PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 8:46 pm

— Sobre nossa vida sexual.
— O que tem ela?
— Eu não sinto prazer e...
Genaro a cortou secamente.
— E quem foi que disse que você tem de sentir prazer?
— Bom, é que eu li numa revista feminina...
— Que absurdo é esse?
— Genaro, estamos vivendo em uma época de liberação de costumes e a mulher pode e deve sentir prazer com o companheiro.
Não acho justo você deitar-se sobre mim e mal se importar se eu sinto ou não...
Luísa não terminou de falar.
Iria continuar de maneira delicada e repreender o marido pelas atitudes brutas e indelicadas.
Estava com vontade de afirmar, de maneira corajosa e sincera, que ela estava insatisfeita e que ele precisava ser mais gentil.
A conversa foi suspensa por violento soco que atingiu em cheio seu olho esquerdo.
Luísa mal teve tempo de se defender, de tão inesperado.
O soco de Genaro levou-a ao chão, sem dó nem piedade.
— Mulher minha não trata desses assuntos comigo.
Você é minha esposa, e não uma meretriz.
Comporte-se e nunca mais toque nesse assunto.
Esse fora o primeiro – dentre muitos – socos na cara.
Genaro a reprimira com veemência e nem queria mais tocar no assunto.
Para agravar a situação, o tempo passava e Luísa não engravidava.
Genaro começava a perder a paciência com ela.
Queria e precisava ter filhos.
Todo político que se preze – acreditava, – tinha de ter, mesmo que aparentemente, uma linda e bela família.
— Depois do enterro, assim que chegarmos a São Paulo quero um filho.
— Precisamos ir ao médico – falou ela num tom indiferente.
Doutor Ribeiro disse que precisamos fazer exames e...
— Cale a boca! – bramiu Genaro.
Você não quer engravidar.
Sei que toma pílula escondida.
— Quem disse isso?
Eu nunca tomei pílula.
Sempre sonhei em ter filhos.
— Sou cabra macho.
Tenho leite.
— Algum de nós deve ter problemas.
— Só se for você – contrapôs Genaro, de maneira brusca.
Vai ver é seca.
Além de chata, é seca.
Como pude arrumar uma mulher tão inútil?
Luísa não respondeu.
Não adiantava argumentar com Genaro.
A palavra dele era lei. Sempre.
O motorista encostou o carro no meio-fio.
Desceu e abriu a porta para Genaro.
Ele saiu e puxou a esposa de maneira nada delicada.
— Comporte-se – falou baixinho e entre dentes.
Sou muito conhecido em Bauru.
Quero que chore muito e finja sentir bastante a morte de minha mãe.
— Eu não preciso fingir – retrucou Luísa, com a voz já embargada.
Eu gostava muito de sua mãe e minhas lágrimas são sentidas.
Não sou como você, que mal derrubou uma lágrima até agora e parece estar feliz com o facto de ela não estar mais entre os vivos.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 8:47 pm

— E estou.
— Não acredito no que ouço, Genaro.
— Mamãe era um tanto estouvada.
Mulher boa, mas meio doidivanas.
Fico grato de não ter mais de me preocupar com ela.
Você não sabe o quanto ela me custava caro.
— Sua mãe?
Do que está falando?
— Você é mesmo uma caipira idiota.
Casei com você porque era pura e inocente.
Mas nunca poderia imaginar que fosse tão burra.
— Pode me tratar de maneira polida?
— Não me desafie, Luísa ou...
— Ou o quê?
Vai me encher de pancada aqui no meio da multidão?
Do seu eleitorado?
Isso pode manchar a sua reputação, futuro deputado Genaro.
Ele teve vontade de socá-la ali mesmo na frente de todos.
Não podia. Tinha de zelar pela sua figura de bom moço.
Mordeu os lábios com uma fúria incontida e logo sentiu o gosto amargo de sangue.
Cerrou os punhos por trás de si.
Respirou fundo e voltou à questão.
— Tem dificuldade de perceber a realidade à sua volta.
— O que isso tem a ver com Loreta?
