Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 12:23 pm

— Rafaela e Silmara podem não estar tão seguras como você pensa.
E tem o apartamento...
— Que ninguém sabe onde fica — Carlos Augusto notou o embaraço de Rogério e gritou, nervoso:
— Rogério, você contou algo àqueles desgraçados? Contou?
Rogério começou a choramingar e retrucou entre soluços:
— Eles me obrigaram...
Não tive escolha.
Se eu não contasse, iam nos matar.
— Seu idiota, nos mataram de qualquer jeito!
— Eu não estou morto.
— Está, está morto!
Não seja estúpido!
Que lugar na Terra você conhece com essas caveiras ambulantes?
— Isso é um sonho... um pesadelo... Vou acordar...
— Na câmara de torturas?
É isso o que pensa?
Que ainda está amarrado à cadeira de torturas?
Com um puxão, Carlos Augusto saiu arrastando Rogério em direcção à calçada.
Obrigou o amigo a ajoelhar-se e empurrou a cabeça de Rogério bem próximo aos crânios, que se voltaram todos ao mesmo tempo.
— Não! Pelo amor de Deus, Carlos Augusto, tire-me daqui!
Não deixe que eles me peguem!
Uma das caveiras conseguiu soltar parcialmente os braços e esticou-os para cima, em direcção ao pescoço de Rogério, os dedos sem carne aproximando-se de sua garganta.
Rogério debatia-se apavorado, implorando para que o outro o soltasse.
Carlos Augusto segurava firme, consumido pela revolta e a indignação.
— Desgraçado! — esbracejou.
Morri para salvar as meninas, e você as entrega por nada?
Para morrer também?
E agora, o que será feito de Rafaela?
— Perdoe-me, Carlos Augusto, perdoe-me — chorava Rogério desesperado.
Eu não aguentava mais.
Sou um fraco, não tenho a sua coragem.
Só Deus sabe o que sofri.
As mãos descarnadas aproximavam-se cada vez mais, ora jogadas para um lado, ora para outro, pela multidão de ossos no poço.
— E eu não sofri também? — Carlos Augusto retrucou irado.
Teria feito o mesmo por você.
Era nosso trato, suportar a tortura para não entregar nossos companheiros.
- Mas eu não consegui!
Sou covarde, fraco, medroso.
Não pude mais suportar tanta dor, não pude...
O visível desespero de Rogério só fazia aumentar a raiva de Carlos Augusto.
Ele sabia que estava morto e por que morrera:
para salvar as meninas, principalmente Rafaela, que só aderira ao movimento por causa dele.
Sentia-se responsável, não queria que a namorada sofresse metade do que ele havia sofrido.
Ao longe, a luzinha havia parado de brilhar, deixando-os envoltos em uma escuridão fria e intensa.
A seus pés, Rogério debatia-se, enquanto as mãos ossudas aos poucos ganhavam liberdade para movimentar-se acima do mar de crânios e alcançar o pescoço dele.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 12:23 pm

Quando estavam prestes a tocá-lo, eram empurradas pela onda óssea, mas depois, lá vinham elas novamente.
Seria bem-feito para Rogério cair naquele poço de esqueletos.
Talvez ali fosse a morada dos covardes, algo que Carlos Augusto, decididamente, não era nem nunca seria.
Ao contrário do amigo, Rogério revelara-se um covarde, um fraco sem fibra, sem valor.
Não podia esperar que ele agisse de forma diferente.
A esse pensamento, Carlos Augusto estacou.
Se Rogério não podia agir de outra forma, então, por que lhe cobrava uma atitude que ele jamais conseguiria ter?
Olhando para o amigo, que se debatia e choramingava no chão a seus pés, uma nesguinha de compreensão se abriu dentro dele.
Rogério queria viver.
Quem poderia culpá-lo por isso?
Os dedos descarnados roçaram a pele de Rogério, que se debateu feito louco nas mãos de Carlos Augusto, sem conseguir se soltar.
Quando, finalmente, o esqueleto conseguiu espaço suficiente para agarrar o pescoço de Rogério e tentar puxá-lo para baixo, Carlos Augusto sentiu-se envolver por aquela compreensão.
Mais que depressa, trouxe o amigo de volta.
Caído no chão, Rogério chorava convulsivamente, apertando a própria garganta para certificar-se de que ainda estava ali.
Corroído pelo remorso por ter entregado Rafaela e Silmara aos agentes do DOI-CODI, disse entre soluços:
— Eu não queria.
Mas tive tanto medo!
Sou um covarde, eu sei, mas só queria fazer parar a dor.
Não queria morrer.
— Não deu certo, cara.
Você está morto, pode acreditar em mim.
— Ah! Carlos Augusto, me perdoe.
— Deixe para lá.
Não podemos nos cobrar além do que podemos dar.
Enquanto Rogério chorava, em um desespero sem tréguas, Carlos Augusto procurava confortá-lo.
Abraçou-o com carinho, vencendo a própria revolta e despertando sua capacidade de perdão.
— Você me perdoa? — insistiu Rogério.
— Ninguém precisa de perdão.
Sou eu que estou sendo muito exigente.
Cada um é que sabe o quanto de dor o corpo e a mente podem suportar.
Agora venha.
Vamos procurar aquela luz.
— Não tem luz nenhuma, cara!
— Tem, sim.
Ao longe, um brilho fraco era indício de que a luz havia voltado.
Abraçado à cintura de Rogério, Carlos Augusto seguiu para lá.
Foi uma caminhada comprida, silenciosa, permeada de soluços e do estalido de ossos.
Depois do que pareceu uma eternidade, chegaram ao fim da rua, onde uma porta entreaberta deixava à mostra a luz que Carlos Augusto via.
— Chegamos — Carlos Augusto anunciou, depositando o corpo do amigo no chão.
— Onde? — tornou Rogério, quase desfalecido.
— À luz. Não é possível que você não a esteja vendo.
— Não vejo nada.
Não tem nada aí, a não ser mais escuridão.
E ossos...
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 12:23 pm

— Os ossos se acabaram, a calçada macabra se foi.
Tem apenas a porta, por onde passa uma claridade confortadora.
Olhe só, Rogério, dá para sentir alívio só de olhar para ela.
— Você está louco!
Não tem porta nenhuma, muito menos luz confortadora.
— Se você não vê, não faz mal.
O importante é que eu estou vendo.
Venha comigo.
Vamos atravessar juntos.
— Não, de jeito nenhum! Tenho medo.
— Medo de quê?
Eu estou com você, venha.
Dê-me sua mão, vamos juntos.
— Não vou.
E se eu fosse você, também não ia.
— Olhe, eu vou lá do outro lado para ver como é.
Aí, volto e pego você. Está bem?
— Pode ir. Não tem nada aí mesmo.
Você vai dar de cara na parede e vai voltar.
Mesmo sem compreender por que Rogério não via a porta, muito menos a luz, Carlos Augusto aventurou-se.
Deu um passo adiante e enfiou o pé pela abertura, sendo imediatamente envolvido por aqueles chuviscos de luz.
Foi uma sensação maravilhosa.
Era como se o pé se desprendesse do corpo e se tornasse leve, flutuando em um céu de nuvens macias e translúcidas.
Carlos Augusto não resistiu.
Queria que todo o corpo sentisse a mesma leveza que envolvia seu pé.
Como que magnetizado, atirou-se para a frente, passando por inteiro para o outro lado.
Na mesma hora, viu-se envolvido por uma luz cristalina, que entrava nele e saía pelos seus poros, projectando-se em todas as direcções.
Em êxtase, respirou fundo, sentindo partículas de uma energia revigorante preencherem seu corpo, tornando-o translúcido, fazendo sumir aos poucos a densidade e o peso.
Quando começou a flutuar naquele mar de luz, Carlos Augusto virou-se para onde supostamente ficava a porta, pensando em voltar para buscar Rogério.
Sem muito esforço, aterrissou de volta no chão e virou-se em todas as direcções, procurando a porta.
Mas não conseguiu encontrá-la.
Em seu lugar, apenas uma parede de luz contrastando imensamente com a escuridão, que, ele sabia, imperava do outro lado.
Carlos Augusto apalpou a parede, buscando uma saída, mas sua mão a atravessou e se fundiu com a luz, tornando-se ambas uma única fonte de energia.
Vendo que ela não era sólida, reuniu forças e atirou o corpo para a frente, certo de que assim conseguiria atravessá-la.
Não conseguiu.
Uma força poderosa o empurrava para fora, tornando impossível a passagem.
Mesmo assim, saiu tacteando o muro, buscando a porta que deveria estar em algum lugar.
Nada. Como por encanto, a porta havia-se fechado.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 12:23 pm

