Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 11:08 am

— Muito. Sobretudo pela falta que sinto da minha família.
— Seus pais não sabem onde você está?
— Rafaela foi orientada a jamais tentar se comunicar com eles — esclareceu Augusto.
Temendo pela sua segurança, não os procurou.
— Entendo.
— Acho que o telefone lá de casa está grampeado — disse Rafaela.
— Eu bem que pensei em falar com eles — acrescentou Augusto.
Mas se a polícia estiver vigiando a casa, pode me seguir até aqui.
— Realmente.
Você não deve se arriscar.
Colocaria em risco toda nossa organização.
Mas diga-me, Rafaela, já pensou em fugir do país?
Rafaela olhou para Augusto de soslaio e retrucou baixinho:
— Tenho medo. Para onde vou?
Não conheço ninguém em lugar nenhum.
— É complicado, eu sei, mas há pessoas na nossa organização que podem ajudá-la.
Você ficaria em segurança, muito mais do que aqui.
Augusto permanecia de olhos baixos, as veias do pescoço saltando a cada vez que Cláudio dizia alguma coisa.
— Padre Augusto — chamou Rafaela.
Tenho mesmo que ir embora?
Finalmente Augusto a encarou e não resistiu ao seu olhar de súplica.
— Não — declarou com uma convicção muito além da que pretendia.
A resposta quase intimidou Cláudio, que observou sem graça:
— Você é uma moça muito bonita. Deve ter um namorado.
— Meu namorado morreu — retrucou a jovem, agora com lágrimas nos olhos.
Foi torturado e morreu.
— Ah! É mesmo?
Cláudio maldisse a si mesmo por aquele esquecimento.
Augusto havia-lhe contado, inclusive, que o rapaz tinha até o mesmo nome que ele.
Não queria mal à moça, muito menos levar-lhe lembranças dolorosas em uma hora em que a dor já era muita.
A conversa tomou outro rumo.
Cláudio passou a noite comentando casos sem importância e coisas banais.
Augusto limitava-se a assentir de vez em quando, e Rafaela mal via a hora de poder se retirar.
O clima não era dos mais agradáveis, principalmente porque Augusto mal olhava para a moça e pouco lhe dirigia a palavra.
Quando Cláudio partiu, foi um alívio para os dois.
Embora Augusto não quisesse admitir, a presença do amigo em sua casa fora bastante constrangedora.
Ele esperou até que Nelma tirasse a mesa para então espalhar o material didáctico que sempre levava consigo, tentando centrar a mente na aula que tinha para preparar, fingindo não prestar atenção a Rafaela, que brincava com o cachorro no sofá.
— Será que não podemos levar Spock para passear? — sugeriu a jovem.
— Você não deve sair — respondeu Augusto, com aparente frieza.
— Por que então não jogamos alguma coisa?
Buraco, por exemplo?
— Não vê que estou trabalhando?
— Depois, quando você terminar.
— Já é tarde.
Você devia estar dormindo.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 11:08 am

— Não estou com sono.
— Pois eu estou.
Assim que terminar aqui, vou-me deitar.
— E amanhã?
É sábado, dia de folga.
— Amanhã, tenho vários casamentos para celebrar.
— Posso assistir?
— De jeito nenhum.
— Ah! por favor, deixe.
Vou disfarçada.
— Disfarçada de quê?
— De freira.
Augusto parou de escrever e encarou-a com ar sério.
— Isso não é brincadeira — censurou.
A vida religiosa pode não representar nada para você, mas é muito importante para mim e para várias outras pessoas que guardam Deus no coração.
Rafaela ficou confusa.
Não esperava aquela reacção tão brusca para um comentário inocente que ele sabia ser brincadeira.
— Desculpe-me — sussurrou envergonhada.
Não queria ofendê-lo nem faltar com o respeito à Igreja.
Estava apenas jogando conversa fora.
— Pois vá jogar conversa fora com outra pessoa.
Não tenho tempo para perder com suas infantilidades.
A resposta de Augusto magoou-a profundamente.
Segurando nos olhos as lágrimas que, dali a instantes, iriam jorrar aos borbotões, Rafaela deu meia-volta e saiu correndo da sala, descendo, de par em par, as escadas do porão.
Atirou-se na cama e então deu vazão ao pranto.
No andar de cima, Augusto soltou a caneta com irritação, aborrecido consigo mesmo.
Descontara nela seu temor, sua covardia.
Não era culpa da jovem que ele não soubesse lidar com aquele tipo de emoção.
Com o raciocínio agora comprometido, desistiu de preparar as aulas.
Guardou o material e resolveu sair.
O ar fresco da noite o ajudaria a esfriar a cabeça.
Nelma também notou o comportamento estranho dos dois.
Conhecia padre Augusto havia tempo suficiente para saber quando algo o incomodava ou entristecia.
Assim que ouviu a porta bater, procurou-o na sala.
Como não o encontrou, desceu ao porão para falar com Rafaela.
Ela estava sentada na cama, abraçada aos joelhos, os olhos ainda umedecidos das lágrimas que vertera.
— Está tudo bem? — indagou Nelma, sentando-se ao lado da moça.
— Está.
— Você e padre Augusto brigaram?
Rafaela encarou-a com ar magoado e respondeu sem muita convicção.
— Por que um padre brigaria comigo?
— Não sei.
Você fez alguma coisa de que ele não gostou?
— Não fiz nada.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 11:09 am

Nelma balançou a cabeça em sinal de compreensão e se levantou.
A atitude dos dois era deveras estranha, as lágrimas de Rafaela, por demais reveladoras.
A governanta não era tola, conhecia muito bem aquelas meninas que se deixavam levar pela paixão e os desejos.
Ao pôr um dos pés na escada, virou-se para Rafaela e, com voz de quem entende do assunto, alertou:
— Se eu fosse você, não me apegaria muito a padre Augusto.
— Como assim?
— Ele é um homem bom e ajuda muita gente. Nada mais.
— Não estou entendendo aonde você quer chegar.
— Padre Augusto é um rapaz bonito, mas não se esqueça de que ele usa uma batina no lugar de calças.
Ele não é um homem comum.
— Sei disso.
Nelma não disse mais nada.
Balançou a cabeça novamente e continuou a subir as escadas, deixando Rafaela confusa e atordoada, desvendada em seu íntimo.
Seus pensamentos voaram directo para padre Augusto, e um arrepio percorreu sua pele ao recordar o corpo atlético dele de encontro ao luar.
Na mesma hora, lembrou-se do namorado, e o velho sentimento de culpa a atormentou.
Não conseguira ainda se desenvencilhar da sensação de que o traía.
Não fizera nada, contudo, era como se o estivesse enganando.
Pensando em Carlos Augusto, seu coração apertou, seus pensamentos se voltaram para a dura realidade que vivia.
Não estava ali como hóspede, e sim como fugitiva.
Seu lugar não era ao lado do padre, mas do namorado que dera a vida para salvá-la.
Pensando nele, chorou novamente, lembrando-se então de Silmara, de quem não tinha notícias havia muito tempo.
O que teria sido feito da amiga?
De repente, sentiu saudades dela e preocupação pelo seu destino.
Ela conseguira fugir, encontrara um padre engajado no movimento contra a ditadura.
E Silmara? Será que tivera a mesma sorte?
Não podia telefonar-lhe, pois o telefone da casa da amiga, com certeza, estaria grampeado também.
Queria notícias dela. Como fazer?
O jeito era apelar para padre Augusto novamente.
Como sempre, ele se interessaria em ajudá-la e tudo faria para descobrir o paradeiro de Silmara, assim como fizera com Carlos Augusto e Rogério.
Isso lhe daria ainda um bom motivo para forçá-lo a falar com ela normalmente.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 11:09 am

