram-se de lágrimas, que ele susteve à custa de muito esforço.
— Nem assim — Augusto afirmou indeciso.
Augusto fez o que pôde para consolar a mãe e impedir que ela se consumisse ainda mais com a culpa.
Todavia, a verdade fora revelada, tornando impossível fingir que nada havia sido dito.
Em seu íntimo, Augusto se perguntava se o pai também se arrependeria diante daquela revelação.
No mundo invisível, Jaime permanecia adormecido, sem ouvir o diálogo entre o filho e a mulher.
Só muito mais tarde é que lhe foi permitido acessar o registro daquela conversa, para que o conhecimento da verdade lhe provocasse a reflexão.
Naquele momento, ao ouvir o filho falar sobre sua vida, sobre o que realmente era, Jaime sentiu um imenso remorso.
Tal qual acontecera com Laura, teve certeza de que roubara de Augusto a oportunidade de ser feliz.
Percebia que fora cego, preconceituoso, intransigente, irascível.
Reconhecia, sobretudo, o tamanho do seu orgulho, que o impedia de aceitar as pessoas como elas realmente eram, mesmo que fossem diferentes do que ele achava que as pessoas deveriam ser.
Sem falar em Reinaldo.
Ele era como era, a violência fazia parte ainda de seus instintos.
Mas Jaime se sentia triste por ter fornecido àquele homem parte das ferramentas com as quais ele construiu seu destino de crueldades.
Jaime arrependia-se de sua intolerância.
Ninguém pode ser responsabilizado pela atitude do outro, mas todos têm que assumir sua parcela de colaboração no desequilíbrio do mundo.
E Jaime assumia a sua.
Por isso, orava constantemente para que tanto o filho quanto Reinaldo se reconciliassem com a vida, o que o ajudaria a conciliar-se com sua própria consciência.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 12:03 pm

Capítulo 26

Mesmo sem planos de namorar Rafaela, Gérson sentiu-se atingido em sua honra e masculinidade.
Sob a influência do vinho de jurema, a jovem pronunciara várias vezes o nome Augusto, mas a última coisa que o rapaz esperava era que o namorado dela fosse um padre.
Não sentia propriamente ciúmes, contudo, Rafaela o evitara por causa de um homem que usava saias.
Não deixava de ser uma comédia e uma tragédia ao mesmo tempo.
Aborrecia-o a perda da presa para alguém com quem jamais deveria competir.
No dia em que padre Augusto estivera no hotel, ele não se atreveu a confrontá-lo.
O choque fora por demais paralisante.
Agora, porém, era preciso tomar uma atitude.
Rafaela não podia simplesmente despedi-lo como se ele fosse um mero empregadinho.
Era uma questão de orgulho, de hombridade, de amor-próprio.
O pai jamais o perdoaria se engolisse aquela derrota, permitindo que uma mulherzinha à toa o usasse e descartasse quando bem entendesse.
Quando as batidas soaram na porta do quarto, Rafaela já sabia quem era.
Abriu-a lentamente e defrontou-se com um rapaz transfigurado pelo despeito.
Os olhos de Gérson pareciam de outra pessoa, suas atitudes haviam adquirido um ar arrogante, a modulação da voz era indício seguro de raiva.
— Quero falar com você — Gérson foi logo dizendo.
— Hoje, não, Gérson.
Não me sinto muito bem.
— Brigou com o namoradinho, foi?
— Lamento, Gérson, mas estava indo para o chuveiro — Rafaela desculpou-se, tentando fechar a porta.
Com o pé entre a porta e o portal, tornou com sarcasmo:
— Vai-se perfumar para o padreco, vai?
O que há? Ele não gosta de sentir em você o cheiro de sexo de um homem de verdade?
— Quanta grosseria! — Rafaela disparou.
Onde aprendeu esses modos tão vulgares?
— Com garotas da sua espécie, vagabunda!
— Chega, Gérson — Rafaela forçou a porta, mas o rapaz a impediu.
Dê-me licença, por favor.
Não temos mais o que conversar.
— Não, vadia, exijo uma explicação.
Uma prostituta na cama de um padre? Essa é boa!
Gérson avançou em direcção a Rafaela, que recuou aterrada.
Estava tão transtornado, cheirando a álcool, que a jovem teve certeza de que ia lhe bater.
Gérson segurou-a pelos braços e, com o olhar colérico, bradou:
— Não sou um homem que você possa chutar quando bem quiser!
— Pare com isso, Gérson — pediu Rafaela.
Não sou sua mulher, não sou nada sua.
Nós só transamos, só isso.
— Vagabunda! — bradou ele, ao mesmo tempo em que lhe acertava um tapa.
O golpe foi tão inesperado que Rafaela tombou para trás, caindo com estrondo e machucando as costas na quina da mesinha de cabeceira.
Minúsculas gotas de sangue pontilharam seus lábios, que, na mesma hora, começaram a crescer com o inchaço.
Entre a dor e a humilhação, Rafaela tentou gritar, mas a proximidade dos pés do rapaz não lhe permitiu abrir a boca.
Uma nova onda de dor percorreu seu corpo quando o bico da bota acertou-lhe o estômago.
Rafaela encolheu-se toda, tentando proteger o rosto dos pontapés que ele desferia de forma violenta e desenfreada.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 12:03 pm

