PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 8:18 pm

Uma lágrima escorreu pelo canto de seu olho.
Ela acariciou seus cabelos em desalinho e tornou com a voz amável:
— Estarei sempre a seu lado, meu irmão.
Prometo que assim que seu espírito amadurecer e livrar-se da culpa do passado, os factos vão se desenrolar de outra maneira, em direcção à felicidade.
Tenho certeza de que agradáveis surpresas virão.
Para o bem de todos.
Norma o beijou na fronte e sumiu.
Caio pegou O Livro dos Espíritos e começou a ler.
Interessou-se amiúde e manteve-se na leitura por horas a fio.
Seu espírito começava a se libertar, efectivamente, das situações mal resolvidas que ele se impusera no passado.
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Ave sem Ninho

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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 8:18 pm

CAPÍTULO 25

Luísa estava sentada numa poltrona, folheando uma revista de moda.
Seu olhar estava perdido, alheio.
Ela mal prestava atenção nas páginas.
Suas mãos viravam as folhas de maneira automática.
Sua mente voltou alguns meses atrás.
Ela ainda se sentia desconfortável com tudo o que tinha ocorrido.
Ainda lembrava bem daquela sexta-feira.
Fora ao mercado, parecendo uma adolescente apaixonada.
Comprara os ingredientes para o jantar de sábado, escolhera, inclusive, um bom vinho branco para acompanhar a refeição.
Chegara à casa feliz e radiante.
No sábado, arrumou a casa com apuro.
A mesa de jantar estava repleta de candelabros e velas acesas iluminavam o ambiente, de maneira romântica e acolhedora.
Eunice a ajudou nos detalhes, desde a escolha da toalha branca de linho, passando pelos talheres, louças, guardanapos e taças.
A decoração do ambiente estava primorosa, não havia nada a acrescentar ou tirar.
Estava tudo perfeito.
As horas foram se aproximando e a ansiedade estava difícil de ser controlada.
O relógio da sala deu dez badaladas.
O coração de Luísa veio à boca.
— Ele vai chegar logo – disse, sorrindo para si mesma.
Dez e meia. Onze horas.
O interfone tocou e ela correu a atender.
Era Malaquias, informando que o entregador de pizza estava lá embaixo.
— Eu não pedi pizza, Malaquias.
O porteiro tapou a boca do fone e percebeu que o entregador se confundira com o apartamento.
— Desculpe-me, D. Luísa, ele se enganou com o número.
Ela aproveitou:
— Malaquias, alguém apareceu aí na portaria à minha procura?
— Não, senhora.
— Não apareceu ninguém aí às dez da noite?
— Nada.
— Obrigada.
Ela desligou o interfone e a expressão em seu rosto não era das melhores.
Eunice procurou contemporizar.
— Ele disse que trabalha muito no sábado.
Vai ver teve de ficar até mais tarde. Vamos aguardar.
— Ele podia ao menos ter me ligado e dito que ia se atrasar.
Odeio essa falta de pontualidade nas pessoas.
— Calma querida – Eunice serviu-a de uma taça de vinho branco.
Tome um pouco. Relaxe.
Ele vem logo.
Luísa quis acreditar naquilo.
Bebericou seu vinho e voltou para a sala.
Esperou, esperou, até cochilar.
Acordou com a mão de Eunice apoiada delicadamente sobre seu ombro.
Ela despertou e levantou-se rápida.
— Ele está aí? Caio chegou?
— Não. Já passa das duas da manhã.
Vamos nos deitar.
Luísa fez o possível para segurar as lágrimas.
Nunca se sentira tão humilhada.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 8:18 pm

Seu coração a enganara, pensou.
Caio não estava interessado nela.
Bem que ela percebeu seu mutismo ao telefone, quando o convidou.
Ele não quis ser indelicado e dizer-lhe não.
Foi isso! Caio aceitou o convite porque ela foi insistente.
E ele era mais jovem.
É obvio que tinha preferência por meninas de sua idade.
O turbilhão de emoções e pensamentos não parava de bombardear-lhe a mente.
Luísa precisou de um bom tempo para pegar no sono.
Dormiu até quase meio-dia.
Eunice a despertou com o semblante carregado de preocupação.
— O que foi?
— Maximiliano e Renata estão na sala.
Querem lhe falar, com urgência.
— Estou com dor de cabeça.
Dormi muito mal.
Diga-lhes para passar aqui outra hora.
Não foi preciso Eunice ir até eles.
Renata entrou no quarto e, antes que Luísa lhe fizesse uma reprimenda, ela disparou:
— Caio foi preso.
As palavras demoraram para surtir efeito em sua cabeça.
Luísa ia perguntar novamente, entretanto Renata contrapôs:
— Caio foi preso ontem à noite.
Luísa remexeu-se na cama.
Ajeitou o corpo, sentou-se.
— O que me diz?
— Isso mesmo que você ouviu amiga.
— Como foi?
O que aconteceu?
— Ele está sendo acusado de ter matado Gregório Del Prate, seu ex-cunhado.
— Caio?
— Hum, hum.
— Ele conhecia Gregório? Como?
— Não sabemos ao certo, Luísa, mas as emissoras de TV não falam noutra coisa.
As imagens da entrada dele no distrito policial passam de cinco em cinco minutos.
Quer ver?
Renata foi até o aparelho de TV e o ligou.
Colocou em um canal que estava dedicando o horário à cobertura do crime.
— É ele! – exclamou Luísa.
— Teve de ver com seus próprios olhos.
— Mas como?
— Eu e Max fomos até a pensão e prestamos nossa ajuda à Rosalina.
Mafalda nos ligou e pediu que fizéssemos orações pelo espírito de Gregório e Caio.
Ambos precisam de muita vibração positiva.
Luísa demorou para concatenar os pensamentos.
Sua mente voltou para a revista que folheava.
Fazia alguns meses que separavam este dia daquele longínquo domingo, quando soube do crime pela TV.
Ao saber do envolvimento de Caio com Gregório, sentiu-se mal, muito mal.
Não teve coragem para visitar Caio e ouvir o seu lado da história.
Ela estava ficando paranóica, louca mesmo.
Pensava em Caio todos os dias, todas as horas.
Rezava por ele, fazia vibrações no Centro.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 8:19 pm

Entretanto, tinha medo de visitá-lo.
No fundo, ela acreditava que Caio tinha se aproximado dela por interesse.
Ele era amigo – ou talvez amante de Gregório, vai saber... – e estava tripudiado sobre seus sentimentos.
Mas por que Luísa acreditava numa sandice dessas?
Ora, porque o espírito de Gregório, mesmo sabendo quem havia matado seu corpo físico, procurava incutir na mente de Luísa essas ideias disparatadas.
Gregório ainda estava cego de paixão e não permitia ou queria que ninguém se aproximasse de Caio.
Ele ainda estava preso ao passado e sua cabeça, perdida e atordoada pela maneira brutal com que perdera a vida física, assim que tinha chance, aproximava-se de Luísa e inspirava-lhe esses pensamentos dúbios.
Luísa, invigilante nos pensamentos, acreditava que tudo o que passava em sua mente era dela e de sua intuição.
Não suspeitava que pudesse estar sendo influenciada por um espírito.
Ela frequentava o Centro Espírita, fazia os trabalhos, mas não levava os estudos a sério.
Sentia-se útil em ajudar as pessoas, mas não fazia muito esforço para entender melhor o mundo espiritual e a si mesma.
Como havia se livrado de Genaro e agora se sentia mais forte, Luísa acreditava que não precisava ir fundo nos estudos espirituais.
Estava tudo indo muito bem em sua vida, por que estudar sobre o invisível?
Ela tinha mais o que fazer.
Luísa acreditava, lá no fundo, que a maneira séria com que Renata e Max se debruçavam sobre os estudos espirituais era falta de alguém em suas vidas.
Se amassem ou fossem amados – acreditava ela – eles não dariam tanta importância aos estudos espíritas.
Ledo engano.
A mente de Luísa começava a receber assédio de espíritos que não gostavam de quem se interessava pelos estudos espíritas.
Havia um bando – como há até hoje no nosso mundo – de espíritos cuja única função é espalhar a descrença e semear a ignorância espiritual sobre os encarnados.
Como muitos sempre andam com a cabeça solta, deixam-se levar e invadir por todo e qualquer tipo de pensamento, sem ao menos, dar-se ao trabalho de checar o que é seu e o que não é.
Fazia quatro meses que Caio estava preso e Luísa ainda não havia lhe feito uma visita sequer.
Embora estivesse com a mente embaralhada, ela sofria.
Seu coraçãozinho, impotente, gritava, debatia-se, tentava mostrar a Luísa que ela estava se distanciando de seu grande amor, influenciada por pensamentos que não eram seus.
Sentindo-se atordoada, e inspirada pelo espírito de Loreta, certa noite Luísa aguardou o fim dos trabalhos espirituais e foi ao encontro de Mafalda.
— Preciso falar com você.
— Eu sei, os espíritos me avisaram.
Venha, vamos até uma sala reservada.
Mafalda despediu-se dos demais e, em seguida, conduziu Luísa até sua sala.
— Pois bem, acredita que agora poderá mudar o teor de seus pensamentos?
— Do que está falando?
— Eu prezo muito pelo seu bem-estar, Luísa – disse Mafalda com uma voz para lá de amorosa.
Sei que está sendo assediada por um espírito perturbado e, invigilante, sem tomar conta dos seus próprios pensamentos, acredita que tudo seja fruto de sua cabeça.
— E não é?
— Não, minha querida.
Você está sofrendo forte interferência espiritual.
— Eu não sinto nada e....
— Não sente, mas pensa – declarou Mafalda.
Pensa que tudo que passa pela sua cabeça é seu?
— E não é?
— Nunca parou para pensar que, muitas vezes, captamos os pensamentos dos outros, sejam encarnados ou desencarnados?
Não estudou o assunto aqui no Centro?
Luísa sentiu a face arder.
Aprendera sobre o domínio dos próprios pensamentos, nunca se esquecera da aula em que aprendera o verdadeiro sentido de “Orai e Vigiai”, tão pregado pelos espíritos.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 8:19 pm

