Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 11:48 am

— Ela estava se sentindo sozinha — Augusto justificou novamente.
Eu a deixei só.
- Não tem solidão que faça alguém trair um amor.
Você é o homem mais velho que lhe dá segurança e, com um pouco de sorte, poderá lhe dar prazer também.
Mas ela não é mulher de se prender a ninguém.
Imagine se você largar a batina por causa dela.
Se essa moça não o trocar por outro, estará sempre o traindo.
É isso que você quer?
Augusto continuava sua caminhada solitária pela sala, derramando desespero por onde passava.
Sem olhar para Cláudio, sussurrou vencido:
— Não.
— Pois então, não hesite.
Mande-a embora enquanto ainda é tempo.
As feridas dela não são empecilhos.
Já demos fuga a gente em piores condições.
De tudo o que Cláudio dizia, apenas com uma coisa Augusto concordava:
a precipitação dela em se deitar com outro homem.
Mal se vira sozinha, correra para os braços de Gérson.
Esse era um argumento poderoso, porque mexia com algo que Augusto recentemente descobrira em seu íntimo e contra o qual lutava com todas as forças: o ciúme.
Fora preciso conhecer uma mulher e se apaixonar para perceber o quanto era ciumento.
Até então, não tinha motivos para sentir ciúmes de ninguém.
Nem da mãe, nem dos amigos.
Ao contrário, ficava feliz quando todos aqueles de quem gostava se davam bem.
Agora, o que sentia por Rafaela lhe trazia aquele sentimento novo e daninho, que corroía sua alma e confundia sua mente.
Por mais que lhe fosse difícil, era obrigado a dar razão a Cláudio, principalmente porque lhe faltava a experiência necessária para lidar com as relações afectivas.
Falava muito bem para os penitentes, mas quando a coisa se voltava para ele, tudo se revelava diferente.
— Você tem razão — Augusto desabafou, já sentindo a proximidade das lágrimas.
Mas é tão difícil!
— Ninguém disse que é fácil.
Mas tem que ser feito.
— Como lhe direi isso?
Ela vai ficar arrasada.
— Encontre um jeito.
E deixe o resto por minha conta.
Eu mesmo a levarei ao ponto de encontro.
Augusto assentiu, vivenciando uma derrota que só sentira uma vez, quando o pai o mandara para o seminário.
Era a mesma sensação de perda, o mesmo vazio, a mesma impotência diante de uma fatalidade contra a qual não podia lutar.
Com uma diferença: havia agora um elemento de incalculável importância, que antes não existia:
uma pessoa, um ser humano que, mesmo diante de todas as controvérsias, ele não podia, evitar de amar.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 11:48 am

Capítulo 28

Rafaela acordou tarde na manhã seguinte e deu de cara com o rosto carrancudo de Nelma.
Padre Augusto, como era de se esperar, não estava mais em casa.
A jovem sentou-se à mesa com cuidado, evitando aproximar-se do encosto da cadeira.
— Está tudo bem? — quis saber Nelma, servindo-lhe o café da manhã.
— Minhas costas estão doendo.
— O que tem nas costas?
— Levei uma pancada.
— Foi o tal malandro?
A jovem largou a colher com que mexia o leite e olhou-a com irritação.
Tinha fome, mas a dor nas costas não lhe permitia ingerir muita coisa, e a conversa desagradável de Nelma embrulhara-lhe o estômago.
Empurrando a xícara para o lado, levantou-se aborrecida.
Rafaela passou o dia lendo e brincando com Spock no quintal, esperando ansiosa pela chegada do padre.
Quando ele voltou, ao final do dia, correu ao seu encontro.
Augusto, contudo, dispensou-lhe fria atenção.
— Como passou seu dia? — Augusto perguntou solícito, porém, distante.
— Bem.
— Sente muita dor ainda?
— Mais ou menos.
— Vamos rezar para que fique boa logo.
Augusto pediu licença e trancou-se no quarto.
Só saiu para tomar banho e à hora do jantar.
Conversou amenidades, evitando ao máximo assuntos mais íntimos.
No dia seguinte, procedeu da mesma forma, limitando-se a fazer perguntas sobre o estado de saúde da jovem.
— Como está hoje?
— Estou bem.
A dor está diminuindo bastante, a pele está clareando.
— E o inchaço?
— Também diminuiu. Veja.
Augusto examinou Rafaela com olhar clínico, assentiu e continuou a comer.
De vez em quando, a moça encarava-o com expressão interrogativa, que ele fingia não perceber.
Quando terminou a refeição, limpou os lábios no guardanapo e, finalmente, olhou para ela.
— Acabe seu jantar e venha comigo até lá fora — o padre falou com certa aspereza.
Precisamos conversar.
A atitude de Augusto lhe causou medo.
Por certo, uma notícia desagradável estava por vir.
Ela acabou de comer em silêncio e aguardou.
Sem dizer nada, Augusto levantou-se e fez sinal para que ela o seguisse, sentando-se de frente a jovem à mesa do quintal.
— Vou tirá-la daqui — Augusto revelou de súbito, modulando a voz para não sair trémula.
Nossos amigos da Esperança estão preparando sua fuga para o exterior.
Em breve, você estará em segurança.
O choque foi tão grande para Rafaela que ela não conseguiu falar.
Foi como se um espinho se houvesse atravessado em sua garganta, bloqueando as palavra
Só seus olhos conseguiram responder.
Uma enxurrada de lágrimas rolou pelo seu rosto lívido e indignado.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 11:49 am

Vendo-a naquele estado, tão frágil e assustada, Augusto teve vontade de tomá-la nos braços, estreitá-la contra o peito, sussurrar em seus ouvidos que a presença dela o estava levando à loucura.
Mas se conteve.
Congelou os braços e a voz, com medo de fazer qualquer movimento que pusesse tudo a perder.
— Por quê? — finalmente Rafaela indagou, a voz embargada pela dor.
Por que está fazendo isso comigo?
— É o melhor.
Você não pode mais ficar aqui.
— Por quê?
O que foi que eu fiz?
— Você está chamando a atenção.
As pessoas já estão perguntando.
— Mentira. Ninguém sabe que estou aqui.
O senhor não é de mentir.
Por que não me diz a verdade?
— A verdade nem sempre deve ser dita.
Por vezes, a dor é mais forte do que a mentira.
— Isso é ideia de padre Cláudio, não é?
Ele está fazendo sua cabeça, colocando-o contra mim.
— Ninguém faz a minha cabeça! — objectou num ímpeto.
E certamente, não há quem possa me colocar contra você.
— Então por quê?
Sei que o senhor gosta de mim.
Não faça isso, não me mande embora.
— Já está tudo arranjado.
Tenho amigos de confiança que irão cuidar bem de você.
— Eu não quero.
Não posso viver longe do senhor!
Por favor, deixe-me aqui.
Prometo que vou ficar quietinha no meu canto.
O senhor nem vai saber que eu existo.
— Isso é impossível — murmurou Augusto.
- Por piedade, não me abandone agora — desesperou-se Rafaela, sem perceber a agonia por que a alma dele passava.
O senhor sabe o que sinto e está tentando me punir.
— Puni-la? Jamais!
Estou punindo a mim mesmo.
— Por quê? Por que não pode aceitar o facto de que nós nos amamos?
— Nunca mais diga isso! — exasperou-se Augusto, afastando de seus braços os dedos com os quais ela procurava tocá-lo.
— Eu o amo, padre, o senhor sabe disso.
Não tenho culpa de ter-me apaixonado.
Não sei se é pecado ou não, mas não posso mentir para meu coração.
— Você não sabe o que diz.
— Sei, sim. Por quantas noites sonhei com o senhor!
— Sonhou mesmo? — Augusto agora assumia um ar de desdém, que, por mais que quisesse, não conseguiu disfarçar.
Tanto quanto sonhou com Gérson?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 11:49 am

