Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 11:45 am

— Sim.
— Capitão, perdoe-me por telefonar-lhe assim numa tarde de sábado.
Mas o assunto é deveras urgente.
Tenho aqui notícias do paradeiro de uma fugitiva política.
— Sim? — o capitão agora parecia ter mais interesse.
Continue.
— Sei onde ela está escondida — diante do silêncio do outro lado da linha, continuou:
— E estou disposto a revelar seu esconderijo em troca de um pequeno favor.
— Não negocio com delatores.
— Não sou delator.
Sou um padre, e o que faço é em nome da Igreja.
— Um padre?
— Sim, mas isso não vem ao caso.
Gostaria de saber se posso confiar na sua palavra.
— Pode.
— O senhor tem que prometer que nada acontecerá ao padre que está envolvido com a moça, e que ela não será torturada nem morta.
— Não posso prometer isso.
— Então, nada feito.
— Espere. Por que não nos encontramos para tratar disso pessoalmente?
— Não. Só posso falar com o senhor por telefone.
— Diga-me onde está e irei até você.
- Já disse que não.
Se não pode falar comigo, vou desligar.
— Não desligue. Está certo.
Vamos conversar.
Diga-me o nome da moça e do padre.
— Primeiro tem que me prometer que ele não será preso e que a moça não será torturada.
— Não compreendo o senhor, padre.
Quer delatar uma mulher e não quer que ela seja torturada.
Não há nisso uma contradição?
— Meu único interesse é que ela se afaste do padre a quem seduziu.
Não lhe quero mal.
Mas se o senhor não pode me prometer nada disso, esqueça.
— Acalme-se. Podemos chegar a um acordo.
— O único acordo é esse de que lhe falei.
Precisa me garantir que nada acontecerá à moça ou ao padre.
— O que foi que o padre fez?
Ele também é subversivo?
— A única coisa que ele fez foi cair na besteira de apaixonar-se por ela.
— É ele quem a esconde?
— Sim.
— Mas então, ele está envolvido.
— Não. Ele só quis ajudá-la.
Nunca fez nada contra o governo.
— Certo. Qual é mesmo o nome dele?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 11:45 am

— Eu não disse o nome dele e não pretendo dizer até que me prometa que nada irá lhes acontecer.
— O senhor está me pedindo muito.
— É uma troca justa por uma informação tão valiosa.
Seguiu-se um instante nervoso de silêncio, até que Reinaldo acabou concordando:
— Muito bem. Façamos o seguinte:
o padre sai livre, e a moça será banida".
É o máximo que posso fazer.
— Ela não será torturada nem morta?
— Não.
— Jura?
— Juro.
— Como posso confiar na sua palavra?
— Foi o senhor quem me procurou.
Cláudio deu um suspiro doloroso e acrescentou com pesar:
— Liguei para o senhor porque confio em sua integridade e sei que não irá me enganar.
— Certo, certo.
E agora, o nome deles.
Seguiu-se um silêncio nervoso, e Cláudio soltou um suspiro profundo.
— Muito bem.
A moça chama-se Rafaela da Silva Ferraz.
— E o nome e o endereço do padre?
— Ele se chama padre Augusto dos Santos Cerqueira.
Cláudio teve a impressão de que o homem do outro lado havia soltado um grito, mas devia estar enganado.
— Não precisa me dizer onde é — arrematou Reinaldo.
Eu o conheço.
— Foi o que imaginei.
— Ele está em casa neste momento?
— Eles viajaram, não sei para onde.
— Quando voltam?
— Domingo à noite, eu acho.
— Óptimo. Quando chegarem, estaremos prontos.
— Lembre-se de sua promessa.
E, por favor, jamais lhe conte que fui eu que lhe dei essa informação.
Desligaram. Desde então, Cláudio perdera o sossego.
Não conseguia dormir, e a toda hora olhava o relógio.
Não sabia nem se Augusto voltaria de sua viagem naquele dia, embora Nelma afirmasse que fora o que ele dissera.
Reflectindo melhor agora, Cláudio via a insensatez de seu gesto.
Delatara o amigo aos militares, seria o responsável pela prisão de uma jovem inocente.
E se Reinaldo não mantivesse a palavra e prendesse os dois?
E se eles fossem torturados ou mortos?
Reinaldo era um homem frio, metódico, fanático pelo regime vigente.
Não era confiável.
Já arrependido, Cláudio levantou-se da cama e pôs-se a caminhar pelo quarto, imaginando uma maneira de desfazer tudo aquilo.
Pensou em telefonar para a casa de Augusto, mas o medo de descobrir o que poderia estar acontecendo paralisou-o.
Por que fora cometer aquela loucura?
Sem meios de voltar atrás, Cláudio ajoelhou-se em frente à janela e, olhos voltados para as estrelas e a lua, orou.

11. Banimento — pena que acarreta a retirada compulsória de um nacional do país, muito usada na época da ditadura militar e proibida pela actual Constituição da República.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 11:45 am

Capítulo 44

Rafaela foi levada para o quartel do Primeiro Batalhão da Polícia do Exército, local onde Reinaldo desempenhava suas funções não apenas de agente, como também de torturador.
Entrou desfalecida, tamanho o pavor que os homens lhe incutiram.
Durante o percurso até a Tijuca, foi espancada e molestada, humilhada por homens brutais e impiedosos.
A truculência foi tanta que ela não resistiu e desmaiou ainda dentro do carro, precisando ser carregada pelos soldados.
Quando acordou, estava numa sala fria, sem janelas.
Deitada no chão, abriu os olhos e perscrutou o ambiente ao redor.
Do tecto, uma lâmpada nua pendia de uma espécie de gambiarra, mal iluminando a tosca mesa e duas cadeiras colocadas bem abaixo.
Um arrepio de terror fez eriçar todos os pelos de sua pele, e ela fechou os olhos para não enfrentar o que estava por vir.
Vira muitas salas como aquela no cinema e sabia para que serviam.
Pouco depois, a porta se abriu, e Reinaldo entrou, batendo contra a perna um cassetete de polícia.
O barulho que o objecto produzia de encontro à calça de sarja do homem lhe causou violento tremor, levando-a a encolher-se toda a um canto.
Reinaldo se aproximou devagar, puxou a cadeira para perto dela e sentou-se.
— Muito bem — começou ele.
Cá estamos nós.
Apenas nós dois, como tem que ser.
Sem dizer nada, ela chorou de pavor.
— Está com medo? — prosseguiu Reinaldo.
Pois não devia.
Ou devia ter pensado nisso antes de se envolver na panfletagem subversiva.
— Por favor... —foi a única coisa que conseguiu balbuciar.
— Por favor o quê?
— Por favor, não me machuque mais.
— Não machucá-la mais?
Mas eu ainda nem comecei!
Em vez de apenas chorar, Rafaela desatou a soluçar, demonstrando no pranto um desespero e um terror inigualáveis.
Quanto mais ela chorava, mais Reinaldo se comprazia.
— Por favor, por favor... — era só o que conseguia repetir.
Bom, tem um jeito de eu não machucar você — disse ele em tom divertido.
Quer saber qual é?
— Sim...
— Você pode me fazer um favor.
— Que favor?
Ele olhou para ela e passou a língua nos lábios.
Piscou um olho e acrescentou com malícia:
— Você sabe.
Ele a estava induzindo a crer que desejava fazer sexo com ela.
Mesmo transtornada e desfigurada pelo medo, Rafaela não pensou duas vezes.
Tinha pavor de apanhar, reconhecia sua fraqueza para a dor e a tortura.
Por mais que aquele homem lhe causasse repulsa, talvez ele se satisfizesse com o sexo e a deixasse em paz.
Pôs-se de pé, de cabeça baixa, e começou a desabotoar a blusa do uniforme sujo que lhe deram para vestir.
À medida que avançava nos botões, mais e mais lágrimas caíam de seus olhos.
Quando terminou de desabotoar tudo, olhou para Reinaldo, que passava a língua nos lábios, fingindo uma lubricidade que não sentia.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 11:45 am

