PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 9:57 pm

Caio falou com tamanha força, tamanha propriedade, que logo passou pelos cães, sem medo, e chegou ao portão.
Estava trancado. Ele nem titubeou.
Subiu as grades e pulou.
Surpreendentemente, os cães não o atacaram, talvez porque Gregório não tivesse lhes dado ordem de ataque.
O rapaz dobrou a esquina e chegou à Avenida Giovanni Gronchi, deserta.
Seria difícil aparecer táxi por ali.
Caio foi caminhando e viu um ónibus que passava do outro lado da avenida.
Ele correu, fez sinal e pegou o último ónibus com destino ao centro da cidade.
— Eu nunca deveria ter me metido com esse homem.
Que Deus tenha piedade dele – disse para si mesmo, enquanto o motorista corria um pouco mais do que o normal, em virtude da quase ausência de carros nas vias àquela hora da madrugada.
Caio desceu no ponto e, algumas quadras depois, chegou à pensão de Fani.
A casa estava em silêncio. Todos dormiam.
Ele subiu os degraus de maneira que não fizessem estalo ou rangessem.
Chegou ao seu andar e correu para o banheiro.
Despiu-se e tomou um duche morna e reconfortante.
Em seguida, dirigiu-se para o quarto.
Na penumbra, aproximou-se da cama de Rosalina e beijou-lhe a testa.
Sem fazer barulho, deitou-se em sua cama.
Dormiu profundamente, como há muito tempo não dormia.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 9:57 pm

CAPÍTULO 22

Luísa acordou, tomou seu banho e arrumou-se com apuro para o trabalho.
Antes de sair do quarto, olhou ao redor.
Desde que vendera a casa e se mudara para o apartamento, sentia que tudo caminhava para melhor em sua vida.
Ela saiu do quarto e disse para si mesma:
— Aqui eu sou e serei muito feliz.
Luísa havia ingressado na faculdade de Direito.
Arrumara emprego numa empresa indicada por Renata.
O cargo era de recepcionista, o salário não era tão formidável assim, mas dava para começar a sentir o gosto da liberdade, da independência.
Contava com o dia que não mais fosse precisar da pensão de Genaro.
Queria, de toda maneira, livrar-se dele, até economicamente.
A separação já havia sido homologada.
Mais um ano e poderia entrar com o pedido de divórcio e acabar com qualquer vínculo que fosse com seu ex-marido.
Genaro começava a virar notícia corrente nos jornais.
O eleitorado estava se tornando mais exigente, mais consciente do voto, e a maioria dos políticos era composta por pessoas comprometidas com o bem do país.
Infelizmente, havia uma maçã podre aqui e acolá dentro da classe política e eram essas pessoas inescrupulosas que ganhavam destaque na mídia.
O ex-marido de Luísa anunciava seu casamento, embora o divórcio ainda não o permitisse casar-se oficialmente – as pessoas nem ligavam – com Marisa, porquanto ela esperava o filho que ele tanto sonhara.
Luísa entrou na copa.
Deixou a bolsa sobre o aparador e sentou-se para seu desjejum.
Eunice ria e não falava nada.
Serviu-lhe café, suco e torradas.
Luísa encarou-a de maneira divertida.
— O que foi? Está rindo de quê?
— Nada em especial – tornou Eunice com a voz amável.
— Você não está rindo à toa.
Que cara é essa?
Parece uma menina arteira!
— Ah, você vai adorar essa notícia – Eunice foi até a cozinha e voltou à copa, trazendo um pedaço de mamão papaia e o jornal.
Colocou a fruta sobre um pratinho e entregou o jornal a Luísa, dizendo:
— leia a coluna da página inferior.
Luísa olhou para o periódico.
— E lá sou mulher de ler coluna social?
Fofoca da vida de gente importante?
Está me estranhando, Eunice?
Ela continuava rindo.
— Leia a última nota – ordenou, apontando com o dedo.
Luísa concentrou-se na leitura da notinha.
Era um texto curto, de quatro linhas.
— Leia em voz alta, por favor.
Luísa assim o fez:
“— O deputado federal Genaro Del Prate anunciou, num jantar oferecido a poucos amigos, em sua mansão, localizada no Lago Sul, em Brasília, o seu casamento com a jovem Marisa Pompeo Ramos.
O casal, apaixonado e feliz, cujo enlace está programado para maio, espera o primeiro herdeiro para daqui a cinco meses”.
— Viu o porquê de minha risada? – perguntou Eunice, em tom de deboche.
Luísa levou a mão à boca.
Não segurou a risada.
— Nunca poderia imaginar Genaro metido numa situação como essa.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 9:57 pm

— O Genaro nunca quis ir ao consultório do Dr. Ribeiro para fazer os exames que comprovariam a sua infertilidade.
— Ele sempre se recusou.
Disse-me, certa vez, durante uma discussão, que eu era seca e estava tomando pílula anticoncepcional escondido.
— Problema dele.
E se um dia ele descobrir isso?
Coitada dessa Marisa.
Ele pode fazer picadinho dela.
— Eu é que não quero saber disso.
O que acontece com Genaro não é de minha conta.
Quero distância dele.
Que construa sua família, não importa como, e que seja feliz.
— Você é uma mulher de fibra.
Se fosse outra, Luísa estaria arrumando um jeito de extorquir a Marisa ou mesmo chantagear Genaro com a ameaça de um escândalo.
— Quero ficar longe desse tipo de comportamento.
Eu nunca me aproveitaria das pessoas.
Não está em mim.
Eunice a beijou no rosto.
— Você ainda vai se dar muito bem na vida, minha menina.
É cheia de valores nobres.
— Deveria ter pensado assim antes de apanhar.
— Já passou.
— Como pude descer tão baixo?
Por que me deixei de lado, tornei-me uma mulher submissa e sem brilho?
Luísa fitou o nada.
Declarando em seguida:
— não tenho um pingo de saudade da Luísa de ontem.
Estou tão feliz comigo, Eunice.
Sinto-me muito bem com meu progresso.
Vou me formar e trabalhar para mulheres que passam pelo que passei.
Tenho orgulho de mim.
— Só falta arrumar alguém.
— Como?
— Quer dizer, acho que arrumou, entretanto, não quer confessar para si mesma que está gostando dele.
Ou mesmo que está apaixonada.
— Eunice, de onde tirou essa ideia?
— Eu vi você falando do rapaz, o Caio outro dia que estava com a Renata.
Luísa a censurou:
— Ouvindo atrás das portas?
Que costume mais feio!
— Não. Estava preparando o chá para servi-las.
Quando cheguei à saleta, notei o brilho em seus olhos toda vez que pronunciava o nome do Caio.
Luísa esboçou sorriso encantador.
Seus olhos voltaram a brilhar.
— Você tem razão.
Caio despertou-me sentimentos que nunca havia sentido antes.
— Nem mesmo por Genaro?
— Não. Com Genaro foi diferente.
Eu era muito menina, tinha medo do futuro, de não ter protecção, e ele, por ser bem mais velho, passava-me a impressão de segurança.
Genaro é homem bonito, mas nunca me cativou o coração.
— E Neuza praticamente a empurrou para aquele casamento.
Eu me lembro bem.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 9:58 pm

