Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 25, 2015 10:59 am

— Minha Nossa Senhora!
Terá sido o namorado dela?
Cláudio não respondeu, e Augusto prosseguiu:
— O rapaz tem o meu nome, imagine.
— Quem? O namorado dela?
— É. Chama-se Carlos Augusto.
Coincidência, não?
— Muita. Mas será que foi ele o atingido?
— Não posso dizer que espero que não, porque isso implica na morte de outra pessoa.
Seja como for, um jovem perdeu a vida hoje, deixando desesperada uma pobre mãe.
— É verdade. Mais tarde, faremos uma oração por ele.
O que você acha?
— Acho óptima a ideia.
Chegaram à escola quase no início das aulas.
Augusto mal conseguiu se concentrar naquele dia.
Não tirava a jovem da cabeça e nem sequer sabia seu nome.
Rafaela se fora sem lhe dizer como se chamava.
Por uma estranha razão, pegou-se desejando que ela voltasse.
Queria ter notícias daquela moça, saber o que realmente havia acontecido, quem era ela de verdade.
Achava um desperdício a morte daquelas criaturas que mal haviam começado a viver e tudo fazia para ajudá-las.
Queria muito ajudar aquela jovem e seu namorado também.

3. UNE - União Nacional dos Estudantes.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 25, 2015 11:00 am

Capítulo 7

Ao sair da igreja, Rafaela procurou manter uma atitude normal, caminhando pela rua como um transeunte comum.
Bem devagarinho, tomou a direcção do foco do incidente.
Se a polícia ainda estivesse lá, ela corria o risco de ser presa, mas precisava ver o que havia acontecido a Carlos Augusto e aos outros companheiros, seis no total.
Não sabia quem havia e quem não havia escapado.
Os tiros que escutara ainda ressoavam em seus ouvidos, deixando-lhe a sensação de que alguém de seu grupo havia sido baleado.
Ao chegar à esquina por onde havia fugido, Rafaela hesitou, com medo de dobrá-la.
Do outro lado, o cenário da violência ainda estaria fervilhando de imagens e sons.
Parada junto ao muro, procurou escutar o que acontecia à sua volta, e vozes apressadas chegaram aos seus ouvidos.
O tumulto havia sido desfeito, mas, ao que parecia, a polícia ainda estava por lá.
De tão centrada nos acontecimentos, não percebeu quando uma patrulha se aproximou.
O carro da polícia parou ao lado da jovem.
Um policial alto e forte saltou, batendo o cassetete na mão de forma intimidadora.
— O que está fazendo aí? — indagou, em tom hostil.
O susto quase derrubou a jovem ao chão.
Rafaela olhou para o policial, a mente trabalhando com a velocidade de um relâmpago:
— Estou com medo de passar.
— Por quê? Tem medo da polícia?
— Não. Tenho medo de levar uma bala perdida.
— Está insinuando que nós, policiais, atiramos para qualquer lado?
— Vocês, não. Os bandidos.
O que foi? Assalto?
O guarda olhava a jovem com certa desconfiança, louco para colocar as mãos em seu corpo jovem.
Ia continuar o interrogatório, quando o companheiro desceu da viatura e o chamou:
— Vamos logo, Ricardo.
Ela não fez nada.
O policial chamado Ricardo abaixou o cassetete.
— Se você diz... — falou, indiferente.
— Se tem medo de defunto, moça, acho bom procurar outro caminho — prosseguiu o policial.
Tem um presunto bem no meio da rua.
Rafaela assentiu e deu meia-volta, sem piscar, para as lágrimas não caírem.
Andou lentamente, culpando-se por não ter tido coragem de enfrentar os policiais, revelando-lhes que ela também estivera envolvida no incidente.
Um de seus companheiros perdera a vida em defesa de sua causa, ao passo que ela covardemente fugira e fora se refugiar nas barras da batina de um padreco do subúrbio.
Talvez ela não fosse talhada para aquela vida.
Entrara naquilo por insistência de Carlos Augusto, cujo pai havia sido cassado e morto.
Ele tinha um motivo para querer vingar-se, para fazer alguma coisa contra aquela gente que assassinara seu pai.
Mas ela... Ninguém de sua família fora preso ou torturado.
Por que fora se envolver com aquilo?
Novamente o sentimento de culpa a assaltou.
Sabia que estava sendo covarde e recriminou a si mesma, acusando-se de traidora.
Seu lugar era junto de Carlos Augusto e dos outros.
Onde, porém, estavam eles?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 25, 2015 11:00 am

Talvez tivessem fugido também, deixando para trás um único companheiro morto.
Resolveu apanhar um ônibus até sua casa.
A mãe estava, como sempre, na cozinha, e o pai no trabalho.
O irmão mais novo desenhava na mesa da sala, com a televisão ligada em um desenho animado qualquer.
Certamente não esperava ouvir nenhuma notícia no jornal da tarde, mesmo assim, ficou assistindo.
Pouco depois, o telefone tocou, e Rafaela correu a atender.
Do outro lado, a voz de Silmara soou nervosa:
— Alô? Rafaela?
Estou com a pesquisa de artes pronta.
Podemos nos encontrar?
— Estou indo.
Sem dizer nada, Rafaela apanhou a bolsa e saiu.
Aquela era a senha para o grupo se reunir em seu local secreto, um apartamento alugado em um subúrbio da Central.
Quando chegou, o sol já começava a se pôr.
Logo que tocou a campainha, notou que alguém olhava pelo olho mágico.
Rapidamente, Silmara abriu a porta, e Rafaela entrou às pressas.
Na pequena sala, apenas ela e Silmara, de pé diante das almofadas vazias.
— Graças a Deus que você está salva! — desabafou Silmara, abraçando a amiga com alívio.
— Cheguei a casa ainda há pouco — disse Rafaela, procurando pelos demais.
E Carlos Augusto? E os outros?
— Geraldo está morto — anunciou Silmara com desgosto.
Os outros foram presos.
— Meu Deus! — lamentou Rafaela, atirando-se em uma das almofadas.
Para onde os levaram?
— Não sei. Provavelmente para o DOPS (4).
Rafaela abaixou os olhos e começou a chorar, já imaginando as terríveis torturas a que seus amigos seriam submetidos.
— O que faremos? — tornou Rafaela com angústia.
— Aguardar.
É só o que podemos fazer.
— Ah! Silmara, isso não é vida.
Entrei nessa por causa de Carlos Augusto, mas estou começando a me arrepender.
Veja só no que deu.
— Eu sei. Acha que eu também já não pensei a mesma coisa?
Só que agora é tarde demais.
Não podemos abandonar o movimento.
— E se eles delatarem a gente? — Rafaela indagou, apavorada.
— Se isso acontecer, diga adeus à liberdade e à vida.
— Não quero morrer.
Não desse jeito.
— Ninguém quer.
Mas quando aderimos à resistência, sabíamos quais eram os riscos.
— Minha mãe vai morrer de desgosto.
— Pare com isso.
Precisamos pensar em um meio de encontrar os outros.
— Como?
— Não conhece ninguém que possa nos ajudar?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 25, 2015 11:00 am

Rafaela lembrou-se de padre Augusto, mas jamais poderia contar com ele.
O padre era um homem de fé, não um guerrilheiro ou político.
— Não conheço ninguém — Rafaela afirmou desanimada.
Como não havia muito a fazer, acharam melhor se separar.
Rafaela voltou para casa, angustiada com o destino de Carlos Augusto e dos outros amigos, Rogério e Ana Lúcia.
Um medo atroz a assaltou, retirando-lhe o sono e a paz.
Seu pânico foi ainda maior quando, dois dias depois, o corpo de Ana Lúcia foi encontrado em um matagal em Caxias, cheio de marcas de queimaduras e cortes profundos.
A versão da polícia foi a de que a moça havia sido estuprada e morta por um maníaco.
Rafaela e Silmara, porém, sabiam que aquela não era a verdade.
Presa, Ana Lúcia fora torturada, e assassinada por seus algozes depois de sofrer violência sexual.
De Rogério e Carlos Augusto, nem sinal.
As meninas viviam em constante sobressalto, temendo ser capturadas a qualquer momento.
— Não podemos dar na pinta — dizia Silmara.
Temos que continuar nossas vidas como se nada tivesse acontecido.
Do contrário, vão desconfiar de nós.
— Estou apavorada! — confessou Rafaela.
— Você tem ido à faculdade?
— Não.
— Pois então, trate de voltar.
— A faculdade está cheia de espiões.
Quanto tempo acha que vai demorar até nos prenderem?
— Se Carlos Augusto e Rogério não disserem nada, estaremos seguras.
— Não quero mais participar disso, Silmara, não quero.
É perigoso demais. Não vale a pena.
O que podemos fazer é muito pouco em comparação ao que precisa ser feito.
— Uma semente sempre brota em algum lugar.
Se todos pensarem como você, nada vai mudar.
— Entendo o que você diz, mas a questão é de sobrevivência.
Lamento muito o que está acontecendo, contudo, não sou a pessoa certa para tentar modificar o mundo.
Se conseguir modificar a mim mesma já me darei por satisfeita.
— Não se preocupa com Carlos Augusto?
— Ele é a única razão de eu ainda estar aqui.
— Mesmo que Carlos Augusto seja solto, jamais abandonará a causa.
De todos nós, ele sempre foi o mais actuante.
— Tenho esperanças de conseguir convencê-lo.
Sei o quanto ele me ama, e talvez esse susto sirva para fazê-lo desistir de tudo.
— Isso se ele for solto.
Vamos esperar que sim, mas não podemos ter certeza.
O tempo foi passando, e nada de notícias de Carlos Augusto ou de Rogério.
Rafaela ligava para a casa do namorado, mas a mãe, aflita, não sabia o que dizer.
Tentara de todas as formas descobrir o paradeiro do filho, no entanto, ninguém sabia de nada nem nunca ouvira falar dele.
O mesmo acontecia com os pais de Rogério, que também não conseguiram apurar nada.
Dois meses depois, as coisas ainda permaneciam na mesma.
Por mais que Rafaela ansiasse, não conseguia obter notícias de Carlos Augusto, levando-a a perder as esperanças e desesperar-se.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 25, 2015 11:01 am

