PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 13, 2016 8:15 pm

Tenho certeza de que, assim que Genaro sair desse estado de choque, vai usar de todo seu poder e influência para sair desse escândalo de cabeça erguida e, acredite aplaudido pelo seu eleitorado.
Não deu outra.
Na tardinha do mesmo dia, Genaro assinou o seu depoimento e voltou a Brasília.
Nem passou pela cadeia.
Prestou seu depoimento, contou o caso a sua maneira – afirmando que Luísa o tirara do sério –, contratou um dos melhores advogados de família do país e, por meio da amizade com jornalistas e outras pessoas influentes da mídia, o caso da agressão a sua mulher não teve repercussão.
Quase ninguém ficou sabendo do que ocorrera com Luísa.
Genaro saiu da cadeia e foi directo para sua casa.
Fez as malas e, instruído por seu advogado, deixou a casa em direcção ao aeroporto.
Mudou-se para Brasília.
Não tinha mais jeito.
Ele deveria dar a separação e, ainda por cima, de maneira consensual.
Antes de deixar a casa, ele explodiu com o advogado.
— Vou ter de dar a casa para Luísa? Nunca!
O advogado procurou ser cordial.
— Genaro, veja só:
você agrediu sua esposa e, mesmo que o escândalo não tenha vazado na imprensa, a policia está de olho em você.
— E daí?
— Caso queira uma separação litigiosa, talvez a separação de vocês vá aos jornais e todo mundo vai querer esmiuçar sua vida, vão saber das surras que você dava em Luísa.
— Mas a casa já era minha quando nos casamos.
Ela não tem direito.
— Não é questão de direito, mas de perspicácia.
Sabe que o povo adora um escândalo, uma fofoca forte.
Você quer arranhar sua imagem de uma vez?
— Não quero, de maneira alguma.
— Pois bem – tornou o advogado – você é benquisto, bem relacionado.
Está construindo um bom património e está nervoso porque vai deixar a casa para Luísa?
Pelo que sei, ela mal sabe de suas contas no exterior.
— Ela nem desconfia.
— Então, dê a casa a ela.
Vai ganhar a simpatia do eleitorado.
E uma pensão.
— Pensão?
— Sim.
— Terei de dar pensão a essa mulher?
Já não chega a família de chupins que sustentei até pouco tempo?
Isso é loucura!
Não vou lhe dar nada.
— Você vai ter de dar. É a lei.
— Luísa não vai se sair bem dessa.
Prometo que não vai.
— Genaro, calma.
Não queira estragar sua vida por conta disso.
Não almeja a Presidência da República?
— É tudo o que quero.
— Instale-se de vez em Brasília.
Saia do apartamento largue as festas de arromba, compre uma bela casa no Lago Sul.
Comece a se preparar para sua candidatura ao Senado.
Deixe o casamento e Luísa para trás.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 13, 2016 8:15 pm

— Um político separado não é bem-visto pelo eleitorado.
— Então, arrume outra esposa.
Case-se de novo tão logo saia o divórcio.
Você não é homem feio. Tem fama e poder.
Que mulher não gostaria de estar casada com você?
Genaro deu um risinho.
— Pode ser.
Vamos embora que estou enjoado desta casa, de Luísa, da cara de piedade da Eunice.
Vou deixar essa história para trás.
O advogado assentiu com a cabeça e, ajudando Genaro com as malas, ambos desceram as escadas e pararam diante da porta.
Genaro foi até o escritório, abriu o cofre e pegou uma pasta cheia de documentos e um maço de dólares.
Colocou tudo numa valise saiu para o jardim.
O táxi o esperava.
Meteu as malas no porta-malas e, olhando para a casa com ar de repulsa, pensou:
“Você não perde por esperar, Luísa.
Ainda vou me vingar de você”.
Genaro entrou no carro por uma porta e o advogado por outra.
O motorista deu partida.
Logo o veículo dobrou uma esquina e sumiu.
A caminho do aeroporto, enquanto eles conversavam seu advogado mal podia imaginar que, sobre a cabeça do político,
Uma grossa e espessa nuvem enegrecida pairava sobre sua cabeça, em virtude dos pensamentos maledicentes que permeavam sua mente.
*****
Rosalina chegou do Centro Espírita e foi ter com o filho.
Ele estava conversando com José, quando ela o interpelou:
— Caio, precisamos conversar.
— O que foi, mãe?
— Temos de conversar – ela olhou para José e concluiu –, a sós.
José levantou-se, sorriu para ela e foi para a cozinha.
— O que foi?
Ela devolveu o sorriso a José.
Caio percebeu e também riu, mas preferiu dissimular.
— Percebo que vocês se dão muito bem.
Você gosta dele, né filho?
— José é o pai que nunca tive mãe.
Eu não conheci meu pai.
— Como não?
Você tinha dois anos quando ele morreu.
— Eu era muito pequeno, mal me lembro de seu rosto.
— Infelizmente, não tenho uma foto sequer para fazê-lo se lembrar de seu pai.
— Não tem problema.
O José está fazendo muito bem esse papel.
— Fico feliz que esteja dando ouvidos aos mais velhos.
Como tivemos mais experiências que vocês, às vezes, uma palavrinha pode livrá-los de uma grande encrenca.
— Tem razão.
Mas o que queria falar comigo?
— Estou muito triste, meu filho.
Fiquei sabendo no Centro Espírita sobre a menina bonita.
— Que menina bonita?
— Luísa.
Caio assustou-se.
— Aconteceu alguma coisa com ela?
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 13, 2016 8:15 pm

— Parece que teve uma briga com o marido e foi internada.
— Internada!?
— Sim, meu filho.
Faz alguns dias.
Hoje participei de um grupo de médiuns que faz tratamento à distância.
Vibramos bastante por ela.
Mafalda disse que ela vai se recuperar e que logo vai iniciar nova etapa em sua vida.
Caio não sabia o que dizer.
Agora tudo fazia sentido.
Luísa ficara de ir ao seu encontro e desaparecera.
Fazia quase uma semana.
Ele acreditava que Luísa houvera se entendido com o marido, que estava vivendo feliz.
E, embora estivesse triste com essa resolução, começara a acreditar, mesmo a contragosto, que nunca mais iriam se ver.
Um brilho de emoção perpassou pelos olhos do rapaz.
Ele sorriu para si e perguntou à mãe:
— Onde ela está?
Preciso vê-la.
Rosalina deu o endereço do hospital ao filho.
Caio subiu, foi ao seu quarto, arrumou-se e saiu feito um foguete.
Celinha o viu sair daquela maneira e comentou com Rosalina:
— O que deu em seu filho?
Rosalina riu.
— Amor, Celinha.
Caio corre atrás do amor.
Celinha não entendeu.
Foi para o tanque terminar de lavar algumas peças de roupas dos hóspedes.
— Uai! Essa pensão está cheia de doidos, isso sim.
***
Luísa deu entrada no pronto-socorro do hospital, foi medicada e sedada.
Ela teve um corte profundo no canto dos lábios e fracturou uma costela.
No resto, estava bem.
Quer dizer, perto da surra que Genaro lhe deu, até que Luísa se safara dessa.
Pelo estado em que chegou ao hospital, parecia que ela não sobreviveria.
Mas Luísa sobreviveu.
Fosse pelo carinho extremado de Renata, fosse pela dedicação de Eunice, fosse pela sua própria força interior.
Luísa aprendera de forma rude e agressiva que o preço da dependência pode nos custar à própria vida.
Fazia alguns dias que estava internada.
Mais um dia e receberia alta.
Renata entrou no quarto carregando lindo sorriso no semblante.
— Bom dia, amiga. Como vai?
— Bem.
— Está com a cara bem melhor.
— Tenho melhorado bastante e confesso estar pronta para mudar completamente minha vida.
— Pois vai mudar mesmo.
Seu marido mudou-se em definitivo para Brasília.
— Genaro partiu?
— Sim.
— Assim, sem mais nem menos?
— E o que você queria que ele fizesse?
Depois do ocorrido, após ter abafado o caso na imprensa, ele teve medo e o advogado dele quer conversar com você.
— O que será?
— Genaro vai lhe dar a separação.
Sem litígio.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 13, 2016 8:15 pm