Capítulo 13

O general Darci Odílio era uma boa pessoa, avesso às práticas de tortura do novo regime.
Auxiliava Augusto o quanto podia, passando informações valiosas, fornecendo dinheiro e passaportes falsos.
Mesmo assim, Augusto não lhe contou sobre a presença de Rafaela em sua casa, para não o comprometer, caso viessem a ser descobertos.
Depois da missa daquela manhã de domingo, Augusto terminou de conversar com Odílio e já se preparava para sair quando ouviu uma voz estranha atrás de si.
Voltou-se imediatamente e ficou parado, olhando para o homem que lhe sorria de um jeito familiar, mas que ele não conseguiu de pronto identificar.
— Não me conhece mais, Augusto? — indagou o homem.
— Você... — retrucou Augusto, puxando pela memória.
Sua feição não me é estranha.
Espere um instante.
Já sei! Meu Deus, Reinaldo, é você?
Reinaldo correu para um abraço fraterno, enquanto respondia com olhos húmidos:
— Quando soube que você havia sido mandado para um seminário em Mariana, fiquei muito triste.
Pensei que nunca mais o veria.
E agora, veja só você aqui.
— Veja você aqui!
Como foi que me encontrou?
— Vi o seu nome no jornal.
— Ah! Aquilo...
— Você, como sempre, defendendo os animais.
— Ainda se lembra disso?
— Como não?
Lembro-me de sua revolta com a caça.
Continua não comendo carne?
— Continuo — e prosseguiu emocionado:
— Há quanto tempo, meu amigo!
— Quase duas décadas.
— O que fez durante todos esses anos?
— Minha mãe e eu nos mudamos para Belo Horizonte.
Cresci, estudei e vim para o Rio, onde fiz faculdade.
— Você se formou? Em quê?
— Sou advogado.
— Imagine!
Deve ser difícil para você exercer a profissão com essa gente toda sendo presa e a vigilância constante.
— Nem tanto.
Não me envolvo em questões políticas ou militares.
Exerço a advocacia cível e de família.
Nada que me coloque em risco.
— Ainda bem — Augusto fez uma pausa estudada e indagou:
— E sua mãe, como está?
— Morreu faz cinco anos.
— Não me diga!
— Foi muito triste.
Morreu de enfarte... — lágrimas lhe subiram aos olhos, e Reinaldo desconversou:
Não gosto de falar sobre isso.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 12:24 pm

— Claro, sinto muito.
Lembro-me como vocês eram ligados.
Com um movimento discreto, Reinaldo enxugou as lágrimas e retrucou:
— E você? O que tem feito?
Augusto abriu os braços e falou com um sorriso:
— Minha vida é o sacerdócio.
É só isso que faço.
— Só isso? Imagino como deve ser chato ouvir a baboseira dos fiéis.
— Ossos do ofício.
Estou acostumado e não faço julgamentos.
Somente a Ele cabe nos julgar — completou, apontando o dedo indicador para cima.
— Tem razão. — Reinaldo concordou.
— Você se casou? Tem filhos?
Com um sorriso enigmático, Reinaldo respondeu:
— Ainda não.
Não tive a sorte de conhecer nenhuma mulher que me impressionasse.
Quanto a você, não preciso nem perguntar.
Ambos riram, e Reinaldo, após consultar o relógio, afirmou:
— Já está na hora de ir.
Tenho uma audiência daqui a pouco e não posso me demorar.
Mas eu tinha que vir falar com você.
— Agora que nos reencontramos, creio que não faltarão oportunidades para conversarmos e colocarmos os assuntos desses vinte anos em dia.
— É verdade.
— Onde está morando?
— Em Laranjeiras.
Outra hora, com mais calma, lhe dou o endereço e o telefone.
Após efusivos abraços, Reinaldo se foi.
Augusto acompanhou-o à porta da igreja, olhando-o até ele dobrar a esquina.
Quando se viu fora do alcance das vistas do padre, Reinaldo entrou em um carro estacionado do outro lado da rua, onde seu companheiro o aguardava.
— Então? — indagou Paulão.
Fez contacto com o padre?
— Fiz.
— Era ele mesmo?
— O próprio.
— O general Odílio também estava lá?
— Assistiu à missa e, no final, foi conversar com Augusto.
— Você acha que o padre está envolvido?
— Espero que não.
Augusto é meu amigo, e não gostaria de vê-lo na cadeia.
— Acho bom você não ficar de sentimentalismos.
Está amarelando agora, é?
— Não é nada disso.
É que Augusto me traz boas lembranças da infância.
— Sei.
Com ar de mofa, Paulão girou a chave na ignição, e o carro movimentou-se lentamente.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 12:24 pm

Em silêncio, fizeram o percurso até o Quartel do Primeiro Batalhão da Polícia do Exércitos, onde ambos exerciam a função de agentes da inteligência do DOI-CODI(6, 7):
Essa instituição de inteligência e repressão do governo contava com militares da Marinha, Aeronáutica e do Exército, policiais militares, civis e federais, todos sob o mesmo comando.
Desde o dia em que deixara Uberlândia, Reinaldo estava decidido sobre a profissão que gostaria de seguir.
Queria ser da polícia.
Jamais permitiria que o humilhassem de novo, como haviam feito quando fora praticamente expulso de Uberlândia.
Ainda tinha vivas na memória as palavras de desprezo e humilhação que ouvira do pai de Augusto.
Nunca sentira tanto ódio em sua vida e jurara para si mesmo que não permitiria que aquilo acontecesse novamente.
Precisava de uma profissão de poder, para que todos aprendessem a tratá-lo com respeito.
A vida em Uberlândia alimentava sua ingenuidade infantil.
Reinaldo acreditava que Augusto seria seu amigo para sempre e não compreendia o afecto que sentia pelo outro nem o questionava.
Não tinha motivos para desconfiar ou temer algo que não conhecia.
Para ele, gostar de Augusto era uma coisa tão natural como respirar.
Criança, nada sabia sobre sexo ou desejo, nem nunca havia questionado seus sentimentos.
À medida que foi crescendo, o contacto com meninos mais velhos trouxe-lhe uma certa maturidade, mostrando-lhe que podia haver dois lados da sexualidade.
Mesmo assim, não se reconhecia nem uma coisa, nem outra.
Mesmo o desejo que passou a sentir por Augusto não o despertou.
Sem experiências sexuais, era difícil definir-se.
E Reinaldo ia levando a vida sem se dar conta do desejo que crescia dentro dele.
Até que a noite da tempestade chegou, e ele se viu aterrado no sofá da sala de Augusto, temendo cada sombra, cada ruído.
Esforçou-se o mais que pôde para vencer o medo e aguentar sozinho até a manhã seguinte.
Apesar de tudo, não queria ser chamado de medroso nem covarde.
Mas foi demais.
Quando, por fim, a árvore tombou sobre a porta, produzindo aquele barulho infernal, sentiu que continuar na sala seria um ato de bravura muito além de suas forças.
Reinaldo entrou no quarto de Augusto tremendo de pavor.
Atirou-se na cama ao lado do amigo, que despertara sonolento e logo voltara a dormir.
Aos poucos, sentindo-se seguro, foi-se acalmando.
A seu lado, Augusto dormia serenamente, o corpo encolhido de encontro ao seu, para não cair da cama.
Quando Reinaldo finalmente se tranquilizou, uma nova onda de agitação dominou seu corpo.
A seu lado, a respiração regular de Augusto fazia-o perder o sono.
Era a primeira vez que sentia aquelas coisas e teve medo.
O calor de Augusto, a maciez de sua pele, o perfume de seus cabelos, nada o deixava dormir.
Experimentou tocar o dorso de Augusto, que não se mexeu.
Aos pouquinhos, foi deslizando os dedos por todo o corpo do amigo, experimentando um prazer que nunca antes imaginara existir.
Morria de medo de que o amigo acordasse e o repelisse, contudo, Augusto parecia nada perceber.
De vez em quando estremecia e tentava virar-se, mas não acordava.
Foi uma descoberta surpreendente.
Reinaldo se deu conta de que tocar a pele de Augusto lhe transmitia um prazer inenarrável.
Não sabia bem o que aquilo significava, mas gostou.
Em seu íntimo, contudo, intuía algo que os pais desaprovariam.
Entre a certeza e o medo, chegou o rosto perto da nuca de Augusto e chorou.
Aquilo acontecera havia muito tempo.
Reinaldo fora embora com a família, o que o obrigou a engolir a paixão silenciosa pelo amigo.
Nos primeiros anos da adolescência, procurou relacionar-se com meninas, para tentar sufocar seus instintos.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 12:24 pm