— Mamãe era ninfomaníaca, saía com rapazotes de idade suficiente para ser seu neto e eu tive de gastar muito dinheiro para calar a boca de jornalistas e colunistas loucos para levar esse lado desconhecido de mamãe aos jornais e revistas de fofocas.
— Não acredito nisso.
Sua mãe era boa.
— Boa, porém ordinária.
Agora que morreu, fico aliviado.
Eu sou um político de respeito e, de agora em diante, não terei que temer suas declarações e seu comportamento devasso.
Logo vão esquecer dela e eu poderei continuar com meus planos de conquistar o Planalto. Você verá.
Luísa ia contestar, mas Genaro a cortou e a puxou com aspereza e violência.
— Agora vamos.
Padre Osório nos espera para fazer uma oração e realizar o sepultamento.
Luísa meneou a cabeça para os lados.
Como pudera se casar com homem tão vil?
Por que se deixara enganar pelas aparências?
Quanto mais suportaria esse marido, esse casamento fracassado desde o início e os tapas que feriam seu corpo e sua alma?
Como juntar forças para se tornar forte e se separar de Genaro?
Ela abaixou a cabeça com pesar.
Agora não era o momento de pensar nesse assunto.
Luísa espantou as ideias com as mãos e dirigiu-se para a sala em que velavam o corpo de Loreta.
As pessoas se acotovelavam mais para ver Genaro do que para ver o corpo da mãe dele.
Queriam tirar foto ao lado dele, outros, abraçavam-no como se fossem íntimos, lamentando – de maneira notoriamente fingida – a morte de Loreta.
Genaro sorria, fazendo cara de choro, contorcia o rosto numa dor jamais sentida, mas fazia muito bem seu papel.
Posou para fotos, abraçou senhoras que nunca vira na vida.
Luísa aproveitou que Genaro se deixara fascinar pelos flashes e afastou-se, parando diante do caixão.
Passou as mãos pela testa da sogra, abaixou-se e beijou Loreta no rosto.
Em seguida fez sentida prece.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 8:47 pm

Luísa não percebeu, mas assim que começou a orar, o ambiente começou a irradiar uma luz de coloração amarelada, que brotava de seu peito, espalhava-se ao redor do caixão e concentrava-se sobre a região do umbigo de Loreta.
Um espírito que trabalhava no local aproximou—se e sussurrou em seu ouvido:
— Obrigado, querida.
Não sabe o quanto sua prece é importante para que possamos desatar o cordão de prata que prende o espírito de Loreta ao corpo físico.
Infelizmente, a maioria das pessoas vem ao velório como se estivesse vindo a uma partida de futebol e esquece de orar pelo ente querido que acabou de desencarnar.
Você fez diferente.
E merece nosso agradecimento.
Você ainda vai ser muito feliz.
Luísa não escutou, mas sentiu tremendo bem-estar tão logo terminou de orar.
Uma lágrima sentida escorreu pelo canto de seu olho.
— Descanse em paz, Loreta.
— Falando com os mortos?
Luísa abriu os olhos e, por instantes, não conseguiu identificar a voz.
— Não vá me dizer que está tão sentida assim.
Ela nem era sua parente de sangue!
Você foi à agregada que se deu bem.
A voz esganiçada e malévola fez-se notar.
E, para não ter dúvida de quem falava logo Luísa sentiu o mau hálito característico que a boca dele exalava.
Só podia ser ele.
Ela não ocultou a contrariedade em ter de cumprimentá-lo.
— Meus sentimentos, Gregório.
— Obrigado, querida cunhada.
Estou muito triste,
Luísa notou o tom de deboche na voz.
Procurou manter certa cordialidade na conversa.
— Fiquei bastante chocada.
Loreta vendia saúde.
— E como vendia!
Você não sabe do que minha mãe era capaz.
— Não entendi.
— E nem precisa – respondeu Gregório, num tom para lá de irónico.
— Chegou faz tempo?
— Logo que Isilda me ligou, peguei um jactinho e vim para cá.
Desci na fazenda de um conhecido, aqui perto.
Detesto viajar de carro, você sabe disso.
— Cadé Isilda?
Ela gostava tanto de Loreta.
Gregório deu uma risadinha abafada.