Capítulo 18

Em pouco tempo, o general Odílio descobriu o paradeiro de Silmara.
Por ocasião da fuga de Rafaela, ela havia sido presa, torturada, e, em seguida, libertada.
— Onde ela está agora? — quis saber Rafaela.
— Não sei exactamente — respondeu padre Augusto.
Mas tenho certeza de que não voltou para casa.
Parece que está morando sozinha em algum lugar.
— Como, se ela nem emprego tinha?
— Existem muitas maneiras de uma mulher sobreviver.
— Está insinuando que ela se prostituiu?
— Não exactamente.
Meu contacto disse que ela está vivendo à custa de um coronel.
— O quê? Não acredito.
— Pois pode acreditar.
— Justo a Silmara...
Não posso conceber que ela tenha passado para o lado do inimigo.
Logo ela, que era tão radical!
— Você não imagina o que a tortura pode fazer a alguém.
— Mesmo assim. Carlos Augusto morreu, mas não nos traiu.
— Ninguém disse que ela a traiu.
— Mas passou para o outro lado.
Carlos Augusto jamais faria uma coisa dessas.
Era um verdadeiro herói, um homem de coragem inabalável.
Augusto sentiu uma pontada de ciúmes, algo que, até então, jamais experimentara.
Lutou contra esse sentimento, tentando não demonstrar o que lhe ia na alma.
Em tom neutro, disse:
— Você não pode exigir que todos tenham a mesma coragem de Carlos Augusto.
Lembre-se de que você está aqui, em segurança, livre das salas de torturas. O que Silmara fez foi tentar sobreviver.
Quem pode culpá-la?
— Tem razão. Não é justo compará-la a Carlos Augusto.
É muito fácil falar quando não estamos sofrendo.
Só espero que Silmara não esteja se complicando ainda mais.
— O que sei é que o tal coronel se encantou com ela.
Silmara foi muito maltratada no DOI-CODI, estuprada por vários agentes.
Quando o coronel foi interrogá-la, gostou dela e ofereceu-lhe a vida em troca de sua amiga se tornar a amante dele.
Quem recusaria?
— Ninguém. Pobre Silmara...
Deve estar sofrendo muito.
— Acho que agora está bem.
Pode estar se forçando a uma situação, mas ao menos está viva.
Ouvi dizer que o coronel faz tudo por ela.
Tem também o lado ruim da situação, é claro.
Silmara não é mais uma pessoa livre, não pode ir aonde quiser.
O coronel a vigia constantemente e não permite que ela se relacione com nenhum dos antigos conhecidos ou colegas de faculdade.
— Nem com a família ela pode falar?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 11:09 am

— Isso eu não sei.
— Gostaria de falar com ela.
— Nem pensar!
O telefone da casa dela está grampeado, você correria um grande risco se a procurasse.
O melhor é deixar as coisas como estão.
Contente-se em saber que Silmara está viva.
Sua amiga tem a protecção de um coronel, mas você é procurada pela polícia, pelo Exército, pelo DOPS e sabe-se lá por quem mais.
Sou apenas um padre, não posso proteger você como faz o coronel.
— E o seu contacto?
Não pode fazer nada?
— Ele é uma pessoa importante dentro da actual política, muito embora não aceite esse regime de terror.
Vive uma vida dupla, e ninguém pode desconfiar que ele é contra essa ditadura.
É esse amigo quem obtém passaportes falsos e passagens, mas sem se expor.
— Compreendo. Você tem razão.
A situação de Silmara pode não ser das melhores, mas, pelo menos, ela está viva.
— Sim, dê graças por isso.
Rafaela pensou em Silmara por alguns minutos, tentando imaginar o que a amiga estaria passando.
Ambas prisioneiras, embora de formas distintas, sendo que ela nada tinha a reclamar de padre Augusto.
O que mais a incomodava era a falta da família e a lembrança do namorado morto.
— Sinto falta de Carlos Augusto — revelou a jovem.
Ele deve ter sofrido tanto!
— Não pense nisso — Augusto procurou confortá-la.
Tenho orado muito por ele e por todos os que perderam a vida nessa revolução sem sentido.
— Muito obrigada.
O ciúme era algo difícil de domar, mas Augusto estava sendo sincero.
Se pudesse, teria tirado Carlos Augusto daquela situação, mesmo que isso significasse a partida de Rafaela.
Ele a fitou de soslaio, enternecendo-se com seu ar frágil e assustado.
Seus pensamentos divagaram, trazendo de volta a noite em que quase perdera a cabeça.
Mais tarde, quando Augusto estava prestes a fechar as portas da igreja, Reinaldo apareceu.
Fora informado de que o general Odílio voltara a procurar informações sobre mais presos políticos.
Era estranho que o general, que não participava dos interrogatórios, de repente se interessasse tanto pelos presos.
Apesar de não participar de nenhuma acção ou estratégia, exercia um cargo burocrático do mais alto escalão, que lhe dava acesso a todos os arquivos onde eram fichados os inimigos do Estado.
Poucos eram os que desconfiavam da lealdade do general Odílio.
Muitos achavam mesmo que ele era um homem de bem, preocupado com o futuro da nação e a repressão aos traidores da pátria.
Odílio representava bem esse papel.
Contudo, por trás da máscara de ferro havia um homem sensível e humano, profundamente abalado com a máquina de terror em que se transformara o Exército, no qual ingressara para defender seus compatriotas.
Defendê-los de ameaças externas, não exterminá-los por divergências políticas internas.
O trabalho de Odílio jamais teria chamado a atenção, não fosse um breve comentário que fizera ao ver a fotografia de um rapaz morto:
— Quando é que essas atrocidades vão terminar?
Foi um desabafo pronunciado em um momento em que ele se encontrava sozinho, vistoriando as fichas que passavam por sua sala.
Como achou que não havia ninguém por perto, não pensou que pudessem escutá-lo.
Não contara com o telefone, que, mal posicionado sobre o gancho, não encerrara a ligação que fizera havia poucos minutos ao coronel Ribeiro, deixando a linha presa.
O coronel, do outro lado, querendo fazer uma nova ligação, apanhou o fone e levou-o ao ouvido justo no momento em que Odílio fazia aquele comentário infeliz.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 11:09 am

Embora o som viesse à distância, foi possível identificar as palavras do general Odílio.
Intrigado, o coronel Ribeiro largou o telefone e atravessou o corredor às pressas, encontrando Odílio com as fichas abertas sobre a mesa.
Não foi difícil, portanto, identificar o foco do comentário.
Podia ter sido apenas uma observação imprópria de um homem desacostumado a cenas chocantes.
No entanto, a dúvida se instaurou na mente de Ribeiro, que chamou seu superior e lhe narrou suas desconfianças.
Realmente, era estranho, e, apesar de o general parecer um homem acima de qualquer suspeita, alguns poucos agentes de confiança máxima do DOI-CODI foram chamados para uma investigação sigilosa.
Reinaldo estava entre eles.
Como se não bastasse, o general dera para perguntar sobre uma tal de Silmara Campos, que havia sido libertada pelos militares.
Não satisfeito com as informações obtidas em sua ficha, Odílio indagara aqui e ali, até ser informado de que a moça se amasiara com um coronel.
Suas indagações podiam não passar de curiosidade de um velho, no entanto, havia quem não pensasse assim.
Desencadearam então uma investigação sobre o nome do general.
Como Odílio integrava a congregação de Augusto, Reinaldo tinha a oportunidade única de alcançar dois objectivos com uma só acção.
Prenderia o traidor e ainda reconquistaria seu antigo amor de infância.
Nem ele sabia qual desses dois motivos era o que mais lhe agradava.
Reinaldo amava o que fazia, envolvia-se no delírio das investigações, remoía o prazer que os gritos de dor dos torturados lhe causava.
Paralelamente, a presença de Augusto o cativava, e ele se pegava preso ao ar carismático do padre.
Quando chegou à igreja, Reinaldo logo avistou Augusto perto do altar, cuidando de algumas imagens de santos.
Aproximando-se por trás, cumprimentou:
— Olá, Augusto.
O padre virou-se calmamente, e seu rosto iluminou-se com um sorriso genuíno.
— Reinaldo! Como está?
— Vou bem. E você?
Muito ocupado?
Reinaldo apontou com o queixo o altar, e Augusto explicou:
— Tenho que mandar restaurar algumas imagens.
Mas me falta dinheiro.
— Ah! O problema do mundo, actualmente.
— O problema do mundo, na minha visão, é a falta de respeito.
Surpreso, Reinaldo retrucou espantado:
— Você acha?
— É claro. Nota-se a falta de respeito nas mais pequeninas coisas:
na fila do mercado, na corrida pelo assento do ônibus, na pressa do trânsito...
— Ora, meu amigo, o mundo é assim mesmo.
Isso não é nada de mais.
— Isso é tudo de mais.
Quando o ser humano aprender o valor do respeito, começando pelas pequenas coisas, vai compreender que o direito do próximo é igualzinho ao seu e vai parar de querer se beneficiar com tudo.
— Acha mesmo isso? — Reinaldo questionou.
— Você, não? — Reinaldo fez ar de dúvida, e Augusto prosseguiu:
— Hoje em dia, todo mundo quer se dar bem.
Acho justo que cada um lute pelo seu bem-estar, mas não podemos esquecer que todos devem ter os mesmos direitos.
Por que furar fila?
Por que pular o muro para não pagar entrada?
Por que tomar o que não lhe pertence, inclusive a vida do próximo?
Quando uma pessoa pratica um acto desses, outra sai lesada.
Isso é só uma pequena amostra do que é falta de respeito. Levada a extremos, que é como vivemos hoje, ela é a responsável por todos os conflitos e males.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 11:10 am

