Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 08, 2016 12:17 pm

Rafaela não precisava ver para saber quem era o interlocutor.
Reconheceria a voz de Reinaldo em qualquer lugar e em qualquer mundo.
— O que aconteceu? — sussurrou em tom quase inaudível.
O que você fez comigo?
— Não fiz nada. Você se mijou de medo, sua covarde.
Pensou que eu tinha atirado e fez xixi na calça.
Desmaiou e bateu com a cabeça no chão.
Ela o olhou magoada, sentindo-se humilhada e vencida.
— Você não atirou?
— Atirei. Só que não havia balas.
Eu só quis dar um susto em você, para aproveitar bem nosso último momento juntos, antes de mandá-la embora.
— Embora para onde? — novamente o pânico a dominou.
— Você vai sair do país.
Já está tudo arranjado.
— Sair do país?
Mas como? Para onde vou?
— Para Portugal.
Foi o melhor que consegui para você.
— Portugal? Sozinha?
Pelo amor de Deus, o que vou fazer lá?
— Isso não me interessa.
— Não tenho dinheiro, não tenho nada.
— Venda-se, se alguém a quiser, e tire algum lucro dessa porcaria que você chama de corpo.
— Você não pode estar falando sério.
Não pode fazer isso comigo.
— Escute aqui, garota! — irritou-se ele, agarrando-a pelo pescoço.
Já estou farto de você.
Nada me daria mais prazer do que matá-la, mas não posso.
Tenho que seguir o protocolo.
Você vai ser banida e pronto.
E se me encher muito a paciência, esqueço essa coisa do protocolo e dou um tiro em você agora mesmo.
Dessa vez, com balas.
É isso que você quer?
Ela não respondeu.
Apenas meneou a cabeça e começou a chorar.
— Óptimo — concluiu Reinaldo. — Agora venha.
Vamos acabar logo com isso.
Dali, Rafaela foi levada para um banho e ganhou roupas limpas.
Enquanto se lavava, as lágrimas despencavam de seu rosto.
É claro que ser exilada era muito melhor do que ser morta, mas ela não podia evitar a tristeza.
Augusto quisera mandá-la para o exterior, com toda estrutura e apoio.
Ela recusara por medo de ficar sozinha.
E agora, o que faria?
Sozinha no vestiário masculino, onde os soldados haviam sido proibidos de entrar, terminava de se enxugar quando a porta se abriu.
Ela estava de costas e apertou a toalha ao redor do corpo, voltando-se lentamente para ver quem havia entrado.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 08, 2016 12:17 pm

Foi uma surpresa.
Parada diante dela, toda linda, bem-vestida e maquiada, sua antiga companheira a fitava com olhos húmidos.
— Silmara! — exclamou, mal contendo o espanto.
Como pode ser?
O que está fazendo aqui?
— Você mencionou os nomes de Carlos Augusto e de Rogério.
Está anotado na sua ficha.
Quando Bernardo leu, desconfiou que você era a moça que faltava no nosso antigo grupo e me avisou.
Só agora ele permitiu que viesse vê-la.
— Bernardo é o coronel com quem você está vivendo?
— Por favor, Rafaela — tornou Silmara envergonhada.
Procure não me julgar.
Eu tive tanto medo de morrer!
— Não precisa se justificar.
Isso aqui transforma as pessoas, tira a nossa dignidade, nos faz parecer menos do que bichos.
— Como você, fui torturada.
Perdoe-me... Não tive escolha.
Eles estavam ameaçando cortar a minha língua...
Calou-se, tomada pelos soluços de angústia que a lembrança evocava.
— Isso agora não importa mais — considerou Rafaela, dando-lhe um abraço fraterno.
O importante é que você está viva e bem.
— Chega um ponto em que só o que a gente quer é parar de sofrer — ela enxugou os olhos e prosseguiu:
— Tentei resistir o máximo que pude, mas eles têm métodos bastante eficazes de persuasão.
— Eu sei. Passei por isso também.
Só que, no meu caso, eu não tinha mais o que contar.
Ia falar de padre Augusto, mas silenciou, com medo de que Silmara fosse uma espiã, obrigada a trair os amigos para sobreviver.
A outra, contudo, pareceu não perceber o temor da amiga e pôs-se a narrar sua desventura com tristeza e dor:
— Tive que dar o seu nome.
Era isso ou eu ia perder a língua, a visão, a vida.
Depois que falei, pensei que iam me matar de tanta pancada... — fez uma pausa, sufocando os soluços, até reunir forças para prosseguir:
— E iam, não fosse a intervenção de Bernardo, que deu ordens para cessarem a surra.
Ele me tirou daquela câmara de torturas e me fez uma proposta:
eu podia continuar ali, nas mãos dos torturadores, ou me tornar sua amante.
Tenho vergonha de dizer, Rafaela, mas não pensei duas vezes...
Só o que queria era parar de apanhar e de sentir dor.
Foi tudo tão horrível!
Você não sabe como me sinto, como me desprezo!
Dei o seu nome e me prostituí só para continuar viva.
Será que isso vale a pena?
Silmara chorava de soluçar, e Rafaela abraçou-a novamente, sentindo enorme compaixão pela amiga.
Com ela ali em seus braços Rafaela deu-se conta, pela primeira vez, de sua coragem.
Todos a chamavam de covarde, contudo, percebia agora que não era.
Tinha muitos medos a vencer, ela sabia.
Apavorava-a a ideia do exílio, tremia só de ouvir a voz de Reinaldo, chorava de pânico à visão do cassetete, desesperava-se ante a iminência das torturas.
Mas jamais entregara Augusto ou revelara a existência da Esperança.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 08, 2016 12:18 pm

Dera os nomes dos que já estavam mortos, porque nada mais podiam contra eles.
E ela, mesmo ferida, humilhada, machucada na alma e no corpo, suportara todas as dores para preservar não apenas o homem que amava, mas todos os outros que lutavam a favor do bem.
Essa descoberta lhe trouxe calma e serenidade.
Se fora capaz de aguentar todo aquele sofrimento em nome de um ideal e do amor, nada mais poderia atingi-la.
Tudo perdia a importância.
As marcas que levaria consigo eram indeléveis, jamais as esqueceria.
O medo ainda persistia, como um espinho encravado no coração, fazendo-o acelerar diante da ameaça do perigo.
Mas o desespero sumira.
Em seu lugar, veio a resignação e, estranhamente, algo que nunca tivera: fé.
Ela estreitou Silmara com genuíno amor e confortou-a com sinceridade:
— É claro que vale a pena.
Não se torture mais.
Deixe a tortura no passado e aproveite a vida que tem.
O importante é que, aqui dentro — ela cutucou gentilmente o peito da outra, na altura do coração —, você sabe quem é.
Silmara olhou-a admirada.
— Não está com raiva de mim?
— Não.
A conversa foi abruptamente interrompida por um soldado, que escancarou a porta.
Sem olhar para Silmara, ordenou a Rafaela:
— Venha comigo.
O capitão Reinaldo quer vê-la com urgência.
Rafaela vestiu-se às pressas.
Despediu-se de Silmara em lágrimas e foi conduzida com rispidez pelo soldado até a presença de Reinaldo.
— Sente-se — ordenou, e ela obedeceu.
Na mesa, em frente a ela, haviam sido colocados um bloco de papel e uma caneta esferográfica.
— Para que é isso? — questionou.
— Você vai escrever uma carta que eu vou ditar.
— Uma carta?
— Não sabe o que é uma carta?
Comece pela data.
Ela escreveu a data e olhou para ele.
— Para quem é? — quis saber.
— Querido Augusto — ele começou, causando-lhe espanto.
Vamos, escreva!
Estou mandando.
Querido Augusto...
Sem ter como contestar, Rafaela ia escrevendo tudo o que ele ditava, enquanto as lágrimas desciam, abundantes, pelo seu rosto, toldando-lhe a visão, fazendo-a soluçar.
Reinaldo se comprazia com cada momento de dor que lhe infligia, imaginando a cara de decepção de Augusto quando lesse aquela carta.
— Augusto não vai acreditar nisso — disse ela, assim que terminou.
— Vai sim. Não tenho dúvidas de que vai.
Você está aqui há cinco meses, e há cinco meses Augusto pensa que você está fora do país.
Não acha que é tempo bastante para refazer a vida?
— Por que está fazendo isso?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 08, 2016 12:18 pm

— Digamos que Augusto e eu temos contas a acertar.
E não tente lhe escrever.
Nunca, jamais!
Toda a sua correspondência será interceptada.
Você é persona non grata (13) neste país.
— Não posso escrever nem para minha família?
— Suas cartas não chegarão às mãos deles.
E vou lhe dar um conselho muito sério.
Um conselho não, um aviso.
Se você se comunicar com Augusto, eu saberei.
Mesmo que seja um pequeno recado pela boca de alguém, não se iluda, eu saberei.
Augusto não é o tipo de homem que engole as coisas e aceita tudo calado.
Virá me procurar, como já veio tantas outras vezes.
Se isso acontecer, não terei alternativa.
Tenho provas suficientes para mandá-lo para a prisão pelo resto de seus dias.
E você sabe o que acontece na prisão, não é mesmo?
Acho que não vai querer isso para o amor da sua vida, vai? — ela não respondeu.
Vai?
— Não — disse por fim, a voz trémula de ódio.
— Foi o que pensei. Agora vamos.
Não vejo a hora de livrar-me de você.
Quando ela saiu, não estava mais chorando.
As lágrimas haviam secado, e ela foi caminhando pelo corredor de cabeça erguida.
Silmara a olhava da porta do gabinete do amante, os olhos escondidos no lencinho de cambraia umedecido com suas lágrimas.
O carro foi directo para o aeroporto, onde Reinaldo, pessoalmente, a embarcou no avião que a levaria para o desterro.
Quando a aeronave decolou, Rafaela olhou pela última vez a sua terra, no exacto momento em que as primeiras luzes da noite começaram a se acender.
Foi como se toda a cidade, de repente, abrisse os olhos e olhasse para ela, acenando, com suas luzes, um último adeus.