Amava o namorado, doía-lhe saber que ele podia estar morto.
A jovem e Silmara encontravam-se constantemente, sem que nenhuma delas tivesse notícias para dar.
Quando, certa noite, Rafaela percebeu um homem vigiando sua casa, seu coração disparou.
Pensou em fugir, mas não tinha para onde ir.
Como ainda não completara vinte e um anos (5), não podia sair do país sem autorização.
Nem passaporte possuía.
E depois, para onde iria?
Não se sentia segura para aventurar-se em uma jornada a outro país sozinha.

4. DOPS — Departamento de Ordem Política e Social.
5 À época em que se passa a história, a maioridade era atingida aos vinte e um anos.
Só o que lhe restava era ter fé e rezar.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 11:17 am

Capítulo 8

A cada vez que o telefone tocava, Rafaela tinha um sobressalto, certa de que lhe chegariam notícias funestas de Carlos Augusto.
Nunca, porém, ligavam para falar dele.
A falta de conhecimento sobre seu paradeiro estava virando uma guerra de nervos.
A jovem temia pela vida do namorado, bem como pela sua própria.
Silmara e Rafaela pareciam estar sendo vigiadas.
De vez em quando, a jovem percebia alguém acompanhando seus passos, e, quando se virava, a pessoa não estava mais lá.
Tudo era muito estranho, como se uma sombra ameaçasse roubar-lhe a luz da vida.
— Não aguento mais isso — Rafaela desabafou com Silmara.
Lá se vão quase três meses sem notícias.
— Sem contar que estamos sendo vigiadas.
Acho melhor não nos encontrarmos mais.
— Tem razão. Tenho a impressão de que vigiam a minha casa e de que estou sendo seguida.
Quando olho, não vejo ninguém.
— Precisamos dar sumiço em todo material subversivo.
Se nos pegarem com os panfletos, não teremos a menor chance de escapar.
— Não podemos jogar tudo fora?
— É claro que não.
Se estamos sendo vigiadas, vão nos dar um flagrante.
— E se queimássemos tudo?
— Já pensei nisso.
Mas não podemos usar a área de serviço, pois chamaria a atenção dos vizinhos.
Só se usássemos o fogão.
Rafaela ficou pensativa, imaginando o que seria de seus pais se ela fosse presa.
A mãe morreria de desgosto, o pai perderia o emprego e o irmão passaria a ser evitado na escola.
— Você acha que Carlos Augusto e Rogério nos delataram? — Rafaela sondou.
— Se não delataram, em breve o farão.
Ninguém resiste muito tempo à tortura.
Não viu o que aconteceu com a Ana Lúcia?
Ou você fala, ou morre.
Ao sair do apartamento que servia de base para os encontros do grupo, Rafaela tinha o coração pesado e triste.
Nunca antes se sentira daquele jeito.
Quando aceitou participar das actividades subversivas, não pensou que pudesse acabar vivendo um pesadelo.
Sentia uma imensa falta de Carlos Augusto, ao mesmo tempo em que temia pela sua segurança.
Precisava dar um jeito de encontrá-lo, mas como?
Sua família era simples e anónima, não conhecia ninguém importante que pudesse ajudá-la.
Procurando no canto mais fundo de sua mente, apenas uma pessoa surgiu como um recurso viável.
O padre que conhecera outro dia, e lhe parecera tão confiável dissera que o procurasse caso precisasse de alguma coisa.
Ela agora estava precisando.
Só que não sabia se podia realmente confiar naquele homem.
Tinha medo de se abrir e de que ele a entregasse, já que a Igreja estivera a favor da revolução.
E se ele fosse um daqueles que apoiavam o novo regime?
Ainda assim, Rafaela resolveu arriscar.
Algo na voz daquele padre inspirava-lhe confiança.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 11:17 am

E depois, ela estaria protegida pelo segredo da confissão.
Não era possível que ele revelasse ao governo o que ouvira no confessionário.
Com essa certeza, a jovem achou que o melhor seria procurá-lo em um dia de confissão.
Lembrava-se muito bem de que fora numa quarta-feira que adentrara a igreja feito uma fugitiva.
Estavam na segunda, logo, tinha que esperar mais dois dias inteiros até poder falar com ele.
Quando a quarta-feira chegou, Rafaela entrou na igreja logo na primeira hora.
Como uma pequena fila já havia se formado, a moça sentou-se para aguardar sua vez.
A beata a seu lado lia um livro de salmos, movendo os lábios no ritmo das orações.
— Por favor — interrompeu Rafaela —, pode me dizer se é o padre Augusto quem está aí?
Sem levantar os olhos da leitura ou parar de mover os lábios, a mulher fez que sim com a cabeça.
Rafaela respirou aliviada.
Não queria perder tempo aguardando outro padre.
Só Augusto lhe servia.
Demorou um pouco até que chegasse a vez da jovem, quando então entrou no confessionário com o coração aos pulos, ainda se questionando se fazia a coisa certa.
Certificando-se de que cerrara bem a cortina, ajoelhou-se e olhou para o padre por entre as treliças.
Augusto estava de olhos fechados, as mãos postas sobre o colo, aguardando a próxima confissão.
Sem saber como começar, Rafaela respirou fundo e cumprimentou hesitante:
— Olá, padre.
Na mesma hora, Augusto reconheceu aquela voz, tendo uma reacção mais eufórica do que esperava.
Com os olhos arregalados, fitou-a com uma alegria exagerada, algo que, até então, jamais havia sentido.
— Seja bem-vinda, minha filha — respondeu, lutando para conter a emoção.
Veio se confessar?
— Mais ou menos.
Vim porque o senhor me disse que poderia procurá-lo se precisasse.
— É verdade.
— Pois estou precisando muito de... um favor.
— Que tipo de favor? — estranhou Augusto.
Rafaela permaneceu muda por alguns instantes, tentando registar as feições que via de forma entrecortada.
Por fim, falou com cautela:
— Lembra-se de quando o senhor me disse que vivíamos tempos difíceis? — Augusto assentiu e a moça continuou:
Pois as coisas ficaram muito difíceis para mim.
A jovem calou-se, a voz embargada pelo pranto, que, por mais que tentasse, não conseguia segurar.
Augusto ouviu-a soluçar baixinho, procurando encará-la por entre as grades.
A muito custo conseguiu controlar a vontade de passar para o outro lado e dar-lhe um abraço de conforto.
— Você está metida em algo que não devia? — questionou Augusto, tentando não imprimir à voz um tom de censura ou de cobrança.
— O que seria algo que não devia? — tornou Rafaela, já arrependida de ter ido procurá-lo.
— Algo que o actual governo não aprovaria.
A resposta dele foi tão directa que a jovem sentiu medo.
Ou o padre queria sondá-la para delatá-la à polícia, ou estava acostumado a ouvir pessoas naquela situação.
— O que o senhor pensa do actual governo, padre? — revidou a jovem.
— É um mandamento de Deus que não julguemos para não sermos julgados.
Por isso, nada posso dizer sobre a atitude do homem.
Só o que posso é tentar aliviar as dores causadas por ela.
— O que isso quer dizer, exactamente?
— Que não cabe a mim questionar o governo, mas tão somente ajudar aqueles que sofrem em suas mãos, porque Deus nos disse:
"amai-vos uns aos outros."
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 11:17 am

