Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 04, 2016 3:49 pm

Apavorada, vestiu o penhoar e correu ao quarto de Augusto, estacando ainda mais pálida.
A cama estava vazia.
No mesmo instante, deu meia-volta e correu pelo corredor até o porão.
Um barulho de passos apressados veio subindo as escadas, a porta se abriu bruscamente.
As duas mulheres gritaram ao mesmo tempo, tomadas pelo espanto e pela surpresa.
— Meu Deus, Nelma! — exclamou Rafaela.
Você quase me mata de susto.
— Onde está padre Augusto?
— E eu é que sei?
Que barulheira é essa?
Nesse momento, Augusto entrou correndo, vindo da cozinha.
— Padre Augusto! — apavorou-se Nelma.
O que é isso?
— Não sei. Parece que está tendo uma guerra lá fora.
Os ruídos se intensificaram, estampidos secos esposando por todo lado, cada vez mais próximos.
Parecia que um exército furioso cercara a casa.
Em breve, batidas bruscas sacudiram a porta da frente, deixando os três aterrorizados.
Spock investiu contra a porta, dando mordidas no ar.
— O que é isso, meu Deus? — assustou-se Nelma.
— Polícia! — veio o grito lá de fora. — Abram!
A palavra polícia amedrontou-os mais do que o tiroteio.
Augusto olhou para Rafaela, as pernas bambas de medo e desespero.
— Para o porão, depressa! — sussurrou ele, com urgência na voz.
E tranque a porta.
— Eles vão me encontrar — murmurou Rafaela, trémula de pavor.
— Não vão, não.
Havia tanta certeza na voz dele, que Rafaela se acalmou.
Augusto empurrou a moça de volta para o porão e ouviu-a passar a chave pelo lado de dentro.
— Venha, Nelma — chamou ele.
E não diga nada.
Calmamente, Augusto se dirigiu para a porta.
Apanhou Spock no colo e destrancou-a, dando de cara com um policial armado, extremamente hostil.
— Desculpe-me, padre — ele forçou o cumprimento educado.
Mas temos sérias desconfianças de que um criminoso se ocultou aqui.
— Aqui?! — indignou-se Augusto, tentando conter o cão, que se remexia para se soltar.
Em minha casa? Impossível!
Por cima do ombro do policial, ele viu os demais homens armados e o portão da frente arrebentado.
Na ânsia de prender o tal criminoso, o haviam arrombado.
— Vamos precisar entrar — continuou o policial.
Para sua própria segurança, precisamos ter certeza de que ele não se ocultou aqui.
— De jeito nenhum! — objectou Augusto com veemência, passando Spock para o colo de Nelma.
Não vou tolerar violência em minha casa.
— Não crie dificuldades, padre.
— Que eu saiba, vocês não podem entrar na casa dos outros à noite, sem consentimento do morador.
— A não ser que um crime esteja em andamento, e é o que achamos.
Se encontrarmos o meliante, podemos ainda dar-lhe o flagrante.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 04, 2016 3:49 pm

— Mas o que esse sujeito fez, afinal?
— Pode deixar, Paulão — uma voz familiar soou atrás do outro, deixando Augusto ainda mais aturdido.
Deixe o padre comigo. Ele é meu amigo.
— Reinaldo! — surpreendeu-se Augusto.
Mas o que é isso? O que está acontecendo?
Por que invadem assim a minha casa?
O fugitivo é algum cliente seu?
Reinaldo ficou confuso.
Em sua ânsia de prender o criminoso político, nem se dera conta da mentira que antes havia contado a Augusto.
— É o seguinte — falou ele com uma ginga que o padre não conhecia.
Na verdade, não sou advogado.
Sinto ter mentido para você, mas não podia revelar minha verdadeira identidade de agente da Polícia Militar.
— Polícia Militar? — repetiu aturdido.
Não compreendo. Você é policial?
— Sou um agente especial.
— Por que mentiu para mim?
— Fui obrigado pelas circunstâncias.
— Que circunstâncias?
— Isso não vem ao caso.
Depois conversaremos e esclarecerei tudo.
O que importa agora é prender o criminoso.
— Mas de que criminoso estão falando, meu Deus?
— Você conhece o general Darci Odílio, não conhece? — Augusto ergueu as sobrancelhas, visivelmente espantado.
É claro que sim.
Não precisa protestar, sei que você não pode revelar o que ouviu em confissão, nem eu lhe pedirei isso.
Mas há muito o estávamos investigando e conseguimos reunir provas de que ele é um criminoso subversivo.
— Do que você está falando?
— Fomos à sua casa prendê-lo, mas o danado conseguiu escapar.
Apesar de velho, é um militar treinado e experiente.
Nós o perseguimos, ele fugiu para cá.
Está armado. Não ouviu os tiros?
Augusto assentiu embasbacado, tentando pensar rápido.
Tinha agora duas pessoas para tentar proteger.
Não sabia onde estava o general Odílio, mas não tinha a menor intenção de colaborar com a polícia para a sua prisão.
E precisava ainda pensar em Rafaela.
— Poupe-se do trabalho de revistar minha casa — contrapôs Augusto com frieza.
Ele não está aqui.
— Isso é o que vamos ver.
A um gesto de Reinaldo, os policiais irromperam pela casa de Augusto.
Agarrada a Spock, Nelma encolheu-se atrás do padre.
Os homens revistavam tudo, deixando Augusto apavorado com a iminência de descobrirem o porão.
— Capitão! — chamou um dos soldados.
Esta porta está trancada.
— Capitão!? — indignou-se Augusto, olhando para Reinaldo com surpresa e revolta.
— Depois — cortou ele, aproximando-se da porta. — O que tem aí?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 04, 2016 3:50 pm

— É o porão.
— Isso deu para perceber.
Quero saber o que tem aí dentro.
— Nada. É um depósito de coisas velhas.
— Abra.
— Não o abrimos há algum tempo.
Nelma, onde está a chave?
— Eu... não sei... — balbuciou aterrada.
— Teremos que procurar — esclareceu Augusto, tentando ganhar tempo.
Como disse, há muito não abrimos o porão.
Por isso, posso assegurar-lhe que o coronel não está aí.
— Quero ver. Arrombem, vamos.
Logo que o policial deu o primeiro pontapé na porta, outro soldado veio do quintal, segurando pela gola da camisa o general fugitivo.
Sem pensar, Augusto deu um passo à frente, para proteger o amigo, que fez um gesto imperceptível com a cabeça, recomendando que não se aproximasse.
— Capitão! — gritou eufórico.
Nós o encontramos escondido em cima de uma árvore.
Acabou sua munição.
Reinaldo apanhou a arma sem balas e, olhando-o com desprezo, desdenhou:
— Em cima de uma árvore?
Mas que falta de imaginação. Levem-no!
— Espere — interrompeu Augusto. — Conheço o general.
É uma pessoa de bem, nunca fez mal a ninguém.
— Pode não ter feito mal aos traidores iguais a ele, mas causou imenso mal a este país — objectou Reinaldo.
Aposto que você, mais do que ninguém, sabe disso, não é mesmo?
— Por favor, não faça isso — suplicou Augusto.
Está cometendo um terrível engano.
— Não há engano algum.
Temos provas robustas da traição desse canalha — virando-se para o policial, esbracejou:
— Vamos! O que está esperando!
Prendam esse traidor!
Havia tanto ódio nas palavras de Reinaldo que Augusto estacou, mudo de espanto.
Aquele homem frio e implacável, decididamente, não era o mesmo que o procurara meses atrás.
— Reinaldo — disse em tom de decepção.
O que houve com você?
Não o reconheço mais.
— Você nunca me conheceu — rebateu com fúria.
E fique longe do meu caminho, se não quiser ser preso por acobertar um fugitivo traidor.
— Padre Augusto não fez nada — afirmou firmemente o general.
Não conseguiu concluir a frase, silenciado por um golpe violento no estômago.
Odílio dobrou o corpo sobre si mesmo e só não foi ao chão porque o policial que o segurava não o soltou.
— Levem-no logo daqui — ordenou Reinaldo, e o policial obedeceu.
Lamento muito por essa intromissão, Augusto, mas tínhamos que prender o fugitivo.
Outro dia voltarei para termos uma conversa.
— Não se incomode.
Creio que você não precisa dizer mais nada.
— Como quiser.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 04, 2016 3:50 pm