— Digamos que Isilda fez uma longa viagem.
De emergência.
Creio que nunca mais a veremos.
— Estranho.
— Você deve estar triste, não?
— Nem tanto – ele sorriu.
Sabe que eu e mamãe nunca nos demos bem.
Ela era bem sovina, não me ajudava.
Mas era boa pessoa.
Agora vai descansar no céu e eu poderei botar a mão na minha parte da herança.
— É só nisso que pensa Gregório?
Na herança?
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 8:47 pm

— Luísa, sua tolinha.
Em que mais eu deveria pensar?
Na morte da bezerra? – ele deu uma gargalhada que ecoou pela sala.
Algumas pessoas espantaram-se com a risada, outras acreditaram que fosse uma catarse do filho, que Gregório estivesse em estado de choque, em decorrência da morte de sua amada mãe.
Luísa chocou-se com a ausência de sentimentos dele.
— Você e seu irmão são iguaizinhos.
Não tem sentimento.
— Iguaizinhos não.
Graças a Deus não nasci com vontade de gostar de mulher.
Ainda bem, imagine eu apaixonado por uma caipira decadente como você?
Genaro é que tem estômago.
Agora me dê licença, querida, tenho de tratar do enterro.
Luísa mal podia acreditar no que ouvira.
Gregório e Genaro eram muito parecidos na essência.
Ainda estavam muito presos nas coisas materiais, não davam a mínima para os semelhantes, não tinham respeito por nada nem por ninguém.
— Será que são felizes? – indagou para si mesma.
O espírito que terminava de desatar os últimos nós que prendiam o espírito de Loreta ao corpo físico balançou a cabeça negativamente para os lados.
— Você não faz ideia do quanto são infelizes, minha cara.
Não faz a mínima ideia...
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 06, 2016 8:47 pm

CAPÍTULO 5

Após jantarem em um restaurante sofisticado e frequentado por figurões da alta sociedade, Caio e Guido retornaram para casa.
Mal entraram no apartamento e a vontade de fazer sexo se fez notar.
Algo impressionante como esses espíritos eram capazes de influenciar e tumultuar os pensamentos dos dois rapazes.
Caio sentiu um arrepio gelado percorrer-lhe a espinha e um calor sem igual no baixo-ventre.
— Será que você não tem uma cliente para mim?
Estou muito excitado.
— Opa! – exclamou Guido, contente.
Mal chegou à cidade e quer começar na nova profissão? — perguntou, gargalhando, enquanto enrolava um pedaço de seda.
Guido preparava um cigarro de maconha.
— Eu preciso fazer sexo, Guido.
Meu corpo todo anseia por isso.
— Agora é muito tarde. Madrugada.
As mulheres que atendemos são ricas e de família.
Elas têm sobrenome de peso, são conhecidas da sociedade.
Seus maridos mal desconfiam de suas estripulias.
Eu nunca posso ligar para elas. Jamais.
Essa é uma das regras.
Elas é que sempre ligam e, de preferência, nunca à noite.
Nesta hora elas estão em casa, fingindo ser esposas amorosas e recatadas – concluiu Guido, de maneira irónica.
Ele acendeu o cigarro de maconha, tragou-o vagarosamente, prendeu a respiração por instantes, a fim de que a droga surtisse efeito e relaxasse seu corpo.
Em seguida, ofereceu-o ao companheiro.
Caio contorcia-se de prazer no sofá.
Pegou o cigarro e aspirou uma grande quantidade de fumaça.
Sentiu que sua cabeça latejava, porém seus sentidos iam-se entorpecendo.
Caio não percebia, mas os espíritos ali presentes, agora inúmeros, sugavam-lhe as energias para perpetuar em seus corpos já degradados, sensações de prazer.
— Eu tenho de fazer sexo, Guido.
Estou ficando louco.
Vamos a algum lugar, uma boate ou mesmo pegar uma mulher na rua.
— Isso eu não faço, embora esteja morrendo de tesão – Guido também era açoitado pelo bando de espíritos empedernidos e desejosos da energia que emanava das relações sexuais.
— Guido... Eu...
Caio parou de falar.