— Nem me fale.
Mamãe conseguiu me ludibriar.
Eu era muito nova, muito ingénua.
— Neuza ligou de novo.
Reclamando, para variar.
Disse que seus irmãos estão trabalhando e que, graças ao esforço deles, ela não passa fome.
Porque, se dependesse de você...
— Eu quis ajudá-la, Eunice.
Assim que comecei a receber a pensão do Genaro, ofereci-lhe um valor para o mercado, pagamento de contas etc.
Sabe o que ela me disse?
— O quê?
— Que esse dinheiro era muito pouco.
Ou eu lhe dava mais ou então era melhor não receber nada.
Problema dela. Eu tentei fazer o melhor.
Se seu orgulho a deixa tão cega a ponto de recusar minha ajuda, só posso orar para que ela fique em paz.
Mais nada. Minha família acabou.
Agora só tenho você.
— E quanto ao Caio...
— Quanto ao Caio, não sei explicar.
Encontramo-nos muito pouco, entretanto, essas poucas vezes foram suficientes para eu perceber que sinto algo diferente.
Os sentimentos são conturbados.
— Como?
— Dia desses – ela confessou – sonhei que vivíamos juntos, numa outra época, e discutíamos bastante.
Lembro-me de ter muita mágoa do Caio.
Meu coração fica mole quando eu o vejo, mas minha mente tem lá suas reservas.
Mesmo assim, quando ele foi me visitar no hospital fiquei muito feliz!
— Lembro-me disso.
Você não parava de falar nessa visita.
Creio que melhorou mais pela visita dele do que pelo repouso sugerido pelo médico.
Luísa soltou um risinho abafado, enquanto se levantava e pegava sua bolsa sobre o aparador.
— Você não toma jeito, Eunice.
Quer me ver enrabichada de novo?
— Quero. Você é muito nova.
— Caio é mais jovem que eu.
— Qual o problema?
Uns três ou quatro anos mais novo, talvez.
Por quê? Tem algum preconceito em relação a isso?
— De forma alguma. Só acho tudo engraçado.
Casei-me com um homem quase quinze anos mais velho que eu e agora começo a me interessar por um rapaz mais jovem.
— Talvez agora você acerte a mão.
Não conheço o Caio, todavia ele deve ser um bom moço.
Está mexendo com você.
— Tem razão.
Eu vou ligar para ele e convidá-lo para jantar no sábado aqui em casa.
O que acha?
— Perfeito. Hoje ainda é quinta-feira, tenho dois dias para preparar um belo jantar.
E tempo suficiente para comprar os ingredientes necessários para um jantar especial! – exclamou Eunice, contente.
— Podemos fazer aquele macarrão com camarão e molho de especiarias que só você é capaz de fazer.
— Receita de minha sobrinha.
Não lembro direito todos os ingredientes.
— Certifique-se do que precisa.
Mais tarde eu ligo para você e pego a relação do que devo comprar.
Vou ao mercado amanhã depois do trabalho e faço as compras.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 9:58 pm

— Será que o Caio virá?
— Ele vem. Tenho certeza.
Vou ligar para ele assim que chegar ao escritório.
Luísa despediu-se de Eunice e saiu no hall do apartamento.
Tomou o elevador e, surpresa agradável, encontrou Maximiliano.
Ela o cumprimentou com um beijinho no rosto.
— Bom dia, vizinho.
— Bom dia, vizinha.
Nossa – ele aspirou o perfume que exalava do corpo dela – que aroma delicioso.
— Obrigada.
Acordei muito bem hoje.
— Eu não posso dizer-lhe o mesmo.
— Por quê?
Max não queria falar.
Mudou o tom da conversa.
— Está gostando de ir ao Centro Espírita?
— Sim. Senti-me útil quando fui convidada para fazer parte daquele grupo de oração e vibração.
— Eu também gostei.
— Você tem ideia de quem eram as pessoas para as quais estávamos em oração?
— Faço alguma ideia, Luísa – tornou Max, dando de ombros.
Não nos esqueçamos do grande ensinamento:
“Fazer o bem, não importa a quem”.
Entretanto, nesse caso específico, creio que sei para quem estávamos dirigindo nossas energias.
— Eu senti, não sei se isso é da minha cabeça ou não, que uma das pessoas para quem estávamos em oração era o Caio.
— Eu tive a mesma impressão.
Quanto ao outro, lembrei-me de um conhecido de outros tempos com quem não tenho afinidades.
Aliás, nunca tive.
— É mesmo?
— Sim. Quando Mafalda, incorporada, solicitou que fechássemos os olhos e entrássemos em meditação, eu tive a leve sensação de que na minha mente apareceram o rosto de Caio e desse conhecido.
A energia que senti não foi das melhores.
Aliás, eu preciso ligar para a Mafalda.
Tive um sonho muito ruim esta noite.
— Pesadelo?
— Sim.
O elevador chegou ao térreo.
Max declarou:
— Fico por aqui.
Tenho alguns compromissos no centro da cidade.
Prefiro tomar um táxi.
Esse trânsito me irrita profundamente.
— Eu vou até a Praça da República.
Posso lhe dar carona.
— Puxa, eu adoraria.
— Você aproveita a carona e, no trajecto, conta-me sobre seu sonho.
— Resolvido.
Apertaram o botão do elevador e desceram na garagem.
Caminharam em silêncio até o carro de Luísa.
Entraram e ela deu partida.
Quando ganharam a rua, ela perguntou, de maneira delicada.
— Pode-me dizer o que aconteceu?
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 9:58 pm

— Ontem à noite, ao chegar a casa, resolvi tomar um duche e fui para a copa preparar um lanche.
No meio da refeição, senti um calafrio, um frio perpassando minha nuca.
Senti um arrepio sem igual pelo meu corpo todo.
Luísa fez um esgar de incredulidade.
— Eu, hein? Parece que recebeu a visita de algum espírito perturbado.
— Foi a impressão que tive.
Pensamentos ruins vieram à minha cabeça naquele momento.
Afastei-os com as mãos.
Depois, fiz uma oração, mudei o teor dos pensamentos e fui para a cama.
Mas, durante o sono...
— Conte-me, Max.
Estou tão interessada!
— Sonhei que um conhecido de longa data aproximou-se de mim desesperado.
Seu rosto estava desfigurado. Um horror.
Ele dizia estar sendo perseguido e pedia minha protecção.
Eu disse que não tinha o que fazer, a não ser que ele ficasse em casa.
Lembro-me de que lhe ofereci o quarto de hóspedes.
— E?
Maximiliano deu um longo suspiro.
Tudo parecia tão real.
— Ele foi ao quarto de hóspedes e, no sonho, eu voltei para o meu quarto.
Sensações ruins se apossavam de meu corpo.
Lembro-me nitidamente de passar as mãos nos braços a fim de “arrancar” aquelas sensações desagradáveis.
Daí ouvi um grito de pavor.
Corri ao quarto de hóspedes e vi uma cena dantesca.
Luísa estava estupefacta.
— Continue.
— Esse conhecido meu estava sendo arrancado do quarto à força por espíritos enegrecidos, cheios de sombras.
Algo pavoroso.
Ele ainda me encarou com olhos de súplica e, quando tentei interferir, um braço tocou meu ombro.
Eu não consegui olhar para trás, mas ouvi.
“Cada um é responsável pelo seu destino.
Você não pode e não deve se intrometer.
Vibre por ele”.
— E daí?
— E daí que acordei suando bicas.
Minha testa estava molhada, meu pijama empapado de suor.
Levantei-me, fui à cozinha, bebi um copo d’água e tomei novo duche.
Fiz nova prece e dormi melhor.
Mas ainda estou impressionado com o sonho.
— Pretende falar com Mafalda?
— Hum, hum.
Assim que terminar meus compromissos eu vou até o Centro Espírita.
Sinto que tem algo a ver com aquela corrente de orações.
— O que pode ser?
— Não sei Luísa, mas, cá entre nós, alguma coisa muito grave aconteceu nesta noite que tive esse pesadelo.
Luísa fez o sinal da cruz.
A seguir chegaram à praça.
Ela encostou o carro no meio-fio e Max saltou.
Abaixou na altura da janela do passageiro.
— Caso eu tenha alguma notícia, avisarei você e Renata.
— Por favor, faça isso.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 9:58 pm