13. Persona non grata — em latim, pessoa que não é bem-vinda.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 08, 2016 12:18 pm

Capítulo 49

Foi com surpresa que Reinaldo recebeu a notícia de que Cláudio não integrava mais sua antiga paróquia.
Foi informado de que o padre pedira dispensa do Ministério da Igreja e se afastara até a formalização de seu desligamento.
Furioso, procurou-o na casa de Augusto, onde disseram que poderia encontrá-lo.
Reinaldo não contava com a protecção espiritual de Augusto.
Logo ao portão de entrada, dois soldados invisíveis montavam guarda e apontaram suas lanças para os seres das sombras que o acompanhavam.
Intimidados com os espíritos, que, ao contrário de Paulina e Carlos Augusto, não hesitariam em investir contra eles, estacaram.
Barrada sua passagem, permaneceram do lado de fora, e Reinaldo entrou sozinho na casa iluminada de Augusto.
Lá dentro, invisíveis, Carlos Augusto e Paulina o aguardavam.
Nelma o recebeu com cordialidade e foi chamar os padres, como orientada por Augusto.
Antes de irem ao seu encontro, os dois deram-se as mãos e rezaram.
Só assim conseguiam manter o equilíbrio e as forças.
Estranhamente, quando se viu diante deles, Reinaldo perdeu boa parte de sua arrogância e ousadia.
Livre dos espíritos obscuros, recebeu um passe de Paulina, reequilibrando parcialmente seus corpos físico, emocional e mental.
— Como podemos ajudá-lo, Reinaldo? — indagou Augusto, cortês.
Ele fitou a ambos, desconcertado, questionando-se se devia mesmo tê-los procurado.
Estava, contudo, obcecado com a possibilidade de efectuar mais prisões e rebateu de forma directa:
— Estão me desafiando?
— Longe de nós tamanha pretensão.
— Então, por que não está na sua igreja? — perguntou a Cláudio.
— Simplesmente porque não tenho mais igreja — respondeu o outro calmamente.
Caso não saiba, pedi dispensa há três dias.
— Sabe que posso prendê-los por causa disso?
— Desde quando existe uma lei que obrigue um homem a ser padre? — intercedeu Augusto.
— Gostaria que ficasse fora disso — recomendou, com certa irritação.
Meu assunto é com padre Cláudio.
— Ainda não entendeu? — tornou Cláudio.
Não sou mais padre.
— Pensa que não sei por que fez isso? — esbracejou.
Acha mesmo que pode me enganar?
— Nenhum de nós jamais pensou tal coisa — esclareceu Augusto.
Cláudio e eu apenas resolvemos dar outro rumo às nossas vidas.
— Posso saber por quê?
"Porque estamos cansados de gente feito você", foi o que Augusto pensou, mas disse:
— Porque estamos cansados de cuidar dos problemas dos outros.
— Interessante.
E que problemas seriam esses?
— Problemas conjugais, fofocas de madames, namoricos de adolescentes...
— Planos subversivos — desafiou Reinaldo.
— Nunca soubemos de nenhum — afirmou Augusto, fitando os olhos frios de Reinaldo.
Aquele foi o momento que mais requereu a presença dos espíritos amigos.
Durante o desenrolar da conversa, Paulina transmitia eflúvios de amorosidade, principalmente para o quarto centro de força(14) de Reinaldo".
Tocado em sua amorosidade, a lembrança que lhe surgiu foi a da mãe que tanto amara.
Inexplicavelmente, a imagem dela dominou seus pensamentos, evocando a alegria que sentira ao lado dela e a tristeza pela sua morte.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 08, 2016 12:18 pm

— Você não quer a morte de Augusto, como não queria a da sua mãe — Paulina soprou no ouvido dele.
A dela, você não pôde evitar.
Mas não precisa contribuir para a de Augusto.
Inundado pelos eflúvios de luz que partiam de Paulina, Reinaldo facilmente ligou sua mente à dela e captou, de forma nítida e clara, o pensamento do espírito.
Lágrimas lhe vieram aos olhos, e seu silêncio revelou a hesitação.
As palavras de agressão e ameaça que preparara para aquele momento morriam no nascedouro.
Tocado pelo sentimento puro de amor, momentaneamente liberto das amarras do orgulho e do poder, Reinaldo imaginou o quanto sofreria se Augusto fosse preso.
Jamais conseguiria torturá-lo nem permitiria que outros o fizessem.
Prender o padre poderia desmoralizá-lo, expondo sua paixão, trazendo-lhe vergonha e o repúdio dos colegas.
E quanto a Cláudio?
Era um delator, um velhaco sem escrúpulos ou moral.
Poderia muito bem fornecer as informações que ele queria, entregando os nomes dos demais padres, desmantelando sua organização.
— Não há organização alguma — disse Paulina.
Vai matá-lo à toa, afastando de vez Augusto de você.
O desânimo tomou conta de Reinaldo.
De onde tirara a ideia de que havia uma organização?
Se realmente existisse uma, Rafaela, com sua covardia, lhe teria contado.
Mas se nem o cano do revólver encostado em sua testa a fizera falar, era porque não havia realmente o que dizer.
— Você está criando uma fantasia — prosseguiu Paulina.
Pensa que Cláudio sabe de alguma conspiração, mas não existe nenhuma.
Era melhor desistir de forçar a barra para encontrar subversivos.
Aquilo já estava virando uma obsessão.
Cláudio era insignificante demais para se tornar confessor de gente que conspirava contra o governo.
— Quer saber de uma coisa, Augusto? — tornou ele com desdém.
Já estou farto de vocês.
Duvido mesmo que dois padrecos imbecis tenham algo de importante a me dizer.
Quando ele se levantou, Augusto levantou-se também.
Acompanhou-o até a porta, evitando falar para não revelar a contradição de sentimentos que agitava sua alma.
— Adeus, Augusto.
Ao primeiro passo que ele deu para fora, Augusto não resistiu.
Segurou-o pelo punho, fazendo-o parar.
— Por favor, diga-me o que fez com Rafaela — implorou, olhos húmidos de dor.
Por uma fracção de segundos, Reinaldo sentiu-se tentado a dizer.
Seria bem feito se ele soubesse a verdade.
Mas não tinha ânimo para falar.
Não naquele momento.
Reinaldo olhou para ele com desprezo e puxou o braço.
Saiu sem dizer nada, pronto para usar seu trunfo.
Desde esse dia, Augusto estava certo de que Reinaldo jamais voltaria a procurá-lo.
Todas as noites, incluía-o em suas orações, o que o fazia sentir-se melhor e mais fortalecido.
Só assim conseguia não odiá-lo.
Foi com surpresa que recebeu nova visita de Reinaldo.
Augusto fazia a leitura de O Evangelho Segundo o Espiritismo para Cláudio quando Nelma bateu à sua porta.
— Entre — disse ele.
— Padre Augusto, perdoe-me, mas o capitão Reinaldo está aí para vê-lo.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 08, 2016 12:19 pm