Reinaldo deu-lhe as costas e saiu, deixando Augusto arrasado, sem conseguir se mover.
Arriado numa cadeira, rosto oculto entre as mãos, chorou de revolta e frustração.
De tão envolto na dor, não percebeu que Nelma, sorrateiramente, saíra atrás de Reinaldo.
Alcançou-o no portão e chamou-o discretamente.
— Capitão.
Reinaldo se virou e estranhou a presença da mulher, mas a experiência o fez parar.
— Sim? O que deseja?
— O senhor é um policial, não é mesmo? — ele assentiu.
Bem, digamos que eu precise do senhor algum dia... como poderei encontrá-lo?
Ele a encarou fixamente, lendo em seus olhos algum segredo oculto e temido.
Puxou a carteira, deixando à mostra o revólver que escondia embaixo do paletó, e sacou um cartão de visitas.
— É só me telefonar — afirmou ele, pondo nas mãos dela o cartãozinho.
Nelma apertou o cartão e sorriu enigmaticamente.
Reinaldo saiu atrás de seus homens, e ela encostou o portão, já que não conseguiu trancar a fechadura quebrada.
Ao falar com o capitão, nem sabia o que pretendia.
Mas o presente que ele lhe dera deixou-a confiante e assustada ao mesmo tempo.
Quem sabe, um dia, ele não lhe seria útil?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 04, 2016 3:50 pm

Capítulo 39

Padre Augusto passou o dia preocupado com general Odílio, quase sem dar atenção a Rafaela.
Tentou seus contactos, mas ninguém pôde lhe dar qualquer informação, já que seu contacto maior era o próprio general.
Mandou consertar o portão e passou o resto do dia fora, em reunião com padre Cláudio e outros membros da organização, imaginando o que deveriam fazer.
Se Odílio desse com a língua nos dentes, todos estariam em grande perigo.
As notícias do general não tardaram a chegar.
Dois dias depois, um bilhete anónimo endereçado a Augusto informava que ele havia morrido na prisão, após ingerir uma cápsula de cianureto escondida na dobra do casaco.
Foi um episódio lamentável.
Desde o sumiço do motorista, Odílio passara a andar com a cápsula de cianureto escondida na roupa, prevendo que Alfredo o delatasse.
Não culpava o motorista.
Sabia como os métodos de tortura podiam ser persuasivos.
Por isso mesmo, não podia pôr em risco a segurança de todos aqueles que, como ele, lutavam contra o regime militar.
De seu silêncio dependia a sobrevivência da organização.
Embora o suicídio seja visto como pecado mortal pela Igreja, Augusto rezou uma missa por Odílio.
Conhecedor das obras espiritualistas, não acreditava na condenação eterna e considerava o suicídio do general um acto de bravura e renúncia, pois tinha certeza de que ele só se matara para proteger a Esperança e seus membros.
Graças a ele, a organização ainda se mantinha na clandestinidade.
Na semana seguinte à notícia do suicídio de Odílio, Augusto recebeu a visita de Reinaldo.
A campainha do portão soou duas vezes antes que Nelma fosse atender.
Como era muito cedo, Reinaldo encontrou o padre sentado à mesa do café.
— Bom dia, Augusto — cumprimentou Reinaldo, sentando-se de frente a ele.
— Bom dia — respondeu friamente.
— Você tem todo o direito de estar aborrecido comigo, mas gostaria de me explicar.
— Você não me deve explicação alguma.
Tudo já está mais do que explicado para mim.
Você é um agente do governo e quis me usar para prender o general Odílio.
— Não leve as coisas para esse lado.
Queria ter-lhe contado, mas não podia pôr em risco minha operação.
— E agora que o prendeu, resolveu se revelar.
— Não fique tão chateado.
Afinal, eu só estava cumprindo o meu dever.
Ou você é daqueles padres que defendem essa malta de traidores da pátria?
— Defendo o ser humano, e Deus não tem pátria.
— Tudo bem, não estou aqui para questionar sua conduta religiosa.
Admiro o bem que você faz às pessoas, independentemente de quem sejam.
Mas alguém tem que cuidar da segurança nacional.
Se não são os padres, têm que ser os militares, você não acha?
— Se você diz...
— Faço parte do DOI-CODI, você já deve ter ouvido falar — Augusto permanecia impassível.
Mas minha profissão não me impede de gostar de você.
Não recebeu o meu bilhete?
— Falando do suicídio do general? — Reinaldo assentiu.
Imaginei que havia sido você.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 12:39 pm

— Fiz isso porque sou seu amigo e achei que você merecia saber.
— Muito obrigado pela consideração.
— Não precisa ser sarcástico.
Não fosse por mim, você nunca saberia o que aconteceu a ele.
— Você acha que devo mesmo ficar grato, não acha?
Grato pelo facto de o general ter sido induzido ao suicídio pela sua revolução?
— O general era um traidor, e vou pensar que você também é, falando desse jeito.
Augusto engoliu a raiva e revidou entre os dentes:
— A mim, pouco importa o que você pense.
Não gosto da sua atitude e gostei menos ainda de saber que você me usou.
Reinaldo olhou para ele com uma certa raiva a insinuar-se no peito.
Prestara-lhe um favor, mas Augusto ainda achava que podia lhe fazer acusações e cobranças.
— Tudo bem — disse Reinaldo em tom glacial.
Você tem o direito de pensar o que quiser.
Ainda assim, fiz a minha parte.
Augusto permaneceu em silêncio.
Reinaldo se levantou, empurrou gentilmente a cadeira de volta à mesa e arrematou friamente:
— Entenda, Augusto, que só fiz o que achava que era meu dever — como Augusto permanecesse mudo, concluiu: — Adeus.
Saiu sem fazer barulho, todo empertigado, com porte de oficial.
Passou por Nelma sem lhe prestar atenção, já esquecido do cartãozinho que lhe dera.
Depois que ele se foi, ela voltou à sala e encontrou Augusto com o rosto afundado entre as mãos.
— Padre. O senhor está bem?
Ele olhou para ela com desgosto e retrucou:
— Como posso estar bem com tudo o que aconteceu?
O general Odílio foi preso em minha casa.
— O senhor não teve culpa.
— Devia tê-lo protegido melhor.
— Não havia nada que o senhor pudesse fazer.
— Reinaldo está desconfiado de mim.
E se descobrir Rafaela aqui?
— Talvez seja melhor o senhor mandá-la embora.
— Para onde, Nelma?
Se ela sair daqui, não vai demorar para ser presa.
— Aquela menina é o capeta encarnado — desabafou com raiva.
Onde já se viu...
Calou-se, ante o olhar de repreensão de Augusto, embora remoendo no íntimo o ódio que alimentava pela moça.
— Preciso sair — disse ele em tom cansado.
Estou atrasado para o confessionário.
Preciso antes falar com Rafaela.
Ele se levantou e foi directo ao porão, com o cachorro em seu encalço.
— O que ele queria? — indagou ela, depois de beijá-lo.
- Explicar-se.
— E você?
— Para que ouvir explicações?
Já está tudo muito claro.
Aos olhos dele, o general era um traidor da pátria, como ele mesmo gosta de dizer.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 12:39 pm

