PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 8:09 pm

PARA SEMPRE COMIGO
PSICOGRAFADO POR MARCELO CEZAR

PELO ESPÍRITO MARCO AURÉLIO

“Ao meu pai,
Gilberto Rodrigues Gândara
Meu querido, meu velho, meu amigo.”


Sinopse:

Caio é acusado e preso por um crime que não cometeu.
Em seu desespero quer apenas provar que é inocente.
Agora só Deus pode ajudá-lo.

Será que ele conseguirá ajuda Divina?
Ou ele não é realmente inocente aos olhos da Vida?

Deus pune?
Ou a vida tem outras razões para nos colocar diante de difíceis desafios?

As leis da Vida são mais infalíveis do que as dos homens.
Neste extraordinário romance você terá a oportunidade de entender os segredos da inteligência que move os destinos do homem.


LUIZ GASPARETTO
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 8:09 pm

Prólogo

Caio revirou-se várias vezes na cama.
O suor escorria-lhe pela fronte, sem cessar.
Estava aturdido, preocupado, muito preocupado.
A atitude que tomara horas antes teria sido a mais correcta?
Tinha de deixar a casa de Loreta sem avisar nem mesmo a polícia?
Deveria confiar em Isilda?
Ele não havia feito nada de errado, sabia disso.
Mas sua consciência lhe chamava a atenção para a falta de prudência.
Por que não ligara para uma das meninas da Casa da Eny?
Por que ficara apavorado e saíra correndo da casa de Loreta, como se fosse um assassino?
Custava ter esfriado a cabeça e pensado de maneira sensata, a fim de não arrumar problemas no futuro?
E agora, o que fazer?
Sua cabeça latejava.
O fluxo de pensamentos era intenso e não o deixava conciliar o sono.
O jovem consultou o pequeno relógio sobre a cabeceira e viu que logo o sol ia aparecer.
Mais um dia.
E como seria esse dia?
Com certeza, não mais como antes.
Não depois do que ocorrera.
E se a polícia viesse atrás dele?
Ele juraria inocência, mas tinha certeza de que a corda sempre estoura no lado mais fraco.
Caio era pobre.
E fazia alguma ideia da diferença de tratamento dada pela justiça a alguém sem sobrenome importante ou recursos.
Se fosse a julgamento, como iria se defender e provar sua inocência?
Talvez fosse melhor ir à polícia – foi o que sua consciência lhe sugeriu.
— Isso não!
Agora já é tarde demais – rebateu para si.
Novamente aquela voz inspirava-lhe tomar atitude que não viesse a lhe causar problemas mais à frente.
Era quase um sussurro, mas perfeitamente audível, soava ser uma voz familiar, amiga.
— Vá até a delegacia.
Conte a verdade.
O delegado vai entender e você não terá problemas no futuro.
Entretanto, o rapaz estava lutando contra essa corrente de pensamentos e deixou-se dominar pelo medo e insegurança.
— Perdi o sono.
Vou me levantar.
Chega de pensar no que deveria fazer, oras – tornou para si mesmo, fazendo movimento brusco com uma das mãos, como se estivesse botando sua consciência para correr.
Caio finalmente se levantou movimentos delicados, a fim de não fazer barulho e acordar Rosalina, sua mãe, que iria levantar-se dentro de alguns minutos para pegar no batente.
Ela merecia um pouco mais de descanso, visto que dava duro para sustentar a ambos e ele levava uma vida de almofadinha, como se tivesse condições de ser um playboy de verdade.
Viviam em uma casinha de dois cómodos, todinha feita em madeira, de péssima qualidade.
No inverno o vento frio entrava por tudo quanto era fresta e no verão, a casa mais se assemelhava a uma fornalha.
Era composta de uma cozinha e um quarto.
No quintal ficava outra casinha, também de madeira, que consistia num cubículo fechado e no meio havia um buraco cavado na terra por aonde iam às necessidades fisiológicas.
Quando enchia, era hora de mudar a casinha de lugar e cavar novo buraco.
Ainda naquele bairro pobre e afastado da cidade não havia chegado esgoto, água encanada, asfalto, nada de infra-estrutura básica.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 8:09 pm

Caio olhou ao redor, fez negativas com a cabeça.
Apanhou seu maço de cigarros e foi até o quintal.
Aspirou o ar quente da madrugada que se findava e, num movimento rápido, acendeu e tragou vagarosamente seu cigarro.
— Não posso mais ficar aqui nesta cidade.
Eu posso ser preso e, aí sim, minha vida estará arruinada.
Ele deu sucessivas tragadas e jogou o cigarro longe.
Após soltar a fumaça pelo nariz tornou, aflito:
— Preciso e quero ir para a capital.
Vou ter de antecipar meu sonho.
Não tenho ainda condições de me sustentar, mas não vejo alternativa.
Vou pedir ajuda à Sarita.
O rapaz respirou fundo, andou até a murada, abriu a portinhola da casa e estugou o passo.
Precisava ir ao encontro de sua amiga.
Fazia algum tempo que Caio acalentava o desejo de sair de sua cidade natal, Bauru, e tentar a sorte na capital paulista.
Depois desta madrugada, talvez fosse à hora de dar novo rumo à sua vida.
O que acontecera na casa de Loreta horas atrás anteciparia um sonho reservado para o futuro.
Agora Caio precisava ir embora.
Melhor, ele tinha de partir de qualquer jeito.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 8:10 pm

CAPÍTULO 1

Distante poucas horas da capital e com população superior a trezentos mil habitantes, a cidade de Bauru, situada na região central do Estado de São Paulo, era – e ainda é – considerada uma das mais promissoras do país, principalmente em função da intensa actividade comercial, historicamente favorecida por sua posição geográfica e invejável estrutura de transportes.
É cidade conhecida em todo o território nacional, seja pelo sanduíche que leva seu nome – invenção de um conterrâneo —, seja pelo facto de quase ter se tornado capital do Estado de São Paulo em fins da década de 1960.
Em todo o caso, além de vender simpatia e hospitalidade, o município, há anos exerce a função de pólo centralizador das actividades comerciais e de serviços, além de figurar num processo recente e crescente de expansão industrial.
Bauru também é nacionalmente conhecida por ter abrigado um dos bordéis mais famosos do Brasil.
Era o bordel da Eny, popularmente conhecido como Casa da Eny.
Eny montara o prostíbulo anos atrás e tinha um séquito de garotas bonitas e encantadoras, escolhidas a dedo para saciar toda a sorte de fantasias sexuais de seus clientes endinheirados.
Era um bordel decente e de clientela distinta, frequentado por artistas, empresários, políticos e boa parcela de indivíduos da alta sociedade.
Não obstante, no fim da década de 1970, a liberação dos costumes produzidos na sociedade – como o sexo livre, a emancipação da mulher e a promulgação do divórcio, dentre outras – fez com que os homens, de uma maneira geral, fossem cada vez menos aos bordéis ou prostíbulos para a realização de suas práticas sexuais.
A virgindade perdia seu valor, arrancava-se enorme peso cravado sobre os ombros da mulher por séculos e as moças podiam permitir-se a experimentar o sexo antes do casamento.
As casadas iam perdendo, aos poucos, os pudores e se permitiam uma vida íntima mais satisfatória com seus maridos.
Os motéis cresciam vertiginosamente e Eny, pela mudança dos tempos, fora obrigada a pôr seu estabelecimento à venda.
Rosalina, a mãe de Caio, trabalhava no bordel.
Ela não era uma das meninas da Eny.
Rosalina era mulher que não possuía atractivos para esse tipo de negócio e também sua rigidez moral não permitia que ela sequer sonhasse em se meter numa profissão dessas.
Era mulher que preferiria passar fome a se submeter a esse tipo de serviço, como ela mesma frisava.
Rosalina era mulher forte, valente, cheia de entusiasmo.
Vencera as adversidades da vida com coragem e optimismo e nunca se deixara abater, mesmo quando a tragédia, por duas vezes, batera à sua porta.
Primeiro foi à morte do marido, quando os dois filhos ainda eram pequenos.
Um enfarte fulminante tirou-o de cena e Rosalina teve de dar duro para sustentar as crianças.
Viúva, sem os rendimentos do marido e sem parentes, ela precisou de trabalho.
Rosalina era boa cozinheira e era boa de faxina.
Por meio de uma amiga foi parar na casa de família rica e tradicional de Bauru.
Recebeu ajuda da família e conseguiu, ao longo de alguns anos, construir sua casinha de madeira.
Não era uma casa como ela sonhara para si e seus filhos, mas pelo menos não precisava mais se preocupar com aluguer.
Tinha seu cantinho, seu lar.
Uma grande conquista para quem nunca tivera nada na vida.
Tudo parecia caminhar para o melhor, quando nova tragédia abateu—se sobre sua vida.
Numa tarde qualquer, anos atrás, sua filha Norma, de dezoito anos recém completados, ao sair de uma loja de aviamentos, foi atropelada e não resistiu aos ferimentos.
Morreu no asfalto, mais precisamente num dos cruzamentos da Rua Araújo Leite.
Rosalina sentiu o coração estraçalhar, tamanha dor pela perda da filha, mas não sucumbiu e tratou de levar a vida adiante.
Precisava continuar viva e com saúde para encaminhar o filho Caio, na época um rapazote de pouco mais de catorze anos.
Embora rígida na moral que permeava sua vida, Rosalina era livre de preconceitos.
Mal sabia escrever seu nome, contudo tinha uma sensibilidade de colocar qualquer letrado no chão.
Era uma mulher sábia.
Continuava trabalhando como doméstica para aquela família rica.
Como dividia seu trabalho com outras empregadas no casarão, sobrava-lhe tempo para serviços extras.
Foi assim que conseguiu trabalho na casa da Eny.
Rosalina entrava às três da tarde e trabalhava até as sete da noite, quando os primeiros clientes davam as caras no bordel.
Caio chegava ao bordel pouco antes das sete da noite e esperava pela mãe, nos fundos da casa.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 8:10 pm