Augusto se virou para ela e censurou com bonomia:
— Já disse para não me chamar assim.
Não sou mais padre.
Para mim, o senhor vai sempre continuar sendo padre — Augusto sorriu com tristeza, e ela arrematou:
— O que digo ao capitão Reinaldo?
— Diga-lhe para esperar.
A visita de Reinaldo não era aguardada.
Augusto pensava mesmo que nunca mais tornaria a vê-lo.
Olhou para Cláudio com ar de dúvida, pensando no que deveria fazer.
— Vá — aconselhou Cláudio.
Pode ser importante.
Augusto não tinha a menor vontade de falar com Reinaldo, contudo, aquiesceu.
Ambos fizeram uma oração para fortalecê-lo e permitir que recebesse o capitão com polidez.
Quando Augusto entrou na sala, vestido de calça jeans e camisa polo, o coração de Reinaldo reviveu a antiga paixão.
Como ele era bonito!
Por pouco não desistiu de sua pequena vingança.
— Bom dia, Augusto — cumprimentou Reinaldo, olhando-o com velada admiração.
Augusto percebeu o olhar e simplesmente balançou a cabeça.
Apanhou uma cadeira e levou-a para junto do sofá, sentando-se de frente a ele.
— Muito bem — disse sem emoção.
Em que posso servi-lo?
A frieza dele causou irritação em Reinaldo.
Seria bem feito para ele o desgosto que aquela carta provocaria.
— Vim aqui para trazer-lhe isto — mostrou-lhe um papel dobrado, sem lhe entregar.
É uma carta de Rafaela, interceptada por nossos agentes nos correios.
— Uma carta? Para mim?
— Sim. Desculpe, mas tivemos que lê-la.
Algumas partes foram censuradas, por isso estão riscadas.
Mas o que não compromete a segurança nacional está intocado.
Lamento que não lhe traga boas notícias.
Reinaldo estendeu a carta para ele, que a tomou de suas mãos com avidez.
Desdobrou o papel, bastante amassado e sujo, como se houvesse passado pelas mãos de muita gente, imediatamente reconhecendo a caligrafia caprichada de Rafaela.
Realmente, muitas partes haviam sido riscadas.
Trechos que Reinaldo, propositadamente, mandara Rafaela escrever e ele mesmo riscara, para conferir à missiva um ar de veracidade.
A parte que lhe interessava, contudo, estava bem nítida.
Reinaldo mal via a hora de regozijar-se com o ar de decepção que aos poucos empalideceria o rosto de Augusto.
— Onde está o envelope? — questionou Augusto.
— Junto com o dossiê dela.
Sinto, mas ninguém pode saber onde ela está.
A rigor, ela nem deveria ter escrito, mas não podemos mandar na soberania dos países alheios.
Aqui, contudo, a regra é outra.
Só entra e sai o que o governo permite.
A intenção de Augusto era verificar o endereço do remetente, mas não falou nada.
Estava satisfeito por, finalmente, ter notícias dela.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 08, 2016 12:19 pm

Ele olhou para Reinaldo com ansiedade e, vendo que o outro não se mexia, levantou-se com a carta na mão.
— Ah! Não, não, não, Augusto — objectou.
Você não pode sair daqui com ela.
Trata-se de um documento e uma prova subversiva contra Rafaela.
A carta vai para nossos arquivos.
Trouxe-a apenas para você ler e saber o que houve com a moça.
Mas, depois, tenho que levá-la de volta.
Por favor, sente-se aqui e leia.
Preciso me assegurar de que você não a danificará.
Augusto engoliu a raiva, mas obedeceu.
Sentou-se de volta na mesma cadeira e, respirando profundamente, começou a ler:
Querido Augusto,
Faz poucos meses que cheguei XXXXXXXXXXXXX.
No começo, a vida foi difícil, pois eu XXXXXXXXXXXX.
Agora, contudo, estou mais confiante no futuro.
Menos de um mês após a minha chegada, conheci XXXXXXX, um homem maravilhoso que me ajudou a XXXXXXXXXXXXXX.
Estamos juntos desde então, e agora espero um filho dele.
A gravidez ainda está no início, e vamos nos casar.
Escrevo esta carta porque gosto muito de você e queria que soubesse o que me aconteceu.
Sou-lhe eternamente grata por tudo o que fez por mim, inclusive pelos momentos de paixão que vivemos juntos.
Jamais esquecerei o quanto fomos felizes, mas foi com XXXXXXX que encontrei o verdadeiro amor.
Espero que você não fique triste.
Tenho certeza de que nosso romance teve, para você, o mesmo significado que teve para mim:
foram momentos maravilhosos de sexo e prazer que nos tiraram, a ambos, da solidão.
Sem contar a forte amizade que se formou entre nós e que nunca vou esquecer.
Vivemos enclausurados em prisões particulares.
Eu, foragida da XXXXXXXXXXX, e você, preso ao sacerdócio.
Agora, porém, ambos estamos livres para fazer de nossas vidas o que quisermos.
Se você largou a batina, espero que encontre um amor tão maravilhoso e leal quanto o meu.
Você merece.
Não pretendo aqui perder tempo relatando...
Seguiram-se vários trechos riscados, pelos quais Augusto não demonstrou muito interesse.
Ele terminou de ler a carta envolto em forte comoção.
Dobrou o papel cuidadosamente, evitando que as lágrimas o manchassem.
Em seguida, estendeu-o para Reinaldo, falando com simplicidade e emoção:
— Obrigado.
— Sinto por ela ter encontrado outro amante.
Imagino o quanto você deve estar decepcionado.
— Decepcionado? — surpreendeu-se.
Ao contrário. Sinto-me gratificado.
Ela está viva e feliz.
Isso é o que importa.
— Não está com ciúme?
— Há muito deixei de sentir ciúme. De que vale isso?
Compreendi que cada um é livre para amar ou desejar quem quiser.
Não adianta tentarmos prender alguém, pois todos nascemos para a liberdade, e só o que se aprisiona é a ilusão.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 08, 2016 12:19 pm

Quem sentiu a decepção foi Reinaldo, cuja vingança não surtira o efeito desejado.
— Não compreendo você — indignou-se.
Pensei que fosse ficar arrasado porque ela está grávida e vai se casar com outro.
— Em absoluto! Eu seria muito egoísta de desejar que ela ficasse sozinha no exílio.
Ao contrário, só tenho a agradecer a Deus por ela ter encontrado um homem bom que cuidará dela.
Esse homem, seja quem for, merece a minha admiração e gratidão eterna.
— Não entendo. A mulher que ama está nos braços de outro, e você fica feliz.
— Esse é o verdadeiro sentido do amor, Reinaldo. Você não concorda?
O que nos traz felicidade é o que faz o ser amado feliz, independentemente de estarmos juntos ou não.
O amor há-de preencher o nosso coração com alegria e plenitude, sem depender do que aquele que amamos sinta por nós.
Ninguém deve colocar sua felicidade nas mãos de outro, seja ele quem for.
— Isso é coisa de padre.
Eu ficaria com raiva se a minha namorada me trocasse por outro tão depressa.
— Somos diferentes, não há dúvidas.
Em meu coração habita a paz.
— E no meu, não? — Augusto não respondeu, limitando-se a encará-lo.
Foi isso que quis dizer, Augusto?
Que eu não tenho paz?
— É você quem o diz.
— Muito esperto — Reinaldo arrancou a carta das mãos dele com irritação e enfiou-a no bolso.
— Bem, fiz a minha parte. Adeus.
— Adeus, Reinaldo, e obrigado por tudo.
Foi muito importante para mim esse gesto.
Jamais esquecerei.
— Passar bem.
Reinaldo saiu furioso.
Queria comprazer-se com o sofrimento de Augusto, contudo, o que Augusto sentira fora alívio e alegria.
Devia saber que ele, com aqueles hábitos de padre, não se deixaria impressionar com o novo namorado de Rafaela e só se importaria com seu bem-estar.
— E então? — questionou Nelma, assim que Reinaldo se foi.
— O que ele queria? — perguntou Cláudio.
— Veio me trazer notícias de Rafaela.
Brevemente, Augusto falou da carta.
Depois, recolheu-se sozinho a seus aposentos.
Era preciso orar para agradecer.
Da gaveta da cómoda, retirou uma fotografia de Rafaela e apertou-a de encontro ao coração.
Fez sua prece com ela nas mãos.
Terminada a oração, beijou a foto e tornou a guardá-la na gaveta.
Nunca esqueceria Rafaela.
Ela continuaria sendo a única mulher de sua vida.
No fundo de seu coração, sabia que jamais amaria outra.

14 O quarto centro de força é o chacra cardíaco, cuja vibração é do amor incondicional, da compaixão, da amizade.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 08, 2016 12:19 pm

Capítulo 50

O pedido de dispensa de Augusto e Cláudio foi recebido com contrariedade pelo bispo, que nada pôde fazer para demovê-los da ideia de sair da Igreja.
Ao contrário de Cláudio, Augusto estava seguro do que queria.
Já o amigo vira-se forçado a pedir dispensa para proteger as pessoas.
Por mais que amasse o sacerdócio, Cláudio não queria mais ser responsável pela prisão de ninguém.
Bastava o remorso que o atormentava diuturnamente.
Com a ajuda de Augusto, Cláudio refez sua vida.
Depois do episódio na sacristia, o perdão veio com facilidade, estreitando ainda mais a amizade entre os dois.
Cláudio conseguiu uma colocação de professor numa faculdade de Filosofia e alugou um pequeno apartamento próximo a Augusto.
Juntos, enfrentavam a vida, reunindo-se para rezar e conversar.
Augusto, por sua vez, estava mesmo decidido a voltar para Uberlândia tão logo fosse efectivada sua dispensa.
Com o dinheiro que juntara, abriria uma pequena floricultura, ao mesmo tempo em que realizaria seu sonho de estudar Veterinária.
Tiveram que aguardar algum tempo até que tudo fosse oficializado.
Augusto e Cláudio deram entrada juntos no pedido de dispensa e receberam ao mesmo tempo a notícia de que, a partir daquela data, estavam dispensados.
Restava apenas aguardar o término do ano lectivo para Augusto desligar-se da escola e concretizar a venda da casa.
Nelma estava num canto da cozinha, passando roupa, quando ele chegou com a notícia.
Ela levantou os olhos para ele e pousou o ferro na tábua de passar.
— Alguma coisa, padre?
— Não me chame mais de padre, por favor.
— Já disse que o senhor vai sempre continuar sendo padre para mim.
— Não sou mais padre.
Acabei de receber a notícia de que meu pedido de dispensa foi aceite.
A partir de hoje estou oficialmente desligado da Igreja.
— Verdade? Que pena! — lamentou com sinceridade.
— Não fique triste, Nelma.
É para o bem de todos.
— E padre Cláudio?
— Também está dispensado.
— Acho que o mundo tem muito a perder com a saída dos dois.
— O mundo não precisa de nós.
Há muitos padres por aí.
— Mas nenhum é como o senhor.
- Obrigado, Nelma, mas não é bem assim.
— Para mim, é.
O senhor sempre foi o melhor padre do mundo.
Augusto deu um suspiro de resignação e retrucou:
— Precisamos resolver a sua situação.
Voltarei para Uberlândia tão logo termine o ano lectivo.
Já dei aviso prévio na escola, e a casa está à venda.
— O senhor está mesmo decidido?
Não vai voltar atrás?
— Não. Estou decidido.
Não tenho mais nada para fazer aqui.
Nelma deixou as lágrimas escaparem e, tomando coragem, abraçou-o pela primeira vez em sua vida.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 08, 2016 12:19 pm