Para mim, ele é o traidor da humanidade.
Um homem que conheci quando criança, que brincou comigo, dormiu na minha cama.
E não passa de um boneco, um fantoche da revolução.
— Não pense mais nisso. Acabou.
— Não acabou.
O general Odílio se suicidou por causa desse governo de demónios que aí está.
Ele tinha medo da tortura.
Ninguém pode culpá-lo.
— Engano seu.
O general Odílio só tinha medo de uma coisa:
de comprometer o nosso movimento, as acções da Esperança, de colocar em risco a segurança dos padres envolvidos.
Por diversas vezes ele me disse isso, que preferia morrer a nos delatar.
— Mas então ele foi um herói!
Pense nele assim.
— Ele foi um herói, sem dúvida.
Como poucos... — calou-se, consumido pelas lágrimas.
Tenho que ir para a igreja.
Cuidado. Acho que Reinaldo está desconfiado de mim e pode ter mandado vigiar a casa.
Não se exponha.
— Não se preocupe comigo.
Cuide-se, pois sei me cuidar.
Ele a estreitou com um quase desespero e confessou sentido:
— Eu não suportaria perder você.
— Você não vai me perder.
Vou tomar cuidado, prometo.
E tenho Spock para me proteger.
À menção de seu nome, o cãozinho abanou o rabo e aninhou-se aos pés de Rafaela.
A situação estava mesmo ficando perigosa, deixando a moça cada vez mais assustada.
Tinha pavor de tortura, não era resistente à dor.
Passou o resto da manhã lendo e só saiu à hora do almoço porque o estômago começou a doer.
A mesa fora posta somente para ela.
Nelma parecia mais carrancuda do que sempre fora.
— Sente-se — ordenou a criada, quase quebrando a louça.
— Augusto não vem?
— Padre Augusto está ocupado — corrigiu ela, achando um desaforo aquela menina chamá-lo apenas pelo nome.
Mandou que você comesse sem ele.
Embora contrariada, Rafaela não disse nada.
Sentou-se à mesa e esperou até que Nelma a servisse.
Depois, comeu em silêncio, sozinha.
Já estava na sobremesa quando Nelma parou de frente a ela e a encarou com ar zangado.
— Tudo bem, Nelma? — indagou Rafaela, entre incomodada e irritada com o olhar insistente da outra.
— Quer mesmo saber? — rebateu entre os dentes.
Não está nada bem, não.
Pensa que não vejo o mal que você está fazendo a padre Augusto?
— Não sei do que você está falando — respondeu Rafaela com frieza, para ocultar a raiva.
— Você devia se envergonhar, isso sim.
Fornicando com um padre...
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 12:39 pm

Ela quase explodiu, mas conseguiu se conter e manter a aparente calma, como Augusto lhe recomendara:
— Não sei de onde você tirou essa ideia.
Somos apenas amigos.
— Sei. Você pensa que sou idiota, não é?
Pois não sou.
Sei muito bem o que acontece nesta casa depois que as luzes se apagam.
— Quer saber, Nelma?
Acho que nada disso é da sua conta.
Você só trabalha aqui.
Não é a mãe do Augusto.
— Até ao pronunciar o nome dele você comete pecado.
Quem lhe deu essa liberdade de chamá-lo pelo nome?
— Ele — foi a resposta seca e directa.
Rafaela pensou que Nelma ia ter algum tipo de ataque, tamanha a vermelhidão que se alastrou pela sua face.
— Demónio — sussurrou com ira.
Devia ir para o inferno, que é o seu lugar.
— Sabe de uma coisa? — tornou Rafaela com desdém.
Acho que você devia pedir demissão.
Se trabalhar aqui já não lhe agrada mais, por que não vai embora?
— E deixar o caminho livre para vocês fornicarem à vontade?
Isso é que não.
— Não entendo você.
Talvez goste de sofrer.
Se a incomoda tanto achar, veja bem, eu disse achar, que nós fornicamos, ninguém a obriga a conviver com o pecado.
Você é livre para ir aonde quiser, ao contrário de mim, que estou presa aqui.
— Padre Augusto precisa de mim.
Eu sou fiel a ele, ao passo que você só está interessada em sexo com um homem bonito.
E nem se importa que esse homem, embora bonito, seja um padre!
— Engraçado.
Será que não é você que está apaixonada por ele?
— Jamais repita uma infâmia dessas! — horrorizou-se, persignando-se várias vezes.
Padre Augusto é um santo, e todos os santos são bonitos.
Meu amor por ele é puro, dedicado, imaculado!
— O meu também.
Duvida que eu o ame?
— Amor... Você nem sabe o que é isso.
Tudo para você é conveniente.
Está presa aqui, com um homem atraente e tolo o bastante para se deixar seduzir.
Mas você não o ama.
Assim que se vir livre, não vai nem mais lembrar que padre Augusto existe.
— Está enganada.
Todos estão enganados.
— Todos?
— Sabe o que mais? — revidou ela, empurrando o pote de salada de frutas para o lado.
Já me cansei dessa conversa. Com licença.
Mal conseguindo conter a fúria, Rafaela se levantou e correu de volta ao porão.
Não aguentava mais aquela pressão.
Nelma e padre Cláudio pensavam que ela não amava Augusto, mas estavam todos enganados.
Ia provar.
Sonhava com o dia em que poderia sair daquele buraco.
O porão era apertado e abafado, com uma janelinha minúscula e gradeada.
E embora Augusto se esforçasse para torná-lo menos deprimente e mais agradável, não deixava de ser uma prisão.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 12:40 pm

Capítulo 40

Terminado o confessionário, Augusto seguiu directo para a escola.
Atrasado para a primeira aula, não teria tempo para almoçar.
Logo ao portão do colégio, viu Cláudio conversando com dois padres conhecidos e se aproximou.
Estavam falando do recente episódio com o general Odílio e das implicações que lhes poderia trazer.
— Vamos nos encontrar mais tarde, depois da aula — anunciou um dos padres.
Você pode vir?
— Estarei lá, por certo — confirmou Augusto.
Despediram-se e foram cada qual para sua turma.
Augusto passou a tarde desligado, com dificuldade de se concentrar nas aulas, a todo instante esquecendo-se do que estava falando.
Quando um aluno lhe fazia uma pergunta, ficava embaraçado e confuso.
Foi assim até o fim do dia, e, quando soou o sinal do último tempo, ele respirou aliviado.
Cláudio o esperava à saída da sala, para que seguissem juntos.
— Quer tomar um café? — convidou Cláudio.
Ainda temos tempo antes da reunião.
Compraram o café, sentaram-se a uma mesa da cantina e Augusto tomou a palavra:
— Reinaldo veio me procurar hoje.
Como Cláudio já conhecia toda a história sobre Reinaldo, indagou preocupado:
— O que ele queria?
— Segundo ele, explicar-se.
Mas temo que esteja desconfiado de mim.
— Por que pensa assim?
— Pelo modo como ele falou.
Não se esqueça de que eu era o confessor do general Odílio.
— E daí? Ele não pode acusá-lo de nada nem obrigá-lo a revelar o que sabe.
— Ainda assim, acho que estamos correndo perigo.
Todos nós. Temo pelo que poderá acontecer à Esperança.
— Acha que devemos dar um tempo com as nossas actividades?
- Preocupo-me com os fugitivos, mas não podemos nos arriscar a ser presos.
Quem cuidaria deles?
Cláudio pousou a xícara de café na mesa e encarou Augusto.
Reconhecia, no tom de sua voz, uma preocupação que ia muito além do futuro da Esperança.
— Você me desculpe, Augusto, mas não creio que seja só por isso que quer parar.
Acho que você está é com medo de que Rafaela seja descoberta.
— E se for? — revidou ele, sustentando o olhar de acusação do amigo.
Rafaela é uma perseguida política.
Não quero que seja presa.
— Não quer porque está envolvido com ela.
— E daí? Qual o problema? Meu envolvimento com ela nada tem a ver com meu dever de protegê-la.
— Aí é que você se engana.
Você se arrisca demais, não apenas a ser descoberto, mas a ser expulso da Igreja.
— Não vamos começar com essa conversa de novo — irritou-se.
— Só você não percebe que essa moça não o ama.
Está envolvida com você, mas...
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 12:40 pm