Não deu certo.
A dificuldade do sexo provocava o escárnio das garotas, fazendo recrudescer seu desprezo pelo sexo feminino.
Até que, já na fase adulta, não suportando mais a mentira em que se transformara sua vida, desistiu das mulheres para assumir a preferência por rapazes.
Podia ter feito isso de forma natural e saudável.
Contudo, o preconceito contra si mesmo levou-o a práticas violentas e humilhantes, como se descarregasse nos parceiros o desprezo que sentia por se reconhecer homossexual.
Nunca, em toda a sua vida, se permitira um relacionamento amoroso de verdade.
Jamais conseguira amar alguém.
A paixão por Augusto, aos poucos, foi arrefecendo, mas nenhum outro homem conseguiu ocupar o vazio que ele deixou.
Uma a uma, Reinaldo viu perderem-se as oportunidades de se relacionar com companheiros honestos e dignos.
Só o que queria era se divertir, usar as pessoas para depois descartá-las sem consideração nem respeito.
Ainda jovem, Reinaldo foi para o Rio de Janeiro, ingressou na Polícia Militar e, alguns anos depois, na faculdade de Direito da UEG8, como espião do governo. Concluído o curso, foi convidado, em razão de sua inteligência brilhante, a integrar o DOI-CODI, onde alcançou o posto de capitão.
A mãe acompanhou-o em todos os momentos.
Sem coragem de assumir a homossexualidade, Reinaldo temia a solidão mais do que qualquer outra coisa.
Por isso, seu apego à mãe era mais do que compreensível.
Ao mudar-se para o Rio de Janeiro, chamou-a para ir com ele, e Alcina foi sem titubear.
A filha mais velha, com quem não se dava, estava casada, e a mais nova morrera atropelada assim que chegaram a Belo Horizonte.
Sozinha, só lhe restava o filho para confortá-la na velhice.
Desde o ingresso de Reinaldo na Polícia, Alcina sentiu uma imensa decepção e medo pelas funções do filho.
Jamais conseguiu aceitar as actividades que ele exercia.
No princípio, dizia a si mesma que Reinaldo era apenas um bom policial, mas depois, com o golpe de 64, não teve mais dúvidas.
Foram muitas as conversas que flagrara por telefone e logo tomou ciência de suas reais actividades.
O filho comentava com os colegas sobre as torturas sem qualquer constrangimento ou remorso.
Um dia, Reinaldo apareceu em casa com uma moça, colega de faculdade, a quem Alcina se afeiçoou imensamente.
Sueli era de boa família, muito educada e carinhosa.
Tinha apenas um porém:
envolvera-se em movimentos clandestinos da UNE contra o novo regime.
Alcina não sabia de nada disso e estava feliz com o interesse do filho pela menina, a única que ele levara a sua casa.
Mas tudo não passava de uma armação.
Reinaldo simulou o flerte porque desconfiava de que ela liderava um movimento de resistência.
Bem apessoado, Reinaldo aproximou-se da moça, fingindo-se contra a revolução.
Ninguém podia imaginar que ele era um espião infiltrado, muito menos Sueli, que cedeu ao seu assédio.
Não demorou muito, estavam namorando, mas ela ainda resistia em revelar-lhe suas actividades ilegais.
Para conquistar-lhe a confiança, o rapaz levou-a a sua casa, apresentou-a a sua mãe, dormiu com ela à custa de muito sacrifício.
Com tanta intimidade, era natural que Sueli se abrisse.
Julgando-o confiável, contou-lhe tudo o que fazia e levou-o à base de suas operações.
Em pouco tempo, todo o movimento foi descoberto, e seus membros, presos.
A moça desapareceu, foi torturada e morta, sem que ninguém soubesse.
Apenas Alcina ficou sabendo.
Ouvira uma conversa entre Reinaldo e um amigo, na qual o filho narrava, em minúcias, todo o processo de tortura da moça.
— O que você fez? — cobrou Alcina, indignada, assim que Reinaldo ficou sozinho.
— Não fiz nada — respondeu ele secamente.
— Ouvi vocês conversando.
Cadê a Sueli?
— Não sei.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 12:24 pm

— Ela é sua namorada.
Como não sabe?
— Não me amole, mãe.
— Você a prendeu, não foi?
Prendeu sua própria namorada!
Reinaldo não queria lhe dizer o que fora feito de Sueli, mas agora era tarde.
A mãe ouvira sua conversa, ele não tinha mais como negar.
— Por que tem que ficar ouvindo atrás das portas? — tornou Reinaldo com irritação.
— Eu não ouvia atrás das portas!
Você e seu amigo falavam alto, eu não sou surda.
— Ouça, mãe — falou ele, segurando-lhe as mãos e mudando de tom.
Sueli era uma inimiga interna, uma traidora da pátria.
Fiz o que era certo.
Sou um policial, tenho deveres para com o meu país.
— O que fez com ela? — Alcina redarguiu horrorizada.
— Não fiz nada.
Ela está presa.
— Presa onde?
— Não posso dizer.
— Ela está viva? — Reinaldo não respondeu.
Ela está viva?
— Não se meta nisso, mãe. É melhor.
— Que tipo de monstro é você, Reinaldo?
Não foi esse o filho que criei.
Reinaldo soltou as mãos de Alcina e virou-lhe as costas.
Não conseguia encará-la.
— Por favor, mãe, esqueça Sueli — aconselhou, sem se voltar. — É melhor.
— Quando eu descobri que você não era homem, não disse nada a ninguém — revidou Alcina com raiva.
Depois, quando você apareceu com essa moça, achei que estava errada.
Agora, não sei mais o que pensar.
— O que quer dizer com isso? — retrucou abismado, voltando-se para a mãe com os olhos flamejantes.
O que está insinuando?
— Como disse, não sou surda.
Sei bem de seu envolvimento com rapazes.
— Cale a boca!
— Posso aceitar que você seja homossexual.
Mas que seja um assassino... é mais do que posso suportar.
— Cale a boca, já disse!
— Do que tem mais medo?
De que alguém descubra que você é um monstro ou que não é um homem de verdade?
Sem pensar ou medir consequências, Reinaldo virou-se já com o braço estendido, acertando uma violenta bofetada no rosto da mãe.
Alcina cambaleou e caiu no chão, a boca sangrando, os olhos cheios de lágrimas de dor.
Apesar da reacção instintiva, Reinaldo arrependeu-se no mesmo momento.
— Mãe! — gritou ele aos prantos.
Perdoe-me, mãe!
Perdi a cabeça, eu não queria.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 12:24 pm

Reinaldo tentou ajudá-la a levantar-se, mas Alcina recusou a mão que ele estendia.
Ergueu-se do chão sozinha.
Esfregando o local do tapa, fitou-o com um olhar sofrido, decepcionado, triste.
Sem dizer uma palavra, virou-lhe as costas e trancou-se no quarto.
Aquela foi a noite em que Alcina se matou.
No dia seguinte, Reinaldo estranhou a ausência do habitual cheiro de café e a mesa que não havia sido posta.
Procurou na cozinha, sem encontrar a mãe.
Com desconfiança, irrompeu no quarto vazio.
Tentou a porta do banheiro, que estava trancada.
Ao arrombá-la, um choque.
Na água turva de sangue da banheira, o corpo de Alcina jazia inerte, os pulsos cortados, a gilete caída no chão de pastilhas brancas, afogada em gotas rubras.
O suicídio da mãe, ao invés de chamá-lo à razão, fez recrudescer a revolta dentro dele.
Reinaldo tornou-se não apenas um espião eficaz, mas exímio torturador.
Mudou-se para o apartamento em Laranjeiras, onde passou, dali em diante, a viver sozinho, atormentado pelas muitas culpas que ia coleccionando.
Até o dia foi em que foi chamado para investigar um possível traidor, um general de nome Darci Odílio, que morava no Méier e costumava frequentar a igreja de um certo padre mineiro.
Como os dois eram da mesma cidade, quem sabe, não se conheciam?
Foi com enorme surpresa que Reinaldo descobriu que o nome do padre era Augusto dos Santos Cerqueira, seu velho amigo de infância.
Reinaldo apanhara o dossiê do general e indagara interessado:
— Ele está sendo investigado?
— Não, só o general — respondera seu superior.
Por enquanto, não temos nada contra o padre.
— Se ele ouviu algo em confissão, não vai me contar.
Ainda que eu seja seu amigo.
— Não esperamos que ele lhe conte, mas que você tenha acesso aos lugares que o padre frequenta sem levantar suspeitas.
— Como farei para chegar até ele?
— Você é esperto. Dê um jeito.
Uma semana depois, o nome e o rosto de Augusto estavam no jornal que Reinaldo folheava ao acaso.
Não podia acreditar.
Passara os últimos dias imaginando uma maneira de aproximar-se do padre sem que ele desconfiasse.
Tinha que ter um motivo.
Não podia simplesmente aparecer dizendo que, de uma hora para outra, adivinhara que Augusto estava no Rio e resolvera procurá-lo.
Reinaldo pousara o jornal sobre a mesa com um sorriso de satisfação nos lábios, embora sem saber a natureza do que sentia:
excitação pela iminência de mais uma investigação bem sucedida ou pela possibilidade de rever seu amor de infância.