Queria apenas humilhá-la.
Em silêncio, chorando cada vez mais, Rafaela tirou a blusa e expôs os seios.
Queria desesperadamente cobrir-se com as mãos, mas o olhar reprovador de Reinaldo a impediu.
Ela ficou parada e, estimulada por ele, tirou também as calças.
Quando estava completamente nua, presa de indescritível humilhação, ele saiu da cadeira e se aproximou.
Aquele era o momento em que ela acreditou que ele fosse dominá-la e possuí-la à força.
Reinaldo, contudo, apenas olhava para ela com um olhar que agora parecia de repugnância.
Ele estendeu a mão, mas, em vez de tocar o seu corpo, cerrou os punhos e deu-lhe um soco na boca do estômago.
A surpresa só não foi maior do que a dor.
O fôlego lhe faltou, ela dobrou-se sobre si mesma, as mãos juntas na barriga, quase vomitando.
— Você me dá nojo — desdenhou. — Vista-se.
O medo suplantou a vergonha.
Tentando se equilibrar, Rafaela estendeu as mãos para a roupa, que Reinaldo chutou para longe.
A dor fez com que ela se desequilibrasse e caísse no chão, onde permaneceu imóvel, temendo mover-se.
Foi então que ele levantou o cassetete e baixou-o com força sobre seu lombo, acertando-a nas costas e nos braços.
Rafaela tentou se proteger como podia, mas em vão.
Em poucos instantes, desmaiou.
— Que mulher mais covarde e mole — disse entre os dentes, cuspindo nela.
Assim não tem graça.
Reinaldo chamou o carcereiro e mandou que ele a levasse para uma cela.
Ela foi desfalecida, totalmente despida, carregada por um homem que aproveitou o momento para boliná-la o quanto pôde.
Só não a violentou porque Reinaldo lhe proibira terminantemente.
Havia prometido ao padre que não a torturaria, e era mesmo o que pensava fazer.
Ao menos até vê-la nua na cama de Augusto.
Ela fizera sexo com ele e nem tivera a decência de se vestir.
Não era uma mulher com quem Augusto devesse se envolver.
Merecia tudo aquilo que lhe acontecia e ainda mais o que estava por vir.
O padre delator não saberia o que ele fazia e, ainda que soubesse, não teria problema.
O que poderia um padre insignificante contra um homem de poder?
Durante o resto do dia, Rafaela permaneceu sozinha, quase sem se alimentar ou beber água.
A comida, além de indigesta, era pouca, e a água tinha gosto de sujeira.
Dali em diante, seguiu-se uma série de interrogatórios infrutíferos.
— Quem é o líder do seu movimento? — indagava Reinaldo todas as vezes.
— Carlos Augusto... — ela balbuciava, só porque ele estava morto.
— Mentira! — esbravejava ele, desferindo-lhe socos e pontapés.
E quem são seus comparsas?
— Não tem ninguém...
— Mentirosa! — e lá vinham novas bordoadas.
Onde é seu ponto de encontro?
— Não existe mais...
Tudo isso, Reinaldo sabia.
O que não fora dito por Rogério, um dos rapazes mortos, Silmara revelara.
— E padre Augusto? — perguntava.
Qual o envolvimento dele em tudo isso?
— Nenhum... Ele não sabia de nada.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 11:46 am

Mesmo com todo o medo, o amor por Augusto foi muito mais forte do que toda a dor.
Reinaldo podia fazer com ela o que quisesse, mas ela jamais lhe entregaria Augusto.
Por ele era capaz de suportar toda sorte de torturas, por mais que a machucassem, por mais aterrorizada que ficasse.
Foram muitos os momentos em que Rafaela desejou morrer.
Fraquejou várias vezes, chorou, se desesperou.
A única coisa que não fez foi revelar a Reinaldo sobre a existência da Esperança e a participação de Augusto.
A primeira providência de Augusto após a prisão de Rafaela foi seguir directo para o quartel, onde tinha certeza de que encontraria Reinaldo.
Nem se incomodava com a agressão que sofrera do outro.
Sua única intenção era libertar Rafaela.
Das primeiras vezes, ele não o atendeu.
Desesperado, Augusto fez escândalo, tentou agredir os policiais e invadir o quartel.
Por muito pouco, não ficou detido.
Só no dia em que ele conseguiu acertar um murro em um dos soldados foi que Reinaldo apareceu.
Não queria que ele fosse preso.
— O que você quer? — perguntou com autoridade e desdém.
— Onde está Rafaela?
O que fez com ela?
— Ela não está aqui.
— Não é verdade.
Por Deus, Reinaldo, não faça isso.
Deixe-a sair.
— Já disse que não depende de mim.
— Mas você pode atestar que ela não sabe de nada, que não estava envolvida com nenhuma actividade subversiva.
— Não posso fazer isso.
Mesmo que quisesse, não posso.
— Por quê?
— Ela não está mais aqui — mentiu.
— Ela foi transferida? Para onde?
— Não está mais no país.
— Como assim?
O que quer dizer?
Reinaldo tomou-o pelo braço, caminhando com ele pela calçada.
Atravessou a rua, sentando-se com ele num banco da praça.
Com ar de fingida condescendência, revelou:
— Ela foi banida, Augusto.
Foi o máximo que consegui fazer por você.
— Banida? — repetiu ele atónito. — Como?
— Iam matá-la, mas eu consegui intervir.
Em nome da nossa amizade, intercedi por ela.
— Não pode ser!
— O que você preferia?
Que ela fosse morta e seu corpo, jogado numa vala qualquer?
— Não...
— Pois então, contente-se e me agradeça por ter evitado isso.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 11:46 am

— Onde ela está?
Quero falar com ela.
— Impossível. O país de exílio não me foi revelado.
E depois, você sabe que toda correspondência dela será interceptada.
Ela não conseguiria escrever-lhe, ainda que quisesse.
— E a família dela?
Sabe de alguma coisa?
— Esqueça a família.
Para eles, Rafaela já está morta há muito tempo.
Não sabem de nada, e aconselho-o a não contar.
É uma questão de segurança nacional, e nem eu poderia revelar-lhe o paradeiro da garota.
Só estou fazendo isso para que você veja que ainda sou seu amigo.
Augusto abaixou a cabeça e chorou, provocando uma pontada de piedade em Reinaldo, que por pouco não acariciou seus cabelos.
A fragilidade dele o comovia, fazia-o sentir vontade de estreitá-lo, de protegê-lo e amá-lo.
— Augusto — chamou baixinho, querendo demonstrar compreensão.
Não fique assim.
Lamento muito o que lhes aconteceu.
— Por que fez isso, Reinaldo? — tornou ele dolorosamente.
Não precisava ter mentido ou me enganado.
— Não tive escolha. Fui obrigado.
É o meu dever. Se pudesse, não teria feito nada.
— Não acredito em você.
Sua atitude não foi a de um homem compelido pelas circunstâncias a fazer o que não quer, mas de alguém que sente prazer no que faz.
— Você não entende.
Sou um homem cumpridor do meu dever.
Pode imaginar o conflito que foi, para mim, enfrentar você em nome da fidelidade ao meu país?
— Você não me pareceu enfrentar conflito algum.
Ao contrário, parecia bem à vontade quando me desferiu aquele soco e permitiu que seus capangas me espancassem.
Reinaldo sentiu um nó na garganta.
Pôs a mão sobre a de Augusto e revelou:
— Quando estou no cumprimento do dever, reconheço que me transformo.
Para mim, nada é mais importante do que servir ao meu país.
Perseguir e capturar os traidores tem sido a minha tarefa há anos.
Quando se trata de segurança nacional, não meço esforços para que tudo saia como tem que sair.
Mas isso não me impede de lamentar a dor que causo, involuntariamente, aos amigos.
E você, Augusto, sempre foi meu amigo mais especial.
Delicadamente, Augusto retirou a mão e encarou Reinaldo.
— Se isso é um pedido de perdão, não precisa.
Em minha profissão, ao contrário da sua, aprendo a lidar com o amor e o perdão, em vez do ódio e da intolerância.
Como você, também sou muito consciente do meu dever, com a diferença de que eu valorizo a vida e respeito as pessoas, ao passo que você se impõe a elas pela força e pelo medo.
Deus é meu único guia, enquanto você segue uma ideologia de arrogância e terror.
E se alguém tem algo a lamentar, sou eu.
Lamento que existam seres humanos que, tendo tudo para ser bons, perdem-se na ilusão de poder.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 11:46 am