— Você está brincando!
— Não estou não, minha amiga.
Depois da covardia com a qual ele lhe atacou, não tem escapatória.
Ele preza muito sua imagem de bom político e convenceu-se de que o casamento de vocês foi por água abaixo.
— Fico tão feliz! – exultou Luísa.
É a primeira noticia boa que recebo em muito tempo.
— E tem mais.
— Mais?
— Ele vai lhe deixar a casa.
E vai ter de lhe dar uma pensão.
Luísa revirou-se e ajeitou o corpo na cama, com delicadeza.
Seu corpo doía bastante quando se mexia.
— Não quero pensão do Genaro.
Na verdade, não quero nada.
— Deixe de ser orgulhosa.
Você precisa se reerguer refazer sua vida.
Ficou anos ao lado de Genaro como esposa dedicada e fiel.
Agora chegou o momento de ser restituída.
— Mas não gostaria de manter vínculo algum com ele.
— Faça mudanças.
A principio, fique na casa.
— Aquela casa me traz lembranças muito tristes.
— Venda-a.
Compre outra, em outro bairro.
— Pode ser...
Renata teve um flash.
— Por que não compra um apartamento lá no meu prédio?
Poderemos nos tornar vizinhas, ficar próximas e fazer companhia uma a outra.
— Não deixa de ser má ideia.
— Com o dinheiro da pensão, você vai providenciando uma poupança.
— E poderei ajudar minha mãe.
— Claro!
E não se esqueça de retomar os estudos, procurar um emprego.
Quando estiver bem e sentindo-se auto-suficiente, corte a pensão.
Mas use a cabeça, Luísa.
— Não sei ao certo.
— De nada adianta ser orgulhosa.
Você não tem condições para isso.
— Assim você me ofende.
— De modo algum. Sou sua amiga.
Só falo a verdade.
Você sempre se sentiu muito insegura.
Desde os tempos de colégio era assim, lembra-se?
Nas gincanas, ficava indecisa em qual time participar.
Quer que eu repita a indecisão em comprar os doces no recreio?
Luísa riu.
— Não precisa.
Você gosta de me provocar com essas histórias.
Renata sorriu.
— A indecisão faz parte de sua natureza, mas creio que é chegado o momento de rever essa sua postura de insegurança.
Está na hora de abrir os olhos e ter a coragem de olhar para dentro de si mesmo, promover mudanças, rever conceitos.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 13, 2016 8:16 pm

— É fácil falar.
Sofri muito nesta vida.
Fui criada como uma princesa e, de repente, papai perdeu tudo.
Em seguida, conheci Genaro e minha família me empurrou para o casamento.
Nunca tive amor, carinho, atenção.
Ele sempre foi bruto comigo, sempre foi egoísta e me tratava como um pano de chão.
— É o que você é.
— Desculpe-me – disse Luísa, aturdida.
Não entendi o que disse.
— Eu falei com todas as letras, que você é um paninho de chão.
A gente usa, pisa em cima e joga fora.
— Nunca pensei ser ofendida dessa forma.
E ainda se diz minha amiga?
Renata ficou séria.
Aproximou-se da cama e sentou-se próxima a Luísa.
— Você nunca se deu valor.
Sempre se achou menos, sempre acreditou ser impotente, uma coitadinha largada no mundo.
Atraiu um marido como Genaro para reconhecer que tem força.
Luísa – ela acariciou os cabelos da amiga, que teimavam em lhe cobrir um dos olhos –, você é tão bonita, tão inteligente.
Como pôde ser submissa por tantos anos?
Por que aturou Genaro até chegar a essa situação?
Se estivesse do seu próprio lado, se desse o devido valor...
No primeiro tapa que levou, teria saído de casa e sua vida poderia ter sido outra.
— Mas...
— Nem mais, nem meio mas.
Você aguentou o primeiro tapa.
Depois veio o primeiro soco.
Logo em seguida o início das surras, cada vez piores cada vez mais agressivas.
Por quê? Ora, porque a vida iria lhe proteger se você nunca se deu um pingo de consideração?
As lágrimas escorriam sem cessar sobre a face de Luísa.
— Sempre tive medo de ser independente.
Nunca acreditei em meu potencial.
— Talvez isso a acompanhe já há algumas vidas.
Quem sabe não chegou o momento de um basta, de se livrar dessa postura que só lhe traz dor e sofrimento?
O que custa tentar dar um passo à frente, mudar e crescer?
Às vezes, estamos a um passo da felicidade e mal notamos.
— Como faço para mudar, Renata?
Ajude-me, por favor.
Elas abraçaram-se de maneira comovente.
Renata acariciava os cabelos da amiga e passava delicadamente as mãos pelas costas de Luísa.
Henry deixou que uma lágrima escapasse pelo canto de seu olho.
O espírito estava deveras emocionado.
Carlota tocou em seu braço, chamando-o à realidade.
— Luísa está pronta para mudar e crescer.
— Eu sinto tanto por ela!
Se eu estivesse encarnado, poderia ajudá-la.
— Tenha calma, Henry.
Você foi um bom filho no passado e será agora no futuro.
Eu confio em você e acredito que vai fazer Luísa muito feliz.
Você tem aprendido muito aqui no astral sobre o valor da família.
Aproxima-se o momento de Luísa recebê-lo como filho.
Creio que agora terão uma relação permeada pelo carinho, respeito e unidos, sim, pelos verdadeiros laços do amor.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 13, 2016 8:16 pm

— Eu tenho certeza de que farei Luísa e Caio muito felizes.
Formaremos uma linda família.
— Tudo tem seu tempo.
Entretanto, ainda teremos de esperar pelo desenrolar dos acontecimentos.
Sabemos que Luísa e Caio mudaram bastante o jeito de ser.
Seus espíritos desejam imensamente mudar para melhor.
Todavia, Guido, Genaro e Gregório ainda se sentem traídos, estão presos às reminiscências do passado.
Talvez não seja dessa vez que vão se libertar das mágoas.
— Quer dizer que Luísa e Caio não vão se libertar do ódio deles?
Terão de estar eternamente presos a esses espíritos?
— De forma alguma – ponderou Carlota.
Luísa e Caio estão caminhando para mudanças positivas.
Querem se libertar dos erros do passado e estão reformulando suas atitudes.
Ponto positivo para seus espíritos.
Saiba que, ao passo que vão se libertando das amarras do passado e caminhando em direcção à evolução, ambos vão deixando para trás quem não se sintonizar na mesma faixa vibratória deles.
— Como assim?
— Luísa e Caio anseiam por uma vida melhor.
Querem melhorar.
Genaro e Gregório, por exemplo, não querem saber de crescer, porquanto estão presos ainda ao passado.
Se eles não mudarem, não haverá mais como mantê-los ligados a Luísa e Caio.
Estarão, digamos assim, vibrando numa outra sintonia.
— Quer dizer que, ao mudarem as atitudes, Caio e Luísa estarão mudando seu padrão energético?
— Sim, Henry.
E as nossas ligações na Terra se dão por atracção energética.
Quanto mais Caio e Luísa promoverem as mudanças necessárias em suas crenças e atitudes, enxergando o mundo de maneira mais lúcida, libertando-se das ilusões, mais vão se afastando da companhia de Genaro e Gregório.
Ou mesmo da influência negativa de Guido.
— Interessante.
Bom, creio que estou muito feliz em poder encontrar Luísa nesse estado de mudança positiva.
— E agora, o que vai fazer?
— Fiquei de visitar Loreta.
Ela vai receber alta da estação de tratamento e vai para a mesma cidade espiritual que resido.
— Loreta tem progredido bastante.
Vai já ao seu encontro?
— Sim.
Henry assentiu com a cabeça e aproximou-se do leito de Luísa.
Estalou delicado beijo em sua fronte.
— Cuide-se mãezinha.
Você precisa ficar boa para me receber como filho.
Os dois espíritos alçaram voo, enquanto Renata e Luísa permaneceram abraçadas, em silêncio, dando-se forças para que a vida as ajudasse a continuarem firmes no propósito do crescimento de seus espíritos.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 13, 2016 8:16 pm