— Ah! Padre, posso ir com o senhor?
— Que ideia é essa agora?
— Não tenho nada que me prenda aqui.
E o senhor vai precisar de alguém para cuidar da casa.
— Vou mesmo, já que não pretendo morar com minha mãe.
— Então? Eu o conheço, já estou acostumada com suas manias, sei de tudo o que gosta.
— Vou voltar como uma pessoa comum.
Pretendo abrir uma floricultura e estudar Veterinária.
Será que você saberia conviver com o homem, não com o padre?
— Saberia. E se o senhor conhecer uma moça com quem queira se casar, vou continuar cuidando da casa e de toda sua família.
— Será mesmo? Sua experiência com Rafaela não foi das melhores.
— Não foi, mas estou arrependida.
O senhor sabe disso.
Não queria que nada de mau lhe acontecesse.
E se ela um dia voltar, vou agir de outra forma.
— Isso não vai acontecer.
Rafaela não vai mais voltar.
— Se ela foi embora, pode voltar.
— Ela vai se casar, Nelma.
Está esperando um filho de um moço estrangeiro.
— O senhor não devia acreditar nas histórias do capitão Reinaldo.
Aquele homem é o demónio!
Não se deixe enganar por ele novamente.
- Não há engano nenhum.
Reconheci a caligrafia dela.
Estou feliz por ela estar bem, mas perdi as esperanças de tornar a vê-la.
Rafaela vai ter um filho e vai se casar.
Se um dia voltarmos a nos ver, será apenas como amigos.
— Que pena! Eu torcia para o senhor e ela ficarem juntos, para que eu pudesse provar que mudei.
— Acredito na sua mudança.
Mas, agora, temos que decidir a sua vida.
— Quero ir com o senhor.
Por favor, deixe.
Augusto pensou por alguns instantes.
Realmente, estava acostumado com Nelma, que cuidava de sua casa fazia muitos anos.
— Tem certeza? — perguntou em dúvida.
— Tenho. Sou viúva, não tenho filhos nem parentes.
Ninguém para me fazer companhia.
Deixar desamparada uma viúva já meio idosa não agradava Augusto.
Preocupava-se com Nelma e lhe queria bem.
— Está certo, então — concordou por fim.
Vá arrumando suas coisas.
A casa está à venda, e já mandei fechar o portão que dava para a igreja.
A única entrada, agora, é pela rua, como era antigamente.
Creio que não terei dificuldades em achar comprador.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 08, 2016 12:20 pm

— Oh, padre, obrigada! — concluiu ela, beijando-o na face.
— Só uma coisa. Pare de me chamar de padre.
Não tem mais sentido.
— Está bem, se é o que quer.
Mas como irei chamá-lo então?
— De Augusto.
Ela sorriu afectuosamente, concordando com a cabeça, feliz por não ter sido despedida e por poder acompanhar Augusto em sua nova vida.
Queria provar-lhe que mudara, porque realmente se operara nela uma grande transformação.
Apesar de a notícia do casamento de Rafaela não lhe ter causado raiva, não deixou de ser uma decepção.
Era uma pena, mas era o que todos sabiam que iria acontecer.
Nelma soltou um longo suspiro e voltou a seus afazeres, mentalmente organizando a partida para Uberlândia.
Jamais havia saído do Rio de Janeiro, à excepção de quando fora em lua de mel para Três Rios.
Viajar para Minas Gerais seria bom e divertido.
Para Augusto, era o retorno ao começo de sua vida, uma nova chance de concretizar seus sonhos inacabados.
Pena que o maior de todos os seus sonhos não se realizaria mais.
Embora o coração de Augusto estivesse limpo de ressentimentos ou ódios, a alegria não era um sentimento que ele já houvesse conseguido conquistar.
Quando criança, nunca fora dado a travessuras e tivera uma adolescência comedida no seminário.
Dedicara toda a vida adulta ao sacerdócio e aos necessitados, sem muitas realizações pessoais.
Apenas Rafaela levara um pouco de cor a seus dias iguais.
Com o fim do ano lectivo e a venda da casa, Augusto se mudou para Uberlândia.
Estabeleceu-se perto da casa da mãe, abriu a floricultura e, finalmente, ingressou na faculdade de Veterinária.
Não era mais nenhum jovenzinho, contudo, acreditava que ainda tinha tempo para seguir a carreira com que sempre sonhara.
Mais tarde, se tudo corresse bem, podia pensar em abrir uma clínica veterinária.
Nunca mais viu ou ouvir falar de Rafaela.
Nenhuma carta mais lhe chegara, provavelmente interceptada pela polícia.
Doía-lhe não ter notícias.
Muitas pessoas viajavam ao exterior para visitar os parentes e amigos exilados.
Será que ninguém sabia de Rafaela?
Ou talvez ela houvesse optado pelo silêncio, satisfeita com sua nova vida, seu marido e seu filho.
Não tinha ciúme.
Se um dia o sentira, ele esvanecera para sempre no momento em que soube que ela estava viva.
Ali percebera que o amor supera tudo, inclusive o próprio ciúme.
Aos poucos, foi se acostumando.
Levava a vida mansamente, sem muito alarde nem actividades sociais intensas. la à igreja aos domingos, porém, não se confessava nem comungava.
Assistia às missas, orava e voltava para casa.
Bem apessoado, logo despertou o interesse das mulheres da cidade, mas não se envolveu com nenhuma delas.
Era o solteirão mais bonito e cobiçado de Uberlândia.
O que sentia por Rafaela não diminuiu com os anos.
A dor se foi, o amor persistiu.
Por isso, não se interessava por mulher alguma.
De vez em quando, ia a um bordel na periferia da cidade, mas nunca escolhia a mesma moça.
Não é que vivesse amargurado.
Ele simplesmente não podia fingir uma alegria que não sentia.
Dava-lhe prazer cuidar das flores de sua loja, tinha satisfação ao perceber a admiração nos olhos daqueles que ali compravam.
Paralelamente, os estudos o estimulavam.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 08, 2016 12:20 pm

Tinha em casa um gato, seu agora velho cachorro Spock e um canário.
Amava os animais, sentia-se realizado cuidando deles.
Ainda assim, seus pensamentos constantes eram para Rafaela.
Augusto acreditava que ela, no exílio, tinha uma vida boa ao lado de um homem que a amava.
Nem de longe imaginava que o que lhe acontecera era bem diferente.
O avião aterrisara no aeroporto de Lisboa numa manhã chuvosa de sábado.
Era verão na Europa, contudo, Rafaela sentiu a pele se arrepiar com as gotas geladas que batiam em seu rosto.
Perdida, procurou as autoridades portuguesas e entrou com o pedido de asilo político.
Não foi difícil demonstrar sua condição de perseguida da ditadura, já que o cenário político brasileiro era de conhecimento da imprensa estrangeira.
Sem contar as feridas e os hematomas, que falavam por si mesmos.
Autorizado o pedido de residência em Portugal, auxiliada por uma associação de ajuda aos exilados, Rafaela conseguiu um modesto emprego numa mercearia humilde de Lisboa.
Alugou um quartinho simples e barato, levando a vida com esforço e tristeza.
Até o dia em que conheceu o filho de um rico empresário.
Francisco, estudante de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, fora aos bairros pobres da cidade em busca de material para uma pesquisa.
Ao passar em frente à mercearia em que Rafaela trabalhava, o pneu de seu carro furou, obrigando-o a fazer a troca.
Cansado e ofegante, o moço entrou na mercearia à procura de um copo de água.
Rafaela atendeu-o com cortesia, impressionando-o com seus gestos educados e seu sotaque brasileiro.
A conversa fluiu naturalmente, e não tardou muito para Rafaela colocá-lo a par de sua situação.
Foi um achado para Francisco.
Fazer a correlação entre uma exilada política e a realidade contemporânea portuguesa, considerando as relações histórico-culturais existentes entre Brasil e Portugal, era uma oportunidade ímpar em sua vida académica.
Não foi por outro motivo que ele a tirou daquele emprego e daquele lugar.
Rico, não encontrou dificuldade em transferi-la para um apartamento melhor, subsidiando seus gastos.
Não demorou muito, tornaram-se amantes.
Para Rafaela, foi uma verdadeira salvação.
Cansada de se sentir maltratada, escorraçada e humilhada, facilmente concordou com a proposta de Francisco.
Não era bem o que desejava para si, mas se era o que a vida tinha a lhe oferecer, ela aceitaria.
Francisco não era Augusto.
Mas Augusto não conseguira salvá-la.
Francisco se revelara um homem gentil e ajudou-a a transformar as lembranças dolorosas em névoas do passado.
Tudo o que ela queria era deixar de sofrer.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 08, 2016 12:20 pm