Reinaldo não sabia se admirava ou odiava o homem à sua frente.
A dignidade dele era tocante, tão verdadeira que chegava a causar inveja.
— Você é infinitamente melhor do que eu, não tenho dúvidas — falou com sarcasmo.
Humildemente reconheço isso.
— Não sou melhor do que ninguém.
Aprendi, amei. Só Deus sabe o quanto amo Rafaela.
Por ela seria capaz de qualquer coisa, até de entregar minha vida.
— Seria capaz de me aceitar em seu lugar?
— O que quer dizer?
— Não é possível que ainda não tenha percebido o que sinto por você.
Durante todo esse tempo, jamais consegui esquecê-lo.
— Isso não faz sentido.
— Faz todo sentido.
Se me aceitar em sua vida, talvez consiga arranjar um jeito de você falar com ela.
Prometo que farei com que a esqueça.
Serei o melhor homem do mundo para você. Eu juro.
Augusto olhou para ele com profundo pesar.
Agora compreendia tudo.
Soltou um suspiro longo e, sem desviar dele o olhar, considerou:
— Eu devia imaginar uma coisa dessas.
Por que não me contou que era homossexual?
— Estou contando agora.
Qual a sua resposta?
— A proposta que me faz é impossível.
Não sou como você.
— Será que não é mesmo?
E o que vivemos na infância?
— Já falamos sobre isso.
Passei anos da minha vida acreditando numa mentira, numa fantasia criada por meu pai.
— Sei. No fundo, o que você tem é preconceito, inclusive de si mesmo.
— Está enganado.
Tenho respeito pelas pessoas e acho que não é a forma de viver a sexualidade que orienta o carácter.
Hoje, afirmo com segurança que, se fosse homossexual, assumiria isso dentro de mim.
Mas não sou.
— Como você pode saber com certeza?
— Eu sei. Não sinto atracção por homens.
— Comigo, pode ser diferente.
Sei como fazê-lo feliz e prometo que você não irá se arrepender.
— Você enlouqueceu.
Amo Rafaela e sou capaz de qualquer coisa para vê-la em segurança.
Mas o que você me pede é para viver uma mentira, uma ilusão e uma desilusão.
Poderia apenas dizer que não o amo, mas isso seria uma meia verdade.
Não o amo como você deseja nem sinto atracção por você.
Respeito a sua orientação sexual, mas eu não sinto dessa forma.
Não posso me forçar a ser o que não sou.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 11:46 am

Tampouco posso mentir.
Não é fácil para mim estar aqui com você, conversar com você, ouvir você falar como se nada tivesse acontecido.
Quando olho para você, sinto raiva e frustração.
Então eu oro. Oro e vigio, para que Deus me dê clareza de raciocínio e sustento à minha alma, a fim de que não o odeie ou despreze.
Tento compreender os seus motivos, a sua imperfeição, a sua ignorância.
Procuro convencer-me de que, de alguma forma, sou responsável por tê-lo atraído para a minha vida, assim como Rafaela.
Estamos ligados por um elo que, no momento, desconheço.
Contudo, não posso ir além de meus limites.
Viver com você seria corromper o meu corpo e a minha alma.
Não posso fazer isso comigo mesmo.
Reinaldo espumava de ódio e indignação.
Sua vontade era levar Augusto para dentro do quartel e mostrar-lhe o trapo em que a covardia transformara sua amada.
Seria bem-feito para ele se lhe causasse um sofrimento indescritível.
A certeza de que ela estava sendo torturada, aliada à impotência dele, dilacerariam seu coração.
Como resultado, atrairia um ódio que ele, Reinaldo, na verdade, não queria que Augusto sentisse.
— Muito bem — arrematou com azedume.
Isso é bem típico de você.
Só espero que não se arrependa depois. Adeus.
Augusto não respondeu.
Permaneceu sentado, enquanto Reinaldo lhe virava as costas e voltava ao quartel.
Durante muito tempo, ficou parado ali, vendo as pessoas passarem, até que, no fim da tarde, as luzes do batalhão começaram a se acender.
Somente quando a noite caiu por completo, atirando em trevas as suas esperanças, foi que ele resolveu partir.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 11:47 am

Capítulo 45

Quando Reinaldo foi avisado de que outro padre estava ali para falar-lhe, começou a sentir certa revolta contra a Igreja e seus sacerdotes.
Estava cheio daqueles covardes que buscavam ocultar embaixo da batina o medo de enfrentar a vida.
Esse sentimento vinha da frustração que Augusto lhe deixara.
Entendia que havia se precipitado ao oferecer o seu amor, mas a proposta saíra, involuntária.
E agora perdera de vez sua paixão de infância.
Augusto dizia compreender, contudo, não queria dar-lhe a chance de mostrar que podia fazê-lo feliz, muito mais do que aquela menina insossa e medrosa que ele escolhera para amante.
E, agora, lá vinha outro padre.
Queria dispensá-lo com imprecações, mas achou melhor atender.
Na sala de espera, Cláudio o aguardava com o semblante marcado pelo medo e o arrependimento.
— O que deseja? — indagou o capitão com antipatia.
— O senhor é o capitão Reinaldo? — Reinaldo assentiu.
Sou o padre que telefonou e lhe deu a informação sobre Rafaela.
— Eu já imaginava — declarou ele, puxando uma cadeira e sentando-se a frente de Cláudio.
Tem mais alguma coisa para mim?
— Não foi para isso que vim.
Queria apenas falar-lhe sobre o nosso acordo.
— Não me lembro de ter feito nenhum acordo com você.
Com a indignação estampada no olhar, Cláudio deu um salto do sofá e encarou-o nervosamente.
— O senhor me prometeu que não maltrataria a moça nem prenderia padre Augusto.
— Que eu saiba, o padre continua solto.
— Mas e a moça?
O que fez a Rafaela?
— Nada. Ela está sob a minha guarda.
— O que vai fazer com ela?
— Lamento, mas essa informação é confidencial.
— Não acredito que o senhor vá faltar com a palavra empenhada.
A vontade de Reinaldo era mandar aquele padre para os quintos dos infernos, contudo, conseguiu se conter.
Nem sabia que, a seu lado, o espírito de Carlos Augusto tentava lembrá-lo daquela promessa.
— Ouça o que o padre está falando — estimulou o espírito.
Por acaso você é um homem sem palavra?
Não tem um mínimo de dignidade?
— Um homem na sua posição não pode se furtar à obrigação de manter a palavra — continuou Cláudio.
O senhor prometeu, no máximo, exilá-la.
Aborrecido com a insistência de Cláudio, Reinaldo captava muito pouco da vibração de Carlos Augusto.
O espírito havia feito uma limpeza no ambiente denso da sala e conseguira, com a ajuda de Paulina, preparar a mente do militar para responder a suas ideias.
A tarefa era difícil, porque Reinaldo vibrava ínfima amorosidade, inclinando-se poucas vezes às sugestões do bem.
Mesmo assim, conseguiu algum sucesso.
Reinaldo não ligava a mínima para a promessa que fizera a Cláudio.
Para ele, a palavra dada a um delator gravitava em torno da mesma perfídia.
Ainda assim, lembrou-se de Augusto, e uma pequenina reacção amorosa deu a Carlos Augusto o elemento que precisava para tocá-lo brevemente.
— Tem razão, padre — confirmou ele.
Prometi exilá-la e é o que vou fazer. Contudo...
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 11:47 am