Aquele que foge à lei do amor se enclausura na ilusão do poder, alimenta-se do orgulho sem limites e vive a falsa impressão de que é dono de alguma coisa.
Mas todas as coisas do mundo são concessão de Deus, e as devolveremos um dia.
Mesmo o corpo não é nosso, porque, no dia em que morrermos, teremos que retorná-lo à natureza, que é, em suma, a essência viva da divindade.
Rafaela estava boquiaberta, surpresa com o inusitado discurso do padre.
Havia qualquer coisa nele que ia muito além do sentimento religioso.
Uma forte convicção em suas palavras, algo que fazia dele uma pessoa especial e, acima de tudo, confiável.
Diante dessa certeza, não hesitou:
— Muito bem, padre, vou lhe dizer por que vim até aqui.
No dia em que o conheci, estava fugindo da polícia, como já deve ter adivinhado.
Com alguns amigos, distribuía panfletos considerados subversivos naquele dia.
Minha amiga Silmara e eu conseguimos escapar.
Geraldo morreu no local.
Ana Lúcia foi estuprada e encontrada morta em um matagal.
Outros dois continuam desaparecidos:
Rogério e Carlos Augusto, meu namorado, como já lhe falei.
Por mais que nos esforcemos, não conseguimos notícias.
As famílias estão desesperadas, e eu... — Rafaela parou de falar e engoliu um soluço — não aguento mais ficar sem saber o que houve com Carlos Augusto.
Estou sofrendo muito, com medo do que possa ter-lhe acontecido.
Diante das lágrimas que agora dificultavam a fala de Rafaela, Augusto considerou:
— Este não é um assunto para tratarmos no confessionário.
Pode esperar até que eu termine as confissões?
Em minha casa, conversaremos com mais privacidade.
— Não... Preciso ser ouvida em confissão.
— Não tenha receio.
Tudo o que me disser estará resguardado.
Rafaela sentia que podia confiar naquele homem.
Enxugou as lágrimas, saiu e sentou-se em um banco do outro lado, onde não havia ninguém.
Teve que aguardar até o término da última confissão.
Quando Augusto saiu do confessionário, a jovem fez menção de levantar-se para segui-lo, mas algumas beatas o detiveram para uma conversa.
Enquanto Augusto atendia às mulheres, Rafaela o observava, surpreendendo-se com a beleza daquele jovem padre.
As beatas falavam e gesticulavam, algumas alisavam seu rosto, mostrando-lhe uma notícia no jornal.
O nome e a fotografia de Augusto figuravam em uma pequenina matéria.
No dia anterior, ele arriscara a vida para salvar um gatinho preso no telhado de um barracão em chamas.
Um padre de batina, no alto de uma escada, levando arranhões de um gato assustado, enquanto as labaredas avançavam pelos degraus, tinha que virar notícia.
Quando por fim conseguiu se desenvencilhar das beatas, Augusto fez um sinal quase imperceptível para que Rafaela o seguisse.
— O senhor é alguma celebridade? — a jovem indagou.
A covinha em seu queixo acentuou-se com o sorriso, levando Rafaela a pensar no desperdício que era um homem bonito feito ele ter-se tornado padre.
— Não — respondeu serenamente.
Foi só um gatinho que salvei de um incêndio.
— Então é um herói.
O padre tornou a sorrir, sem responder.
Em poucos instantes, adentraram a casa de Augusto.
Era pequena e simples, porém, bastante aconchegante e confortável.
O cão veio de dentro da casa, abanando o rabo, tentando subir pelas pernas do dono.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 11:17 am

Ele abaixou-se para apanhar o cachorro no colo, censurando-o com amorosidade:
— Fique quieto, Lulu. Comporte-se.
Se Rafaela não estivesse tão aflita, teria adorado brincar com Lulu.
A jovem fez um carinho na cabecinha do animal e seguiu Augusto até a sala.
— Espero que não repare — falou Augusto.
Não sou muito dado a luxos.
— Não, está óptimo.
Sua casa é muito bonita e bem cuidada.
Ouvindo a voz do padre, Nelma aproximou-se, esfregando as mãos no avental.
Ao dar de cara com Rafaela, ergueu as sobrancelhas e falou mal-humorada:
— Não sabia que tinha visitas — como Augusto não respondia, Nelma mudou de assunto:
— Posso servir o almoço?
— Pode. E ponha mais um prato à mesa.
Rafaela vai almoçar connosco.
Rafaela pensou em protestar, contudo, a voz do padre era tão cativante, seu sorriso tão meigo e seu olhar tão doce, que ela não resistiu.
Comeram com certa rapidez, pois Rafaela não queria falar nada na presença de Nelma.
Ao final da refeição, Augusto conduziu-a até um pequeno pomar, protegido por muros altos que impediam a visão do exterior, onde uma mesa de madeira rústica havia sido estrategicamente posicionada à sombra de uma mangueira.
— Venha — chamou ele.
Vamos nos sentar aqui.
Tenho ainda uma hora.
O lugar era lindo, com flores viçosas e muitas árvores.
Sentada de frente para Augusto, Rafaela deixou-se envolver pelo prazer que aquele local proporcionava.
Fresco, agradável, seguro.
Um jardim dentro dos limites da igreja, que ninguém podia ver.
— Não sabia que a igreja tinha um pomar — comentou Rafaela, olhando ao redor.
Ou jardim, não sei bem.
Augusto sorriu e respondeu satisfeito.
— Não tem. A casa foi comprada por mim.
Ao lado da igreja, não podia querer localização melhor.
E ainda veio com esse quintal maravilhoso, cujas flores e árvores gosto de cultivar.
— Pensei que os padres vivessem em casas fornecidas pela Igreja.
— Alguns. Mas eu quis comprar a minha.
É muito antiga, tem até um porão com janelinhas.
Está vendo ali?
Olhando na direcção que Augusto apontava, viu as minúsculas janelas basculantes do porão.
Como ele consultasse o relógio, Rafaela iniciou a conversa:
— Bom, padre, como disse, nós estávamos fugindo, e Carlos Augusto foi preso.
Não tenho notícias dele nem de Rogério há quase três meses.
Já tentamos de tudo, mas ninguém sabe de nada.
Por isso, fiquei pensando.
Será que o senhor, que deve conhecer tanta gente, não teria como tentar descobrir o paradeiro deles?
Rafaela começou a chorar novamente, de cabeça baixa, deixando Augusto confuso e pensativo.
Aquele não era um pedido incomum.
Ele ajudava gente a fugir e se esconder, mas tinha quem descobrisse o paradeiro de pessoas desaparecidas.
Imaginou o sofrimento daquelas mães, sem saber o que acontecera aos filhos, avaliando a dor que estariam sentindo.
De facto, Augusto conhecia muitas pessoas, inclusive um militar que se confessava com ele.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 11:18 am

Desde o início, o general Odílio opusera-se ao golpe, embora nunca o fizesse abertamente.
Contrário às torturas, procurava não tomar parte naquele tipo de actividade, atendo-se a questões administrativas e burocráticas.
Era a ele que Augusto apelaria.
— Você tem caneta e papel? — indagou o padre.
Quero que escreva o nome completo dos dois.
A jovem retirou os objectos da bolsa, escreveu os nomes e entregou-lhe o papel.
Depois de ler e guardá-lo no bolso interno da batina, Augusto procurou confortá-la:
— Agora, não se preocupe. Deixe comigo.
— O senhor acha que consegue?
— Farei o possível.
— Como saberei que o senhor conseguiu?
— Anote seu telefone.
Ligarei para você assim que tiver alguma coisa.
Rafaela deixou com Augusto o número de seu telefone e foi para casa mais calma, confiante na palavra do padre.
Agora não tinha mais dúvidas.
Estava certa de que podia confiar nele.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 11:18 am