6 Localizado no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, o quartel foi o maior estabelecimento do DOI-CODI no Rio de Janeiro, para onde era levada a maioria dos presos políticos.
7 Destacamento de Operações de Informações — Centro de Operações de Defesa Interna.
8 UEG - Universidade do Estado da Guanabara, actual Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 27, 2015 12:25 pm

Capítulo 14

O encontro com Reinaldo trouxe a Augusto lembranças gostosas de infância de Augusto, da época em que os dois amigos brincavam e estudavam juntos.
O padre pegou-se esperando com ansiedade que Reinaldo aparecesse, lamentando o facto de o amigo não ter deixado ao menos o número do telefone.
Tinham muito que conversar, esclarecer e se desculpar.
Na noite de sexta-feira, Augusto chegou a casa mais tarde, após uma reunião no colégio em que dava aulas.
Encontrou Rafaela e Nelma na sala, assistindo a O Bem-Amado, enquanto Spock, aninhado no colo da moça, nem se dera conta de que o dono chegara.
— Vendo novela? — indagou Augusto, em tom de brincadeira.
Nelma deu um sorriso forçado, mal olhando para ele, os olhos pregados na tela da televisão.
— Já vou esquentar seu jantar — a empregada anunciou.
— Não se preocupe.
Termine de ver a novela.
Vou tomar um banho primeiro.
Augusto foi para o quarto, carregando sua pasta pesada, cheia de cadernos e livros didácticos.
Voltou poucos minutos depois, já de pijamas, protegido por um robe pesado e escuro.
Terminada a novela, Nelma correu para a cozinha e esquentou o jantar.
— Foi tudo bem hoje? — perguntou Augusto, reparando no ar amuado de Rafaela.
— Tudo — respondeu a jovem, laconicamente.
— O que há?
Está aborrecida?
— Estou com saudades de minha mãe.
— Sei que é difícil, mas procure resistir.
Você não pode vê-la.
Ela suspirou dolorosamente e prosseguiu:
— Não aguento mais ficar aqui dentro sem fazer nada.
Será que não posso sair?
— Você está sendo procurada pela polícia.
Quer se arriscar?
— Será que a polícia não desistiu de mim?
— A polícia não desiste de ninguém, até encontrar a pessoa.
Pouco depois, Nelma entrou com uma bandeja e depositou o prato já pronto de Augusto na mesa.
— Venha comer — chamou Nelma, visivelmente mal-humorada.
Fiz uma jardineira de legumes que está uma delícia.
Só Rafaela não gostou.
— Rafaela sente falta do bife e da batata frita — comentou o padre, em tom de brincadeira.
— Não se trata disso — protestou a jovem, não querendo parecer mal-agradecida.
É que não estou acostumada a só comer legumes.
— Tem razão. Amanhã Nelma pode comprar um bife para você, se vai fazê-la mais feliz.
— O senhor e eu não comemos carne — objectou Nelma.
— Mas Rafaela come.
E não tem importância você preparar-lhe um bife.
— Não acho isso certo.
Aqui, ninguém come carne — Nelma observou.
— Spock come — arriscou Rafaela.
E você não reclama.
— Spock... — Nelma desdenhou, fazendo uma careta.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 11:53 am

— Ele é cachorro.
É instinto dele comer carne.
Rafaela já havia ido longe demais.
Era uma estranha naquela casa, não estava direito discutir com a governanta do padre.
Augusto, contudo, sem se dar por vencido, arrematou:
— Vocês duas estão discutindo à toa.
Tenho certeza de que Nelma não vai se importar de fazer o bife.
Mesmo a contragosto, Nelma não disse nada.
Esperou até que ele terminasse de comer, tirou a mesa e arrematou com uma certa frieza:
— Se não se importa, padre Augusto, vou-me deitar.
Amanhã termino de lavar essa louça.
— Claro, Nelma, vá.
Já disse mais de mil vezes que você não precisa ficar me esperando até tarde.
— E quem vai esquentar a comida para o senhor?
— Posso muito bem me virar sozinho.
Não sou criança.
— Eu posso esquentar a comida — anunciou Rafaela.
Fico aqui sem ter o que fazer, não me custa nada.
Aliás, já me ofereci para ajudar Nelma no serviço de casa, mas ela se recusa.
Nelma fitou-a com certa hostilidade e rebateu de má vontade:
— Quem quer mesmo ajudar não pergunta. Faz.
Augusto percebeu a crescente agressividade no tom de voz de Nelma e interveio:
— Ninguém precisa se aborrecer por tão pouco.
Pode ir se deitar, Nelma, e não se preocupe com a louça.
Embora arrependida de haver dito aquilo, Nelma não se desculpou e despediu-se com os olhos baixos:
— Boa noite.
— Boa noite — respondeu Augusto.
Rafaela não respondeu.
Com os olhos húmidos e magoada com a grosseria de Nelma, ficou parada, olhando pela janela.
— Ela não precisava ter dito aquilo — a jovem contestou contrariada.
Faz parecer que eu sou preguiçosa, quando não é verdade.
Só não tomei a iniciativa de ajudar porque fiquei com medo de fazer as coisas do meu jeito e acabar mudando a rotina da casa.
Não queria que ela pensasse que estou querendo tomar o lugar dela.
— Não se importe com isso.
Nelma está comigo há muitos anos e já se acostumou a cuidar de mim sozinha.
— Ela me odeia.
— Não é verdade.
Nelma jamais faria algo que a prejudicasse — Rafaela olhou-o em dúvida, e ele continuou:
— Acho que ela está com ciúmes, principalmente porque você trocou o nome que ela deu ao cachorro.
— Ela se queixou com o senhor?
— Nem precisa. Conheço-a de longa data.
— Pois é isso mesmo.
Comigo, ela reclamou.
Chamou-me de intrometida e de abusada.
Se não lhe contei antes, foi para não o aborrecer.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 11:53 am

Augusto suspirou desanimado e aconselhou:
— Não fique zangada com Nelma.
Ela é uma boa pessoa.
— Boa para o senhor.
— Não seja tão exigente.
Nelma é uma mulher sozinha, só tem a mim no mundo.
Dê-lhe uma chance.
— O senhor tem razão, desculpe-me — concordou Rafaela, achando que não tinha o direito de cobrar-lhe nada.
— Não quero trazer mais problemas para o senhor.
Tem feito muito por mim.
E Nelma também.
Se o senhor quiser, podemos mudar o nome do cachorro de novo.
Augusto deu uma risada suave e objectou:
— Não precisa.
Vai acabar confundindo a cabecinha do coitado.
Deixe como está e não toque mais nesse assunto.
Com o tempo, Nelma esquecerá.
— Está certo.
Perdoe-me novamente.
— Já é tarde — anunciou Augusto, consultando o relógio.
Por que não vai se deitar?
— Não estou com sono.
Na verdade, acho mesmo que vou sair para respirar o ar da noite, aproveitar a lua cheia e as estrelas.
Depois que Rafaela saiu, Augusto foi para o quarto.
Deitado em sua cama, não conseguia dormir.
A chegada de Reinaldo ainda o confundia.
Ficara muito feliz em rever o amigo, mais ainda por descobrir que nada do que o pai dissera era verdade.
O temor que sentira na infância fora infundado.
Nunca nutrira por Reinaldo sentimento algum que não fosse o de uma forte amizade.
Só agora tinha certeza disso.
Passara aqueles anos todos evitando os rapazes, com medo de ceder a uma tentação inexistente.
Agora sabia que jamais se interessara por homem algum.
Aquilo era fruto da imaginação, do medo e do preconceito dos pais e dos padres.
E por que ter preconceito de pessoas que eram iguais a ele, só se diferenciando pela sua orientação sexual?
Afinal, não eram todos filhos de Deus?
Quanto mais pensava naquelas coisas, menos sono tinha.
Se ele não desejava os homens, o que desejava então?
Respondendo a essa dúvida, seus pensamentos voaram directo para Rafaela, preenchendo todos os recônditos de sua mente.
Agradava-lhe muito a companhia da moça, embora não reconhecesse ali nenhum sinal de paixão ou desejo.
Justificava seu sentimento com o amor paterno, de um pai para a filha que corre perigo, do sacerdote para a discípula amada.
Sim, Rafaela era amada, mas seria mesmo sua discípula?
Não suportando mais a contradição dos seus pensamentos, Augusto levantou-se da cama e foi até a janela, afastando as cortinas para desvendar o quintal enluarado.
Rafaela estava lá, banhada pelo clarão esbranquiçado da lua, deitada sobre uma espreguiçadeira, aparentemente olhando as estrelas.
Um leve tremor eriçou-lhe os pelos quando um vento suave afastou levemente a bainha de sua camisola simples de algodão, desnudando-lhe as coxas firmes e bem torneadas.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 11:53 am