— Gérson não representou nada.
Nem sei por que transei com ele.
— Não fale assim na minha frente! — esbracejou, levantando-se e dando-lhe as costas.
Não venha agora dizer que se deitou com ele pensando em mim.
— Mas é verdade.
Quando estive nos braços de Gérson, era seu rosto que eu via, seu corpo que eu imaginava sobre o meu e dentro de mim.
— Cale-se, imunda! — rosnou, entre a ira e o tormento.
Não ouse mais conspurcar meu lar com sua devassidão!
Rafaela assustou-se com a aspereza e a energia de raiva das palavras de Augusto, só agora se dando conta do juízo que ele fazia dela.
— Por que me trata assim? — Rafaela rebateu, misturando lágrimas de revolta e decepção.
Qual a necessidade de me ofender e me julgar?
Não é você que vive dizendo que o julgamento pertence a Deus?
Nem parece aquele padre compreensivo e cheio de ideias avançadas que conheci.
Será que toda a sua doutrina é só da boca para fora?
— Não... — Augusto balbuciou confuso e arrependido.
— Rafaela, perdoe-me.
Excedi-me... não devia...
Você tem razão.
Não tenho o direito de julgá-la.
— Não consigo compreender o porquê dessa mudança.
São ciúmes do que houve com Gérson? É isso?
Era, principalmente, isso, mas Augusto não podia lhe dizer.
— Estou me perdendo de mim mesmo — afirmou transtornado.
Distanciando-me de minha fé.
Sou um sacerdote...
— E daí? O senhor é homem, antes de mais nada.
E eu sou uma mulher que o ama desesperadamente.
Amo-o tanto que, pelo senhor, sou capaz de relevar todas as ofensas que me tem dito.
"Perdoai as nossas ofensas, assim como perdoamos a quem nos tem ofendido".
Não é assim?
— "Não nos deixeis cair em tentação" — Augusto completou, de forma dolorida.
E a única forma de resistir a ela é afastando-me de você.
— Pelo amor de Deus — suplicou Rafaela, abraçando-o por trás.
Está me dizendo que vai me mandar embora porque quer transar comigo?
— Deixe-me em paz! — Augusto desvencilhou-se, prosseguindo atormentado:
— Você é só uma menina.
Tão jovem e tão perdida...
— Não sou menina. Muito menos perdida.
Eu o amo, não é possível que isso não signifique nada para você.
— O demónio age por muitas formas.
Deus me dê forças para resistir a ele.
— Está me chamando de demónio? — Augusto não respondeu.
É isso o que sou para você?
— Faça você o seu próprio julgamento.
— Basta! — exasperou-se Rafaela, cansada de tanta humilhação.
Não precisa dizer mais nada!
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 11:49 am

Minha gratidão e meu amor pelo senhor não ultrapassam o limite da minha dignidade.
Está muito errado no julgamento que, tão precipitadamente, faz de mim.
Posso ser jovem e livre, mas sou uma mulher, não um demónio.
Agradeço tudo o que fez por mim e espero um dia poder lhe retribuir.
Mas não posso mais aceitar sua caridade e suas ofensas.
Está na hora de me virar sozinha.
Augusto engoliu em seco e, sem encará-la, comunicou:
— Muito em breve, padre Cláudio irá levá-la ao galpão da Esperança.
— Não precisa — cortou Rafaela rispidamente.
Não quero mais sua piedade, nem sua ajuda.
E pode ficar com a sua organização de intolerâncias.
Vou embora agora mesmo.
Não fico nessa casa nem mais um minuto.
Chega de humilhação.
Toda caridade do mundo não vale isso.
— Não posso permitir que saia sozinha.
— O senhor não pode me impedir.
Se não posso cuidar de mim mesma, então não devia ter-me metido nessa encrenca.
Quer saber? Vou é me entregar.
Não vai fazer diferença ser torturada pela polícia, pelos militares, ou por quem quer que seja.
Suas palavras já me torturam o suficiente.
Rafaela deu-lhe as costas e entrou em casa furiosa.
Nunca sentira tanta raiva em toda a sua vida.
Augusto podia não gostar dela, mas não tinha o direito de humilhá-la nem ofendê-la.
Aquilo não era atitude de um padre.
Alguém que agia daquela forma tão mesquinha e cruel, com certeza, não merecia seu amor.
Rafaela desceu ao porão feito uma bala, sem saber se devia arrumar suas coisas ou não.
Afinal, nada do que possuía saíra do seu bolso.
Tudo fora comprado por padre Augusto.
Mesmo assim, achou melhor levar algumas peças de roupa.
Não tinha intenção de se entregar, não ainda.
Talvez procurasse Silmara e lhe pedisse ajuda.
Com certeza, o tal coronel poderia indicá-la a algum amigo.
Ser prostituta não era o sonho de ninguém, contudo, naquele momento, lhe parecia uma opção melhor do que a morte.
Colocou o que podia dentro da pequena mala que Augusto lhe cedera para a viagem a Uberlândia.
Talvez a maleta não lhe fizesse falta, talvez ele não se importasse, como parecia não se importar com nada.
Ela é que fora tola em apaixonar-se por ele.
Mas quem pode impedir o coração de sentir?
No quintal, Augusto permanecia estático, sem coragem para mexer-se.
Fora longe demais, duro demais nas palavras que não traduziam o que ele sentia.
Só o que queria era preservar seus votos sem se descuidar de Rafaela.
Por isso, dissera coisas que não expressavam seus sentimentos.
E agora, ele a magoara de tal forma que a situação parecia irreversível.
Talvez fosse melhor deixá-la partir.
Rafaela, contudo, ameaçava entregar-se aos militares.
Será que se atreveria a tanto?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 11:55 am

Ele achava que não.
Contudo, mesmo que não o fizesse, era o que acabaria acontecendo.
Sem ter para onde ir, não demoraria muito a cair nas mãos deles.
Com esse pensamento a atormentá-lo, tomou o caminho do porão.
Passou pela cozinha sem fazer barulho, para não chamar a atenção de Nelma, que assistia à televisão na sala.
Em silêncio, virou a maçaneta da porta do porão.
Não estava trancada, de forma que ele tomou as escadas sem emitir qualquer ruído.
Rafaela estava de costas, atirando roupas em uma maleta.
Não viu nem ouviu quando Augusto se aproximou.
— Rafaela — Augusto chamou gentilmente.
— O que quer? — Rafaela perguntou com raiva, virando-se abruptamente.
Veio me humilhar mais um pouco?
— Não, eu... Perdoe-me.
Não devia ter dito aquelas coisas.
— Não devia, mas disse. E doeu.
— Eu não falei sério.
— Falou. E se isso é tudo que pensa de mim, então o melhor mesmo é eu partir.
Não tenho mais o que fazer aqui.
— Você não compreende...
— Não quero mais compreender nada.
Não quero nem ter que continuar falando com o senhor.
Será que dá para sair e me deixar terminar de arrumar minhas coisas?
— Você não pode ir embora.
Não tem para onde ir, e a polícia vai prendê-la.
— Não estou ligando. Já disse que vou me entregar.
— Não faça isso. Eles vão torturá-la.
— Se tem medo de que eu denuncie a sua operação, pode ficar tranquilo.
Não sou traidora.
Morro antes de revelar o que sei a seu respeito.
— Não estou preocupado com isso.
O que me preocupa é você.
— Sei que se preocupa, mas não precisa.
Não sou tão menina quanto pensa.
E agora, se me der licença, gostaria de terminar de arrumar minha mala em paz.
Já está perdoado pelas palavras duras, se é com sua consciência de padre que está preocupado.
Pode sair, por favor.
Como Augusto não se movia, Rafaela olhou-o com irritação.
— Será que pode sair, por favor? — Rafaela repetiu, aproximando-se e indicando-lhe a escada atrás dele.
Havia ódio em seus olhos, um ódio que era fruto do amor e da decepção.
Ela estava impaciente, as narinas fremindo com a raiva, as mãos agitando-se, rebeldes.
Quando passou em frente a ele, Augusto não conseguiu mais resistir.
Naquele momento, toda a limitação do sacerdócio não foi suficiente para sufocar o amor e o desejo que sentia por Rafaela e que o arrependimento fizera revelar.
De forma inesperada, Augusto enlaçou-a pela cintura e trouxe-a para junto de si, beijando-a com ardor.
Rafaela debateu-se em seus braços, lutando para soltar-se, mas Augusto segurou-a firme, empurrando-a às cegas pelo porão.
Suas pernas encontraram a cama, ela tombou sobre a mala, a dor nas costelas impedindo-a de respirar.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 11:56 am