Capítulo 9

A vigilância tornara-se ostensiva.
Era bem possível que Carlos Augusto e Rogério, premidos pela tortura, houvessem revelado os nomes das moças e o local em que se encontravam.
Com esse medo, elas deixaram de se falar.
Nem se atreviam mais a ligar uma para a outra.
Olhando pela janela da sala, Rafaela tremia de preocupação.
Os pais não desconfiavam de nada, e o irmão era ainda muito pequeno para se ocupar com aquelas coisas.
Sentados na sala, o pai e o irmão assistiam a um jogo de futebol, enquanto a mãe se distraía fazendo croché.
Quando, de repente, o telefone tocou, a mãe gritou da cadeira de balanço:
— Atenda, Rafaela!
De má vontade, a jovem deixou a janela para atender:
— Alô?
— Poderia falar com a Rafaela, por favor?
Imediatamente, a moça reconheceu a voz de Augusto e retrucou baixinho:
— Sou eu.
— Sei que hoje é sábado, mas você poderia vir aqui?
Tenho novidades para você.
Como o telefone podia estar grampeado, impedindo-a de falar abertamente, Rafaela respondeu ansiosa:
— Já estou indo.
A jovem saiu pela porta dos fundos sem ser percebida, pulou o muro do vizinho, que dava em uma vila, e ganhou a rua, despistando o espião.
Pouco tempo depois, adentrava a igreja, vazia àquela hora.
Apenas Augusto a aguardava em frente ao altar.
Assim que ele a viu, levantou-se aproximando-se.
— Veio rápido — observou.
— É. Estou com pressa.
Então? Descobriu alguma coisa?
— Infelizmente, as notícias que tenho não são as melhores.
Quero que você se prepare para o pior.
Antes de Augusto falar, Rafaela começou a sentir-se mal, tomada de forte tonteira.
O padre a fez sentar-se no banco mais próximo, posicionando-se ao lado dela.
— Ele está morto, não está? — a jovem quase afirmou.
— Está — foi a resposta directa.
Como era de se esperar, Rafaela desabou em um pranto sentido e doloroso, deitando a cabeça no colo do padre.
A reacção da jovem deixou-o confuso.
Sem saber como proceder numa situação como aquela, Augusto pôs-se a dar-lhe tapinhas amistosos nas costas, sem dizer nada.
Depois de muito chorar, Rafaela conseguiu acalmar-se um pouco, levantou a cabeça e enxugou os olhos.
— Ele foi torturado?
Ah! Meu Deus, como deve ter sofrido!
— Ele e o amigo estiveram um tempo no DOPS, depois foram transferidos para o DOI-CODI, na Tijuca.
Carlos Augusto foi morto há uns quinze dias, mais ou menos, e o outro rapaz ainda continua lá.
— Rogério está vivo?
— Não sei se podemos dizer que está vivo, dadas as condições em que se encontra.
Fui informado de que está muito machucado.
Parece que ambos foram submetidos às mais cruéis espécies de tortura.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 11:18 am

Rafaela sentiu um calafrio e observou com voz sofrida:
— E Carlos Augusto não resistiu.
— Carlos Augusto não resistiu porque não falou.
Recusou-se a entregar seus companheiros.
Já Rogério forneceu algumas informações preciosas a seus torturadores.
— Que tipo de informações?
— O local de encontro.
A polícia já achou o apartamento e descobriu o material subversivo guardado lá.
— Meu Deus!
Então, Silmara e eu estamos em perigo!
— Vocês duas estão na mira dos militares.
Eles sabem que são amigas dos rapazes.
Só o que lhes falta é apurar se participaram das actividades ilegais.
Carlos Augusto não lhes disse nada sobre vocês.
O que eles descobriram foi por meio de investigações próprias.
Eu soube, inclusive, que o seu namorado inocentou-a e também preservou à sua amiga de qualquer envolvimento com o grupo.
— E perdeu a vida por isso — lamentou a jovem, aos prantos.
Deu a vida para nos salvar.
— Ele foi um homem corajoso e leal.
Não traiu os companheiros nem sob tortura, embora não possamos culpar quem o faça.
Nem todos possuem a mesma fibra.
Só quem é torturado conhece o limite de sua dor.
Às vezes ela é tão grande que a vontade desaparece, e só o que se quer é que pare de doer.
— Está dizendo isso para justificar a atitude de Rogério?
É isso, padre?
Carlos Augusto pôde morrer para não nos entregar, mas se Rogério o fizer, está tudo bem?
— Não o culpe por algo a que você mesma não sabe se resistiria.
As palavras de Augusto fizeram sentido.
Havia bem pouco tempo ela estava arrependida de ter-se juntado ao grupo e dizia a Silmara que não queria mais prosseguir.
Isso sem sofrer qualquer tipo de tortura, premida apenas pelo medo.
— Tem razão, padre.
Seria uma exigência injusta para com Rogério.
Deve ser horrível o que ele está sofrendo.
E Carlos Augusto... — calou-se, a voz embargada.
Onde está o corpo?
— Ninguém sabe.
Engolindo o soluço, a jovem conseguiu indagar:
— Não há como recuperar o corpo?
— Impossível.
Parece que está enterrado em uma cova em local secreto.
Nem o meu informante soube me dizer onde é.
— Quem é o seu informante?
— Não posso revelar.
Por favor, nunca mais me faça essa pergunta.
— Desculpe-me, padre.
Sei o quanto o senhor e esse informante devem ter-se arriscado.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 11:18 am

— Ele, muito mais do que eu.
Estou lhe revelando essas coisas confiando que você não as contará a ninguém.
— Nem à família?
— Infelizmente, nem à família.
Se os pais começarem a falar, não vai ser difícil chegarem até nós.
— Entendo.
— Sei que pode parecer insensível de minha parte, mas, acredite em mim, não é.
Faço isso para preservar as pessoas envolvidas, pessoas que são importantes para o nosso movimento.
— Que movimento?
— Um movimento chamado Esperança.
Faço parte de um grupo que ajuda perseguidos políticos a fugir e se esconder.
Alguns, conseguimos até tirar do país.
Contudo, se formos descobertos, tudo irá por água abaixo.
— Eu não sabia — admirou-se Rafaela.
Padre, quem iria imaginar?
— Ninguém imagina, e é por isso que dá certo.
— Posso participar também?
Gostaria de ajudar.
— Lamento, mas você não está em condições.
Está precisando da nossa ajuda agora.
— Porque estou sendo vigiada?
— Exactamente. Carlos Augusto morreu para não delatá-las, mas algo me diz que Rogério não terá a mesma fibra.
É apenas questão de tempo até ele confirmar a participação de vocês.
A polícia já sabe quem são e onde moram.
Prendê-las não será difícil.
— Meu Deus! — horrorizou-se Rafaela.
O que faremos?
— Avise sua amiga para fugir e desapareça você também.
— Para onde vou?
— Não sei.
Faça uma viagem, saia do país antes que seja tarde.
— Não posso sair do país.
Tenho apenas dezanove anos, nem passaporte possuo.
— Podemos ajudá-las.
— Mas, e se tudo não passar de impressão?
Não fiz nada.
— Você estava distribuindo panfletos subversivos.
Acredite, isso é muita coisa.
— Pode ser que Rogério não diga nada e eu tenha que fugir à toa.
Não quero deixar minha casa.
Tenho medo de ficar sozinha.
— Você é quem sabe, mas pense bem.
Tudo indica que vocês estão na mira dos militares.
Quer esperar até que seja tarde demais?
De olhos novamente baixos, a jovem tornou a chorar.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 11:19 am

— Não queria isso — desabafou.
Quando me envolvi com o grupo, queria apenas ficar junto de Carlos Augusto.
Jamais parei para medir as consequências.
— Isso não adianta agora.
Você e sua amiga correm perigo.
Sei que é difícil de aceitar, mas é a verdade.
— O que posso fazer?
Meti-me em uma enrascada sem igual.
Meu Deus, só queria minha vida de volta, ser uma estudante comum, sair com meu namorado. Só isso.
— Essa vida, no momento, não existe mais.
Sua realidade agora é outra.
— O que farão comigo se me prenderem?
— Não vamos pensar nisso por enquanto.
O mais importante é fugir.
Você contou a alguém que esteve aqui?
— Deixe-me pensar... não, acho que não.
— Você acha ou tem certeza?
Rafaela pensou mais um pouco, até que confirmou:
— Tenho certeza.
A quem poderia contar?
Além de Silmara, ninguém sabe o que eu fazia.
E não contei a ela, tenho certeza.
— Óptimo. Assim não corremos o risco de chegarem até nós.
Olhe, Rafaela, você pode não gostar, mas vai ter que desaparecer por uns tempos.
Até para segurança de sua família.
E avise Silmara o quanto antes.
Eu, no seu lugar, nem voltaria para casa.
A qualquer momento, você pode ser presa.
A jovem chorava cada vez mais, terrivelmente arrependida de haver-se envolvido com aquele movimento.
Amava Carlos Augusto, mas jamais deveria ter misturado as coisas.
Entrara em um caminho sem volta, que agora lhe mostrava a seriedade e o perigo do que fizera.
— Não posso simplesmente sumir.
Tenho que avisar meus pais, falar com Silmara.
— Faça isso o quanto antes.
Só não revele a seus pais quem a está ajudando.
Não entre em detalhes.
Quando tudo estiver pronto, telefone para esse número — Augusto lhe deu um cartãozinho com o telefone de uma loja de animais.
— Diga que tem esperança de poder montar um aquário.
O atendente vai lhe perguntar:
"Com que tipo de peixes?", e você responderá:
"Peixes raros de água salgada".
"Quantos peixes você quer?", prosseguirá ele.
"Dois", dirá você, caso Silmara a acompanhe, ou "um", se estiver sozinha.
Ele então informará que vai providenciar, mas perguntará se você tem dinheiro e pode esperar.
Diga que sim, se tiver dinheiro e tempo, ou não, se estiver em dificuldades ou não tiver onde se esconder.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 11:19 am