Mafalda percebeu-lhe os pensamentos.
— Orai e vigiai.
Temos de prestar atenção aos nossos pensamentos.
Não podemos aceitar tudo o que invade nossa mente como sendo nosso.
— Sei disso, mas é difícil saber e separar o que é meu e o que não é.
— Ora, tenha um pouco mais de paciência consigo mesma – ajuntou Mafalda.
Quando um pensamento ruim se apossar de sua mente, pergunte se ele é seu ou de outros, não importando se for de gente encarnada ou de espírito.
Tanto faz. O importante é saber seleccionar o que entra e permanece em nossa mente.
Esse exercício compete somente a nós e mais ninguém.
Uma lágrima escapou pelo canto do olho de Luísa.
— Eu sinto que às vezes minha cabeça fica bastante tumultuada.
Eu tento combater, mas os pensamentos continuam a me perturbar.
— Pela sua invigilância, está sofrendo forte ataque espiritual.
Gregório está em sua cola.
— Gregório? – perguntou Luísa, de maneira espantada.
— Sim. O espírito de Gregório aproveitou a sua falta de atenção nos pensamentos e a está bombardeando com energias negativas.
Ele está fazendo com que você sinta medo, raiva, angústia.
Luísa estava estupefacta.
— Por que o espírito de Gregório se ligaria em mim?
Nunca tivemos nada em comum.
Eu o vi pouquíssimas vezes nesta vida.
Não compreendo.
A voz de Mafalda era doce, porém firme.
— O véu do passado não permite que saibamos de muitas coisas, única e exclusivamente para o nosso próprio bem.
De que adiantaria ter acesso às vidas passadas?
— Facilitaria em muitas coisas.
— Como assim Luísa? – perguntou Mafalda, de maneira desafiadora.
Acaso acha que, o filho que descobre ter sido assassinado pelo pai numa outra vida terá condições de perdoá-lo e de amá-lo?
Ou mesmo de manter com esse pai um convívio saudável?
Será que uma mãe dará à luz um filho que, numa outra época passada a tenha feito infeliz?
Será que não saber do passado acaba por se tornar ferramenta útil voltada para o nosso crescimento espiritual?
— Faz sentido.
Mas não consigo, em hipótese alguma, entender por que Gregório está me assediando.
— Vocês estão vibrando no mesmo padrão energético, em primeiro lugar.
Você anda negativa, descrente do futuro, acredita que a vida tenha perdido seu brilho e não faz força para mudar essa atitude de prostração que maltrata sua aura.
Segundo, porque você, Gregório e Caio estão ligados pelas teias do passado.
Vocês estão recebendo a chance de desfazer os laços de rancor que os prendem há algumas vidas.
As lágrimas escorriam sem cessar.
Luísa levou a mão à boca para abafar os soluços.
Não conseguia ter certeza, mas algo lá no cantinho de sua alma parecia constatar, parecia acreditar piamente em tudo o que Mafalda lhe falava.
Sentia que tudo aquilo fazia sentido e tratava-se da mais pura verdade.
Ela pousou suas mãos nas de Mafalda.
— Não sei como agradecê-la.
Tenho vontade de falar com Caio, de procurar-lhe, dar-lhe meu apoio enquanto está preso, entretanto uma força me impede.
– Impedia – corrigiu Mafalda.
Nesta noite, com a permissão do Alto, o espírito de Gregório foi afastado de você.
Se mudar o teor de seus pensamentos e mantiver-se vigilante, sabendo seleccionar o que entra em sua mente – apontou para sua cabeça – nem Gregório, nem mesmo outro espírito, nem mesmo um encarnado poderá aproveitar-se e incutir-lhe na mente pensamentos negativos.
— E os pensamentos dos bons espíritos?
Não vou captar nunca mais?
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 17, 2016 8:27 pm

— Esses vamos sempre captar, caso estejamos de bem connosco mesmos, em equilíbrio.
Quando estamos invigilantes e não temos controle de nossa mente, os bons amigos espirituais não conseguem se aproximar.
Fica muito difícil captarmos o que eles nos inspiram quando estamos invigilantes, em desequilíbrio.
— Eu não tenho como agradecer, Mafalda.
Sinto como se um peso muito grande fosse retirado de minhas costas e minha cabeça.
Sinto-me inclusive mais leve.
— É que agora você não tem companhias espirituais que a atormentam.
— Gregório foi mesmo afastado?
— Sim, esta noite.
Tentamos encaminhá-lo para doutrinação, mas ele recusou-se terminantemente.
Há muitos espíritos desafectos que o estão perseguindo.
Gregório está colhendo o que plantou.
Mas, em hipótese alguma, devemos julgá-lo.
Pelo contrário.
Todos somos filhos do mesmo Pai e devemos, ao menos, vibrar pelo espírito atormentado de Gregório.
Seu nome está na caixa de orações do nosso Centro.
Espero que essas orações aliviem seu sofrimento e possam ajudá-lo a despertar e dar novo passo no caminho de sua evolução.
Luísa despediu-se de Mafalda e saiu do Centro sentindo-se mais leve.
Em seguida, tirou as luvas cheias de sangue e as colocou no bolso.
Pegou novo par de luvas e as meteu nas mãos.
Olhou ao redor para ver se tinha deixado algum vestígio. Nada.
O assassino desceu as escadas, jogou sobre a mesinha uma carta que Gregório começara a escrever, tentou abrir o cofre, mas não conseguiu.
Depois, pegou o maço de dinheiros que estava sobre a mesa, enfiou na jaqueta de náilon e saiu.
Os cachorros, acostumados com ele, latiram muito, mas não o morderam.
Ele pôde tranquilamente ganhar o pátio, contornar a piscina, passar pelo jardim e pular o portão, escalando as enormes grades de ferro.
Décio viu o vulto pular o portão e ganhar a rua nesta hora.
Eram quase cinco da manhã.
Gregório atordoado viu-se assediado por sombras escuras.
Ele não conseguia lhes perceber a forma.
Somente ouvia gemidos e gritos desesperados.
Eram vozes, as mais variadas, cobrando-lhe satisfações de coisas que ele mal se lembrava de ter feito.
Desesperado com o número crescente de sombras ao seu redor, o espírito de Gregório ajoelhou-se, e, mesmo sentindo uma dor aguda no peito, lembrou-se de Maximiliano, conhecido seu.
Max e ele não eram amigos, mas, sem saber o porquê, Gregório lembrou-se dele e assim foi arremessado para o quarto de Max.
Foi então que Max teve o sonho. Ou pesadelo.
O espírito atormentado de Gregório tocou-lhe o perispírito e pediu por ajuda.
Max, sem saber direito o que ocorria, ofereceu-lhe o quarto de hóspedes e voltou a dormir.
Gregório acreditou que lá estaria seguro, entretanto, logo em seguida as sombras reapareceram e levaram-no de lá.
Começou o sofrimento de Gregório.
Passou a ser assediado por essas sombras e por espíritos de baixa vibração ligados a elas.
Embora tenha sido, quando encarnado, amoral e sem escrúpulos, ele trazia em sua memória espiritual a brutalidade que usara em outras vidas.
Logo, tomou ciência de sua força, botou as sombras, as vozes murmurantes e os espíritos para correr e passou a andar a esmo, perdido e desorientado.
Certa vez, um espírito de luz ofereceu-lhe ajuda.
Gregório recusou.
Noutra vez, quando tencionava perseguir seu assassino, seus planos mudaram.
Gregório teve um lampejo de sua vida passada e, desta feita, passou a assediar Luísa.
Aproveitou que ela andava amuada e triste, invigilante nos pensamentos, e colou-se a aura dela.
Nesta noite, os espíritos que trabalhavam no Centro Espírita conseguiram atraí-lo para a sala em que eram realizadas incorporações e doutrinação de espíritos, digamos, perturbados e sofredores.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 17, 2016 8:27 pm