— Até logo.
— Tenha um bom dia – tornou ela, apreensiva.
Impressionada com o relato, Luísa não se sentiu muito bem.
Percebeu energias pesadas ao seu redor.
Fez também uma prece e, em seguida, meteu-se no trabalho.
Logo estava envolvida com os atendimentos na recepção e esqueceu a conversa com Maximiliano.
****
Caio despertou cedo, cheio de vigor.
Espreguiçou-se na cama, sentou-se e bocejou.
Lembrou-se de algumas cenas da noite anterior.
Espantou tais pensamentos com as mãos.
— Faz parte do passado.
Quero esquecer esta noite.
Ele levantou-se e caminhou para o banheiro.
Escovou os dentes, lavou o rosto e desceu para o desjejum.
Rosalina e Celinha entravam e saiam da cozinha a todo o instante.
Ainda havia muitos hóspedes tomando o café da manhã.
— Quer alguma ajuda? – perguntou ele, de maneira educada.
Celinha se surpreendeu.
— Logo cedo em pé e quer nos ajudar?
— Exacto.
— O que foi?
Dormiu com os anjinhos?
Caio riu.
- Despertei tão bem!
Há muito tempo não dormia assim tão gostoso.
— Vi que chegou uma e meia da manhã.
Seu rosto mudou e ele adquiriu expressão temerosa.
— Viu? Acho que...
— Danado! Eu vi sim.
Acordei para fazer xixi.
Quando você entrou no banheiro para tomar banho, eu havia acabado de sair.
Estava tentando pegar no sono.
— Eu cheguei antes.
— Eu sei que era você.
Fiquei na espreita.
Deixei a porta entreaberta e fiquei observando.
Aí vi você sair do banheiro.
Caio ruborizou.
— Celinha! Como pôde?
— Oras, por quê?
—Eu saí do banheiro completamente pelado.
Ela riu maliciosa.
— Eu notei todos os detalhes.
— Celinha!
— Dormi tão melhor.
Nem mais acordei para ir ao banheiro.
Você é um espectáculo de homem.
— Olhe os modos!
Posso ser seu irmão.
— Não poderia. Nunca.
Iríamos praticar incesto.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 9:59 pm

Caio pegou um pano de cozinha, esticou-o e passou a perseguir Celinha, que corria em volta da mesa.
— Venha, cá, sua pilantra – ria ele, vou lhe dar uma sova.
Celinha corria e ria.
Até que Rosalina entrou na cozinha, expressão séria.
— Vamos parar com brincadeira.
Celinha – ela encarou a menina – os hóspedes estão esperando.
Cadé o café do seu Antenor?
E o leite do seu Francisco?
E a geleia da D. Odete?
— Desculpe-me.
Vou providenciar tudo num instante.
Rosalina cumprimentou o filho.
— Bom dia.
— Bom dia, mãe.
Está com uma cara tão brava. O que foi?
— Sua irmã veio me visitar hoje cedo – Caio ia responder, mas a mãe o interrompeu:
– Norma está muito preocupada.
Disse-me que você necessita de muita oração e que precisa ir ao Centro Espírita.
— De novo isso?
— Por que refuta tanto, meu filho?
Sei que tem de ir por vontade própria, mas por que tanta defesa?
— Não é defesa.
Só não acredito.
— Norma disse que não vai ter jeito.
Você vai ter de passar apertos para acordar para a vida espiritual.
Ele a beijou na fronte.
— Quem sabe, na hora certa, eu vá?
— Tome seu café.
Caio sentou-se à mesa.
Serviu-se de dois pãezinhos com manteiga e café com leite.
Celinha saiu com uma bandeja para a sala de refeições.
Caio aproveitou estar a sós com a mãe.
— Ontem à noite devolvi aquele dinheiro.
— Mesmo? Tudo?
— Quer dizer, quase tudo.
Usei uma parte.
Mas apliquei o saldo e recebi bom salário este mês.
Se tudo continuar bem, em dois meses eu saldo a dívida com o Gregório.
— Eu não gosto desse homem.
Deve ficar afastado dele.
— E estou mãe.
Não quero mais saber dele.
— Nem de campanha de perfume.
É melhor arrumar um emprego que lhe dê dinheiro todo mês do que essa vida instável de modelo.
— Você se engana.
Um modelo profissional, famoso, ganha muito, mas muito dinheiro.
Eu ainda acredito que vou conseguir mãe.
Pode escrever.
Rosalina moveu a cabeça para os lados.
— Cheio de sonho. Você não desiste.
— Não. Vou à luta.
Ainda mais agora que estou gostando de alguém.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 9:59 pm

O coração de Rosalina se enterneceu.
— É a moça do Centro Espírita, né?
A Luísa.
Caio riu, enquanto mordiscava um bom pedaço de pão com manteiga.
— É ela mesma.
— Moça de classe, fina, educada, elegante, bonita, simpática e...
Ele cortou a mãe de maneira engraçada.
— Quanta propaganda!
O que é isso? Um complô?
— Se for para a sua felicidade, e eu sinto que é – ela disse olhando nos olhos dele –, vale tudo.
Ele terminou o desjejum e despediu-se.
— Você está impossível.
Quer se ver livre de mim?
— Não, meu filho.
Quero vê-lo feliz.
Ao passar pela sala de refeições, ele encontrou Fani.
— Oi meninão!
— Bom dia, Fani.
— Estava à sua procura.
— O que foi?
— Telefone para você.
— Quem é?
Fani fez uma cara de suspense.
— Adivinhe!
Caio pegou o fone e ao ouvir a voz melodiosa de Luísa, sentiu um friozinho gostoso no estômago.
— Oi.
— Como vai, Caio?
— Bem. E você?
— Óptima. Quero lhe fazer um convite.
— Um convite?
— Sim. Quer vir jantar em casa no sábado?
Ele não sabia o que lhe dizer.
Estava surpreso, agradavelmente surpreso.
— Sábado, é...
Luísa mordiscou os lábios do outro lado da linha.
Aqueles segundos de mudez pareceram durar uma eternidade.
Será que ele estava arrumando uma desculpa?
Ela perguntou indecisa:
— Tem compromisso?
— Não, não. De forma alguma.
— Você demorou para dar a resposta e...
— Porque sábado é um dos melhores dias na loja.
E eu saio um pouco mais tarde.
— Pode ser às dez da noite?
— Não fica tarde para jantarmos?
— Não. Eu faço um lanche antes – ela riu.
Está marcado?
Sábado às dez da noite?
— Confirmado.
No sábado, assim que eu sair da loja, vou directo para sua casa.
— Um beijo.
— Outro.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 9:59 pm

Caio desligou o telefone com as mãos trémulas.
O ar parecia lhe faltar.
Iria jantar com Luísa, num sábado à noite.
Poderia aproveitar o momento e, no decorrer do jantar ou após, declarar-lhe seu amor.
Ele não sabia como fazer tal declaração e viu nesse jantar o momento certo para dizer a Luísa tudo o que ia a seu coração.
Fani o trouxe à realidade.
— Viu um passarinho verde?
— Não, Fani. É o amor.
O meu amor, do qual não quero nunca mais me separar.
Ele a beijou na bochecha e saiu contente.
Fani disse para si mesma, enquanto meneava a cabeça para os lados:
— Esses jovens!
Quanto romantismo!
Que coisa boa!
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 9:59 pm