De lá até a casa deles era uma caminhada longa, permeada por algumas ruas desertas e sem iluminação.
O rapaz religiosamente encostava-se à porta dos fundos do bordel todos os dias.
Saía da escola e ia directo para a Casa da Eny.
Num desses dias, a professora passou mal e as aulas terminaram mais cedo.
Caio decidiu ir directamente ao bordel e chegou lá muito antes das sete da noite.
Sem ter o que fazer, sentou-se em um degrau da escada que dava acesso a um pequeno quarto contíguo do estabelecimento, quando foi surpreendido por uma das garotas que trabalhava no local.
— O que faz por aqui?
— Estou esperando minha mãe.
A moça desatou a rir.
— Esperando a mãe? Aqui?
— É
— Tem certeza?
— Sim, tenho. Por quê?
— Por nada – ela levou a mão à boca, a fim de abafar o riso.
— Qual a graça?
— Nenhuma. Desculpe-me, não quis ofendê-lo.
Mas é que aqui...
Ele a cortou e respondeu seco:
— Eu sei o que é esse lugar – apontou.
Uma casa de viração, de venda de sexo.
— Esperto – ela mudou o tom. – Não conheço moça aqui que tenha criança e.
—Escute dona, estou esperando minha mãe, a Rosalina.
Ela faz faxina aqui todos os dias.
— Ah, você é o filho da Rosalina...
— E não sou criança.
Vou completar dezassete anos semana que vem.
— Hum, bela idade – redarguiu a moça, com a voz carregada de malícia.
O rapaz corou. Nesse aspecto era tímido.
Caio nunca havia tido relações sexuais com mulher nenhuma, mas já era esperto o suficiente para perceber os olhares de cobiça que a jovem lhe dirigia.
— Você tem um rosto lindo.
— Obrigado.
— Poderia ser modelo.
— Está de brincadeira comigo?
— Não, por quê?
— Modelo?!
— Estou falando sério.
— Como? Nesta cidade?
— Não. O mundo não se restringe a Bauru e adjacências.
Falo em ser modelo de verdade, ir a São Paulo, tentar uma carreira profissional.
Os olhos de Caio brilharam emocionados.
— Puxa, ir a São Paulo, tornar-me famoso, que maravilha... — ele desanimou no mesmo instante.
Não tenho como ir.
Sou pobre, estou ainda no ginásio e....
A moça aproximou-se e o apalpou na altura da virilha.
O rapaz ficou atónito.
Ela deu uma risadinha.
Caio corou, sua face ardia de vergonha.
Ela percebeu e procurou ser gentil.
Pegou em sua mão e foi puxando—o para dentro de casa.
— Meu nome é Sarita, trabalho aqui há alguns anos.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 8:10 pm

— O meu é Caio.
— Bonito nome.
Nunca se deitou com uma mulher?
O rapaz moveu negativamente a cabeça para os lados. Sarita considerou:
— Prometo que vou ser boazinha.
E, de mais a mais, preciso conferir e ver se você tem mesmo potencial...
Caio sorriu timidamente para a moça e deixou-se conduzir.
Entraram no bordel.
Os clientes ainda não haviam chegado e Sarita dirigiu-se até seu quarto, sem antes dar uma espiadinha para ver se Eny, ou uma das garotas, ou mesmo Rosalina não iriam pegá-los de supetão.
Caio foi conduzido até um quarto no piso superior e Sarita pôde conferir de perto os atributos do garoto.
O jovem prometia.
Tinha atributos que ia torná-lo um homem lindo e desejado.
Caio tinha um corpo naturalmente bem-feito e bem torneado.
Era forte, alto para sua idade – pouco mais de um metro e oitenta – ombros largos.
Possuía um rosto quadrado que lhe conferia ar maduro e viril.
Os cabelos, anelados e jogados para os lados, eram um charme à parte.
Sarita não foi à única.
Hilda, Estelita, Joana, Irene, foram muitas as garotas do bordel que se aproveitaram do apetite e abusaram do vigor do rapaz.
No decorrer dos anos, Caio passou a sair mais cedo do colégio para ir até o bordel.
Entregava-se ao prazer com sofreguidão.
As meninas da Eny ensinavam-lhe as mais variadas técnicas do sexo, mostrando a Caio como tratar a parceira, os carinhos preliminares, as partes do corpo que excitam uma mulher, a melhor posição para se relacionar etc.
Acima de tudo, ensinaram-lhe a ser carinhoso e gentil no trato com uma mulher.
Rosalina nunca suspeitou das actividades sexuais do filho.
Notou que Caio andava mais bem-disposto, cantarolava sem mais nem menos, sorria sem motivo aparente.
Parecia um garoto movido a constante alegria e felicidade.
Nem mesmo notara que ele chegava ao bordel duas horas antes de ela terminar o serviço.
Religiosamente, de segunda a sexta-feira, ele se deitava, pelo menos, com uma menina da casa.
Os atributos físicos, o vigor e a virilidade do rapaz correram à boca pequena e logo uma rica viúva da cidade interessou-se pelo rapaz.
Loreta Del Prate era mulher perto dos 60, muito distinta, ainda muito bonita.
Mantinha corpo bem torneado, era ainda capaz de chamar a atenção dos homens.
Contudo, era bastante conhecida, tinha parentes importantes, promovia chás beneficientes para a paróquia da cidade.
Sua reputação contava bastante e ela não podia, em hipótese alguma, aparecer nas ruas ao lado de um rapaz que tinha idade para ser seu neto.
Não pegava bem, e Loreta dava muita importância aos comentários dos outros.
Loreta enviuvara havia pouco tempo, e enquanto esteve casada, nunca atingira o prazer com o marido.
Ela comprou livros sobre sexualidade, fez análise com renomado psiquiatra da capital e descobriu que podia, sim, sentir prazer durante o ato sexual, que não tinha necessidade de fingir um orgasmo.
Isso era tudo muito novo para ela.
Educada de forma rígida, numa época em que o papel da mulher na sociedade consistia somente em cuidar do lar e parir filhos, Loreta a custo engolia a ideia de que a mulher deveria simplesmente ser um instrumento para que o homem chegasse ao prazer.
Ouvira de sua mãe que uma esposa decente dá prazer ao marido, e de boca fechada, sem emitir um som sequer.
— Mulher é um objecto, que deve saciar o marido, sem direito a nada em troca – repetia a mãe.
Inconformada, após a morte de Genaro, ela passou a excursionar pelo país e pagava para ter sexo com rapazes, geralmente jovenzinhos cheios de virilidade e capazes de qualquer coisa por um prato de comida.
Foi dessa forma incomum que ela descobriu que era capaz de sentir prazer.
O espírito de Loreta ansiava pelo prazer.
Durante algumas vidas ela bem que perdera a cabeça por conta de seus desvarios sexuais.
Comprometeu-se nesta encarnação a suprimir o prazer como forma de debelar seus instintos.
Jurou para si mesma que, reencarnada, não daria tanta importância ao sexo.
Desta feita, reencarnou com a libido em baixa, a fim de facilitar os anseios de seu espírito.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 8:10 pm