Cabe ressaltar que, esse tipo de trabalho espiritual é feito por médiuns experientes que estudam com afinco a espiritualidade.
Precisam ter muito equilíbrio e serem donos absolutos de seus pensamentos, a fim de não caírem na lábia dos espíritos empedernidos.
A doutrinação, no caso, nada mais é do que um bate-papo sincero e amigo, a fim de que o espírito possa tomar consciência de seu novo estado e ser encaminhado a uma estação de tratamento espiritual.
Loreta interveio e tentou prestar algum tipo de ajuda a ele.
Em vão. Nada adiantava.
Gregório recusou-se terminantemente a receber ajuda.
Saiu do Centro gritando impropérios.
Esperou que Luísa saísse de lá para continuar a assediá-la.
Mas algo de errado aconteceu, porquanto ele não conseguia aproximar-se dela.
Era como se Luísa estivesse envolta por uma rede invisível de protecção.
Gregório tentava lhe influenciar os pensamentos, porém Luísa não os captava, de forma alguma.
Louco de raiva, Gregório correu até Caio.
Talvez o rapaz, triste e revoltado por estar indevidamente preso, poderia dar-lhe passagem.
— Vocês não vão ficar juntos – vociferou Gregório, enquanto fechava os olhos e mentalizava o rosto de Caio, a fim de ir ao seu encontro.
Eu juro que prefiro separar vocês a ir atrás de meu assassino.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 17, 2016 8:27 pm

CAPÍTULO 26

Telles coçou a barba espessa, porém bem aparada.
Estava intrigado. Sentia ser assediado por amigos espirituais do bem, espíritos de luz que lhe incutiam na mente o desejo de ir além nas investigações do assassinato de Gregório Del Prate.
O secretário de segurança deixara de ser incomodado, Genaro estava tranquilo, a TV e os jornais não deram mais atenção ao caso.
A sociedade, como de costume, deixara de fazer alarde e logo esqueceu do crime.
Caio estava preso há quase um ano e, em breve, iria a julgamento.
Não podiam fazer mais nada, afinal Guido, que poderia prestar alguma ajuda um esclarecimento, uma luz sobre o caso, estava desaparecido.
E ninguém conhecia esse tal de Guido.
Telles acreditava na inocência de Caio.
Mas o que fazer?
Como apresentar evidências que pudessem mudar o rumo do caso?
O delegado meneou a cabeça para os lados.
Zulmira o chamou a atenção.
— Filho, você veio até aqui me visitar e mal tocou na comida.
— Desculpe-me, mamãe – tornou ele com a voz cansada.
Estou sem fome. Perdi o apetite.
Zulmira zangou-se.
— José Carlos! – bradou ela.
Aliás, ela sempre o chamava pelo nome, principalmente quando estava nervosa.
– Você sempre foi de ter apetite de leão!
O que está acontecendo?
Algum amor mal correspondido?
Ele riu.
— Quem me dera! – exclamou ele, desiludido.
As mulheres não querem mais saber de relacionamento sério.
Ganharam destaque na sociedade, são donas de seu nariz.
Eu até tento algo sério, mas elas querem só se aproveitar do meu corpinho.
Zulmira riu gostoso.
— Tenho a plena convicção de que você vai encontrar a moça certa, na hora certa.
— Será?
— Sim. Todos nós temos direito à felicidade e de compartilhar a vida ao lado de alguém que possamos amar.
Ser amados também ajuda, e muito, a ter uma vida mais colorida.
— Estou desacreditado.
Posso parecer um homem sisudo, talvez pela minha barba e meu porte, mas não passo de um romântico inveterado.
Lembra-se de como chorei feito criança no dia que soube da morte da Elis Regina?
— Lembro-me como se fosse hoje.
— Sempre sonhei em enlaçar uma mulher e dançar ao som de Dois para lá, dois para cá.
Mas essas moças que encontro zomba desse meu comportamento romântico.
Teve até uma que me chamou de frouxo.
— Azar o dela.
Você é tão bonito – ela acariciou seu rosto –, tão inteligente.
Tem feito brilhante carreira na polícia.
Ponha em sua cabeça que você é excelente partido.
E, no dia em que uma mulher reconhecer tudo de bom que você pode oferecer essa sim, será a companheira ideal que vai estar a seu lado, seja nos momentos bons, seja nos momentos ruins.
E ainda vai lhe dar uma penca de filhos.
Você sempre sonhou com uma família grande...
Telles sorriu e seus olhos fitaram o infinito.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 17, 2016 8:27 pm

— Quem me dera.
Espero que um dia eu possa encontrar essa mulher.
Onde será que ela se esconde?
— Talvez esteja muito próxima.
Quem sabe?
— É, mãe, quem sabe.
— Bom, se você não está amuado por conta de um amor não correspondido, o que o faz ficar prostrado desse jeito?
— É o caso do rapaz preso pelo assassinato do empresário Gregório Del Prate.
Não me conformo com a injustiça que estão cometendo com o Caio.
Eu sinto que ele é um bom moço e que diz a verdade.
Acredito em sua inocência.
— Entretanto, ele vai a julgamento.
— Pois é.
As poucas evidências apresentadas contra ele foram acatadas de maneira incontestável.
Todos queriam uma solução rápida para calar a imprensa e os grupos de defesa dos homossexuais.
O irmão da vitima é político muito bem relacionado e comprou até o juiz, que expediu o mandato de prisão.
Mas estão sendo injustos com o menino.
Eu tenho ouvido as vozes...
Zulmira pendeu a cabeça para cima e para baixo.
— Sei como se sente.
Lembro-me como se fosse hoje do caso da Lena Alcântara.
Graças aos espíritos, e graças a você, o assassino foi condenado e está preso.
Tem sentido o mesmo em relação ao Caio?
— Sim. Ouço uma voz feminina que insiste na busca da verdade.
Ela me assegura que há provas que podem livrá-lo do eminente julgamento.
— Você poderia ir comigo ao Centro Espírita.
Fui lá por conta daquele nódulo que me tirou noites de sono.
Graças a Deus, hoje não tenho mais nada.
Aprendi muito sobre espiritualidade e sou grata à casa espírita.
Nessa mesma casa eu conheci a mãe do Caio.
Trata-se de mulher correcta, de carácter.
Sempre enviamos vibrações para ele.
Mafalda, a dirigente do Centro, afirma que, em breve, o caso vai se resolver.
— Mas como?
Eu só ouço a voz, mais nada.
Se ao menos eu conseguisse captar o que ela quer me dizer – suspirou Telles, triste.
— Poderia me acompanhar ao Centro.
Seria óptimo.
Quem sabe lá não seja o ambiente propício para que você possa captar com precisão o que o espírito tanto quer lhe dizer?
— Não deixa de ser uma ideia interessante.
Aquele grupo do qual eu fazia parte se desfez.
Nunca mais tive contacto com o Espiritismo.
— Quer me acompanhar dia desses?
— Sim. Gostaria muito.
— Certo. Quando quiser, ligue-me...
O Centro não fica distante aqui de minha casa.
— Farei isso, mãe.
— Óptimo. Agora – ela apontou para o prato – coma!
Telles sorriu e beijou Zulmira na face.
— Você é a melhor mãe do mundo.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 17, 2016 8:28 pm