— Chega! — exasperou-se.
Não estou disposto a ouvir toda essa ladainha outra vez.
— Caia na realidade.
Ela é uma garota moderna, enquanto você não passa de um padre conservador.
— Não sou conservador.
E antes de ser padre, sou homem.
— Você fez os votos.
— Sei disso.
Não preciso de você para me lembrar.
— Você tem que escolher.
Não pode ter as duas coisas.
Ou se assume como homem mundano, ou se arrepende e retoma o sacerdócio como tem que ser.
— Como é que tem que ser?
Do jeito que os homens falaram?
Jesus nunca recriminou o amor nem disse que os padres não podiam se casar.
Aliás, Jesus nem sequer criou os padres.
Essa proibição é coisa dos papas antigos, pessoas que condenaram o amor para salvaguardar seus interesses mesquinhos e egoístas.
— Está blasfemando, Augusto! — repreendeu Cláudio, elevando o tom de voz.
As bases da Igreja estão estabelecidas há séculos.
Se não concorda com elas, não devia ter feito os votos.
Agora que os fez, só lhe resta aceitá-los ou sair!
— Sabe de uma coisa, Cláudio?
Você tem razão. Não posso ter as duas coisas.
Estava difícil escolher, mas você tornou tudo mais fácil para mim.
Entre a opressão e a liberdade, escolho ser livre.
Levantou-se de um salto, derrubando a cadeira e a xícara de café.
Não aguentava mais a pressão de Cláudio, seus olhares de reprovação, seus conselhos.
Era hora de assumir a vida que lhe pertencia e que ninguém tinha o direito de direccionar.
Não era um prisioneiro dentro da Igreja.
O sacerdócio lhe fora imposto, era verdade, mas acolhera-o com amor e respeito.
Agora, porém, queria ser livre para amar Rafaela e viver em paz.
Finalmente havia se decidido e sentia-se aliviado com isso.
De tão surpreso, Cláudio nem teve tempo de reagir.
Simplesmente ficou parado, vendo Augusto se afastar com a velocidade de uma bala, atropelando os passantes com sua fúria incontida.
Cláudio suspirou desanimado e triste.
Não era aquela a reacção que pretendia provocar em Augusto.
Queria apenas fazê-lo reflectir sobre sua vida, levando-o a uma escolha racional e consciente.
A Igreja era o seu lugar, mulher nenhuma tinha o direito de afastá-lo dela.
Cláudio quis ir atrás dele, mas os companheiros chegaram, e ele teve que acompanhá-los até o lugar onde a reunião aconteceria.
— Onde está Augusto? — perguntou um colega.
— Augusto não vem.
Teve um problema urgente em casa.
Seguiram, falando de assuntos eclesiásticos durante todo o percurso, para que ninguém os notasse.
A seu lado, Cláudio seguia em silêncio, preocupado com a saída intempestiva e tempestuosa do amigo.
Não queria que ele fizesse nenhuma besteira nem que tomasse uma atitude precipitada.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 12:40 pm

Na reunião, ficou acertado que deveriam fazer uma pausa em suas actividades.
A ligação de Augusto com Reinaldo era muito perigosa, principalmente porque todos sabiam das desconfianças do militar.
Prosseguir com a Esperança colocaria todos em risco, principalmente Augusto, que podia estar sendo vigiado.
Era melhor deixar Augusto com suas ponderações por aquela noite.
No dia seguinte conversariam com um pouco mais de calma.
Logo pela manhã, Cláudio recebeu um telefonema urgente de Nelma.
Havia acabado de se levantar e mal se vestira quando fora chamado pelo padre assistente que dividia com ele a casa paroquial.
— Alô! — ele atendeu espantado.
— Pelo amor de Deus, padre, faça alguma coisa!
Padre Augusto saiu no meio da noite com aquela moça e disse que não vai mais voltar.
E os baptizados?
E os casamentos de hoje?
Quem é que vai celebrar?
Ah! Padre, ajude-o!
Se o bispo souber, nem sei o que poderá lhe acontecer.
— Acalme-se, Nelma, não estou entendendo.
Você disse que padre Augusto saiu?
Para onde foi?
— Não sei, ele não me disse.
Só sei que arrumou as malas e saiu com aquele demónio em forma de gente.
Aquela menina ainda vai acabar colocando padre Augusto em maus lençóis.
— Tenha calma, Nelma, não faça nada.
Logo estarei aí.
Cláudio vestiu-se às pressas e partiu para a casa de Augusto, surpreso com a atitude dele.
Cansado de ser pressionado, não podendo mais ocultar o amor que sentia por Rafaela, Augusto jogara tudo para o alto.
Naquele momento, não seria um bom sacerdote para o baptismo, muito menos para os casamentos.
Que conselhos teria para dar, ele, um padre que se precipitara no torvelinho das paixões humanas ao se envolver com uma mulher?
Quando Cláudio chegou, encontrou Nelma chorando.
— Não sei o que deu nele, padre — lamentou ela.
Foi aquela mulher. Ela é o demónio.
Desde que entrou aqui, padre Augusto ficou de cabeça virada.
E agora, o que vai ser dele?
— Por favor, Nelma, procure se acalmar.
Você disse que eles saíram no meio da noite, de mala e tudo? — Nelma assentiu.
Para onde será que foram? E sem carro?
— Para o senhor ver como ele enlouqueceu.
Tudo culpa daquela diaba.
— Pare de blasfemar, por favor.
Isso não é agradável a Deus.
— Desculpe, padre Cláudio, mas é que estou abismada.
Jamais poderia imaginar que padre Augusto fosse tomar uma atitude dessas.
— No momento, precisamos ter calma.
O mais importante é que os compromissos dele sejam cumpridos.
Você sabe o que ele tinha para hoje e amanhã?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 12:40 pm

— A agenda dele ficou em casa.
Eu a peguei, está aqui no meu quarto — ela se levantou, e padre Cláudio a seguiu até seus aposentos.
— São três baptismos e dois casamentos, veja.
Além das missas de domingo, é claro.
Cláudio sentou-se na cama dela e abriu a agenda na mesinha, para conferir os horários, pensando no que fazer.
— Deixe isso comigo — tranquilizou-a por fim.
Mandarei um padre, meu assistente, celebrar as cerimónias que tenho para hoje e virei pessoalmente fazer as de padre Augusto.
Não quero que ninguém mais saiba o que aconteceu aqui.
— E se o seu assistente perguntar?
— Direi que um amigo está muito doente e precisa de mim.
Não é mentira, já que a alma de Augusto está envenenada pela paixão.
Foi o que Cláudio fez.
O padre assistente não desconfiou de nada.
Estava apenas inseguro em fazer tudo sozinho, mas Cláudio procurou transmitir-lhe confiança.
Acertou tudo com ele e foi, pessoalmente, celebrar os baptismos e casamentos, rezando a Deus para que aquele episódio não chegasse aos ouvidos do bispo.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 12:41 pm

Capítulo 41

Longe dali, Augusto vivia a liberdade de amar sem pressão, medo ou cobranças.
Apesar do sentimento de culpa que ainda o incomodava, o amor sobrepujava todas as dificuldades.
Estar com Rafaela era a realização máxima de tudo com o que poderia sonhar.
Ao deixar Cláudio na cantina da escola, já sabia o que iria fazer.
Chegou em casa tarde e seguiu directo ao porão, tentando não chamar a atenção de Nelma, que, àquela hora, estaria dormindo.
Rafaela estava lendo um livro e levou um susto com o olhar eufórico e quase insano com que ele a fitava.
— Levante-se daí — falou imperativo.
Vá arrumar sua mala.
Vamos viajar.
— Viajar para onde?
Ficou louco?
— Vamos fugir. Não aguento mais.
Quero esse fim de semana só para nós.
— Está falando sério?
— Seríssimo. Eu a amo, Rafaela, e quero, ao menos uma vez na vida, estar a sós com você sem me sentir um criminoso.
— Aonde vamos?
— Não sei.
Aonde o vento nos levar.
— Como assim?
Não é perigoso?
— Aluguei um carro para o fim de semana.
Ninguém vai nos ver sair.
— E se a casa estiver sendo vigiada?
— Não está. Procurei bem e não vi ninguém.
Vamos, apresse-se.
Não vejo a hora de estarmos sozinhos, para fazermos o que bem quisermos.
Com um sorriso radiante, Rafaela arrumou suas coisas.
Rapidamente, Augusto subiu ao seu quarto e atirou algumas peças de roupa comuns dentro da mala.
Não tinha muitas, apenas umas duas ou três camisas de malha que costumava usar dentro de casa.
Não era sua intenção comunicar nada a ninguém.
Simplesmente ia sumir e só voltaria no domingo à noite.
Precisava daquele fim de semana com Rafaela antes de tomar a decisão definitiva.
Queria sentir que Rafaela o amava tanto quanto ele a ela.
Na volta, se tudo corresse conforme ele esperava, iria directo ao bispo apresentar seu pedido de dispensa do ministério.
Por mais que Augusto fizesse tudo em silêncio, Rafaela não era assim tão cuidadosa, e a movimentação na saída do porão acabou despertando Nelma.
Ainda sob o impacto da prisão do general Odílio, Nelma abriu os olhos e correu assustada para a cozinha.
O que viu a deixou em choque.
Pelo corredor, dois vultos passaram carregando malas.
— O que está acontecendo? — indagou surpresa, acendendo a luz.
Vão a algum lugar?
Os dois estacaram, surpreendidos.
Augusto fez sinal para que Rafaela seguisse adiante.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 12:41 pm