— Eu a amo - sussurrou Augusto, em uma fúria incontida.
Amo, amo, amo...
Enquanto falava, beijava-a, até que Rafaela se entregou, alheia à dor física.
Pela primeira vez, Augusto experimentou o sexo e o amor de uma mulher.
Foi um momento de alegria e medo, de culpa e paixão.
Ao final, a exaustão dominou seus músculos.
Augusto desabou ao lado da jovem, chorando feito uma criança.
Diante do desespero dele, achando que se arrependera, Rafaela tentou levantar-se, empurrando para o lado o braço que ele estendia sobre seu corpo.
— Não precisa se preocupar com isso também — gaguejou Rafaela, chorando junto com ele.
Será mais um segredo seu que levarei para o túmulo.
Augusto não permitiu que Rafaela se levantasse.
Agarrou-se a ela e deixou que o pranto saciasse o desespero.
— Não vá embora, Rafaela — rogou de forma sentida.
Perdoe-me por tudo o que lhe disse.
Eu estava com medo.
Nunca antes havia sentido nada semelhante por pessoa alguma.
Quis afugentá-la da minha vida por covardia.
Agredi você, ofendi-a com palavras que estão longe de revelar o que sinto.
Menti. Senti-me um canalha, um espectro perdido entre as sombras do homem e do padre, sem saber como definir a que lado pertencia.
Você é a mulher que eu adoro.
Não é uma menina, muito menos imunda ou um demónio.
É a mulher que meu coração escolheu para amar...
Apesar de magoada, a sinceridade de Augusto era tanta que Rafaela não hesitou em acreditar.
Mais do que as palavras, ouvia seu coração.
— Você foi muito duro — choramingou a jovem.
Logo comigo, que o amo tanto!
— Eu sei, perdoe-me mais uma vez — suplicou Augusto, beijando a ponta de seus dedos.
— Não precisava ter-me humilhado tanto.
Talvez seja melhor mesmo partir.
Agora você é um, mas depois que o impacto deste momento passar, tenho medo de que me trate mal novamente.
Augusto deu um salto por cima de Rafaela e jogou-se ao chão.
De joelhos, implorou:
— Fique comigo, por favor.
Juro pela minha vida que nunca mais vou tratá-la dessa forma.
O que fiz foi por medo e covardia.
Mas agora aceito o que sinto.
Amo-a de forma tão intensa e verdadeira que preferiria a morte em lugar de deixá-la.
— Você diz isso agora, no calor da paixão.
Mas como será depois, quando vier o arrependimento, e a culpa o atormentar?
— Se preciso for, deixo a batina.
— Não acredito.
Por mais que diga que me ama, sei que seu senso de dever para com a Igreja é muito grande.
— Digo que a amo porque é verdade.
Nunca antes experimentei sentimento semelhante.
— Não está confundindo as coisas?
Tentando me proteger?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 11:56 am

— Quero protegê-la, sobretudo, porque a amo.
Augusto tomou-a nos braços novamente, e o beijo que se seguiu transmitiu-lhe todo seu amor.
Rafaela não tinha como duvidar da veracidade dos sentimentos dele.
Agora compreendia o porquê de sua reacção tão dura.
Ela o amava também.
Os dois tinham tudo para serem felizes juntos, não fosse o facto de que ele era um padre, e ela, uma fugitiva.
— O que vamos fazer? — tornou Rafaela, demonstrando todo o seu medo.
— Esperar. Enquanto eu estiver sob a protecção da Igreja, nada irá nos acontecer.
Rafaela abraçou-o emocionada, já esquecida da dor, e prosseguiu:
— Nelma vai me detestar ainda mais do que detesta.
— Nelma é uma boa pessoa, fiel a mim em todos os sentidos.
Mas não acho que seja prudente deixar que ela perceba.
Por enquanto, temos que manter segredo perante todos.
— Perante padre Cláudio também? — questionou Rafaela.
— Principalmente perante ele, embora ache difícil.
Padre Cláudio tem um jeito desconcertante de adivinhar as coisas.
— Faremos o possível.
Augusto abraçou a jovem novamente, dessa vez com cuidado para não lhe causar mais dor.
Nunca se sentira tão feliz em sua vida.
Nada valia mais a pena do que a descoberta do amor e estar ao lado de Rafaela.
Percebeu então que por ela seria capaz de qualquer coisa.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 11:56 am

Capítulo 29

Adormecida no leito, Rafaela pairava em corpo astral poucos centímetros acima do físico, embalada pela leveza proporcionada pelo acto sexual pleno.
Não demorou muito para que os olhos etéreos se abrissem lentamente, fixando-se na figura esguia que a fitava ao lado.
O susto levou seu corpo astral a se empertigar, pondo-a de pé em frente a Carlos Augusto.
— Olá, minha querida — cumprimentou o rapaz.
— Augusto! — exclamou Rafaela, envergonhada por se encontrar com ele logo após o acto sexual.
Você aqui?
— Vim ver como está.
— Veio só?
— Dessa vez, vim.
Paulina está ocupada com outros assuntos.
Rafaela abaixou os olhos e cobriu o corpo diáfano, puxando a camisola transparente para cima do colo.
— Não é o que você está pensando... — a jovem desculpou-se constrangida.
— Não estou pensando nada — contrapôs Carlos Augusto, naturalmente.
Por que você se culpa tanto?
— Não está aborrecido por eu ter dormido com padre Augusto?
— É claro que não.
Já disse que o amor que nos une é fraterno.
Só o que me preocupa é o seu bem-estar.
Por isso, vim aqui para tentar orientar seus pensamentos por um caminho de transformação sem dor.
— Eu vou ser presa? — Carlos Augusto assentiu.
Como você sabe disso?
— De onde estou, posso ver muitas coisas.
— Você tem premonições ou previsões do futuro?
— O tempo é apenas uma ilusão criada pela mente humana para compreender a vida.
No cosmo, contudo, passado, presente e futuro são simultâneos, acontecem ao mesmo tempo.
— Não compreendo.
— Há duas maneiras de se transitar pelo tempo.
Podemos acossá-lo mentalmente ou ultrapassar a barreira das dimensões e levar o corpo físico a um mundo paralelo a este em que estamos.
— Como assim? — Rafaela espantou-se.
— As dimensões que existem no universo são infinitas, e cada uma delas vive em um tempo da história mundial ou pessoal de cada ser humano.
É como várias fotografias tiradas em sequência, sendo que cada uma revela um momento de vida.
— Não sei se estou entendendo.
Você quer dizer que há várias de mim vivendo em dimensões diferentes?
— Isso mesmo.
E cada uma numa etapa diferente da sua vida.
— Se eu saltar para uma dessas dimensões, vou ver a mim mesma?
Carlos Augusto assentiu.
- Posso interagir comigo?
— Depende. Em corpo astral ou mental, você será apenas observadora.
Em corpo físico, poderá interagir com seu outro eu.
— É assim que se prevê o futuro? — Rafaela questionou.
— Quando se abre uma janela para outro tempo, é possível apenas espiar para ele.
É o mais comum, pessoas fazem isso a todo instante.
É por isso que o futuro pode acontecer de várias maneiras, porque há muitas dimensões vivendo coisas distintas.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 01, 2016 11:56 am