CAPÍTULO 19

Meia hora depois, Caio saltou do ónibus e, ao descer uma quadra, alcançou o hospital.
Deu o nome de Luísa na recepção.
— Quarto 602. Favor preencher essa ficha de visita.
O rapaz preencheu a ficha, pegou o crachá.
Ao lado da recepção ele avistou uma pequena banca de flores.
Comprou um vasinho de violetas.
Tomou o elevador e, ao chegar ao andar indicado, foi caminhando pelo corredor e procurando pelo número 602.
Bateu levemente na porta entreaberta.
Uma voz ordenou:
— Entre.
Caio empurrou a porta e entrou.
Quando seus olhos e os de Luísa se encontraram, ambos sentiram um choquinho, uma espécie de brando calor que lhes invadiu o peito.
— Fiquei sabendo a pouco do ocorrido.
Teria vindo antes, se soubesse.
Luísa abriu largo sorriso.
— Seja bem-vindo.
Ele aproximou-se de sua cama e cumprimentou Renata.
— Olá.
Ela devolveu com o mesmo cumprimento e tornou, de maneira engraçada:
— Creio que estou sobrando aqui no quarto.
Vou embora.
O horário de meu almoço está chegando ao fim e necessito voltar ao trabalho.
Ela beijou Luísa no rosto.
— Ligue-me se precisar.
Amanhã virei buscá-la, após a alta.
— Não será necessário.
— Como não?
— Eu tomo um táxi e, ademais, não quero que falte ao trabalho por minha causa.
— De maneira alguma.
Eu conversei com meu chefe e está tudo acertado.
Uma das enfermeiras me informou que logo cedo o médico lhe dará alta.
Estarei aqui para levá-la.
Será um grande prazer.
— Obrigada, minha amiga.
— Hoje à tarde irei ao distrito policial.
O delegado vai tomar meu depoimento.
Precisamos terminar logo com essa burocracia toda.
Renata despediu-se de Caio com um aceno.
Ao sair do quarto, encostou a porta.
— O que aconteceu? – perguntou o rapaz, aturdido.
Você está bastante machucada.
— Tive uma briga feia com meu marido.
— Briga feia?
Parece-me que ele bateu muito em você.
— Bateu para valer!
— Que covardia!
Se eu o visse na minha frente, juro que lhe daria uma boa surra.
— Não será necessário.
Não quero mais confusão.
Renata indicou-me um advogado conhecido, muito bom, e não falarei mais com meu marido, quer dizer, ex-marido.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 13, 2016 8:16 pm

Entrei com os papeis para a separação.
Caio sentiu o coração tremer.
A boca ficou sem saliva e ele pigarreou, tentando disfarçar a emoção que o dominava.
— Vai mesmo se separar?
— Sim. Não posso mais viver um casamento que há muito está acabado.
Faltava somente formalizar a separação.
— E o que vai fazer de sua vida?
— Recomeçar.
Vou vender a casa, talvez comprar um apartamento no mesmo prédio da Renata.
Pretendo voltar a estudar e me graduar.
Quero ser independente, trabalhar, ganhar meu próprio sustento.
Não quero mais depender de ninguém.
Olhe só para mim.
Este é o resultado de tanta submissão e dependência.
— Você é uma mulher forte.
— Vou estudar Direito.
Pretendo prestar assistência às mulheres que sofrem violência doméstica.
Assim como eu.
— Eu a admiro muito.
Ela sorriu.
Caio queria lhe falar tanta coisa, mas vendo-a tão machucada, preferiu esperar por outra oportunidade.
Pelo menos ela estava desimpedida.
Isso já o alegrava bastante.
Luísa o arrancou de seus pensamentos.
— Como anda sua carreira de modelo?
Caio fechou o cenho.
— Não tem mais carreira.
— Por quê?
— Porque não sinto confiança no homem que quer me contratar.
Conversei com minha mãe a respeito e chegamos à conclusão de que não vale a pena.
Vou devolver o dinheiro do adiantamento e procurar uma agência de modelos.
— Bom para você.
Mas vai viver de quê até que alguma agência se interesse por esse rosto tão bonito?
Caio enrubesceu.
Abaixou a cabeça, envergonhado.
— Pretendo arrumar trabalho.
Vou a uma agência de empregos procurar alguma coisa.
— Não pensa em estudar?
— Sim, mas não agora.
Eu sonhei tanto com a carreira de modelo, Luísa!
Preciso apostar todas as minhas fichas.
Se amanhã eu perceber que esse não é o meu negócio, paciência, eu vou procurar estudar algo que me interesse que me dê futuro.
Cansei de dar murro em ponta de faca.
Quero ser feliz.
— Eu também.
A felicidade é uma conquista interior.
Estou revendo conceitos e posturas que me impedem de ser feliz.
Creio que esteja a um passo da felicidade.
— Pois muito me agrada vê-la assim, cheia de ânimo e disposição, depois de tudo o que lhe aconteceu.
— Renata e eu conversávamos sobre minha vida até há pouco.
Ela fez com que eu enxergasse que meu marido, perdão, ex-marido, não é o culpado de eu estar aqui nesse estado.
Eu contribuí para estar aqui, de certa forma.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 13, 2016 8:17 pm

— O que diz é insano.
— Não é não.
— Como ele não tem culpa?
E o mal que lhe fez?
— Ele não me causou mais mal do que eu estava causando a mim mesma.
Caio – a voz de Luísa estava embargada –, eu permiti que as coisas chegassem a esse ponto por responsabilidade minha.
Como Renata bem disse se no primeiro tapa eu tivesse revidado ou mesmo sido mais firme e enérgica, talvez o rumo dos acontecimentos fosse alterado.
— Fala de maneira como se não fosse vítima daquele infeliz.
Você foi uma, oras!
— Não. Não fui.
Não existem vítimas no mundo, Caio.
Eu já havia aprendido sobre esse assunto numa palestra lá no Centro Espírita.
— Mamãe já me falou algo a respeito.
Contudo, eu tenho um pé atrás em relação a essa crença no mundo invisível.
— Por quê?
— Ora, porque eu não vejo nada, não consigo acreditar em algo que eu não vejo.
— E quanto a sentir?
— Sentir?
—É. Nunca sentiu um arrepio, sem mais nem menos?
Nunca se percebeu sendo vigiado, como se alguém estivesse ao seu lado, quando na verdade você estava sozinho?
— Isso já me aconteceu, sim.
Mas não tem nada a ver com Espiritismo.
— Claro que tem.
Como pode acreditar que vivemos sozinhos?
Estamos rodeados de amigos espirituais, sejam eles bons ou não.
É como o mundo em que vivemos.
Existem pessoas boas e más.
E nós nos juntamos a elas por sintonia, por vibração.
O mesmo se dá com os espíritos.
— Será? Você parece ser tão inteligente.
— Obrigada.
— Mas frequenta um Centro Espírita.
— Está sendo preconceituoso.
— Não é isso – tornou Caio, sem jeito.
— E sua mãe?
— O que tem ela?
— Crê que seja ignorante?
— De forma alguma!
Eu fico confuso.
Outro dia ela me trouxe uma carta psicografada pela minha irmã.
— E?
— Fiquei em dúvida.
— Havia algo na carta que despertou sua atenção?
— Sim. Falava de meu pai e de minha avó.
Até o nome deles estava escrito lá.
Eles morreram há muitos anos...
— Aí está uma prova incontestável.
Caio coçou a cabeça.
— Tenho medo, talvez.
É difícil acreditar nisso.
A ciência diz que os espíritos não existem e os intelectuais, em geral, tripudiam sobre o assunto.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 13, 2016 8:17 pm