****
Caio tentava, nesse tempo de cárcere, concatenar as ideias.
Queria entender o porquê disso tudo. Havia melhorado sua conduta, abandonara a curta vida de prostituição.
Mudara o comportamento, arrumara emprego e queria ser um homem de bem.
Mas a vida lhe havia tirado tudo. Por quê?
Os pensamentos ferviam-lhe a mente.
Ele tentou mergulhar no estudo da espiritualidade, mas em pouco tempo deixou os livros num canto da cela.
Sentia-se impotente para estudar e compreender as verdades da vida.
A revolta começava a tomar conta dele, porquanto o julgamento se aproximava e ele mal vislumbrava uma maneira de se safar dessa injustiça e provar sua inocência.
Havia também a ausência de Luísa.
Passaram-se meses e ela não tinha ido visitá-lo.
Ele acreditou que ela nutrisse algum sentimento por ele, e, se nutrira esse sentimento desvaneceu no ar por conta de sua prisão.
Afinal, que mulher iria se apaixonar por um homem acusado de assassinato?
E ainda por cima, um assassinato cheio de requintes de crueldade?
Caio meneou a cabeça para os lados.
Queria esquecer Luísa.
Intimamente, sentia que a amava de verdade, mas o que fazer?
A vida lhe havia sido muito dura e ele nem podia reclamar a sua ausência.
O espírito de Gregório aproveitou a melancolia que se apossara sobre Caio.
Aproveitou a brecha criada pelo desânimo e pela desesperança e passou a assediá-lo, constantemente.
— Ela não serve para você.
Como vai querer se unir a um assassino?
Ela não merece seu amor.
Luísa é fraca e não lhe pertence.
Gregório bombardeava Caio diariamente, incessantemente.
O rapaz absorvia os pensamentos como se fossem seus.
A cada dia, mais ele se deixava influenciar pelos pensamentos perniciosos daquele espírito fixado nele, tão somente nele.
****
Luísa preparou-se para aquele dia.
Até que enfim ele chegara.
Tomara coragem e, finalmente, iria ao encontro de Caio.
Ensaiara o que falar sentia-se um tanto nervosa.
Meses haviam se passado, mas, agora, livre dos assédios de Gregório e dona de seus pensamentos, ela decidiu visitar o rapaz.
Ela acreditava na inocência do jovem.
Sentia que Caio não havia cometido aquele crime hediondo.
Logo, tudo se resolveria e eles poderiam caminhar juntos, em busca da felicidade.
Renata apareceu no quarto e tirou-a dos pensamentos.
— Vamos. Estamos no horário.
— Estava aqui divagando – tornou Luísa, enquanto retocava a maquilhagem.
— Pelo tempo perdido?
— É, Renata. Tantos meses se passaram e eu nem dei a ele o meu apoio.
— Você estava em uma outra sintonia.
Aprendeu com seus erros e está pronta para dar a cara para bater.
É assim que se procede.
Você acredita na inocência de Caio e sabe lá Deus como tudo vai se resolver.
No entanto – Renata frisou –, você o ama.
— É verdade – Luísa levou a mão ao peito.
Caio desperta em mim os mais nobres sentimentos.
Acho que o amo desde o primeiro dia, quando nos esbarramos na saída do banco.
— Sorte sua.
Quisera eu encontrar um homem assim.
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Ave sem Ninho

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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 17, 2016 8:28 pm

— Deixe de ser boba amiga – censurou Luísa.
Os convites e galanteios masculinos a perseguem!
— E de que adianta?
Eu sou assediada e marco um encontro.
Quando falo de mim, de minha vida profissional, é como se quem está na minha frente visse o capeta.
Ser uma mulher independente assusta os homens.
Luísa protestou.
— Você é bonita, charmosa, tem um corpo escultural, é inteligente e tem seu próprio dinheiro.
Será que não existe um homem sensível o suficiente para perceber o mulherão que você é?
— Obrigada pelo carinho.
Eu sinto que sou tudo isso que você diz.
Entretanto, eles fogem. Têm medo.
— Calma, porque sempre existe alguém para nós.
É uma questão de sintonia, de estar aberta para o amor.
— Confesso que estou – sorriu Renata.
Eu quero muito encontrar um homem e ser feliz.
Mais nada. Quer dizer, que seja um pouquinho romântico e leve-me num bom restaurante e depois me convide para dançar.
— Só você para me fazer rir de seus sonhos.
Renata ajuntou.
— E que também me acompanhe ao cinema, pelo menos uma vez por semana.
— Você e seus filmes – disse Luísa, enquanto passava o batom pela boca.
— Adoro cinema.
Eu me transporto na tela.
São duas horas em que eu me perco naquela salinha escura.
E se for um filme romântico, deixo as lágrimas correrem livremente.
Saio tão bem, tão feliz.
— Depois de visitarmos Caio, podemos ir até o Cine Metro.
Eu ainda não assisti a Laços de Ternura, com a Shirley MacLaine e Debra Winger.
— Dizem que esse filme arranca lágrimas até dos mais endurecidos.
— Combinado – Luísa sorriu, levantou-se da banqueta em frente à penteadeira.
Apanhou sua bolsa sobre o console.
Eu pago o cinema.
Hoje é por minha conta.
— Eu compro a pipoca e o refrigerante.
— Certo.
Saíram animadas e foram tagarelando até chegarem ao distrito.
Assim que estacionou o carro, Renata notou a apreensão nos olhos de Luísa.
Ela apoiou o seu braço no da amiga.
— Não tem volta.
Chegou o momento.
— É – suspirou Luísa.
Chegou o momento.
Deixaram o carro e aproximaram-se do prédio.
Luísa ergueu a cabeça e mirou os degraus.
Eram muitos. Subiu com vagar.
Chegou ao topo e, pedindo ajuda aos protectores espirituais, entrou de braços dados com Renata.
O Carcereiro as conduziu até o andar em que Caio se encontrava.
Ao chegarem, o rapaz – de postura carrancuda – fez sinal a elas, indicando o local da cela.
Luísa caminhou a passos lentos.
O braço de Renata, enlaçado ao seu, dava-lhe estímulo a continuar.
Caio estava deitado na tosca cama de sua cela.
Fazia tempo que ele estava ali e havia uma troca constante de companheiros.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 17, 2016 8:28 pm

Uns saíam para julgamento, outros eram absolvidos, outros transferidos para outras delegacias.
Havia dois rapazes ali com ele, entretanto, ambos estavam deitados no canto da cela, fumando seus cigarros, alheios à realidade.
Luísa aproximou-se e segurou as grades.
Falou baixinho.
— Caio.
Ele não escutou.
Ela insistiu, agora com modulação de voz mais firme e perfeitamente audível.
— Caio!
O rapaz abriu os olhos e demorou um pouco para reconhecer aquela moça linda à sua frente.
Aliás, eram duas, porquanto Renata estava logo atrás da amiga.
Assim que concatenou os pensamentos e certificou-se de que se tratava de Luísa, em vez de sentir-se feliz com sua visita, foi tomado de incontida fúria.
Gregório estava ao seu lado e vociferava:
— Não dê ouvidos a essa vagabunda!
Enquanto você está aqui preso, ela sai com outros homens.
Por que veio visitá-lo só agora, depois de tanto?
Para espezinhá-lo. Somente para isso.
Ele gritava e Caio absorvia tudo aquilo, como se sua própria mente estivesse produzindo aqueles pensamentos.
Ele levantou-se de um salto de sua cama e aproximou-se das grades, de maneira nada cordata.
— O que faz aqui?
Luísa sentiu o sangue sumir.
O tom na voz de Caio mostrava que ela não era bem-vinda.
— Eu... É... Bom
— Vai ficar gaguejando feito uma tonta?
— Bom, eu...
— O que faz aqui?
— Vim vê-lo e...
Caio a cortou.
Aos olhos humanos, parecia um homem irritado e profundamente desconfortável com a presença de Luísa.
Aos olhos espirituais, o rapaz estava praticamente em franco processo de incorporação.
O espírito de Gregório estava tão grudado em sua aura, que Caio registava e imediatamente transformavam em palavras os pensamentos empedernidos do espírito.
— Depois de tantos meses?
Por que esse interesse tão repentino?
— Passei por uma fase difícil e...
— Você passou por uma fase difícil? E eu?
— Desculpe-me a demora em vir visitá-lo, contudo...
— Por acaso está sem homem?
Você me quer, é isso?
Luísa engoliu em seco.
Seus olhos marejaram.
Renata sentiu uma tontura muito forte.
Ela não tinha vidência, mas pôde constatar, pela sua sensibilidade educada e em equilíbrio, que Caio estava sob forte interferência espiritual.
Ela procurou manter um tom apaziguador.
— Viemos em paz.
Luísa gosta muito de você e só não veio esses meses todos por puro medo e insegurança. Mais nada.
— Não venha defendê-la!
São todas iguais.
Vocês mulheres são todas iguais.
É por isso que as odeio.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 17, 2016 8:29 pm