E o que se realizará nesta dimensão vai depender das crenças pessoais ou da humanidade, já que o futuro será atraído pela modulação de pensamentos do ser humano, individual ou colectivamente considerado.
— Você quer dizer que há chance de modificarmos o futuro?
— De modificarmos, não.
De realizá-lo de outra maneira, tal qual ele está materializado em outra dimensão.
— Como?
— O futuro não é uma coisa imposta à humanidade, mas uma formação individual ou colectiva, decorrente das crenças de cada pessoa ou povo.
Daí porque, potencialmente, existem vários futuros possíveis, que podem ser diferentes em dimensões distintas, já que nada impede que as pessoas de outros planos tenham outras ideias e outros sentimentos.
Mas existe uma tendência de que as coisas se repitam numa dimensão tal qual acontece em outra, porém, isso não é absoluto.
É por isso que muitas previsões e premonições não se realizam, dando a impressão de que o futuro pode ser alterado.
Mas ele não é alterado.
É realizado segundo outro parâmetro, outra possibilidade. Do contrário, tudo seria predeterminado e não teríamos vontade própria.
— Mas não podemos modificar o passado.
— Nessa dimensão, não.
Apenas em outra.
Se você altera o passado de uma dimensão paralela, estará modificando o futuro daquela outra dimensão, na qual você até poderá viver, já que, muito provavelmente, seu outro eu escolheu o mesmo caminho.
— Parece coisa de ficção científica — Rafaela observou.
— A ficção científica, muitas vezes, é feita por homens, que, em algum momento, vislumbraram as coisas do futuro ou do passado sem nem se dar conta disso.
Pensam que tudo saiu de suas mentes, mas não sabem que espiaram por uma dessas janelas e retractaram a realidade de outras dimensões e até de outros planetas.
Você vai ver que várias invenções tecnológicas que hoje aparecem apenas nos filmes de ficção científica, daqui a alguns anos, existirão realmente.
— Isso tudo é muito complicado.
— Mais ou menos.
Usando a inteligência sem "pré-conceitos" nem racionalismo extremo, ficará mais fácil.
É preciso ter a mente aberta para que seja possível compreender os mistérios da vida.
— Por que está me dizendo tudo isso?
Para me explicar que me viu presa, mas em outra dimensão, e que eu posso mudar meu destino?
— Exactamente. Tudo vai depender do seu poder interior, daquilo em que acredita, da liberação de suas culpas.
Se você se mantiver atormentada pelas escolhas do passado, não vai conseguir evitar o sofrimento.
— O que posso fazer? — choramingou Rafaela, sentindo o pânico aproximar-se.
Não quero sofrer.
— Conscientemente, ninguém quer.
Mas você está atraindo essa situação porque não consegue se perdoar.
— Você se perdoou?
— Só depois de sofrer, lamentavelmente.
Atraí a tortura e a morte por causa de minhas atitudes pretéritas, pois em outra vida fui um soberano cruel, que mandava torturar e matar meus inimigos.
Até aquele momento, não consegui me perdoar e escolhi a experiência para, por meio do sofrimento, eliminar de uma vez por todas o sentimento de culpa.
— E conseguiu?
— Consegui. Infelizmente, não pude fazer de outra forma, pois não estava pronto nem maduro.
Hoje consigo enxergar assim, mas lamento que você ainda esteja presa a essa necessidade de dor.
— Por quê? Por que tenho que passar por isso?
— Não tem. É por isso que estou aqui para alertá-la.
Você pode mudar, se quiser.
— Como? Libertando-me de culpas do passado que eu nem conheço?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 02, 2016 11:12 am

— Você conhece.
Pode não se lembrar delas, mas sua alma retém todas as experiências pretéritas.
E suas culpas funcionarão como um ímã, que atrairá alguém que a delatará aos militares.
— O quê? — Rafaela assustou-se, levando a mão ao coração.
Quem é? Quem fará isso comigo?
— Não posso lhe dizer, não importa.
Não estou autorizado a retirar de você a oportunidade de reverter seus pensamentos para uma escolha mais saudável e feliz.
Se você ainda mantiver a crença de que a dor é o melhor caminho, nada do que eu fizer irá afastá-la desse destino.
Se você evitar aquele que supostamente lhe trará o mal, outros tomarão seu lugar para que se cumpra sua programação de vida.
Não adianta lhe dizer o nome da pessoa.
O que você precisa é modificar o seu interior, acreditar que esse sofrimento não é inevitável.
Tenha em mente que você poderá sofrer não pela palavra do delator, mas pelo poder que confere a ele, como instrumento de purificação de suas culpas — Carlos Augusto fez uma pausa e arrematou:
— Tenho que ir agora.
Estou sendo chamado.
— Não! Augusto, por favor, não me deixe assim.
Diga-me quem é esse inimigo, para que possa me defender.
De forma suave, Carlos Augusto reconduziu-a de volta ao leito.
Juntou as mãos da jovem entre as suas e beijou-as gentilmente.
— Estarei orando por você e enviando-lhe pensamentos de luz.
Confie em Deus, e sobretudo, em si mesma.
Você não precisa sofrer.
— Tenho medo... — disse Rafaela.
Aos pouquinhos, o espírito desvaneceu-se no ar, deixando em seu rastro um halo branco e brilhante.
— Augusto, não vá — chamou Rafaela, tentando alcançá-lo com os dedos.
Augusto! Augusto!
Rafaela acordou com o padre segurando no ar suas mãos que se agitavam.
— Estou aqui, Rafaela — disse Augusto com ternura.
O que foi que houve?
Teve algum pesadelo?
Rafaela assustou-se ao vê-lo, tentando encaixar a mente, ainda impressionada pelo sonho, na realidade física.
Aos poucos, percebeu que o Augusto que a fitava não era o mesmo por quem chamara.
— Estranho — divagou a jovem.
Estava sonhando com Carlos Augusto.
— O seu namorado? — retrucou Augusto, mordido pelo ciúme, seu velho conhecido.
Era por ele que chamava?
— Não sei exactamente.
De forma muito rápida, Augusto conseguiu conter os ciúmes e abraçou-a com paixão, sentindo o corpo da jovem tremular em seus braços.
— Preciso voltar para meu quarto — anunciou o padre.
Já é tarde e, embora quisesse muito, não posso dormir com você.
— Que bom que ainda está aqui — desabafou Rafaela, esquecendo-se do sonho e voltando para Augusto toda sua atenção.
Tive medo de dormir e você desaparecer.
— Isso nunca irá acontecer.
De agora em diante, darei um jeito de estarmos sempre juntos.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 02, 2016 11:12 am

De volta ao seu quarto, Augusto atirou-se na cama.
Todo o seu corpo estava impregnado do perfume de Rafaela.
Estava apaixonado, não pretendia mais esconder esse facto de si mesmo.
Não tinha como negar ou evitar.
Sentia remorso e culpa por ter violado seus votos, mas o amor carnal era algo poderoso, muito mais do que qualquer dogma religioso.
Era um conflito extremo aquele em que Augusto se envolvera.
Gostaria de continuar a exercer o sacerdócio quase tanto quanto queria ficar com Rafaela.
O padre passou o resto da noite reflectindo, pesando os prós e os contras, fazendo um balanço de sua vida.
Não podia, naquele momento, abandonar a Igreja.
Era por meio dela que a Esperança agia sem levantar suspeitas, salvando muitas vidas.
Em nome desse movimento, Rafaela teria que esperar.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 02, 2016 11:12 am