— Trata-se do mecanismo de defesa dessas pessoas que não querem enxergar as verdades da vida.
A reencarnação já foi comprovada.
Existem livros sérios acerca do assunto, inclusive de cientistas de renome.
— É mesmo?
— Sim. Façamos o seguinte, um dia você me acompanha no Centro Espírita.
Depois de assistir a uma palestra, e tomar um passe, você me diz o que achou de tudo.
Assim terá como argumentar.
— Eu topo.
— Tão logo eu me recupere iremos juntos ao Centro.
Para você ter uma ideia – ela se ajeitou na cama –, um amigo meu, Maximiliano, regressou de Londres cheio de histórias fascinantes sobre a existência da reencarnação.
Lá na Europa o tema é estudado com afinco por muitos profissionais.
Caio não podia acreditar no nome que ouviu.
Luísa conhecia Max?
O famoso Max, amigo de Guido e que ele nunca conhecera?
Será que era a mesma pessoa?
— Esse homem mora na Alameda Casa Branca?
— Ele mesmo.
Foi ele quem deu carona à sua mãe, do Centro Espírita à pensão naquela noite, recorda-se?
— Vagamente.
Ouvi falar dele, até achei que ele não fosse de verdade.
— Por quê?
— Um conhecido meu vivia dizendo que o Max iria voltar de Londres.
Mas ele nunca voltava. Ia ficando.
Um dia chegou, mas não tive a chance de conhecê-lo.
— Já sabe de quem se trata – tornou Luísa.
Max é um homem fascinante, um amigo fora do comum.
Ele e Renata, hoje, são meus melhores amigos.
— Gostaria de fazer parte desse grupo.
— Será um prazer.
Caio queria lhe falar mais.
Queria dizer a Luísa que ela era linda, mesmo machucada.
Que seu sorriso era encantador e que, nos últimos dias, chegara inclusive a sonhar com ela.
Entretanto, não sentiu coragem para falar tudo aquilo.
Luísa estava em estado de repouso.
Quando ela voltasse para casa, se a amizade continuasse ele talvez tivesse coragem para abrir o coração.
E, de mais a mais, de que adiantaria lhe abrir o coração?
O que ele tinha a lhe oferecer? Nada.
Caio estava sem trabalho, sem estudo, sem dinheiro.
Precisaria fazer alguma coisa. Urgente.
Bem que José lhe disse que quem ama cresce.
Será que ele estava amando?
Será que esse calor no peito, essa vontade de ficar ao lado de Luísa para sempre, esse troço que subia em sua barriga toda vez que sentia seu hálito perfumado era amor?
Caio nunca tivera sentimento parecido.
Amava sua mãe, mas de outra forma.
Não sentia choquinhos quando se aproximava de Rosalina.
Com Loreta e Sarita sentira prazer, mas nada de o coração bater descompassado.
A conversa fluiu agradável e alguns minutos depois, quando a enfermeira chegou para lhe aplicar uma injecção, ele resolveu partir.
Despediu-se e, quando ela lhe depositou um beijo na face, Caio pensou que iria ao chão, sentindo as pernas trémulas.
Ele se despediu e saiu o mais rápido possível, para que Luísa não percebesse sua emoção.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 10:46 pm

Pelo menos ele tinha a certeza de que queria e deveria mudar.
Iria naquela tarde mesmo a uma agência de empregos. Iria arrumar algum tipo de serviço, mesmo que a remuneração fosse baixa.
Precisava mostrar à sua mãe, à Luísa e, acima de tudo, a si mesmo, que tinha valor e podia crescer.
Foi assim que ele tomou o metro com destino à Praça da Sé.
Lá havia uma concentração grande de agências de emprego.
Caio tinha certeza de que iria arrumar um.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 10:47 pm

CAPÍTULO 20

Loreta despertou cedo naquela manhã.
Sabia que seria sua despedida naquela estação de tratamento.
Iria morar numa colónia espiritual não muito longe da crosta terrestre.
Estava feliz.
Uma enfermeira entrou no quarto e a cumprimentou.
— Como vai, Loreta?
— Vou bem. Acordei tão feliz!
— Há muito tempo que eu não a via tão bem.
Você ficou meses em sonoterapia e depois custou um pouco para se livrar da depressão pós-morte.
— Já tinha ouvido falar em depressão pós-parto, mas pós-morte? Nunca.
As duas riram.
A enfermeira considerou.
— Esse tipo de desânimo atinge a maioria dos desencarnados.
Tão logo o espírito se vê livre do corpo físico e retorna ao mundo espiritual, começa o período, para os de mente lúcida, de avaliação da última vida terrena.
Por conta de preconceito, medo, insegurança e tantos outros sentimentos negativos, esses espíritos percebem que não cumpriram com o que haviam traçado antes do reencarne.
— Foi como eu me senti.
Não consegui cumprir com os objectivos previamente traçados.
Senti-me uma inútil e precisei de muita terapia para entender todo esse processo e aceitar que tudo está certo no mundo.
— Correcto, Loreta.
Está tudo certo, não há nada errado.
Você se propôs a levar sua vida encarnada de um jeito e acabou vivendo de outro.
Entretanto, o seu espírito amadureceu, de uma forma ou de outra.
Mesmo não tendo conseguido seus intentos, seu espírito lucrou bastante com essa experiência na Terra.
Afinal, uma vida nunca é desperdiçada, por pior que ela nos pareça.
— Sei e aprendi a aceitar essa realidade.
Sinto-me mais forte para recomeçar e ajudar àqueles que amo.
— Vai se dedicar a ajudar seus filhos no orbe?
— Sim. Genaro e Gregório estão em franco desequilíbrio.
Eu não os condeno, não os julgo por suas atitudes, visto que a consciência de ambos será juiz suficientemente duro a condená-los, mais adiante.
Eu prefiro ficar na vibração, torcer para que eles aprendam com seus erros.
Afinal, não posso mudá-los.
Carlota entrou no quarto.
Sorriu para ambas.
— Bom dia.
A enfermeira a cumprimentou.
Depois, despediu-se de Loreta e saiu.
A sós com Carlota, Loreta declarou:
— Quero melhorar e crescer.
— Está a caminho.
— Fui fraca e deixei-me levar pelo prazer.
Perdi-me no emaranhado de sensações que o prazer nos arremessa.
— O prazer faz parte da grandeza do espírito.
Tudo o que fazemos de bom para nós e para os outros, enche o espírito de prazer.
Mas – Carlota salientou – não confunda prazer com libertinagem, pois aí reside o desrespeito a si próprio e às pessoas ao nosso redor.
— Aprendi minha lição, de maneira árdua, mas aprendi.
É por esse motivo que estou determinada a passar um bom tempo aqui no astral.
Quero acompanhar a vida de meus filhos, inspirarem-lhes bons pensamentos dentro do possível.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 10:48 pm