— Acho que você está exagerando.
Não foi a falta de respeito que fez a revolução, por exemplo.
— Ah! mas foi, sim.
Foi a falta de respeito pela humanidade e, principalmente, pelo amor de Deus.
Já parou para pensar como Deus deve estar se sentindo com tudo isso?
— Essa não é uma guerra religiosa, padre.
E olhe que muitas já aconteceram em nome de Deus.
— Não em nome do Deus verdadeiro, mas em nome de um deus criado pelos homens para justificar sua ambição.
Mais uma vez, é culpa da falta de respeito.
— Quer dizer então que você considera a revolução um desrespeito às leis de Deus?
Reinaldo estava entrando em um terreno perigoso, obrigando Augusto a reconsiderar:
— Não me meto em política, Reinaldo, nem Deus.
Mas o respeito a Ele me impede de prejudicar meus semelhantes, porque Deus disse:
amar ao próximo como a si mesmo.
— Certo. E quem é o próximo?
— Qualquer um.
— Interessante, mas não me convence.
Acho que Deus só deve se ocupar das coisas espirituais.
As falhas humanas na Terra devem ser resolvidas pelos próprios homens.
— A polícia e a lei nem sempre caminham ao lado da justiça.
E o que é a justiça, afinal de contas?
A lei da Terra é cheia de falhas e imperfeições, ao passo que a lei de Deus mantém a harmonia e o equilíbrio de todas as coisas.
— O equilíbrio e a harmonia só são alcançados com a força da Polícia e do Exército — Reinaldo irritou-se.
— Por que você fala assim? — estranhou Augusto.
Está do lado dos militares?
— Não se trata disso.
Sou advogado, avalio as coisas pelo lado da lei terrena.
— A lei do homem jamais será superior à lei de Deus.
Os homens escrevem normas transitórias, as leis divinas existem desde sempre e para sempre.
— Não entendo nada disso — Reinaldo falou em tom jocoso.
E não vim aqui para falar de Deus.
Que tal um café?
Mesmo contra a vontade, Augusto aceitou o convite.
O rumo da conversa deixara-o desconfiado da ideologia de Reinaldo.
Embora ele lhe tivesse dito que não se interessava por política, dava mostras de simpatia pelo regime militar.
Em uma confeitaria próxima, pediram duas xícaras de café e um pedaço de torta.
Sentaram-se a uma mesinha perto da janela para continuarem a conversa.
— Você e eu temos profissões parecidas — observou Reinaldo.
Ambos somos obrigados a guardar sigilo sobre as confissões que ouvimos.
— É verdade — concordou Augusto, ressabiado.
— As pessoas que me procuram querem brigar com alguém.
As que o procuram estão atrás de algum tipo de reconciliação.
— Muitos querem apenas ser compreendidos e buscam conforto para as dores da alma.
— Bonito, isso.
Imagino que, nesses tempos difíceis em que vivemos, deve haver muita gente precisando de conforto.
— Algumas...
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 11:10 am

— Diga-me lá, Augusto:
esses torturadores não o procuram para se aliviar das culpas pelo que fazem aos outros?
Quero dizer, por torturar e matar?
— Não coloco rótulos nas pessoas — rebateu Augusto, com cautela.
Não sei quem é torturador, ou comunista, ou adúltero.
Apenas ouço o que as pessoas têm a dizer.
— E lhes dá absolvição...
— Só Deus pode absolver os homens.
O máximo que faço é ajudá-los a reencontrar-se com Deus.
- Todo mundo?
- Todo mundo.
- Até mesmo os assassinos?
- Até mesmo esses.
- E os estupradores?
- Também.
- E os homossexuais?
- Homossexualidade não é pecado.
— Não é? — espantou-se Reinaldo.
Todo padre que conheço diz que é.
— Pois eu acho que não.
Penso que houve uma má compreensão das escrituras nesse caso.
O pecado está dentro do homem, em seus pensamentos, suas atitudes, seus sentimentos.
Naquilo que ele deseja para si mesmo e para seu próximo e que poderá prejudicá-los.
Nada que traz alegria pode ser pecado.
— Tem gente que fica alegre infligindo dor.
— Essa não é uma alegria verdadeira.
É apenas uma ilusão dos sentidos que se deixa corromper pelo fascínio do poder.
Cada vez mais Reinaldo se surpreendia com as palavras de Augusto.
Interessara-se principalmente pelo que ele dissera sobre os homossexuais.
Aquela era a oportunidade que tanto aguardara para saber mais a respeito do amigo.
— Você se lembra do que nos aconteceu, não lembra? — Reinaldo sondou.
— Como poderia esquecer?
— Tudo porque seu pai achou que nós tínhamos feito algo errado.
— Meu pai agiu por ignorância.
Nós sabemos que não fizemos.
— É verdade... E como você se sentiu com tudo aquilo?
Augusto remexeu a xícara de café com a colherzinha e, sem encarar o outro, admitiu:
— No começo, foi difícil.
Deixei-me convencer por meu pai e padre António de que era homossexual.
Passei a vida toda acreditando nisso.
— E você não é? — Reinaldo sondou.
A pergunta directa assustou Augusto, mas, mesmo assim, ele respondeu com um sorriso amargo:
— Não.
— Como pode ter certeza?
Já se relacionou com algum, rapaz?
— Não — disse Augusto, incomodado com a indiscrição do outro.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 11:10 am

— Por que não?
— Você está me fazendo um interrogatório e tanto — Augusto ponderou.
Com que finalidade?
— Nenhuma. Eu só fiquei curioso.
Afinal, foram anos levando a fama de bicha.
— Você não levou nenhuma fama — objectou.
Foi embora para Belo Horizonte, onde ninguém o conhecia, cresceu, estudou, escolheu a carreira que quis.
Eu é que fui internado num seminário e havia sempre um padre atrás de mim me vigiando, para que não caísse em pecado.
— Está explicado o porquê de você nunca ter se relacionado com nenhum menino.
— Não foi por isso.
No começo eu também pensava assim.
Mas quando senti desejo por uma mulher percebi que todos estavam errados.
Inclusive eu.
Augusto arrependeu-se da revelação, enquanto Reinaldo sentia um misto de decepção e raiva insinuando-se em seu peito.
— - Você já dormiu com mulheres? — Reinaldo exasperou-se.
— Não — assegurou Augusto, para quem a reacção de Reinaldo devia-se à surpresa por ouvir aquelas coisas da boca de um padre.
Fiz voto de castidade, que respeito muito.
Contudo, não posso fingir que as mulheres não me atraiam.
— Se pudesse, dormiria com elas?
— Por favor, Reinaldo — pediu Augusto, envergonhado.
Essa conversa está tomando um rumo desagradável.
Não se esqueça de que sou um sacerdote.
— Desculpe-me se fui intrometido.
Foi apenas curiosidade.
Fico feliz que você não seja mais um desses pederastas nojentos.
— Por favor, não se refira assim às pessoas.
Não gosto de discriminação, e você, como todo mundo, está enveredando pelo caminho da falta de respeito.
Lembra-se do que lhe falei há pouco?
Como Reinaldo podia esquecer?
Tudo o que Augusto dissera ficara bem gravado em sua memória, principalmente aquela descoberta de que ele não era homossexual.
A revelação bloqueara toda sua vontade de se abrir com o amigo.
De que adiantaria?
Ele seria bonzinho e o acolheria, mas já deixara claro que gostava de mulheres.
E um homem que sentisse prazer com mulheres não lhe interessava.
Era uma pena que Augusto não correspondesse aos seus sentimentos.
Os dois tinham tudo para ser felizes.
Por Augusto, Reinaldo seria capaz de qualquer coisa, menos, talvez, de mudar de profissão.
— Bem — Reinaldo finalizou.
Tenho que ir andando.
O dever me chama.
— Ainda vai trabalhar a essa hora?
— Tenho muitas causas para estudar.
Foi um prazer conversar com você, Augusto.
Até uma próxima vez.
Reinaldo foi embora sem esperar por Augusto.
Tirou uma nota do bolso e colocou-a sobre a mesa, ignorando os protestos do padre para pagar a conta.
Estava tão furioso que seria capaz de explodir, e o melhor seria que aquela explosão acontecesse fora das vistas do amigo.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 11:10 am