Ele infelizmente, não suportou tamanho assédio dos espíritos.
Tomado de um desejo incontido e desenfreado, atirou-se sobre Guido.
Empurraram móveis e ambos foram ao chão.
Um rasgava a roupa do outro e amaram-se de maneira violenta e insaciável.
Enquanto ambos faziam aquele sexo induzido, alguns espíritos abraçavam-se aos corpos dos jovens para sentir prazer.
Outros batiam palmas e inalavam a fumaça que saía do cigarro de maconha.
E outros enfiavam – literalmente – a boca nos copos de bebida, para dali extraírem os fluidos que os entorpeciam e lhes davam a sensação de aparente euforia que a bebida causava-lhes quando estavam encarnados.
Os dois fizeram sexo por horas e, quando seus corpos físicos já não mais aguentavam e o dia estava por nascer, caíram num sono agitado e atormentado.
Seus perispíritos desgrudaram-se de seus corpos e ficaram alguns palmos acima do corpo físico.
Balançavam e tremiam, enquanto alguns espíritos ainda tentavam sugar-lhes as energias resultantes do ato sexual.
Num canto da sala, de maneira imperceptível a esses espíritos, por conta da diferença de sintonia energética, Norma chorava copiosamente.
Havia feito prece, pedido ajuda, mas em vão.
Era impossível que seu irmão recebesse algum tipo de ajuda, por ora.
Caio estava usando de seu livre-arbítrio e ela não tinha como interceder e afastar aqueles espíritos do convívio de seu irmão.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 8:23 pm

O espírito bondoso de sua irmã sentiu-se impotente e também não podia ficar tanto tempo ali.
O ambiente estava carregado de uma energia pesada e sufocante.
Embora protegida e vibrando numa sintonia diferente daquele ambiente, Norma era atingida por uma náusea sem igual.
Também pudera.
Era necessário manter a mente ligada em bons pensamentos e muito equilíbrio.
Afinal, não era qualquer espírito de luz que podia estar ali e não se deixar influenciar pela baixa vibração que o ambiente exalava.
Norma era espírito evoluído, que reencarnara por amor a Caio e Rosalina.
Havia programado uma estada curta na Terra e, tão logo desencarnasse, faria de tudo para ajudar, orientar e inspirar bons pensamentos à sua mãe e, principalmente, ao seu irmão.
Norma só pensava em coisas boas, a fim de não se deixar impressionar pelo ambiente carregado.
Pelo chão e pelas paredes do apartamento corriam bichos astrais, na forma de larvas.
Eles percorriam o ambiente e o corpo dos rapazes.
Alimentavam-se dos fluidos deles.
Tratava-se de criações astrais de baixa vibração, que se formam em ambientes em que o sexo é promovido de maneira irresponsável.
O apartamento de Maximiliano tornara-se foco de criação dessas larvas astrais e de estada para os espíritos desencarnados e inconscientes de seu estado.
Norma orou com tanto fervor que uma forte luz brotou de seu peito e irradiou-se pelo apartamento, destruindo, por ora, as larvas astrais.
Os espíritos mais conscientes assustaram-se com a luminosidade repentina e correram dali.
Outros, mais endurecidos, fincaram pé e, mesmo sentindo seus corpos serem queimados pela luz, não se deixaram abater.
A luz promoveu uma limpeza no ambiente e logo o ar sufocante se dissipou, promovendo, inclusive, um sono mais tranquilo e reconfortante para os rapazes.
O sol já ia alto quando Caio e Guido acordaram.
Meio zonzos, cabeça pesada, os dois espreguiçaram-se.
Guido encarou Caio e sorriu.
Levantou-se, pegou as roupas estiradas e rasgadas e sentou-se no sofá.
Caio levantou-se enquanto se apoiava em alguns móveis.
Seus olhos encontraram os de Guido e ele sentiu vergonha.
— Não sei o que me deu e...
Guido procurou tranquiliza-lo.
— Chi! – ele levou o dedo para os lábios.
Não se deixe corroer pela culpa.
Ambos sentimos vontade e...
Passou. Acabou.
— Eu juro que isso nunca mais vai se repetir – contrapôs Caio, num misto de censura e reprovação.