Não compreendia por que ele estava agindo daquela forma.
Não lhe prometera nada, não lhe dera esperanças, não era sua namorada.
Tomado pelo álcool, Gérson extravasava a raiva do orgulho ferido.
Naturalmente, era uma pessoa agressiva, embora costumasse agir de forma carinhosa com as mulheres, desde que não o provocassem.
Quando isso acontecia, transfigurava-se na fera que atendia apenas aos instintos.
— Mulher nenhuma me dá o fora ou me troca por outro — continuou irado.
Muito menos uma piranha feito você, e logo com um padreco idiota.
Os golpes cessaram subitamente, porque Gérson foi arrancado de junto de Rafaela.
Por entre as lágrimas, a jovem só teve tempo de ver a ponta da calça negra de Augusto, puxando-o para trás.
— Saia daqui, seu verme! — esbravejou Augusto, dando um murro em Gérson e atirando-o porta afora.
O rapaz caiu no gramado, mas logo se levantou, avaliando o adversário com ar hostil e feroz.
Augusto estava de frente para ele, punhos cerrados, olhar intimidador.
— Veio em defesa da vadia, foi? — provocou Gérson.
— Vá embora daqui — tornou o padre, em tom ameaçador.
Não me obrigue a tomar uma atitude que vai contra meus princípios, porque, creia-me, se tentar algo novamente, eu o farei.
Não hesitarei em expulsá-lo daqui a pontapés.
Gérson não disse nada, limitando-se a olhar para o padre com raiva e medo.
Era muito valente com as mulheres, contudo, os homens sempre lhe impunham respeito.
Não gostava de apanhar nem de ter que engolir a vergonha da derrota.
Aquele padre, decididamente, era mais alto e mais forte do que ele.
Com ar de desdém, que procurava manter para não dar mostras da covardia, Gérson cuspiu no chão e arrematou com desprezo:
— Pode ficar com ela.
É uma porcaria mesmo e já foi muito usada.
Fique com os restos.
Mais que depressa, Gérson rodou nos calcanhares, ganhando a estradinha que levava aos estábulos, com medo de que alguém chegasse e presenciasse sua covardia.
Augusto nem esperou que o rapaz sumisse de vista.
Voltou-se para dentro e fechou a porta, correndo para onde estava Rafaela.
A menina conseguira se sentar na cama, esfregando as costas doloridas.
O rosto, roxo e inchado, ardia com o sal de suas lágrimas, enquanto os lábios machucados tremulavam no ritmo do choro.
— Meu Deus — lastimou Augusto.
O que foi que esse monstro fez com você?
Rafaela agarrou-se a Augusto aos prantos.
Nunca havia passado por situação semelhante.
— Desculpe-me, padre — choramingou Rafaela.
Não devia ter saído com ele.
Devia ter escutado o senhor...
— Psiu! Deixe isso para lá.
Venha, vou ajudá-la a se levantar e limpar essas feridas.
Está doendo muito?
A jovem assentiu e protestou magoada:
— Não sei o que aconteceu. Gérson entrou aqui, começou a me ofender e me bater.
O pranto fez com que Rafaela engasgasse, e Augusto a abraçou com ternura.
Levou-a ao banheiro, ajudou-a a lavar o rosto.
De volta ao quarto, colocou as coisas da jovem na mala e observou:
— Não podemos dar parte na polícia.
Era o que esse sujeitinho merecia, mas você não pode se expor.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 31, 2015 12:04 pm