Dependendo da sua resposta, ele mandará que vá até lá em dia e hora determinados, para apanhar os peixes, ou seja, passagens e passaportes falsos, ou dará um jeito de apanhá-la onde estiver, para escondê-la até que tudo esteja pronto.
Entendeu bem?
Rafaela estava confusa e assustada.
Parecia que, de repente, virara personagem de algum filme de espionagem internacional.
— Não entendi nada — retrucou a jovem aturdida.
O que é tudo isso?
— Esse é o diálogo combinado por nós para identificarmos os fugitivos.
É preciso que você o decore bem e se lembre das perguntas que irá ouvir.
— E se um cliente de verdade ligar, pedindo as mesmas informações?
— Isso nunca aconteceu.
A loja de animais é real, mas esse número foi destinado ao nosso movimento.
Vamos repetir o diálogo até que você o decore bem.
Durante quase uma hora, permaneceram repetindo as frases que Rafaela deveria dizer e ouvir.
— Podemos parar? — pediu a moça.
Já decorei tudo e estou ficando nervosa.
Não posso acreditar que isso vá acontecer comigo.
— Isso já está acontecendo com você.
Não se iluda desnecessariamente.
Rogério vai falar tudo, mais cedo u mais tarde.
Procure se proteger antes que seja tarde demais.
Rafaela tornou a chorar e agarrou a mão dele, causando-lhe uma leve comoção.
— Ah! Padre, por que me deixei envolver nessa loucura?
— Não adianta se lamentar — ponderou Augusto, puxando a mão.
— Agora é hora de agir.
— Está certo — concordou ela, enxugando as lágrimas.~
O senhor tem razão.
Estou tentando fugir do problema, mas preciso é fugir do mundo mesmo.
Já decorei o diálogo.
Amanhã falarei com Silmara e, em seguida, telefonarei para esse número.
— Óptimo. Quando o atendente lhe disser para ir buscar os peixes, vá até o endereço que e vai lhe dar.
— E depois?
— Depois, providenciaremos sua fuga do país.
— E se eu estiver sendo seguida?
— Você foi seguida até aqui?
— Não. Consegui sair pelos fundos sem que ninguém me visse.
— Muito bem.
Se estiver sendo seguida, dê meia volta e vá para casa.
— E aí, não irão me ajudar?
— Sinceramente, não sei.
Se você for seguida até a loja, colocará em risco toda a nossa operação.
Temos conseguido êxito porque ninguém ainda desconfiou que a loja de animais é apenas uma fachada.
Ainda trémula, Rafaela agradeceu e saiu.
Fez o caminho de volta para casa em lágrimas, pensando em Carlos Augusto, lembrando-se de tudo de bom que haviam vivido juntos.
Mas ele agora estava morto, e ela, sob ameaça de prisão e tortura.
Ainda bem que encontrara padre Augusto e não se enganara com ele, porque, a partir daquele momento, estava entregue em suas mãos.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 11:19 am

Capítulo 10

Rafaela nem pôde entrar em casa.
Logo ao se aproximar, notou uma movimentação estranha em sua porta.
Como dois homens suspeitos andavam de um lado a outro em frente ao portão, ocultou-se atrás de uma árvore.
Um terceiro postou-se bem rente à entrada, enquanto o outro tocava a campainha.
A mãe veio atender e nem teve tempo de conversar com os estranhos, que irromperam porta adentro, empurrando-a para o lado.
De onde estava, Rafaela não tinha uma visão completa do interior da casa, mas sabia que aqueles homens a revistavam a casa à sua procura.
A mãe ficou encostada na parede do vestíbulo, as mãos tapando a boca, apavorada, sem saber o que fazer.
Um dos homens, que parecia um pouco mais tranquilo, conversou com ela e mostrou-lhe algo que parecia uma pasta, deixando-a com os olhos cheios de água, o olhar de pânico de quem se vê diante de uma inevitável tragédia.
Rafaela não esperou mais.
Deu meia-volta e saiu caminhando o mais naturalmente que suas pernas bambas permitiam, até virar a esquina e começar a correr.
Nem bem iniciou a corrida, trombou de frente com um homem alto e corpulento, que a segurou pelos braços.
Olhando-a friamente nos olhos, indagou com desdém:
— Vai aonde, com tanta pressa?
— Eu... — balbuciou Rafaela apavorada, reconhecendo ali um possível agente do DOPS.
Estou atrasada para a faculdade.
— É? E onde estão os seus livros?
A jovem não respondeu.
Olhou para o homem com o desespero estampado no olhar, tentando soltar os cotovelos de suas mãos fortes.
O agente levantou os olhos para a esquina e, vendo que ninguém se aproximava, disse bem baixinho:
— Desapareça.
E nunca mais volte aqui, se quiser que sua família permaneça viva.
Sem mais nem menos, ele a soltou.
Rafaela mal podia acreditar no que acontecera.
Aquele homem, visivelmente da polícia, dava-lhe a oportunidade de fugir antes que os outros aparecessem.
Ele não era propriamente bonzinho, mas tinha uma filha da idade de Rafaela, e foi o amor que sentia pela menina que facilitou a intervenção de espíritos amigos, enviados ali para ajudá-la.
— E se fosse sua filha? — sugerira uma voz interior.
— E se fosse minha filha? — repetiu ele mentalmente.
Não quero ser o responsável pela morte de uma moça, uma criança que provavelmente nem sabia no que estava se metendo.
Rafaela ainda titubeou, pensando que talvez ele a mandasse fugir para justificar matá-la pelas costas.
Contudo, não havia tempo para temer.
A situação era urgente.
Se ela não escapasse naquele momento, talvez nunca mais conseguisse.
Engolindo o terror, passou rente ao policial e desatou a correr, entrando no primeiro ônibus que apareceu.
Ainda tremendo de susto, permaneceu sentada no banco de trás, pensando no que fazer, vendo em cada rosto as feições endurecidas dos agentes do DOPS.
O ônibus tomou a direcção da Avenida Brasil, e ela deixou-se ficar, seguindo até o subúrbio de Olaria.
Ao saltar, Rafaela olhou para os lados, sem saber aonde ir.
Desnorteada e sem rumo, parou no primeiro orelhão que encontrou.
Tacteou a bolsa em busca de fichas, até que encontrou uma.
Com as mãos trémulas de nervoso, quase deixou cair a ficha, mas conseguiu se controlar, depositando-a na ranhura do aparelho.
Discou o número de sua casa e quase deu um grito quando uma voz estranha atendeu.
Imediatamente, a jovem desligou o telefone, suando frio, em pânico.
Os homens, com certeza, ainda estavam em sua casa.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 11:19 am

E se fizessem mal a sua mãe ou seu irmão?
Um terror atroz tomou conta dela, levando-a a pensar em se entregar para que não fizessem mal a sua família.
No entanto, lembrando-se do estranho encontro que a levara até ali, acalmou-se.
O homem dissera que Rafaela deveria desaparecer para que eles ficassem bem, portanto, o melhor era não voltar a procurá-los.
Caminhando de uma calçada a outra, a jovem logo chamou a atenção e então resolveu seguir em frente, até o próximo orelhão.
Apanhou uma nova ficha e ligou para a casa de Silmara.
O apartamento já havia sido descoberto, mas será que Silmara estava em segurança?
Na casa da amiga, a voz que atendeu soou nervosa e assustada:
— Quem está falando?
— É uma amiga de Silmara, da faculdade.
— Que amiga?
Temendo que a ligação estivesse sendo rastreada, Rafaela bateu o telefone, preocupada com Silmara.
Pelo tom de voz da mulher que atendeu o telefone, provavelmente a mãe da amiga, dava para deduzir que alguma coisa havia acontecido.
Só esperava que Silmara houvesse fugido.
Com a mão sobre o fone, Rafaela começou a chorar, mas logo uma batidinha em seu ombro a fez abrir os olhos e se virar aterrada.
— Não fique assim — confortou uma senhora de seus sessenta anos.
Homem nenhum vale as lágrimas de uma moça bonita feito você.
Dando um sorriso sem graça, a jovem afastou-se do telefone, caminhando a esmo pelas ruas.
Entrou num bar e pediu um refrigerante.
Enquanto ingeria a bebida refrescante, pensava em que atitude tomar.
As coisas haviam saído do controle, e Rafaela começava a desesperar-se.
Tinha ainda um último recurso.
Apanhou o cartãozinho que o padre lhe dera, pagou a bebida e comprou um monte de fichas telefónicas.
De volta ao orelhão, discou para a loja.
Quando atenderam, ela foi logo falando:
— Tenho esperança de montar um aquário.
Fez-se um silêncio momentâneo, até que a voz retrucou:
— Com que tipo de peixes?
— Peixes raros de água salgada.
— Quantos peixes você quer?
— Um.
— Vou providenciar.
Tem dinheiro e pode esperar?
— Tenho dinheiro, mas não posso esperar.
— Óptimo. Vou lhe dar o endereço de nossa loja.
Decore-o, por favor.
— Sim.
Foi preciso repetir o endereço quatro vezes até que Rafaela o memorizasse.
Não era permitido anotá-lo, porque assim, se a polícia a prendesse, não descobriria o galpão onde eram realizadas as operações de protecção e fuga dos perseguidos políticos.
Quando a jovem desligou, estava mais aliviada.
Ao menos o tal galpão ficava para aquele lado.
Era só pegar um ônibus até Realengo, que ficava além de onde ela estava.
Parada no ponto de ônibus, Rafaela sentiu o desespero se avizinhar.
A cada transeunte que passava, a jovem encolhia-se e virava o rosto, com medo de que lhe registrassem as feições.
Mexia nos cabelos, dava voltas ao redor do próprio corpo, evitava encarar quem quer que fosse.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 11:19 am