Loreta cresceu num lar sem religiosidade alguma e ao longo dos anos, seu espírito foi se distanciando dos objectivos traçados antes do reencarne.
Ou seja, por falta de contacto com a espiritualidade, de maneira geral, seus instintos estavam novamente superando os anseios de sua alma.
De volta a Bauru, descobrira que os homens interessados nela – geralmente mais velhos – não foram educados para saciar suas esposas, além de serem brutos e indelicados.
Ela não podia fazer, ou melhor, pagar por serviços sexuais numa cidade do interior, onde todos a conheciam e respeitavam.
Ao saber do vigor de Caio, ela se empolgou e, com a ajuda de uma das garotas de Eny, Loreta passou a receber o jovem em sua casa, à noite, duas vezes por semana.
Contava com a prestimosa ajuda de sua governanta, Isilda.
A governanta, na hora combinada, deixava o portão destrancado e a porta da cozinha entreaberta, a fim de facilitar a entrada de Caio na casa.
Tudo feito de maneira muito discreta.
Fazia dois anos que Caio comparecia religiosamente todas as terças e quintas-feiras na casa da ricaça.
O dinheiro que recebia – gorda mesada – dava para ajudar nas despesas da casa, gastar em roupas e. às vezes, comprar uma ou outra lembrança para a mãe.
Rosalina nunca suspeitou de nada, a princípio, porquanto seu filho estava sempre bem-disposto, era amável, ajudava nas tarefas da casa e dizia estar trabalhando num boteco no centro da cidade que fechava tarde da noite.
Ela começou a desconfiar num Dia das Mães, em que Caio lhe comprou um rádio de pilha último tipo, que valia mais do que ele supostamente afirmava ganhar no emprego.
Ela foi ter com o Manolo, dono do boteco.
O espanhol mentiu e afirmou que o menino trabalhava para ele no bar, duas vezes por semana e recebia uma ajuda, um salário simbólico.
— Se o salário é simbólico, como meu filho teve condições de me dar um rádio tão caro?
— Ora, minha senhora – volveu o espanhol, enquanto coçava o bigode espesso —, eu comprei esse rádio para minha esposa e ela não gostou.
O prazo para devolvê-lo à loja expirou e, para diminuir meu prejuízo, ofereci a Caio.
Eu desconto pequeno valor de seu pagamento.
Deu para entender?
Rosalina entendeu ou fez que entendeu.
E por que Manolo mentira?
Ora, porque ele era casado e frequentava a Casa da Eny.
Caio havia lhe salvado o casamento quando interpelado pela esposa de Manolo, tempos atrás.
O rapaz afirmou, jurou de pés juntos que Manolo trabalhava noite após noite no bar, e, quando não estava lá, era porque tinha de resolver problemas com fornecedores de bebidas.
Um acobertando as estripulias sexuais do outro.
Bem típico dos homens...
Tudo o que aprendera com as meninas da viração, Caio passou a testar em Loreta e percebeu que o resultado era mais que satisfatório.
Ele era capaz de levar Loreta – e qualquer mulher que fosse – à loucura.
Era um verdadeiro gentleman, um Don Juan, amante insaciável e que sabia dar a qualquer mulher a dose certa de prazer.
Aos dezanove anos de idade, Caio alcançara a experiência que muitos homens nunca alcançaram ao longo da vida, em matéria de mulher.
Do prazer inicial, o sexo tornou—se um vício na vida de Caio.
Ele não se saciava a contento.
Precisavam se relacionar todos os dias, com qualquer mulher.
Ele nem percebia, mas espíritos presos em nossa dimensão, ainda dependentes dos prazeres terrenos, grudavam—se na aura do rapaz e isso aumentava sobremaneira sua libido.
Caio nem imaginava que estava servindo de instrumento para espíritos de baixa vibração, que lhe sugavam as energias vitais.
Daí sua necessidade descomunal de ter de fazer sexo sempre, a todo custo, a toda hora.
Sua vontade era potencializada pela presença dos vários espíritos que se grudavam nele.
Não que o sexo seja algo condenado pela espiritualidade.
Muito pelo contrario.
O sexo, quando feito entre duas pessoas que se sentem atraídas é algo mágico, divino.
Trata-se de uma troca salutar de energias para os parceiros.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 8:10 pm

E, quando feito entre pessoas que nutrem sentimentos nobres uma pela outra, cria-se automaticamente, uma barreira energética que impede espíritos assanhados ou ignorantes de se aproximarem ou mesmo poderem assistir ao ato.
Isso não acontecia durante os encontros sexuais entre Caio e Loreta.
Como não havia sentimento algum que os unisse, a não ser o puro desejo descontrolado pelo sexo, espíritos ligavam-se ao casal a fim de saciar seus desejos mais sórdidos.
Ambos nada percebiam, a não ser uma tremenda vontade de transar e um cansaço, um vazio sem igual após as relações, que em nada satisfaziam os anseios de suas almas.
As relações com Loreta foram se tornando cada vez mais ousadas e picantes.
Numa noite, após tomarem uma taça de champanhe, a fim de brindarem uma dessas peripécias sexuais, Loreta teve um ataque cardíaco fulminante.
Caio num misto de terror e desespero, ficou estático por alguns instantes.
Deu um salto da cama e correu até os aposentos de Isilda, a empregada.
Ele bateu na porta com força.
— Isilda, pelo amor de Deus, abra a porta.
Ela levantou—se meio cambaleante, assonada.
— O que é?
— Loreta... Não sei...
Acho que ela...por favor, venha comigo, me ajude, não sei o que fazer – gritava ele, aturdido e desesperado.
Isilda abriu a porta e, ao ver o rosto pálido do rapaz, pressentiu o pior.
Ela o acalmou e retornaram ao quarto de Loreta.
Ao ver os olhos da patroa arregalados e fixos no nada, além do corpo imóvel e a boca semi-aberta, Isilda quase teve a constatação.
Aproximou-se e tomou o pulso da patroa. Nada.
Depois, pegou um espelhinho na cómoda ao lado da cama e aproximou-o dos lábios de Loreta.
— Para que isso? – Perguntou Caio, aflito.
— Para saber se ela está viva.
Se o espelho embaçar, é porque está respirando e ainda temos chance de trazê-la à vida.
Todavia, o espelho não embaçou.
Isilda fez movimento com a cabeça para que o rapaz saísse dali o mais rápido possível.
— Melhor ir.
Dona Loreta é mulher de respeito.
Preciso evitar o escândalo.
Vou dar um jeito em tudo.
Agora, por favor, vista-se e vá.
Caio nem hesitou.
Vestiu-se rapidamente, de qualquer jeito, e saiu correndo da casa, sem mesmo olhar para os lados ou para trás.
Assim que dobrou a esquina da casa de Loreta, dois olhos negros observaram-no saltar o portão, justamente naquela fatídica hora, naquela fatídica noite.
Caio não percebeu a presença daquele homem que sorriu satisfeito assim que ele ganhou a rua.
Caio entrou em sua casa meio esbaforido, a camisa do avesso, o cinto da calça na mão.
Rosalina dormia o sono dos justos e nada percebeu.
O rapaz pegou uma jarra d´água e encheu uma caneca.
Entornou-a garganta abaixo num gole só, mais de desespero do que de sede.
Passou as costas da mão pela boca, respirou fundo e procurou dormir.
Mas não conseguiu.
Os pensamentos fervilhavam em sua cabeça e ele decidiu, após levantar-se e fumar nervosamente seu cigarro, que Sarita poderia ajudá-lo.
— Confio nela – repetia para si mesmo, enquanto caminhava, passos rápidos, até a Casa da Eny.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 8:11 pm

CAPÍTULO 2

Uma das empregadas do bordel abriu a porta meio a contragosto.
— O último cliente saiu há pouco.
Acabamos de fechar.
— Preciso falar com Sarita.
A empregada fez cara de poucos amigos, mas voltou para dentro e chamou a moça.
Sarita apareceu alguns minutos depois, aparentando nítido cansaço.
— O que faz aqui? – indagou, meio a um bocejo.
— Preciso de sua ajuda.
É importante.
Sarita percebeu o nervosismo estampado nas feições do rapaz e preocupou-se.
— O que aconteceu?
Meteu-se em encrenca?
— Receio que sim...
Sarita mordeu os lábios levemente e considerou:
— Entre, acompanhe-me.
Caio pegou na mão dela e entraram na casa.
Foram até o bar e sentaram-se nas banquetas.
— Eu estava com a Loreta e... – ele falava quase sem respirar, de supetão.
— Calma. Respire fundo – Caio assentiu com a cabeça.
E?
— Estávamos nos amando quando de repente ela teve um ataque, acho...
Sarita levou a mão à boca.
— Mesmo? Mas acha que foi um ataque fatal?
— Sim. Disso não tenho dúvidas.
Seu corpo estremeceu, Loreta deu um gritinho abafado de dor e em seguida, seus olhos ficaram estatelados, fixados no nada.
Tentei reanimá-la, mas ela nem se mexeu. Morreu.
— E por que não chamou Isilda, a empregada?
— Depois do susto, foi à primeira coisa que fiz.
Corri até o quarto de Isilda e pedi ajuda.
Ela constatou que a patroa morreu.
Em seguida, pediu que eu fosse embora.
Disse-me que Loreta não merecia ser vítima de um escândalo.
— Faz sentido.
Isilda sempre fora fiel à Loreta.
— É o meu fim! – exclamou o jovem, apreensivo.
— Você não fez nada de mais.
— Pois é Sarita.
Tenho medo de que alguém venha atrás de mim.
— Por que diz isso?
— Tive a sensação de que alguém me vigiava.
Não sei ao certo.
— Fique sossegado.
Acalme—se. Isilda sabia das peripécias de Loreta, era conivente com a patroa, fiel e muito discreta.
Vai inventar uma história qualquer e a polícia nem vai investigar.
— Mas estou com muito medo.
Se eu vir um policial sou capaz de me entregar, por puro medo, por bobeira.
Não gostaria de macular a imagem de Loreta.
Não sei – ele hesitou —, Isilda pode dar com a língua nos dentes e você vem sabe Loreta sempre foi mulher benquista, admirada, ajudava na igreja, o padre Osório ia almoçar na casa dela todo domingo...
Sarita sorriu.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 8:11 pm