— Sei disso e nem é essa a minha intenção.
Só o que quero é sumir daqui.
— Está tudo pronto para partirmos.
Eu só preciso fechar a conta.
— Tenho medo de ficar sozinha.
— Tranque a porta quando eu sair e não abra em hipótese alguma.
Não me demoro.
No caminho, passaremos numa farmácia, e comprarei um remédio para pôr em seu rosto.
Assim que Augusto saiu, Rafaela passou a chave na fechadura e sentou-se na cama para esperar.
A cada ruído do lado de fora, sobressaltava-se, achando que Gérson havia voltado para pegá-la.
Para tentar aplacar o medo, proferiu uma longa e silenciosa oração, que só interrompeu quando ouviu a voz de Augusto chamando-a do lado de fora.
A oração deixou-a mais calma.
Rafaela abriu a porta e saiu com a mala, que Augusto tomou de suas mãos.
Seguiu amparando-a, pois ela caminhava devagar por causa da dor que a pancada nas costas causava.
— Será que quebrou alguma costela? — aventou Augusto.
Talvez seja melhor pararmos num hospital.
— Não precisa — objectou a jovem, receosa.
Foi só o baque. Vou ficar bem.
Em instantes alcançaram o carro.
Augusto acomodou-a no banco da frente, cobrindo-a com a manta.
Queria partir dali o mais depressa possível, temendo que o escândalo atraísse a atenção de alguém, que, por sua vez, acabasse chamando a polícia.
Mais que depressa, Augusto deu a partida e saiu apressado, guiando o automóvel até a rua principal, à procura de uma farmácia.
Nem reparou que Gérson os observava à distância, remoendo o ódio e o despeito.
A sorte, contudo, urdia os factos a seu favor.
Alheio às questões militares e políticas, o garoto nem de longe imaginou que Rafaela fosse uma fugitiva do regime, caso contrário, a teria entregado às autoridades.
— Já vai tarde — Gérson ruminou para si mesmo, de certa forma aliviado.
Aquela foi a última vez que Rafaela e Augusto ouviram falar de Gérson, para quem a moça nada mais fora do que uma vagabunda da cidade grande que serviu apenas para sua diversão.
Na primeira drogaria que encontrou, Augusto encostou o carro e foi comprar gaze, algodão, água oxigenada e mertiolate.
Dentro do veículo, desinfectou e esterilizou o machucado, retirando a mão sempre que ela deixava escapar soluços de dor.
O local da pancada nas costas estava mais dorido do que os demais, contudo, não havia fracturas visíveis.
Augusto não era médico, mas apalpou os ossos de Rafaela com cuidado, de forma a certificar-se de que nada estava quebrado.
— Está com um hematoma feio aí — observou o padre.
Mas vai passar.
— Vai, sim — Rafaela concordou laconicamente, já que a vergonha não lhe permitia dizer muita coisa.
Augusto passou-a para o banco de trás e ajeitou a manta sobre a jovem.
Acariciou seus cabelos e deu-lhe um sorriso encorajador.
De volta ao volante, colocou o carro em movimento, logo alcançando a auto-estrada.
Aquele fora um grave incidente que deixara Rafaela visivelmente abalada.
Não podia mandá-la embora de sua casa daquele jeito.
Precisaria esperar até que ela se recuperasse psicologicamente antes de prepará-la para um futuro longe dele.
Com o balanço do automóvel, Rafaela logo adormeceu, deixando Augusto a sós com seus pensamentos.
Nunca, em toda a sua vida, imaginara-se vivendo uma situação tão inusitada como aquela.
O rapaz merecera aquele murro, contudo, não era de seu feitio agredir ninguém.
Sempre pregara que a paz era a única solução possível para o ser humano, que todos os conflitos deveriam ser resolvidos com diálogo, compreensão e paciência.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 11:47 am