Capítulo 30

Todas as noites, depois que Nelma se recolhia, Augusto descia as escadas do porão e entregava-se a um amor desesperado, consumido pela paixão.
Era um sentimento confuso, mas verdadeiro e pleno, que preenchia cada partícula dos corpos de ambos.
Estavam apaixonados, e o desejo nada mais era do que o fruto dessa paixão.
As noites mal dormidas não passaram despercebidas por Nelma.
Por mais que Augusto não descuidasse de suas tarefas, a criada conhecia-o muito bem.
As finas olheiras que começavam a se formar não deixavam dúvidas do cansaço.
— O senhor precisa se cuidar — disse Nelma ao almoço.
Está ficando pálido e magro.
— Estou bem, Nelma — respondeu Augusto, evitando olhar para Rafaela.
Um pouco cansado, é só.
— Isso não está certo.
O senhor é um ser humano.
Tem que ter tempo para o repouso também.
Não é só trabalho, trabalho, trabalho...
— Concordo com você, Nelma — acrescentou Rafaela.
— Padre Augusto tem trabalhado demais.
Havia um tom jocoso na voz dela que Nelma não percebeu.
Como nem de longe passava pela sua cabeça que o padre estivesse envolvido com uma mulher, Nelma não notava os sorrisos abafados, as trocas de olhares disfarçados nem os casuais esbarrões, que, constantemente, um dava no outro.
Augusto era um padre acima de qualquer suspeita.
Por mais que Nelma não confiasse em Rafaela, tinha certeza de que ele estava muito além dos prazeres da carne.
Mesmo assim, quando as olheiras começaram a surgir, Nelma resolveu tomar uma atitude.
Sem que ele soubesse, procurou padre Cláudio e participou-lhe suas preocupações.
— O senhor sabe como padre Augusto é responsável — disse Nelma.
Mas não está direito fazer como ele faz.
Não sei por que fica acordado até tão tarde.
Penso que só pode ser por causa da escola...
Agora veja, se o padre ficar doente, quem vai dar aula no lugar dele?
E as missas?
Padre Augusto devia pensar nisso.
— Pode deixar comigo — tranquilizou Cláudio.
Falarei com ele.
Depois que Nelma saiu, o padre quedou-se pensativo.
Realmente, a atitude de Augusto era muito estranha.
Em muitos anos exercendo o sacerdócio e o magistério, nunca tivera uma estafa.
Conhecedor das necessidades do corpo, sempre se cuidara e dedicara o tempo necessário ao repouso.
A Esperança atravessava um período calmo, com poucos serviços para resolver.
O que havia então que consumia suas horas de descanso?
A resposta era uma só e bastante clara.
Não devia ser por outro motivo que Augusto, inexplicavelmente, adiara a partida de Rafaela.
Viera com uma história de que ela não estava pronta, de que era muito jovem e insegura para viver sozinha no exterior.
Pedira-lhe tempo para prepará-la, mas o tempo só servira para permitir que acontecesse o que ele mais queria evitar.
No outro dia, quando Augusto terminou de dar a última aula, encontrou Cláudio esperando-o no corredor.
Cumprimentou-o com um leve aceno de cabeça, seguindo em sua companhia até a sala dos professores.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 02, 2016 11:13 am

— Preciso falar com você — anunciou Cláudio.
— Algum problema?
— Não sei.
Você é quem irá me dizer.
Augusto guardou o material didáctico no armário e encarou Cláudio, nitidamente percebendo uma leve reprovação em suas palavras.
— Não tenho nada a lhe dizer — Augusto objectou, forçando um tom natural.
— Soube que você não tem dormido direito.
— Soube? Quem lhe disse isso?
Nelma? — Cláudio não respondeu.
Só pode ter sido ela.
Há dias, vem se preocupando desnecessariamente.
— Será?
— Eu estou bem.
Não quero que ninguém perca tempo se preocupando comigo.
— Se está bem, então, por que essas olheiras? — silêncio.
É por causa dela, não é?
— Dela quem?
— Não se faça de desentendido.
Você sabe muito bem de quem estamos falando.
— E se for? — Augusto irritou-se.
— Você cedeu à tentação da carne?
Augusto tentou desviar o olhar e sentou-se a uma mesa na cantina, para onde haviam se dirigido sem perceber.
A seu lado, Cláudio esperava uma resposta.
— Eu a amo — confessou Augusto inesperadamente.
Cláudio cerrou os olhos e jogou a cabeça para trás, ciente do dilema que deveria enfrentar.
— Nós dois sabíamos que isso ia acontecer — Cláudio falou desanimado.
Era só uma questão de tempo.
— Sei que isso vai contra todos os meus votos, mas não pude evitar.
Amo-a como nunca amei ninguém em minha vida.
— Você nunca amou realmente.
Acho que nem sabe o que é isso.
— Como não sei?
O que sinto por Rafaela é real.
— Será mesmo?
E o que pretende fazer?
— Não sei ainda.
Neste momento, não posso deixar a Igreja.
Pessoas dependem de mim.
— Não acredito que você esteja pensando em abandonar o sacerdócio por causa de uma aventura!
— Rafaela não é uma aventura!
Será que você não entendeu que eu a amo?
— Você sabe que esse amor é impossível.
E seu voto de castidade?
— E o seu? Você também cedeu à mesma tentação.
— Mas não cometi o erro de me apaixonar.
Mulher nenhuma vale minha vocação.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 02, 2016 11:13 am

— Não estou mais seguro de minha vocação.
— Augusto, pense bem.
O que essa moça está fazendo com você?
— Nada. Nós nos apaixonamos, já disse.
— Acabe com isso enquanto ainda é tempo.
Vamos providenciar a fuga dela, como planejamos antes.
— Não. Não posso mais permitir que ela se vá.
— Por quê? Para continuar fornicando às escondidas?
— Você faz parecer que nosso amor é uma coisa suja.
— E não é? Você é padre, fez voto de castidade.
Não pode manter uma amante escondida em casa para atender aos seus prazeres pessoais.
— Não se trata disso! — Augusto protestou com raiva.
— Você já teve o que queria.
Dormiu com ela, experimentou o sexo.
Não acha que agora já chega?
— Você não entende.
Rafaela e eu nos amamos.
É de verdade, é para sempre.
— Não é de verdade, muito menos para sempre.
— Você não está dentro de mim para saber.
— Acredite em mim, eu sei.
Já vi isso muitas vezes antes.
— Está errado.
— Será mesmo?
Volto a dizer que você está se iludindo.
Rafaela o ama porque você é o herói da vida dela.
Depois que tudo isso acabar, ela vai embora e nem vai se lembrar de que você existiu.
Ou talvez comente com as amigas como foi divertido seduzir e se deitar com um padre.
Não são todas as mulheres que têm esse privilégio.
— Agora está sendo sarcástico e cruel.
Rafaela não é assim.
Tenho certeza de que ela me ama.
— Gostaria muito que você estivesse certo.
E mesmo que esteja, mesmo que ela o ame como você diz, ainda assim, você não pode tê-la e à Igreja ao mesmo tempo.
Tem que escolher.
Ou fica com Rafaela, ou com o sacerdócio.
Não posso compactuar com um desrespeito aos votos que você fez diante de Deus.
Sabia que era assim quando entrou e aceitou porque quis.
— Pensa que não sei disso?
Acha que não me culpo, dia e noite, por estar nos braços de uma mulher?
Mas é mais forte do que eu.
Não posso evitar.
Um amor assim não pode ser pecado.
— Não é pecado entre pessoas normais.
Mas você não é normal.
Escolheu consagrar sua vida a Deus.
Tem que assumir a responsabilidade perante os juramentos que fez de livre e espontânea vontade.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 02, 2016 11:13 am

— Você está sendo intransigente.
— Sou seu amigo — afirmou Cláudio, mudando o tom de voz e apertando o ombro do outro.
Antes de mais nada, sou seu amigo.
Contudo, não posso me dissociar do sacerdócio que exerço há tantos anos.
O que falo é para seu bem.
— Só eu sei o que é bom para mim.
— Tenho minhas dúvidas.
— Por favor, Cláudio, não me vire as costas num momento como esse.
Você é meu único amigo.
— Não vou lhe virar as costas.
Não concordo com o que você faz, mas não vou me colocar contra você.
Rezo apenas para que enxergue a verdade e ponha logo um fim nessa loucura.
Ainda podemos mandá-la em segurança para a Europa.
— Não vai contar nada a ninguém?
— É claro que não!
Estou silenciado pelo sigilo da confissão e pela lealdade a um amigo.
— Não lhe contei essas coisas em confissão.
— Mas é como se fosse.
E, como disse, sou seu amigo, acima de tudo.
Nada me faria trair nossa amizade.
Augusto fitou Cláudio com emoção e arrematou comovido:
— Obrigado. É muito bom poder contar com você.
— Não conte comigo para acobertar essa loucura.
Conte comigo para aconselhá-lo e ouvi-lo. Nada mais.
— Farei isso.
Obrigado novamente.
Trocaram um abraço fraterno e separaram-se.
As palavras de Cláudio pareciam sinceras, e Augusto respirou mais aliviado.
No fundo, aquela conversa lhe fizera bem.
Desafogara a angústia do peito, embora não amenizasse o conflito.
O dilema persistia:
ou Rafaela, ou a Igreja.
As duas coisas, sabia que não podia ter.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 02, 2016 11:13 am