— O que foi?
— Padre Osório – ela suspirou.
Como um homem tão bonito como aquele pode ser celibatário?
— Nasceu para ser padre – tornou Caio.
— Não. Algo me diz que Padre Osório entregou-se ao sacerdócio por outro motivo, talvez uma decepção amorosa.
Ainda vou descobrir o que se passa na cabeça e no coração desse padre.
Caio riu com gosto.
Sentiu-se menos nervoso.
— Você fala do padre como se ele fosse...
— Um homem, ora!
Atrás daquela batina esconde-se um homem.
Escute – Sarita pousou suas mãos na dele — procure padre Osório.
— Procurá-lo? Por quê?
— Para se confessar.
Você bem sabe que um padre guarda muito bem nossos segredos.
Converse com ele antes de partir.
— Partir, Sarita?
— E tem outro jeito?
Não seria nada agradável a cidade descobrir que Loreta Del Prate deitava-se com um jovem da sua idade, Caio.
A hipocrisia da sociedade arrasaria tudo o que ela fez de bom para Bauru.
Sua reputação seria destruída e toda ajuda prestada à cidade seria ignorada.
Loreta não merece isso. Nem a cidade.
— Tem razão. Preciso sumir por uns tempos.
— Sim. Por uns tempos – repetiu Sarita.
Daqui um mês o assunto vai se esgotar e todos vão esquecer.
— Uma temporada longe daqui não faria mal.
— Você tem razão, querido.
Ademais, você poderia arrumar uma grande encrenca com a família de Loreta.
Imagino a crueldade dos filhos caso soubessem como ela morreu e que você estava com ela no momento de sua morte.
Nem quero pensar a respeito.
— Família? Filhos?
Ela não era viúva e sozinha?
Sarita deu uma risadinha irónica.
— Loreta, infelizmente, deu a luz dois seres desprezíveis.
— Como assim? – indagou, sem entender.
— Ela era mulher muito bacana, mas seus filhos... – Sarita fez um esgar de incredulidade.
Bom, os dois filhos de Loreta são ardilosos, intragáveis.
— Os dois?
— Hum, hum. E, mesmo sendo insuportáveis, são figuras conhecidas e respeitadas em todo o território nacional.
— Mesmo?
— Sim. Gregório, o mais novo, é solteiro e as más línguas dizem que não gosta de mulher, por esse motivo se mudou para a capital, a fim de não ser recriminado.
Afinal, morando na maior cidade do país, é mais fácil dissimular sua preferência por rapazes.
Com o dinheiro da herança, recebido após a morte do pai, ele se instalou confortavelmente num apartamento em um bairro nobre da capital e montou uma empresa que fabrica perfumes.
Deu-se muito bem por um tempo.
Seus produtos caíram no gosto do selecto e exigente público e fazem sucesso – ela fez uma pausa.
Espere um pouco.
Sarita saiu e voltou sobraçando uma revista.
Folheou algumas páginas e apontou para uma propaganda de página inteira.
— Nunca ouviu falar na marca de perfume Nero?
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 8:11 pm

— Claro que já.
Todo homem de bom gosto e com dinheiro usa esse perfume.
— Dizem que até exportam o perfume para diversos países.
É Gregório quem fabrica esse perfume.
— Ele deve mesmo ser cheio da nota.
— Parece que ele é excêntrico, gasta demais com seus meninos e vive em dificuldades financeiras.
Vira e mexe estava por estas bandas, implorando à mãe que lhe desse mais dinheiro.
Viviam às turras, Loreta e o filho.
Agora ele vai queimar de vez a parte da herança que lhe cabe.
Caio interessou—se.
— E o outro filho?
— Um pulha, uma casca de ferida – Sarita riu.
E bota ferida nessa casca.
Genaro, o filho mais velho, tem o nome do pai.
É inescrupuloso, mesquinho, autoritário, odeia ser contrariado.
É grosso e estúpido.
Tornou-se político corrupto e finge ser carismático para o povo.
Foi vereador aqui na cidade.
— Não me lembro.
— Você era garoto.
Genaro se envolveu num esquema de corrupção e quase teve o mandato cassado.
Entretanto, como tem amigos influentes no poder, saiu ileso.
Ele é forte candidato para o cargo de deputado federal às eleições directas deste ano.
— Como sabe de tanta coisa?
— Ora, trabalho no prostíbulo mais famoso do Brasil.
Aqui sabemos de tudo e de todos.
— Com tanta gente importante que vem aqui...
— Pois é, meu lindo.
Somos garotas bem informadas – ela encostou o dedo no queixo.
Creio que você faz bem em partir.
Talvez tenha chegado à hora de tentar a carreira de modelo.
Fotográfico, de preferência.
Caio riu irónico.
— As únicas fotos que tirei na vida foram para os boletins de escola e para o documento de identidade.
Não sou fotogénico.
— Eu diria que você está redondamente enganado, meu caro.
Você tem porte e rosto de modelo.
Se souber como encontrar e se relacionar com as pessoas certas, vai fazer carreira de sucesso. Acredite.
— E o que faço?
— Como disse, tem de partir, de preferência hoje.
— Assim, sem mais nem menos?
— Tem alternativa?
— Não. Até pensei nisso.
Sinto que devo partir, mas não tenho recursos.
Eu não tenho dinheiro para a passagem.
Será que você podia me ajudar?
— Com o maior prazer.
Tenho algumas economias e posso lhe emprestar algum dinheiro.
Caio sorriu aliviado, mas logo seu semblante contraiu-se.
Sarita perguntou:
— O que foi?
— De que adianta passagem se não conheço ninguém lá na capital?
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 8:11 pm

— Isso é o de menos.
Passagem eu lhe dou de presente.
E, quanto à morada em São Paulo, eu lhe faço uma carta de recomendação.
— Como assim? Para quê?
— Tem uma ex-colega nossa de trabalho que se deu muito bem anos atrás.
Conheceu um figurão rico aqui no bordel, tornou-se amante dele e, quando o velho morreu, deixou para ela um sobradão lá na capital.
Fani transformou o sobradão numa pensão e vive disso.
Ela poderá lhe dar guarida por uns tempos.
Fani é muito generosa, uma boa mulher.
Tenho certeza de que vai ajudá-lo.
Caio mordeu os lábios.
Passou a mão pelos cabelos.
A ideia não era má. Iria para a capital, tentaria ser alguém bem-sucedido.
Estava cansado da vida sem perspectivas em Bauru.
Na verdade, se continuasse no interior, sem estudo, Caio vislumbrava um futuro totalmente embaçado, pobre e sem atractivos.
São Paulo era o centro do país, a locomotiva que movia o Brasil, acreditava ele.
Poderia ter muitas possibilidades de trabalho, conhecer gente importante, e até tornar-se alguém de fama e prestígio. Por que não?
— Você faria tudo isso por mim?
De verdade?
Ela sorriu maliciosa.
— Posso sim, desde que você se despeça de mim.
Vou sentir saudades do garotão. Venha.
Caio devolveu o sorriso malicioso e subiram até o quarto de Sarita.
Chegando lá, ele a deitou e a amou com toda a intensidade, num misto de desejo e gratidão por tudo o que ela lhe fizera.
Sarita era uma mulher linda, de vasta cabeleira negra e lisa que corria até sua cintura.
A pele era morena, da cor que o diabo e a maioria dos homens gostam.
Os olhos negros e as sobrancelhas espessas conferiam-lhe ar sedutor, tanto que alguns clientes a chamavam de Pantera.
Essa pantera era muito disputada pelos clientes.
Tinha um corpo de fazer inveja, perfeito, bem torneado, cheio de curvas pecaminosas.
Após se amarem, descansaram e ao acordarem, entabularam conversação.
— Você merece uma vida melhor.
— Também acho, meu querido – assentiu Sarita.
Nunca tive preconceitos e a vida me empurrou para esse trabalho.
Contudo, tenho repensado minha vida...
Creio que vou me confessar com o padre Osório.
Quem sabe ele me entende.
— Sarita! – exclamou Caio.
Você gosta tanto assim do padre Osório?
— Sim. Às vezes vou à missa só para vê-lo, mais nada.
Por duas vezes nossos olhares se encontraram e eu sei que ele me olha diferente.
— Você, apaixonada por um padre!
Essa é boa.
— Que mal há nisso?
Além do mais, não pago um centavo por sonhar.
Caio a abraçou e a beijou na face.
— Você tem alguma formação?
— Comecei o curso de secretariado, mas por falta de grana, tive de parar.
Meus pais morreram num acidente de carro e eu nunca me dei bem com meu irmão.
Ele já era casado na época do acidente e não se mostrou muito disposto a me ajudar.
Sozinha e sem recursos, uma noite conheci um cavalheiro que me prestou ajuda.
Saí de Goiânia e vim directo para a Casa da Eny.
Entretanto, aprendi minha lição.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 8:12 pm