Renata ia continuar, mas Caio tomado pela raiva de Gregório, bramiu:
— Saiam daqui, suas ordinárias! Saiam!
Luísa não terminou de escutar o que ele dizia.
Colocou a mão na boca para abafar o soluço e saiu correndo.
Renata percebeu que ele estava praticamente incorporado.
Os olhos de Caio estavam esbugalhados e uma baba espessa escorria pelo canto do lábio.
A imagem de Gregório veio forte e ela teve certeza de que ele estava ali.
Inspirada por Norma, que ali também se encontrava, ela disparou, de maneira enérgica:
— Pode fazer o que quiser, você não tem mais o direito de separá-los.
O passado já passou.
Você os impediu de ficarem juntos em outra vida. Isso não mais será permitido.
Eles vão ser felizes – Renata aproximou-se das grades e encarou Caio nos olhos, como se estivesse falando para além dele.
Ambos reencarnaram com esse propósito e você não tem o direito nem o poder de interferir e mudar o que está traçado.
Você não pode ser mais forte que o destino.
Ela falou de maneira tão firme, tão convincente que, naquele momento, Gregório desgrudou-se de Caio, aturdido.
Ele pôde ver Norma logo atrás de Renata e sentiu medo.
Caio voltou a si, meio zonzo.
Não se recordava direito do que acontecera.
Olhou ao redor e não viu Luísa.
Renata atravessou a mão pela grade e deu um tapinha em seu ombro.
— Melhore o teor de seus pensamentos.
Leia os livros que sua mãe lhe trouxe.
Vai querer estragar novamente a oportunidade que a vida lhes deu de ficarem juntos?
Caio estremeceu.
Aquelas palavras atingiram fundo seu coração.
Ele queria falar, mas se sentiu prostrado.
Enquanto Renata saía e sumia pelo corredor atrás de Luísa, ele jogou-se na cama e chorou, chorou como há muito não chorava.
Norma aproximou-se de Gregório e, antes que ele a atacasse com seus impropérios, ela disse:
— Você não é mais a Lucy.
Acorde para a realidade.
Está preso entre recordações de duas vidas, desta e da outra.
Num momento comporta-se como Gregório.
Em outro, comporta-se como Lucy.
Percebe-se que está em franco desequilíbrio.
Precisa de tratamento urgente.
— Eu não posso deixá-lo.
Philip é meu grande amor e verdadeiro amor.
— O que chama de amor é isso?
Esse sentimento mesquinho e que só lhe causou dissabores no passado?
Será que está falando do sentimento certo que nutre por Philip?
— Philip é meu.
— Não vê que agora ele está reencarnado como Caio?
Não vê que o tempo é outro, que você está preso ao passado?
Gregório soluçava.
A paixão doentia que sentia por Caio o feria por dentro.
Arranhava sua alma.
E o impedia de continuar sua jornada rumo à evolução de seu espírito.
Ele deixou-se cair no chão e, ajoelhado, cobriu o rosto com as mãos.
— Eu o amo. Eu o amo.
— Será? – inquiriu Norma.
Será que o ama?
Ou será um capricho que está na hora de acabar?
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 17, 2016 8:29 pm

Gregório estava bastante confuso.
Em sua mente ele via Caio, em seguida via Philip.
Eram os mesmos, mas em outras épocas.
Os rostos também eram bem diferentes.
Só os olhos eram os mesmos.
Os mesmos por quem se apaixonara antes.
Como podia ser isso?
Conforme sua mente se fixava no passado, o espírito dele foi automaticamente adquirindo contornos femininos.
Logo, Gregório estava com os cabelos presos em coque e suas roupas agora eram antigas, muito antigas.
Ele retomara a forma de sua vida anterior. Como Lucy.
Foi então que tudo ficou vivo em sua mente.
Lembrou-se do sofrimento que essa paixão lhe causara no passado e do sofrimento posterior, no astral.
Norma aproximou-se e passou a mão pelo seus cabelos.
— Lucy, precisamos ir.
Philip morreu há muito tempo.
— Ele está aí – apontou.
— Caio está longe de ser aquele homem que você acreditou amar.
— Sei que ele mudou o rosto para me enganar.
Mas sei agora eu sei que este é Philip.
— Não é mais.
— Meu Philip – murmurava o espírito.
— Venha se tratar, depois poderá pensar no que fazer.
— Se eu for – afirmou Gregório, agora como Lucy e com voz feminina – Philip e Sally vão ficar juntos.
Eu não posso deixar isso acontecer de novo.
— E vai fazer o quê? Repetir o erro?
Matar Sally por acaso trouxe Philip para seus braços?
O espírito chorava aos pés de Norma.
Lucy lembrou-se das atrocidades cometidas na última existência e sentiu remorso.
Começava aí a mudança de Lucy. Ou de Gregório...
Norma lhe estendeu a mão.
— Temos muito o que fazer, o que conversar.
Você precisa se tratar.
Este mundo não lhe pertence mais.
Venha comigo.
— Para onde? – perguntou o espírito, hesitante.
— Para um lindo Posto de Socorro.
Lá você vai receber atendimento, vai conseguir se livrar de suas culpas, reverem as atitudes que a levaram a desencarnar dessa maneira violenta.
Lucy, ou Gregório, apertou firme a mão de Norma e deixou-se conduzir.
Norma, antes de partir, aplicou um passe calmante sobre Caio.
O rapaz agora dormia um sono tranquilo e reconfortante.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 17, 2016 8:29 pm

CAPÍTULO 27

O delegado Telles conversou com o advogado de Caio e falou-lhe sobre o que sentia...
Acreditava piamente na inocência do rapaz.
— Entretanto – salientou o advogado — precisamos urgentemente de evidências que provem sua inocência.
O tempo urge e, se nada aparecer, infelizmente, o juiz vai expedir a sentença condenatória definitiva e Caio vai para a Penitenciária do Carandiru.
— Isso não pode acontecer, Dr. Lopes.
— Corra, Telles.
— Eu tento, mas sei que falta encaixar uma peça nesse quebra-cabeças.
— Como assim? – perguntou Lopes, interessado.
— Preciso achar esse Guido.
Vou conversar com Caio.
— E o que pretende fazer?
— Ir aos locais que eles frequentavam.
Quem sabe alguém possa nos ajudar?
Eu vou fazer isso, doutor, para aliviar a crise de consciência que me persegue.
— Se Paranhos descobrir que você ainda está cutucando o caso...
— Paranhos não pode nada.
Ele está louco par ser transferido para Belo Horizonte, quer ficar perto da família.
Ele ganhou notoriedade com esse crime e nem quer saber se Caio vai ou não a julgamento.
Telles e Dr. Lopes conversavam enquanto subiam as escadas da delegacia.
Luísa saiu em disparada do prédio.
Desceu os degraus de maneira rápida e deu um esbarrão em Telles.
Quase foram ao chão.
Ela se segurou nos braços do delegado e sussurrou:
— Desculpe-me.
— Você está bem?
— Sim.
Luísa falou, desprendeu-se de seus braços e correu em direcção ao carro.
Renata saiu em seguida, de maneira apressada.
Desceu os degraus rapidamente e, ao procurar Luísa, seus olhos encontraram-se com os de Telles.
Ambos sentiram uma emoção diferente, como se já tivessem se visto antes.
Renata sentiu leve tremor no corpo e o delegado percebeu que suas pernas falsearam por instantes.
Ela engoliu em seco e perguntou, a fim de disfarçar a emoção que aquele desconhecido lhe causara:
— Viu uma moça de cabelos castanhos e lisos passar por aqui em disparada?
Telles riu, mostrando um sorriso encantador.
— Acabou de me atropelar.
Creio que foi para lá – apontou em direcção aos carros estacionados na calçada.
Renata perpassou o olhar e avistou a amiga, de cabeça baixa, encostada no capô do veículo.
— Ah, lá está! Acabei de encontrá-la.
— Parece que ela não está bem.
— Hoje não é o seu melhor dia – Renata afirmou.
Em seguida ela notou que não estavam sozinhos no Universo e que ao lado de Telles estava o advogado de Caio.
— Doutor Lopes, que surpresa revê-lo.
— Como vai, Renata?
— Não tão bem quanto gostaria.
Depois de meses, Luísa decidiu visitar o Caio e o encontro não foi nada agradável.
— Que pena. Ela tem tanto carinho por ele.
— Muito mais que carinho, Dr. Lopes.
Mas vamos esperar por dias melhores.
Caio está perturbado e, como logo será expedida a sentença, sua cabeça anda confusa.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 17, 2016 8:30 pm