— Ambos precisarão de muita vibração positiva.
— Vou dar o melhor de mim, Carlota.
— Seu ónibus parte em meia hora.
— Ónibus?
Carlota riu.
— Sim. Ónibus.
Aqui no astral utilizamos um veículo parecido com um ónibus, que serve para transportar os espíritos para as várias colónias espirituais.
Na verdade, o meio de transporte aqui se chama aeróbus.
— Se podemos voltar, por que precisamos de transporte?
— Você não consegue volitar, consegue?
— Tentei, mas ainda tenho muita dificuldade.
Quando encarnada, eu tinha pavor de altura.
— Se tinha pavor de altura, como pode querer se transportar entre as dimensões, entre os vários mundos que percorremos?
Consegue se imaginar sobrevoando a Terra?
— Acho lindo, mas só de pensar me dá um frio na barriga!
— É por essa e outras razões que temos meios de transporte.
Espíritos recém-desencarnados, ainda sem consciência de seu real estado, são transportados nesses veículos.
Espíritos doentes também.
E, quando temos de atravessar determinadas faixas densas do Umbral, usamos esse meio de transporte.
— Tenho tanto a aprender, Carlota.
Assim talvez eu me distancie dos prazeres sexuais.
Terei mais tempo para reflectir e repensar o uso do sexo.
— Faz bem.
A lucidez é nossa grande amiga – ela pousou sua mão na de Loreta.
Use a seu favor, para o seu crescimento.
— É o que farei.
Carlota consultou o relógio.
— Estamos na hora. Vamos.
Loreta pendeu a cabeça para cima e para baixo, concordando.
Pegou alguns pertences e saíram.
Loreta despediu-se dos enfermeiros e caminhou mais uma vez pelo belo e perfumado jardim que circundava o edifício.
Em seguida, pegou na mão de Carlota e deixou-se conduzir até o ponto em que o aeróbus iria pegá-las.
****
Mais um ano se iniciou...
Luísa separou-se oficialmente de Genaro e, em seguida, vendeu a casa.
Comprou um apartamento no mesmo edifício que Renata.
No andar imediatamente abaixo da amiga.
Eunice foi junto.
Em seguida, retomou os estudos.
Ingressou na faculdade de Direito, como almejara.
Luísa estava firme no propósito de se graduar e advogar para mulheres vítimas de violência doméstica e sexual.
Ela admirava o trabalho e a competência de Renata.
Sua amiga tornara-se executiva bem-sucedida e aquele projecto que vislumbrara para a próxima estação foi escolhido pela direcção da empresa, e, com isso, Renata foi promovida à directora de vendas.
Além, é claro, de ganhar excelente remuneração por esse feito.
Maximiliano acompanhou duas exposições de artistas de renome e estava decidido a retornar o mais rápido possível para Londres.
Havia recebido uma carta do Dr. Bryan Scott, solicitando que ele voltasse para continuarem seus estudos acerca da reencarnação.
Genaro arrumara nova companheira.
Marisa era bem diferente de Luísa.
Mulher determinada, forte, falante e ardilosa como Genaro.
Colocava-o em seu devido lugar.
Por incrível que pareça, Genaro a adorava.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 10:49 pm

Gregório voltou de viagem, depois de alguns meses fora do país.
Com a campanha do perfume Nero pronta, estava à procura de Caio.
Fazia dois dias que havia ligado para a pensão e deixado recado.
Caio arrumou emprego naquela mesma semana que fora a uma das agências de emprego da Praça da Sé.
Conseguiu a vaga de vendedor numa boutique, num shopping center em região nobre da cidade.
O rosto bonito, sorriso cativante e olhar sedutor abriram as portas para Caio.
Logo, ele começou a ter um séquito de clientes que iam à boutique somente para vê-lo.
A gerente da loja, aproveitando o potencial de seu mais novo empregado, deu a Caio uma promoção, para que ele pudesse trabalhar em tempo integral e, por conseguinte, aumentar o ganho, pois vivia de comissões.
Quer dizer, quanto mais tempo na loja, mais ele facturava.
Todos saíam ganhando e, agora, neste ano, ele pretendia retomar os estudos.
Ele e Luísa viam-se de vez em quando.
Cada encontro era verdadeiro tormento para Caio.
O rapaz não sabia como articular as palavras perdia-se na conversa, tamanha emoção que sentia ao aproximar-se de Luísa.
Ela estava mais bonita, mais segura de si.
Caio percebera que estava completamente apaixonado, mas não podia declarar-se.
Ainda não.
Ele recusou os convites para ir ao Centro Espírita.
Mafalda alertara Luísa para não forçar o rapaz.
Dizia-lhe de que nada como um dia após o outro.
Em breve, ele iria ser chamado a ter contacto com o mundo espiritual.
Era uma questão de tempo.
Não adiantava querer arrastá-lo para o Centro.
Ele deveria ir por si próprio, sem ser obrigado a nada.
Caio saiu da loja feliz naquela noite.
Havia ultrapassado todas as expectativas de meta estipuladas pela sua gerente.
Sua beleza fez com que a loja fechasse o mês com mais vendas do que as costumeiras.
Por conta disso, o rapaz recebera grata gratificação.
Ele não cabia em si, tamanha felicidade.
Chegou a casa, queria falar com José, mas já era tarde e ele havia se deitado.
Rosalina também tinha ido dormir.
Ele deu de ombros e foi para a cozinha.
Estava com fome e Rosalina sempre deixava um prato feito para ele dentro do forno.
Caio entrou na cozinha, acendeu a luz e foi directo ao forno.
— Te peguei!
Ele deu um pulo e o coração foi quase à boca.
— Que é isso, Celinha?
Não gosto quando você me assusta assim.
— Brincadeirinha.
— De mau gosto.
E se eu sofresse do coração?
Ela fez uma careta.
— E se desmaiasse?
Como é que ficaria?
— Eu faria respiração boca a boca.
Com o maior prazer.
— Menina – censurou Caio –, anda impossível, ultimamente.
O que foi que te deu?
— Hormónios à flor da pele.
Pôxa – tornou ela, fazendo beicinho –, estou com dezoito anos e... Nada.
— Nada o quê, Celinha?
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 10:50 pm

— Nada. Nada de beijo, nada de nada.
Sem namorado, sem contacto, entende?
Caio riu.
— Entendi.
Você está matando cachorro a grito, é isso?
— Estou tão nervosa que estou sem grito para matar um cachorro que seja.
Caio pegou seu prato de comida.
— Quer que eu esquente? – perguntou Celinha, solícita.
— Não. Gosto de comida fria.
Sente-se aí comigo – ele disse, apontando para uma cadeira ao seu lado.
— Obrigada.
— Você precisa arrumar um namorado.
— Não, Caio, preciso de outra coisa.
Ainda sou virgem.
Minhas amigas fazem chacota, como se eu fosse um ser do outro mundo.
— Continue assim, não dê trela para suas amigas.
— Elas não estão certas?
Todas já foram para a cama com algum rapaz.
Menos eu.
— Não tenho como julgar o próximo, Celinha.
Fiz tanta burrada nesta vida que não tenho como atirar uma pedra que seja em alguém.
Mas creio que você deva se manter pura sim, até encontrar um homem que efectivamente desperte em você o mais nobre dos sentimentos.
O sexo entre duas pessoas que se amam é a coisa mais linda do mundo.
— Como você sabe?
Pelo que sei, nunca amou ninguém.
Caio enrubesceu.
Essa menina era danada.
— Nunca amei – ele riu –, mas tenho experiência.
Sei que o sexo sem amor é sem graça, e pode, inclusive, deixar marcas doloridas e profundas dentro de nós.
Sabe Celinha – ele cortou um pedaço de bife e levou à boca –, eu fui um pervertido, fiz sexo de maneira inconsequente, com qualquer mulher que aparecesse na minha frente.
Achava também que eram os tais hormónios.
— E não eram?
— Pura balela.
Eu estava sendo fraco, entregando-me a um tipo de vício.
Porque sexo sem amor não passa de vício, como fumar ou beber.
Note a diferença.
— Nunca pensei em nada disso.
Meus pais têm idade e nunca conversaram comigo sobre sexo.
Eu vim para cá há três anos e raramente escrevo ou recebo uma carta deles.
— Se você quiser, podemos conversar a respeito.
— Mas você é homem.
— E daí, qual o preconceito?
Faça de conta que eu sou seu irmão mais velho.
Você me pergunta e eu tento esclarecer.
Se eu não souber a resposta, vou atrás.
— Obrigada, Caio.
Sabia que poderia contar com você.
— Pode contar, de verdade.
— Você é um anjo bom na minha vida.
Celinha falou e ele imediatamente lembrou-se de Sarita.
Como ela estaria?
Onde será que morava?
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 10:50 pm