— Que lição, Sarita? – indagou o jovem, interessado.
— Aprendi que sexo é bom.
Usá-lo como profissão, não é errado, contudo, não me faz bem.
Eu acredito em Deus, em algo invisível que rege esse Universo todo.
Sou mais que a tal da pantera, sou mais que esse corpo – disse, fazendo um gesto e apontando para si mesma.
Conforme tenho me dado valor e tido consciência de que posso ser dona de meu destino e mudar a hora que bem entender, fico com menos vontade de flanar pelo mundo da prostituição.
Quero voltar a estudar, concluir o curso de secretariado, encontrar um bom moço, quem sabe um ex-padre – ela sorriu maliciosa —, e ser feliz, constituir família.
— Você é especial, Sarita – volveu o rapaz, de maneira sincera.
Espero um dia poder retribuir a ajuda que está me oferecendo.
Ainda vamos nos encontrar no futuro e, quem sabe, poderemos ficar juntos.
Ela riu.
— Não se iluda.
Osório é minha cara-metade.
Você ainda vai encontrar a sua.
— Como pode afirmar uma coisa dessas?
— Intuição feminina – ela sorriu.
Eu poderei encontrá-lo no futuro e ser sua amiga, mas nunca serei sua mulher.
Posso me deitar com vários homens, mas o meu coração é de um só.
Ele fez uma careta.
— O tal padre.
— É. Enquanto eu tiver esperanças, não vou desistir.
— Queria amar alguém, de verdade.
— Há alguém no seu caminho.
— Fala de um jeito...
Até me deu um arrepio!
— Minha intuição é afiada, não me engana.
Algo me diz que você precisa partir.
Agora é que sua trajectória de evolução vai ter início.
— O que é isso?
— Você verá.
Ou melhor, vai sentir na própria pele.
Para seu bem, é claro.
Sarita o beijou delicadamente nos lábios e deitou a cabeça sobre o peito musculoso e bem torneado do rapaz.
Para Caio, além de um mulherão, Sarita era seu anjo bom, uma mulher de princípios, de valores.
Não era hipócrita e parecia ser dona de si. Inspirava confiança.
Iniciara-o no sexo, ensinara-lhe as artes secretas do amor, era amiga leal e estava lhe dando o empurrão que faltava para tomar coragem e mudar, de uma vez por todas, para a capital do Estado.
Caio voltou para casa aliviado.
Pegou uma maleta, arrumou algumas roupas e pertences.
Rosalina acabava de chegar da padaria.
Trazia um saquinho de leite e dois pãezinhos embrulhados num papel amarrotado.
– O que está fazendo?
Ele aproximou-se de Rosalina e a abraçou com carinho.
— Está na hora de partir, mãe.
Preciso me tornar gente, ganhar dinheiro.
Quero tirá-la daqui desta casa, dar-lhe uma vida boa.
Não quero que trabalhe para sempre e.
Rosalina pousou delicadamente o indicador nos lábios do filho.
— Você nunca pertenceu a esta cidade. Sabia que em breve partiria.
— Ao mesmo tempo me dá medo. Não queria que ficasse sozinha.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 8:12 pm

— Sei me virar.
Ainda sei e posso tomar conta de mim – ela sorriu.
— Estou com dezanove anos, não tenho formação, sempre a ajudei fazendo bicos por aí.
Em São Paulo – os olhos dele brilharam emocionados —, terei condições de trabalhar, crescer e ganhar dinheiro.
Você sabe que acalento esse sonho há anos.
— Eu sei.
Pode ir em paz, meu filho.
— Não sabia como lhe contar sobre essa vontade súbita em partir.
— É?
— Percebo que está muito calma para o meu gosto.
Ela o beijou na fronte.
— Estou tranquila, em paz.
Eu sabia que você partiria.
A Norma me contou.
— A Norma lhe contou?
— Sim.
— Quando foi isso, mãe?
— Algumas semanas atrás.
Por essa razão, estou em paz.
— De novo isso? – perguntou, com a voz irritadiça.
— Por que fica bravo toda vez que converso com Norma?
— Porque não é normal, mãe.
Isso me dá até arrepio – redarguiu o jovem, enquanto sacudia o corpo.
— Ela é sua irmã, sempre se preocupou com você.
Ela me contou dia desses que você partiria e que eu deveria aceitar.
Disse que você precisará passar por determinadas situações na vida, a fim de confrontar e libertar-se das ilusões que impedem seu espírito de amadurecer.
Sem esse confronto, seu espírito não vai sossegar.
— Ideia louca essa, mãe.
— Tudo isso tem a ver com o seu passado.
— Passado?
Que passado?
— Vidas passadas.
Norma teve acesso a algumas de suas vidas passadas e me contou tudo.
Sua irmã afirmou que o seu espírito não vai sossegar enquanto não sentir na pele as injustiças que provocou no passado.
Norma disse que tudo poderia ser diferente, mas você não quer crescer de outra forma.
Ela me afirmou também que você poderia evitar o sofrimento e se libertar da culpa com inteligência e sabedoria.
— Mãe, assim você me preocupa.
Não gosto quando fala nesse tom.
Isso é coisa de gente desmiolada, biruta.
Desde que Norma morreu você tem falado em outras vidas, em reencarnação.
Você já perdeu seu marido e filha, faz sentido apegar—se a alguma religião para diminuir o sofrimento.
Mas não venha com esse papo furado.
— Ninguém aqui falou em religião, meu filho.
Mesmo porque Espiritismo não é religião, mas ciência.
E eu estou falando sobre as verdades da vida, sobre a existência do espírito que habita nosso corpo físico.
Isso não esta ligado a nenhuma religião, mas sim, ao conhecimento dos valores espirituais.
— Não gosto desse tipo de assunto.
— Sinto—me aliviada.
Transmiti o recado de sua irmã.
Agora cabe a você decidir o que fazer.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 05, 2016 8:12 pm

— Eu saberei me virar – ele hesitou por instantes.
Afinal, será que Rosalina ouvira algum comentário logo cedo sobre a morte de Loreta?
Isilda era bem discreta e as notícias ainda iriam demorar a correr.
Mesmo assim, ele procurou saber:
— você ouviu alguma coisa aí na rua?
— Ouvi sim.
Ele mordeu os lábios com força para dissimular sua angústia.
Será que a cidade já estava a par do ocorrido?
Ele timidamente perguntou:
— O que foi que ouviu?
— Estava na padaria e, na fila, vi um amontoado de gente em volta do rádio.
Era notícia de morte. De gente famosa.
Caio sentiu as pernas falsearem por instantes e balbuciou:
— Quem mo...morreu?
Rosalina deu de ombros.
— Não sei ao certo.
Não dei tanta atenção, mas acho que era mulher.
E muitas pessoas pareciam estar consternadas.
Deve ser pessoa muito querida.
Caio encostou—se na parede, a fim de não ir ao chão.
Agora tinha certeza.
A notícia da morte de Loreta vazara e logo ele seria procurado pela polícia.
Tinha de partir o mais rápido possível.
A cidade já sabia do crime.
Ele respirou fundo e confessou:
— Eu a amo muito, mamãe.
— Eu e sua irmã também o amamos.
Queremos o seu bem.
— Você só se esqueceu de que Norma está morta há alguns anos – retrucou, a fim de afastar os pensamentos que corroíam sua mente.
— E que problema tem?
Caio levou a mão a boca para evitar o estupor.
— Fala com uma naturalidade sem precedentes!
Os mortos não falam.
Estão mortos, oras.
— Tsk, tsk – fez Rosalina, estalando a língua no céu da boca.
Eu sou iletrada, mas tenho um pouco de conhecimento espiritual.
Sua irmã tem me passado muitos ensinamentos e está mais viva do que nunca.
Seu espírito vive numa outra dimensão.
Norma encontra-se tão viva quanto eu e você.
— Não quero discutir.
— Estou fazendo supletivo, quero aprender a ler correctamente para comprar livros de cunho espiritual.
Quero conhecer tudo o que foi publicado sobre o mundo de lá – ela apontou para o alto – e sua relação com o nosso mundo.
Sabia que o mundo espiritual influencia sobremaneira o mundo da Terra?
— Essa é boa. As coisas acontecem aqui porque tem de acontecer e ponto final.
— Ledo engano, meu filho.
Na verdade, fazemos parte do mundo de lá.
A gente vem para cá por um tempo, somente para fazer com que nosso espírito vá se tornando cada vez mais lúcido, livrando-se dos medos, das inseguranças, além de resolver situações pendentes do passado, que martirizam nossa consciência e impedem nosso espírito de alçar voos maiores em outros mundos.
— Mundo de lá... Sei, sei.
Eu não acredito em nada disso.
Se Norma pudesse se fazer presente, aqui e agora, na minha frente, eu poderia começar a mudar meus conceitos.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 8:44 pm