CAPÍTULO 23

O delegado Telles era um homem bem apessoado.
Alto, um metro e noventa, corpo atlético.
Chamava a atenção por onde passava.
Tinha um rosto charmoso, uma barba preta, bem cuidada, que contrastava com o tom claro de sua pele.
Seu nome era José Carlos.
Mas, desde que entrou para a polícia, recebeu a alcunha de Telles, seu sobrenome.
O rapaz adorava o que fazia.
Amava sua profissão.
Acreditava que havia nascido para a investigação.
Tinha faro, uma maneira peculiar de resolver os enigmas que se apresentavam sobre sua mesa.
Todos os casos mal resolvidos, os grandes abacaxis de maneira geral, caíam nas mãos de Telles.
Ele trabalhava na Divisão de Homicídios, ligada ao Departamento de Homicídios e Protecção à Pessoa – DHPP, um dos sectores mais correctos e incorruptíveis da polícia brasileira.
Seus investigadores trabalhavam com afinco e Telles fazia parte deste grupo de homens dedicados a desvendar os crimes que ocorriam na cidade.
Quando o crime era de autoria conhecida, ficava a cargo dos distritos policiais.
No caso de autoria desconhecida, eram encaminhados para os agentes especializados do DHPP.
A sala de Telles ficava num dos andares do Palácio da Polícia, na Rua Brigadeiro Tobias, no centro velho da cidade.
Ele encarou as pastas feitas de cartolina na sua frente e, por um instante, sua mente voltou ao passado.
Havia uma peculiaridade em Telles.
Ele tinha uma intuição, como se uma voz amiga o ajudasse a desvendar os crimes aparentemente sem solução.
Tudo começou dez anos antes, quando um primo de Telles fora morto por um amigo.
O crime chocou a cidade, causou comoção.
O rapaz responsável pelo tiro jurara inocência.
Dizia ter sido acidental, que estavam ambos brincando com a arma do pai do falecido.
O crime repercutiu bastante, ganhou as manchetes de jornais e a família do morto foi pedir alento ao famoso médium Chico Xavier.
Chico recebeu os pais do garoto morto, conversou com eles e lhes ofereceu, como sempre, palavras gentis de consolo.
Alguns dias depois, o próprio Chico recebeu uma carta psicografada do espírito do menino, relatando que ele não fora assassinado, que o tiro tinha sido disparado de maneira acidental.
A carta foi anexada ao inquérito policial e, por conta dela, o rapaz que deu o tiro foi inocentado do crime.
Telles ficou impressionado com essa conexão, com a possibilidade de um mundo paralelo, coexistente com nosso mundo físico.
Naturalmente, interessou-se pelos estudos espíritas.
Ingressou num Centro perto de casa, estudou, e conheceu um grupo de pessoas sérias, dedicadas aos estudos do mundo espiritual.
Assim que Telles ingressou na polícia, apareceu-lhe um caso que, aparentemente, não tinha solução.
Era o caso de uma mulher cujo corpo fora encontrado nas margens do rio Tietê.
O marido havia morrido e seu enteado morava no exterior.
Ela não tinha parentes nem tampouco amante ou coisa do género.
Tratava-se de mulher de comportamento irrepreensível.
O crime havia ocorrido há mais de três anos e a polícia ia arquivá-lo.
Nenhuma prova nenhuma evidência. Nada.
O jovem Telles, com a pasta na mão, pronto para levá-la ao arquivo, sentiu os pêlos eriçarem e uma voz insistia em lhe dizer:
— O crime tem solução, não o arquive.
Aquilo ficou bombardeando a cabeça do jovem por um bom tempo.
Telles escutou a intuição, foi ao encontro desse grupo de estudos espirituais e, numa noite em que discutia o caso com os amigos, um deles sentiu forte tremor pelo corpo e, em seguida, incorporou um espírito.
— Eu preciso falar com você, Telles.
Só você pode me ajudar.
— Quem é você?
— Meu nome é Lena.
Foi assassinada e meu corpo físico jogado às margens do rio Tietê.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 10:00 pm

Telles deu um pulo da cadeira.
Olhou para seu amigo médium de maneira aturdida.
— Você?!
— Sim, estou atrás de você faz tempo, desde que resolveram arquivar o processo.
Isso não pode se repetir.
Aurélio me matou uma vez e ficou impune, numa outra vida.
O mesmo agora não pode se repetir.
— Aurélio?
Quem é Aurélio?
— Meu enteado.
— Seu enteado mora no exterior.
Ele não estava aqui na época do crime.
O espírito estava ansioso.
Deu uma suspirada, tomou fôlego e prosseguiu:
— Aurélio veio ao Brasil de maneira incógnita.
Usou nome falso, passaporte falso, entrou no país com outra identidade.
Obrigou-me a assinar uma procuração.
Eu não aceitei.
Depois, fez-me assinar dois cheques.
Com medo de que o pior estava por vir, eu os assinei.
Mesmo assim ele me matou.
— Eu não posso reabrir o processo – tornou Telles.
Não posso usar como prova o depoimento de um espírito.
— Pode. Houve um saque grande em minha conta logo após o crime.
— Verificamos isso e não pudemos rastrear quem sacou.
Acreditamos ter sido algum ladrão.
— O outro cheque ele usou para pagamento de uma conta.
— Sim, verificou-se nos autos do processo que era uma conta, mas não nos despertou atenção.
O espírito finalizou.
— A conta era de Aurélio.
Voltem e chequem tudo novamente.
Além do mais, Aurélio ainda mantém em seu poder a arma que me tirou a vida.
Podem conferir, duas balas estão faltando.
São as que perfuraram meu corpo.
Aurélio encontra-se em férias no país e está numa chácara, no interior do Estado.
A justiça deve ser feita, antes que ele saia e não possa mais ser capturado.
O espírito falou e se foi.
Telles não sabia direito o que fazer.
Reunido com seu grupo, fizeram nova reunião espiritual e Lena manifestou-se numa médium que psicografava.
A jovem escreveu tudo o que Lena havia anteriormente relatado a Telles.
Aurélio foi localizado na chácara e intimado a depor.
O tempo passou e a promotora e o advogado de acusação não contestaram a carta psicografada.
Até que tentaram impugnar o documento no momento do julgamento, entretanto, a carta psicografada foi lida para os jurados.
Aurélio foi condenado a dez anos de prisão, por homicídio doloso.
O caso repercutiu no país inteiro e Telles deu a seguinte declaração a uma jornalista:
— Sabemos que os jurados julgam sem motivo, somente por convicção íntima.
Eles não têm que fundamentar suas decisões, de maneira alguma.
É obvio que uma carta psicografada, para um espírita ou alguém que acredita no mundo dos espíritos, será vital para sua decisão.
Mas não sabemos se havia algum jurado espírita entre o grupo que o condenou.
A meu ver, a carta foi, sim, decisiva para a condenação de Aurélio.
Após esse evento, Telles ganhou popularidade entre seus colegas de trabalho como o “delegado do Além”.
Ele não se importava com as brincadeiras, porquanto todos os casos não resolvidos, de autoria desconhecida, vinham até suas mãos.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 10:00 pm

Entretanto, desde o caso de Lena, nunca mais houve algo tão evidente, com interferência clara dos espíritos para ajudá-lo a resolver um crime.
Telles escutava vozes, ia atrás das dicas, dava importância demasiada ao que sua intuição lhe dizia.
Sempre acertava, e encontrava provas e evidências onde ninguém jamais ousaria procurar.
O delegado estava encostado em sua cadeira puída, atrás de sua mesa, observando aquelas pastas cujas capas estavam gastas pelo manuseio.
Todas, em seu interior, continham desde crimes banais a cruéis, desde morte acidental a chacina, todavia, as autorais eram todas desconhecidas.
Muitos marginais, pobres, pessoas sem destaque na mídia.
Era sábado e Telles estava cansado.
Trabalhara muito durante a semana e queria sair talvez caminhar no parque da Luz, não muito longe dali, tomar um sorvete, relaxar.
Ele começou a arrumar as pastas, ordená-las para botar no arquivo, quando o investigador Paranhos entrou na sala feito uma bala de canhão.
Trazia na mão uma pasta recém-aberta, pois a cor rosa da cartolina era nova.
— Este é para você.
O caso vai esquentar os jornais e a televisão.
O cadáver tem um cheiro especial.
— Cadáver é cadáver – objectou Telles.
O que tem aí em mãos?
Paranhos jogou sobre sua mesa a pasta.
Nela estava escrito IP – 255/83, ou seja, inquérito policial de número duzentos e cinquenta e cinco, ano de mil novecentos e oitenta e três.
Telles abriu e leu.
Voltou os olhos para Paranhos.
— Esse caso vai dar o que falar.
— Não lhe disse?
— Você tem razão, alguns cadáveres são mais especiais que outros.
Paranhos continuou:
— Veio da delegacia do Morumbi.
Como não sabem a autoria do crime, mandaram directo para cá.
— Isso demanda tempo – objectou Telles.
Não podem mandar assim, sem mais nem menos, um inquérito recém-aberto.
Checaram as evidências?
Tomaram depoimentos? E...
Paranhos o cortou, seco:
— Este caso é quente, meu jovem.
Recebi ordens lá de cima para que o processo viesse até aqui.
Homem branco, trinta e quatro anos, empresário, rico e conhecido em todo o país.
Telles leu o nome da vítima.
— Gregório Del Prate?
— Sim, meu amigo.
Brutalmente assassinado.
Esse caso vai ser destaque nas principais mídias.
E tem um detalhe picante: ele era homossexual.
Parece que um grupo de activistas gays exige justiça.
Estão fazendo alarde e até uma manifestação no Largo do Arouche.
E tem um bando de repórteres lá embaixo querendo suas declarações.
— Minhas. Por quê?
— Você é o delegado do Além, o xerife do invisível – brincou Paranhos.
O próprio secretário de segurança do Estado mandou um aviso a você.
Quer que resolva o mais rápido possível esse crime.
— As coisas não funcionam assim.
Eu tenho de checar, investigar, reunir provas, evidências.
Não posso sair à cata de um culpado assim, sem mais nem menos.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 10:00 pm