Assustado com sua própria reacção, Augusto soltou as cortinas e atirou-se de joelhos ao pé da cama, as mãos postas em oração, pedindo a Deus que lhe perdoasse aquele pecado.
Sem se concentrar na prece, a mente começou a divagar para o quintal, onde Rafaela se entregava, displicente, ao sabor da brisa nocturna.
Augusto não conseguiu mais se conter.
Concluiu a prece, fez o sinal da cruz e levantou-se, descerrando as cortinas com certa fúria.
Rafaela continuava no mesmo lugar, do mesmo jeito, o corpo todo tomado pela brisa e a lua.
Ele soltou as cortinas e, sem nem se lembrar do roupão, saiu para o quintal.
Aproximou-se, o coração ameaçando precipitar-se para fora do peito como um turbilhão revolto, sem controlo.
A sombra que Augusto projectou nos olhos de Rafaela fez com que ela os abrisse e se assustasse com a presença do padre.
— Padre Augusto! — exclamou, recompondo-se desajeitadamente.
Aqui fora estava tão fresquinho, tão gostoso, que acho que peguei no sono.
Augusto continuava parado, olhando para a jovem, coração, corpo e mente unidos em um só desejo.
Era como se uma torrente eléctrica disparasse flâmulas incandescentes pelo seu sangue, sua carne, sua pele.
— Padre, está tudo bem? — indagou Rafaela, notando seus lábios trémulos e seu olhar febril.
O senhor está doente?
As palavras da jovem accionaram a mente racional de Augusto, que, após um grande esforço, conseguiu aplacar o desejo e reassumir o controlo sobre si mesmo.
O padre não disse nada.
Apenas olhou para a jovem com um misto de ânsia e pânico.
Depois de uma breve hesitação, rodou nos calcanhares e disparou porta adentro.
Rafaela permaneceu onde estava, assustada demais para ir atrás do padre.
Não podia dizer que não compreendia.
Como mulher, também experimentara a chama do desejo diante de um homem bonito e cativante feito Augusto.
Desde os primeiros dias, sentira-se atraída por ele, pela sua beleza, pelo seu charme, seu jeito.
Em vista do sacerdócio que ele exercia, Rafaela não se atrevia a supor que Augusto nutrisse por ela algum tipo de paixão.
Ele nunca fizera qualquer comentário nem insinuação.
Ao contrário, mostrava-se respeitoso e a tratava como uma filha.
Mas aquela aparição repentina fora bastante reveladora.
Rafaela jamais se esqueceria do olhar apaixonado e, ao mesmo tempo, atormentado daquele homem.
De repente, tudo ficou muito confuso.
Rafaela não conseguia distinguir os próprios sentimentos.
A atracção física pelo padre, ela já identificara.
Contudo, o que sentia naquele momento parecia ir além disso.
Ao mesmo tempo em que pensava nele, lembrava-se de Carlos Augusto, sentindo-se presa a uma angústia desconcertante.
Será que ela tinha o direito de interessar-se por outro homem tão pouco tempo após a morte do namorado em circunstâncias tão brutais?
Não estaria traindo a memória dele?
Olhando as estrelas, não sabia o que fazer.
Imaginava onde estaria o namorado e se ele sabia de seus problemas.
Embora nada conhecesse sobre o espiritismo ou outra doutrina espiritualista, acreditava na vida após a morte.
Tinha que haver alguma coisa além do túmulo, ou a vida se transformaria em um vazio inútil e sem sentido.
Naquele momento, Rafaela sentiu-se mais só do que nunca.
A família fazia-lhe muita falta, principalmente a mãe.
Além disso, morria de saudades de Carlos Augusto, queria saber onde ele estava e se estava bem.
E agora, para completar, sentia nascer uma paixão obscura por um padre.
Sem contar o medo da traição.
— Ah! Augusto — divagou a jovem, sem saber ao certo se evocava o padre ou o namorado que se fora.
E ambos, cada um à sua maneira, também pensavam nela.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 11:53 am

Capítulo 15

Carlos Augusto não se lembrava de quanto tempo ficara se arrastando no muro de luz, gritando o nome de Rogério.
Ia de um lado a outro, desesperado para reencontrar uma porta ou outra abertura. Nada.
O muro transformara-se em uma massa aparentemente sólida de energia.
Cansado de tentar atravessar o intransponível, Carlos Augusto sentou-se no chão, e, exausto, cerrou os olhos.
Apurou os ouvidos para ver se escutava algum sinal de Rogério.
Em vez disso, o que ouviu foi uma voz suave de mulher chamando seu nome:
— Carlos Augusto.
Ele abriu os olhos lentamente.
A princípio, não conseguiu fitar a mulher, cujo corpo luminoso quase se confundia com a claridade que sobressaía atrás dela.
— Quem é você? — perguntou Carlos Augusto, estreitando a vista para enxergá-la melhor.
A mulher aproximou-se, tornando-se discernível a seus olhos.
Era muito bonita, jovem, cabelos longos e ondulados. O rapaz a estudou com cuidado, tentando puxar pela memória algo que o lembrasse de onde a conhecia.
— Não se lembra de mim? — tornou ela.
Você era criança quando desencarnei, mas será que me esqueceu?
— Paulina?
— Eu mesma.
Paulina fora a madrinha de Carlos Augusto em vida e desencarnara ainda jovem.
Amiga íntima de sua mãe, apaixonada por crianças, aceitara baptizar o garoto com alegria.
A leucemia, contudo, tirara-a da matéria prematuramente, aos vinte e nove anos de idade.
— Você parece uma fada brilhante — observou Carlos Augusto.
Como pode ser?
— Obrigada pela comparação.
É a primeira vez que me chamam de fada.
— Você está muito bem.
Ao contrário de mim...
— Se você não notou, seu corpo não tem nenhuma sequela das torturas.
— É verdade — concordou o rapaz, olhando para si mesmo.
Onde foram parar?
— Ficaram na matéria, como tinha que ser.
Graças a Deus você não é uma pessoa apegada nem teme a morte.
Carlos Augusto levantou-se e limpou as mãos nas calças, surpreendendo-se com a poeira de luz que se desprendeu da roupa e caiu ao chão.
— O que é isso?
Pó de perlimpimpim?
— Muito engraçado.
Estamos numa região limítrofe entre o astral inferior, onde você estava, e os círculos mais elevados do mundo invisível.
Na verdade, é um dos muitos acessos às inúmeras cidades astrais que flutuam acima do planeta.
— Como isso pode ser um acesso?
Não vejo caminho algum.
— Você não precisa trilhar nenhuma estrada.
Basta passar, que todos os caminhos se abrem.
— Não entendi.
— Quando alguém chega até aqui é porque está preparado para seguir adiante.
Não está preso aos sentimentos de baixa vibração que criam a ilusão do sofrimento.
Tem a mente livre e o coração pronto para aceitar as transformações da matéria.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 11:53 am