— Ela não pode fazer isso, meu filho, por dois
Primeiro, porque você não possui mediunidade educada para enxergar os espíritos e segundo, ela diz que você vive preso ao mundo das ilusões e, por conta disso, está envolvido numa vibração cujo teor a afasta de você.
É como se você tivesse algo ao seu redor que repele o contacto com sua irmã – Rosalina tentou explicar na sua maneira simples, porém sábia, de enxergar a vida.
É mais ou menos assim: imagine quando você entra em casa e sente um cheiro forte, mas ruim, desagradável, que o enjoa.
O que você faz?
— Saio correndo.
Por que vou sentir um cheiro que vai me fazer mal?
— Pois bem, é como se você tivesse esse cheiro esquisito.
Norma tem dificuldade de se aproximar.
O máximo que ela consegue é transmitir-lhe algumas ideias à distância, mais nada.
Caio riu gostoso.
— Prometo que vou pensar no assunto – ela a abraçou com carinho e uma lágrima sentida escorreu pelo canto de seu rosto.
A Norma me faz muita falta.
— Se mudar seus conceitos acerca da vida e da morte, a falta que sua irmã lhe faz pode ser amenizada.
Ele afastou-se da mãe e nada disse.
Apanhou o resto de seus pertences, meteu tudo numa maleta.
Rosalina afastou-se e voltou com um saquinho.
— O que é isso, mãe?
— Um dinheirinho guardado para emergências.
Caio ia falar, mas ela tapou sua boca com carinho.
— Isso estava reservado para você, meu filho.
Não vai me fazer falta.
Por favor, fique com esse dinheiro.
Por consideração a mim e à Norma.
Caio caiu num choro sentido.
Precisava desabafar contar à mãe o que acontecera naquela noite, mas não tinha coragem.
Rosalina era pura de coração e não merecia o desgosto de saber sobre as peripécias do filho.
A notícia já chegara ao rádio e ele precisava partir.
Não tinha muito tempo para estender a despedida.
Nem iria procurar por Padre Osório.
Ficaria para outra ocasião. O tempo urgia.
Caio abraçou a mãe com carinho.
— Obrigado pela força que está me dando.
Eu vou retribuir toda essa ajuda, pode acreditar.
Norma, em espírito, sorria para ambos.
O teor da conversa e o amor sincero que emanava de Rosalina e Caio permitiu que ela pudesse achegar-se deles.
Com delicadeza, aproximou-se e abraçou-se aos dois, iluminando toda a pequena casinha de madeira, naquele bairro pobre e distante, encravado nas extremidades de Bauru.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 8:44 pm

CAPÍTULO 3

Munido de pequena maleta numa mão, e um papel amarrotado com o endereço de Fani em outra, Caio saltou do ónibus, na estação Júlio Prestes.
Olhou para a cobertura colorida que cobria a estação rodoviária e se emocionou.
O sol reflectido por aqueles arcos dava um novo colorido à sua nova etapa de vida.
O rapaz saiu da estação e mal podia acreditar na quantidade de gente que entrava e saía, na multidão que andava pelos arredores, um grande formigueiro humano.
Ao ganhar a rua ele avistou a torre da estação da Luz.
Caio sorriu.
— São Paulo, aqui estou!
Por favor trate-me com carinho.
Ele falou para si e foi caminhando até um terminal de ónibus.
Indagou um senhor na enorme fila que se formava para se entrar no veículo:
— Sabe como chego até a Rua Humaitá, na Bela Vista?
— Sei não – respondeu o homem, coçando o queixo.
Caio foi perguntando às outras pessoas que estavam na fila, até que um rapaz, de aspecto simpático, aproximou-se e retorquiu:
— Meu ónibus passa próximo dessa rua.
Quando chegarmos perto eu lhe aviso ou até desço e lhe mostro onde fica.
— Obrigado moço.
— Por nada.
Sabe esta cidade, além de grande, é cheia de teias, praticamente uma arapuca.
Cidade grande tem muita violência, muita gente má, inescrupulosa.
Você precisa fazer logo boas amizades, senão pode se dar muito mal.
Caio admirou-se com a postura do rapaz.
Agradeceu a gentileza e foi puxando conversa.
— Você é daqui da cidade?
— Não, sou do Rio de Janeiro.
Quer dizer, do interior do Estado.
Minha família é de Vassouras.
Caio pousou a maleta no chão e estendeu-lhe a mão.
— Prazer, meu nome é Caio.
O rapaz retribuiu.
— Prazer. O meu é Guido.
— Nome diferente. Guido.
Nunca ouvi antes.
O rapaz baixou o tom de voz, como se estivesse fazendo uma confissão sagrada.
— O meu nome, de verdade, é outro.
— Qual é?
Guido falou de maneira misteriosa:
— A minha profissão exige que eu adopte um nome, digamos, mais charmoso.
— E o nome Guido tem charme?
— Pois se tem!
Eu invento histórias, conto que minha família veio da Itália, que meu avô foi perseguido pelo ditador Benito Mussolini durante a Segunda Guerra Mundial.
Floreio bastante sobre o meu passado.
A clientela adora.
— Clientela? Que clientela?
— Depois eu lhe conto – respondeu Guido, entre dentes.
Caio deu de ombros.
Não se interessou em saber seu nome verdadeiro.
Nem tampouco o que fazia.
Ele gostara dele, parecia ser simpático.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 8:44 pm

— Você me é familiar.
Eu o conheço, não?
Guido esticou o lábio.
Fez negativa com a cabeça.
— Nunca nos vimos antes.
— Sinto como se o conhecesse.
Engraçado...
Nunca o vi, mas parece que o conheço há tempo.
— Impressão.
Talvez a minha simpatia, hospitalidade sei lá – Guido prosseguiu:
— você veio de onde?
Com esse sotaque, só pode ser do interior de São Paulo.
— Está tão forte assim?
Guido riu.
— Forrrte. Não precisa carregar tanto na letra erre.
— Eu nem percebo.
— Isso pode se tornar seu charme, sua marca registada.
— Para quê?
— Não sei ainda.
Poderá ser útil no futuro.
— Não vejo como.
— Veio de onde?
— De Bauru.
— E veio fazer o quê em São Paulo?
Caio titubeou.
Não seria de bom tom dizer logo de cara que ele, recém-chegado do interior, tinha vindo à cidade grande para se tornar modelo famoso.
Procurou dissimular.
— Vim tentar a sorte.
— Tem algum parente, algum lugar para ficar?
— Tenho um endereço.
Devo procurar uma senhora que tem uma pensão na Rua Humaitá.
— Olha, acho meio difícil você chegar lá, pelo menos nas próximas horas.
— Não entendi.
Guido meneou a cabeça para os lados. Sorriu.
— Hei, em que mundo você vive?
— Por quê?
— Porque a Rua Humaitá é uma travessa da Rua Brigadeiro Luís António.
— É?
— E essa rua está interditada hoje porque o corpo da cantora Elis Regina está sendo velado no Teatro Bandeirante.
— A Elis Regina morreu?
— Ontem. Ninguém sabe direito de quê.
Também não interessa. Ela morreu mesmo.
Pena que não vamos mais poder escutar sua linda voz, vê-la com seus gestos e ideias irreverentes na TV.
Elis já faz falta – finalizou, com a voz embargada.
Caio impressionou—se.
— Você é um rapaz sensível e inteligente.
— Obrigado.
A vida me ensinou bastante coisa.
— Mas, se eu não posso ir até a Rua Humaitá, o que vou fazer?
A fila começou a andar e os dois subiram no ónibus.
Guido foi gentil e pagou as passagens.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 8:44 pm