Soube que Eny fechara o bordel e cada uma das meninas seguiu seu rumo.
Onde andaria sua amiga, seu anjo bom, que tanto o ajudara no passado?
Caio fitou o nada por algum tempo, até que sentiu Celinha cutucar-lhe o braço.
— Onde estava?
Na lua?
Ele voltou a si.
— Desculpe-me, mas me lembrei de uma amiga, um anjo bom que tive também.
— Cadé ela?
— Não sei Celinha.
Acho que pelo mundo.
Sarita é mulher de extrema sensibilidade, deve estar vivendo bem.
Um dia a gente vai se encontrar, tenho certeza disso.
Enquanto Caio se refastelava com o arroz, feijão e bife com batatas fritas que sua mãe deixara no forno, Celinha ia enchendo-o de perguntas sobre sexo, desde as mais toscas e banais, básicas, até as mais cabeludas.
Caio enrubescia.
— Sobre isso eu não falo, Celinha.
Você está colocando a carroça na frente dos bois.
Vamos com calma.
— Desculpe-me, mas tem tanta coisa que eu quero e preciso aprender!
— Você vai experimentar tudo isso.
Mas precisa aprender como eu e muita gente, a frear seus impulsos sexuais.
Não dê ouvidos às suas amigas.
Não fique grudada na televisão ou acredite em tudo o que lê.
Você precisa aprender a domar seus sentimentos.
Tem de ser dona de si mesma, e para tal, precisa ser dona do que sente.
E não o contrário.
— Prometo que vou pensar sobre isso.
Ela deu um beijo na testa de Caio.
Ele sorriu.
— Obrigado, irmãzinha.
Celinha se levantou.
Antes de sair da cozinha, voltou o rosto para trás.
— Tem três recados de um tal de Gregório para você.
Disse que deve ligar a qualquer horário.
Insistente esse homem...
Ela falou e saiu.
Caio sentiu o sangue gelar.
Fazia meses que queria ter um encontro com Gregório.
Faltava pouco para completar o que lhe devia.
Dentro de mais um mês, com os juros do dinheiro aplicado e as vendas crescendo na loja, poderia, enfim, pagar o valor total daquele adiantamento.
Estaria livre de Gregório. Para sempre.
Caio terminou sua refeição.
Tomou um copo de refrigerante.
Após, mordiscou os lábios.
— Ligou ou não ligo? – perguntou para si mesmo.
Talvez seja melhor ligar.
Preciso acabar logo com essa situação.
Decidido, Caio foi até a recepção, discou o número no aparelho.
Uma voz melosa atendeu ao telefone.
Era Gregório.
— Olá, criança.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 10:50 pm

— Como vai? – perguntou Caio, sem jeito.
— Estou óptimo.
Nada como sair desse país horroroso e ter contacto com a verdadeira civilização.
Detesto este mundo de tupiniquins.
— Por que fica aqui?
Você é tão rico!
— Rico, mas não sou burro – disse Gregório, numa gargalhada afectada.
Em qual país do mundo eu posso sonegar os impostos, fazer caixa dois e não ser preso?
Daqui não saio.
De jeito algum.
— Se pensa assim...
Caio não sabia como começar.
O que diria a Gregório?
Que não queria mais participar de campanha publicitária nenhuma?
Assim, de maneira seca?
Ou era melhor conversarem cara a cara?
O que fazer?
Caio estava sem acção.
Gregório prosseguiu:
— Seu contrato está pronto.
Precisa vir buscá-lo, além de assiná-lo, claro.
— Amanhã passo em seu escritório.
— Não. Precisa ser hoje.
Aqui em casa.
— Hoje? É muito tarde.
Passa das onze da noite.
— Precisa ser hoje.
Demorei muito com o contrato.
Viajei, esbaldei-me e esqueci-me da empresa e da campanha.
Agora estou de volta e quero tudo para ontem.
— Eu passo aí amanhã cedinho.
O que acha?
— Não.
— Pode ser às sete da manhã, se você quiser.
A fala de Gregório estava visivelmente nervosa.
— Criança, eu disse hoje, entendeu?
Hoje – ele gritou.
Caio teve de afastar o fone do ouvido, tamanho o grito estridente.
— Como faço?
Onde mora?
— Anote aí – Gregório deu o endereço.
Pegue um táxi.
Se não tiver dinheiro, eu pago.
— Pode deixar, eu tenho como pagar.
— Espero você.
Em meia hora, no máximo.
— Está certo. Meia hora.
Caio pousou o fone no gancho.
Sua fronte suava.
Ele não queria mais falar com Gregório, talvez nem mesmo vê-lo.
Sentia por ele um asco, uma repulsa que não sabia de onde vinha.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 10:51 pm

Mas o que fazer?
Precisava devolver o dinheiro que o mantinha preso a ele.
Era chegado o momento de colocar as cartas sobre a mesa.
Iria sair daquela casa sem contrato, sem campanha, sem nada.
Caio nem trocou de roupa.
Pegou o dinheiro que julgava ser necessário para a corrida de táxi, o dinheiro que daria a Gregório e o resto guardou numa cómoda ao lado de sua cama.
Fez o mínimo de barulho possível para não acordar sua mãe.
O rapaz saiu da pensão e pegou um táxi na esquina da Rua Brigadeiro Luís António.
Deu o endereço ao motorista.
— Acha que demora muito?
— Não há trânsito nesta hora.
Chegaremos ao bairro do Morumbi em menos de vinte minutos.
Caio fez sinal afirmativo com a cabeça.
Recostou a cabeça no banco e, enquanto o motorista percorria o trajecto, ele ia contemplando as ruas, as casas, os prédios.
E o pensamento ia longe, muito longe.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 10:51 pm

CAPÍTULO 21

Renata saiu do trabalho e foi directo ao Centro Espírita.
Frequentava o local com assiduidade, todas as semanas e, além de fazer curso de médiuns, oferecido gratuitamente pela casa, estava ajudando no atendimento da recepção.
Munida de beleza, simpatia e, acima de tudo, carisma, arrancava sempre um sorriso, fosse de quem fosse, mesmo que a pessoa estivesse passando por sérios problemas.
Uma senhora, elegantemente vestida, aproximou-se da recepção e a cumprimentou.
— Boa noite.
— Boa noite.
Em que posso ajudá-la?
— Estou com um sério problema de saúde.
Fui a vários especialistas e mandaram-me para cá.
Esta é a minha última esperança.
— A senhora já havia ido a um Centro Espírita?
— Nunca. Sempre fiz vista grossa em relação ao mundo espiritual.
Não acreditei que isso fosse verdade, no entanto... – ela abaixou a cabeça envergonhada.
— No entanto? – Renata a encorajou.
— Eu perdi meu marido há três anos.
Oduvaldo foi meu grande amor.
Companheiro mesmo.
Vivemos uma linda história, construímos um lar, tivemos dois filhos lindos, hoje formados e com bons empregos.
Um casou-se recentemente.
O outro resolveu morar sozinho.
Diz que sua profissão pode me colocar em risco e prefere ter sua privacidade.
É muito independente.
Eu fiquei sozinha, mas vivo muito bem.
Sinto muita falta de meu marido, e...
A senhora pigarreou e continuou:
— Há três meses surgiu um nódulo no meu seio e eu preocupei-me.
Fui ao médico e fiz exames.
Enquanto isso passei a sonhar todas as semanas com Oduvaldo.
Ele aparece bem-disposto, com lindo sorriso nos lábios e me afirma que eu não tenho nada.
Que eu deveria sim, procurar uma casa espírita para aprender sobre o mundo espiritual.
Afirma que eu posso me curar se quiser.
— Faz sentido.
Você deve ter se encontrado com seu marido fora do corpo físico.
É isso.
— Então não delirei?
— Não.
— Sabe – a senhora baixou o tom de voz – eu tenho um filho que afirma ouvir os espíritos.
— Seu filho é médium?
— É alguma doença?
Renata riu.
— Não, minha senhora.
Não é doença.
Trata-se de uma sensibilidade que todos nós temos de perceber o mundo invisível.
Alguns sentem isso de maneira débil, outros, com a sensibilidade aguçada, conseguem manter conversação com os espíritos.
— Hum – a senhora mordiscou o lábio. – Entendo.
Mas o meu sonho foi tão real, tão vivo.
Despertei, todas às vezes, sentindo inclusive o cheiro da colónia que Oduvaldo usava.
— Você esteve com ele, sem sombra de dúvidas.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 10:51 pm