Virou-se para Nelma e, com voz tranquila, anunciou:
— Vamos viajar.
— Viajar? Para onde?
— Ainda não sei.
— Mas assim, de repente, no meio da noite?
— É.
— O senhor ficou louco?
— Fiquei.
— E os seus compromissos?
— De hoje em diante, não tenho mais compromissos.
— Mas padre, o senhor não pode...
— Posso o que quiser, porque sou um homem livre.
Gosto muito de você, Nelma, aprecio sua lealdade, mas creio que está passando dos limites.
O que faço da minha vida não lhe diz respeito.
— Essa menina o enfeitiçou, não é? — revidou com raiva.
O senhor está cego e não enxerga o demónio que ela é.
— Não existem demónios.
Rafaela é uma mulher, e estou apaixonado por ela.
— Não pode ser!
O senhor não vê que ela é o diabo?
Ela o está destruindo.
— Chega dessa ignorância!
De hoje em diante, faço o que bem entender da minha vida.
— Essa garota devia ir presa! — esbracejou, cega de ódio.
Não lamentaria nada se a polícia descobrisse seu paradeiro e a levasse para a prisão, que é o lugar de gente safada!
— Nunca mais diga uma coisa dessas — retrucou ele, com veemência e fúria.
Se não quiser que eu a odeie pelo resto da vida, jamais repita essa barbaridade!
Nelma levou um susto e mudou o tom de voz, assumindo uma postura súplice:
— Por favor, padre, não faça isso.
Será que não percebe que ela está atirando sua alma no abismo do pecado?
Ela fez com que o senhor quebrasse seu voto de castidade e agora o está condenando...
— Por Deus, Nelma, cale-se!
Não aguento mais tanta estupidez!
— O senhor está iludido.
O diabo é esperto, devia saber disso mais do que eu.
— Chega dessa bobagem.
Estou saindo de viagem com Rafaela, e nada nem ninguém irá me impedir.
— O que digo às pessoas que marcaram casamento e baptismo?
— Que o padre está ausente.
Se quiserem, que procurem outra igreja.
Nelma abriu a boca, abismada.
Nunca ouvira padre Augusto falar daquela maneira.
— O senhor nunca foi irresponsável.
— Esse foi o meu mal.
Por toda minha vida, deixei que todo mundo mandasse na minha vontade.
Hoje aprendi a pensar por mim mesmo.
Lamento a decepção dos que marcaram cerimónias, mas nada posso fazer.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 12:41 pm

— O senhor está fora de si.
Não sabe o que diz.
— Não se preocupe comigo.
Volto no domingo à noite para dar uma decisão na minha vida.
Mais que depressa, Augusto rodou nos calcanhares e saiu apressado.
Rafaela o aguardava no automóvel, ansiosa pela sua chegada.
Augusto sentou-se ao volante, e logo o carro pôs-se em movimento.
Ganharam a rua sem nenhuma testemunha de sua fuga além de Nelma.
— Para onde estamos indo? — perguntou Rafaela, mal contendo a excitação.
— Pensei em irmos a Teresópolis.
É perto, de forma que não perderemos tempo na viagem, e ninguém nos conhece.
— E se houver alguma barreira policial na estrada?
— Não vai haver.
Não se preocupe, nada irá lhe acontecer.
Chegaram a Teresópolis em plena madrugada.
Augusto guiou o carro devagar, à procura de um hotel ou pousada.
Hospedaram-se numa pousada simpática e aconchegante, como um casal de recém-casados.
Pela primeira vez sozinhos, longe da opressão, amaram-se como nunca.
Nos braços de Rafaela, Augusto esqueceu-se da igreja, sem lamentar a perda dos compromissos.
Dormiram abraçadinhos, acordaram tarde e pediram café na cama.
— Que acha de darmos uma volta? — sugeriu Augusto.
— Será que não é perigoso?
— Já disse para você não se preocupar com nada.
Estamos longe do Rio, ninguém vai prestar atenção em você.
— Aonde vamos?
— Dar uma volta, almoçar num bom restaurante.
O que acha?
— Acho uma excelente ideia!
Rafaela confiava nele mais do que em si mesma.
Caminharam ao ar livre, visitando parques e cachoeiras, evitando o contacto com outras pessoas.
Almoçaram num restaurante ao ar livre, em meio ao verde e aos pássaros.
Voltaram no final da tarde, cansados e felizes, mais apaixonados do que nunca.
No domingo, saíram menos.
Apenas um passeio de mãos dadas pelas ruas da cidade.
Queriam aproveitar ao máximo seus últimos momentos de liberdade.
Ficaram abraçados, conversando sobre o futuro, até que as primeiras estrelas se tornaram visíveis da janela.
— Hora de irmos — anunciou ele, penalizado.
— Que pena — lamentou ela, abraçando-se a ele.
Foi o fim de semana mais maravilhoso que já tive.
Ele sorriu e levantou-se da cama.
— Esse foi só o primeiro.
Teremos muitos outros.
Agora, porém, precisamos voltar.
Com um suspiro, Rafaela se levantou também e pôs-se a atirar as roupas na maleta sem nenhum entusiasmo.
— Você se lembra de Uberlândia? — indagou Augusto.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 12:41 pm

— Lembro-me. Por quê?
— Estou pensando em voltar para lá.
— Está falando sério?
— Estou.
— E eu?
— Vai comigo.
Durante alguns segundos, ela não compreendeu o que ele queria dizer.
Mas depois, juntando os últimos acontecimentos, percebeu que seu sonho, finalmente, iria se realizar.
— Está tentando me dizer que vai deixar a Igreja?
Pedir dispensa do ministério?
— Exactamente. Não posso conciliar o sacerdócio e você.
Agora sei que a amo mais do que a qualquer outra coisa na vida.
Resta-me apenas saber o que você sente por mim.
— Você sabe que o amo.
— Quanto?
— Não dá para mensurar o amor, mas é muito.
— Tem certeza?
— Absoluta.
— Padre Cláudio acha que isso é fogo de palha, que vai passar tão logo você se vir livre.
— Padre Cláudio não conhece o verdadeiro amor.
Só eu sei o que sinto.
Você também deveria saber, já que nunca lhe escondi o quanto o amo.
— Eu sei. É por isso que me arrisco a pedir-lhe que se case comigo.
— Casar-me com você? Como?
Sou uma foragida, menor de 21 anos.
Como poderemos nos casar?
— Espero você atingir a maioridade.
Enquanto isso, podemos fingir que somos casados, se você não se importar.
— Eu não me importo! — exultou ela, atirando-se em seus braços.
O que mais quero é estar com você.
Só tem um problema:
eu ainda sou uma perseguida política.
— Vou esconder você em Uberlândia, assim como venho escondendo-a no meu porão.
Podemos comprar um sítio e abrir uma floricultura.
— Por que floricultura?
— Gosto de plantas e animais.
Meu sonho era ser veterinário, mas não consegui.
Acha que uma floricultura não seria suficiente para nós?
— Qualquer coisa é boa ao seu lado.
Mas... e a sua mãe? O que lhe dirá?
— Minha mãe é muito apegada aos costumes, mas vai ter que entender.
— Ela vai me odiar.
— Não vai, não.
— Não vamos morar com ela, vamos?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 12:42 pm