Reinaldo olhava para Cláudio com ar divertido e malicioso, praticamente alheio aos apelos do espírito.
Sua interferência perdia força, porque a limpeza espiritual não durara muito.
Do lado de fora, uma massa espessa se formava em frente à porta.
Os espíritos que acompanhavam Reinaldo, indignados com a luminosa interferência, tinham montado guarda à entrada de seu gabinete.
Parados do lado de fora, não demoraram a atrair a atenção de outros seres das sombras que por ali transitavam.
E eram muitos.
Colocados a par da situação, logo iniciaram uma trama para invadir a sala de Reinaldo.
Aqueles espíritos de luz nada tinham a fazer ali.
A aglomeração de sombras emitia energias densas que ultrapassavam os limites das paredes.
Pouco a pouco, uma nuvem cinzenta foi-se infiltrando no ambiente, apagando as vibrações luminosas como uma vela a bruxulear.
— Precisamos ir — alertou Paulina.
Em breve, nossos irmãos das sombras invadirão esta sala com fúria.
— Espere — pediu Carlos Augusto.
Ainda não terminei.
— Não temos tempo.
Somos apenas dois contra uma súcia de espectros agressivos.
— Eles nada podem contra nós.
Nem irão nos ver.
— Nós também nada podemos contra eles, e o facto de não nos verem não nos coloca em segurança.
Lembre-se de que estamos em um ambiente defendido por eles.
E se você reparar bem, verá que as faíscas de energia que partem de Reinaldo vão directo ao encontro da onda negra que está se formando bem próximo a nós.
Não somos fortes o suficiente para enfrentá-los sozinhos nem foi para isso que viemos.
Ao olhar para a porta, Carlos Augusto viu nitidamente um fluxo de massa negra se alastrando pela sala, lentamente envolvendo a luz que ele e Paulina haviam espargido no local.
— Você tem razão! — exclamou ele, assustado — É melhor irmos.
No momento em que esvaneceram no ar, a onda funesta entornou no ambiente, engolfando a última réstia de luz.
Cláudio e Reinaldo, cuja mente mal captara as vibrações de bem, não perceberam a alteração energética.
O desejo de exilar Rafaela permanecera, embora uma nova e obscura ideia houvesse brotado nos pensamentos de Reinaldo.
Temendo o que estava por vir, Cláudio esperava.
Reinaldo divertia-se com o medo que causava no outro, sem pressa de concluir.
Quando julgou que o clima de tensão havia chegado ao limite, adoçou a voz e considerou:
— Como disse, a menina vai ser exilada.
Contudo, no futuro, lembre-se desse pequeno favor.
Imagino quantas confissões o senhor deve ouvir de gente comprometida com a oposição.
Horrorizado com a proposta dissimulada de Reinaldo, Cláudio levou a mão ao coração e retrucou indignado:
— Está me propondo que eu seja seu espião?
Que traia o dever de segredo do confessionário e lhe entregue os penitentes que fazem suas confissões em confiança a mim e a Deus?
— Não vamos levar para esse lado.
Digamos que o senhor estará prestando um grande favor à pátria amada.
Ou será que o senhor não ama o Brasil?
— Amo, é claro.
Mas Deus não escolhe patriotas.
— Vamos deixar Deus fora disso.
Minha conversa é com o senhor.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 11:33 am

— Isso é um absurdo!
Não sou um traidor.
— Não? Que nome dá ao que fez com Rafaela e Augusto?
— É diferente... — balbuciou ele.
Augusto se deixou iludir, e Rafaela é só uma doidivanas.
Só fiz isso porque acreditei na sua palavra de que nada iria lhes acontecer.
— Muito bem. Creio que iniciamos um jogo, não é mesmo?
Agora é a minha vez de jogar.
— Não compreendo.
— Muito simples.
Na sua vez, fiz o que me pediu.
Em troca de um favor, prestei-lhe outro.
Pela sua informação, prometi exilar Rafaela.
Agora sou em quem dá as cartas.
Em troca do meu silêncio e da liberdade de Augusto, quero a sua colaboração.
— Não posso! Não posso deixar que me use dessa maneira, traindo meu sacerdócio!
— Então, padre, lamento, mas o senhor perdeu.
— Como assim?
Quer dizer que vai prender padre Augusto?
Ele deu de ombros e acrescentou:
— Imagine só quando ele souber quem foi o responsável pela prisão dele e da namorada.
— O senhor está blefando.
Não tem nada contra padre Augusto.
— Ele abrigava uma perseguida política.
Pensa que vai convencer alguém de que não sabia quem era ela?
Pensando bem, acho muito difícil que o senhor também não soubesse.
Era uma ameaça séria e velada de prender não apenas Augusto, mas a ele também.
— Por favor, eu lhe imploro — Cláudio quase chorou. — Não faça isso.
— Não fui eu que comecei essa história.
Foi o senhor quem me procurou.
Agora não pode mais voltar atrás.
— Não quero voltar atrás.
O senhor já tem o que queria.
Prendeu Rafaela.
— Ela de nada me serve se não puder fazê-la falar.
Agora, o senhor...
— Sou apenas um velho idiota.
— Um velho idiota que sabe das coisas.
Você não me engana.
Pensa que eu não sei que alguém trabalhava com o general Odílio para ajudar os perseguidos a fugir do país?
Ele não podia fazer tudo sozinho.
Por coincidência, ele se confessava com Augusto.
E o mais estranho: no dia de sua prisão, para onde foi que ele fugiu?
Para a casa de Augusto, que já era o esconderijo de outra procurada.
Não é curioso?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 11:33 am

— Eu... não sei aonde quer chegar...
— O que estou querendo dizer é que você e Augusto estão na minha mira.
Aposto como vocês e mais alguns padrecos estão envolvidos com essa corja de subversivos.
Contudo, estou disposto a fingir que não desconfio de nada, desde que você faça o que eu digo.
Cláudio andava nervosamente pelo gabinete, maldizendo a si mesmo pela atitude impensada.
Mesmo com a Esperança desfeita, os padres que dela haviam participado não estavam seguros.
Precisava arranjar um jeito de consertar as coisas.
— Se eu lhe disser tudo que sei, promete deixar os outros em paz?
— Outros? Que outros?
— Promete ou não promete?
— Não sei do que está falando, padre, e não tenho que lhe prometer nada.
Posso mandar prendê-lo agora mesmo como suspeito.
— Pois prenda-me! — esbravejou Cláudio, subitamente irado com a pressão.
Prenda-me, torture-me, mate-me!
Só não me peça para trair meus amigos nem o juramento que fiz perante Deus!
— Olhe quem fala em trair os amigos.
Acho que ainda não se deu conta de que foi exactamente isso o que fez.
Sem saída, Cláudio deixou-se cair, abatido, sobre o sofá.
— O senhor é um homem cruel — comentou vencido.
Não tem piedade.
— Sabendo disso, não devia ter-me procurado.
Agora é tarde demais.
— O que quer que eu faça?
— Você sabe.
É só me contar quando algum traidor o procurar.
— Em troca, promete-me não prender a mim, nem Augusto, nem a nenhum outro padre?
As palavras dele, por si sós, revelavam alguma organização clandestina de padres contrários ao novo regime.
Cláudio já lhe fornecera elementos suficientes para prender os dois e, consequentemente, chegar aos nomes dos demais.
O único empecilho era que Augusto estava entre eles.
Sabia que devia prendê-lo, mas não suportaria vê-lo espancado, muito menos morto.
Reinaldo maldisse a si mesmo por sua fraqueza, a única que agora reconhecia.
Não, decididamente, não prenderia Augusto.
Podia intimidar Cláudio o suficiente até transformá-lo em seu informante, o que não tardaria.
As prisões e condecorações que receberia compensariam a perda dos padres.
— Muito bem — falou, com um brilho de vitória nos olhos maldosos.
Tem a minha promessa. De novo.
Quando tiver alguma coisa para mim, sabe onde me encontrar.
— E se eu não tiver nada?
— Aposto como vai ter.
Cláudio deixou o batalhão alquebrado, amargando um arrependimento que não tinha chance de contornar.
Jamais se imaginara numa situação daquelas, chantageado por um oficial frio e assustador.
Dele dependia agora não apenas a sua vida, mas a de Augusto, dos demais padres e dos fiéis.
Estava num beco sem saída, forçado a tornar-se algo que jamais imaginara ser.
Assim que Cláudio saiu do quartel, Reinaldo mandou buscar Rafaela.
Ela entrou assustada, de olhos vendados, o corpo ferido, cheio de hematomas.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 11:33 am