Capítulo 51

No plano invisível, fazia muito tempo que Carlos Augusto não tinha notícias de seu amigo Rogério.
Desde o dia em que se separaram, nunca mais o vira nem falara com ele.
Não poucas foram as vezes em que tentara reencontrar aquela porta, sem sucesso, porém.
Intercedera por ele, pedira que o ajudassem a resgatar o amigo, mas nada pôde ser feito.
Paulina lhe dissera que Rogério não estava pronto para seguir adiante, pois sua mente, apegada à culpa e ao medo, retinha-o naquele mundo de sombras.
Até que, um dia, Carlos Augusto foi chamado por Paulina.
— Acho que agora vamos conseguir libertar seu amigo — avisou ela.
— Refere-se a Rogério? — surpreendeu-se Carlos Augusto, e ela assentiu.
Sabe onde ele está?
— Sei. Ele foi encontrado por soldados nossos que circulam pela terra.
Estava vagando sozinho pelas ruas de sua cidade.
— Ele saiu daquele buraco infernal?
Paulina sorriu e corrigiu:
— Ele saiu do astral inferior, mas não definitivamente.
Confuso, ora se vê do lado de fora, ora de volta à escuridão.
— Como pode ser isso?
— Por causa da culpa que sentiu por ter delatado os companheiros, Rogério gerou ao seu redor um campo magnético de dor, atraindo toda sorte de sofrimentos e martírios.
Não é uma coisa boa de se ver nem o espírito está condenado a tal situação, mas nela se coloca voluntariamente, na medida em que acredita ser de seu merecimento.
— Ele criou seu próprio inferno, não foi?
— Não gosto dessa palavra, pois dá a ideia de punição e castigo.
O umbral, como é comumente chamado, não é bem assim.
Todos os que lá estão não foram levados para ser punidos.
Estão lá porque acreditam que é o que merecem, já que não conseguem modificar seu padrão mental de culpa, ódio, medo, orgulho e outras tantas coisas mais.
Pensando assim, afinam-se com espíritos acostumados a manipular a vibração desses sentimentos e caem prisioneiros de seus próprios vícios morais.
Chamo de vícios porque as pessoas se acostumam com determinados sentimentos ou pensamentos de tal forma que não conseguem mais se livrar deles.
E viram vícios mesmo, como o fumo e a bebida.
Falar mal é um vício.
Desrespeitar é outro vício.
Levar vantagem é mais um vício, e por aí vai.
— E Rogério está preso no vício da culpa.
— Dentre tantos outros, sim.
— Mas eu estive com ele e consegui sair.
Ele não. Por quê?
— Porque você não tem tantos vícios morais.
Ainda sente algumas culpas, como é normal nos seres humanos.
Mas o principal é que não acredita na fatalidade da treva.
Para você, havia um caminho de luz.
Tanto que o encontrou.
— Rogério não viu nem a porta, nem a luz.
— Não viu porque não estava preparado para ver.
Mas ela estava lá.
Tanto que você a atravessou.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 08, 2016 12:20 pm

— O que ele precisaria ter feito para atravessá-la também?
— Apenas desejar e crer.
— Ele não fez isso?
— Não. A única coisa em que Rogério conseguia pensar era no mal que havia feito aos amigos.
— Ele foi torturado — defendeu Carlos Augusto, com veemência.
— Não precisa defendê-lo.
Não o estou julgando.
A maioria, no lugar dele, teria feito a mesma coisa.
E isso não importa, já que cada um só faz aquilo que pode.
Não dá para mensurar as atitudes humanas, porque nenhuma é melhor ou pior.
Simplesmente se deve aceitar que as acções do homem guardam proporcionalidade com seu amadurecimento espiritual.
Quando todos compreenderem isso, cessarão as cobranças recíprocas.
— Pobre Rogério.
Como quis ajudá-lo!
Lembro-me de que fiquei desesperado, tentando voltar.
— Você fez o que pôde, e olhe que foi muito.
— Eu?! Não fiz nada.
— Fez mais do que imagina.
Se você não estivesse com ele, Rogério estaria hoje em situação muito pior do que está.
Teria descido mais fundo nas esferas inferiores.
Foi você que lhe deu forças para resistir ao impulso destrutivo e se manter num lugar horrível, é verdade, mas, ainda assim, melhor do que aquele ao qual sua mente doentia o teria levado.
Carlos Augusto sentiu lágrimas virem-lhe aos olhos e rebateu com pesar:
— Não fui capaz de trazê-lo comigo.
— Você não é muleta nem reboque — considerou ela, para desviar os pensamentos do rapaz da tristeza.
Rogério não podia se apoiar em você nem se deixar conduzir pela sua vontade.
Cabia a ele a decisão de vir ou ficar.
E ele escolheu ficar.
— Que horror, Paulina! — contrapôs, indignado.
Isso lá é jeito de falar?
— Desculpe, mas é assim que as coisas são.
Cada um é responsável por si.
Você não podia ter feito mais do que fez.
Tentou ajudar, o que é bom que se faça.
Ajudar o próximo é sempre um ato divino.
Mas não nos cabe, a nenhum de nós, levantar quem quer continuar deitado no chão.
— Você fala como se fôssemos todos independentes.
— E somos.
— Não vivemos sozinhos.
Dependemos uns dos outros para sobreviver em todos os níveis e mundos.
— Dependemos da convivência com o outro...
Mas isso é diferente de depender do outro.
— É uma diferença muito subtil, você não acha?
— Subtil, porém, fundamental.
O ser humano não nasceu para ser só, é gregário por natureza.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 08, 2016 12:20 pm

Precisamos uns dos outros para, através dos exemplos e espelhos, crescer, experienciar, amadurecer.
Mas não precisamos uns dos outros para agir, pensar ou viver.
Se você tem bons pensamentos e boas atitudes, posso tomá-lo como exemplo para direccionar minha conduta, mas o bem que eu fizer ao mundo sairá das minhas mãos, não das suas.
Do mesmo modo, aquele que se espelha no bandido, por exemplo, não poderá culpá-lo mais tarde por suas acções criminosas.
O bandido serviu de espelho, mas a mão que executou o crime foi a de outro.
— Nem sempre é assim.
Há casos em que a pessoa pode ser obrigada a fazer o que não quer e nada depende dela.
Se um bandido torce o meu braço e me manda abrir um cofre, estou sob coacção irresistível.
Não tenho vontade de fazer, mas faço por não suportar a dor.
Ou será que teria que me deixar matar?
— Muito inteligente.
É claro que, nesses casos, não há a vontade.
Mas, ainda assim, foi você que atraiu o bandido.
Ele não chegou a você por acaso.
Foi o seu magnetismo, a sua energia, os seus pensamentos e sentimentos que o trouxeram para a sua vida, não para a de outro.
— Por que eu faria uma coisa dessas?
— Não sei.
Pela vontade de se testar, de se punir, de pagar alguma coisa a alguém.
— Estranho ouvir você falar assim, já que não crê em pagamentos ou punições.
— Eu não creio nem a divindade crê.
Mas o ser humano, infelizmente, ainda acredita nisso.
E, se acredita, a coisa acontece conforme a sua vontade.
No dia em que mudar essa crença, nada mais de ruim irá lhe acontecer.
— Então, para não passarmos por situações difíceis, basta não acreditarmos nelas?
— Exactamente.
Você já viu que há pessoas que passam no meio do perigo, de um tiroteio, por exemplo, e nada lhes acontece?
Saem ilesas?
Enquanto há outras que morrem de medo e são atingidas por balas perdidas?
Por que será?
— Não sei. Diga-me você.
— Porque a primeira acredita que nada irá lhe acontecer, sente, no fundo de sua alma, que não merece passar por uma experiência tão sofrida.
Ora, se a alma não deseja viver aquele momento, se não o considera útil nem proveitoso, se acha que não precisa sofrer para crescer, então, nada irá acontecer.
Ao passo que a outra, que alimenta o medo por acreditar na inevitabilidade do mal, vibra em tal intensidade que as coisas ruins são imediatamente por ela magnetizadas e atraídas.
— Quer dizer então que só temos que pensar em coisas boas que nada irá nos acontecer?
Devia ter pensado nisso quando fui preso.
— Há duas maneiras de pensar:
com sentimento ou sem ele. Nesta, o pensamento é racional, elaborado e inseguro.
Na primeira, é intuitivo, espontâneo e firme.
— Para fazermos essa diferença, precisamos estar muito amadurecidos.
Do contrário, somos levados pelos nossos medos, e a razão suplanta a intuição.
— É certo.
— Não somos perfeitos.
Às vezes, por mais que desejemos seguir por um caminho, parece que a vida nos leva por outros que, normalmente, nos fazem sofrer.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 09, 2016 11:33 am