— É claro que não! Ficou louca?
Teremos nossa própria chácara, onde você poderá ficar escondida.
Farei um bonito jardim para você, cercado de trepadeiras, nos fundos da casa, protegido de tudo e de todos.
Um lugar onde você possa estar em paz, longe dos olhares curiosos, principalmente daquele namorado violento que você arranjou da outra vez.
Rafaela abaixou a cabeça e rebateu mal-humorada:
— Gérson não foi meu namorado.
E não gosto de me lembrar do que houve.
— Sinto muito.
Não queria provocar lembranças tristes.
Só não gostaria de cruzar com ele novamente.
— Não quero falar sobre Gérson.
Tenho coisas mais importantes em que pensar.
— Tem razão, perdoe-me.
— Quem me dera que ele fosse minha única preocupação.
Uma sombra de tristeza anuviou os olhos dela, e Augusto indagou preocupado:
— O que foi, meu amor?
De que tem medo?
— Não estou com medo.
Penso na minha família.
Até hoje meus pais desconhecem o que me aconteceu.
— Você sabe que é impossível aproximar-se de sua casa.
Ela está sendo vigiada até hoje.
— Eu sei. Mas sinto falta de minha mãe.
Vendo que ela chorava, Augusto a puxou e reconfortou-a com amor.
— Tenha calma.
Esse governo que está aí, um dia, vai cair, e tudo voltará ao normal.
Por ora, sei que é difícil, mas você precisa ser forte.
— Eu tenho sido forte, tenho mesmo.
Contudo, não posso fingir que não sinto saudades.
— Não precisa fingir.
Eu estou aqui e vou cuidar de você.
Prometo que você ainda irá rever sua família.
O pranto de Rafaela tornou-se mais sentido.
Durante aquele breve momento, em que toda sua vida se derramou em sua mente, a luz da felicidade lhe pareceu um sonho distante demais para desejar.
Tantas coisas havia perdido!
Pessoas que foram importantes e que agora não estavam mais com ela.
Será que tinha o direito de parar de sofrer e ser feliz?
Com esses pensamentos, agarrou-se ao pescoço dele e soluçou:
— Oh! Augusto, é tão difícil!
— Eu sei. Você é corajosa, vai superar.
— Você não entende.
Às vezes penso que estou sendo egoísta, pensando apenas na minha felicidade.
E os outros? E Silmara?
E Carlos Augusto?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 12:42 pm

— Silmara está vivendo a vida dela, e os outros estão mortos.
Carlos Augusto está morto.
— Por minha causa.
— Isso não é verdade.
Não se atormente por uma culpa que não lhe pertence.
Carlos Augusto foi um rapaz de muita bravura e merece todo o nosso respeito.
Mas não está mais aqui.
Onde estiver, sei que está bem.
— Você acha mesmo?
— Tenho certeza.
Já conversamos sobre esse assunto.
Não acredita na sobrevivência da alma?
— Acredito.
Por isso mesmo é que, às vezes, me sinto tão mal.
— Você não tem motivos para sentir-se mal.
— Será que é certo estar aqui com você?
Carlos Augusto morreu para me salvar.
Não estarei sendo egoísta, realizando com outro o sonho que tive com ele?
— Então é isso que sou? — enciumou-se.
Agora sou o outro que veio roubar os sonhos de seu namorado?
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Foi exactamente o que disse.
Que está realizando com outro o sonho que teve com ele.
E o outro sou eu.
Pensei que fosse o único em sua vida.
— Você é!
— Serei também o único em seu coração?
— Isso não é justo.
Você está distorcendo as minhas palavras.
— Foi o que você disse!
— Falei sem pensar.
— Às vezes, o que falamos sem pensar é o que está escrito em nosso coração.
— Não me venha com filosofia barata só para me confundir!
— Você ainda o ama — afirmou de repente, atónito.
Rafaela olhou-o em dúvida, sentindo um misto de culpa, compaixão e amor.
Não sabia o que dizer.
— Passamos muita coisa juntos... — balbuciou assustada.
Como poderia não amá-lo?
Mas não é como você...
O ciúme é como uma erva daninha que se alastra rapidamente, contaminando os bons sentimentos.
E por mais que Augusto tentasse, naquele momento, não conseguiu conter o fluxo intenso e pernicioso que se espalhava dentro dele, envenenando sua capacidade de discernimento.
— Talvez eu tenha precipitado as coisas — disse, desvencilhando-se dela.
Pensei apenas em mim, mas acho que é você que não está pronta.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 12:42 pm

— Não diga uma coisa dessas!
Você sabe o quanto o amo.
— Será que Cláudio não tem razão?
Talvez você pense que me ama porque se sente só e desamparada.
— Isso não é verdade!
— Pergunto-me se todas as vezes em que nos amamos, e você pronunciou o meu nome, não era a ele que chamava.
Ela o fitou com lágrimas nos olhos e rebateu magoada:
— Está sendo injusto.
Eu não poderia simplesmente apagar Carlos Augusto das minhas lembranças.
É claro que muitas vezes pensei nele.
Não posso mentir que nunca me senti culpada quando nos amamos.
E, sim, posso ter pensado no nome dele quando pronunciava o seu.
Isso aconteceu algumas vezes. Mas nunca os confundi na cama!
— Tem certeza?
— Por que está fazendo isso comigo? — soluçou ela.
Quando o conheci, ainda estava apaixonada por Carlos Augusto.
Amo você, mas não posso fingir que ele nunca existiu.
Ela tinha razão.
Ele estava sendo egoísta, talvez porque ela fora a única mulher em sua vida.
Ele, contudo, não fora o primeiro homem na dela.
Antes, houvera outros, houvera Carlos Augusto.
Não podia sentir ciúmes do ex-namorado dela.
O rapaz perdera a vida numa câmara de tortura.
Não podia esquecer que fora graças a esse infeliz incidente que Rafaela entrara em sua vida.
— Perdoe-me — afirmou ele, estreitando-a nos braços.
Sei que você me ama.
É só que me bate uma insegurança, um medo de que você me deixe.
— Isso não vai acontecer.
— Como é que você sabe?
— Sei porque o amo.
Todo mundo pode dizer o contrário, mas eu sei o que sinto.
— Jura?
— Juro. Meu amor é para sempre.
— Não vai me deixar quando estiver em liberdade?
— Nem sei se isso vai acontecer...
— Vai. Um dia seremos um país livre novamente.
Quando esse dia chegar, promete que não irá me deixar nem me trocar por alguém mais jovem e mais interessante?
— Isso seria impossível.
Não existe alguém mais interessante do que você.
— Tolinha...
Augusto a tomou nos braços, ainda lutando contra a insegurança.
Pela primeira vez, o ciúme o dominara, porque nunca antes Rafaela lhe revelara o que ainda sentia por Carlos Augusto.
Mas ele era um homem de fé, não podia se deixar impressionar por aquelas coisas.
Não podia permitir que um sentimento mesquinho como esse o levasse a sentir raiva de um rapaz que nem chegara a conhecer e que, muito provavelmente, fora um herói.
Tinha que acreditar no amor de Rafaela e aprender a conviver com a lembrança de Carlos Augusto, que jamais iria se apagar.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 12:43 pm

Capítulo 42

Em seu gabinete particular, Reinaldo caminhava de um lado a outro, pensando em Augusto e na morte do general Odílio.
Como padre, era bem provável que Augusto conhecesse as actividades do general.
Quanto a isso, não havia nenhum problema, visto que Reinaldo poderia usar o dever de silêncio do sacerdote para não forçar uma investigação sobre ele.
O que o deixava em dúvida era o limite da participação de Augusto.
Será que ele só desempenhava o papel de confessor ou teria algum envolvimento em actividades subversivas?
O facto de o general ter procurado justo a casa do padre para se refugiar era muito estranho.
Dentre tantos lugares para ir, aquele não lhe parecia o mais adequado.
Ou será que, ao contrário, era ali que ele encontraria protecção?
Se Augusto estivesse ligado ao movimento de fuga dos presos, tudo faria sentido.
Ele o acolheria e trataria de ocultá-lo em um lugar seguro.
Reinaldo sabia que alguém ajudava a corja subversiva a fugir e a se esconder.
Mas quem?
Pena que Odílio morrera antes que ele tivesse tempo de interrogá-lo.
Se soubesse que o homem era capaz de se matar, teria procedido ao interrogatório naquele mesmo dia.
Ele fora revistado, e nenhuma arma fora encontrada com ele.
Ninguém havia pensado em cápsulas de cianureto ocultas na bainha do casaco.
A intuição lhe dizia que Augusto estava envolvido em alguma actividade subversiva.
O senso de dever o mandava investigar.
Contudo, como colocar de lado a paixão que ainda sentia pelo padre?
Se havia alguém que Reinaldo prezava e a quem não permitiria que nada acontecesse, era Augusto.
Havia dias Reinaldo andava com aquele dilema, oscilando entre o dever e a paixão.
Caminhava de um lado a outro, pesando os prós e os contras de uma investigação.
Não queria investigar Augusto, contudo, não podia permitir que ele continuasse a desafiar o governo.
Se ele estivesse envolvido, de alguma forma, Reinaldo precisaria detê-lo.
Quem sabe essa não seria a chance que tanto esperava?
A campainha estridente do telefone quase o fez tropeçar na perna da cadeira.
Detestava quando alguém interrompia seus pensamentos.
Com irritação e impaciência, levantou o fone do gancho e atendeu:
— Alô!? Sim...
A voz do outro lado quase o derrubou ao chão, tamanha a surpresa.
Sem esperar que ele dissesse alguma coisa, pôs-se a revelar factos surpreendentes.
Reinaldo ouviu atentamente, os pensamentos dando reviravoltas, fazendo perguntas e encaixando direitinho as respostas.
Era muita coincidência!
Quis marcar um encontro, mas a pessoa não aceitou.
Ou era daquele jeito, ou desligaria o telefone.
Reinaldo arriou na cadeira, colocou os cotovelos sobre a mesa, a boca aberta diante das revelações comprometedoras e fantásticas.
Por quase uma hora, deteve-se naquela conversa, pedindo detalhes, tomando notas, emudecendo de assombro.
Quando desligou, estava lívido de espanto.
Jamais poderia imaginar uma coisa daquelas.
Durante alguns poucos minutos permaneceu onde estava, remoendo a incerteza.
Até que deu um sorriso enigmático, como se uma pequena lâmpada se houvesse acendido em sua mente, deixando clara a solução.
Reinaldo bateu com as duas mãos sobre a mesa e levantou-se de um salto, partindo directo para o arquivo.
Lá encontrou o que procurava.
Folheou o dossiê de poucas páginas, viu as fotos, anotou endereços.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 11:44 am