Capítulo 19

Ao entrar em casa, Augusto estranhou a presença de Nelma e Rafaela, sentadas no sofá com ar compungido.
Embora fosse comum encontrar as duas assistindo a algum programa de televisão, naquela noite, o aparelho estava desligado, e um silêncio absoluto reinava no ar.
O padre entrou, pousou a pasta em cima da mesa e olhou para elas, que se levantaram ao mesmo tempo, sem dizer nada.
— Aconteceu alguma coisa? — indagou Augusto, notando que nenhuma das duas queria tomar a iniciativa de falar.
Após um breve silêncio, em que Rafaela olhava para Nelma com expectativa e ansiedade, a criada se pronunciou:
— Sua mãe telefonou.
É o seu pai.
Lamento, padre Augusto, mas ele faleceu.
Augusto olhou de uma para outra como quem digere a informação que acabara de ouvir.
Sentou-se no sofá, abaixou a cabeça, alisou os cabelos.
Quando ergueu os olhos, estes estavam húmidos, porém, serenos e confiantes.
— Quando foi isso? — Augusto perguntou.
— Parece que no começo da tarde — esclareceu Nelma.
Foi infarto. Tentei localizá-lo, mas não o encontrei na igreja.
— Saí para tomar café com um amigo.
— Ela pediu que o senhor ligasse assim que chegasse.
— Vou fazer isso.
Com ar alquebrado, Augusto foi até o telefone.
Era visível o seu abatimento, e vê-lo daquele jeito frágil mexeu com os sentimentos de Rafaela.
Queria estreitá-lo nos braços, beijá-lo, confortar sua dor.
O padre, por fim, conseguiu ligar para a mãe e falou com ela por alguns minutos.
Quando desligou, estava chorando, embora sem desespero.
— Vou precisar viajar — Augusto anunciou, discando outro número.
Preciso de autorização para me ausentar da paróquia.
Enquanto ele tratava dos preparativos da viagem, Nelma foi esquentar o jantar, e Rafaela permaneceu ao lado do padre, observando-o à distância.
Como era bonito!
Corpo esguio, viril, um homem de chamar a atenção, não fosse o disfarce da batina.
Imediatamente a jovem desviou os olhos, arrependida, recriminando-se pela forma precipitada com que colocava um padre no lugar do namorado morto.
Depois de alguns telefonemas, Augusto sentou-se ao lado de Rafaela no sofá.
Novamente afundou o rosto entre as mãos, pensativo, lembrando-se de tudo o que vivera ao lado do pai.
— O senhor está bem? — interessou-se Rafaela.
— Estou. Talvez um pouco abalado, mas estou bem.
— Não deve ser fácil receber uma notícia dessas assim, de repente.
— Meu pai e eu não éramos muito chegados.
Mesmo assim, ele era meu pai.
— Vocês não se viam muito?
— Raramente. Meus pais moram em Uberlândia, e eu vim para o Rio faz tempo.
Desde então, só vou lá uma vez ou outra, quando tiro férias.
Faz anos que não os vejo...
— Seu pai não queria que o senhor fosse padre?
Augusto deu um sorriso triste e respondeu com um resquício de mágoa:
— Pelo contrário.
Foi por causa dele que fui parar no seminário.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 11:11 am

O ressentimento sobressaía nas palavras do padre, e Rafaela tornou curiosa:
— O senhor não queria ir?
— Não é que não quisesse.
Eu gostava de ir à igreja, só nunca havia pensado em seguir a carreira monástica.
Mas meu pai insistiu, e minha mãe o apoiou.
— Seu pai era muito católico?
Novo sorriso, nova resposta magoada:
— Não. Ele não era nada católico.
Minha mãe é que era.
— Mas então...
— Deixemos isso para lá — cortou Augusto, levantando-se de chofre.
Vou arrumar minhas coisas.
Pretendo sair amanhã antes das seis, ou não chegarei a tempo para o funeral.
Padre Cláudio vai me emprestar o carro e vai me substituir na minha ausência.
Notando que deixara a curiosidade ir longe demais, Rafaela deixou de lado o interrogatório.
De repente, como quem tem uma súbita e brilhante ideia, deu um salto do sofá, ao mesmo tempo em que perguntava com euforia:
— Eu posso ir com o senhor? Posso?
— Ir comigo? Ficou maluca?
— Ah! Vamos, padre, deixe.
Ninguém vai saber.
Escondo-me no carro de padre Cláudio e saio sem que ninguém me veja.
— De jeito nenhum!
É perigoso demais.
— Não é, não.
Posso fazer-lhe companhia na estrada.
Ninguém me conhece.
— Não vão achar estranho uma mocinha feito você viajando em companhia de um padre?
— Ninguém precisa me ver.
— Isso é loucura.
Vou hospedar-me na casa de minha mãe.
O que pensa que ela dirá se me vir chegar acompanhado de uma garota?
— O senhor pode dizer a ela que sou sua assistente.
— Padre não tem assistente.
— Sua empregada.
— Minha mãe conhece Nelma de tanto se falarem ao telefone.
— Então, fico num hotel.
Num bem baratinho, que é para o senhor não ter despesa comigo.
Por favor, deixe.
É a minha chance de sair um pouquinho daqui.
A ideia até que agradava a Augusto.
Ter a companhia de Rafaela durante alguns dias não seria nada mau.
Contudo, temia pela sua segurança e pela discrição que a vida de sacerdote lhe impunha.
Não queria despertar a curiosidade das pessoas nem a maledicência dos mais maliciosos.
— Olhe, Rafaela, eu bem que gostaria, mas é perigoso.
— Por que não me deixa decidir se é perigoso ou não?
Afinal, é a minha vida que está em risco.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 11:11 am

— Não apenas a sua vida, mas a de padre Augusto também — interrompeu Nelma, que acabara de entrar com uma bandeja.
Onde já se viu?
Se a descobrem, ele vai preso junto.
— Obrigado pela preocupação, Nelma, mas posso decidir isso por mim mesmo — objectou Augusto, um tanto contrariado com aquela interferência deveras racional e coerente.
— O senhor vai se arriscar — prosseguiu Nelma, aborrecida.
Essa menina não tem juízo, mas o senhor há de ter.
— O que é que tem, Nelma? — irritou-se Rafaela.
Passo os dias trancada aqui dentro, sem fazer nenhuma queixa.
O que tem de mais acompanhar padre Augusto nessa viagem?
— Além de tudo, é mal-agradecida.
Fica trancada aqui dentro para salvar a vida, gastando o dinheiro e a comida de padre Augusto.
E eu, cozinhando e lavando para você, que não faz nada o dia inteiro.
— Não faço nada porque você não deixa!
Quantas vezes quis ajudar?
— Por favor, moças, peço que encerrem essa discussão — ponderou Augusto.
Não é a hora mais apropriada para termos essa conversa.
As duas arrependeram-se ao mesmo tempo.
A situação provocara o desabafo de ambas, que apenas se toleravam.
Augusto estava triste com a morte do pai, e a discussão das duas mulheres não passava de um rompante de egoísmo.
— Desculpe-me, padre — adiantou-se Nelma.
O senhor tem razão.
Numa hora dessas, não devíamos ficar discutindo nossos problemas, que são pequenos em relação ao seu.
— Não se trata disso.
É que gosto das duas e não me agrada vê-las discutindo.
Nelma lançou um olhar de desafio para Rafaela e colocou o jantar de Augusto na mesa.
Ele mal tocou na comida, levado pelas lembranças da infância.
Nem todas eram difíceis.
Houve momentos de prazer entre ele e o pai, sobretudo antes da época das caçadas.
Quando ele era bem pequenino, o pai era carinhoso e atencioso.
Levava-o ao parque, ensinara-o a andar de bicicleta, iam juntos ao cinema e tomavam sorvete.
Só quando Jaime começou a caçar foi que as coisas se complicaram.
Daí em diante, a infância cedeu lugar à masculinidade, e o pai começou a exigir-lhe atitudes de homem, ao invés do comportamento infantil.
Tudo isso era passado.
O pai agora estava morto, mas não mais distante do que estivera em toda sua vida.
A mãe precisava dele naquele momento, e era sua obrigação atendê-la.
O que lhe preocupava mais era a situação de Rafaela.
Levá-la com ele era muito perigoso, contudo, deixá-la sozinha com Nelma talvez não fosse o mais aconselhável.
Era visível que a governanta não gostava de Rafaela.
Tolerava-a em respeito a Augusto, mas as duas não se davam.
Com esse pensamento dominando suas ideias e encobrindo o facto de que não queria afastar-se de Rafaela, Augusto decidiu que deveria levá-la.
— Você vai comigo — Augusto anunciou, sem olhar para Nelma.
Vai-lhe fazer bem.
— O quê? — indignou-se a criada.
Ficou louco, padre Augusto?
E se a polícia descobrir?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 11:11 am