Não sou homossexual e nunca fiz isso antes e.
— Calma! – exclamou Guido.
Ninguém aqui está pondo em xeque a sua masculinidade.
Aconteceu e ponto final.
Prometo que esse será o nosso segredo.
— Não sei onde estava com a cabeça, Guido.
Nunca fui tomado por um desejo tão incontrolável quanto este.
Eu simplesmente perdi o controle sobre mim mesmo.
Perdi o controle total de minhas emoções.
— Isso passa.
Você mal chegou à cidade e um novo mundo se descortina à sua frente.
Sabe, Caio, esse mundo de dinheiro e de possibilidades nos fascina e nos excita.
Entendo porque você ficou tão louco de desejo na noite passada.
Entretanto, tenho certeza de que logo você vai ter vasta clientela e ganhar muito dinheiro.
Se você fizer com as mulheres um décimo do que fez comigo, vai se tornar um homem rico, em pouco tempo.
Potencial você tem. E muito.
Caio baixou os olhos de maneira envergonhada.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 8:23 pm

Por fim, tornou:
— Já que aconteceu o que aconteceu entre nós – a voz de Caio era abafada –, tenho algo a lhe confessar.
— Oba, adoro confissões.
— Bom Guido, na verdade, eu quis vir a São Paulo para ser modelo.
— Modelo?
— Uma amiga em Bauru afirmou que levo jeito.
Guido o observou de maneira atenta, por instantes.
— Você leva jeito sim.
Tem um rosto bonito, bem masculino.
Eu posso ajudá-lo.
Conheço muita gente influente.
Amanhã vou levá-lo a uma boate sensacional.
Tem muito figurão da alta sociedade lá.
— Não tenho dinheiro Guido.
— Com as clientes que vou lhe arrumar, logo estará com os bolsos cheios.
E quem disse que precisa de dinheiro agora?
Nunca ouviu falar em convites?
— Claro. Sou caipira, mas não sou burro.
Guido riu.
— Eu sou bem relacionado, tenho convites para sairmos todas as noites, se você quiser.
— E para que isso vai servir para mim?
— Ora, Caio se quer ser modelo, você precisa fazer contactos, conhecer gente rica e influente, senão não deslanchará nem em São Paulo nem na China.
O relacionamento é tudo, meu caro.
No entanto... – ele hesitou.
— No entanto?
— Você se veste muito mal.
Seu cabelo está mal cortado.
Você é muito bonito, mas precisa de uns retoques aqui e acolá.
Se aspira ser modelo, precisa de certos cuidados.
A imagem é tudo.
Amanhã trataremos disso – Guido aproximou-se e encostou seu rosto bem rente ao de Caio.
- Abra a boca.
— O quê? – perguntou aturdido.
Eu já disse que não sou chegado e...
Guido gargalhou.
— Bobo. Abra a boca.
Não vou beijá-lo, quero fazer uma inspecção.
Vamos, abra a boca.
Caio abriu-a meio sem jeito.
Guido olhou para dentro, perscrutou a boca do rapaz.
— Seus dentes não estão tão ruins assim.
Mas precisamos procurar um dentista.
Boca bonita é fundamental.
— Eu não tenho dinheiro, já disse.
— Mas eu tenho.
Eu lhe empresto.
Pode contar comigo.
— Não é justo.
— Sem muitas delongas, Caio.
Você não quer ser um modelo famoso?
— Quero.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 8:24 pm

— Então precisa ter boa aparência.
Você é um cara bonito, boa pita, tem um corpo naturalmente bem torneado, mas está com a aparência desleixada.
Precisamos torná-lo um jovem atraente e sedutor.
E com cara de bem-nascido.
Isso é fundamental.
— Puxa, você está sendo muito legal comigo, Guido.
Só uma pessoa me ajudou tanto assim na vida.
E eu pensei que nunca mais fosse encontrar gente bacana assim.
— Quem é essa pessoa?
— Uma amiga de Bauru.
A mesma que disse que eu levo jeito para ser modelo.
— Como ela o ajudou?
— Deu-me dinheiro para poder vir para cá, para as despesas básicas.