— O morto era irmão do deputado Genaro Del Prate.
— E daí?
— Sabe o quanto Genaro é queridinho da mídia e amigo do general Figueiredo.
Está determinado a que cácem o assassino da maneira mais rápida possível.
Ele não quer que sua imagem fique associada a do irmão gay.
— Mas... – tentou argumentar Telles.
— Nem, mas nem meio, mas.
O secretário de segurança está numa enrascada.
A pressão lá de Brasília é forte e ele exigiu que pulemos etapas e peguemos logo o assassino.
— Gregório Del Prate assassinado! – exclamou Telles.
Esse é um abacaxi dos grandes.
— Assassinado de maneira horrível.
Você precisa ver.
— Aonde ocorreu o crime?
— Em sua mansão, no bairro do Morumbi.
As emissoras de televisão estão lá aguardando a saída do corpo – Paranhos fez uma cara de nojo.
— O que foi?
Por que essa cara?
— Você não tem ideia de como encontramos o corpo.
Em estado avançado de decomposição.
— Sério?
— Hum, hum.
— Tem ideia de quando o crime ocorreu?
— Entre quatro e seis da manhã de quinta-feira.
— Uau! – exclamou Telles.
Quase três dias.
— Pois é. Vamos – ordenou Paranhos –, temos de ir a casa e liberar o corpo para o Instituto Médico Legal.
O tempo urge.
Telles assentiu com a cabeça.
Pegou seu paletó sobre a cadeira, lançou-o nos ombros e partiram.
Foi difícil passar pelo bando de repórteres que lotavam o saguão do prédio da polícia, em busca de uma nota, um depoimento que fosse.
O caso já estava repercutindo no país inteiro.
Telles tinha de correr.
A pressão em cima dele era forte demais.
A viatura da polícia chegou à mansão de Gregório pouco depois das seis da tarde.
Driblaram os repórteres e curiosos que se amontoavam e acotovelavam na porta do milionário assassinado.
Após contornar o jardim e a piscina, o carro encostou próximo à entrada principal da casa.
Alguns investigadores esperavam por eles.
Um tomava depoimento da empregada da casa.
O outro, do empregado que cuidava da manutenção do imóvel, uma espécie de caseiro.
Telles afastou-se deles e foi entrando.
Percorreu as salas, chegou às escadas e subiu.
Conforme ia subindo os lances de escada, um cheiro adocicado e enjoativo invadiu-lhe as narinas.
Telles sentiu ligeiro mal-estar.
Deixou de respirar pelo nariz e ficou só respirando pela boca.
Assim, não precisava inalar aquele odor agridoce e malcheiroso.
Ele contornou a escada, ganhou o corredor.
No fundo, ficava a suíte de Gregório.
Assim que entrou, Telles voltou à cabeça para trás.
Era uma cena deprimente e triste de se ver.
O corpo de Gregório estava deitado de costas na cama.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 10:01 pm

Suas mãos estavam amarradas nas grades da cabeceira, com laços feitos de camisetas rasgadas.
Os pés estavam envoltos por tiras de camisetas também.
O corpo estava nu.
Telles respirou fundo pela boca e entrou.
Aproximou-se do cadáver.
A cor da pele de Gregório já adquirira o tom arroxeado.
O corpo estava bem inchado e era praticamente impossível ver naquele corpo inerte a figura de Gregório Del Prate.
Seus olhos estavam esbugalhados, parecendo querer saltar das órbitas.
A boca estava entupida por cuecas.
Em todo o peito, marcas de sangue ressecado.
As unhas dos dedos das mãos e dos pés estavam enegrecidas.
Em virtude do tempo decorrido da morte, o corpo de Gregório estava em adiantado processo de decomposição.
Partes da pele se desprendiam do corpo, e, o que é natural em casos assim, pelo lençol escorria quantidade considerável de matéria fecal, o que resultava nesse cheiro nauseante que impregnava o ambiente.
Telles meneou a cabeça para os lados de maneira negativa.
— Pobre homem – disse para si mesmo.
Que Deus se compadeça de sua alma.
Ele falou, fez o sinal da cruz e saiu.
Voltou ao jardim de inverno e perguntou:
— Quem descobriu o corpo?
O caseiro, tímido, levantou a mão.
— Fui eu, doutor.
— Como foi?
Quando o encontrou?
A empregada tomou a palavra, visto que o rapaz encontrava-se em estado de choque, sem condições de concatenar as ideias.
— Meu nome é Sueli.
Tenho quarenta e três anos.
Trabalho para o seu Gregório desde que ele veio de Bauru.
— Prossiga Sueli.
— Eu contei tudo ao outro investigador.
Tenho de repetir?
— Se isso não a incomodar – Telles aproximou-se dela e tocou suas mãos.
Eu preciso muito saber o que aconteceu.
Seu depoimento é de extrema importância para nós.
Ela concordou.
Limpou o nariz com as costas da mão e iniciou seu relato:
— Sou responsável pela faxina da casa.
Embora seja grande, eu dou conta de tudo, porquanto seu Gregório não permitia que se cozinhasse na casa.
Fazíamos pedidos em restaurantes todos os dias, então eu tinha mais tempo para o meu serviço.
Sueli pigarreou e continuou:
— Todos os dias de manhã eu venho ao jardim de inverno e o limpo primeiro.
— Por quê?
— Porque é aqui que seu Gregório passa – ela consertou –, passava todas as noites.
Era hábito. Ele podia chegar à hora que fosse.
Tomava seu banho, botava o seu robe preto de seda, descia, comia algo e vinha para cá.
Servia-se de bebida naquele barzinho – ela apontou para um carrinho mais à frente – e geralmente tomava uísque.
Fumava bastante e sempre deixava a luz acesa e o som ligado.
Era praxe.
— E por que só hoje você o encontrou?
Não estranhou que ele ontem não estivesse aqui?
— Pois é.
Ele me deu folga na quarta-feira.
Disse-me que eu podia faltar na quinta e na sexta para resolver problemas pessoais.
Seu Gregório era rude e afectado, mas era bom patrão.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 8:15 pm

— E o caseiro?
Não sentiu falta do patrão?
— Décio nunca se meteu na vida de seu Gregório.
Certa vez, ele ficou dois dias trancado no quarto.
Dois dias – ela levantou a mão e fez sinal com os dedos.
Ficamos deveras preocupados.
Eu e Décio batemos na porta e nada.
Até que Décio pegou a chave reserva no escritório e abrimos o trinco.
Sueli levou as mãos à cabeça, envergonhada.
Telles foi compreensivo.
— Se não quiser, não fale.
— Tudo bem.
Eu nunca havia visto aquilo.
O seu Gregório estava dormindo com outro homem, abraçado!
Ficamos, eu e Décio, perplexos.
A gente sabia que nosso patrão era homossexual, mas nunca tínhamos visto dois homens juntos.
Sueli meneou a cabeça para os lados.
— Prossiga – solicitou Telles, enquanto tomava nota em seu bloquinho.
— Levamos um puxão de orelhas, e ele disse que nunca mais deveríamos invadir sua privacidade.
Não cometemos mais esse deslize.
Entretanto, quando cheguei hoje cedo, o Décio comentou que o seu Gregório não saía do quarto a dois dias.
Eu ri – ela levou a mão à boca, meio sem graça, por conta da ocasião – porque pensei que ele estivesse com alguém e procurei fazer meu serviço.
— Você veio até o jardim de inverno e...
— Estava como sempre eu o encontrava.
Dois copos de bebida sobre a mesinha, o cinzeiro cheio de bitucas de cigarro.
Excepto... – Sueli hesitou.
— Excepto? – inquiriu Telles, curioso.
— Havia algumas notas de dinheiro espalhadas, também notei o quadro que escondia o cofre lá no chão – ela apontou para o canto –, e esse bilhete...
Sueli meteu a mão no bolso do avental e pegou o bilhete.
Entregou-o a Telles.
Ele leu:
— Caio... O que quer dizer isso?
— Não sei.
Parece a letra do seu Gregório, tinha esse nome escrito.
— Conhece algum Caio?
— Não me recordo doutor.
— Não viu nenhum estranho entrar aqui?
Quem veio visitar Gregório nos últimos dias?
— Havia um moço, tal de Guido.
Toda vez que vinha aqui ele e seu Gregório quase se pegavam no tapa.
Gritavam e se insultavam.
Mas sempre terminavam as discussões lá em cima – ela apontou, envergonhada.
— E teria visto esse Guido nesta semana?
— Faz algumas semanas que ele não aparece.
Telles continuou suas anotações.
— Como encontrou o corpo?
— Eu limpei tudo aqui.
Deixei o jardim de inverno em ordem.
Depois, arrumei a casa e por fim subi ao quarto.
Aprendi a não incomodar seu Gregório, mas eu sentia um cheiro estranho no corredor.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 8:15 pm