— A vida não leva ninguém.
Somos nós que nos entregamos e nos deixamos conduzir.
Os seres humanos, encarnados ou não, esquecem a razão das culpas, dos ódios, dos medos, dos ressentimentos, do orgulho, da decepção, do ciúme, da inveja...
Mas a alma não se esquece de sentir.
Apenas não sabe por quê.
O sentimento existe, está vivo lá dentro, e o homem atrai toda sorte de desafios para tentar se vencer.
Vencendo a si mesmo, ele se modifica e passa a magnetizar situações de prazer e alegria.
— Tudo por causa das muitas vidas... — divagou.
Fazemos besteira em uma, lá vem a consequência em outra.
— A toda acção corresponde uma reacção.
Isso é real, é inevitável.
Ações ruins geram reacções ruins.
Boas acções, ao contrário, trazem boas consequências.
Mas aí no meio há a consciência.
Quando ela atua de forma verdadeira, a reacção pode não ser da mesma natureza que a acção.
Ao menos não da forma como nos acostumamos a compreendê-la, como na lei de talião15.
Se a sua acção gerou desarmonia, a reacção que a natureza impõe é o equilíbrio, mas a sua consciência é quem vai dizer como fazer isso.
Pode ser com dor ou com amor.
Só depende de você.
— Por exemplo: se arranco uma árvore, posso escolher entre cultivar um jardim ou ser devorado por uma planta carnívora.
Paulina riu gostosamente e arrematou:
— Você é terrível.
Mas a ideia é essa mesma.
E agora, voltando a Rogério, podemos ir ao encontro dele, se você quiser.
— É claro que quero!
Não entendo por que ainda não fizeram isso.
Ele já podia estar aqui.
— Como disse anteriormente, Rogério está confuso, vagando por aí sozinho, tentando encontrar uma saída.
— Por que ninguém daqui escutou as preces dele?
— Quem foi que disse que ele rezou?
— E não rezou?
— Não. A mente dele começa a questionar a necessidade de sofrer nas sombras.
Aos poucos, vislumbra a existência de um mundo além daquele em que está.
Com o pensamento voltado para a vida que deixou, consegue sair.
Mas depois o desânimo o leva de volta às trevas.
Foi num momento desses que ele foi encontrado.
— Como assim, encontrado?
— Existem seres aqui que têm por função patrulhar, digamos assim, o limiar do mundo invisível.
É claro que os mundos físico e astral são diferentes, mas o segundo interpenetra o primeiro, e é por isso que os habitantes de um e de outro convivem no mesmo espaço, embora em dimensões diferentes.
Quem tem sensibilidade suficiente consegue nos ver, ouvir e sentir.
Na maioria das vezes, contudo, nós, espíritos, transitamos entre as dimensões sem sermos percebidos.
— E daí?
— Muitos espíritos ficam perdidos após o desencarne.
Perturbados, não conseguem enxergar os amigos iluminados que os convidam para partir.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 09, 2016 11:33 am

Presos a problemas difíceis da matéria, permanecem vagando pelo mundo, dividindo-se entre os lugares que costumavam frequentar.
Até que vêm os questionamentos e uma lembrança importantíssima, que é a de Deus, ou Jesus, ou Maria, ou um santo, ou Buda, ou Saint Germain, ou qualquer outro espírito de luz.
Essa lembrança rompe os elos densos do medo, e a esperança começa a luzir acima de suas cabeças, revelando a mente que começa a ganhar compreensão.
Assim se tornam perceptíveis e identificados como espíritos iniciantes, prontos para aceitar nossa ajuda.
— Isso aconteceu com Rogério?
— Está acontecendo com ele.
Todavia, muitos se assustam e fogem.
Outros xingam, atiram coisas, tentando se proteger do que julgam uma ameaça.
Nossos soldados tentam esclarecê-los, mas eles não ouvem.
Como não os conhecem, tendem a desaparecer, para reaparecer mais tarde, em outro lugar.
É o que seu amigo está fazendo.
Por mais que comece a reflectir sobre sua vida e o sofrimento, tem medo de que os soldados queiram lhe fazer mal e não acredita quando dizem que não.
— Não podemos enviar um espírito mais iluminado?
— Para assustá-lo ainda mais?
Quando um espírito se julga tão miserável, como Rogério se sente, a aparição de um amigo de luz o apavora ainda mais, pois não se acha digno de estar na presença de anjos, que é o que pensa que somos.
É por isso que a visão de um amigo ou parente ajuda muito.
No momento, a pessoa mais indicada para ajudar Rogério é você, que viveu com ele as últimas experiências nessa vida.
— O que estamos esperando então? — animou-se ele.
Vamos logo resgatá-lo.
- Tenha calma.
Vamos estender-lhe a mão.
Ele vai pegá-la se quiser.
— Mas você não disse que eu sou a pessoa mais indicada para isso?
- Disse, porque é.
Mas cuidado para que ele não pense que você agora é um ser de luz, e ele, indigno de sua amizade.
Carlos Augusto olhou-a com surpresa e respondeu mais sereno:
— Não se preocupe, Paulina.
Isso não vai acontecer.
Quero muito ajudar Rogério a sair dessa.
— Então vamos.
Na mesma hora, viram-se transportados à presença de Rogério, que se mantinha agachado atrás de um banco de praça, para não se fazer visível aos dois guardiões que o vigiavam à distância.
— E então? — indagou Paulina.
Como está ele?
— Com medo — respondeu um dos soldados.
Estamos tomando conta para que ele não desapareça, pois aguardávamos a sua chegada.
— Muito bem. Podem deixar connosco.
Assumiremos daqui.
Despediram-se com um sorriso fraterno, e os dois soldados partiram para outra missão.
Estimulado por Paulina, Carlos Augusto se aproximou lentamente, tentando localizá-lo.
Chegou mais perto, custando a vê-lo.
Espremido entre os arbustos e o banco, de olhos fechados, Rogério não se mexia.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 09, 2016 11:33 am

Percebendo a aproximação de alguém, encolheu-se ainda mais, ameaçando com uma ferocidade estudada e irreal:
— Vá embora daqui se não quiser que eu o machuque.
Estou avisando.
— O que é isso, Rogério?
Vai mesmo bater num amigo?
A voz de Carlos Augusto fez Rogério abrir os olhos, surpreso e apavorado ao mesmo tempo.
Ele encarou o outro por alguns minutos, remexeu-se, apertou os joelhos e, balançando a cabeça para os lados, contestou, veementemente:
— Vá embora.
Você não é Carlos Augusto.
Só se parece com ele.
— Por que diz isso?
— Já vi muitos como você.
Espíritos enganadores, que só querem me iludir para me levar com eles.
— Pois eu não sou nenhum desses espíritos.
Sou mesmo Carlos Augusto e vim aqui para levá-lo comigo.
— Mentira.
Carlos Augusto sumiu na parede.
— Eu disse a você que havia uma porta com luz.
Você não quis acreditar.
Ouvindo isso, Rogério relaxou um pouco, fixando nele os olhos assustados.
Nunca contara a ninguém sobre a porta, e nenhum espírito enganador conseguira vê-la em seus pensamentos, já que ele mesmo não a conhecia.
— Como sabe da porta? — tornou desconfiado.
— Sei porque a atravessei.
Você mesmo disse que me viu sumir.
— Você é mesmo Carlos Augusto? — o outro assentiu.
Mas não pode ser!
Nem sei há quanto tempo Carlos Augusto foi embora.
— Não fui embora.
— Você sumiu — retrucou ele, agora em lágrimas, sem saber em que acreditar.
Eu bati, esmurrei aquela parede, gritei feito louco por você, e nada.
Nem sinal de você.
— Quis voltar, mas não consegui.
A porta se fechou.
— Você me deixou lá para sofrer — soluçou ele.
Foi embora para um lugar agradável e me deixou na escuridão.
— Não, meu amigo, eu quis voltar.
Do outro lado, também me desesperei.
Tentei atravessar de volta, mas uma força desconhecida me puxava para trás.
Não consegui. Depois, perdi-o de vista.
Rogério olhou-o de cima a baixo e revidou com desdém:
— Você está muito bem, pelo visto.
Não sofreu nada.
— O sofrimento é desnecessário.
Por isso, vim buscá-lo.
— Buscar-me para quê?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 09, 2016 11:34 am