Parecia um trapo, o que era bem feito.
Reinaldo já não aguentava mais aquela garota no seu caminho.
Tinha que se livrar dela, da única mulher que conseguira o que ele sempre desejara e lhe fora proibido.
— Muito bem, podem deixá-la aqui — ordenou ao soldado.
Obrigou-a a sentar-se na cadeira de interrogatórios, toda encolhida e chorosa.
As lágrimas dela causavam repulsa em Reinaldo, que desprezava a covardia.
Quanto mais ela chorava, mais prazer ele sentia em impingir-lhe dor.
Sabedor do efeito que provocava nela o som da batida das botas no piso frio, ele se aproximou pisando o mais forte que pôde.
Parou em frente a ela e, por cerca de cinco segundos, não fez nada.
Permaneceu respirando pesadamente, infligindo-lhe um terror psicológico que vinha do medo do desconhecido, do que ele seria capaz de fazer.
Depois de um tempo, satisfeito com o pânico que se expressava pelo suor que escorria da pele dela, ele puxou a venda de seus olhos e indagou, sarcástico:
— Há quanto tempo você não toma banho? — ela não respondeu.
Você está fedendo, sabia?
Detesto mulheres fedorentas.
Nenhum homem gosta.
Rafaela chorava em silêncio.
Aprendera que, quanto mais estardalhaço fizesse, mais apanhava e sofria.
— Não sei mais o que fazer com você, guria — continuou ele, regozijando-se com o olhar aterrorizado e sem brilho da moça.
Já estou cansado de seus choramingos.
E você não vale de nada.
Não sabe nada, não tem nada que me interesse.
Suas informações são inúteis.
Você não me agrada, não agradou ninguém.
É só um monte de lixo.
Fez uma pausa para sentir o prazer que a aspereza de suas palavras produzia nela, até que prosseguiu com o mesmo sarcasmo:
— Então, diga-me você:
o que acha que devo fazer? — ela não respondeu, e ele, levantando-lhe o queixo, alteou o tom de voz:
— Hein? Não ouvi.
Aterrorizada, Rafaela engoliu em seco e disse, quase sem ser ouvida:
— Não sei...
— O quê?
— Não sei...
— Não sabe. Não sabe mesmo.
Ele soltou o queixo dela e levou a mão à cintura, tacteando o corpo por cima da roupa.
Encontrou o que procurava e abriu o paletó, exibindo o coldre de couro escuro que escondia a pistola.
Abriu o estojo e puxou a arma.
Olhando-a com certo embevecimento, rodou o tambor, satisfeito com o pânico que seu estalido produzia em Rafaela.
A menina começou a chorar, apavorada com o que parecia prestes a acontecer.
Ele apontou a arma para ela, que, de tão aterrorizada, não conseguia se mover.
— Por favor, não... — suplicou ela, em lágrimas.
— Sabe, Rafaela, eu decidi que você não merece viver.
O corpo todo dela foi sacudido por soluços de desespero.
Ela queria reagir, mas não conseguia.
Parecia que todos os seus músculos haviam sido paralisados.
Apenas as lágrimas tinham algum movimento, desciam livremente pelo seu rosto suado e sujo.
Queria implorar a ele que não fizesse aquilo, que não a matasse, mas não conseguia.
As palavras voltavam para a garganta, mortas em seu silêncio.
Dali para a frente, tudo aconteceu depressa.
Num gesto rápido e preciso, Reinaldo aproximou a pistola dos olhos de Rafaela, rindo do terror que deles transbordava.
Tinha o olhar demente, febril, como o de um lobo assassino prestes a devorar a presa acuada, sem esperança.
Quanto mais a ponta da arma se aproximava, mais Rafaela chorava, levando aos lábios de Reinaldo um prazer mórbido, sangrento, maligno.
Rosto afogueado, emoldurado por um sorriso mordaz e frio, fremente de excitação, Reinaldo encostou o cano do revólver na testa dela e puxou o gatilho.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 11:34 am

Capítulo 46

Com o tempo, o desespero cedeu lugar a uma tristeza indefinível.
Augusto não via mais graça ou prazer na vida.
Todos os esforços para conhecer o paradeiro de Rafaela haviam sido em vão.
Não sabia mais o que fazer.
Rezava todas as noites para que ela, ao menos, estivesse bem no exílio.
Como não podia mais vê-la, sentiu que lhe devia ao menos algum tipo de conforto.
Senão a ela directamente, ao menos àqueles com quem ela se importava.
Contrariando os conselhos de Reinaldo, resolveu procurar a família dela.
Os pais tinham o direito de saber o que lhe havia acontecido.
Puxou pela memória e lembrou-se do endereço que ela lhe dera.
Parou em frente à casa, do outro lado da rua, e olhou ao redor.
Não havia ninguém por perto.
Desde a prisão de Rafaela, a polícia não mais vigiava a casa.
Isso também não lhe importava.
Não tinha medo de Reinaldo nem de seus comparsas.
Faria o que achava certo.
Assim decidido, Augusto atravessou a rua e tocou a campainha.
Não demorou muito até que uma senhora atendesse.
Tinha o corpo alquebrado e o olhar anuviado de quem aprendera a conviver com o sofrimento.
Ela entreabriu a porta até o limite da correntinha que a prendia ao portal e espiou para fora.
A imagem do padre lhe causou certa surpresa.
Pensando que ele ali estava para pedir-lhe dinheiro para a caridade, tratou logo de desculpar-se:
— O senhor me perdoe, padre, mas não tenho dinheiro e não posso ajudá-lo.
— Não estou aqui para pedir nada.
Vim para falar-lhe de sua filha.
— Minha filha? — espantou-se ela.
— Sou amigo de Rafaela.
Se me deixar entrar, esclarecerei tudo.
Cada vez mais desconfiada, ela apertou a maçaneta e revidou:
— Quem me garante que está falando a verdade?
- O que pode garantir a minha verdade é o amor que, como a senhora, sinto por ela — confessou emocionado.
As palavras a comoveram e a convenceram de que ele era sincero.
Empurrou a porta, soltou a correntinha e abriu-a completamente.
— Entre.
Augusto entrou e seguiu-a até uma saleta, onde sentou-se em uma poltrona, enquanto ela se acomodava na cadeira de balanço em frente.
— Muito obrigado, dona Laís.
É esse o seu nome, não é?
— Sim. Mas não me lembro de Rafaela ter mencionado nenhum amigo padre.
O senhor sabe onde ela está?
— Sei e não sei.
Sua filha esteve em minha casa durante este último ano.
Demorou muito até que ele lhe contasse tudo, sem omitir qualquer detalhe, inclusive o facto de que ambos estavam apaixonados.
Ao final, Laís chorava de emoção.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 11:34 am

— Ela podia ter-me telefonado — desabafou.
Ter escrito uma carta.
Tem ideia do quanto meu marido e eu sofremos por causa do sumiço de Rafaela?
Fomos à polícia, consultamos hospitais e o IML (12)... várias vezes.
Fazemos isso até hoje.
Nosso filho mais novo ficou perturbado, achando que a irmã tivesse sido sequestrada.
Está com 13 anos e tem medo de ir à escola sozinho.
— Posso lhe assegurar que o que Rafaela mais queria era comunicar-se com a senhora.
Mas ela sabia que a casa estava sendo vigiada, o telefone grampeado, as cartas interceptadas.
Tinha medo de que algum mal lhes acontecesse.
— Mal nenhum podia nos acontecer.
Nós não fizemos nada!
— No dia em que ela fugiu, um policial a abordou na rua.
Podia tê-la prendido, mas não o fez.
Deu-lhe um aviso muito sério: que não os procurasse mais.
Ela sofreu com a saudade de vocês, mas temia pela sua segurança.
Se fez o que fez, foi para protegê-los.
Laís não conseguia segurar o pranto.
Chorava sem parar, pensando no destino de Rafaela.
— Ah! Meu Deus.
Minha filha... perdi minha filha querida...
— A senhora não a perdeu.
Rafaela está fora do país, mas está viva.
— Será que ela vai me escrever?
— Não creio, pois toda correspondência dela está censurada.
— Pelo menos ela está viva, não é? — Augusto assentiu.
Eu devia saber que ela andava metida em coisa errada.
Saía com aquele namorado e só voltava tarde da noite.
Vivia de cochichos ao telefone com ele e outras garotas.
Para quê? Deu no que deu.
— Não se lamente.
As coisas acontecem como devem acontecer.
— E o senhor?
Estragou sua vida por causa de Rafaela.
— Não pense assim.
Minha vida não tem mais sentido, porque o que lhe dava sentido era sua filha.
Não foi culpa dela, não foi culpa de ninguém.
Nós nos apaixonamos.
— Sei que o senhor é padre, e o que vou falar deve ser um pecado muito grande — redarguiu ela, dando tapinhas nas mãos de Augusto.
Mas eu teria gostado de ter um genro feito o senhor.
— Então, pode começar parando de me chamar de padre e de senhor.
Vou pedir dispensa da Igreja.
— Será que vale a pena, agora que Rafaela se foi?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 11:34 am