— Só vai descobrir se você contar.
Nelma se persignou várias vezes e exclamou horrorizada:
— Deus me livre, padre, que não sou traidora!
Eu só acho que é arriscado.
— Rafaela está certa, Nelma.
Ninguém vai desconfiar de nada.
Para todos os efeitos, é só uma moça viajando em companhia do irmão, que é padre.
— O senhor vai mentir? — retrucou Nelma, cada vez mais indignada.
Mas o senhor nunca mentiu!
— É por uma boa causa.
É uma mentirinha que não vai prejudicar ninguém.
E depois, só mentirei se for preciso.
— O que vai dizer a sua mãe?
— Nada. Vou deixar Rafaela num hotel onde ninguém me conhece.
Nelma estava furiosa, porém, não tinha o que dizer.
Olhou para Rafaela, esperando que a menina lhe devolvesse o olhar com o brilho da vitória, mas ela não fez nada.
Nem sequer lhe deu atenção.
Tinha os olhos grudados no padre.
O brilho que se desprendia de seus olhos não era de vitória, mas de paixão.
— Isso não está certo — murmurou Nelma.
— Você não tem com o que se preocupar — tranquilizou Augusto.
Dentro de uma semana, no máximo, estaremos de volta.
Agora, com licença.
Vou arrumar umas coisas para levar e sugiro a você, Rafaela, que faça o mesmo.
Partiremos amanhã bem cedinho.
O coração da jovem parecia haver duplicado de tamanho, de tão cheio que estava de emoção e euforia.
Passar uns dias longe dali era quase um sonho.
Seria muito bom retomar um pouco da liberdade, principalmente em companhia de padre Augusto.
O carro de padre Cláudio era um Fusca amarelo colonial ano 1971, que ele estacionou em frente à casa.
Ainda estava escuro quando o padre chegou.
Desligou os faróis e saltou, enquanto Augusto ajudava Nelma a fechar o pesado portão de madeira da garagem.
— Chegou cedo — falou Augusto, dando-lhe um abraço fraterno.
— Não foi o combinado? — retrucou Cláudio, entregando-lhe as chaves do Fusca.
Já está abastecido.
— Obrigado.
Sabia que podia contar com você.
— É para isso que servem os amigos, não é?
— Pode deixar que vou cuidar direitinho do seu carro.
— Não estou preocupado com isso.
Vá em paz, com calma.
Sua mãe precisa de seu conforto, e seu pai espera um último adeus.
Logo em seguida, Rafaela saiu carregando sua mala e a de Augusto.
— Bom dia, padre — cumprimentou a jovem.
— Bom dia, minha filha — respondeu Cláudio, abrindo o porta-malas do carro para colocar as bagagens.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 11:11 am

Notando que eram duas, questionou:
— Por que tantos volumes?
Não vá me dizer que você também vai!
Rafaela abaixou os olhos, envergonhada.
Augusto sentiu ainda mais vergonha do que a moça, já que havia confessado seus sentimentos.
— Achei que seria boa ideia levar Rafaela comigo.
É uma oportunidade para que ela saia um pouquinho.
— Vocês dois são loucos — afirmou Cláudio, categórico.
Não vêem o perigo que correm?
Augusto não sabia se ele se referia ao risco de serem presos ou da tentação da carne, mas respondeu convicto:
— Não corremos risco algum.
Estou seguro do que faço e sei que nada nos acontecerá.
Cláudio entendeu o recado, embora não se convencesse.
Achava que Augusto era muito inexperiente para fazer aquele tipo de afirmação.
— Eu disse a eles que era arriscado — concordou Nelma, que vinha carregando uma sacola com alguns sanduíches e frutas.
Mas ninguém quis me ouvir.
— Não vai acontecer nada — asseverou Augusto, encarando Cláudio de forma expressiva.
Cláudio fitou Rafaela com uma certa antipatia, que tratou logo de ocultar.
Apanhou Augusto pelo braço e conduziu-o para dentro de casa, a pretexto de ir beber água.
Na cozinha, desabafou:
— Pelo amor de Deus, Augusto!
Você ficou maluco? Sabe o que está fazendo?
Está, deliberadamente, entregando-se nas mãos do demónio!
— Rafaela não é nenhum demónio, e você sabe disso.
— É força de expressão.
Mas ela é uma tentação, a sua tentação!
O que pensa que vai acontecer?
— Nada.
— Quanta ingenuidade!
Vocês dois, sozinhos em outra cidade.
— Achei que você estivesse preocupado com a polícia.
— Também. É outra loucura.
— Você não entende, Cláudio.
Não posso deixar Rafaela sozinha com Nelma.
— Por que não?
— Nelma não gosta dela.
Quando estou aqui, ela me reza e não faz nada.
Mas é hostil com Rafaela muitas vezes.
— Por que será? — Cláudio retrucou.
— Nada lhe dá o direito de maltratar Rafaela.
Na minha ausência, ficaria ainda pior.
— Posso cuidar disso para você.
— Agradeço, mas não.
Acho melhor evitar problemas.
Cláudio foi obrigado a silenciar.
Augusto se fazia surdo à voz da razão.
Acompanhou o amigo até o carro, onde Rafaela o aguardava.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 29, 2015 11:12 am

Pela cara de Nelma, dava para perceber sua contrariedade e revolta.
Rafaela entrou no banco de trás e deitou-se, cobrindo-se com uma manta.
Iria escondida até saírem da cidade, quando então passaria para o banco da frente, colocaria óculos escuros e colocaria um lenço ao redor da cabeça, amarrando-o embaixo do queixo.
Para todos os efeitos, eram apenas um padre e sua irmã a caminho de sua cidade natal.
Sem muito entusiasmo, despediram-se e partiram, logo que os primeiros raios de sol se insinuaram timidamente por detrás dos morros.
Rafaela teve tempo apenas de contemplar o céu e as nuvens pálidas do alvorecer.
O cansaço e o sono logo a dominaram.
Em poucos minutos, adormeceu.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 11:11 am

Capítulo 20

Na pia do banheiro, Reinaldo lavava as mãos sujas de sangue.
Tivera uma noite movimentada, muito trabalho com o jornalista que já interrogava havia quase um mês.
Não conseguira arrancar dele as valiosas informações que procurava sobre pessoas envolvidas com a luta armada.
O homem não resistira e morrera.
À porta do banheiro se abriu e Paulão, seu colega de torturas, entrou.
— O que deu em você, cara? — indagou exasperado.
— Nada — respondeu Reinaldo, perplexo. — Fiz o meu trabalho.
— Não precisava tê-lo matado.
— Desde quando você sente pena desses traidores?
— Não sinto pena. Mas ele podia ter-nos dado mais informações.
— Ele não sabia de nada. Estava desperdiçando meu tempo. Foi melhor ter morrido.
Reinaldo enxugou as mãos e já ia sair quando Paulão o segurou pelo braço.
— Eu o conheço muito bem — Paulão falou. — Está com raiva de alguém?
— Não — Reinaldo respondeu secamente.
— Então por que essa atitude?
— Estou nisso há bastante tempo para saber quando meu trabalho é inútil. Enxergo de longe os delatores e reconheço os durões. E aquele jornalista era durão. Não ia entregar ninguém. Estava me fazendo perder tempo e paciência.
— Ainda assim, acho que tínhamos uma chance.
Você se precipitou em matá-lo.
Reinaldo não respondeu.
Se Paulão soubesse o real motivo por que ele matara o jornalista, seria a sua ruína.
— Deixe isso para lá — Reinaldo tornou com azedume.
O cara não era ninguém, era um nada.
Morreu e pronto, foi merecido.
Para não chamar a atenção, Reinaldo mudou de assunto.
Deu um aperto no ombro do outro e convidou-o para um café.
Estava cansado, virara a madrugada interrogando o jornalista para esquecer o fracasso com Augusto.
Nunca antes o havia visto.
Contudo, assim como ele, o jornalista era homossexual. Reinaldo não se recordava de tê-lo encontrado, mas o sujeito se lembrava dele.
De olhos fechados, recordou os últimos momentos com o jornalista antes de matá-lo.
— Ande, fale! — gritara Reinaldo, entre uma bordoada e outra.
Sei que há mais gente como você nessa luta.
O jornalista era valente, nada dissera.
Em dado momento, cuspiu sangue no chão e fixou os olhos inchados em Reinaldo.
— Conheço você — afirmou com desdém, e Reinaldo se aproximou intrigado.
Da galeria Alasca(9)...
Reinaldo não poderia descrever o ódio e o medo que sentira naquele momento.
Não costumava frequentar a galeria com assiduidade.
Ia lá de vez em quando, sempre que estava à procura de sexo fácil e sem complicações.
— O que está dizendo, cachorro? — esbracejou Reinaldo, espumando de raiva.
O que está insinuando?
Os olhos dele adquiriram um tom vermelho como ferro incandescente, e um rubor candente espalhou-se por toda sua face.
— Descobri seu segredo, não foi? — prosseguiu o jornalista, mordaz.
O soldado machão e com cara de mau não passa de uma bicha.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 11:11 am