Caio sorriu. Mal chegava à cidade e conhecia um cara bacana.
Tinha uma ideia de que o pessoal da cidade grande era metido e reservado, frio e impessoal.
Não era essa a impressão que ele verificava na prática.
Sentaram-se.
— Você pode ir até meu apartamento.
— Mora só?
— Divido com um amigo, lá no bairro dos Jardins.
Trata-se de um dos endereços mais chiques de São Paulo.
Você pode ficar comigo.
— Seu amigo não vai reclamar?
Sou um estranho.
— De jeito algum.
Maximiliano está a trabalho em Londres e deve voltar perto do carnaval.
Estamos em janeiro e se você precisar, pode ficar comigo até ele chegar.
— Fala sério?
— Claro. Fui com a sua cara.
Você parece ser um cara legal. Inspira-me confiança.
Caio sorriu emocionado.
Lembrou-se de Sarita.
Havia muita gente boa no mundo, pensou.
— Obrigado pela ajuda e pela força, Guido.
Guido era um moço nem bonito nem feio.
Cabelos loiros, encaracolados, olhos grandes e boca carnuda.
Possuía corpo bem-feito, atlético.
Tinha estatura mediana, seu sorriso era encantador, embora seus olhos amendoados fossem enigmáticos e misteriosos.
Era necessária muita perspicácia para medir a sinceridade do rapaz.
Estava com vinte e um anos de idade.
O rapaz sorriu e, no trajecto, foi mostrando a Caio os pontos conhecidos da cidade, os prédios, monumentos, ruas e avenidas famosas.
Caio não desgrudava os olhos da janelinha do ónibus e absorvia toda a informação que recebia com felicidade.
Seus olhos emocionavam-se a cada indicação de Guido.
A catedral da Sé, o viaduto do Chá, o Teatro Municipal, o famoso prédio da finada loja Mappin, tudo o encantava.
Parecia um garoto que acabara de ganhar um brinquedo no Natal.
Sua chegada a São Paulo não poderia ser melhor...
Enquanto Guido lhe servia de guia, Caio agradecia aos céus pela nova amizade.
O ónibus teve de parar por um bom tempo.
O motorista nem mesmo podia fazer um caminho alternativo.
O engarrafamento era enorme.
Todas as vias próximas à Rua Brigadeiro Luís António e adjacências estavam entupidas de carros e de gente.
Muita gente que queria ir até o teatro para dar adeus à maior cantora do Brasil.
Os rapazes saltaram do ónibus.
— Acompanhe-me – solicitou Guido.
Caio assentiu com a cabeça e misturaram-se à multidão.
— Olhe – apontou Guido —, o caixão está sendo colocado no caminhão do Corpo de Bombeiros.
Os dois pararam numa esquina e, acotovelados entre muitas outras pessoas, permaneceram ora em silêncio, ora cantarolando músicas que fizeram sucesso na voz de Elis.
Caio sensibilizou-se com seu novo amigo.
Guido cantava e chorava ao mesmo tempo, assim como todos ao redor.
— Eu gostava muito dela.
O Maximiliano tem muitos discos de Elis lá no apartamento.
Vamos – ordenou —de nada vai adiantar ficar aqui embaixo desse sol.
Melhor irmos andando até o apartamento.
Aguenta cerca de vinte minutos de caminhada?
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 8:45 pm

— Claro.
— Vamos por aqui.
Caio o acompanhou e meia hora depois, eles dobraram a Brigadeiro e entraram na Alameda Casa Branca.
Pararam diante de um prédio bem apanhado, sofisticado, cuja opulência e beleza se faziam notar.
— Chegamos meu caro.
— Nossa! – exclamou Caio.
Você mora aqui?
— Sim, por enquanto este aqui é o meu endereço.
Espero que para sempre – retrucou Guido, de maneira arrogante.
Caio deu de ombros e não quis esmiuçar a vida de Guido. Nem queria.
O rapaz estava sendo bom demais, mostrava ser amigo e lhe convidara para ficar hospedado em sua casa, sem cerimónias.
Guido cumprimentou o porteiro.
— Oi Malaquias.
— Como vai, seu Guido?
— Bem. Este é meu primo Caio.
— Como vai, seu Caio?
— Bem obrigado.
Guido aproximou-se do porteiro.
— Ele vai passar um tempo aqui comigo, até o Maximiliano voltar.
Portanto, comunique os outros empregados do prédio.
Não quero, em hipótese alguma, que meu primo seja barrado na portaria, entendeu?
— Sim, senhor.
Pode deixar.
Os rapazes se afastaram e pegaram o elevador.
Ao entrarem, Caio coçou a cabeça, sem entender.
— Por que disse ao porteiro que sou seu primo?
— Para não arrumar encrenca.
Este prédio é cheio de cerimónias, alguns moradores reclamam das visitas que recebo e o Max então...
— Max? Quem é Max?
Guido sorriu.
— Maximiliano, o dono do apartamento.
O nome é muito comprido e todo mundo o chama de Max.
— Tem certeza mesmo que o Max não vai se incomodar de eu me hospedar na casa dele?
— Fique tranquilo.
Ele é um bom camarada. Pode crer.
O elevador parou no andar e saltaram num hall decorado com gosto.
Guido meteu a chave no trinco e, ao girar a maçaneta, foi como se Caio entrasse num mundo de sonhos.
O apartamento de Max era puro requinte e sofisticação.
Imenso, com janelas amplas e vista atraente, mobilado com excelente bom gosto, peças e obras de arte.
Tudo arrumado de maneira perfeita, organizada.
Caio não sabia para onde olhar.
Lembrou-se da Casa da Eny e da casa da família rica que sua mãe trabalhava lá em Bauru, os únicos lugares que conhecera e julgara serem os mais lindos e sofisticados do mundo.
Agora, no apartamento de Max, seu conceito de beleza e sofisticação adquiria novo grau de avaliação.
— Pode babar e, depois, estirar-se no sofá – sugeriu Guido, enquanto tirava a camisa e dirigia-se até o bar da sala.
Quer uma bebida?
— Não acha cedo?
— Não existe hora certa para um bom trago.
Vai de quê?
— Sei lá. O que você vai beber?
— Uísque.
— Eu também quero.
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Ave sem Ninho

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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 8:45 pm

— Puro ou com gelo?
— Duas pedras.
Guido pegou a garrafa e debruçou-a sobre os dois copos já com gelo.
O telefone tocou e ele correu a atender.
— Sim. Claro.
Que horas? Perfeito.
Guido pousou o fone no gancho e voltou ao bar.
— Que maravilha, recebi ligação de cliente.
— Cliente? – indagou Caio.
— Sim. Eu saio com algumas mulheres e recebo bom dinheiro para lhes dar prazer.
São mulheres ricas, conhecidas da sociedade, de fino trato, mas que não podem ser vistas, porque senão a imprensa faz da vida delas um inferno.
Foi difícil me tornar call boy, mas consegui.
Caio não entendeu.
— Call o quê?
Guido sorriu.
— Call boy, acho que vem de cowboy no inglês.
São rapazes que fazem sexo com mulheres em troca de dinheiro.
Tem também os chamados call táxi, que transam com homens.
Eu sou uma mistura dos dois.
Algum preconceito?
— Nenhum. Cada um faz o que quiser de sua vida.
— Pura necessidade – confessou Guido, dando de ombros.
Eu nunca saí com homens, mas um dia conheci o Max e então pintou um clima.
No início me assustei um pouco, mas depois me acostumei.
Transar com homem ou com uma mulher, para mim, não faz diferença.
E, de mais a mais, a mesada que Max me dá para ficar só com ele e mais ninguém é mais que satisfatória.
Veja por si – apontou ao redor do apartamento –, levo uma vida de luxo, ganho um bom dinheiro dele e ainda me satisfaço com as mulheres e ganho uns trocados.
— Max sabe que você sai com mulheres?
— Desconfia.
Entretanto, ele viaja muito.
E, quando ele viaja, eu aproveito e atendo minha clientela.
Você poderia também fazer isso.
— Isso o quê?
— Ser um call boy.
Você tem atributos que podem atiçar o desejo de uma mulher.
Enquanto Caio pensava nessa possibilidade, Guido serviu-se de uísque, deu meia volta no bar e entregou o outro copo a ele.
— Um brinde a você.
— A mim?
— Sim, meu amigo. A você.
Que São Paulo e as mulheres ricas desta cidade possam lhe dar tudo o que você sempre sonhou.
Encostaram os copos e beberam.
Caio estalou os lábios com a língua.
Nunca havia tomado um uísque tão puro e que descia tão bem garganta adentro.
Estava com sorte.
Havia saído de Bauru com medo, aturdido e cheio de inseguranças.
Chegara à cidade grande e já encontrara um grande amigo para lhe dar atenção e suporte.
Assim ele acreditava.
Caio foi acometido de leve tontura.
Embora sentisse que esse não deveria ser em hipótese alguma, seu caminho a seguir, viu-se tentado.
Ele aprendera a fazer sexo e sabia ser bom de cama.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 8:45 pm

As meninas da Eny haviam-lhe ensinado muitas coisas e ele poderia se dar muito bem nessa nova empreitada.
Ganharia bastante dinheiro até se tornar modelo famoso.
Será mesmo que precisava se tornar modelo?
A tontura tinha motivo.
Caio chegara a São Paulo, mas não viera sozinho.
Alguns espíritos que o acompanhavam em Bauru estavam ali presentes.
Ao chegarem ao apartamento, esses espíritos, sedentos de prazer, sentiram-se no paraíso.
Caio e Guido não enxergavam nem percebiam, mas no apartamento tinha um grupo de mais ou menos trinta espíritos, que entrava e saía, bebia e colava-se à aura de Guido, potencializando no jovem o desejo pelo sexo fácil e desprovido de qualquer sentimento nobre.
A consciência de Caio implorava para que ele negasse a proposta de Guido e tomasse novo rumo na vida.
Todavia, sua mente perturbada pela horda de espíritos sedentos por sexo, bebida e outras paixões típicos da vida terrena, mal escutava a consciência.
E a proposta de Guido tornava-se uma possibilidade bem interessante para a sua vida.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 8:45 pm