— Rafaela se foi, mas não o meu amor por ela.
Não posso continuar traindo os meus votos.
Embora não estejamos mais juntos, meu coração não pertence mais ao sacerdócio.
Não seria justo com os fiéis.
— O senhor é um homem bom.
Mesmo que não deseje mais ser padre, jamais vai deixar de ser bom.
Sinto isso só de olhar para o senhor.
— Não precisa me chamar de senhor.
— Está bem.
Mas não me disse o seu nome.
— Augusto. Pode me chamar apenas de Augusto.
Ela levantou as sobrancelhas e retrucou com espanto:
— Sabia que tem o mesmo nome do namorado dela?
— Sabia.
E é ex-namorado, assim como eu.
Carlos Augusto está morto.
Laís levou a mão à boca, sufocando um grito de horror.
— Eu não sabia.
— Ninguém sabe.
É um segredo que eu descobri e deve permanecer em segredo, ao menos, por enquanto.
Bem, dona Laís, preciso ir andando.
Lamento tê-la conhecido em tão tristes circunstâncias.
— O senhor foi um anjo que caiu dos céus — disse ela, beijando-lhe a mão.
— Não sou anjo, e a senhora sabe disso — acrescentou ele, beijando-lhe a mão também.
Mas podemos ser amigos.
— Venha me ver de vez em quando.
— Quando puder, virei, sim.
— Obrigada por tudo.
Obrigada por me deixar saber.
A dúvida é o pior tormento.
Ao menos agora sei o que aconteceu a Rafaela.
Vou contar a meu marido e meu filho, vamos rezar todos os dias para que ela esteja bem.
— Façam isso. Vai ajudar.
Em meio às lágrimas, Augusto se despediu, satisfeito consigo mesmo pelo conforto que levara àquela família. Se Reinaldo descobrisse, problema dele. Não tinha medo da polícia nem de ninguém. E como Rafaela não estava ali para ser castigada, nada mais tinha importância.
O que precisava agora era dar um rumo a sua vida.
Ser padre já não lhe interessava mais.
Ele mesmo se sentiria um traidor se continuasse a exercer seu ofício.
A cada pregação e confissão, amaldiçoaria a si mesmo por continuar agindo como se padre fosse, quando seu coração já não pertencia mais à Igreja.
Entrou em casa vagarosamente, dirigindo-se à cozinha.
Fazia calor, precisava de água.
Nelma, que cozinhava o almoço, sorriu quando ele entrou.
Desde o incidente, ela mudara por completo.
Estava mais quieta, menos crítica, suspirando pelos cantos, penalizada com o destino de Rafaela.
Augusto já lhe participara sua decisão de ir embora, mas Nelma se recusava a deixá-lo.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 11:34 am

— Como vão as coisas, Nelma? — indagou ele, servindo-se de um copo de água gelada.
— Como sempre.
Ela mexeu e remexeu nas panelas por alguns instantes, enquanto ele bebia em silêncio.
Depois que ele terminou e pousou o copo gentilmente sobre a pia, ela o chamou com um certo temor:
— Padre Augusto, preciso falar-lhe.
— O que foi?
Nelma engoliu em seco, voltou a mexer as panelas e olhou para ele de soslaio.
Augusto aguardava pacientemente, certo de que ela iria lhe falar sobre sua demissão.
Ela enxugou as mãos no avental, pigarreou e falou com hesitação:
— Tem algo que gostaria de lhe contar — ele esperou.
Sabe o capitão Reinaldo?
— O que tem ele? — tornou Augusto escabreado.
— Bom, no dia em que ele esteve aqui e prendeu o general Odílio... lembra-se?
— Como poderia esquecer?
— Pois é. Naquele dia, ele me deu um cartão com o telefone dele, para o caso de eu precisar falar com ele.
Todas as atenções de Augusto estavam agora presas em Nelma.
— Não está tentando me dizer que foi você que delatou Rafaela, está? — tornou, incrédulo.
— Não é isso, padre.
Já lhe disse, juro que não fui eu.
Mas eu tinha o cartão, que ficava sobre a minha mesinha de cabeceira...
— E daí?
— E daí que ele sumiu.
— Não vejo que importância isso possa ter.
Você deve tê-lo deixado cair no chão ou jogado no lixo.
— Acontece que ele sumiu no dia em que padre Cláudio esteve aqui, quando o senhor viajou.
A incredulidade agora havia redobrado de intensidade.
Augusto segurou Nelma pelos ombros e disparou:
— Está me dizendo que foi Cláudio quem delatou Rafaela?
Impossível!
— Também pensei assim a princípio, já que padre Cláudio é seu amigo e tudo o mais.
No entanto, o sumiço do cartãozinho é inexplicável.
Tenho certeza de que não o deixei cair nem o varri para o lixo.
Ele simplesmente sumiu.
Por coincidência, no dia em que padre Cláudio entrou no meu quarto e sentou na minha cama, para consultar os compromissos marcados em sua agenda.
Quando ele chegou aqui, o cartão estava lá.
Sei disso porque estava com ele nas mãos e o coloquei na mesinha.
Mas depois que ele se foi, o cartão sumiu.
— Não pode ser, Nelma.
Padre Cláudio não faria isso.
— Não estou dizendo que foi ele.
Mas ele foi a única pessoa que esteve aqui.
A não ser que o senhor o tenha jogado fora.
— Eu nem sabia da existência desse cartão.
— Pois é. Guardei-o para uma necessidade.
Contudo, jamais me atrevi a usá-lo.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 11:34 am

— E acha que padre Cláudio o pegou?
— Não sei. Mas que é estranho, é.
A conversa com Nelma deixou Augusto ainda mais acabrunhado.
Seria possível que Cláudio o houvesse traído?
Ele era seu amigo, jamais faria uma coisa dessas.
Um amigo que não gostava de Rafaela e não acreditava que ela o amasse.
Sem contar que era muito estranho que Nelma aceitasse o cartão de Reinaldo.
Quando ele invadira sua casa pela primeira vez, ficara muito claro que era um militar a favor do regime.
Não parecia apropriado que Nelma guardasse o telefone de gente assim.
A menos que tivesse algum interesse.
Augusto já não sabia mais o que pensar nem em quem acreditar.
Pensou se não seria melhor deixar de lado aquela história.
De que adiantaria saber quem fora o autor da denúncia?
Só serviria para deixá-lo com raiva e revolta, sentimentos que não lhe agradava ter.
Em sua cama, revirou-se de um lado a outro, tentando não pensar mais no assunto.
Contudo, a imagem de Rafaela, sozinha no exterior, não o deixava esquecer.
Precisava saber quem fora o responsável por tirar dele a mulher amada, de forma tão cruel e mesquinha.
Mas como?
Pela última vez, procuraria Reinaldo.
Se alguém sabia a verdade, era ele.
O último encontro deles não havia sido dos melhores, mas, ainda assim, tinha que tentar.
Antes de partir, rezou com fervor, pedindo a Deus que lhe desse forças.
Na sala de espera do quartel, o soldado que atendeu Augusto não parava de rir de uma piada que um oficial a seu lado lhe contara.
Os dois olhavam para ele e riam disfarçadamente, com risinhos abafados e olhares cínicos.
Ele não sabia o que era tão engraçado, até que Reinaldo apareceu.
O homem de maior patente, talvez um capitão, cumprimentou-o com um aceno de cabeça e um gracejo revelador:
— O que há com você, Reinaldo?
Agora deu para ser amigo de tudo que é padre dessa cidade?
Augusto quase caiu para trás.
Então outros padres estiveram à procura de Reinaldo.
Reinaldo pareceu não se importar com a piada e parou em frente a Augusto:
— O que você deseja? — indagou friamente.
— Apenas uma resposta — disse ele, levantando-se.
Só uma.
— O que quer saber?
— Quem foi que delatou Rafaela?
Reinaldo olhou discretamente para os dois homens e puxou Augusto pelo braço, caminhando com ele por um corredor comprido, até saírem para a rua.
— Não posso revelar minhas fontes — respondeu de má vontade.
— Entendo. Então, diga-me apenas:
foi um padre? — Reinaldo não respondeu.
— Foi?
— Olhe aqui, Augusto, por que não esquece essa história?
A moça já não está longe?
- Eu preciso saber.
Por favor, Reinaldo, é a única coisa que lhe peço.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 11:35 am

— Não posso.
Prometi não revelar e sou um homem de palavra.
— Diga-me apenas se foi um padre — Reinaldo não respondeu e desviou o olhar.
Foi, não foi?
— Um padre pode ser qualquer um.
— Então, por que não me diz?
— Está certo.
Se lhe der essa resposta, promete que não me pergunta mais nada?
— Prometo.
— Muito bem.
Foi um padre.
É só o que posso lhe dizer.
Não havia mais dúvidas.
Augusto não conseguia pensar em ninguém além de Cláudio.
Podia ser qualquer um, era verdade.
Mas somente Cláudio tivera acesso ao telefone de Reinaldo.
Ninguém mais.