— Eu gostaria muito de fazer um tratamento espiritual que me ajudasse a me livrar desse nódulo.
Creio que ele – apontou para o seio – apareceu para que eu desse uma parada, criasse coragem para confrontar meus medos e começasse a mudar meu jeito de ser.
— Como assim?
— Desde que fiquei viúva, sonhei em fazer algumas coisas.
Pensei em voltar a estudar, a frequentar o clube da família, mas me julguei velha para recomeçar.
— Idade não é motivo para nos manter no ostracismo.
— Foi o que percebi.
Eu não quero ficar parada e não vou mais usar minha idade como factor para me manter em casa, sem fazer nada e ainda pior, pensando besteira.
— Você está correctíssima.
Vou encaminhá-la para atendimento e você explica melhor sua história.
— Obrigada.
Renata deu-lhe um papel.
Nele estava impresso um número.
— Preste atenção neste numero.
Assim que ele for pronunciado, dirija-se à mesa correspondente, está bem?
— Muito obrigada.
Você é muito simpática.
— Obrigada.
Meu nome é Renata.
Qualquer dúvida é só me procurar.
— Obrigada, Renata.
Meu nome é Zulmira.
Foi um prazer conhecê-la.
Zulmira entrou no corredor e Renata ficou observando-a até ela desaparecer numa curva.
Engraçado.
Ela tinha a sensação de que conhecia Zulmira de algum lugar.
Seu rosto era-lhe bastante familiar e ela sentiu por aquela senhora uma simpatia, um carinho sem igual.
Sorriu para si e voltou aos seus afazeres.
Depois apareceu um senhor, carrancudo, ar desconfiado.
— Quanto tenho de pagar para ser atendido?
— Aqui não se paga nada.
O atendimento é gratuito.
Caso contrário não seria um Centro Espírita.
— Como não pago nada?
— Nada, senhor.
— Passo por consulta, por tratamento, posso frequentar cursos, tudo isso sem pagar?
— Isso mesmo.
Ele encarou Renata de maneira desconfiada.
— Nem um tostão?
— Nem um tostão – ela replicou.
Ele sorriu, pegou sua senha e entrou.
Quando os trabalhos estavam para ser encerrados, Mafalda a chamou.
— Vamos nos reunir após os trabalhos.
Necessitamos fazer uma corrente de oração para dois amigos.
— Podem contar comigo – declarou Renata.
Após o encerramento dos trabalhos espirituais, Renata, Maximiliano, Luísa, Mafalda e mais três médiuns dirigiram-se a uma pequena sala que ficava nos fundos da casa.
Era uma sala pequena, porém muito confortável.
Havia algumas cadeiras dispostas em semicírculo e uma música agradável enchia o ambiente.
O toque final era dado por uma luz azul, bem suave.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 10:51 pm

Mafalda fez sinal para que se sentassem.
Depois, fez sentida prece e deu passagem para que um espírito se comunicasse.
Ela suspirou e, alguns instantes depois, o tom de sua voz sofreu leve alteração.
— Prezados companheiros, precisamos da ajuda de vocês a fim de enviarmos energias de equilíbrio para um querido ente encarnado, bem como vibrar forte luz para outro amigo que, por ora, só poderemos atingir com nossas vibrações de amor.
Sua aura enegrecida não nos permite aproximação, devido ao seu comprometimento com determinados espíritos do Umbral.
— Não podemos orar para esses espíritos também? – inquiriu Maximiliano.
— Sim, mas não podemos interferir no destino das pessoas.
Cada um é responsável por suas escolhas e nós, aqui do lado espiritual, podemos tão somente emanar, com a ajuda de vocês, vibrações que ajudem a apaziguar a dor.
O espírito deu-lhes mais algumas orientações e, logo em seguida, formaram um círculo em volta de Mafalda.
Eles deram-se as mãos e começaram a orar conforme a orientação dada.
*****
Caio chegou à casa de Gregório por volta de meia-noite.
Tocou o interfone.
Em seguida, o próprio Gregório o atendeu e accionou o portão para que este fosse aberto e Caio pudesse entrar na residência.
O rapaz contornou elegante jardim, passou pela piscina e chegou ao jardim de inverno.
Gregório estava vestindo seu indefectível robe de seda preto.
Uma mão segurava um cigarro e a outra um copo com uísque.
— Oi criança.
Gosto de quem cumpre com as minhas exigências.
A voz de Gregório soava meio pastosa.
Ele estava um tanto embriagado pela quantidade enorme de bebida que havia ingerido.
Caio falou a contragosto.
— Não tinha outro jeito.
Você foi categórico.
E, como eu tenho mesmo de resolver um assunto com você, preferi vir e acabar logo com esse peso em minhas costas.
— Peso nas costas? – Gregório sorriu.
Por favor – fez sinal –, sente-se porque a noite promete ser longa.
Gregório pegou a garrafa de uísque e a entornou em outro copo.
Colocou duas pedras de gelo e ofereceu-o a Caio.
— Beba criança.
Caio pegou o copo e sorveu quase todo o líquido.
— Calma, assim você vai ficar tontinho.
— Quero mais – ordenou Caio.
Gregório apanhou a garrafa, aproximou-se de Caio e despejou o líquido no copo.
— Beba devagar, criança.
Sua voz soava de maneira irritante.
Gregório, quando bebia, tornava-se pessoa insuportável.
Se, quando sóbrio, não tinha respeito pelos outros, bêbado, então, não tinha limites.
Caio, sentado numa poltrona em frente ao homem, pegou o copo e bebeu com vagar.
Gregório, por sua vez, deixou que o robe ficasse entreaberto, mostrando, propositadamente, as suas partes íntimas.
Aquilo causou terrível mal-estar em Caio.
Ele virou os olhos.
— Aceita um cigarro?
— Não. Parei de fumar.
— Ah, as crianças de hoje! – suspirou Gregório.
Adoro essa geração saúde.
— Preciso e quero tomar conta de meu corpo.
É o único que tenho.
Devo tratá-lo bem, oras.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 10:52 pm

— Faz sentido essa sua observação idiota.
Perfeito para a sua idade.
— Queria logo tratar do assunto que me fez vir aqui.
— É sobre o contrato.
— É sobre isso que eu também queria lhe falar.
Enquanto isso, uma voz amiga inspirava Caio para que ele não aceitasse provocações de Gregório.
O jovem captou alguma coisa.
— Então nosso primeiro assunto é o mesmo – tornou Gregório, após virar o copo e estalar a língua no céu da boca.
— Qual o outro assunto?
— Você.
Caio não entendeu de pronto.
— Desculpe-me, mas...
Gregório o cortou.
— Quero você.
Pelo menos hoje.
Ou tão somente hoje.
Caio levantou-se num salto.
Sua face ardia, tamanho rubor.
— O que pensa que sou?
Gregório riu.
— Um prostituto.
— Olhe como fala!
— Não é o que você é?
— Eu não sou e...
— Cale a boca! – vociferou Gregório.
Não venha dar uma de santinho para cima de mim.
O Guido me contou sobre vocês.
— Foi um acto insano.
Nunca havia me deitado com um homem antes.
Não sei o que deu em minha cabeça.
Na realidade, posso jurar que essa não é minha praia.
Nunca foi.
— Mas Guido disse-me que você gostou.
— Não interessa.
Foi uma loucura que cometi.
E não mais se repetiu.
— Vai ter de repetir comigo.
— Nunca!
Gregório levantou-se e aproximou-se do rapaz.
Chegou tão perto, que Caio pôde sentir seu hálito fétido e desagradável.
— Vai se deitar comigo.
Quer queira, quer não.
— Você não pode me obrigar.
— Não vou obrigá-lo, criança.
Vai me amar porque fui sempre seu.
Caio o empurrou.
— Pare com isso, Gregório!
Vim aqui para falar de meu contrato, que na verdade eu não quero mais assinar.
E vim também lhe devolver o dinheiro do adiantamento.
Consegui um emprego e daqui uns dois meses eu lhe pago tudo o que devo.
Gregório recuperou-se do empurrão e voltou a se aproximar.
Seus olhos brilhavam rancorosos.
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Ave sem Ninho