Sarita é muito legal.
Guido riu.
— Sarita. De onde essa mulher tirou esse nome?
Será que em homenagem à famosa actriz espanhola, Sarita Montiel?
— Não sei.
Eu sou bronco, não tenho cultura como você.
O nome dela é Sarita mesmo.
— Você gosta dela?
— Sim, mas como amiga.
Ela é uma boa pessoa, ajudou-me bastante.
— Você é apaixonado por alguém?
— Não.
— Não deixou nenhum amor para trás?
— Sou muito jovem para isso.
— Isso pode comprometê-lo no futuro.
— Nada – afirmou Caio.
Totalmente desimpedido.
— Isso é bom.
Nunca se envolveu com algum tipo de encrenca mais pesada?
Caio hesitou por um instante.
Pensou em Loreta, na maneira como ela morrera de sua fuga e do medo de Isilda dar com a língua nos dentes.
Mas também não poderia se abrir totalmente para Guido.
Ele parecia ser um cara legal, porém mal se conheciam.
Caio ainda estava se sentindo deveras envergonhado por ter se deitado com Guido horas antes.
Seus sentimentos estavam confusos e era melhor não tocar nesse assunto. Por ora.
— Nunca me envolvi em nenhuma encrenca – considerou Caio.
Sou um rapaz do bem.
Guido aproximou-se e lhe estendeu a mão.
— Então confio. Amigos?
— Sim. Amigos.
Caio apertou a mão do companheiro e sentiu os pêlos eriçarem.
A certa distancia, Norma tentava, a custo, induzi-lo a se afastar e sair daquele apartamento.
— É inútil – confidenciou Carlota, um espírito lúcido, espécie de tutora de Norma e cuja luz procurava inundar o ambiente de boas energias.
Ela recebera o pedido de ajuda de Norma e seu espírito rumou até o apartamento.
Carlota, ao chegar, passou delicadamente o rosto na face de Norma e tornou, numa voz doce, porém firme:
— Ele precisa aprender a se defender, ser dono de seu destino.
Não podemos ficar a mercê dele e impedir que confronte a verdade.
Na vida, Norma aprendemos ou pela inteligência, ou pela dor.
— Meu irmão é bom.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 8:24 pm

— Isso não impede que ele esbarre em pessoas de má fé.
Terá de aprender a reconhecer aqueles que lhe querem bem.
— Gostaria de ajudá-lo.
Então ore bastante por ele.
Tenho certeza de que nossos amigos espirituais poderão prestar-lhe auxilio, na medida do possível.
Agora, precisamos partir.
Você já fez muito pelo ambiente.
Saiba que em breve as larvas astrais voltarão com toda a intensidade, pois a mente de Guido as projecta com a maior naturalidade.
— Meu irmão está se desvirtuando do caminho que traçou antes de reencarnar.
Ele prometeu que não iria se atirar no sexo.
Agora sua alma anseia por isso.
— Concordo – assentiu Carlota.
— Mas Caio é dono de si.
No momento em que perceber que esse não é o seu verdadeiro caminho, vai mudar.
— Pressinto que até lá ele vai se meter em encrenca.
Precisará mesmo passar por tudo isso?
— Cada um é responsável por si.
A vida nos deu a possibilidade de fazer escolhas, de decidir o melhor para nós.
Seu irmão, no momento certo, vai acordar para as verdades da vida.
Agora, precisamos partir.
O tempo urge e você está há muito tempo neste ambiente pernicioso.
As energias logo afectarão seu corpo perispiritual. Vamos.
Norma assentiu.
Mesmo a contra-gosto, pousou suas mãos nas de Carlota e os dois espíritos desvaneceram no ambiente.
Caio trocou algumas outras ideias com Guido e foi para o banheiro.
Tomou um duche reconfortante e em seguida voltou a se deitar.
Jogou-se na cama e logo adormeceu.
Estava por um lado cansado da noite que tivera e por outro, extenuado diante das novidades e do que a vida lhe ofertava dali em diante.
Deitou-se, todavia, não teve um sono tranquilo.
Nos dias que se seguiram, a vida de Caio foi de festas, bebidas, mulheres e noitadas.