Muito estranho.
Chamei o Décio e ficamos na dúvida, se batíamos ou não na porta.
Algo me fez bater.
— E então?
— Batemos uma, duas, três vezes.
Décio bateu com mais força e, mesmo correndo riscos, tivemos a sensação de que algo errado tinha ocorrido e resolvemos pegar a chave reserva – Sueli mal continha as lágrimas.
— E daí?
— Foi horrível.
Assim que abrimos à porta, o cheiro nos pegou de surpresa.
Eu quase desmaiei e o Décio correu ao banheiro do corredor.
Teve ânsia.
— Encontraram o corpo desse mesmo jeito?
— Tinha uma camiseta sobre o rosto do seu Gregório.
Eu não tive coragem de mexer.
O Décio foi lá e puxou.
Por esse motivo, ele ficou tão impressionado.
Telles aproximou-se do caseiro.
— Sente-se melhor?
— Sim, senhor.
Depois do susto que tomei, creio que agora estou bem melhor.
— Você chegou a... – Telles deu uma olhada sobre as suas anotações – conhecer ou viu um rapaz chamado Guido?
— Conheci, sim.
Ele vinha aqui de vez em quando.
Dormia lá com o seu Gregório.
— Faz mais de semana que não o vê?
— Sim, senhor.
— Tem certeza?
Décio hesitou.
— Bom, na noite de quarta para quinta-feira os cachorros latiram bastante.
Era pouco mais de quatro da manhã quando eu ouvi os latidos.
Já havia escutado antes, por volta da uma da manhã.
Mas desta vez os latidos estavam incomodando muito.
Eu me levantei e fui checar.
Vi um vulto pulando a grade do portão.
— Tem como identificar a pessoa?
— Não sei, não, senhor.
Estava muito escuro e eu ainda estava ensonado.
Paranhos aproximou-se.
— Vamos resolver esse caso num piscar de olhos.
Só falta pegar esse tal de Caio.
— Como sabe que foi ele?
— A empregada não lavou os copos e mandamos checar as digitais.
Se bater com as do rapaz, o caso está encerrado.
Os repórteres vão sossegar, o secretário de segurança vai agradecer e os grupos de activistas homossexuais vão aplaudir.
E, obviamente, Genaro Del Prate vai ficar muito feliz.
Esse caso é sopa no mel.
— Não sinto isso – contrapôs Telles.
Algo me diz que o buraco é mais embaixo.
Paranhos riu com desdém.
— O que foi?
Algum ente do Além veio lhe cochichar alguma coisa?
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 8:15 pm

— Não se trata disso.
Algo me diz que estamos no caminho errado.
— Não me importa o caminho, desde que eu pegue o infeliz que cometeu esse crime e o bote atrás das grades.
— Vai demorar para sair o resultado das digitais.
— Engano seu.
Os rapazes estão correndo a toda brida.
A pressão é forte e querem solucionar esse caso o mais rápido possível.
— Entraram em contacto com Genaro para cuidar do enterro?
— Ele deu uma declaração bombástica, que irritou muita gente, mas agradou em cheio àqueles sectores mais endurecidos da sociedade.
— O que Genaro Del Prate disse?
— Que não fazia a mínima questão de quem fosse o criminoso.
Queria, sim, que o culpado fosse preso e que acabassem logo com esse circo.
Genaro afirmou que seu irmão tinha uma vida torpe, era homossexual – o que ele condena sobremaneira –, e recebeu o troco pelo seu comportamento antinatural.
Genaro declarou à imprensa que a ira de Deus puniu seu irmão.
— Quanto absurdo numa única declaração – tornou Telles, perplexo.
— Acho que Genaro carregou na tinta do preconceito, mas o que fazer?
Ele quer que seu eleitorado não pense que ele seja conivente com o comportamento sexual do irmão.
Isso é jogada política.
Mais nada.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 8:16 pm

CAPÍTULO 24

Caio trabalhou bastante naquele sábado.
Deu duro para vender e ganhar boa comissão.
Logo, talvez em um mês, teria condições de terminar de pagar o que devia ao Gregório, ele quisesse ou não.
O rapaz estava particularmente contente.
Foi trabalhar bem vestido e levara uma mochila com roupas e apetrechos de uso pessoal.
Iria sair do serviço, tomar banho na casa de um amigo, que também trabalhava no shopping, porquanto o rapaz morava perto da casa de Luísa.
Faltava pouco para fechar a loja, quando ouviram um burburinho lá fora.
O falatório foi crescendo, crescendo e, em seguida, uma multidão parou na frente da loja.
A gerente, as vendedoras e o próprio Caio entreolharam-se sem nada entender e deram de ombros.
Não imaginavam o que poderia ser aquilo.
Um delegado entrou na loja, com pose arrogante e jeito exagerado.
Dirigiu-se até Caio, visto que ele era o único homem ali presente.
— Caio Abrantes Souza?
— Sim, sou eu.
— Você está preso.
O burburinho foi geral.
As pessoas falavam entre si, causando uma verdadeira bagunça na loja.
A gerente aproximou-se e disse:
— Creio que o senhor esteja equivocado.
Caio é bom funcionário, uma boa pessoa.
Não podem entrar na minha loja, sem mais nem menos, e fazer uma acusação tão grave.
O delegado riu de maneira sarcástica.
— Eu tenho aqui uma intimação expedida pelo juiz.
Enquanto levamos o rapaz para o distrito, pode ligar para a família dele e pedir um bom advogado.
Caio estava perturbado.
Sua boca estava seca.
Ele perguntou, pausadamente.
— Estou preso por quê?
O delegado fez suspense.
Em seguida afirmou:
— Você está preso pelo assassinato de Gregório Del Prate.
A gritaria agora era geral.
Dois policiais entraram na loja e algemaram Caio.
Ele abaixou a cabeça de maneira triste.
Não estava envergonhado.
Estava triste, muito triste.
Caio foi levado à delegacia e passou horas dando à mesma declaração.
Paranhos recebera ordens expressas e superiores de que deveria prender o rapaz.
Genaro fizera muito barulho entre os militares e tudo foi feito de maneira muito rápida.
Assim eles calavam a boca da imprensa.
Caio foi preso.
Telles tentou argumentar.
— Isso não se faz.
Mal abrimos inquérito policial.
— Ordens lá de cima – fez Paranhos com um movimento brusco de mão.
— E daí?
A Divisão de Homicídios é conhecida como o braço da polícia com o maior número de policiais honestos.
Fazemos um time que trabalha correctamente, mesmo sem ter recursos necessários para tal.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 8:16 pm