Agora, porém, via-se fazendo exactamente o oposto daquilo em que realmente acreditava.
A visão de Rafaela sendo agredida por aquele brutamontes revoltara-o além do limite da tolerância.
Era uma covardia sem precedentes, um rapaz forte como aquele batendo em uma moça franzina e frágil feito Rafaela.
Não tivera alternativa.
Precisara agir para evitar que ele matasse a jovem.
Pensando bem, fora muita sorte sua ter vencido a febre.
A mãe insistira para que ficasse na cama mais alguns dias, contudo, ele não quis.
A conversa com ela o havia desgastado a ponto de desejar afastar-se por uns tempos.
Ao acordar, como a febre havia cedido, juntou suas coisas e partiu.
Augusto ajeitou o retrovisor, de forma a visualizar o rosto ferido de Rafaela.
A emoção tomou conta do padre, um medo atroz o abalou:
será que ele poderia viver sem ela?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 11:47 am

Capítulo 27

Já era tarde quando chegaram a casa.
Rafaela estava dormindo, e Augusto acordou-a gentilmente.
Assim que ouviram o ruído do automóvel, Nelma e Cláudio vieram de dentro da casa, ambos demonstrando genuína surpresa ao se depararem com o rosto arroxeado de Rafaela.
Atrás deles, Spock apareceu abanando o rabo, pulando alternadamente nas pernas de Augusto e de Rafaela.
— Jesus! — exclamou padre Cláudio.
O que foi que lhe aconteceu?
Enquanto Augusto se abaixava para pegar o cãozinho, a desculpa aflorou, rápida, em sua mente:
— A culpa foi minha.
Não devia ter deixado Rafaela sozinha no hotel.
Tentaram assaltá-la.
— Minha Nossa Senhora! — espantou-se Nelma.
— Não foi nada — falou Rafaela, sem graça.
Já estou bem.
— Entraram em seu quarto? — interessou-se Cláudio, que não acreditara naquela história.
— Foi — respondeu Rafaela, de forma lacónica.
— Você esqueceu a porta aberta?
— Ela pensou que fosse eu e abriu — esclareceu Augusto, intimamente pedindo perdão a Deus pela mentira.
Foi hoje mesmo, na hora de virmos embora.
Ainda bem que nada mais sério aconteceu.
— Aposto como foi algum tarado — observou Nelma, num tom em que se percebia uma leve acusação.
Também, uma moça sozinha num hotel...
— Deixemos isso para lá — pediu Augusto, entrando em casa e colocando o cachorro no chão.
Tenho que apanhar as malas.
— Eu o ajudo — ofereceu-se Cláudio.
Os dois padres foram para o lado de fora da casa.
Rafaela sentou-se no sofá, batendo com as mãos nas coxas para chamar Spock.
O cão deu um salto e se aninhou no colo da moça, visivelmente feliz com a sua chegada.
A cena deixou Nelma ainda mais irritada.
Fora ela que sempre cuidara dos cães de padre Augusto, e agora Spock não lhe dava muita importância.
Gostava dela, mas estava claro que Rafaela era sua preferida.
— Você andou aprontando das suas, não foi? — insinuou Nelma, maldosamente.
Aposto como se envolveu com algum malandro e apanhou dele.
A capacidade de percepção de Nelma era espantosa, deixando Rafaela, a princípio, intimidada.
— Eu, hein! — procurou objectar.
Você tem cada uma...
Nelma não disse mais nada, porque Augusto e Cláudio apareceram carregando a bagagem.
— Será que tem alguma coisa para comermos? — questionou Augusto.
Estamos morrendo de fome.
Não tivemos tempo de comer nada.
— Imagine se eu deixaria o senhor sem jantar — protestou Nelma.
Assim que o senhor ligou dizendo que vinha, tratei logo de preparar-lhe algo especial.
— Óptimo. Janta connosco, Cláudio?
— Sim, obrigado — respondeu o padre.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 11:48 am