Capítulo 31

Reinaldo deu um trago no cigarro e soltou a fumaça espiralada no ar, observando os anéis esbranquiçados penetrarem uns pelos outros.
Deitado no escuro, divertia-se com a sombra produzida pela luminosidade escassa que penetrava pela janela e incidia sobre a fumaça, lembrando fantasmas disformes desvanecendo no ar.
A seu lado, o rapazinho de dezoito anos dormia placidamente.
Reinaldo fitou-o com repulsa.
Era assim depois que terminava o acto sexual.
Fazia o que queria com os rapazes e depois os repelia, enojado com a presença daqueles homens.
Sempre fora cauteloso em suas escolhas.
Gostava muito de jovenzinhos, mas tomava o cuidado para não se envolver com nenhum menor de idade.
Fazia questão de ver a identidade dos garotos, a fim de não se meter em encrencas.
Era um policial militar, tinha que dar o exemplo, e um escândalo de pedofilia deixaria uma nódoa indelével em sua ficha funcional, valendo-lhe até, quem sabe, a exoneração do cargo.
Enquanto o jovem dormia, Reinaldo levantou-se sem fazer barulho e vestiu-se rapidamente.
Acostumado àquelas saídas furtivas, não teve problemas em deixar o apartamento do rapaz sem ser notado.
Desceu pelo elevador e entrou no carro estacionado em frente ao edifício.
O dia agora começava a nascer, deixando um imenso vazio no peito de Reinaldo.
Tivera tantos amantes e por nenhum se apaixonara.
A caminho de casa, pensava no jornalista, sem saber que sombras espessas o acompanhavam durante todo o percurso, saciadas com a carga densa e escura que emanava de sua aura.
Sugado por espíritos vampirizadores, sentiu o incómodo do cansaço e aborreceu-se.
Reinaldo não gostava de dormir.
Quando entrou em seu apartamento, foi directo à cozinha preparar um café para afugentar o sono.
As poucas horas que dormira ao lado do rapaz tinham que ser suficientes.
A campainha soou, e Reinaldo olhou pelo olho mágico.
Do lado de fora, Paulão aguardava-o com impaciência.
— O que foi que houve? — Reinaldo indagou, assim que a porta se abriu.
— Onde você esteve a noite toda? — questionou Paulão, pisando forte ao entrar.
Procurei-o por toda parte.
— Não dormi em casa.
— Ah! Seu malandro, quem é a gata?
Por que todos tinham que pensar que um homem só podia dormir fora se fosse com uma mulher?
Reinaldo mordeu os lábios com força e virou as costas a Paulão.
— Não é ninguém importante — respondeu com frieza.
Na cozinha, a água ferveu.
Reinaldo coou o café, ofereceu uma xícara a Paulão e esperou.
— Vim aqui para lhe trazer um comunicado — iniciou Paulão.
Sei que hoje é seu dia de folga, mas tinha que vir avisá-lo.
— De quê?
— Prendemos o motorista do general Odílio.
A notícia despertou-o mais do que o café.
Reinaldo endireitou as costas e retrucou interessado:
— O que ele fez?
— O carro que ele dirigia foi detido numa batida policial.
E adivinhe!
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 02, 2016 11:14 am

— quê?
— Ele estava transportando passaportes falsos, alguns milhares de dólares e passagens aéreas para a Inglaterra.
— Não me diga! — Reinaldo impressionou-se.
— Sabia que você ia gostar de saber.
— Ele já foi interrogado? — Paulão assentiu.
Disse alguma coisa?
— Afirma que fez tudo sozinho.
Quer nos convencer de que o general não tem nada a ver com isso.
— Essa é boa.
Como ele conseguiria passaportes falsos e dinheiro?
Paulão deu de ombros e acrescentou:
— O homem é corajoso.
Está levando a culpa sozinho.
— Ele vai falar.
É tudo uma questão de tempo, você vai ver.
— Estamos trabalhando nisso.
— Qual o nome dele?
— Alfredo.
— O general já sabe que ele foi preso?
— Ainda não. Mas vai saber.
Quando a ficha dele cair em suas mãos, vai bater direitinho em nossa sala.
— Temos que evitar isso.
Por enquanto, não fiche o homem.
Deixe-o comigo, e o general na ignorância.
Vai ser bom.
Reinaldo terminou o café, tomou banho e saiu com Paulão, sentindo-se revigorado.
Com ele, as sombras também vibravam ante a iminência de se beneficiarem com a energia pesada das salas de tortura.
Reinaldo esqueceu que era sua folga, pois não queria perder a oportunidade de interrogar Alfredo pessoalmente.
Aquela operação lhe pertencia.
Fora ele quem montara todo o esquema de vigilância de Odílio.
Tinha o direito de aproveitar cada momento de sua prisão e tortura.
Quando entrou na sala de interrogatórios, o homem estava desmaiado no chão, o rosto, uma massa disforme de carne e sangue.
Reinaldo puxou o sujeito pela gola da camisa manchada, sem que ele reagisse.
Fora bastante machucado, e Reinaldo teve medo de que não resistisse.
— É preciso pegar leve com ele — Reinaldo alertou irritado.
Não queremos que ele morra antes de entregar o verdadeiro traidor.
Alfredo foi deixado sozinho em sua cela e até recebeu tratamento em suas feridas, tudo para que se recuperasse e estivesse em condições de fornecer as valiosas informações sobre o general.
Sem provas robustas, Reinaldo não se atreveria a colocar as mãos em Odílio.
Sendo um general poderoso, muito influente, sua prisão somente seria autorizada mediante provas irrefutáveis de que vinha participando do movimento contra-revolucionário.
Pena que o tal Alfredo não fora preso dirigindo o carro do patrão, mas o seu próprio.
Tudo teria sido mais fácil e seguro se o automóvel flagrado fosse o do general.
Mesmo assim, fora um grande avanço.
Reinaldo estava certo de que, cedo ou tarde, arrancaria a informação que tanto necessitava.
Dois dias depois, seu superior recebeu um telefonema do general Odílio, buscando informações sobre o paradeiro do motorista.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 02, 2016 11:14 am

Para evitar um possível reconhecimento de Reinaldo, que poderia ter sido visto na igreja de padre Augusto, Paulão foi mandado para falar com ele, em uma sala com escutas.
No gabinete contíguo, Reinaldo e outros agentes escutavam toda a conversa.
— Muito bem, general, em que posso ser-lhe útil? — começou Paulão.
— Não sei se você poderia me ajudar.
Estou procurando meu motorista, que desapareceu faz dois dias.
— Sei. Como é o nome dele?
— Chama-se Alfredo de Souza Coelho.
— Nunca ouvi falar.
E não entendo, general.
Por que procurá-lo aqui?
Por acaso ele é subversivo?
— É claro que não! — o rosto do general avermelhou-se imediatamente.
Mas ele pode ter sido induzido a erro por alguém.
— Induzido a erro?
— Alfredo é muito ingénuo.
Faz tudo para todo mundo sem nem perguntar.
Imagine você que, certa vez, aceitou levar um pacote para um conhecido quando viajava a São Paulo.
E sabe o que tinha no pacote? — Paulão meneou a cabeça.
Maconha. Foi um transtorno, é óbvio, mas conseguiram prender o verdadeiro traficante, e ele foi solto.
— Desculpe, general, mas esse Alfredo me parece um tanto idiota.
— Ele é. Coitado.
— E o senhor acha que ele pode ter sido induzido a quê, exactamente?
— Não sei. Mas assim como levou a maconha, pode ter sido usado para transportar materiais ilícitos.
— Do tipo...
— Não sei. Estou apenas supondo.
— Bem, general, lamento, mas ele não está aqui.
— Tem certeza?
Por mais que Paulão tivesse vontade de gritar com o general, tinha que manter o respeito à sua patente e respondeu com forçada educação:
— Certeza absoluta.
Para cá somente são trazidos os inimigos da pátria.
Se esse não é o caso do seu motorista, devia procurá-lo em outro lugar.
Aconselho-o a accionar a polícia e pedir uma investigação formal.
Ele pode ter sido vítima de meliantes.
— Farei isso — arrematou o general, que não se convencera com as informações de Paulão.
A mulher dele está transtornada.
— Imagino.
— Bem. Obrigado, capitão, pela sua ajuda — Odílio levantou-se, e Paulão, junto com ele.
Passar bem.
Com uma continência respeitosa, Paulão abriu a porta para o general.
Quando voltou para dentro, a porta lateral se abriu, e Reinaldo entrou.
— O que achou? — Reinaldo indagou, sentando-se na cadeira que antes fora ocupada pelo general.
— Ele está com medo.
— Também senti isso pelo tom de sua voz.
O homem está apavorado.
— É claro que ele sabe que Alfredo foi preso.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 02, 2016 11:14 am