— Paciência. Eu cumpro ordens.
O rapaz vai para o chilindró.
A confissão dele, de que esteve na casa de Gregório na noite do crime, é prova suficiente para incriminá-lo e detê-lo.
E tem mais, aqui não tem espaço para ele.
Está superlotada.
O rapaz vai para uma cela no distrito do Marquês de Paranaguá.
Talvez fique por lá até o julgamento.
— Vocês estão indo longe demais.
Falando até em julgamento?
Estão colocando a massa na frente do pão – protestou Telles. – Caio jura que saiu da casa de Gregório por volta da uma da manhã.
Pegou um dos últimos ónibus do horário.
— Ele pode ter pego o primeiro ónibus que saiu da garagem, logo cedo.
Quem garante? – perguntou Paranhos, de maneira duvidosa.
— Tomamos o depoimento de... – Telles deu uma passada de olho no inquérito – Célia Bastos, conhecida como Celinha.
Ela declarou que viu Caio chegar a casa por volta de uma e meia da manhã.
— É a palavra dela contra a da acusação.
E o caseiro?
Ele confirmou que Caio foi o rapaz que pulou a grade do portão.
— O caseiro estava aturdido, nervoso.
Décio me relatou que mal viu quem pulou.
Podia ser Caio ou Guido.
Paranhos riu.
— Guido. Quem é esse Guido?
Alguma ficha na polícia?
— Não.
— Alguém o viu?
— Também não.
— Porque não existe Guido algum.
Se tivéssemos como encontrar esse rapaz – e acredito que ele não exista –, eu até relutaria em prender o pobre Caio.
Mas cadé esse moço?
Sumiu. Desapareceu.
Escafedeu-se no mundo.
— Tem razão.
O pior é que as impressões digitais num dos copos confere com as de Caio.
Esse rapaz está metido numa encrenca brava.
Entretanto...
Telles parou de falar.
Fitou o nada, por alguns instantes.
Paranhos inquiriu:
— Entretanto?
— Sinto que ele não cometeu esse crime.
Caio é inocente.
— Teremos de provar isso.
— Paranhos, aí está um grave erro de nossa justiça.
Primeiro devemos checar todas as evidências, até que se prove a culpabilidade.
Nós estamos começando errado.
Esse menino é inocente.
Paranhos salientou:
— O Código de Processo Penal, datado de 1941, sofreu poucas modificações até hoje.
O Código foi criado durante o Estado Novo de Getúlio Vargas.
E, tanto Getúlio quanto nosso actual presidente, o general Figueiredo, valeram-se de ferramentas policialescas para governar.
— O despacho do juiz foi fundamentado sobre elementos probatórios e indício forte de autoria.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 8:16 pm

Genaro fez tanta pressão, criou tanto caso lá em Brasília – Telles moveu os dedos para o alto – que o juiz decretou a prisão de Caio sob alegação de suspeita de que ele fuja, caso responda ao processo em liberdade.
— É uma truculência, mas estão se valendo da Lei.
— Caio vai ter de aguardar a sentença na delegacia e só será transferido para a Penitenciária do Carandiru após sentença condenatória definitiva.
— Acredita que isso vá acontecer?
— Algo me diz que não.
Sinto isso – tornou Telles.
Paranhos riu alto.
— O que foi?
Algum espírito veio tagarelar e contar-lhe algo que não sabemos?
— Deixe de brincadeira.
Ninguém veio me procurar.
É minha consciência que me chama para a realidade.
— Diga isso ao juiz amigo de Genaro.
Quero ver o que ele vai mandar você fazer com sua consciência.
Paranhos continuou a rir e deixou a sala de Telles.
O delegado estava sem forças.
Havia feito de tudo para que Caio não fosse preso, mas em vão.
A correria dentro da corporação, pressionada pelos militares, acelerou a prisão de Caio.
Algumas evidências apontavam para ele, mas não eram suficientes para que ele fosse preso.
— Se fosse rico – disse Telles para si mesmo – ele nem iria para a cadeia.
Pagaria fiança, contrataria um bom advogado e responderia ao crime, se é que o cometeu, em liberdade.
Infelizmente, o rapaz não tem recursos e vai amargar o diabo.
Telles sabia de alguma forma, que Caio não tinha cometido aquele crime.
Tinha plena certeza de que o autor do crime fora Guido.
Mas e Guido? Quem era esse moço?
Onde estava? Por que sumira do mapa?
Guido efectivamente desaparecera.
Sumira da vida de todos. Por ora.
****
Rosalina teve de ser acudida e levada a um pronto-socorro quando soube do que ocorrera com seu filho.
— Ele não faria uma coisa dessas.
Caio é um bom menino — repetia intermináveis vezes.
— Sabemos disso – declarou Fani.
Mas o que fazer?
Ele é acusado de ter matado uma pessoa importante, conhecida.
O irmão da vítima é um político famoso também.
Caio se meteu com gente graúda, influente e inescrupulosa.
Até que prove o contrário, vai ficar preso.
— Não posso concordar com isso.
Onde está a justiça neste país?
Será que ela é mesmo cega?
— Não se aflija – interferiu José.
Estamos do seu lado.
Também vamos dar todo o suporte necessário a Caio.
— Eu conheço um bom advogado – tornou Fani.
— Custa dinheiro.
É caro – protestou Rosalina.
Meu filho não merece passar por tudo isso.
Rosalina foi medicada e o médico exigiu que ela repousasse por alguns dias.
Mas ela não era mulher de ficar parada e, no dia imediato, em equilíbrio, resolveu visitar o filho na cadeia.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 8:17 pm

O distrito policial, na Marquês de Paranaguá, ficava numa rua tranquila e arborizada, encravada na região do bairro da Consolação.
Rosalina decorou o trajecto.
Tomava o ónibus na Rua Brigadeiro Luís António.
O ónibus dava uma volta enorme, contornava o centro e subia a Rua Martins Fontes, sentido Paulista.
Quando a rua mudava de nome para Augusta, Rosalina puxava a cordinha e descia quase na esquina do distrito.
Era com pesar que ela entrava e ia ao encontro do filho, metido numa cela com mais quatro rapazes.
Rosalina procurava conter o pranto.
Aquilo não era justo, embora, neste dia em particular, ela precisava falar com o filho.
Tinha recebido recado de Norma.
Rosalina cumprimentou algumas pessoas e, como era conhecida, foi levada pelo carcereiro para ver o filho.
O aspecto de Caio era desolador.
As olheiras se faziam notar.
Ele havia emagrecido, sua pele adquirira cor pálida.
Ele mal se alimentava, não queria saber de mais nada.
A vida, para ele, acabara no exacto instante em que seus pulsos foram agraciados com aquele incómodo par de algemas.
— Trouxe um pedaço de bolo de cenoura.
Você adora.
— Não quero mãe.
Estou sem fome.
— Precisa se alimentar.
Como pode querer ficar bem se não se ajuda?
— E me ajudar para quê?
Quantos dias choramos juntos?
Eu e você perdemos as esperanças.
Creio que minha vida vai se encerrar aqui, dentro das grades.
— Eu não penso assim.
— Você mesma estava tão desiludida.
O advogado que Fani conseguiu afirmou que irei a júri e tenho chance quase nula de ser absolvido.
Disse que o juiz que expediu o mandato de prisão é amigo do Genaro.
Amigo íntimo.
Pode uma coisa dessas?
— Não ligo para isso. Estou confiante.
— Por quê? – o semblante dele iluminou-se por um momento.
Teve notícias de Guido? Ele apareceu?
Rosalina meneou a cabeça para os lados.
— Não, meu filho.
Esse seu amigo sumiu do mapa.
Parece que tomou um bom chá de sumiço.
O rosto dele voltou a entristecer-se.
— Guido nunca vai aparecer.
Eu sei que houve algo entre ele e o Gregório naquela noite.
Guido está metido até o pescoço com esse crime.
Todavia, como vamos encontrá-lo?
— Não sei meu filho.
Precisamos confiar na justiça.
— Na justiça dos homens? – ele riu com desdém.
Ela é falha, porque foi feita pelo homem.
O homem não é perfeito.
— Mas se não houvessem leis, o mundo estaria perdido. Infelizmente, injustiças acontecem, mas precisamos de leis.
No estágio em que nos encontramos na Terra, elas são importantes para manter a ordem social.
Eu... – Rosalina hesitou por instantes, sentiu coragem e continuou:
— eu recebi um comunicado de sua irmã.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 8:17 pm