O horror que sentiu naquele momento foi tão grande, que Reinaldo perdeu a cabeça.
A última coisa que poderia permitir era que aquele traidor revelasse seu segredo mais guardado.
O pânico o dominou de tal forma, que ele não conseguiu se controlar.
Agarrou o jornalista pelo pescoço e puxou-o para fora da cadeira, batendo com a cabeça do homem na parede várias vezes.
Quando ele caiu ao chão, Reinaldo passou a mão no bordão que tinha para essa finalidade, desferindo vários golpes que praticamente esfacelaram o crânio do outro.
Mesmo quando o jornalista parou de se mexer, Reinaldo continuou a golpeá-lo, só parando quando Paulão entrou na sala e, surpreso com a violência extremada, segurou sua mão.
Reinaldo soltou o bastão no chão e olhou para o companheiro, as mãos manchadas com o sangue de sua vítima.
— O que você fez? — indagou Paulão, abaixando-se para verificar a pulsação do jornalista.
Você o matou!
— E daí? — tornou Reinaldo, aliviado.
— Ele disse alguma coisa?
— Não.
— Mas então, por que...
Não pôde concluir a frase, porque Reinaldo já havia disparado em direcção ao banheiro, deixando Paulão atónito.
Sabia que se havia excedido, no entanto, seu segredo permaneceria em segurança, e isso era tudo o que importava.
Depois que Reinaldo deixou o banheiro, voltou para sua sala demonstrando sinais de exaustão.
Paulão foi atrás dele e comentou preocupado:
— Você tem trabalhado demais.
Devia tirar uma licença.
— Estou bem.
— Ninguém aguenta esse ritmo.
Você quase não descansa, não sai do quartel.
O que é que há? Algum problema?
— Estou bem, já disse.
— Você não me engana.
Nunca vi ninguém trabalhar tanto assim.
— Gosto do que faço.
— Pode gostar, mas você há-de concordar que chega uma hora que cansa.
Ver toda essa gente morrer...
— Matar toda essa gente, você quer dizer.
— Será que estou sentindo uma pontinha de remorso?
Foi por causa do jornalista?
— Dá para esquecer esse jornalista?
Por que fica insistindo nisso?
O cara não valia nada para nós.
Não sabia de nada.
Além de tudo, era veado.
— Ah! Então é isso.
Você também não gosta dessas bichas, não é? — Reinaldo não disse nada.
Como você descobriu?
Ele cantou você?
Paulão deu um sorriso irónico, sem perceber o ar de revolta de Reinaldo.
— Percebi pelo jeito dele — tornou Reinaldo com raiva.
O cara era um fresco, desmunhecava e gritava feito uma mulherzinha.
Mereceu o fim que teve.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 11:11 am

— Também acho, Reinaldo.
Se é assim, você fez bem.
Uma bicha a menos no mundo.
— Essa gente me dá nojo — disse Reinaldo contrariado, quase sem conseguir pronunciar as palavras.
Odeio todo tipo de homossexual.
A cada frase mentirosa, o coração de Reinaldo ardia com a revolta e o desprezo que sentia por si mesmo.
Quanto mais Paulão recriminava e discriminava pessoas que eram iguais a ele, mais humilhado se sentia e tentava transmitir um repúdio que não lhe pertencia.
Em vez de se aceitar e conviver pacificamente com sua orientação sexual, Reinaldo descontava no mundo o que considerava sua vergonha.
— Vá para casa, Reinaldo — ele ouviu, distante, a voz de Paulão.
Você virou a noite, deve estar morto de sono.
Vá descansar.
— Acho que vou mesmo — concordou Reinaldo, subitamente sentindo o efeito de um cansaço muito mais emocional do que físico.
A caminho de casa, Reinaldo não parava de pensar na mãe e em Augusto.
O jornalista já ficara esquecido, fora só mais um que tivera que matar.
Contudo, a imagem da mãe surgiu-lhe em sonhos.
Acordou suando, apavorado com sua aparência tenebrosa e triste, as mãos estendidas como a cobrar-lhe algo.
Custou a adormecer novamente, dessa vez porque a figura linda e marcante de Augusto não lhe saía da cabeça.
Mesmo aquela batina não fora suficiente para esconder-lhe a beleza.
A seu lado, vultos indiscerníveis rondavam sua cama, zelando para que sua consciência não se aproximasse da razão.
Não era tarefa das mais difíceis, já que a natureza de Reinaldo era espontaneamente violenta, vingativa e cruel.
Enquanto rolava na cama de um lado a outro, alternando a imagem da mãe com a de Augusto, questionava-se sobre o motivo pelo qual nascera daquele jeito.
Queria muito ser como todo mundo, no entanto, não conseguia.
Sua natureza não era aquela.
Chegava a odiar as mulheres e a facilidade que tinham de se exibir para os homens, sem levantar qualquer sentimento que não fosse a lascívia.
Não queria ser mulher.
Gostava de ser homem tanto quanto gostava de homens.
Não compreendia o porquê daquela preferência e julgava-se punido por Deus.
Quanto mais pensava nisso, mais usava os presos como bodes expiatórios, descendo mais fundo na senda tortuosa do desamor.
Reinaldo não conhecia o valor do respeito.
Não respeitava a si mesmo, muito menos o próximo.
Não imaginava que toda sua vida teria sido mais fácil e menos sofrida se tivesse aceitado sua homossexualidade como facto natural que é, ao invés de tentar ocultá-la sob o véu da crueldade.
Torturar e matar foram as formas que encontrara de se vingar do mundo e de acusá-lo pelo suicídio da mãe.
Nessas horas, a imagem da mãe surgia-lhe na mente.
Era a tortura que a vida lhe impunha por sentir-se culpado pela morte de Alcina.
Reinaldo não era culpado pela infeliz escolha da mãe.
Pelo desgosto e fraqueza, sim.
Ao abrir os olhos no mundo espiritual, Alcina se viu totalmente imersa em uma banheira de sangue, sem conseguir se mover ou respirar.
Queria sair, contudo, a ideia fixa de que cometera um crime a mantinha presa ali.
Durante um tempo, aceitou o inevitável, vendo apenas sombras se esgueirando sobre a superfície turva da água.
Esses vultos, muitas vezes, causavam-lhe uma sensação de dor.
Eram espíritos sanguessugas, para ela atraídos devido à enorme quantidade de energia vital que ela, com a morte súbita, liberara no astral.
Um dia, porém, alguém dela se apiedou.
O espírito de uma jovem desconhecida, saciada após sugar as energias que a circundavam, abaixou-se perto da banheira e sussurrou, sem que seus comparsas a ouvissem:
— Hei! Psiu! Experimente rezar.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 11:11 am

Alcina levou um susto ao ouvir aquela voz.
Tinha medo de orar, não se sentia digna.
No entanto, não custava tentar.
Timidamente, mas com enorme confiança, pensou em Deus, pedindo ajuda.
Na mesma hora, um fio cintilante insinuou-se pela banheira, aos poucos substituindo a água ensanguentada por uma claridade suave e refrescante, banhando de luz o corpo de Alcina.
Não demorou muito, e ela estava fora dali.
Levada para uma cidade astral, recebeu tratamento adequado.
Nada de julgamentos nem críticas, apenas energia de amor para suavizar suas dores.
Seu mentor esclareceu que punir alguém que tomou essa atitude desesperada seria falta de amor.
Ninguém que se mata está em equilíbrio.
O remorso que atormenta o suicida favorece a criação mental de ambientes de sofrimento, levando vários espíritos em igual situação a construir vales e cidades de atmosfera densa para punir-se por suas culpas.
São eles mesmos que se atiram nesse ambiente de dor.
Ninguém os leva para lá, nem os aprisiona ao corpo.
Nenhum suicida está condenado a reviver seu acto nem a sofrer com os vermes da putrefacção.
Não há crime.
Anos de cultura religiosa é que fortalecem essa crença, levando os suicidas a crer na expiação, a permanecer por anos em submundos astrais de miséria e aflição.
Para Alcina, foram poucos meses de sofrimento.
A oração facilitou o auxílio e, com ele, a compreensão.
Restava apenas a imensa carga de energia vital impregnada em seu corpo fluídico, que ela foi orientada a gastar no trabalho espiritual.
De Reinaldo, não pôde mais se aproximar, para que o desequilíbrio dele não evocasse novamente seus piores momentos de dor.