No fundo, não precisava de nada daquilo.
A informação que recebera fora completa e precisa.
Não havia como errar.
Eram dez da noite quando Augusto e Rafaela entraram em casa, recepcionados por Spock, que saltou sobre eles, abanando o rabo.
Nelma não apareceu para recebê-los.
Recolheu-se cedo, logo no comecinho da noite, para não ter que se encontrar com eles.
Mas ouviu quando chegaram, fazendo ruídos por toda casa, rindo, falando alto, como um casal livre e apaixonado.
Nelma sentiu o estômago embrulhar e procurou ficar o mais quieta possível.
No dia seguinte, pediria as contas.
Com tudo o que estava acontecendo, não se atrevia a continuar trabalhando ali.
Tinha pena de padre Augusto, contudo, compactuar com aquela infâmia era um fardo muito mais pesado do que podia suportar.
Aos poucos, os ruídos cessaram, a casa retornou ao silêncio.
Agora sem se importar com o falatório ou as consequências, Augusto levou Rafaela para dormir em sua própria cama.
Não tinham mais o que esconder de Nelma, que, dali em diante, deveria aceitar a nova situação ou ir embora.
Foi um alívio para Rafaela dormir fora daquelas paredes abafadas.
O quarto de Augusto era arejado e, com a janela aberta, a brisa suave da noite penetrava livremente.
De tão felizes, amaram-se de novo até a exaustão, só adormecendo muito depois da meia-noite.
Tudo estava em paz, o silêncio os confortava, o medo havia-se dissipado e a sensação de segurança dava a Rafaela a certeza de que tudo acabaria bem.
Não demorou muito para que um estrondo ensurdecedor provocasse um despertar trémulo.
Spock dava latidos assustados, investindo contra a porta do quarto.
Quase foi atingido quando a porta se abriu e homens armados com pistolas irromperam por todo lado.
A luz se acendeu, botas barulhentas pisotearam o chão.
Uma delas chutou o cãozinho para o lado, que correu a se refugiar embaixo da cama.
Soldados armados cercaram a cama, apontando suas armas para o casal.
— Levantem as mãos! — gritou um dos soldados.
Apavorados e atónitos, os dois obedeceram.
Com o gesto, Rafaela teve que soltar o lençol que encobria seu corpo.
Ele escorregou, desnudando-a, causando risos de escárnio nos homens.
Indignado com tamanha falta de respeito, Augusto esqueceu-se da situação de risco e submissão em que se encontrava.
Saltou sobre o policial mais próximo e tentou acertar-lhe um soco.
— Desgraçado! — esbravejou ele.
Não teve tempo nem chance de atingir o sujeito.
Outro soldado aplicou-lhe uma coronhada por trás, fazendo-o tombar sobre a cama.
Um filete de sangue escorreu de sua nuca, enquanto Rafaela tentava segurá-lo.
Logo mãos poderosas a agarraram, puxando seus braços para trás, atando seus punhos com um par de algemas frias e apertadas.
— Soltem-na! — bradou Augusto, sem nem se importar com a dor na cabeça.
Cafajestes! Tirem as mãos de cima dela!
Ela não fez nada!
— Calado, padreco — debochou um dos soldados.
A vadia agora é nossa.
— Não! Canalhas! Soltem-na!
Imediatamente, Augusto foi agarrado por dois homens que o contiveram à força.
Derrubado ao chão, rosto colado no assoalho, esperneava e tentava se soltar, mas os homens não o largavam.
Rindo, prendiam-no com força e impiedade.
— Deixem-no — foi a voz imperativa que ressoou pelo quarto.
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Ave sem Ninho

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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 11:44 am

Rafaela chorava impotente, enquanto Augusto se levantava e encarava o interlocutor:
— Eu devia saber que isso era obra sua — revoltou-se.
Por que, Reinaldo, por quê?
Ela não fez nada. Solte-a.
Reinaldo olhou de um a outro com profundo desprezo.
Não sabia o que o irritava mais:
se o facto de Augusto estar escondendo uma mulher procurada pela polícia ou de ter feito sexo com ela.
— Ela é uma traidora do regime — acusou com raiva.
É acusada de propaganda subversiva.
— Você não tem provas.
— Tenho todas as provas de que necessito.
— Por Deus, Reinaldo, não faça isso.
Ela é só uma menina.
— Uma menina que lhe serve para o sexo.
Muito conveniente, ter a sua amante particular e exclusiva.
Mas agora acabou. Ela vai para o lugar onde deveria estar há muito tempo.
Aconselho-o a vestir a batina e fingir que nada disso aconteceu.
Não é problema seu.
— Engana-se.
O problema é todo meu.
Se ela vai presa, eu também tenho que ir.
— Não seja tolo — rosnou Reinaldo, agarrando-o pela gola do pijama.
Não vê o que estou fazendo por você?
— Eu não me importo.
Não vou permitir que você saia daqui com ela.
Se quer prendê-la, tem que me levar junto.
Não foi em minha casa que a encontrou?
Se ela cometeu algum crime, eu também cometi por escondê-la.
— Não temos nada contra você — rebateu Reinaldo com frieza, e, tornando a voz quase inaudível, sussurrou:
— Não gostaria de ter.
Por favor, Augusto, não me obrigue a prendê-lo.
— Você não pode levá-la.
Não vou permitir.
— Tem certeza de que quer que eu o prenda e o investigue?
Augusto olhou para Rafaela, que chorava sem parar.
— Augusto, por favor... — suplicou ela.
Ele deu um passo à frente, mas foi detido por Reinaldo, que o empurrou para trás.
— Nem tente — disse com aspereza.
Vai ser pior para os dois.
— Leve-me no lugar dela — suplicou ele.
Se alguém cometeu um crime aqui, fui eu.
Sou maior de idade, sabia o que estava fazendo.
Ela é só uma estudante fútil e infantil.
— Idiota — desdenhou ele.
Como foi se deixar apanhar por causa de uma aventureira traidora?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 11:44 am