12 IML — Instituto Médico Legal.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 11:35 am

Capítulo 47

Augusto vinha negligenciando suas actividades eclesiásticas.
Não comparecia mais às confissões, não marcava casamentos nem baptizados, nem missas de sétimo dia.
Celebrava apenas as missas normais, assim mesmo, em menor quantidade.
Até que sua dispensa fosse efectivada, não queria outros compromissos.
Chegou à paróquia de Cláudio no fim da última missa da manhã.
Augusto sabia que ele ainda teria um tempo livre antes de ir para o colégio.
Cláudio viu-o chegar e estranhou o facto de que ele se sentou no primeiro banco, ao lado das beatas mais assíduas, que se remexeram inquietas, orgulhosas de estarem lado a lado com um sacerdote.
Cláudio mal conseguia se concentrar na liturgia.
Vivia assombrado com a possibilidade de Reinaldo aparecer a qualquer momento para cobrar sua parte no acordo.
Seria um desastre se ele resolvesse procurá-lo justo no dia em que Augusto estava ali.
Terminada a missa, Cláudio cumprimentou-o e levou-o para a sacristia.
Enquanto trocava as vestes do culto, Augusto ocupou uma cadeira defronte à sua mesa e aguardou.
Cláudio mudou de roupa, guardou os paramentos e sentou-se diante dele.
— Muito bem — disse.
O que foi que houve?
Augusto não sabia por onde começar.
Se suas suspeitas se confirmassem, a dor seria quase insuportável.
De qualquer forma, tinha que saber.
Não poderia se permitir viver refém daquela dúvida.
— Vim aqui por um motivo — começou inseguro.
Tem algo que preciso lhe perguntar.
— O que é?
Um frio percorreu a espinha de Cláudio.
Era outro de seus medos: que o amigo descobrisse o que ele havia feito.
Como Augusto não era dado a rodeios, encarou o padre e, com voz que tornou firme, disparou:
— Foi você quem denunciou Rafaela?
Cláudio quase engasgou.
Tossiu algumas vezes, o rosto se avermelhou, a voz titubeou e falhou quando ele retrucou:
— O quê?
— Perguntei se foi você quem denunciou Rafaela.
— De onde tirou essa ideia? — respondeu, sombrio.
— Foi ou não foi?
O desejo de Cláudio era desaparecer, mas não havia nenhum buraco onde pudesse se enfiar e fingir que jamais existira.
— O que o leva a pensar que eu faria uma coisa dessas? — tornou, fingindo-se ofendido, sem coragem de encará-lo.
Por pouco Augusto não desistiu.
Começava a sentir certo remorso por fazer tão séria acusação.
No entanto, algo dentro dele continuava dizendo que não se enganara.
— Você faria? — insistiu.
— Eu... — gaguejou, olhos pregados no chão.
Não compreendo.
Por que essa desconfiança?
Alguém lhe falou alguma coisa?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 11:35 am

— O que deveriam me falar?
— Não sei.
— Quem falaria de você?
Ele deu de ombros e considerou, quase desculpando-se:
— Você é meu amigo.
Seria capaz de dar a minha vida para salvar a sua.
— E a de Rafaela?
Também trocaria sua vida pela dela? — Cláudio não respondeu.
Não, é claro que não.
Sei que não faria isso por ela.
A situação estava ficando complicada.
A cada palavra de Augusto, Cláudio se sentia mais encurralado.
Pensando num jeito de encerrar aquela conversa, ponderou:
— Sei que é difícil, Augusto, mas acho que você devia tentar esquecer Rafaela.
Não temos meios de localizá-la.
— Como é que você sabe?
— Nós sabemos como isso funciona.
Antes, tínhamos o general Odílio.
Agora, não restou ninguém para nos ajudar.
— Tem o capitão Reinaldo.
— Ele não nos dirá nada.
— Você já tentou? — Cláudio não respondeu.
Pois eu já.
— Você foi procurá-lo?
— Reinaldo foi meu amigo de infância.
Pode imaginar como me senti quando descobri que ele era um agente da Polícia Militar?
Depois, fez a prisão do general Odílio.
E agora, de Rafaela.
— Como você disse, ele foi seu amigo de infância.
Hoje é outro homem, você não o conhece mais.
— Tem razão. Mas fui procurá-lo, e sabe o que ele me disse? — Cláudio meneou a cabeça.
Que o delator foi um padre.
— Um padre?
— E Nelma também me contou uma história muito interessante sobre o sumiço de um tal cartão de visitas.
Sabe alguma coisa sobre isso?
Não havia mais para onde fugir.
Era óbvio que Augusto juntara as peças daquele simples quebra-cabeça e chegara ao seu nome.
Mentir, naquele momento, seria ainda pior.
— Fiz isso por você — confessou em tom quase inaudível.
No começo, Augusto não conseguiu reagir, mal acreditando na rápida confissão do amigo.
Achou que ele ia negar, mentir, disfarçar, mudar de assunto ou qualquer outra coisa que não fosse assumir sua culpa.
Depois de algum tempo, quando a verdade desabou sobre ele, massacrando suas esperanças de estar enganado, Augusto afundou o rosto entre as mãos e chorou amargamente.
— Porquê, Cláudio, porquê? — indagou, sofrido.
Você era meu amigo.
Eu confiava em você.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 11:35 am

— Ainda sou seu amigo — balbuciou o outro, consternado, pensando numa maneira de salvar a amizade.
Se fiz o que fiz, foi para resguardar sua vida, sua carreira.
— Como pôde fazer isso?
Você, que lutou comigo esses anos todos para defender e proteger os perseguidos políticos, como pôde trair assim a nossa ideologia?
Como foi capaz de conspurcar o nome de Deus com a infâmia da traição?
Você destruiu tudo aquilo que juramos defender:
o ser humano, seus valores, sua honra, sua vida...
As palavras de Augusto eram muito duras, levando Cláudio a chorar de mansinho, corroído pelo remorso.
— Não me odeie, Augusto.
Errei tentando acertar.
Pensei que lhe fazia um bem.
— Que bem pode advir da prisão de um ser humano?
Da mulher que eu amo!
— Ela não ama você.
É só uma menina tola...
Ia destruí-lo... e à sua carreira.
— Você não tinha o direito de intervir na minha vida — soluçou ele, alteando o tom de voz.
Que espécie de homem é você?
— Por favor, Augusto, perdoe-me.
Eu só queria protegê-lo.
— Não preciso de sua protecção!
Você é desprezível.
Tenho nojo de você.
— Não fale assim.
Sou seu amigo, sempre fui...
Augusto estava à beira do descontrole.
Tomado de um ódio imensurável, não raciocinava mais com clareza.
Em sua mente ressoava a palavra traição, envenenando-lhe o raciocínio.
Sem o equilíbrio da ponderação, Augusto permitiu que seu corpo emocional lhe dominasse a razão.
Num átimo, saltou em cima de Cláudio, agarrando-lhe o pescoço.
— Desgraçado! — bradou, apertando sua garganta.
Cláudio não reagiu.
No fundo, achava que merecia aquilo.
Mas o coração de Augusto não era dado à violência ou à vingança.
Tão logo se deu conta do que estava fazendo, soltou o pescoço do outro e deu um salto para trás, chorando angustiado.
Braços caídos ao longo do corpo, Cláudio ofegava, olhos cerrados, quase sem vida.
Uma mancha roxa se alastrava ao redor do pescoço, enquanto ele permanecia imóvel, a cabeça jogada para trás no espaldar da cadeira.
— Cláudio! — chamou Augusto, assustado. — Cláudio!
Meu Deus, o que foi que eu fiz?
Desesperado, Augusto dava tapinhas no rosto de Cláudio, borrifando-lhe a face com água tirada de uma jarra.
Aos poucos, a respiração dele foi-se normalizando, até que voltou a si.
Tentou engolir, mas a garganta ardeu, trazendo-lhe a lembrança e a compreensão do que ocorrera.
— Augusto — falou baixinho, a voz rouca em decorrência do quase estrangulamento.
— Perdoe-me, Cláudio — suplicou ele.
Perdi a cabeça, não sabia o que estava fazendo.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 11:36 am