— Vou pôr a mesa — avisou Nelma.
Não demoro.
— Enquanto isso, acho que vou tomar um banho — falou Rafaela.
— Vá — concordou Augusto.
Vai lhe fazer bem.
Depois, irei eu.
Quando se reuniram na sala novamente, Nelma exibia orgulhosa a mesa posta para o jantar com os pratos vegetarianos preferidos de Augusto.
Rafaela acostumara o estômago às delícias da cozinha mineira do hotel, então, o cozido de legumes lhe pareceu insosso e sem graça.
Contudo, não se queixou.
As costas doíam imensamente, e ela nem conseguia comer direito.
Tampouco queria dar a Nelma motivos para continuar com suas acusações.
Rafaela recolheu-se logo após o jantar, com Spock em seu encalço.
A posição incómoda da viagem agravava a dor das feridas, e tudo o que ela mais queria era uma cama macia para repousar.
Nelma também foi para o quarto, deixando Augusto a sós com Cláudio.
Nenhum dos dois queria dizer a primeira palavra.
Parecia que tinham medo do que poderiam falar.
Cláudio, porém, incomodado com o silêncio, iniciou uma conversa que procurou tornar directa e franca:
— Vocês cometeram alguma loucura?
— Não.
O que houve realmente com Rafaela?
— Não posso dizer.
Ela me pediu segredo em confissão.
- Você não viu o que lhe aconteceu? — Augusto não respondeu.
Você não tem nada a ver com isso, tem?
— Como assim? — indignou-se.
Por acaso está sugerindo que fui eu que bati nela?
— Não sei.
— Isso é um absurdo!
Você me conhece, Cláudio.
Sabe que sou totalmente avesso à violência.
E jamais bateria numa mulher.
— Numa mulher comum, não — Cláudio rebateu.
— Rafaela não é uma mulher comum?
— Você está apaixonado por ela.
Isso mexe com a cabeça de qualquer um.
Que dirá de um padre.
— Essa é uma ofensa sem precedentes — Augusto queixou-se irritado.
Nada no mundo me faria levantar a mão para uma pessoa, muito menos uma mulher.
E se algum dia bati em alguém, peço a Deus que me perdoe, mas tenho certeza de que foi em legítima defesa.
Havia uma angústia bastante significativa no timbre de voz de Augusto, algo que Cláudio, com sua experiência, não deixou de perceber.
— Sinto-o atormentado — Cláudio revelou.
Não quer se abrir comigo?
— Não posso. Não tenho o direito de falar da vida de Rafaela.
— Nem em confissão?
— Só posso confessar os meus actos e pensamentos.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 11:48 am