Sabia que o namoradinho dela tinha o mesmo nome que você?
É por isso que ela se deita com você.
Para fingir que é ele.
— Nada disso me importa — contestou Augusto.
Nós nos amamos. Por Deus, Reinaldo, deixe-a ir.
Prometo que a levarei embora.
Iremos para outro país e você nunca mais ouvirá falar de nós. Eu juro.
— Não posso. Ainda que quisesse, não posso.
Não tenho autoridade sobre ela.
Cumpro apenas o meu dever.
— Você pode, se quiser. Sei que pode.
Diga que não a encontrou.
Dê-me uma vantagem, e desapareceremos.
— Chega. Essa conversa já se estendeu demais — e, virando-se para seus homens, ordenou:
— Levem-na.
— Não! — soluçava Rafaela. — Soltem-me!
Por favor, soltem-me!
Não quero ir! Não quero!
— Rafaela! — bradou Augusto, impedido de sair atrás dela pelos soldados de Reinaldo.
Larguem-me! Rafaela!
Não foi possível impedir a prisão.
Rafaela saiu arrastada, enquanto ele permanecia no mesmo lugar, contido à força por três homens.
Reinaldo assistia a tudo com uma estranha sensação de prazer e poder.
Depois que Rafaela sumiu de vista, e apenas seus gritos davam sinal de sua presença, ele se virou para Augusto e arrematou com escárnio:
— Devia ao menos ter escolhido uma mulher corajosa.
Augusto lutou para soltar os braços, mas não conseguiu.
Impotente, humilhado, não lhe restou outra solução.
Com olhos que delatavam desprezo e revolta, encheu a boca e cuspiu na cara de Reinaldo.
A surpresa foi tão grande que o outro, a princípio, não reagiu.
Limitou-se a limpar o rosto e encará-lo com frieza, aguardando.
Quando, finalmente, ouviu a sirene da patrulha se afastar, enxugou a mão na calça e, sem dizer palavra, cerrou os punhos e acertou violento soco no estômago de Augusto.
Reinaldo rodou nos calcanhares.
A caminho da porta, fez sinal para os soldados soltarem Augusto, que ainda tentou investir contra ele.
Os homens nem lhe deram chance de se aproximar.
A golpes de murros e pontapés, derrubaram-no ao chão.
Um grito aterrorizado partiu da entrada, onde Nelma assistia a tudo sem se mover, coberta de horror.
Quase desfalecido, esforçando-se para respirar, Augusto viu um par de botas se aproximar.
Reinaldo abaixou-se ao lado dele, agarrou-o pelos cabelos e disparou irado:
— Dê-se por feliz por eu ser um homem de palavra.
Do contrário, não haveria amizade que me impedisse de matá-lo.
Por alguns momentos, Reinaldo deixara de lado o que sentia por Augusto, tomado de uma raiva incontrolável.
Era sempre assim quando se sentia provocado.
A ira rapidamente transbordava, levando-o a esquecer-se de amigos e pessoas queridas.
Com brutalidade, soltou os cabelos de Augusto.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 11:44 am

Sua cabeça tombou novamente de encontro ao assoalho, manchando-o com lágrimas de dor, raiva, frustração e medo.
A passos fortes e ruidosos, Reinaldo foi embora, levando consigo seus soldados.
Passaram por Nelma e, por instantes, os olhares dela e de Reinaldo se cruzaram.
Ela jamais esqueceria o sorriso maligno dele.
Era aterrorizante, frio, cruel.
Recuperada do susto, Nelma correu para onde estava Augusto, ajoelhando-se junto a ele.
O padre permanecia caído, o sangue manchando a camisa, respingando no chão.
O rosto inchado e dolorido ficara praticamente irreconhecível.
— Padre Augusto — chamou ela, aos prantos.
Por favor, responda-me!
Oh! meu Deus, preciso de um médico!
Ela ia se levantar para ligar para o hospital quando sentiu a mão quente do padre agarrando seu pulso.
Abaixou-se novamente e ouviu sua voz estertorosa, quase inaudível:
— Por que fez isso, Nelma?
Não precisava ter delatado Rafaela.
Ela puxou o braço e ergueu-se de um salto, levando a mão ao coração.
— Por Deus, padre, o senhor pensa que fui eu?
— E não foi?
— Eu jamais faria uma coisa dessas!
— Não precisa mentir, sei que foi você.
Quando saímos daqui na sexta à noite, você mesma disse que Rafaela merecia ser presa.
Por quê, Nelma?
Por que tanto ódio de uma pessoa cujo único pecado foi me amar?
— Falei aquilo sem pensar, porque estava com raiva.
Queria que ela se afastasse do senhor, desejei mesmo que sumisse.
Mas não fui eu que a delatei.
— Você era a única que conhecia Reinaldo, sabia que ele era agente do DOI-CODI.
— Padre Augusto, eu nem sei o que é isso de dói não sei o quê...
Conheci o capitão Reinaldo, sim.
Quando ele esteve aqui, deu-me até o seu cartão.
Mas eu não liguei para ele. Não faria isso.
Por mais que detestasse Rafaela, como detesto, não gostaria de levar na minha consciência esse peso.
Queria que ela sumisse, mas eu jamais me prestaria ao papel de delatora. Jamais!
Ela estava tão indignada e falava com tanta convicção, que Augusto não teve dúvida de sua sinceridade.
Agora realmente confuso, cravou nela os olhos húmidos de lágrimas e indagou perplexo:
— Mas se não foi você, então, quem foi?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 11:45 am

Capítulo 43

O relógio da sala havia acabado de bater a meia-noite quando Cláudio abriu os olhos.
Não estava dormindo.
Tentava apenas desanuviar a mente dos pensamentos fúnebres que insistiam em assombrá-lo.
A todo instante virava-se na cama, imaginando o que estaria acontecendo àquela hora na casa de Augusto.
Em cima da mesinha de cabeceira, o cartãozinho do capitão Reinaldo jazia quieto.
Cumprira bem a sua missão e agora precisava ser destruído.
Devia ter feito aquilo mais cedo, contudo, não podia confiar na memória para decorar o número de telefone ali escrito.
Lembrou-se de quando Nelma lhe telefonara em desespero.
Sentado na cama dela, verificando a agenda de Augusto, viu o que parecia um papelzinho com uma espécie de brasão, que julgou ser o da República.
Movido pela curiosidade, aproximou o rosto e leu, distintamente, o nome de Reinaldo e o telefone, grafados abaixo do emblema da Polícia Militar.
Sem nem muito pensar, abriu a agenda sobre a mesinha e passou a mão no cartão.
Nelma nem percebeu, tamanha a sua aflição.
Ele resolveu o que tinha para resolver, acalmou Nelma, tomou todas as providências e voltou para casa, levando no bolso o cartãozinho amassado.
No decorrer do dia, substituiu Augusto em seus compromissos eclesiásticos.
Realizou os baptizados e celebrou os casamentos.
Mais tarde, quando voltou para casa, o cartãozinho lá estava, no mesmo lugar em que o deixara, sobre a mesinha.
Cláudio não sabia o que fazer.
Apanhou e largou o cartão várias vezes, pesando bem suas ideias.
Não era certo o que Augusto estava fazendo.
Envolver-se com uma mulher era uma loucura, um desrespeito à batina que usava.
Ele tinha que parar com aquilo.
Augusto, contudo, não o ouvia.
Passara meses se atormentando, oscilando entre o sacerdócio e a mulher, para finalmente se decidir pelo pecado.
Não era justo. O lugar de Augusto era na Igreja, e ele não poderia permitir que uma garota inconsequente o afastasse de seu dever.
Cláudio tinha certeza de que Rafaela não amava Augusto.
Estava apenas empolgada com um homem bonito, porque ele, apesar de padre, tinha lá a sua beleza.
Ela iria destruir a vida dele, levando-o a um envolvimento sem futuro.
Mais tarde, era certo que o desprezaria.
Quem sabe até não acharia graça de sua imaturidade ao se envolver com um clérigo.
Não, ele não podia permitir que ela estragasse todo o futuro e a carreira de Augusto.
Era preciso pôr um ponto final naquela sandice.
E fora justo no momento em que mais pensava num meio de afastar Rafaela do caminho de Augusto que o cartão aparecera, logo quando as actividades da Esperança haviam sido momentaneamente suspensas, de forma que não correria o risco de comprometer seus companheiros.
Preocupava-o a sorte de Rafaela.
Não queria que ela fosse torturada nem morta.
Queria apenas que ela sumisse da vida de Augusto.
Não foi com facilidade que se decidiu a ligar para Reinaldo.
Depois de muito pensar, encontrou a solução.
Apanhou o cartão e discou o número, rezando para que ele estivesse de serviço.
O telefone tocou algumas vezes, antes que alguém atendesse.
— Alô!? — falou uma voz irritada de homem do outro lado.
— Por favor, é o capitão Reinaldo quem fala?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

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