— Para seguir comigo para outro lugar. Um lugar lindo, cheio de luz e flores.
Você vai gostar.
— Isso não existe.
— Se existia no mundo físico, por que não pode existir no invisível?
— Nunca vi nada disso.
— Porque você não queria ver.
Recusou-se a acompanhar-me, nunca pensou em pedir ajuda.
Só agora é que o faz.
— Não pedi nada a ninguém.
— Mas pensou.
— Pensei em Jesus, só.
Em como eram boas as lições do catecismo e que seria muito bom se Jesus se lembrasse de mim.
— Ele se lembrou.
Por que acha que estou aqui?
— Desde quando você é Jesus?
— Ele me mandou no seu lugar.
— Que mentira mais idiota.
Jesus jamais faria isso.
— Tem razão, ele não me mandou.
Mas foi graças a Ele que os soldados conseguiram encontrá-lo.
Porque a lembrança dEle tem tanta luz que sobrou para iluminar você.
E aí, onde você está, uma luzinha brilhou, facilitando sua localização.
As palavras de Carlos Augusto tiveram um efeito apaziguador, já que soavam como uma prece, atraindo mais para perto a energia luminosa de Jesus.
Imóvel em seu lugar, Paulina enviava vibrações amorosas, que foram se intensificando ao redor dos dois rapazes, a elas somando-se o sentimento de pura amizade.
Assim tocado por uma cintilação poderosa e suave ao mesmo tempo, Rogério se levantou.
Encarando o amigo, desabafou:
— Carlos Augusto...
Será mesmo você?
— O que diz o seu coração?
Ele hesitou por alguns instantes, mas o clarão ao redor deles ganhou forma, envolvendo-os numa espécie de turbilhão ameno e confortador.
Todo o corpo fluídico de Rogério estremeceu ao contacto daquela maciez etérea, fazendo-o cair de joelhos ao chão e verter lágrimas de emoção.
— Senti tanto a sua falta! — soluçou sentido.
Mas eu sabia.
No fundo de minha alma, sabia que você nunca me abandonaria.
Também emocionado, Carlos Augusto se aproximou, igualmente tocado pela indizível sensação de bem-estar que aquela luz branda e delicada produzia.
Olhou momentaneamente para Paulina, que permanecia estática, olhos cerrados e atitude concentrada.
De todo o seu corpo partiam glóbulos minúsculos de luz, que se juntavam a outros, caídos do céu.
Carlos Augusto olhou para o alto e percebeu que, nas nuvens, uma espécie de túnel se abrira, por onde se derramavam gotas daquela luz refrescante.
Era como uma chuva cintilante de energia pura de amor.
— Meu amigo — chamou, tentando conter as lágrimas.
Nunca o abandonei.
Mesmo sem conseguir encontrá-lo, não se passou um dia sem que eu orasse por você.
Rogério levantou a cabeça.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 09, 2016 11:34 am

Seus olhos foram atingidos por aquele chuvisco intenso de luz, desanuviando seus temores e clareando sua mente, para que ele tivesse uma visão mais límpida dos factos ao seu redor.
— Que milagre é esse? — tornou embevecido.
— É o milagre de Deus, que nos mostra que a vida vai além da matéria e que o amor, assim como o espírito, é eterno — Carlos Augusto estendeu-lhe a mão e finalizou:
— Venha comigo.
Rogério não hesitou.
Agarrou a mão do amigo como uma criança com medo de se perder.
Carlos Augusto buscou Paulina com o olhar.
Como adivinhando seu apelo sem voz, ela abriu os olhos e sorriu.
Na mesma hora, os três desapareceram num rastro de luz.

15; Lei de talião — ou pena de talião, primeiramente encontrada no Código de Hamurabi (Babilónia), em 1780 a.C., estabelece equivalência de intensidade entre o crime e a pena.
É o comumente chamada olho por olho, dente por dente.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 09, 2016 11:34 am

Capítulo 52

Muitos anos haviam se passado sem que Augusto tivesse uma só notícia de Rafaela.
Toda sua vida ficara para trás, e o que ele agora perseguia era um futuro de sonhos não realizados.
Ainda mantinha contacto com Cláudio, mas de Reinaldo ficara muito tempo sem ouvir falar.
Tão logo Augusto completou o curso veterinário, vendeu a floricultura e abriu uma clínica, dedicando-se principalmente ao atendimento de cães e gatos, embora não fossem raras as vezes em que saía para cuidar de cavalos ou fazer um parto mais difícil em alguma vaca.
Era isso que ele amava fazer.
Quando não estava trabalhando, passava os dias em casa, cercado por seus animais e cuidando do lindo jardim que cultivava ao redor da casa.
Aos domingos, buscava a mãe para almoçar e depois iam ao cinema, ele, Laura e Nelma.
Enquanto isso, os tempos de ditadura encaminhavam-se para o fim.
O processo de abertura não pôde ser contido, acenando com novas perspectivas de redemocratização do país.
A insatisfação popular, aliada a uma crise económica e política sem precedentes, provocou o descontentamento de todos os sectores da economia, com reflexos na indústria, no comércio e no funcionalismo público.
Durante algum tempo, a insatisfação se impôs de forma silenciosa.
Aos poucos, porém, foi ganhando vozes.
A censura se demonstrou ineficaz para conter o crescente desagrado popular.
Sobreveio então um aumento de torturas e assassinatos, última e desesperada tentativa de conter a iminente dissolução do regime.
Mas a pressão da imprensa internacional sobre o governo brasileiro favorecia o movimento de reconhecimento dos direitos humanos na América Latina.
Em meio a tantas crises, o presidente Ernesto Geisel deu início ao processo de abertura política, que, segundo suas próprias palavras, seria realizada de forma "lenta, gradual e segura".
Muito aconteceu desde então.
Augusto acompanhava esses acontecimentos com expectativa e euforia, alimentando a esperança de que Rafaela pudesse enfim se comunicar.
Ela, porém, não escrevia nem mandava notícias.
Após tantos anos, agora casada e com filhos, esquecera-o por completo.
— Não fique triste, seu Augusto — Nelma procurava consolá-lo.
Ela era muito jovem.
Todo mundo sabia que ela ia esquecer o senhor.
Augusto não dizia nada.
Nunca fizera uma queixa ou comentário a respeito de Rafaela.
Mas Nelma o conhecia bem e sabia o motivo de sua tristeza.
— Você devia se casar — dizia, por sua vez, a mãe, que nunca ouvira falar de Rafaela.
Já não é mais nenhum jovenzinho.
Sei que há muitas moças interessadas em você.
— Mas eu não estou interessado nelas.
Não estou interessado em ninguém.
Ao ouvir isso, Laura calava no peito a dúvida sobre a sexualidade do filho.
Apesar de Augusto ter-lhe garantido que não gostava de homens, ela não sabia no que acreditar.
Nunca vira o filho com mulher alguma.
Ele vivia sozinho, enfurnado em casa, cuidando de bichos e plantas.
Mesmo a promulgação da Lei de Amnistias não trouxe notícias de Rafaela.
Muitos foram os presos libertados, e vários exilados voltaram ao país.
Embora Augusto quisesse acreditar no retorno de Rafaela, ele não acontecia.
Depois de um tempo, perdeu as esperanças e refugiou-se no trabalho para não pensar.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 09, 2016 11:35 am

A Lei de Amnistia favoreceu a muitos, mas não agradou Reinaldo.
Muito embora beneficiasse também os torturadores, tornava a profissão de Reinaldo inútil, desnecessária e arriscada(16, 17).
Envolvido de tal forma pelas entidades do submundo astral, não conseguia vislumbrar um novo caminho para sua vida.
Logo no início de 1980, os militares da linha dura, contrários ao processo de abertura, iniciaram uma sucessiva explosão de bombas por todo o país.
Reinaldo encontrava-se entre eles, propagando medidas desesperadas para tentar reverter o processo democrático.
Reinaldo estava por demais comprometido com o regime e com os seres das sombras para mudar o rumo de sua vida.
Nem se quisesse, conseguiria.
E ele não queria.
Gostava do que fazia, comprazia-se com a dor que causava a seus semelhantes, descontava nos "traidores" a revolta que sentia pela rejeição de Augusto e a culpa pelo suicídio da mãe.
Naquela tarde, ele entrou no edifício em que residia com o jornal aberto diante da face, mal vendo o caminho por onde pisava.
A notícia de mais um atentado, dessa vez em Belo Horizonte(18), levou seus pensamentos de volta a Augusto.
Não sabia dele havia muito tempo.
Ouvira dizer que se mudara, provavelmente de volta a Uberlândia, mas Reinaldo não se atrevia a procurá-lo.
Não depois de tudo o que acontecera.
A notícia despertou uma saudade recheada de raiva.
Indiferente, como andava, a todas as coisas, Reinaldo entrou no elevador sem sequer ouvir o cumprimento do porteiro.
Olhos marejados, não prestava atenção a nada.
Os espíritos sem luz a seu lado mantinham-se presos a seus pensamentos destrutivos e maldosos.
A irada saudade que ele sentia de Augusto abria-lhes um campo energético propício à revolta e à barbárie.
De tão preocupados em manter a vibração de Reinaldo o mais baixo possível, seus companheiros invisíveis não captaram os resquícios energéticos da última presença que estivera ali.
Insistiam em incutir na mente dele lembranças da rejeição de Augusto.
As imagens do dia em que o padre recusara seu amor transfiguravam-lhe o rosto.
Um ódio surdo cresceu dentro dele, alimentando as sombras coladas a seu corpo.
Alheios a tudo mais, Reinaldo e os espíritos desceram do elevador, atravessando o comprido corredor que levava até a porta de seu apartamento.
O gato da vizinha idosa novamente ficara preso do lado de fora, e ele cedeu ao ímpeto de dar-lhe um chute.
Já que Augusto adorava os animais, chutar aquele gato era como chutar o homem que o desprezara.
Assim instigado pelos seres da treva, Reinaldo cruzou com o animal, mas seu pé acertou o vazio.
Sua dona abrira a porta naquele exacto instante, e o gato, pressentindo as intenções do agressor, deu um salto e sumiu porta adentro.
A velha senhora notou o olhar insano de Reinaldo e fechou a porta às pressas.
Não gostava daquele homem, procurava evitá-lo sempre que podia.
Reinaldo, por sua vez, nunca se dera bem com vizinho algum, vendo em todos um inimigo em potencial.
Lamentando a perda do animal que poderia proporcionar-lhe instantes exíguos de prazer, seguiu até a porta de seu apartamento, o jornal agora dobrado debaixo do braço.
Parou diante da porta e enfiou a mão no bolso, à procura das chaves.
Revirou o primeiro, trocou o jornal de braço e tentou o bolso do outro lado.
Remexeu em algumas moedas, até que seus dedos tocaram o frio metal das chaves.
Enlaçou-as com a mão e puxou.
Abriu a fechadura, depois trocou a chave para a do ferrolho acima.
Rodou uma, duas vezes, até cessarem os estalidos.
A porta estava destrancada.
Rodou a maçaneta e empurrou, ao mesmo tempo em que um grito inaudível ecoou pelo corredor:
— Nãããooo!!!
Tarde demais.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 09, 2016 11:35 am