— Está querendo dizer que é porque aceitei que morri?
— Não apenas porque aceitou.
Mas porque sua mente compreendeu a morte e está voltada para você.
— Não propriamente.
Estou preocupado com Rogério.
— Não foi a isso que me referi.
Digo que está voltada para você porque se desapegou da energia daqueles que causaram sua morte.
Não está em sintonia com eles, não os acusa, não os odeia.
Quando isso acontece, não se estabelece liame entre os agressores e as vítimas, já que não existe nem um, nem outro.
A mente liberta pode buscar seu próprio caminho.
Já a sua preocupação com Rogério provém de sentimentos opostos aos que prendem o homem à dor, porque decorre da afeição, da amizade, da solidariedade e de tantos outros sentimentos nobres que você já conquistou.
Isso só faz engrandecer a alma, pois a libertação do egoísmo, com a compreensão do amor por si mesmo, é um dos objectivos que o ser humano deve alcançar.
Pensar em si mesmo sem se esquecer do próximo.
Amar-se para depois amar seu semelhante.
E você já consegue fazer isso com naturalidade, estando mais próximo da verdadeira iluminação.
Emocionado com as palavras de Paulina, Carlos Augusto a fitou e retrucou:
— De onde vem toda essa luz?
— É uma concentração de energia do bem que serve para aliviar a dor e o cansaço dos que aqui conseguem chegar.
— É só isso? Energia?
— Sim. São fluidos cósmicos condensados, retirados da matéria universal.
— Por que Rogério não consegue passar?
Ele nem viu a porta.
— Rogério não está pronto.
Ao contrário de você, seu amigo criou elos invisíveis que o aprisionam à culpa, ao ódio, ao medo e à pena de si mesmo.
Ainda não accionou a luz interior que o habita.
Quando fizer isso, achará o caminho e viremos buscá-lo.
— Não podemos tirá-lo de lá? — Carlos Augusto questionou.
— No momento, não.
Ele nem sequer vai nos enxergar.
— Mas ele me viu, caminhou comigo.
Como não vai mais nos enxergar?
— Você agora está em outro plano vibratório.
Para chegar até ele, terá que fazer cair essa vibração.
Isso é possível, mas quando você voltar para cá, ele vai se assustar com a luz e não vai entrar.
— Como você pode ter certeza?
— Você conseguiu trazê-lo?
— Não, mas ele achou que não existia outro lado.
Se eu lhe contar, Rogério vai acreditar em mim.
— Ele não acreditou em você quando disse que havia uma porta e uma luz.
O que o leva a crer que acreditará agora?
— Posso provar.
— Não pode, porque ele não vai ver.
Carlos Augusto soltou os braços ao longo do corpo, desanimado.
— Não podemos fazer nada para ajudá-lo?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 11:54 am

— Podemos rezar.
Costuma ter um efeito bastante eficaz.
Poucos são os que reconhecem o valor da oração, mas ela é poderosíssima, porque mexe com energias que estão muito além da densidade da matéria.
Essa energia purifica o homem por inteiro, trazendo bem-estar, alegria, conforto e paz.
É uma ferramenta que todo mundo deveria usar.
É de graça, não dá trabalho, não cansa e é muito eficiente.
— Entendo o que você diz.
Só que essa impotência faz com que eu me sinta um inútil.
— Não devia se sentir assim.
Se não fosse você, Rogério teria sucumbido no mar de esqueletos.
— Sucumbido?
Mas eu quase o atirei lá!
— Não se engane consigo mesmo.
Você não faria isso, como não fez.
Por que acha que você foi parar lá justamente ao lado dele?
— Não sei.
— Rogério desencarnou poucos dias depois de você.
Pensa que você esteve lá todo esse tempo?
— E não estive?
— Não. Você estava adormecido, mas quando sentiu o desenlace de Rogério, imediatamente se transferiu para onde ele estava, atraído pela forte amizade que os une.
Carlos Augusto ergueu as sobrancelhas e considerou:
— Mas então, ele pode ser ajudado.
— Pode. Na medida do que ele está pronto para receber.
No momento, o máximo que você pôde fazer foi ajudá-lo a não cair.
— Então é só isso?
Tenho que esperar ele se resolver? — Paulina assentiu.
E agora?
— Agora, pode vir comigo se quiser.
— Para onde?
— Para outro lugar, mais organizado, mais aconchegante.
— Tipo o quê?
— Tipo uma cidade diáfana e iluminada, onde todo mundo busca a paz, o conhecimento e a compreensão da vida.
— Parece tentador.
— E é. Então? Vamos?
Carlos Augusto alternava o olhar do muro para ela, ainda em dúvida.
Queria ir e não queria, hesitando em deixar Rogério.
Por fim, decidiu-se.
Seguindo o conselho de Paulina, virou-se para o muro e fez uma breve, mas emocionada oração.
Em pensamentos, Paulina o acompanhou, certa de que, do outro lado, Rogério recebera aquela prece.
Efectivamente, sem que Carlos Augusto soubesse, Rogério recebia os fluidos de paz produzidos pela oração.
Do outro lado do muro, não sabia o que havia acontecido ao amigo, que desaparecera inexplicavelmente.
Ele falara em uma porta, mas Rogério não via nada.
Nenhum muro.
Apenas a escuridão no final da rua.
Carlos Augusto o havia abandonado, e ele não entendia por quê.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 11:54 am

Não foi preciso muito tempo para que Carlos Augusto se recuperasse completamente.
Sem sequelas das torturas, o rapaz logo se sentiu fortalecido para estudar e trabalhar.
Ingressou em grupos de estudo sobre a espiritualidade e procurava ajudar os que, como ele, haviam desencarnado pelas mãos dos torturadores do regime.
Muitos compreendiam e aceitavam, outros se deixavam dominar pelo ódio e fugiam.
Carlos Augusto sempre pensava em Rogério e rezava por ele, na esperança de que saísse daquele lugar horrendo.
Além dele, Rafaela também merecia sua preocupação.
— Quero muito vê-la, Paulina — dizia constantemente.
Por favor.
Foi com uma alegria sem igual que ele, um dia, recebeu de Paulina a notícia:
— Está certo. Podemos ir.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 11:54 am

Capítulo 16

Carlos Augusto e Paulina chegaram à Terra no momento em que Rafaela, deitada na espreguiçadeira, abria os olhos e via o padre a seu lado.
Ambos acompanharam a cena sem interferir.
Carlos Augusto não se surpreendeu quando, ao invés de sentir ciúmes, desejou intimamente que o padre a fizesse feliz.
Quando a moça se levantou e foi para o quarto, Carlos Augusto seguiu com ela.
Tentando afastar a imagem do padre da cabeça, Rafaela deitou-se e, pouco depois, ajudada por Paulina, adormeceu.
Assim que seu corpo fluídico se viu livre no espaço astral que a circundava, Rafaela logo avistou os dois espíritos.
A emoção de ver o antigo namorado misturou-se ao embaraço e à vergonha.
Em um momento em que deveria estar pranteando a sua morte, ardia de desejo pelo padre.
— Não se preocupe com isso — disse Carlos Augusto, lendo-lhe os pensamentos.
Não estamos aqui para cobrar-lhe nada.
— Quem é ela? — indagou Rafaela, interessada.
— Esta é Paulina, que foi minha madrinha em vida e agora é minha mentora.
Rafaela simpatizou imediatamente com Paulina.
As duas abraçaram-se fraternalmente, e Rafaela prosseguiu:
— Ah! Augusto, por que você me deixou?
— Você sabe o porquê.
— Aqueles malditos torturadores!
O que lhe fizeram?
— Eu estou bem, não se preocupe.
— Por que você teve que morrer daquela forma tão horrível?
— Fui eu que tracei o meu destino.
Fui torturador na Inquisição e, lamentavelmente, não consegui me perdoar pelas atrocidades que havia cometido.
— Você foi torturador?
Não acredito.
— Pois pode acreditar.
Embora tenha sido há muito tempo, custei a me desapegar de muitas culpas.
Agora, porém, acho que consegui.
Não preciso mais sofrer.
E nem você, se não quiser.
— Eu não quero sofrer!
— Então tome cuidado.
O padre é uma boa pessoa e gosta realmente de você, mas tem amigos que não são o que dizem ser.
— Ele trabalha a favor dos perseguidos políticos.
— Por isso é que lhe digo para tomar cuidado.
Vocês correm grande risco.
— Como é que você sabe dessas coisas?
— Onde estou, muito me foi e é revelado. — respondeu Carlos Augusto.
— Por quê?
— Porque estou em condições de compreender sem julgar.
— Por que você ainda se interessa tanto por mim?
— Não se lembra? — Rafaela meneou a cabeça.
Fomos irmãos em outra vida, sinto-me responsável pela sua morte.
Não quero que isso se repita.
— Podemos ter sido irmãos em outra vida, mas nessa fomos namorados.
Eu devia ser fiel à sua memória.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 11:54 am