Um carro da polícia passou bem devagar pela rua, observando atentamente os pedestres.
Estavam à procura de um assaltante que acabara de roubar uma loja de comestíveis e examinavam cada um como um possível suspeito.
Embora os policiais não estivessem procurando por Rafaela, naquele lugar, naquele momento, ela sentiu como se estivessem ali por causa dela.
Quando a patrulha passou pelo ponto de ônibus, a jovem gelou e seus pés petrificaram.
Não conseguia se mover.
O carro da polícia seguiu avante lentamente, indo parar poucos metros adiante.
O motorista olhava pelo retrovisor, enquanto o homem ao lado dele se virara para estudar melhor o ponto.
A luz de ré do carro acendeu-se, e o veículo voltou com um pouco mais de velocidade.
Como se o sangue parasse de correr pelas suas veias, todo o corpo de Rafaela enrijeceu.
O policial parecia olhar directamente para ela.
Olhava, contudo, para o homem escondido atrás dela.
Um rapaz de seus dezoito anos, magro, em atitude suspeita, igualzinha à dela, evitava o contacto com a polícia.
Como Rafaela desconhecia o assalto e não via o assaltante, pensava que a polícia estava ali por causa dela.
O policial saltou do carro e aproximou-se.
Na mesma hora, a jovem e o ladrão tiveram a mesma reacção.
Ambos desataram a correr, um em cada direcção.
O policial, confuso, não entendia por que aquela moça corria também, mas a experiência lhe dizia que, se ela fugia, era porque devia algo à polícia.
O outro entendeu da mesma forma, porque saltou do carro rapidamente e partiu no encalço de Rafaela, enquanto o primeiro ia atrás do assaltante.
— Parada aí, moça! — gritou o policial.
Rafaela não parou.
Arriscando-se a levar um tiro pelas costas, saiu em desabalada carreira pela rua, com o policial logo atrás.
Atravessou na frente dos carros e quase foi atropelada, mas a ousadia lhe valeu alguns metros de distância, já que o policial teve que parar para não ser atingido pelos automóveis no trânsito intenso da Avenida Brasil.
A jovem nem titubeou.
Entrou na primeira transversal e continuou a correr feito louca, só parando quando o peito quase explodiu com a falta de ar.
Estava em uma rua pequena, de pouco movimento.
Foi caminhando encostada aos muros, tentando não deixar visível nem a sua sombra.
As ruas ali eram feias e mal cheirosas, com casas de tijolos sem reboco, o esgoto desaguando no chão.
Rafaela sentiu medo, mas, mesmo assim, ficou perambulando por ali, agarrada à bolsa, engolindo as observações grosseiras e pornográficas dos homens.
Quando voltou à Avenida Brasil, já era noite fechada.
Precisava desesperadamente tomar um ônibus para o local de encontro com seus salvadores.
Como muitas horas haviam-se passado desde seu primeiro contacto com seus salvadores, resolveu ligar de novo.
O horário do expediente havia muito encerrara, de forma que ninguém atendeu.
Mesmo assim, Rafaela tomou o ônibus para Realengo.
O local de encontro era um galpão descuidado, onde uma tabuleta exibia o nome:
Loja de Animais de Realengo.
Experimentou a porta principal.
Estava fechada, tudo às escuras.
Rodeou o galpão em busca de uma outra entrada e encontrou uma porta lateral, também fechada.
Embora as janelas altas de vidro não exibissem nenhuma luz, resolveu chamar:
— Alô! Tem alguém aí?
Apenas os grilos atenderam ao chamado da jovem.
Nada. Não havia mais ninguém ali.
Desesperada, Rafaela arriou no chão e começou a chorar.
Não sabia para onde ir.
Para casa, não podia mais voltar.
O agente fora bom com ela, deixando-a partir, todavia, alertara-a para não tornar a aparecer, e ela não pretendia pôr em risco a família.
Talvez fosse melhor encontrar um canto para dormir até o dia seguinte, quando alguém apareceria.
Os ruídos da noite e do desconhecido, contudo, não permitiram que ela ficasse.
A cada som, cada movimento, Rafaela imaginava homens da polícia surgindo e prendendo-a com brutalidade.
Com o medo aumentando, tomou a única resolução possível naquele momento.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 11:20 am

Capítulo 11

Augusto mantinha a mente concentrada na pilha de provas que ainda tinha para corrigir, sentindo os olhos piscarem de vez em quando, mordidos pelo sono.
Quando adormecia, a cabeça tombava para a frente, e ele empertigava o corpo, esfregando os olhos para manter-se acordado.
Em seu colo, Lulu dormia despreocupado, remexendo-se sempre que o dono cabeceava.
Fora um dia difícil na paróquia, com duas extremas-unções para dar, coisa que não era muito comum.
Como não podia deixar de atender ao chamado dos fiéis, deixara as provas para a noite e fora cumprir o dever que o sacerdócio lhe impunha.
O padre esticou os braços e deu um bocejo comprido, cerrando os olhos momentaneamente.
Um som familiar de bandeja despertou seus sentidos, e logo o aroma do café fresco, que Nelma entornava na xícara, deu-lhe um certo ânimo.
— Passei um cafezinho para o senhor — anunciou a mulher.
Está fresquinho.
Augusto deu-lhe um sorriso de gratidão e apanhou a xícara com o café fumegante.
Bebeu-o a goles pequenos, estalou a língua e comentou:
— Café igual ao seu, Nelma, ninguém faz.
Rindo de satisfação, a empregada acrescentou preocupada:
— Não devia trabalhar tanto.
Ler no escuro faz mal à vista.
— O movimento na paróquia tem sido constante, como você sabe.
Não pude corrigir as provas durante o dia e tenho que entregá-las amanhã.
— O senhor é muito responsável.
Devia tirar umas férias.
— Não posso me ausentar agora, com tantas coisas para fazer.
Ainda se tivesse um substituto...
— Padre Cláudio não pode ajudar?
— Padre Cláudio tem os seus afazeres.
E, por falar nisso, os seus já deviam ter terminado.
O que está fazendo acordada até essa hora?
— Vim preparar seu cafezinho.
Já vou me deitar.
— Acho bom, Nelma.
Não é justo que você fique acordada até tarde cuidando de mim.
A empregada ia responder alguma coisa quando um ruído distante de pancadas chegou aos seus ouvidos.
Os dois pararam de falar ao mesmo tempo, Lulu levantou a cabeça.
Parecia que alguém batia no portão de entrada da casa.
— Quem será a uma hora dessas? — indagou Nelma, assustada.
— Não sei.
Mas deve ser importante, pela forma como batem.
— Por que não usam a campainha?
Augusto levantou-se para abrir a porta da frente, espiando o quintal vazio.
Estranhamente, percebeu que o eco das batidas não provinha do portão da frente, que tinha ligação com a rua, mas do outro, bem estreitinho, que dava acesso à igreja, fechada àquela hora.
Augusto não sabia como haviam conseguido passar.
— O senhor vai atender? — cochichou Nelma, apertando-se no penhoar.
— Vou, é claro.
— Mas pode ser um ladrão!
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 26, 2015 11:20 am