— Lógico! E toda aquela conversa de motorista ingénuo.
A quem ele pensa que engana?
— Ele está desesperado.
Será que vai fugir?
— A casa dele está sendo vigiada.
Enquanto isso, vou retomar minha conversinha com Alfredo.
Em breve Reinaldo voltou a interrogar Alfredo, utilizando-se de métodos violentos para obter as respostas que desejava.
Alfredo, contudo, não abria a boca.
Quanto mais apanhava, mais silenciava.
Sua lealdade ao general era extraordinária.
Aquilo, porém, não era um obstáculo para Reinaldo.
Ele até gostava dos mais renitentes.
Podia assim descarregar sua fúria sem maiores indagações.
Quando deixou o homem inconsciente no chão e voltou para sua sala, com a ficha do homem nas mãos, tinha certeza de que saberia o que fazer para convencê-lo a falar.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 02, 2016 11:14 am

Capítulo 32

Havia um carro parado do outro lado da rua, em frente à igreja de Augusto.
No lado do motorista, Reinaldo tamborilava no volante ao ritmo da música que saía do rádio, consultando o relógio sem esboçar qualquer emoção.
Finalmente, depois de cerca de meia hora, o general Odílio surgiu na esquina, peito estufado, de braços dados com a mulher.
Reinaldo saltou do carro assim que o casal entrou na igreja.
Agindo o mais naturalmente que lhe foi possível, entrou também e sentou-se no último banco.
O general foi imediatamente para o confessionário, ajoelhando-se do lado do penitente e puxando a cortina, que lhe encobria somente o flanco.
Do lado de fora, a mulher esperava.
O que Reinaldo mais desejava, naquele momento, era ouvir a conversa do general com o padre, do traidor com seu salvador.
Não havia nenhuma suspeita pairando sobre Augusto, cuja organização Esperança, de tão bem esquematizada, era desconhecida e nem sequer imaginada.
Ninguém nunca ouvira falar na Esperança, o que provava o sucesso absoluto de suas actividades.
Dos perseguidos políticos levados à fuga, apenas Rafaela não escapara, porque não quisera.
E ela, onde estava, não representava nenhuma ameaça ao movimento.
A confissão foi prolongada, e Reinaldo aguardou pacientemente.
Havia muito aprendera, em sua profissão, que a paciência era uma qualidade essencial ao sucesso de suas operações.
Quando o general saiu, a mulher entrou.
Vendo-o sentado no banco, Reinaldo teve que conter o desejo de atirar-se sobre Odílio e esmurrá-lo até a morte.
Estava difícil fazer o motorista falar e ainda não fora possível pôr a mão em seu trunfo.
Mas não iria tardar.
A mulher levou bem menos tempo do que o marido, e os dois saíram de braços dados, caminhando pela nave da igreja como dois inocentes pombinhos.
Reinaldo não os encarou, tampouco eles o fitaram.
Seguiram em frente e saíram.
De onde estava, Reinaldo viu a cortina do lado do padre abrir-se, e Augusto surgiu como uma visão radiosa.
Seu coração saiu do ritmo, a respiração falhou por momentos.
Como podia um homem tão lindo ocultar-se debaixo da batina?
Foi preciso muito esforço para centrar-se em sua missão e deixar de lado a paixão platónica pelo padre.
Augusto já havia cerrado a cortina dos dois lados e iniciara o caminho para fora da igreja, quando a voz de Reinaldo soou atrás dele:
— Augusto.
O padre virou-se espantado, para ver quem o chamava apenas pelo nome, imediatamente reconhecendo o interlocutor.
— Reinaldo! Só podia ser você.
Não o vi chegar.
— Eu estava sentado ali no fundo — com o dedo, apontou para o banco onde estivera.
Não queria atrapalhá-lo em suas confissões.
— Tomara que não tenha esperado muito.
— Um pouco. Seu penitente tomou bastante do seu tempo, não foi?
É comum um general demorar-se tanto assim?
A pergunta de Reinaldo não agradou Augusto, que retrucou desconfiado:
— Quem foi que lhe disse que atendi a um general?
— Ele é uma pessoa conhecida — Reinaldo disfarçou.
— Você o conhece?
— No meu ramo, conhece-se muita gente.
— Pensei que você fosse advogado civilista.
— E sou.
— Achei que não se envolvia com militares.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 02, 2016 11:14 am

— Não me envolvo, mas conheci alguns por intermédio de amigos que militam nessa área.
E esse aí, já vi algumas vezes, embora nunca tenhamos sido apresentados.
Quando o vi entrar em seu confessionário, estranhei, pois pensei que essa gente nem tivesse religião.
— Você se apressa em seus julgamentos.
Há gente religiosa em qualquer lugar.
— Ser religioso não significa ser uma pessoa de bem.
Muitos pensam que a religião os absolverá da falta de carácter para com os homens.
— Por que diz isso? — estranhou Augusto.
— Não sei.
Não simpatizei muito com esse general Odílio.
Nas poucas vezes em que o vi, me pareceu uma pessoa pouco confiável.
— Não entendo seu interesse pelo general.
Ele é uma pessoa de bem.
— Será? — Augusto não respondeu.
Ouvi dizer que o motorista dele sumiu.
As duas sobrancelhas de Augusto ergueram-se ao mesmo tempo, e uma desconfiança atroz fez estremecerem suas palavras:
— Quem lhe contou isso?
— Como disse, conheço muita gente.
Pessoas ligadas ao governo, que comentam certos detalhes à mesa de um bar, depois de uma dose ou outra.
Augusto silenciou, mortificado pelo alerta dos seus sentidos.
Havia algo de muito errado na conversa de Reinaldo.
Se ninguém sabia do desaparecimento de Alfredo, como o facto podia estar sendo comentado nas rodinhas de bares, entre amigos?
— Não compreendo... — balbuciou Augusto, cuidando para não falar além do necessário.
Como é que essas pessoas sabem desses detalhes?
— Ora, há gente muito bem informada no governo, sabia?
— E você se dá com essa gente?
— Me dou com todo mundo.
Faz parte da minha profissão.
— Sei. E o que mais esses seus amigos tão bem informados do governo lhe falaram do general?
Agora foi a vez de Reinaldo se surpreender com a astúcia do padre. Augusto estava invertendo as coisas, tentando usá-lo para descobrir o quanto o governo sabia do general.
— Nada — Reinaldo respondeu em tom neutro.
Afinal, o general também é do governo, e seus pares não iam revelar todos os seus segredos.
Só o que soube foi isso:
que o motorista do general desapareceu inexplicavelmente.
Disseram que ele esteve no quartel à procura do rapaz.
Reinaldo fez uma pausa e acrescentou com curiosidade:
— Por que será que ele foi procurá-lo justo no quartel?
— Não sei.
— Será que o rapaz está envolvido em alguma actividade subversiva? — Augusto não respondeu, cada vez mais assustado com Reinaldo.
Só pode ser isso.
Esse general deve ter culpa no cartório.
O que você acha?
— Não acho nada.
— Ele não lhe contou?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 02, 2016 11:15 am