— Está se referindo ao padre?
— Oh! Augusto, perdoe-me!
Tentei, mas não pude evitar.
Acho que estou me apaixonando por ele.
— E qual o problema?
— Eu não devia.
Faz tão pouco tempo que você se foi.
— Minha querida, isso agora não importa mais.
Quero que você seja feliz.
— Não está chateado?
Não pensa que sou uma vadia?
— Mas o que é isso?
Que ideia faz de si mesma!
Eu agora estou em outra vida, a sua tem que continuar.
Estamos em mundos diferentes, não podemos viver mais juntos.
— Mas você está aqui.
Como podem ser mundos diferentes?
— Você ainda está vivendo na matéria, tem um corpo físico.
Eu não o tenho mais, meu corpo astral vive no mundo astral.
— Como eu o vejo e falo com você?
— Cada plano interpenetra os anteriores.
Assim, o astral entra pelo físico, por assim dizer.
É por isso que conseguimos contacto.
Esse mundo, que é também o das emoções, é acessível pela morte ou pelo sono.
Eu estou morto, você está dormindo.
Seu corpo físico não veio, está deitado na cama.
Quem entrou aqui foi o seu corpo astral, que se desprendeu parcialmente.
Contudo, embora estejamos momentaneamente na mesma dimensão, nossas vidas estão se desenrolando em mundos distintos.
Você vai voltar ao físico, eu vou prosseguir no astral.
Não podemos mais nos relacionar.
Por isso, não se apegue a uma traição que não existe.
Você e o padre são livres para fazer o que quiserem.
— Jura que não vai ficar com ciúmes?
— Preciso jurar?
— Acho que não...
Ao acordar, lembrarei desse encontro?
— Provavelmente, não.
Pode ser que se lembre de algumas passagens confusas, pois as experiências que aqui vivemos, em sua maioria, ficarão retidas no filtro etéreo que limita a passagem de energias astrais, impedindo os encarnados de se lembrar de tudo.
— Como assim?
Por que isso acontece?
— O corpo denso é um grande limitador da expressão do astral.
Romper as barreiras etéreas para que o físico mantenha as ténues impressões do astral requer um preparo que poucos têm.
E quanto mais o cérebro físico se esforça para se lembrar dos sonhos, mais os afasta da lembrança, pois a densidade de suas vibrações pulveriza a subtileza das vibrações astrais.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 11:55 am

O sol começava a raiar, e Paulina os interrompeu com gestos delicados:
— Acho que já chega, por hoje.
Temos que ir, e Rafaela deve retornar à matéria.
— Promete voltar? — Rafaela indagou a Carlos Augusto.
— Sempre que me for permitido.
— Está bem.
Carlos Augusto deu um beijo suave na testa da moça.
Rafaela retornou ao corpo, enquanto o rapaz e Paulina desvaneciam no ar.
Logo pela manhã, o sonho aflorou à sua mente, embora confuso e contraditório.
Mesmo assim, a jovem lembrou-se de ter sonhado com ele.
Como, porém, sua mente andava povoada de culpas e remorsos, analisou o sonho como um alerta de que talvez a alma de Carlos Augusto estivesse inquieta com o que estava acontecendo.
Não apenas com o perigo de ser presa, mas com seu sentimento por padre Augusto.
O conflito estava instalado, e, muito embora Rafaela se martirizasse com o sentimento de traição, sabia que não poderia resistir a Augusto por muito tempo.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 11:55 am

Capítulo 17

Quando Rafaela apareceu para o café da manhã, Augusto já não estava mais lá.
Levantara-se cedo e saíra sem tomar o desjejum, com medo de suas próprias reacções.
Atormentado pelo fantasma do desejo, que só agora conseguia identificar, viu na confissão o instrumento do limite para que se mantivesse dentro dos princípios da Igreja e do sacerdócio.
Bem cedinho, bateu à porta de seu amigo Cláudio, que o atendeu ainda de pijamas, com a escova de dentes e a pasta na mão.
— Augusto! — surpreendeu-se.
O que o traz aqui tão cedo?
— Preciso me confessar — Augusto disse rapidamente.
E tem que ser agora.
— Não pode esperar?
Ainda nem me aprontei.
— Pois então apronte-se, pelo amor de Deus!
Preciso de você com urgência.
É o único em quem posso confiar para fazer esta confissão. Por favor...
Notando o desespero no olhar e na voz do amigo, Cláudio se arrumou o mais rápido que pôde.
Levou-o para seu quarto, fechou a porta e iniciou preocupado:
— Muito bem.
Agora conte-me o que tanto o aflige.
Augusto ajoelhou-se aos pés de Cláudio e, beijando-lhe a ponta da batina, chorou de mansinho.
— Perdoe-me, padre, porque eu pequei...
Não conseguiu terminar.
Com a voz engasgada na garganta, permaneceu onde estava, umedecendo as vestes do outro com as lágrimas que agora vertiam em abundância.
— Meu filho — disse Cláudio, passando a mão sobre a cabeça de Augusto —, sabe que além de padre, sou também seu amigo.
Seja o que for, pode me contar.
Não estou aqui para julgá-lo, mas apenas para levar um pouco de alívio ao seu coração.
Cláudio era um padre mais velho e mais experiente.
Como os dois estavam envolvidos com o auxílio aos perseguidos políticos, pensou que o problema de Augusto estivesse relacionado a isso.
Pelo jeito como entrara ali, algo muito grave devia ter acontecido.
Teria ele sido descoberto e, por uma infelicidade, matado alguém?
— O que foi que houve? — Cláudio estimulou, deveras preocupado.
Tem algo a ver com o nosso movimento? — Augusto assentiu.
Você matou alguém?
A surpresa no olhar de Augusto foi genuína, e o alívio que causou em Cláudio também.
— Por Deus, padre, não! — objectou Augusto, indignado.
Eu apenas estou... acho que me apaixonei por uma mulher...
Augusto calou-se novamente, mas dessa vez não continuou, à espera de uma palavra de censura do amigo.
— Apaixonou-se? — retrucou Cláudio, de certa forma, surpreendido.
Por quem?
Vencendo o temor, Augusto esclareceu:
— Lembra-se da estudante que veio me procurar outro dia?
Cláudio assentiu.
— A quem dei instruções para a fuga.
Pois ela agora está escondida em minha casa.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 11:55 am

— Em sua casa? — espantou-se Cláudio.
Mas então vocês...
— Não fizemos nada, se é o que está pensando.
Ontem, porém, quase perdi a cabeça.
Por pouco não a tomei nos braços e fiz uma loucura.
Cheguei bem perto de violar meu voto de castidade!
— Já esperava por isso, mais cedo ou mais tarde — revelou Cláudio, impassível.
Não é uma coisa rara de acontecer.
— Sou um padre — objectou Augusto, sentindo as faces arderem.
Devia estar acima dessas coisas.
— Não seja tão severo.
Você é homem, em primeiro lugar.
— Homem... — desdenhou de si mesmo.
Justo eu, que nem isso pensava que fosse.
— Como assim?
— Meu pai me mandou para o seminário porque achava que eu era, ou tinha tudo para ser, um sodomita.
— Eu não sabia.
Por que nunca me contou?
— Era algo de que eu me envergonhava.
Cláudio soltou um suspiro de compreensão e retrucou:
— Infelizmente, muitos pais que pensam assim enviam seus filhos para o sacerdócio sem que estes tenham vocação.
— Meu pai tinha medo de que eu me tornasse homossexual.
— E você não se tornou, pelo visto.
— Acho isso uma ignorância.
Ninguém se torna homossexual.
Quem é já nasce assim.
Nada o fará mudar.
Cláudio ergueu as sobrancelhas e retrucou com uma leve censura:
— Você não acredita que Deus pode livrar o homem do pecado?
— Não sei.
Acredito que o homem pode tentar encontrar seu caminho com a ajuda de Deus.
Mas não estou convencido de que ser homossexual seja algo que requeira uma mudança de caminho.
Não creio que seja pecado.
— Não?
— Convivi com alguns meninos com esse perfil no seminário.
Nunca me interessei por nenhum deles, mas vi a angústia em seus olhos.
Eram pessoas boas, compreensivas, amorosas.
Não conseguia ver pecado em suas atitudes e achava mesmo que o lugar deles não era ali.
Como pode ser pecador um homem que só quer o bem de seus semelhantes?
Não acho que seja justo condenar alguém só porque possui uma orientação sexual fora dos padrões sociais.
— Fora dos padrões religiosos, você quer dizer.
— A religião foi feita por homens.
Duvido que Deus, o verdadeiro Deus de amor, pura energia, puna ou condene alguém.
Penso que o importante é o que vai no coração do homem, não a forma como utiliza seu sexo.
— Nunca o ouvi falar dessa forma — repreendeu Cláudio.
Onde aprendeu essas coisas?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 11:56 am