9. Situada em Copacabana, a Galeria Alasca foi ponto de encontro de homossexuais desde a década de 1960.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 11:11 am

Capítulo 21

Os solavancos no carro despertaram Rafaela, que levantou o pescoço dolorido para espiar a estrada.
O sol já ia a pino, e o vento penetrava pela janela entreaberta, atingindo-a directo no rosto.
Pelo retrovisor, Augusto viu quando a jovem se levantou e sorriu para ela, que devolveu o sorriso ao reflexo que a mirava.
— Onde estamos? — Rafaela indagou, sentando-se e massageando o pescoço.
— Chegando a Juiz de Fora.
Você dormiu um bocado.
— Falta muito?
— Hum... Creio que mais umas seis horas, mais ou menos.
— Tudo isso?
— Uberlândia é longe.
— Por que não veio de avião?
— Não gosto de voar.
— Que bom.
— Por que diz isso?
— Porque se o senhor viesse de avião, eu não poderia vir junto.
Augusto assentiu e, tornando a olhar pelo retrovisor, indagou:
— Quer dar uma parada para um café ou ir ao banheiro?
— Seria bom.
— Não se esqueça dos óculos escuros e do lenço.
Pararam em um posto de gasolina na beira da estrada.
Enquanto Rafaela ia ao toalete, Augusto pediu dois cafés, que beberam com os sanduíches que Nelma havia preparado.
— Está cansada? — questionou o padre.
— Fiquei com dor no pescoço, mas tudo bem.
Se é para sair um pouco, vale a pena.
— Você já pode passar para o banco da frente.
— Farei isso.
Agora sentada ao lado de Augusto, Rafaela aproveitava a viagem.
Como ventava muito, apanhou a manta no banco de trás para cobrir-se.
— Quer que eu feche um pouco mais a janela?
— Não precisa.
Não gosto de ficar abafada.
Fizeram o resto do percurso conversando coisas amenas a princípio, depois assuntos políticos, e, finalmente, passaram a trocar confidências.
— Você e seu namorado estavam juntos havia muito tempo? — questionou Augusto.
— Pouco mais de um ano.
— Você gostava muito dele, não é?
— Muito. Pensávamos em nos casar.
— Imagino o quanto você deve ter sofrido com a sua morte.
Rafaela virou o rosto para a janela, sentindo-se culpada por estar platonicamente traindo o namorado morto com um padre.
— Tenho sonhado com ele — declarou.
Novamente o monstro do ciúme incomodou Augusto, mas ele conseguiu disfarçar e perguntou com aparente indiferença:
— Sonhos bons?
— Não sei exactamente.
Ele me diz algo que não consigo entender.
O senhor acredita em espíritos?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 11:12 am

Augusto hesitou antes de responder:
— Acredito.
— Mesmo? — Augusto assentiu.
Acha que eles são bons ou ruins?
— Acho que podem ser as duas coisas.
— Mas isso não é crença da Igreja, é?
— A Igreja não acredita na comunicação dos mortos com os vivos — Augusto respondeu.
— E o senhor?
Augusto fez uma pequena pausa e balançou a cabeça:
— Embora os dogmas da Igreja afirmem que essa comunicação não é possível, já atendi muitas pessoas que dizem ter tido contacto com espíritos, pessoas lúcidas e ponderadas, algumas até bastante racionais.
Eu mesmo já vi almas circulando pela igreja.
— Sério?
O padre assentiu e continuou:
— Em vista disso, andei pesquisando o assunto.
Fui em busca de conhecimento e descobri a doutrina de Allan Kardec, as obras de Chico Xavier, Bezerra de Menezes, Camille Flammarion, Léon Denis, Cairbar Schutel e outros.
— Nossa! Você leu tudo isso?
— Estou lendo aos poucos.
— Já havia ouvido falar em Allan Kardec e Chico Xavier, é claro, mas essa turma toda aí é novidade.
— São todos escritores clássicos da doutrina espírita.
Cada um à sua maneira, centrados na divulgação das verdades divinas.
São pessoas que vieram ao mundo para somar conhecimentos às necessidades humanas, assim como muitos que há por aí e outros que ainda virão, com a tarefa de divulgar a espiritualidade sob várias formas, em diversos segmentos.
Mas todas, sem excepção, com o mesmo objectivo final, que é o desenvolvimento do amor e a redescoberta da espiritualidade no ser humano.
— Padre! — exclamou Rafaela após algum tempo, deveras surpresa.
Eu jamais poderia imaginar que o senhor acreditasse no mundo oculto.
Augusto sorriu e acrescentou satisfeito:
— Que o bispo não me ouça, mas acho tudo isso bastante convincente.
As explicações do espiritismo fazem muito sentido.
Senti-me preenchido em meus questionamentos.
Foi uma experiência bastante interessante.
— Quem diria! Um padre espírita.
— Não sou espírita.
Apenas acho que, como não somos os donos da verdade, não devemos desconsiderar outras doutrinas.
Existem muitos mistérios que o homem não consegue ainda compreender, mistérios para os quais o espiritismo trouxe uma luz esclarecedora, numa forma bastante simples de se compreender.
Conhecimentos até então restritos a uma minoria de ocultistas e esotéricos começaram a ser revelados, em linguagem acessível ao ser humano comum.
Acabou-se o tempo das coisas ocultas.
O momento agora é de revelação.
Todo ser humano tem direito ao conhecimento das coisas divinas.
— E Deus?
O Deus dos católicos não condena essas coisas?
— Não existe isso de Deus dos católicos.
Deus é um só, compreendido em várias manifestações que os homens mesmos criam.
— Como assim?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 11:12 am

— Muitos como você dizem que há o Deus dos católicos, o Deus dos protestantes, dos espíritas, dos budistas, dos africanos, dos muçulmanos, dos judeus, de tanta gente!
E no final, é tudo uma coisa só.
Deus é uno, mas as pessoas criam seus dogmas, fazem suas escrituras, adoptam conceitos e tudo mais para definir o que, em essência, é igual para todos.
— Pensando bem, sabe que o senhor tem razão?
Acho que Deus ama a todos, independentemente de suas crenças.
— Por certo — Augusto assentiu.
— Mas o senhor há-de convir que as religiões fazem uma miscelânea danada com tudo isso.
E todas elas têm dogmas que não aceito.
— Não diga que não aceita.
Diga apenas que não preenchem seu coração.
Se você não aceita, resiste à crença estabelecida pelo próximo, que, para ele, é a expressão da verdade.
É da resistência que surgem os conflitos.
Ao passo que, se você respeitar os dogmas religiosos e apenas não os adoptar para você, ninguém vai se sentir ofendido.
Nenhum de nós está em condições de dizer qual a melhor verdade, senão para si mesmo.
— Nunca havia pensado nisso.
— Sei que não.
Isso é sobre respeito.
Se todos tivessem respeito pelo outro, o mundo seria um lugar bem mais amigável, prazeroso e divertido.
Todos seríamos felizes.
— O senhor não acredita em felicidade?
— Acredito, embora não saiba exactamente quantos que se dizem felizes realmente o são.
— Por que diz isso?
— Muitos que se dizem felizes maltratam seus semelhantes, são soberbos, agressivos, maldosos.
Esses são comportamentos que não condizem com a felicidade.
Creio que, no máximo, são pessoas que realizam seus desejos, mas não encontraram ainda a felicidade em sua essência.
A criatura realmente feliz é condescendente, benéfica, caridosa, amiga e paciente.
Porque a felicidade vem do interior da alma, não da satisfação plena dos desejos, que, muitas vezes, está maculada pelo egoísmo.
— O senhor acha que é errado satisfazer os desejos?
— Não acho certo nem errado.
Os desejos devem ser satisfeitos dentro do limite do bom senso.
Temos que eleger nossa própria escala de valores, que é individual.
Se os desejos estão no topo dessa escala, penso que a pessoa anda meio iludida.
— O que tem que vir no topo, então?
— A espiritualização, que passa pelos bons sentimentos e a compreensão da vida.
Ter uma boa moral é fundamental.
— O conceito de moral varia de povo para povo, de época para época.
— É verdade.
E é por isso que estamos caminhando a passos lentos em direcção ao desenvolvimento da humanidade.
Cada prática daninha deixada para trás é uma conquista de todo o planeta.
— Como assim?
— Veja a pena de morte, por exemplo.
Muitos povos ainda a adoptam de forma legalizada.
A moral daqueles que assim o fazem ainda está no olho por olho, dente por dente.
Não podem ser condenados nem criticados.
É o que eles acham certo.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 11:12 am