— Ladrões não batem à porta.
Decidido, Augusto apanhou a chave do portãozinho e saiu.
O barulho de seus passos fez cessarem os murros, e o padre indagou apressado:
— Quem é? Quem está aí?
Após um curtíssimo instante de silêncio, a voz insegura de Rafaela elevou-se por cima do muro:
— Sou eu, padre, Rafaela. Lembra-se?
Na mesma hora, o portão se abriu, revelando uma menina assustada, rosto lavado em lágrimas, a calça manchada de sangue na altura da coxa.
— Meu Deus, minha filha, o que foi que aconteceu com você? — espantou-se Augusto, puxando-a para dentro.
Machucou-se?
— Cortei a perna pulando o portão da igreja — balbuciou a jovem, entre soluços.
Perdoe-me, padre, estava desesperada, não sabia para onde ir.
Augusto ajudou a jovem a caminhar até a sala, onde Nelma os aguardava com cara de espanto.
— Depressa, Nelma — ordenou ele.
Vá buscar mercurocromo e gaze para fazermos um curativo na moça.
A criada apareceu com o material de primeiros socorros e puxou uma cadeira para perto de Rafaela.
— Pode deixar comigo, padre — disse Nelma.
A moça vai ter que tirar a calça, e é melhor o senhor ir lá para dentro.
Quando estiver terminado, eu o chamo.
Augusto obedeceu em silêncio, enquanto Nelma ajudava Rafaela a tirar a calça suja de lama e sangue.
Após limpar a ferida, avaliou sua extensão:
— Hum... Acho que devia levar uns pontos.
— Não pode apenas limpar e fazer um curativo? — retrucou Rafaela em tom de súplica, com medo de ir ao pronto-socorro.
— Vou tentar.
Nelma fez um excelente trabalho de enfermagem.
Conseguiu estancar o sangue e caprichou no curativo.
— Acho que está bom — prosseguiu Nelma.
Vou chamar padre Augusto.
— Obrigada - sussurrou Rafaela, sentindo que a perna não ardia tanto.
Com o ouvido colado à porta, Augusto a abriu assim que ouviu os passos de Nelma aproximando-se pelo corredor.
— Então? — indagou aflito.
Como está ela?
— O corte foi fundo, mas acho que vai sarar.
— Graças a Deus!
— Quem é essa moça, afinal, padre?
O que ela veio fazer aqui a uma hora dessas?
E ainda por cima, pulando o portão da igreja?
— Seja o que for, ela precisa da minha ajuda, da nossa ajuda.
— Ela anda metida em alguma encrenca? — Augusto não respondeu.
Será com o governo ou com o namorado?
— Não nos cabe julgar ninguém, Nelma, lembre-se disso.
Deus quer apenas que ajudemos ao próximo.
— Tem razão, perdoe-me.
Foi apenas o espanto da situação.
— Está tudo bem.
Você foi óptima, e eu lhe agradeço.
Agora, deixe comigo.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 12:21 pm

— O senhor é quem sabe.
Vou me deitar, então. Boa noite.
— Boa noite.
A criada seguiu pelo corredor até a cozinha, passando ao pequeno quarto que ficava ao lado.
Ajoelhou-se ao pé da cama para fazer suas orações, pedindo a Deus que olhasse por aquela moça e desse ao padre forças para cumprir suas tarefas diárias.
Fazia muitos anos que Nelma trabalhava para o padre Augusto, desde que ele ali chegara, ainda muito jovem.
Viúva, sem filhos, vivia com dificuldade à custa da parca pensão do marido.
No dia em que recebeu a ordem de despejo, refugiou-se na igreja, onde Jesus e os santos, testemunhas de suas lágrimas, a ajudariam a encontrar uma solução para o seu problema.
Não tardou muito para que padre Augusto, vendo o desespero daquela mulher, viesse a interessar-se pelo seu caso.
Como precisava de alguém que o ajudasse com o serviço doméstico, ofereceu-lhe o emprego, que Nelma aceitou sem titubear.
Assim que ele comprou a casinha nos fundos, mudou-se para lá.
Desde então, ajudava-o no que podia, satisfeita com o trabalho e o salário que o padre lhe pagava.
Nelma confiava inteiramente em padre Augusto e seria capaz de qualquer coisa por ele.
Leal aos extremos, sabia de tudo o que lhe acontecia.
Embora não tivesse qualquer participação na organização Esperança, conhecia suas actividades e o envolvimento do padre, o que lhe valia orações diárias pela segurança do seu benfeitor.
E agora aquela menina lhe aparecia na porta, vindo não se sabe de onde, pedir-lhe ajuda.
Mais uma doidivanas envolvida em política.
Pelo seu estado, a situação parecia mesmo desesperadora.
Sentiu uma pontada de ciúmes diante do excessivo interesse do padre pela jovem, contudo, como ele mesmo dissera, não lhe cabia julgar.
Rezou novamente, pedindo a Deus que a perdoasse e ajudasse também a menina, para que ela ficasse boa e fosse logo embora.
Na sala, Augusto sentou-se diante de Rafaela, que bebia café na xícara que ele usara.
— Quer que apanhe uma xícara para você?
— Não é preciso, obrigada — respondeu nervosamente.
Mas acho que bebi seu café.
— Não tem importância.
Agora, conte-me por que veio aqui no meio da noite, nesse estado, arriscando-se a cair e quebrar o pescoço ou coisa pior.
Imagino que você não teve tempo de buscar a ajuda que lhe sugeri.
— Isso mesmo, padre.
Não pude nem entrar em minha casa.
Detalhadamente, Rafaela narrou tudo o que lhe acontecera naquela noite, desde o momento em que vira os homens em sua casa até a ida frustrada ao galpão, não se esquecendo de contar sobre o policial que mandara que ela sumisse e nunca mais voltasse, caso desejasse que sua família não fosse morta.
— Você fez bem em me procurar — disse Augusto.
A polícia deve estar atrás de você, mas creio que ninguém sabe que esteve aqui.
— Ninguém. Não contei nem à minha mãe, nem a Silmara.
— Óptimo. Amanhã tentarei, eu mesmo, entrar em contacto com a loja de animais.
Precisamos tirá-la do país o quanto antes.
— Tirar-me do país?
Mas para onde vai me mandar... e sozinha?
Chorando, Rafaela ocultou o rosto entre as mãos.
Augusto segurou as mãos da moça com ternura, procurando tranquilizá-la:
— Desde o começo você sabia que ia para o exterior.
O plano sempre foi esse.
— Eu sei.
Mas até então, tudo estava apenas na idealização.
Agora que a concretização desse plano está próxima, estou apavorada.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 12:22 pm

— Procure se acalmar.
Vai dar tudo certo, você vai ver.
Temos pessoas no exterior que lhe darão suporte nos primeiros meses.
— Ah! padre, nunca me imaginei numa situação dessas.
Não sou como o Carlos Augusto ou a Silmara, que são corajosos e enfrentam tudo.
Eu estou apavorada!
Não sei o que vou fazer lá fora...
Tenho tanto medo!
Rafaela pareceu-lhe tão frágil naquele momento, que Augusto não resistiu.
Deu-lhe um abraço que ele pretendia paternal, mas que fez um fogo subir por todo o seu corpo e confundir-lhe a mente.
A jovem sentiu a mesma coisa, porque se apertou a ele de tal forma, que o calor de um passou a ser o calor de ambos.
Aturdido com aquele sentimento que jamais havia experimentado, Augusto afastou-a de si, fitando-a com olhar de dúvida e medo.
Não entendia que coisas eram aquelas que sentia e que jamais sentira por ninguém, nem pelos garotos do seminário, numa época em que tinha certeza de que só se interessaria por homens.
Mas jamais se interessara por garoto algum, atribuindo o facto às orações e penitências que seu confessor lhe passava.
Julgava haver conseguido conter a má tendência, dominando o pecado com uma vida exclusivamente dedicada a Deus.
Vencera a si mesmo antes de se deixar cair em tentação.
Ao menos era isso o que sempre pensara.
Nunca, em toda a sua vida, ousara levantar os olhos para mulher alguma com qualquer sentimento que não fosse o de um pai.
Tolhido em seus desejos pelo medo da homossexualidade, jamais se permitira qualquer tipo de aproximação sexual.
Certo de que, se não fosse padre, teria descambado para uma vida promíscua ao lado de outros homens, nunca pensou que pudesse desejar uma mulher.
Agora, contudo, seu corpo o confundia, levando todos aqueles anos de abstinência e expiação parecerem-lhe inúteis e sem sentido.
A mulher que tivera em seus braços por apenas uns minutos despertara-lhe um sentimento desconhecido, mas muito semelhante àquele que, a vida toda, fora orientado a evitar.
— Eu... — balbuciou confuso.
Verei o que fazer...
- Por favor, padre, ajude-me.
Não me abandone nessa hora.
Farei o que disser, ficarei escondida onde o senhor mandar, mas por favor, não me mande embora do país.
Durante alguns instantes, Augusto ficou olhando para a jovem, pensando no que fazer para escondê-la.
A ideia brotou rápida, e ele afirmou com certeza:
— Você pode ficar aqui.
A casa é pequena, mas os muros são altos e rodeados de árvores.
Tenho até um flamboyant ao fundo, com uma copa frondosa e florida.
Ninguém irá vê-la.
— Aqui? Não, padre, é perigoso.
Se for descoberta, prenderão o senhor.
— Se você for descoberta e eu for preso, nada mais terá acontecido senão a vontade de Deus.
Você pode ficar no porão.
É pequeno, cheio de coisas velhas, mas podemos limpá-lo e arrumar um cantinho para você.
Só não tem banheiro.
— O senhor tem certeza?
— Tenho. Você tem razão.
Uma moça frágil feito você não vai sobreviver sozinha por muito tempo.
Minha casa é segura e tranquila.
— E a criada?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 12:22 pm