— Vou conversar com ele – ponderou o advogado.
Telles interessou-se.
— É amiga de Caio?
— Não propriamente.
Sou amiga de Luísa, que gosta de Caio – ela disse rindo.
É uma história incomum.
Eu me afeiçoei a mãe dele e aposto em sua inocência.
Sinto que Caio é inocente.
— Eu penso da mesma forma – ele estendeu o braço e Renata não pôde deixar de notar a mão firme e os pêlos que saltavam do punho da camisa.
Prazer, sou o delegado Telles.
Renata o cumprimentou.
Sentiu a mão quente e firme do delegado.
Novo tremor invadiu-lhe o corpo.
Renata sentia-se tal qual um vulcão, cujos tremores indicavam que logo entraria em erupção.
Ela recompôs-se para não mostrar o que estava sentindo naquele momento.
Afinal, era a primeira vez – pelo menos nesta encarnação – que ela se encontrava com Telles.
— Prazer. Meu nome é Renata Gonçalves.
— Encantado – ele devolveu.
Lopes percebeu o clima entre os dois e se afastou.
Ambos ficaram se olhando por algum tempo, em silêncio.
A emoção era muito forte.
O famoso “amor à primeira vista”, quando nos pega, deixa-nos desnorteados, sem acção imediata.
Foi o que aconteceu entre Renata e Telles.
— Gostaria de conversar mais, entretanto minha amiga não está bem.
Ela precisa de mim.
Telles tirou um cartão do bolso.
— Por favor, ligue-me assim que sua amiga estiver melhor.
Estou disponível vinte e quatro horas por dia, sete dias na semana.
— É sempre directo assim?
Sem rodeios? – perguntou ela, rindo.
— Quando me interesso verdadeiramente por alguém, e aconteceu somente duas vezes em minha vida, eu sou franco e directo.
Não gosto de perder tempo.
— Rapaz de atitude – salientou Renata.
— Rapaz de atitude e de outras peculiaridades que adoraria serem descobertas por você.
Renata sentiu novo tremor.
Era melhor se despedir, acalmar os sentimentos, socorrer Luísa.
Desse jeito ela ia desfalecer nos braços do delegado.
Não queria pagar mico logo de cara.
— Eu ligarei.
— Quer jantar comigo nesta semana?
— Boa ideia.
— Aguardo sua ligação.
Eles se despediram e, no caminho até o carro, Renata respirou fundo.
Depois pensaria em Telles e nos sentimentos que ele tinha lhe despertado.
Precisava ajudar sua amiga.
Ela aproximou-se de Luísa e a abraçou.
— Ele me odeia, Renata.
— Chi! Não diga nada agora.
— Será que ele não vai mais falar comigo?
— Não pensemos nisso agora.
Vamos a uma lanchonete aqui perto.
Estou com fome.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 17, 2016 8:30 pm

— Estou sem vontade de comer nada.
— Acompanhe-me.
Que tal um suco?
— Pode ser.
Renata ofereceu-lhe a mão e dirigiram-se a uma lanchonete simpática e graciosa a duas quadras dali.
*****
Telles esboçou um largo sorriso.
Essa pequena tinha lhe despertado um sentimento que há muito tempo não sentia.
Ele ainda olhou para trás e ficou observando Renata por alguns instantes.
— Que mulher linda! – disse para si.
Espero que ligue para mim.
Em seguida, ele afugentou os pensamentos com as mãos.
Subiu até o andar em que Caio se encontrava.
Doutor Lopes lhe fazia algumas perguntas e Telles aproximou-se.
— Como vai, meu jovem?
— Não tão bem como gostaria.
Acabei de ser grosso e estúpido com quem não devia.
Uma força estranha se apossou de mim.
Queria sair daqui correndo e lhe dizer que tudo não passou do calor do momento.
Contudo – Caio suspirou triste –, eu não tenho como sair.
— Eu acredito em você – disse Telles.
Preciso que me ajude a encontrar o verdadeiro assassino.
— Eu tenho quase certeza de que Guido é o responsável pela morte de Gregório.
— É sobre isso que eu queria lhe falar.
— O que tem em mente?
— Por ora, nada – tornou Telles.
Entretanto, sabe como eu poderia tentar localizar o Guido?
— Não faço a mínima ideia.
— Não se lembra dos lugares que frequentavam?
Talvez alguém se recorde dele, caso eu faça sua descrição.
— Pouco provável, delegado.
O Guido saía com mulheres da sociedade, ricas e bem-casadas.
Não creio que consiga chegar até elas.
— Você não teve um período em que se prostituiu?
Caio baixou os olhos, envergonhado.
— Sim, foi por pouco tempo, mas eu joguei os telefones fora.
Quando decidi que não queria mais essa vida, rasguei agenda, perdi todos os contactos.
— Escute de onde era esse Guido?
— Como assim?
— Veio de onde?
Caio fez pequeno esforço com a mente.
— Acho que de Vassouras.
Lembro-me de ter dito certa vez que sua família era de Vassouras, no Estado do Rio.
— Algo mais?
Um nome, uma referência?
Caio riu.
— Ele falava que Guido era seu nome de guerra, porque dava mais glamour à profissão.
— Nunca lhe falou seu verdadeiro nome? – interveio o advogado.
— Não me recordo.
Telles mordiscou os lábios
— A imprensa não se interessa mais pelo caso e a polícia também não.
Ninguém está interessado em prender o verdadeiro culpado.
Para eles você é o assassino e ponto final.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 17, 2016 8:30 pm

— Genaro Del Prate conseguiu o que queria.
Difícil você escapar – suspirou Dr. Lopes.
— Mas eu juro que não o matei. Eu juro.
Telles aproximou-se das grades e encarou Caio nos olhos.
— Você jura que é inocente?
— Do fundo de meu coração – respondeu Caio, sem desviar os olhos do delegado.
— Acredito em você.
Vou tentar descobrir o paradeiro desse rapaz.
Sei que temos quase nada em mãos, mas estamos a caminho.
— O tempo urge – advertiu o advogado.
Precisamos ser rápidos, se quisermos reverter o quadro.
— Vamos correr – declarou Telles.
O delegado despediu-se de Caio, deixando-o conversando com o advogado.
Saiu do prédio, ganhou a rua e resolveu caminhar pelos arredores.
Telles tinha a certeza de que iria encontrar Guido.
Algo dentro dele dizia que, em breve, o verdadeiro assassino de Gregório seria capturado.
Logo depois, Caio despediu-se do advogado e voltou à sua cama.
Antes de deitar, pegou o folheto com a imagem de Santa Rita de Cássia.
Beijou o papel gasto e amassado.
— Ajude-me, por favor.
Deitou-se e fechou os olhos.
Norma passou a mão sobre sua testa.
— Logo você vai sair daqui. Confie.
****
Rosalina visitou o filho no dia seguinte.
Ao ouvir o relato do encontro entre ele e Luísa, ela não hesitou:
— Você merece mesmo ficar na prisão.
— Mãe! – exclamou aturdido.
Como pode afirmar uma barbaridade dessas?
— Por que não está aproveitando o período em que se encontra aí, encarcerado?
Sua irmã me visitou e me disse que você anda invigilante nos pensamentos.
Que você botou tudo a perder quando Luísa veio lhe visitar.
— Não sei o que deu em mim.
Perdi a noção do tempo, do espaço.
Era como se alguma força estranha tomasse conta de meu corpo.
Eu me arrependo sinceramente.
Fui muito duro com Luísa.
— Ela não merece passar por tudo isso.
De que adiantou eu lhe trazer os livros para ler e entender melhor os desígnios da vida?
De que adianta nossas preces para que o verdadeiro culpado seja preso e você possa se libertar?
Para quê? Para continuar levando a mesma vida pregressa de sempre?
— Assim você me insulta.
— E você não nos ofende com sua postura mesquinha e arrogante?
Não acha que está na hora de parar para pensar em tudo o que lhe aconteceu desde que saiu de Bauru?
O que você quer dessa vida, meu filho?
Caio emocionou-se.
Passou os braços pelas grades e procurou abraçar a mãe.
— Eu não sei, estou perdido.
Sinto que amo Luísa, quero constituir família com ela.
Ao mesmo tempo – falava com voz entrecortada pelos soluços.
Às vezes, sinto que de nada vai adiantar nossos esforços.
Como vou sair daqui?
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 17, 2016 8:30 pm

— Norma me disse que tudo está para ser resolvido.
Em breve, o assassino será encontrado.
— Ela assegura isso?
— Sim.
— Entendo...
— Ainda não acredita que o espírito de sua irmã o esteja ajudando nessa fase difícil em que se encontra?
— Eu li um pouco dos livros.
Confesso que tive bastante interesse no início.
Em seguida, toda vez que desejava ler, um torpor, um cansaço me tomava por completo e eu deixava a leitura de lado.
Cochilava e, quando acordava, não tinha a mínima vontade de ler.
— Não se esqueça de que vivemos num mundo rodeado de espíritos de toda sorte, desde bons e desejosos em fazer o bem até aqueles de coração embrutecido, sedentos para que as pessoas não enxerguem além.
Você se deixou levar por essa corrente de espíritos que não quer que aprendamos sobre o mundo espiritual.
— Por quê?
— Porque quando nossa consciência se abre para os verdadeiros valores da alma, esses espíritos empedernidos e perturbados perdem a sua força.
Quanto mais caminhamos para o crescimento espiritual, menos poder eles tem de nos perturbar, influenciar, atrapalhar nossa vida.
Quem é dono de si, de seus pensamentos, dificilmente é assediado por essas entidades.
— Quer dizer que eu sou o responsável por esse assédio negativo?
— Evidente.
Somos responsáveis por tudo o que nos acontece.
Cabe a nós procurarmos nos aperfeiçoar no bem e, assim, criar um campo de protecção que nos mantenha imunes aos ataques constantes desses espíritos.
— Ando desanimado, triste.
Nem Santa Rita de Cássia tem me ajudado.
— Não meta a culpa de sua fraqueza nos ombros de uma santa.
E não se esqueça de que esses seres de luz – santos, para os católicos – simplesmente são instrumentos para que possamos nos ligar às forças espirituais superiores.
— Às vezes, creio que esse tormento não acabará.
— Confie na vida.
Norma assegurou-me que tudo vai acabar bem.
— Quero acreditar nisso.
— Há uma linda moça aqui fora esperando pelo seu amor.
Acaso, quer deixar de viver essa experiência deliciosa que a vida lhe oferta?
— Depois de tudo que falei Luísa talvez não queira mais falar comigo.
— Será?
— Ela tem todos os motivos para se afastar de mim.
— Gosta dela?
— Sim.
— Lute pelo seu amor.
— Dentro do cárcere?
— Comece por mudar o teor de seus pensamentos.
Torne-os saudáveis.
Procure encarar a vida de maneira mais positiva.
Ninguém aguenta uma pessoa pessimista ao seu lado.
É muito chato.
— Estou muito chato mesmo.
Vou recomeçar a ler os livros.
— Faça isso, meu filho.
Leia bastante, procure entender o mundo espiritual.
Esses ensinamentos vão ajudá-lo a tornar-se uma pessoa melhor no mundo.
— Obrigado por suas palavras gentis.
Você me estimula a crescer.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 17, 2016 8:31 pm