— Não faz mal.
— Vou levá-lo ao hospital.
— Não precisa. Estou bem.
Augusto encheu um copo com água e estendeu-o a Cláudio, mas este não conseguiu beber.
— Tem certeza de que está bem? — insistiu, aflito.
— Estou, não se preocupe.
— Então, tem algo que preciso fazer.
Ele retirou o fone do gancho e pôs-se a discar um número.
— Para quem está ligando? — perguntou Cláudio.
— Para a polícia.
Vou me entregar.
— Entregar?
— Tentativa de homicídio — confessou em agonia.
Quase matei você.
— Não seja louco!
O pulo que Cláudio deu nem parecia de um homem que havia acabado de ser violentamente agredido.
Alheio à dor na traqueia, correu para o telefone e premiu os dedos contra o gancho, desligando na mesma hora em que uma voz do outro lado dizia "Polícia...".
— Não faça isso — implorou Cláudio.
Vai me deixar ainda mais culpado do que já me sinto.
E você não merece ir para a cadeia.
— Quase o matei, Cláudio.
Não podia ter feito isso.
— O que você fez é absolutamente compreensível.
Qualquer outro, no seu lugar, faria a mesma coisa, com a diferença de que teria ido até o fim.
— Perdoe-me...
— Sou eu quem tem que lhe pedir perdão.
Cometi o maior erro da minha vida, e só Deus sabe o quanto me arrependo.
— Reinaldo me disse que Rafaela foi banida do país — comentou Augusto, quase sem expressão, presa de uma dor que tira o ânimo de viver.
— Foi o que ele me disse que faria.
— Será que é verdade?
— Não sei.
— Daria tudo para ter notícias dela!
De olhos baixos, Augusto finalmente liberou o pranto.
Chorou como nunca antes havia chorado, com lágrimas grossas encharcando-lhe o rosto.
Cláudio quis confortá-lo, contudo, não se atreveu a aproximar-se mais.
Parou a mão acima da cabeça dele e puxou-a de volta.
Arriou na cadeira, sofrendo com a dor do amigo, sem se importar com sua própria dor.
Levou algum tempo até que Augusto se acalmasse.
Enxugou os olhos, bebeu água e encarou o outro, que disse:
— Sei que não adianta dizer o quanto lamento tudo isso — desabafou Cláudio, com sinceridade.
Fui um idiota, estúpido.
Confiei na palavra de um homem que só é fiel a si mesmo.
A vida e a honra não têm valor algum para Reinaldo.
Devia saber disso.
— Não adianta querer culpá-lo.
Foi você o delator.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 11:36 am

— Sei disso e não pretendo eximir-me de minhas responsabilidades.
Mas também não quero me comprometer ainda mais do que já estou comprometido.
— O que quer dizer?
— Reinaldo está me chantageando.
Quer que use minhas prerrogativas de padre para lhe dar nomes de penitentes subversivos em troca de seu silêncio e da nossa liberdade.
— O quê? — horrorizou-se.
Você já fez isso?
— Não. O silêncio dele não é mais necessário, já que você agora conhece a verdade.
Mas tem a questão das prisões.
— O que quer dizer com isso?
Ele sabe da Esperança?
— Não exactamente.
Contudo, desconfia de uma organização por trás do general Odílio.
— Isso é preocupante.
Se fôssemos apenas nós dois, podíamos dar um jeito.
Mas e os outros?
— Estou num beco sem saída.
Ou entrego nossos amigos ou meus penitentes.
Não sei o que fazer.
— Saia da Igreja.
— O quê?
— Se você não for mais padre, não ouvirá confissões.
Consequentemente, não terá a quem delatar.
— Se eu fizer isso, ele pode ficar com raiva e mandar nos prender.
— Algo me diz que Reinaldo não fará nada disso.
— Como pode ter certeza?
— Não tenho. Mas precisamos ter fé.
Mais do que nunca, temos que estar vigilantes e orar.
Só assim conseguiremos vencer mais essa investida das trevas.
Estava desfeito o laço de rancor que, felizmente, nem chegara a se formar.
A indignação se transformara em ódio, este em revolta, passando então ao desânimo e, finalmente, ao perdão.
Na verdade, tanto Augusto quanto Cláudio, intimamente, sabiam que cada um percorre sua própria estrada, sem trilhar o caminho do próximo.
Todo ser humano é responsável não apenas por aquilo que faz, mas pelo que atrai de bom ou ruim para sua vida.
Ninguém sofre um mal se não gerou empatia com ele.
E aquele que atinge seu semelhante só o faz porque foi magnetizado pelas forças de atracção.
Nem vítimas, nem algozes.
Cada um com a sua energia atrai ou repele experiências de prazer ou dor.
Sem agressor e sem agredido, somos todos donos do nosso destino, escolhendo, a cada momento, uma das infinitas possibilidades que o universo nos oferece para a realização de nossas vidas.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 11:36 am

Capítulo 48

A escuridão ao redor de Rafaela era total.
Ela abriu os olhos lentamente, sentindo uma dor aguda na cabeça, por onde um filete de sangue escorrera e secara.
Estreitou a vista, mas não viu nada além de trevas.
Sob seu corpo, o chão era gelado e húmido.
A pele maltratada se ressentiu de sua aspereza.
De longe, gritos abafados chegaram aos seus ouvidos, fazendo-a estremecer.
Pareciam sussurros sofridos de quem não suportava mais a dor.
Torturas... Os gemidos lembravam as torturas.
Aos poucos, os gemidos foram escasseando, impondo o silêncio entre as paredes de pedra.
Rafaela tentou mover-se, mas todo o seu corpo doía.
As pernas gosmentas e viscosas não obedeciam a seu comando.
Não se recordava de nenhum lugar como aquele.
Tentou se concentrar no tempo, e aos poucos as lembranças foram voltando.
Lembrou-se da sala de interrogatórios, de Reinaldo, da arma.
Do cano frio encostado em sua testa, da pressão contra sua carne, do estalido do gatilho sendo pressionado.
E depois, nada.
O que sobreveio na sequência do tiro só podia ser a morte.
Com certeza, fora atirada em algum lugar de sofrimento no mundo pós-vida.
Ela conhecia pouco do assunto, mas acreditava na sobrevivência da alma.
Augusto sempre lhe falava sobre espiritismo, e ela sonhara muitas vezes com Carlos Augusto.
Agora estava ali, perdida naquele mundo desconhecido de sombras.
Aquele era um bom momento para Carlos Augusto aparecer, se é que ele sabia o que lhe acontecera.
Na certa ele habitava um lugar próximo do céu, ao passo que ela estaria em algum recanto das trevas.
Só podia ser isso.
Carlos Augusto, com sua força e coragem, fora levado a um lugar de paz.
Ela, covarde, fraca, sedutora de padres, merecia o tão temido umbral.
Subitamente, Rafaela ouviu um rangido de dobradiças enferrujadas partindo de algum ponto à sua frente.
Estreitou a vista, na esperança de enxergar alguma coisa, mas a escuridão ainda era total.
O ruído foi-se alongando, enquanto uma estranha luminosidade se alastrava aos poucos pelo chão.
Lentamente, uma claridade opaca penetrou o ambiente, acompanhada do som dos saltos de uma bota que lhe soou familiar.
Assustada, Rafaela recuou para o canto da parede e encolheu-se toda, com medo até de respirar.
Mas será que ela respirava ou só tinha essa sensação?
Como o barulho das botas se aproximava, aos pouquinhos ela abriu os olhos e percebeu um vulto de encontro à luz.
Era uma sombra indistinta, assustadora e sem rosto.
Quando aquela silhueta medonha parou diante dela, Rafaela fechou os olhos novamente, as pálpebras tremulando de terror.
Permaneceu onde estava, sem se atrever a olhar.
Foi então que uma luz piscou, e toda a sala se acendeu.
— Levante-se daí, medrosa — ordenou uma voz ríspida e muito conhecida sua.
Tentando controlar o pânico, Rafaela olhou para cima, protegendo os olhos da claridade esbranquiçada das lâmpadas fluorescentes.
— O quê? — balbuciou atónita.
Onde estou? Eu não morri?
Uma gargalhada diabólica quase perfurou seus tímpanos, levando-a a encolher-se ainda mais.
— Por acaso isso aqui tem cara de céu?
Ande, levante-se!
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