— Nelma é de confiança, não vai contar nada a ninguém.
Você vai precisar de sua ajuda enquanto eu não estiver aqui.
— E se alguém entrar aqui de repente?
— Há duas maneiras de chegar aqui em casa:
pela rua ou pela igreja.
O portão da igreja é aquele por onde você veio, e só eu costumo passar por ali.
Além de mim, apenas Nelma tem a chave.
A entrada normal é pela rua, um corredor comprido que também serve de entrada de carros, ladeado por muros altos.
No final, há dois portões:
o da garagem, que está sempre trancado, já que não tenho carro, e o de pedestres, colado a ele, que tem campainha.
Assim, se alguém vier aqui, terá que tocar para ser atendido.
Isso lhe dará tempo de se esconder no porão.
— Está bem.
— Agora, porém, nada poderemos fazer.
É tarde, você deve estar cansada, e eu tenho que terminar de corrigir algumas provas.
Não posso mudar a minha rotina, ou alguém poderá desconfiar.
Vou arranjar-lhe travesseiros e lençóis para você dormir no sofá por esta noite.
Não é muito confortável, mas serve.
— Para mim está óptimo.
— E terá Lulu por companhia — falou sorrindo, tentando descontraí-la.
Acho que ele gostou de você.
Pela primeira vez, Rafaela pegou o cachorrinho no colo.
— Você é muito bonitinho — comentou.
Mas o nome que escolheram para você é horrível.
Augusto deu uma gargalhada suave e esclareceu:
— Foi Nelma quem escolheu.
Mas você está certa. É horrível.
— Com essas orelhas, você parece o senhor Spock, de Jornada nas Estrelas.
— Não é que você tem razão?
— Não podemos trocar o nome dele?
Spock tem mais a ver.
— Por mim, tudo bem.
De hoje em diante, ele vai se chamar Spock.
Como o sofá era muito pequenino, Rafaela teve que dormir encolhida.
Contudo, sentia-se segura, principalmente porque Augusto estava bem ali diante dela, sentado à mesa, corrigindo suas provas.
A presença dele deu-lhe confiança suficiente para permitir que as pálpebras começassem a pesar, atirando-a em um mundo de sonhos confusos e amedrontadores, em que o padre surgia como o herói da infância que a salvava de todos os perigos.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 12:22 pm

Capítulo 12

Era uma rua escura, aquela por onde ele andava.
De um lado e de outro, as calçadas pareciam mover-se em ondas, como um chão de argamassa flexível e ruidosa.
Curioso, aproximou-se do meio-fio e abaixou-se para espiar.
A visão que teve encheu-o de terror.
O que antes pensou serem ondas, via agora que eram crânios humanos se agitando em um poço de trevas, estalando feito vértebras que se partiam em uma colisão.
— Minha Nossa Senhora! — espantou-se Carlos Augusto, levando a mão ao coração.
No momento em que se levantou, cambaleando na direcção oposta, uma luzinha muito fraca começou a luzir no fim da rua.
Minúscula, quase invisível, pareceu-lhe um ponto de esperança naquele lugar de horrores.
Assustado, Carlos Augusto desatou a correr na escuridão, tentando não olhar para aquelas cabeças que forjavam ondas macabras.
Não fazia a menor ideia do lugar em que se encontrava.
Depois dos choques e das torturas, não aguentara e desmaiara.
A dor fora tão intensa que, quando parou, o rapaz teve a certeza de que havia morrido.
Somente a bênção da morte para libertá-lo daquele sofrimento.
Sempre ouvira dizer que algum parente ou amigo que antecedera a pessoa na morte viria buscá-la.
Contudo, não via ninguém.
Ou será que ele, pelas suas práticas subversivas, fora parar no inferno, sem chance de perdão?
— Deus não se mete em política — disse Carlos Augusto para si mesmo.
Carlos Augusto corria com pressa, a visão tolhida pelas brumas ao redor, em que apenas os vultos dos crânios eram discerníveis na escuridão.
Corria com tanta pressa, em direcção àquela luz, que não notou uma outra pessoa vindo na direcção oposta, correndo tanto quanto ele.
O choque entre ambos foi tão violento que os jogou ao chão.
Carlos Augusto levantou-se na mesma hora, com medo da proximidade das caveiras.
Estreitou a vista, tentando enxergar o corpo com que trombara.
Na penumbra que caía ao redor deles, não lhe divisou nem a sombra.
Não sabia onde o outro estava.
— Fantasmas não produzem sombras — disse para si mesmo, ainda olhando ao redor.
No meio da treva, um choramingar doloroso atraiu sua atenção.
Seguiu aquele som inexacto, preocupado com a pessoa que chorava bem próximo a ele.
A passos hesitantes, experimentando o chão em que pisava, não demorou a avistar o vulto de um homem caído no chão, perto do mar de cabeças.
— Amigo — sussurrou baixinho, para não chamar a atenção dos crânios.
Você está bem?
Ao sentir o toque dos dedos de Carlos Augusto em seu ombro, o outro deu um salto e empertigou-se todo, fitando-o com os olhos esbugalhados, cheios de terror.
— Carlos Augusto... — balbuciou.
Sou eu...
O vulto atirou-se nos braços de Carlos Augusto, que só então reconheceu Rogério, o companheiro que fora preso junto com ele.
— Meu Deus, Rogério, é você mesmo?
Não sei se posso dizer que é um prazer vê-lo aqui.
— Onde estamos? — Rogério perguntou.
— Sinceramente?
Acho que estamos mortos, e isso aqui deve ser uma espécie de inferno ou purgatório.
— Você viu as cabeças? — tornou Rogério, apontando para a calçada.
— Vi, sim.
Na verdade, são pessoas espremidas num tipo de subterrâneo, balançando-se em todas as direcções.
— Que coisa horrível!
— Realmente. Por isso mesmo é que precisamos sair daqui. Venha.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 12:22 pm

— Para onde vamos?
— Para lá — Carlos Augusto virou o amigo para a frente e apontou.
Vê aquela luzinha?
— Que luzinha?
— Aquela, lá no fundo.
Não está vendo?
Rogério apertou os olhos, na tentativa de enxergar a luz, porém, só o que viu foi a escuridão.
— Não vejo nada — anunciou Rogério.
Embora achasse aquilo estranho, Carlos Augusto silenciou.
Era óbvio que apenas ele enxergava a luz.
Contar isso ao amigo, naquele momento, talvez o deixasse ainda mais confuso e assustado.
Não importava que ele não visse.
Era para lá que iria e levaria Rogério com ele.
Com o braço ao redor da cintura do amigo, Carlos Augusto saiu amparando-o.
Rogério parecia muito mais machucado que ele.
— Eles o torturaram mesmo, não foi? — comentou com pesar.
— E a você, não?
— Também. Mas eu não falei.
Não disse nada.
Foi por isso que nos mataram.
— Não estou morto — protestou Rogério, acabrunhado.
— Tudo bem, não está morto.
Podemos discutir isso depois.
Caminharam por mais algum tempo em silêncio, até que Carlos Augusto continuou a conversa:
— Está doendo muito? — Carlos Augusto perguntou e Rogério assentiu.
Engraçado, me torturaram muito também, mas não estou sentindo nada.
Estranho, não acha?
— Vai ver só você está morto.
— Ah, é? E como é que um morto pode carregar um vivo?
— Não estamos mortos — negou Rogério novamente.
— Vivos ou mortos, não estamos lá muito bem, não é mesmo?
Sei que Geraldo foi morto na rua, e o cara que me torturou disse que haviam matado Ana Lúcia.
O que me conforta é saber que Rafaela e Silmara estão em segurança — Carlos Augusto finalizou.
Rogério parou de caminhar e encarou Carlos Augusto com desgosto.
— O que é? — estranhou Carlos Augusto.
O que foi?
— Como você sabe que Silmara e Rafaela estão em segurança?
Elas andavam com a gente, e não é nenhum segredo que Rafaela é sua namorada.
— Ninguém tem prova contra elas — Carlos Augusto concluiu.
— E desde quando a polícia precisa de provas para prender alguém?
Basta uma denúncia...
Sentindo as palavras não ditas, Carlos Augusto soltou o amigo e perguntou desconfiado:
— O que você está querendo dizer?
— Nada — desconversou Rogério.
Só não quero que você se iluda.
— Iludir-me com o quê?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

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