— Faço isso porque o amo.
Caio notou que Rosalina estava diferente.
Os cabelos estavam penteados à moda, seu vestido parecia ser novo e realçava a silhueta esguia que mantinha desde a juventude.
E – detalhe que ele não pôde deixar de notar – Rosalina estava usando lindo par de brincos e o rosto estava levemente maquiado.
Ela olhou séria para o filho.
— Que tanto me olha?
— Está diferente.
Mais bonita mais bem tratada.
Rosalina riu com gosto.
— Estou sim.
Mudei muito nesses meses todos.
Caio desconfiou.
— Só pode ser homem.
— Sim.
— Você está interessada em algum homem?
— É. Estou gostando de alguém.
- Foi só eu ficar longe que você abriu as asas? – perguntou num tom de brincadeira.
— Confesso que depois que perdi seu pai desacreditei no amor.
Pensei que nunca mais fosse gostar de alguém.
Mas, aqui em São Paulo, depois desses anos todos sozinha, acabei por encontrar um companheiro leal, dedicado, carinhoso.
— Está namorando?
— Hum, hum.
— Quem?
Rosalina aproximou-se das grades e baixou o tom de voz.
— Estou namorando o José, lá da pensão.
Caio não poderia receber notícia melhor.
Ele abriu um sorriso de ponta a ponta.
— José! – exclamou contente.
Eu o adoro.
— Sim. Ele também o adora.
Vê em você o filho que perdeu anos atrás.
Parece que o Zezinho hoje estaria com a sua idade.
— É, sei. Sempre vi no José o pai que nunca tive.
Afinal, eu mal me lembro de papai.
— Faz muitos anos...
— Fico muito feliz que vocês estejam juntos.
— Obrigada.
Sabia que ia aprovar nosso namoro.
— Vou torcer para virar casamento.
— Tudo no tempo certo, meu filho – ponderou Rosalina.
Tudo no tempo certo.
Mãe e filho continuaram a falar sobre suas vidas e seus amores quando ouviram uma gritaria vindo lá de baixo.
As vozes foram crescendo, crescendo e chegaram ao andar.
Dois policiais arrastavam um indivíduo, e o carcereiro estava mais à frente.
Correu, passou por Rosalina e abriu a cela ao lado da de Caio.
Rosalina e o filho olhavam para aquela cena com verdadeiro estupor.
Os policiais jogaram o homem dentro da cela.
Ele vociferou alguns palavrões.
O carcereiro fechou a portinhola, meteu o trinco e gritou.
— Mais respeito, seu charlatão.
Não vê que tem uma senhora aqui presente?
O homem nada disse.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 18, 2016 8:30 pm

O carcereiro continuou:
— Eu torcia para que você fosse preso, desgraçado.
Arruinou a vida de muita gente. Inclusive a minha.
O rapaz o olhou sem entender.
— Nunca vi sua cara antes.
— Mas sei de você.
Minha ex-esposa foi ao seu encontro e lhe pediu para me separar da minha actual mulher.
Você quase conseguiu.
Numa crise de arrependimento, minha ex-esposa confidenciou-me que o procurou para fazer feitiçaria.
E ainda por cima você se auto-denomina pai-de-santo?
Como pode querer tripudiar sobre um nome sagrado como de um zelador de tenda de Umbanda?
— Dava-me destaque.
O carcereiro riu com desdém.
— Agora quero ver, Pai Juão.
Vamos ver se seus amigos do astral inferior vão ajudá-lo.
Espero que apodreça na cadeia por ter atrapalhado a minha vida e a vida de tantas outras pessoas.
Juão afastou-se e sentou-se no canto da cela.
Seus olhos encontraram os de Caio e ele fez uma cara de maus amigos para o jovem.
Rosalina aproximou-se do filho.
— Mantenha-se firme no bem.
Ninguém pode nos machucar quando estamos ligados aos espíritos de luz.
— Pode deixar mãe.
Vou seguir seus conselhos.
— Não se esqueça, Caio – ela frisou, enquanto olhava para Juão, que envergonhado, abaixou os olhos –, o mal não tem poder sobre o bem.
O mal é ilusão. Só o bem é real.
Caio assentiu com a cabeça.
— Tem razão.
O mal nunca vence o bem.
Abraçaram-se da maneira como podiam, separados pelas grades da prisão.
Rosalina deixou um pedaço de bolo para o filho.
Despediu-se de Caio, do carcereiro e voltou para a pensão.
Caio ficou muito feliz ao saber do envolvimento amoroso entre sua mãe e José.
Gostava muito dele.
A notícia deu-lhe ânimo para pensar no sentimento de amor que nutria por Luísa.
Ele iria atrás de seu amor.
Algo dentro dele dizia que logo tudo isso acabaria e ele estaria, finalmente, livre.
Livre do passado. Livre para amar.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 18, 2016 8:30 pm

CAPÍTULO 28

Luísa terminava de tomar seu chá.
Pousou a xícara delicadamente sobre o pires e considerou.
— Estou melhor, Renata. Muito melhor.
— Percebeu como o encontro com Caio serviu para lhe mostrar o mesmo que ocorria com você?
— Sim. Depois que reflecti, percebi que naquele dia, não era Caio quem estava falando comigo.
— Havia a presença de um espírito que o atormentava sobremaneira.
— Tem ideia de quem era?
Renata deu de ombros.
— Acreditei que o espírito de Gregório estivesse lá, mas foi só uma impressão.
— Cruz credo! – Luísa fez o sinal da cruz.
Não quero mais pensar em Gregório ou em sua família.
Que mundo pequeno esse!
— São os reencontros de vidas passadas, minha amiga.
Estamos sempre nos reencontrando no mundo.
Ninguém se conhece por acaso.
— Hoje eu não tenho dúvidas quanto a isso.
Quero ir ao distrito novamente.
Preciso conversar com Caio.
— Está caidinha por ele.
— Não! – Luísa protestou.
— Claro que está!
Vocês mal se encontraram e estão assim, apaixonados.
Espero pelo dia em que poderão estar juntos sem as grades.
A terra vai tremer.
Luísa pegou uma almofada e atirou na amiga.
— O que é isso?
— Você está apaixonada.
— E você também.
Saiu duas vezes para jantar com aquele delegado bonitão e está toda melosa.
Renata abriu e fechou os olhos, em êxtase.
— Telles é o homem da minha vida.
— Em dois encontros você afirma uma coisa dessas?
Não está viajando muito no romance?
— De forma alguma – respondeu Renata, agora de forma séria, ajeitando seu corpo na poltrona.
Eu e Telles nos identificamos bastante.
Somos muito parecidos.
Ele não se assustou com o facto de eu ser uma executiva de sucesso e ganhar mais que ele.
Pelo contrário, incentivou-me a crescer ainda mais.
— Está falando sério?
— Sim.
— Será que ele não quer ser sustentado por você?
— Como?
— Olhe o golpe!
Foi à vez de Renata atirar a almofada em direcção a Luísa.
— Eu sinto que ele gosta de mim.
Telles tem respeito por tudo o que consegui até hoje.
Ele me admira por eu ser assim.
Eu preciso de um homem que me apoie.
Que me ame, e que me apoie.
— Ele parece ser um encanto de pessoa.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 18, 2016 8:30 pm