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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 10:52 pm

— Não quero saber do dinheiro do adiantamento.
Aquilo foi um mimo para você.
— Não! – Caio exclamou nervoso.
Vou devolvê-lo, tintim por tintim.
Gregório deu de ombros e caminhou até próximo de sua poltrona.
Serviu-se de mais um trago de uísque.
Caio aproveitou e tirou o maço de dinheiros que trazia no bolso.
— Aqui está – ele colocou o dinheiro sobre uma mesinha.
Não quero dinheiro dos outros.
— Orgulhoso.
Além de prostituto, é orgulhoso.
— Assim você me insulta.
Eu não sou prostituto.
— Mas foi. Sei de tudo a seu respeito.
Você tinha uma carteira de clientes.
Atendia ricaças insatisfeitas sexualmente.
Guido me falou.
— Cadé o Guido? – bramiu Caio.
Tenho de falar com ele.
— Não pode.
Não quero que vocês se vejam.
— Ele não tem o direito de falar assim de minha vida para qualquer um.
Gregório meteu-lhe o dedo em riste.
— Eu não sou – ele gritou – qualquer um!
Sou Gregório Del Prate, dono da Cia. De Perfumes.
Você, sim, é um nada, um lixo, um parasita que vive de michetagem.
Você é sujo e imundo.
Por tudo isso, vai fazer amor comigo. De qualquer jeito.
— Não!
— Não sai desta casa enquanto não ficar comigo.
Antes que Caio pudesse raciocinar, Gregório deu um assobio e logo dois cães pastores alemães vieram e pararam na porta do jardim de inverno.
Seus latidos e a expressão de maus amigos encheram Caio de pânico.
— Eles me obedecem.
Se eu gritar – ele abaixou bem o tom de voz – agora!
Eles avançam e não sobrará pedacinho de Caio para contar a história.
— Por que faz isso comigo?
Estou aqui para lhe devolver o dinheiro.
Sou homem de bem e não quero encrenca.
Vamos esquecer que um dia nos encontramos e cada um segue seu caminho.
— De maneira alguma – Gregório tirou o robe e ficou nu na frente de Caio.
O rapaz abaixou a cabeça.
– O que foi?
Não gostou do meu corpo?
Não tem vontade de me amar?
— Pare com isso, Gregório.
Eu não vou me deitar com você.
Pode dar ordem aos cachorros para me atacar, mas não encostarei um dedo em você.
Os olhos de Gregório marejaram.
— Patife! Ordinário!
Você tem de me amar!
Eu fiz tudo o que fiz para você me amar.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 10:52 pm

Eu sou sua.
Você tinha de ser meu.
Nunca deveria se casar com ela.
Caio estava aturdido.
Os olhos de Gregório pareciam querer saltar das órbitas.
Ele não estava em seu juízo perfeito.
Mas o que fazer?
Ele acuou-se numa parede e falou, num tom apaziguador.
— Eu não quero o contrato, não quero...
Gregório não lhe dava ouvidos.
— Eu fiz tudo por amor e agora você vai me ter. Para sempre.
Caio olhava para Gregório e para os cachorros.
Eles estavam em posição de alerta.
Ele não sabia o que fazer.
Os cachorros só atacariam sob a ordem de Gregório.
Aproveitou que ele estava delirando e andou, pé ante pé, até que atingiu a sala.
De lá poderia correr pela casa e tentar uma outra saída, antes que os cães o pegassem.
Quando ele ia dobrar o corredor da sala, Gregório bradou:
— Você matou Loreta.
Eu sei. Estou de olho em você.
Caio imediatamente parou.
Suas pernas falsearam por instantes.
A frase de Gregório caiu como uma bomba na sua cabeça.
Caio rodou nos calcanhares.
Encarou Gregório com espanto.
— O que foi que disse?
— Não vou repetir.
Eu o perturbei por um bom tempo, mas fiz tudo por amor.
— Não posso acreditar!
Você não seria capaz de um acto insano desse porte.
— Fui.
— Mas por quê?
— Eu o atormentei durante longo tempo, porque eu sabia.
Aliás, sempre soube do seu envolvimento com Loreta.
Caio levou a mão à boca.
— Você sabia do meu envolvimento com sua mãe?
— Sim. Você amava Loreta, uma velha.
Por que não pode me amar?
Por que ela e não eu?
Eu sou a sua Lucy.
Caio não entendeu.
Aliás, estava tão atarantado que nada mais fazia algum sentido para ele.
— É um absurdo.
Eu gostava de sua mãe.
— Entretanto, transava com ela por dinheiro.
A tonta da Isilda deu com a língua nos dentes.
— Isilda contou tudo?
Gregório riu com gosto.
— Nada que um bom punhado de dinheiro não abra ou feche a boca das pessoas.
Isilda foi ameaçada e, sob ameaça de morte, uma pessoa é capaz de tudo.
A infeliz – ele gargalhava –, antes de se borrar toda, claro, contou-me tudo sobre seu caso com mamãe.
Caio engolia as palavras em seco.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 10:53 pm

— Isilda ganhou bom dinheiro.
Fugiu para o Paraguai.
O rapaz estava muito atordoado.
Não esperava por essa.
— Eu... Eu...
— Sei você matou minha mãe.
Eu tenho provas.
Tenho você em minhas mãos.
Por esse motivo. – Gregório virou-se e encostou o corpo na parede, de maneira vulgar –, comece o serviço.
— O quê?
— Venha me amar.
Caio sentiu que as lágrimas escapavam-lhe pela face.
Aquilo era ultrajante.
Gregório o obrigava a fazer algo com o qual ele não compactuava.
Ele prometera a si mesmo que não mais se envolveria em estripulias sexuais.
Nem mesmo numa situação como essa, em que ele corria o risco de ser preso, caso Gregório fosse à polícia.
O rapaz não sabia o que fazer.
Pela primeira vez, desde a infância, Caio ajoelhou-se no tapete da sala e rezou com fé.
Não lembrava mais das orações feitas na infância, mas suplicou, a seu modo, ajuda a Deus.
Uma luz suave, porém vibrante, saiu de seu peito.
O espírito de Norma estava ao seu lado e ministrou-lhe um passe calmante.
— Não ceda, Caio! – a voz dela era firme.
Não caia em tentação.
Mantenha-se firme em sua fé e os danos serão minimizados.
Caio não registou as palavras do espírito da irmã, entretanto, a imagem de Norma, sorridente, apareceu com força na sua mente.
Ele terminou de rezar a sua maneira e chorou, chorou muito.
Gregório continuava naquela posição digna de compaixão.
— Vamos, acabe logo com essa ladainha.
Venha me ter.
Eu sempre fui melhor que minha irmã. Sempre.
Gregório falava palavras desconexas.
Caio não entendia mais nada do que ele falava.
Ele não tinha irmã.
Do que estaria falando?
Encostado na parede, passando a mão pelo corpo de maneira lânguida, Gregório murmurava:
— Venha amar a sua Lucy.
Venha amar a sua Lucy...
Caio tapou os ouvidos e lembrou-se da santinha que José havia lhe dado.
Meteu a mão no bolso e fixou os olhos no folheto com a imagem de Santa Rita de Cássia.
— Ajude-me, por favor...
Caio orou com tanta fé, que logo sentiu brando calor invadir-lhe o peito.
Sentiu também uma força inexorável, vibrante, pulsante, que lhe tomava todo o ser.
Ele levantou-se, fez o sinal da cruz, jogou um beijo para o Alto.
Em seguida, moveu a cabeça negativamente para os lados.
— Você é doente, Gregório.
Precisa se tratar.
Gregório não o escutava.
A bebida havia entorpecido seus sentidos e ele continuava a repetir:
— Venha amar a sua Lucy.
— Eu vou embora.
Podem vir seus cães, pode vir a sua chantagem.
Eu não cedo.
Juro por tudo quanto é mais sagrado nesta vida que não cedo!
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