Caio deu um passo para trás.
Encarou a mãe com espanto.
— De novo isso?
Como pode?
— Norma esteve comigo.
Dessa vez foi diferente.
— Outra carta? – ele perguntou com desdém.
— Não. Ela deu comunicação no Centro da Mafalda.
Não fui só eu que ouvi.
Maximiliano, Renata e até Luísa ouviram o médium transmitir o recado de Norma.
Caio esboçou leve sorriso.
A imagem de Luísa veio à sua mente e ele não pôde deixar de sentir imensa saudade.
— Luísa deve estar decepcionada comigo.
Imagine se meter com um rapaz dito criminoso!
— Ela não se deixa levar pelas aparências.
Luísa é moça culta e sensível.
Ora por você todos os dias.
— Nunca veio me ver.
— Talvez ela tenha seus motivos.
— Diga a ela para vir me ver, mãe, por favor.
— Vou tentar.
Na próxima reunião no Centro Espírita, falarei com ela.
Agora trouxe o recado que todos eles, não só eu, recebemos de sua irmã.
Caio encarou a mãe com ar desconfiado.
— O que Norma disse dessa vez?
— Que você não é o culpado.
— Grande coisa.
E quem vai acreditar num espírito?
— Norma disse que o seu espírito – apontou para Caio – desejava passar por essa experiência, a fim de aplacar a culpa que sentia por actos irresponsáveis do passado.
— Não creio que pediria uma coisa dessas.
Por que sofrer?
— Você escolheu.
Poderia ser de maneira inteligente, por outros meios, mas você escolheu este caminho.
— Não me lembro de ter escolhido isso.
É tudo balela.
— Norma garantiu que não.
Você e Gregório traziam situações mal resolvidas do passado.
— Mas eu não o matei, mãe!
O que é que eu tinha de resolver, ora bolas?
— Não sei ao certo.
Tudo aparece no seu devido tempo.
A verdade pode demorar, mas uma hora aparece.
— Duvido.
— Todos ficaram impressionados na reunião.
Sua irmã falava com propriedade.
Disse que logo você vai sair da cadeia.
Esse tempo servirá para você descansar, digamos assim.
— Descansar?!
— Sim. Poderá reflectir sobre sua vida, pensar no que vai fazer no futuro.
Você era muito desmiolado, filho.
Veio a São Paulo e, em vez de batalhar pela sua carreira de modelo, preferiu o sexo fácil, afastou-se de seu verdadeiro caminho.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 8:17 pm

Caio não sabia o que dizer.
Rosalina jamais poderia saber de sua vida promíscua assim que chegara a São Paulo.
Como ela soubera disso?
Quem lhe contara, porquanto Guido era o único que sabia e estava desaparecido.
Ou José teria lhe traído a confiança?
Antes que ele pudesse formular uma pergunta, Rosalina disparou:
— Norma me contou tudo.
Disse que vibrou muito para que você pudesse captar os pensamentos dela e sair daquela vida que iria destruí-lo.
Afirmou também que você estava sendo ameaçado por outro crime que não cometeu.
Caio não podia acreditar no que ouvia.
Será que existia mesmo essa outra dimensão?
Será que havia um mundo espiritual, ligado ao nosso mundo físico?
Será que as pessoas morriam e iam para esse tal mundo?
As perguntas fervilhavam-lhe a cabeça.
De repente, Rosalina retorquiu:
— Você deve confiar na justiça divina.
Ela não falha, jamais.
Sua irmã mandou lhe dizer que vão descobrir quem matou Loreta.
Você não é o culpado, embora tenha sido chantageado.
As lágrimas corriam-lhe sem cessar.
Caio estava deveras emocionado.
Rosalina falava tudo o que se passara com ele nos últimos tempos.
Como ela podia saber de tanta coisa?
Ele, triste, aproximou-se das grades e estendeu os braços para Rosalina.
— Mãe, ajude-me a entender esse mundo espiritual.
Pensei que estivesse ficando louca, que não queria aceitar a morte de Norma, mas vejo que tem razão.
O espírito de minha amada irmã deve estar ao seu lado.
Tudo o que você me disse agora – ele falava com voz entrecortada por soluços – é a pura verdade.
Eu me atirei ao sexo fácil, vendi meu corpo, fui influenciado por Guido.
Poderia adoptar outro comportamento, mas me deixei levar pelo dinheiro que aparecia fácil.
Algo dentro de mim dizia que aquilo não estava correcto, que eu devia mudar.
— Era sua irmã, meu filho.
O espírito de Norma sempre o acompanhou.
Ele ruborizou.
— Sempre?
— Sim. Norma presenciou muita coisa.
Até o que não devia.
Caio enxugou os olhos com as costas das mãos.
— Ela é meu anjo bom.
Assim como Sarita o foi.
— Fani foi a Bauru para o casamento de Sarita.
Ele esboçou largo sorriso, mostrando seus dentes alvos e perfeitos.
— Pelo menos uma notícia boa nessa fase ruim.
— Sempre gostei muito dessa menina.
— O meu anjo vai se casar?
Com quem?
— Não sei, mas parece que será um grande evento.
Fani me garantiu que Sarita está feliz.
— Sinto tanta saudade dela.
Ela me ajudou tanto.
Gostaria muito de reencontrá-la.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 8:18 pm

— Quando sair daqui, poderá ir ao seu encontro.
Não crê que está na hora de voltar-se para o conhecimento do mundo espiritual?
Vai ficar na cadeia pensando em quê?
Em bobagens?
Não acha melhor, depois do que eu lhe falei de Norma, começar a ler alguns livros e abrir sua cabeça para as verdades da vida?
— Tem razão, mãe.
Depois do que me falou, não tenho dúvidas de que Norma está a meu lado.
Mas não entendo nada.
Sou muito cru.
— Não importa – Rosalina sorriu.
Eu sabia que você iria me escutar e abrir seu coraçãozinho combalido para a espiritualidade.
Tomei a liberdade de trazer alguns livros para você.
Rosalina tirou da sacola três livros.
Passou-os por entre as grades.
— São fáceis de entender, mãe?
— Claro. Um é O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec.
Este livro é à base de estudo de qualquer pessoa que queira entender o mundo espiritual que nos cerca.
É composto de perguntas e respostas.
Trata-se de um livro de fácil leitura, porém riquíssimo em ensinamentos.
Caio olhou para o livro de capa dura.
Abriu-o e deu uma folheada.
— Incrível!
Há resposta para tudo.
— Pois bem – tornou Rosalina –, esse outro é mais técnico, fala sobre a reencarnação.
E esse terceiro é um romance.
— Romance?
— Sim. Romance espírita.
Nesse tipo de livro encontramos também muitos ensinamentos.
Este aqui chama-se Entre o amor e a guerra, de Zibia Gasparetto.
Tenho outros romances dela.
Se você gostar desse aí – ela apontou para a capa do romance –, eu trago os outros para você ler.
— Obrigado, mãe.
Creio que agora terei tempo de sobra para ler esses livros todos.
Sabe que até senti fome?
Vou querer um pedaço desse bolo de cenoura.
Um companheiro de cela, ligado na conversa, objectou:
— Sejam democráticos.
Dêem um pedaço para cada um de nós.
Rosalina sorriu.
— Eu trouxe bolo para todos vocês.
Vamos, peguem seus pedaços.
Os rapazes aproximaram-se e pegaram uma fatia de bolo.
Caio pegou a sua e, depois que ele comeu, Rosalina despediu-se.
Precisava voltar para a pensão, porquanto Fani estava viajando e ela e José tornavam-se responsáveis por tudo o que lá acontecia quando a patroa viajava.
Caio sentiu uma leve brisa acariciar seu rosto.
Lembrou-se de Norma.
Intimamente, pensou:
“Você me vê, irmã?
Você me escuta?
Será que continua me acompanhando?”
Ele não percebeu, mas o espírito de Norma estava a seu lado na prisão.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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