Ainda que Reinaldo pudesse ouvir o grito tardio de seu acompanhante invisível, nada poderia ser feito.
Só muito tarde foi que os seres das sombras perceberam o que havia ali e não tiveram meios de impedir.
Reinaldo não os ouvia nem desconfiava de nada.
Ao abrir a porta com a despreocupação dos que se sentem seguros, não se deu conta do imperceptível fio oculto acima do portal.
Assim que a porta se desprendeu do caixonete, uma explosão inesperada sacudiu o prédio, atirando Reinaldo na parede do lado oposto, o corpo mutilado atravessando a matéria espessa, porém, transparente, de seus acompanhantes sombrios.
Ninguém nunca descobriu o autor do atentado:
se os próprios militares, para acusar a esquerda radical, ou uma facção isolada, descontente com as insistentes actividades de Reinaldo, ou ainda alguma ex-vítima beneficiada pela Lei de Amnistia.
Mas o facto é que ele sobreviveu, embora sem as mãos e cego das duas vistas.
O caso acabou sendo abafado.
Reinaldo, sem parentes vivos, foi reformado e internado num asilo militar para inválidos.
Os seres das sombras não seguiram com ele.
Reinaldo agora não lhes despertava mais nenhum interesse.
Sua incapacidade física impossibilitava as torturas de onde retiravam as energias que os sustentavam.
Perdido o alimento energético, saíram em busca de outra pessoa que estivesse em condições de substituir Reinaldo, o que não foi difícil.
Atraídos por vibrações semelhantes, descobriram um rapazola que se iniciava no crime e no tráfico de drogas.
Os grandes traficantes já estavam comprometidos e assistidos por outros espíritos, de forma que os antigos comparsas de Reinaldo tiveram que buscar outro aliado, a quem orientariam e procurariam influenciar desde o início, levando-o a extravasar seus instintos assassinos e, com isso, revigorar suas energias.
Deixado sozinho, Reinaldo se viu presa de antigas vítimas.
Sem poder enxergar ou segurar nada, vivia na escuridão de seus próprios horrores.
As enfermeiras que o assistiam não acreditavam que ele realmente visse os homens que dizia ver e julgavam que ele havia enlouquecido.
Desprovido da visão física, Reinaldo enxergava figuras tenebrosas em sua tela mental.
Vivia perturbado, com medo.
Gritava, chorava, agitava os cotocos e saía desabalado, dando cabeçadas e trombadas por todos os lados.
Queria morrer, mas não conseguia nem se matar.
Seu estado de agitação chegou a tal ponto que a saída foi transferi-lo para um manicómio público, onde seus perseguidores ficaram mais à vontade para atacá-lo.
Constantemente dopado, Reinaldo não oferecia resistência.
Sua mente vivia agora mais em contacto com o submundo astral do que com o mundo físico.
As culpas e o ódio atraíam os inimigos, que não lhe davam trégua.
Quando acordado, Reinaldo chorava e dizia coisas aparentemente sem sentido, implorando que levassem seus algozes dali.
Foi assim até um dia em particular.
Reinaldo nada sabia sobre os mecanismos do mundo invisível.
Desconhecia o poder da oração e do amor.
De repente, se aquietou.
Os ataques dos inimigos foram brevemente contidos, dando-lhe tempo para usufruir de alguns poucos minutos de paz.
Médicos e enfermeiros atribuíam a aparente melhora às pesadas drogas que lhe ministravam.
Não imaginavam que a paz momentânea provinha de uma singela oração.
Tudo aconteceu sem que ele soubesse.
Cláudio, com seus conhecimentos no governo, ficou sabendo do infortúnio de Reinaldo.
Não hesitou em avisar Augusto e escreveu-lhe uma carta, contando o que descobrira.
Augusto se compadeceu imensamente da sorte do militar.
Não compartilhava da opinião de Cláudio, de que Reinaldo estaria sendo punido pelo mal que fez.
Para ele, Reinaldo se aprisionara à própria consciência.
Assim compadecido, Augusto rezava por ele todas as noites.
Nesses momentos, Reinaldo se acalmava e alcançava um pouco de paz.
Passado o efeito das vibrações luminosas que chegavam até ele, novamente se deixava abater, entregando-se por completo ao medo, ao desânimo e à culpa.
Seguiria assim até morrer.

16 Lei 6.683, de 28 de agosto de 1979.
17 A Lei de Amnistia beneficiou ambas as partes na ditadura, já que o perdão do governo dirigiu-se também aos agentes das torturas.
18. Em 23 de maio de 1980, uma bomba destruiu a redacção do jornal mineiro Em Tempo.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 09, 2016 11:35 am

Capítulo 53

Corria o ano de 1983, e a campanha das Directas já havia se iniciado, numa tentativa de se estabelecerem eleições directas no país.
Embora acompanhasse todos esses movimentos, Augusto não demonstrava mais interesse pela política.
Seus tempos de militante silencioso haviam se acabado.
Naquele domingo, Augusto cuidava do jardim, enquanto Nelma e a mãe preparavam o almoço.
Munido de instrumentos de jardinagem, tratava dos canteiros de margaridinhas que plantara ao redor de toda a casa.
As mudas haviam florescido, uma mistura graciosa de amarelo e branco contrastava com o suave tom de azul pintado nas paredes.
Mais adiante, na pequenina varanda, Spock dormia em uma poltrona com a tranquilidade própria da falta de preocupações.
Acima, o gato se esticava preguiçosamente no peitoril da janela, aproveitando o calor reconfortante do sol da manhã, alheio aos piados alegres dos pássaros ao redor dos ninhos.
Augusto inspirou profundamente aquele ar abençoado pela natureza de Deus.
A vida era perfeita.
Só o que lhe faltava, às vezes, era enxergar aquela perfeição dentro de si.
Assim embalado pela companhia dos animais e o trinado alegre dos pássaros, Augusto prosseguia em sua jardinagem, cantarolando, vez ou outra, trechos de uma antiga canção.
De tão entretido, não percebeu quando Spock ergueu as orelhas compridas e pontudas, ao ouvir o ranger do portão.
O cão pôs-se de pé, abanando o rabo com avidez e contentamento.
Deixou o conforto da poltrona e desceu as escadas o mais rápido que sua idade avançada permitia.
Voltou acompanhado de alguém que já não via há muito tempo, mas que jamais esquecera.
Em algum lugar de sua mente, as lembranças do afecto de outrora ficaram guardadas, levando-o a imediatamente reconhecer as mãos que o afagavam.
Augusto, contudo, nada percebeu.
Toda sua atenção estava voltada para as delicadas flores que tinha entre os dedos.
Sentiu a chegada de Spock, mas, sem se voltar, pediu a ele que se aquietasse.
O cão se aproximou e lambeu-lhe a orelha, provocando a reacção esperada.
Augusto largou as ferramentas, ergueu o corpo e falou com jovialidade:
— Qual o problema, amigão...?
Parou de falar abruptamente.
Atrás do cão, viu saltos femininos enfiados na grama.
Mais acima, a ponta de um vestido estampado tremulava levemente.
Surpreso, ergueu os olhos de encontro à luz do sol, protegendo-os com a mão em concha para ver melhor.
Era um vulto esbelto, cabelos longos e lisos, o rosto indistinguível pelo clarão que lhe ofuscava a vista.
— Augusto — disse uma voz trémula, absurdamente familiar.
Com um pulo, Augusto pôs-se de pé.
A voz era inconfundível, mas a imagem diante de si não podia ser real.
Era uma visão, um sonho ou uma brincadeira de sua mente cansada.
A visão, contudo, o fitava com um misto de expectativa e medo, trémula de um assombro inseguro.
O peito arfante deixava visível toda a ansiedade que partia dela.
Era uma respiração impaciente, assustada, muda e, ao mesmo tempo, cheia de explicações indizíveis.
A visão se mexeu lentamente em sua direcção, como uma fada etérea e hesitante.
Parou mais próxima, tão próxima que ele sentiu seu alento perfumado, ansioso.
Augusto recuou, com medo.
Não era possível que visse o que pensava ver.
Não era real, não podia ser.
Piscou várias vezes, sacudiu a cabeça na tentativa de desmentir a realidade e obrigar a mente a desmanchar a ilusão.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

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