— O que ele me contou está protegido pelo sigilo da minha profissão.
Não posso revelar-lhe nada.
— É claro que não.
Nem eu queria isso.
Falei por falar.
— Entendo.
Pela reacção de Augusto, estava claro que Reinaldo fora longe demais.
Empolgara-se com a investigação e quase deixara escapar o que não devia.
Resolveu mudar de assunto:
— E você?
Como vão as coisas?
— Estou bem.
— Eu sempre tive uma curiosidade, Augusto...
— Qual é?
— É verdade mesmo que os padres não fazem sexo com ninguém?
Era a segunda vez que Reinaldo vinha com aquele assunto, para desagrado de Augusto.
O padre suspirou rapidamente e, fazendo um muxoxo, respondeu:
— Não devem.
Se fazem ou não, é problema de cada um.
— E você? Já fez?
— Com todo respeito, Reinaldo, não vejo em que isso possa lhe interessar.
— Desculpe-me pela indiscrição.
Foi apenas curiosidade.
— Não faz mal.
— Eu... conheci uma pessoa — Reinaldo segredou.
Acho que estou apaixonado.
— É mesmo? — retrucou Augusto, feliz por mudarem de assunto.
Isso é muito bom.
— Não sei.
Não sei se essa pessoa sente o mesmo por mim.
— Por que não lhe pergunta?
— Não posso.
— Você devia se declarar.
É melhor saber logo o que ela sente por você.
Assim não alimentará ilusões inúteis ou, do contrário, poderá ser feliz mais depressa.
— Tenho medo de que ela me rejeite.
Acho que tem outro amor.
Sem deixar transparecer, Reinaldo referia-se a Augusto, considerando outro amor a paixão do amigo pelo sacerdócio.
— Penso que a pior coisa é a dúvida.
Eu, no seu lugar, não perderia tempo.
A sinceridade conduz o homem por bons caminhos.
— Nem sempre. Às vezes a gente se dá mal.
— Isso é uma ilusão.
Só se dá mal quem ainda não compreende o que é verdadeiro no mundo.
São aquelas pessoas que pensam apenas em si, em seus prazeres e interesses.
O ouvinte pode distorcer as verdades que ouve, mas o que é sincero em sua fala está protegido pela natureza, que não conhece mentiras.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 02, 2016 11:15 am

— Suas palavras são muito bonitas e sábias, padre, mas não são para mim.
Ainda sou um homem do mundo, ao contrário de você, que vê na purificação da alma o caminho para Deus.
— O caminho para Deus pertence a todos, embora os que invistam na iluminação da alma mais rápido se libertem e mais rápido cheguem até Ele.
É uma escolha pessoal.
Mas todos, sem excepção, estão nessa jornada pela libertação.
— Ouvi-lo é uma tentação para a alma do pecador.
Gostaria de acreditar que as coisas são assim, mas não consigo.
Não creio no que não posso ver nem ouvir.
— Não sente a presença de Deus?
— Não. Deus é apenas uma abstracção criada pela mente de pessoas que não conseguem aceitar a inevitabilidade da injustiça e buscam confortar suas dores.
Só os tolos se deixam envolver por essa mentira que é Deus.
Se Augusto pudesse enxergar além do mundo físico, veria que as sombras que acompanhavam Reinaldo davam gargalhadas na porta da igreja.
O ambiente imantado do templo bloqueara-lhes a entrada, não impedindo, contudo, que vissem e ouvissem o que se passava dentro da edificação.
Reinaldo fazia exactamente o que elas queriam:
afastava-se cada vez mais de Deus, mergulhando fundo em um abismo de trevas e prepotência.
Augusto achou melhor não enveredar por aquele caminho.
Insistir na ideia de Deus causaria irritação em Reinaldo, levando-o, consequentemente, a refutar sua existência.
— Cada discípulo tem seu mestre — arrematou Augusto friamente.
E muitos são aqueles que se propõem a dar lições de ignorância, fazendo da verdade um privilégio do orgulho.
Segue-os quem tem os olhos fechados e prefere mantê-los assim, para não ter que se defrontar com suas próprias atitudes nem delas prestar contas à vida.
Reinaldo olhou-o admirado, sem saber ao certo o que ele queria dizer com aquilo.
— Está me chamando de ignorante? — Reinaldo atacou.
— Não — foi a resposta seca de Augusto.
E agora, Reinaldo, se me der licença, tenho que ir.
Preciso preparar minhas aulas da tarde.
Augusto despediu-se de Reinaldo com um frio aperto de mão.
Não sabia o que o incomodara mais:
se as perguntas sobre o general Odílio ou o ataque gratuito a Deus.
De qualquer modo, tinha que respeitar a crença ou a falta de crença dos outros e não lhe cabia julgar o amigo.
Rezar por ele seria a melhor solução.
Quanto a Reinaldo, a conversa com o padre o deixara ainda mais irritado.
Não conseguira apurar nada do general, mas ficara com a impressão de que Augusto o desvendara.
Efectivamente, Augusto saíra da igreja com a desconfiança abrigada em seu peito.
O general fora procurá-lo para falar do desaparecimento do motorista, pedindo a ele que alertasse sua organização para uma possível fuga, assim que ele descobrisse o paradeiro do rapaz.
Estranhamente, Reinaldo aparecera justo naquele momento, fazendo indagações comprometedoras sobre Odílio e Alfredo.
Um medo pulsante agitou suas células, levando Augusto a tremer.
E se Reinaldo fosse um espião a serviço dos militares?
Poderia descobrir não só a verdade sobre Odílio, mas o esconderijo de Rafaela.
Tinha que avisar o general, contudo, não quis ligar de sua casa.
Se os militares estivessem atrás de Odílio, sabendo que ele era seu confessor, podiam muito bem ter grampeado seu telefone.
Augusto seguiu até a paróquia de Cláudio, que rezava uma missa de sétimo dia, e foi para a sacristia, onde havia um telefone.
Retirou o fone do gancho e, rapidamente, ligou para Odílio.
A mulher do general atendeu, e, logo depois, o padre ouviu a voz de Odílio:
— Pois não, padre?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 02, 2016 11:15 am

— Preciso avisá-lo de que hoje um homem veio indagar sobre o senhor na igreja.
— Que homem?
— Reinaldo Gomes. Conhece?
— Nunca ouvi falar.
— Ele foi meu amigo em Uberlândia, é advogado.
Apareceu em minha igreja outro dia e hoje fez várias perguntas a seu respeito.
Sabe, inclusive, do desaparecimento de Alfredo.
Mesmo sem vê-lo, Augusto podia sentir a tensão do homem do outro lado da linha.
Após uma breve pausa, Odílio prosseguiu:
— Ele está blefando.
Não sabe de nada a meu respeito.
— Eu não teria tanta certeza.
Está ficando arriscado.
Acho melhor o senhor sumir por uns tempos.
— Se fizer isso, estarei assinando minha confissão.
Não. Tenho que me manter firme.
Contudo, vou mandar minha mulher e minha filha para a Europa, junto com a esposa e os filhos de Alfredo.
— Acho mais seguro.
— Preciso encontrá-lo.
Não posso abandoná-lo à própria sorte, depois de tudo o que ele fez por mim.
— Compreendo, general — Augusto respondeu.
— Depois que o libertar, seguiremos juntos ao encontro de nossas famílias.
Mais do que nunca, precisarei da Esperança.
— Sabe que pode contar connosco.
Faremos de tudo para tirá-los do país.
— Obrigado.
Desligaram, e Augusto enxugou o suor da testa.
Esperou até que Cláudio terminasse a missa para colocá-lo a par da situação.
Quando Alfredo fosse libertado, estaria tudo pronto para a partida deles para a Inglaterra.
Augusto rezava para que tivessem tempo de salvá-los.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

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