— Com a vida e a experiência.
Tenho ouvido muitas confissões nesse sentido e vejo que a orientação sexual nada tem a ver com o carácter das pessoas.
É isso que me faz questionar esse dogma.
— Você me parece muito avançadinho.
E eu que pensei ser um padre moderno...
Não entendo como você, com essas ideias progressistas, está se condenando por ter sentido desejo por uma mulher.
— Porque eu fiz um juramento.
Fiz voto de castidade e considero a palavra um acto sagrado de compromisso.
Sem contar que eu pensava que fosse homossexual.
Deixei que meu pai e os outros padres me convencessem disso.
Imagine a surpresa que foi para mim também.
Passei a vida pensando que havia conseguido dominar meu desejo por homens, quando, na verdade, gosto mesmo é de mulheres.
E nem sabia disso.
— Interessante.
Contudo, de pouco auxílio no momento.
— O que posso fazer, padre?
Ajude-me! Como sufocar o que sinto por Rafaela?
— Talvez seja melhor essa moça sair da sua casa.
— Pensa que já não cogitei nisso?
Mas ela está sendo procurada pela polícia.
Não posso mandá-la embora.
— Esse não é um problema insolúvel.
A Esperança já ajudou muitos na mesma situação que a dela.
— Ela está sozinha, tem medo de ir para o exterior.
— Você está arranjando desculpas para mantê-la ao seu lado.
No fundo, não quer que ela se vá.
Augusto abaixou a cabeça e confessou com os olhos cheios de lágrimas:
— Não. Por isso, aguardo sua penitência.
Qualquer punição é preferível a mandá-la embora.
— Acha que penitência vai adiantar?
Que vai acalmar sua alma e evitar que o pior aconteça?
— Eu não sei.
Tenho que tentar.
— Não é assim que funciona, Augusto.
Somos padres, sim, mas isso não modifica a nossa natureza.
Alguns conseguem vencer o instinto e seguir o celibato.
Outros caem em tentação.
Em qualquer hipótese, devemos preservar a imagem do sacerdócio.
— Como assim?
— Você pensa que eu nunca senti desejo por mulher alguma?
— Sentiu?
— Da primeira vez, pensei que havia me apaixonado.
Consegui resistir, terminei tudo, mas o desejo persistiu.
Sabe o que fiz? — Augusto meneou a cabeça.
Quando o fogo do desejo ardia a ponto de me deixar febril, vestia roupas profanas e procurava uma mulher desconhecida.
— Você fazia isso?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 11:56 am

— Por que o espanto?
Foi melhor do que largar a batina por uma mulher que, mais tarde, eu sabia que iria me deixar.
É o que vai acontecer com você se não se cuidar.
— Você acha que eu devo largar a batina?
— Não. Acho que essa moça, mais cedo ou mais tarde, vai deixá-lo.
E o que será de você?
— Por que diz isso?
- Você é inexperiente e está se iludindo.
Se você se envolver com essa moça, no começo, tudo vai correr às mil maravilhas.
Por enquanto, ela está fragilizada, com medo.
Você se transformou em seu herói e protector.
É um homem bem-apessoado, culto, atencioso, corajoso e inteligente, qualidades que as mulheres mais admiram.
Mas, e depois?
E quando ela enjoar de ficar em casa esperando você, impedida de viver a juventude?
Aceitará nossa ajuda e irá embora, sem se importar com seus sentimentos.
— Rafaela não é assim.
Tenho certeza de que ela gosta de mim.
— Gosta. Quem não gostaria?
A questão é: até quando?
Augusto não respondeu.
Não tinha pensado em nada daquilo, preocupado com o sentimento novo que experienciava.
Os olhares de Rafaela eram um sinal bem forte de que ela também gostava dele.
No entanto, o que Cláudio lhe dizia fazia sentido.
Será que valeria a pena deixar-se envolver por uma jovem, que, mais dia menos dia, iria embora sem maiores preocupações?
— O que é que eu faço? —sussurrou Augusto, alquebrado.
— Deus o está pondo à prova.
Não falhe com Ele!
A emoção de Augusto estava próxima do desespero.
Ele apanhou as mãos de Cláudio e beijou-as.
Então, suplicou:
— Pelo amor de Deus, ajude-me.
Cláudio permaneceu alguns minutos pensativo.
Quando falou, tinha na voz o tom da incerteza:
— Não podemos simplesmente mandá-la embora e deixar que seja presa.
Não me agrada ver você cair em tentação, mas não quero que ela vá parar nas câmaras de tortura.
Então, ou você a convence e se convence de que a melhor solução é tirá-la do país em segurança, ou não lhe restará alternativa senão resistir.
Encarando Cláudio com ar incrédulo, Augusto retrucou preocupado:
— Pensa que é fácil?
— Sei que não é.
Ambas as alternativas irão requerer muito esforço de sua parte.
Por isso é uma prova.
— Não acredito em provas — Augusto exasperou-se.
Deus não quer a nossa ruína, quer nosso bem.
— Se não acredita em nada do que digo, por que me procurou?
— Pensei que pudesse me ajudar.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 28, 2015 11:56 am

— Você não quer a minha ajuda.
Quer que eu aprove o que você deseja fazer.
Era isso mesmo.
Augusto fora até ali em busca de absolvição e uma solução mágica para seu problema.
Não conseguira. Saiu da casa de Cláudio mais transtornado do que quando chegara.
O amigo tinha razão.
Rafaela era só uma menina.
Seria loucura abandonar sua vida por causa de uma paixão que se apagaria com o tempo.
A conversa com Cláudio surtiu algum efeito.
Desde então, o comportamento de Augusto mudou.
Tratava Rafaela bem, contudo, com frieza e indiferença.
Respondia a tudo o que lhe perguntava, embora com monossílabos e reticências.
A mudança de atitude do padre deixou a jovem confusa e Nelma, satisfeita, por achar que Augusto, finalmente, mostrara a ela o seu devido lugar.
Nelma havia terminado de colocar a mesa quando ouviram soar a campainha do portão.
Os três entreolharam-se aflitos, e Augusto adiantou-se:
— Podem deixar que vou atender.
Rafaela, vá para o porão e deixe Spock aqui.
Ele pode latir e revelar sua presença.
Enquanto Rafaela ia para o porão sozinha, Augusto saiu para atender o portão.
Voltou em seguida, em companhia de Cláudio.
— Bênção, padre — falou Nelma, beijando-lhe a mão.
— Deus a abençoe — respondeu Cláudio.
Então? Onde está a mocinha?
— Não se preocupe, Nelma — tranquilizou Augusto, ante o olhar de espanto da criada.
Cláudio sabe da presença de Rafaela.
Por favor, vá chamá-la.
Assim que Nelma saiu, Cláudio comentou:
— Seu segredo está bem guardado comigo, protegido pelo sigilo da confissão.
Quero apenas conhecer a menina.
— Sei disso.
Jamais coloquei em dúvida sua fidelidade aos deveres do sacerdócio.
— Não é apenas isso.
Você é meu amigo.
Não trairia sua amizade.
Rafaela entrou logo atrás de Nelma, tímida e insegura.
Fitou Cláudio com desconfiança e abaixou-se para pegar Spock no colo, apertando-o de encontro ao peito como se ele pudesse protegê-la.
— Venha, Rafaela — chamou Augusto.
Não tenha medo. Padre Cláudio é meu amigo, integrante da Esperança.
— Ah! — a jovem relaxou o corpo com um sorriso e cumprimentou aliviada:
— Muito prazer.
— O prazer é todo meu.
— Janta connosco, padre Cláudio? — perguntou Nelma.
— Janta, é claro — respondeu Augusto.
Pode pôr mais um prato na mesa.
— Então você é a moça misteriosa que Augusto esconde no porão — afirmou Cláudio.
Deve ser difícil para você, não é?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

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