CAPÍTULO 4

Luísa fechou a porta do closet com raiva.
O barulho assustou a empregada.
— O que foi?
— Nada Eunice. Nada.
Estou nervosa, só isso.
— Outra briga?
Luísa suspirou profundamente.
Abriu e fechou os olhos algumas vezes.
Abraçou-se a Eunice.
— Você me conhece desde pequena.
Quando me casei exigi que mamãe a liberasse para vir morar comigo.
Você é como uma mãe para mim.
Vou lhe contar um segredo.
Eunice emocionou-se.
— Eu sei disso, minha querida – apertou-a de encontro ao peito.
O que está acontecendo?
Quer se abrir comigo?
— Genaro tem me tratado de maneira tão estúpida!
Era tão diferente quando namorávamos...
— Tenho percebido as alterações de humor dele.
Realmente Genaro parecia ser outro homem quando vocês estavam noivos.
— Não entendo, Eunice.
Ele era carinhoso comigo e me respeitou de verdade.
Embora vivendo numa época moderna como a actual, em que a sociedade rompeu com vários tabus, ele exigiu que eu me mantivesse pura e virgem até o casamento.
Confesso que foi difícil reprimir meu instinto, os meus desejos e quase cedi.
Pensei que após o casamento teríamos uma vida íntima satisfatória e feliz.
Não é o que acontece.
— E esse arroxeado no pescoço?
Luísa mordeu os lábios com raiva.
— É esse o segredo.
Eunice meneou a cabeça negativamente para todos os lados.
— O que aconteceu?
Conte-me.
— Quando eu reclamo de sua brutalidade, Genaro fica mais nervoso.
Nesta noite ele ficou tão bravo que apertou meu pescoço.
— Isso não se faz meu Deus! – choramingou Eunice.
Eu creio que o melhor a fazer é se separar.
— Genaro disse que só será possível depois das eleições.
Ele afirmou com todas as letras que me mata se eu tentar manchar sua reputação de bom homem.
Veja só, Eunice, o Genaro é pessoa benquista pela mídia.
Todos o julgam simpático e charmoso.
O político ideal para um novo Brasil.
— Tanta hipocrisia!
Seu marido não passa de um homem inescrupuloso e corrupto.
Um dia ele terá de arcar com tudo isso.
— Aqui neste país? – indagou Luísa, em tom de deboche.
Esta é a terra dos espertos.
Infelizmente, não vivemos num mundo justo.
Eunice a apertou novamente de encontro ao peito.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 8:46 pm

— Não diga isso, minha querida.
Ainda vai ser muito feliz. Você merece.
Continuaram abraçados por mais algum tempo até que ouviram a voz grave e irritante de Genaro romper pela casa.
Luísa assustou-se.
— Ele nunca vem para casa antes do anoitecer.
O que será que aconteceu?
Genaro subiu os lances de escada de maneira rápida e entrou abruptamente no quarto.
Mal olhou Luísa ou Eunice.
Foi directo para o closet, meneou a cabeça e escolheu um terno escuro.
Ordenou:
— Eunice, tire os amassados deste terno.
Ele deve estar impecável.
— Sim senhor. Para quando?
— Para ontem, mulher – ele atirou o terno sobre os braços dela.
Seja rápida, o motorista nos aguarda.
Eu e Luísa vamos viajar. Agora.
Luísa estava atónita.
— Viajar? Agora?
— Estou falando em outro idioma? – retrucou Genaro, num tom ríspido.
— Para onde?
— Bauru.
— Oras, seus comícios começarão somente quando oficializarem sua candidatura e...
Genaro a cortou.
— Que comício que nada!
Vamos a um enterro.
Se vista com apuro, com elegância.
Mulher minha tem de estar bem vestida sempre. Entendeu?
Genaro falou e foi tirando a roupa do corpo, caminhando para o banheiro.
— Seja rápida, nada de demora.
Vou me banhar e, quando estiver botando a gravata, quero você pronta.
Luísa assentiu com a cabeça.
Entrou no closet e escolheu um conjunto preto, composto de casaquinho e saia.
Bem elegante bem discreto e perfeito para a ocasião.
Ela debruçou a roupa sobre a cama, com delicadeza, e caminhou para o banheiro.
Genaro estava se enxugando.
— Quem morreu?
— Sua sogra.
Luísa não entendeu de pronto.
— Hã? O que disse?
— Minha mãe morreu.
Ataque cardíaco.
Luísa levou a mão à boca.
— Pobre Loreta. Meu Deus!
Ela caminhou até o marido e o abraçou.
— Oh, querido.
Agora entendo por que está tão nervoso e tão agitado.
Por que não me disse antes?
Por que não me telefonou?
Creio que você deva estar triste, bastante abalado e...
Luísa parou de falar.
Genaro a estava mordiscando a orelha, o seu pescoço.
A aproximação da esposa o excitou.
Ele largou a toalha e a abraçou com força.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 8:46 pm

— Genaro o que é isso?
— Eu a quero agora.
— Por favor... Como pode?
Sua mãe acabou de morrer, não tenho cabeça para intimidades.
Não agora.
— Eu a quero.
— É absurdo e...
Ela procurou afastar-se, mas Genaro era bem mais forte.
Ele a apertou e em seguida arrancou sua roupa.
Atirou Luísa contra o chão frio do banheiro e a possuiu ali mesmo.
Ela chorava baixinho.
Fechou os olhos e orou a Deus para que a matasse naquele instante, tamanha dor e sofrimento, enquanto seu marido praticamente a estuprava, sem dó nem piedade.
***
O carro que levava Genaro e Luísa chegou a Bauru por vota das quatro da tarde.
Luísa foi calada, óculos escuros, olhos inchados de tanto chorar, fosse pela violência sofrida horas atrás, fosse pela morte da sogra.
Ela gostava de Loreta, muito.
A própria sogra a havia alertado sobre o comportamento bruto e insensível do filho, mas Luísa deixou-se levar pela ilusão.
Sonhava em casar e ter filhos.
E julgara Genaro ser o marido ideal para a realização de seus sonhos.
Filha de um cafeicultor da região de Campinas, Luísa cresceu coberta de regalias.
Os negócios da família foram de mal a pior e eles perderam tudo.
Apareceu um pequeno negócio de terras para seu pai em Bauru e assim mudaram para a cidade.
Luísa conheceu Genaro na festa em que ele fora coroado o mais jovem vereador do município.
Neuza, mãe de Luísa, frustrada com a vida pobre e procurando oportunidades para se tornar rica novamente, a qualquer custo, viu na filha uma mina de ouro.
Fez de tudo para que ela se casasse com Genaro.
Gastou o que não podia, fez jantares, praticamente vendeu Luísa ao político.
Luísa hesitou ante o casamento, não o amava.
Será que deveria mesmo se casar?
— O amor vem com o tempo – garantia a mãe.
O tempo passou e o amor não veio.
Luísa ao menos queria ter um filho para dar um novo colorido à relação, mas havia algo de errado, fosse com ela, fosse com o marido.
Estavam casados havia cinco anos e ela não engravidava.
Nem com reza brava.
Genaro queria uma mulher pura, virgem, cujo passado, caso esmiuçado, não comprometesse o grande plano para seu futuro:
tornar-se Presidente do Brasil.
E Luísa era moça bonita, recatada, estudara em bons colégios, era fina, trejeitos elegantes e cativava as pessoas com seu sorriso açucarado.
Era a esposa ideal para um político com as pretensões de Genaro.
Sabendo da hesitação de Luísa, na época com apenas dezassete anos de idade, Genaro prometeu a Neuza que, se ela convencesse a filha a se casar com ele, todos sairiam no lucro.
O político prometera a Neuza gorda pensão vitalícia, o que encheu de cobiça os olhos de sua futura sogra.
Não obstante, a vida de casado não se mostrava tão encantadora assim.
Genaro, quinze anos mais velho que Luísa, mostrara-se homem bruto e agressivo.
Transava com a esposa como se estivesse sobre um animal ou uma boneca inflável.
Machucava Luísa, quase a sufocava com seu peso e sua falta de amabilidade.
Terminava de amá-la, pegava um paninho na cómoda ao lado da cama, limpava-se, virava-se de lado e dormia ronco alto, noite adentro.
Luísa chorava por inúmeros motivos, fosse de dor, de falta de prazer, por sentir-se usada e mal-amada.
Encheu-se de coragem e, certo dia, tentou conversar com o marido sobre a intimidade de ambos.
— Querido, precisamos ter uma conversa séria.
— Que conversa? – perquiriu ele, tom seco e agressivo.
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