— Além de encantador, Telles é lindo! – Renata suspirou.
E aquela barba?
— Deve machucar o seu rosto.
— Imagine! Aquela barba me deixa louca, amiga.
Quando roça em meu rosto, eu perco o juízo.
Ambas riram a valer.
— Sabe que, neste segundo jantar, Telles confidenciou-me algo que me encheu de desejo?
— O que foi?
— Ele acredita que eu tenho muito potencial para crescer profissionalmente, e me estimulou a ser dona de meu próprio negócio.
Não ter mais patrão.
— Combina com você.
É esforçada, trabalha com afinco, é responsável, tem garra.
Não é qualquer um que pode ter seu próprio negócio.
É necessário muito mais que dinheiro e tino para os negócios.
— Pois é.
E o Telles falou-me de um assunto que ainda não vazou na imprensa.
Se vazar, eu perco a oportunidade que vislumbro para ser dona de meu próprio negócio.
— O que é? Conte-me.
Estou aflita.
— Você bem conhece a Cia. De Perfumes.
— Do Gregório – Luísa falou com ar de mofa.
— Sim. Com a morte dele, a empresa foi para seu ex-marido, o Genaro.
— Correcto. O único parente de Gregório era o irmão.
Nada mais justo que ele herdar a empresa.
— Aí é que está! – disse Renata, eufórica.
Genaro quer se livrar da empresa.
— Quer?
— Sim, sim.
— Por quê?
— Fiquei sabendo que ele preza muito sua imagem perante o eleitorado.
É político ardiloso, mas adorado por muita gente.
Entretanto, agora que está novamente casado e tem um filhinho, afirmou, dia desses, a um conhecido de Telles, que não quer mais a empresa.
— E por qual motivo?
— Genaro quer se livrar da empresa, pois parece que Gregório metia os pés pelas mãos e não cuidava da empresa com o cuidado e a responsabilidade de um empresário competente.
Parece-me que a Cia. De Perfumes está à beira de uma concordata.
E pode falir.
— E? Não sei aonde quer chegar.
— Tenho algumas economias – redarguiu Renata.
Telles me estimulou a ir atrás de Genaro, procurá-lo e fazer-lhe uma oferta.
Comprar a empresa por um preço baixo e trabalhar com afinco para que ela volte a crescer, conquistar novamente a credibilidade dos fornecedores e fazer da Cia. De Perfumes uma empresa rentável, com lucro e que gere mais e mais empregos.
— Boa ideia.
Você acredita que tem cacifo para isso?
— Acredito.
— Abandonaria seu emprego, a posição em que se encontra para se atirar em um projecto onde poderá correr riscos?
— Adoro correr riscos, Luísa.
Sinto que essa era a oportunidade que estava faltando em minha vida.
Vou me reunir com seu ex-marido na semana que vem.
— Ele sabe de sua amizade comigo?
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 18, 2016 8:30 pm

— Creio que não.
A única vez que me viu, de relance, foi naquele fatídico dia em que você foi brutalmente espancada.
Seu ex-marido estava em estado catatónico e, com certeza, não se lembra nem de mim, nem de Max.
E, de mais a mais, Genaro vive outra vida e está muito bem lá em Brasília.
Ele vai me abençoar, caso eu fique com a Cia. De Perfumes.
E ainda tem mais um motivo porque Genaro quer se livrar da companhia.
— Qual?
— Genaro tem horror aos homossexuais e não quer saber de nada que o ligue ao irmão.
Ele desprezava Gregório e seu comportamento.
Se ficar com a empresa, as pessoas vão sempre dizer que ele é dono da empresa daquele gay assassinado etc.
— Que horror.
— Pois é. Seu ex-marido pensa assim.
— Genaro sempre foi homofónico.
— Para ele, isso arranha sua imagem de político benquisto.
Como a maioria de seu eleitorado é homofónica, tanto quanto ele, Genaro só tem a ganhar ao desvincular-se da imagem de seu irmão, Gregório.
— Puro preconceito.
Que ideia mais disparatada.
Quem Genaro pensa que é para julgar o comportamento das pessoas?
Ele seria o último a ter direito de julgar.
Se as pessoas soubessem o crápula que é, o marido covarde que sempre foi.
— A verdade nunca chegará às pessoas, Luísa.
Entretanto, nós não devemos julgar Genaro pelas suas ideias e pelo seu comportamento, porquanto estaremos agindo como ele.
— E deixar que ele cometa outras agressões?
Permitir que xingue as pessoas e estipule o padrão correcto de comportamento na sociedade?
— Não compete a nós o que virá adiante.
Genaro, um dia, vai ter de responder pelos seus actos.
A lei de acção e reacção não tarda nem tampouco falha.
Aguardemos porque, mais dia, menos dia, Genaro terá de colher o que semeou.
— Eu estou decidida, Renata.
Assim que me graduar na faculdade farei o exame da Ordem e advogarei em prol das vítimas de agressão doméstica por seus companheiros.
Renata sorriu.
— Fantástico.
Nada melhor que você para prestar esse tipo de serviço, amiga.
— Eu senti na própria pele o que é ser agredida dentro de casa.
E tem mais.
— O quê?
— Além de agredida fui estuprada, porquanto Genaro me amava de maneira bruta, agressiva e, na maioria das vezes, sem o meu consentimento.
Muitas mulheres sofrem essas agressões e não têm como e onde recorrer.
— Podem ir à delegacia e prestar queixa.
— E de que adianta, Renata?
Não temos garantias.
Não há punição severa para o agressor.
É voltar para casa e levar mais pancada.
E a maioria dos delegados ri de nós, faz chacota, é constrangedor.
Eu senti isso quando fui fazer aquele boletim de ocorrência contra o Genaro.
O delegado me tratou com desdém, como se eu – machucada física e moralmente – fosse à culpada por ter apanhado.
— Ainda fazemos parte de uma sociedade machista.
— Mas sinto que tudo vai mudar.
— Por que diz isso?
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 18, 2016 8:31 pm

— Dia desses – tornou Luísa, após mordiscar um biscoitinho – Mafalda alertou-me de que mudanças virão em benefício das mulheres.
Que em breve vamos ter delegacias voltadas só para a mulher.
— Nem acredito!
Isso seria o máximo.
Um avanço na sociedade sem precedentes.
— E creio que isso já começou a ocorrer.
Por conta do descaso do poder judiciário e da maneira como os distritos policiais lidam com a violência doméstica e sexual contra a mulher, foi criado o SOS — Mulher.
— Não foi o SOS — Mulher que apresentou em público o caso de uma mulher que tinha sido espancada pelo seu companheiro, professor da Universidade de São Paulo, intelectual, branco e de classe média alta?
— Sim. Isso foi importante para combater a ideia de que os negros, os alcoolizados e os pobres são os únicos que maltratam as mulheres.
— Situação parecida a sua, não é, minha amiga?
— Pois sim.
Esse grupo de atendimento, formado há pouco tempo, é responsável por assistência jurídica, social e psicológica às mulheres vítimas de violência.
— Interessante.
Luísa falava de maneira animada.
— O conselho criado recentemente, ligado ao SOS — Mulher, propõe políticas públicas que visam promover o atendimento às vitimas de violência.
Dando-lhes, efectivamente, essa assistência jurídica, social e psicológica.
— Acredita que o governo vai acatar essa ideia?
— Sim. O governo vai criar, muito em breve, a primeira delegacia de polícia de defesa da mulher. Pode anotar o que estou dizendo. Isso vai se concretizar.
— Existe alguma delegacia específica para o atendimento da mulher em outra cidade?
— Não. São Paulo será a primeira cidade do Brasil e do mundo a criar uma delegacia assim, em defesa da mulher.
— Torço para que isso se concretize.
— Pois vai – afirmou Luísa. – Mafalda certificou-me de que espíritos abnegados trabalham para que membros do governo sejam receptivos à implantação desse projecto.
— Dessa forma, nós, mulheres, poderemos ter um instrumento que nos ajude a combater a violência.
— E meter medo nesses homens!
Está na hora de eles pararem de se sentirem os donos do mundo.
Nós temos o nosso valor e, garanto que assim que eu estiver formada, vou trabalhar em algum desses órgãos em defesa da mulher.
Sei que vou ajudá-las.
— Tem razão, Luísa.
Você sentiu isso na própria pela.
Tenho certeza de que será uma boa defensora.
Luísa abaixou a cabeça, tentando conter a emoção. Mudou o tom:
— E aquele delegado bonitão?
Convidou-a para mais um jantar?
— Convidou-me.
E quer que eu conheça sua mãe.
Esses encontros com possíveis futuras sogras me dão um frio na barriga.
Luísa riu.
— Vou torcer para que seja uma senhora bem velhinha, bem doente, que não possa, de maneira alguma, atrapalhar a vida de vocês.
— Vire essa boca para lá – brincou Renata. – espero que seja uma mulher tão interessante quanto o filho.
Mais nada.
****
Renata teve de adiar o almoço com a mãe de Telles.
Genaro, assim que soube de seu interesse em comprar a quase falida Cia. De Perfumes, ligou insistentemente e até ofereceu as passagens para que Renata fosse a Brasília.
Ela explicou a situação a Telles e marcaram um novo almoço, para a semana seguinte.
Genaro a recebeu de maneira polida.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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