— Está bem.
Não precisa falar, se não quiser.
Mas não sou tolo.
Essa história de que ela foi agredida não me convenceu.
Se fosse realmente isso, você não faria tanto mistério.
Augusto encarou Cláudio com desgosto e procurou justificar:
— Rafaela é só uma menina...
Não sabe bem o que faz.
— Uma menina que já experimentou o sexo não é mais tão menina.
É uma mulher.
E mais experiente do que você.
— Quem foi que disse que ela já experimentou o sexo?
— Não sou tolo, Augusto.
Ninguém precisa me dizer.
— Por que a julga de forma tão implacável?
— Não a estou julgando.
Preocupo-me apenas com a influência que uma moça liberal pode ter sobre você.
Ainda mais agora, que está ferida e ainda mais fragilizada.
Você se transformou em seu herói.
— Eu... — Augusto hesitou.
Não sei o que dizer...
— Você não pode negar que ela o está deixando confuso.
— Eu não nego — Augusto agitou-se, passando as mãos nos cabelos.
Só não sei como proceder.
— No fundo, você sabe.
— Pensei em mandá-la para fora do país — revelou contrariado.
Talvez introduzi-la na Esperança novamente.
— A qualquer momento.
Se quiser, eu mesmo cuidarei de tudo.
— Não! — Augusto objectou, veemente, para depois se acalmar.
Agora não. Não posso deixá-la nesse estado.
É preciso primeiro que ela se recupere.
Enquanto isso, vou preparando seu espírito.
— Se você esperar mais tempo, não conseguirá livrar-se dela.
— Não quero me livrar dela.
Quero que ela fique bem e em segurança.
— Você tem que se preservar e sabe disso.
Tanto que resolveu tirá-la daqui.
Ainda bem.
Mas ouça o que lhe estou dizendo:
se esperar mais, pode esquecer.
Ela vai envolvê-lo de tal forma que será difícil, senão impossível, mandá-la embora.
Este é o momento.
— Mas ela está ferida!
Como vai se virar aí fora, toda machucada?
— Ela só tem hematomas no rosto.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 11:48 am

— E nas costelas também.
Ela não lhe mostrou nem disse nada, mas o desgraçado quase lhe quebrou as costelas.
— Isso não importa, Augusto! — Cláudio exasperou-se.
Você está arranjando desculpas para deixá-la ficar.
— Não estou. Ela precisa de mim.
— Ela precisa de qualquer um!
Qualquer homem que a faça sentir-se segura!
Será que não percebe isso?
Por que acha que ela se envolveu com outro nessa viagem?
— Quem foi que lhe disse isso? — Augusto deu um salto, irritado.
— Ninguém precisa me dizer.
Não nasci ontem, já vi muitas moças assim.
Ela apanhou de algum vagabundo com quem se envolveu lá em Uberlândia, não foi? — silêncio.
— Há quanto tempo ela está aqui, sem ninguém para dividir o leito?
Na primeira oportunidade que teve, correu para os braços de um homem.
E deu nisso. Estou certo ou errado?
Augusto pôs-se a caminhar de um lado a outro na sala, onde se desenrolava a conversa.
De vez em quando, olhava para o corredor que levava ao porão, totalmente às escuras.
Parecia que, a qualquer momento, Rafaela o surpreenderia naquela situação embaraçosa.
Não era mais possível, porém, negar a realidade.
Cláudio era um homem esperto e vivido, não se deixaria enganar por uma desculpa esfarrapada como aquela.
No fundo, tinha razão.
Tudo que ele fazia não passava de justificativas para manter Rafaela ao seu lado.
— Eu a amo... — Augusto soluçou.
E sei que ela me ama também.
— Se eu achasse que vocês dois têm alguma chance juntos, lhe apoiaria.
Até o incentivaria a deixar o sacerdócio.
Só que não acredito na sinceridade dela.
Rafaela só vai fazê-lo sofrer.
Ela não é uma moça que se preste para o casamento.
Tem o espírito indócil, é amante da vida fácil, vive a liberação sexual.
— Você a está chamando de prostituta?
— É claro que não!
Não se trata disso.
Ela é uma boa menina, só que muito avançada para você.
Se fosse uma mulher mais velha e convencional, até poderia dar certo.
Mas Rafaela vive em outro tempo.
Essa modernidade que está aí leva os jovens pelo caminho do sexo e da droga.
— Rafaela não se droga.
— Por sorte.
Mas quantos você conhece que o fazem?
— Isso não importa.
Nada tem a ver com ela.
— Augusto, Augusto, abra os olhos.
Que futuro você tem ao lado dessa moça?
Então ela já não lhe provou que não o ama?
Se o amasse de verdade, não teria ido correndo para a cama de outro.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

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