Muitos pensam que, eliminando o elemento nocivo, estão fazendo um bem à sociedade.
Não sabem que apenas trocam o indivíduo de lugar:
do plano físico, passa ao invisível, fazendo as mesmas coisas que antes, só que com muito mais liberdade.
É claro que ele não vai conseguir atingir fisicamente seus inimigos, mas poderá contribuir para a derrota dos mais frágeis, dos adoecidos com a falta de respeito e de dignidade.
Com o tempo, a certeza na eficácia dessa medida vai-se desintegrando pelo próprio avanço do espírito humano.
Aos poucos, os países vão abolindo a pena de morte, até chegar o dia em que ninguém mais irá adoptá-la.
Essa é a elevação da moral, contida em todos os evangelhos, em todos os livros sagrados: não matar.
Não importa de que lado estejamos, não devemos matar, pois a justiça dos homens é falha e vem permeada de baixos sentimentos, sobretudo a vingança e o ódio.
— E a justiça divina não falha.
— Não falha porque é a justiça da consciência humana, que conhece cada pedacinho de acção, sentimento ou pensamento da alma.
— Como se conserta isso, então?
— Com a mudança de atitudes e crenças, operada, muitas vezes, pela reencarnação.
— O senhor acredita em reencarnação? — Rafaela estava cada vez mais espantada.
— Acredito. É a única explicação para as aparentes desigualdades da vida.
É a oportunidade que Deus nos dá de retomar-mos o equilíbrio.
— O espiritismo acredita em pecado?
— Não. Acredita em responsabilidade e consciência.
Tudo é permitido, mas cada acto gera consequências.
Por isso mesmo, temos que assumir a responsabilidade pelos nossos actos.
— Acho essa história de pecado muito chata.
Ninguém pode viver a própria vida como bem entender.
— O mundo está mudando, talvez tenhamos que rever certos valores.
Tenho observado a natureza humana, é o meu trabalho como sacerdote.
E só o que vejo nas confissões são pessoas comuns tentando viver.
Vejo suas atitudes, seus medos, seus defeitos.
No fundo, todo mundo é igual, ninguém é perfeito mesmo.
Por que Deus faria pessoas imperfeitas, sujeitas ao pecado, só para puni-las depois?
Para mim, não faz sentido.
— E o que faz sentido?
— Penso que o mundo é como um laboratório cósmico.
Estamos aqui para viver as experiências que a vida coloca ao nosso dispor.
— Somos cobaias?
— Somos os cientistas.
Criamos nossa própria sorte, nosso próprio destino.
Cobaias são as situações que a vida nos apresenta.
Com o nosso discernimento, nossa moral, nossos conhecimentos, vamos moldando a vida e experimentando os resultados daquilo que nós mesmos criamos e fazemos.
— Muito interessante sua colocação e nada condizente com as ideias de um padre.
— As ideias não são minhas.
Elas já estão no mundo há muito tempo.
— Eu bem devia esperar algo assim de um padre feito o senhor — observou a jovem, admirada.
— Um padre feito eu?
— É. Bem se vê que o senhor não é um padre tradicional.
Aceita outras ideias, não tem medo de investigar doutrinas novas, nem tem preconceito pelo que é diferente.
— Tenho meus receios.
— Que espécie de receios?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 11:12 am

Augusto olhou para Rafaela de soslaio e respondeu com um certo tremor:
— Sou homem.
Passei por coisas difíceis que me atormentaram por muito tempo.
— De que tipo?
— Acho melhor não falarmos sobre isso.
— Tudo bem — Rafaela fez uma pausa e mudou de assunto.
E o que o senhor pensa sobre sexo antes do casamento?
— Acho que tudo o que é feito com amor tem a bênção de Deus.
— Então o senhor é a favor?
— Sou a favor do amor e do respeito.
— Não sou mais virgem — a jovem revelou, estudando a reacção do padre.
Já transei com Carlos Augusto.
Foi por amor, mas agora que ele morreu, será que algum outro homem vai me querer?
— Se ele amar você, sim.
— Hoje em dia as pessoas não estão mais ligando muito para isso.
— Seus pais não ligam?
— Acho que sim.
Mas eu não ligo.
— Você é da geração jovem.
Tem outros conceitos, está vivendo uma era de rebeldia e mais liberação.
— Isso não o incomoda?
— Sinceramente, não.
Não estou aqui para julgá-la.
O julgamento pertence a Deus.
— O senhor fala em sexo com amor.
Quer dizer então que acha errado fazer sexo só por prazer?
— Errado, não.
No entanto, como tudo o mais, o problema está na falta de respeito e no excesso.
Isso gera desequilíbrio e, consequentemente, atrai o sofrimento.
Todavia, o prazer não pode ser renegado.
Deve ser satisfeito, mas sem promiscuidade nem abusos.
Nesse sentido, não vejo nada de mais.
— Eu também não.
Afinal, sexo é uma necessidade.
Todo mundo sente falta, não é mesmo?
Augusto não respondeu.
Sabia bem aonde a jovem pretendia chegar e mudou de assunto:
— Ainda bem que não tivemos problemas até agora.
E não teremos nenhum.
A viagem está tranquila, graças a Deus.
Percebendo que aquele era um terreno perigoso, Rafaela aceitou a mudança de assunto e não falou mais sobre sexo.
Não queria forçar a barra com Augusto.
— Nunca ouvi o senhor falar de coisas espirituais — observou a jovem.
— Esses não são assuntos para se comentar na igreja ou em casa.
Atrairia a indignação e o julgamento daqueles que não compreendem a questão.
— Por que está conversando comigo?
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 30, 2015 11:13 am

— Porque você é jovem, inteligente e tem a mente aberta.
Rafaela sorriu, satisfeita com o elogio.
— Padre Cláudio também faz esses estudos?
— Ele lê uma coisa ou outra, a título de curiosidade, mas ainda tem a mente muito arraigada aos dogmas canónicos.
— Pois eu adorei essa conversa.
Sinto-me até mais leve.
— Quando conversamos coisas úteis, a alma se preenche e se alegra.
— O senhor é o máximo!
Rafaela não conseguiu evitar o entusiasmo nem o beijo que se seguiu depois.
Foi inocente, um leve toque na face de Augusto, mas encheu-o de um sentimento que lhe trazia medo.
Não disse nada, não conseguiria falar sem deixar explícito o turbilhão que se agitava em seu peito.
Dali em diante, a conversa tomou novos rumos.
Rafaela, contudo, estava realmente impressionada, cada vez mais atraída por aquele padre nada ortodoxo e de uma sabedoria muito distante da convencional.
A jovem não sabia como fazer para conter seus sentimentos.
Às vezes parecia que ele correspondia, outras vezes parecia que não.
Augusto era um mistério em seu coração, um mistério que ela gostaria de desvendar.
Augusto e Rafaela chegaram a Uberlândia pouco depois das três horas, e o padre espantou-se com o avanço da cidade.
Encontrou um hotel afastado do centro, em um local onde imperavam o verde e os pássaros.
Era um hotelzinho bucólico, muito agradável, com chalés equipados com lareira e televisão.
— Não sei quando poderei vir vê-la — Augusto falou, assim que a instalou no quarto.
Tudo vai depender de como está minha mãe.
Por favor, não faça nenhuma bobagem.
Pode sair para dar uma volta pelas redondezas, mas não vá para a cidade.
— Ok. Não se preocupe com nada.
Pode confiar em mim.
Augusto procurou não dar muitas explicações sobre a jovem.
Disse apenas que era sua meia-irmã e que ficaria ali à espera dele.
Depois que Rafaela se acomodou, partiu apressado para o cemitério onde estaria sendo velado o corpo do pai.
Quando chegou, a mãe já havia perdido as esperanças de vê-lo.
O sepultamento fora marcado para as cinco horas, último horário, na esperança de que o filho chegasse a tempo.
Laura abraçou-o em lágrimas, e ele sentiu uma forte comoção ao ver o corpo do pai deitado no caixão, coberto de flores.
Cumprimentou os parentes e aproximou-se.
O rosto de Jaime estava lívido, porém, sereno.
Augusto fez uma oração silenciosa pela sua alma.
Lágrimas vieram-lhe aos olhos, perturbando-o com a ideia de pedir perdão ao pai por não ter sido o filho que ele esperava.
Pensando no que se tornara sua vida, o velho ressentimento incomodou-o.
Augusto lutou consigo mesmo para não lançar acusações indizíveis contra o morto.
Concentrou-se na oração, buscando forças na alma para perdoar o pai por ter-lhe roubado a liberdade de escolha e o futuro.
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Re: Impulsos do coração - Leonel / Mónica de Castro

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