Guido apresentou-lhe duas clientes e, como na época das peripécias com as meninas de Eny e Loreta, Caio amou-as de maneira ímpar.
A propaganda correu à boa pequena e logo Caio tinha uma boa carteira de clientes.
Ora ele as atendia em hotéis, ora ele as recebia no apartamento de Max, muito discretamente, a fim de não chamar a atenção dos vizinhos e, principalmente, do porteiro.
O rapaz começou a ganhar dinheiro e distanciar-se de seus verdadeiros objectivos.
Havia momentos em que sua consciência o chamava para que se afastasse desse caminho.
Norma, inutilmente, tentava chamar o irmão para que despertasse e tivesse tempo de se libertar desse mundo atraente, porém promíscuo.
Em vão.
Caio às vezes pensava em parar, prometia a si mesmo que não mais atenderia às mulheres.
Não obstante, quando recebia uma ligação, ele mal sustentava sua promessa.
Marcava o encontro e, após o serviço, sentia-se triste e vazio.
O remorso apoderava sua alma.
E, de mais a mais, o grupo de espíritos grudados em Caio, desejosos de que ele continuasse com aquele hábito, eram muitos e mais fortes que sua própria vontade.
Guido o levou a todos os lugares da moda, a todas as boates, bares, restaurantes em que poderiam esbarrar em gente importante, influente.
Caio cortou os cabelos à moda, comprou roupas chiques e, com os toques de Guido, tornou-se rapaz admirado e requisitado pelas mulheres, fossem clientes ou simples admiradoras de sua beleza.
Foi numa madrugada, ao saírem de um bar na região dos Jardins, perto do apartamento de Guido, que os dois foram abordados por um homem alto, rosto quadrado, nariz proeminente e de trejeitos efeminados.
— Estou lhe procurando há dias.
Onde se meteu? – inquiriu Gregório, de maneira severa.
— Estava mostrando a cidade ao meu novo amigo.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 8:24 pm

— Você ficou de ir à minha casa e acertarmos o valor daquele serviço.
Parece que não quer receber.
— Longe disso, eu simplesmente perdi a noção do tempo, esqueci-me.
O homem encarou Caio da cabeça aos pés.
— E você, criança, quem é?
Nunca o vi por estas bandas.
— Cheguei a São Paulo faz pouco tempo – respondeu Caio.
O Guido tornou-se meu amigo e tem me levado aos lugares da moda.
— Amigo do Guido? Só amigo?
Caio não gostou da maneira como o homem lhe falou e percebeu o tom malicioso e o mau hálito exalado por aquele indivíduo de fala afectada.
— Só amigo. Por quê?
— Por nada. Você bem que podia trabalhar para mim.
— Para o senhor? Essa é boa!
— Por que não?
— Como?
— Petulante o menino. Gostei.
Pelo menos você tem atitude – ele aproximou—se de Caio e o mau hálito invadiu as narinas do rapaz, provocando-lhe leve mal-estar.
Procure-me amanhã na fábrica.
Aqui está meu endereço – ele retirou um cartão do paletó e o entregou a Caio.
— Estou sentindo que você poderá me passar para trás – alegou Guido.
— Você não nasceu para essa profissão.
— Eu tenho porte – objectou Guido.
— Mas não tem rosto bonito, criança.
— Mas...
O homem o cortou.
— Nem mas, nem meio mas.
E, para que trabalhar?
Você vive a custa daquele rico expositor, curador, sei lá.
— Max é rico, muito rico.
— E por que quer trabalhar?
Contente-se com esse seu coroa, aliás, coroa não, mina de ouro.
Disse isso e se afastou.
Guido balançou negativamente a cabeça para os lados.
— Ele sempre me trata com desdém.
Estou cheio dele.
— Quem é esse homem?
— Não leu o cartão?
Caio fixou os olhos no cartão e sentiu as pernas falsearem por alguns instantes.
Tratava-se de um cartão comercial, e nele estava escrito:
“Gregório Del Prate – Presidente”. Ele então balbuciou:
— É que... Bom...
Guido riu.
— Sei, você ficou aturdido porque recebeu um cartão do poderoso Gregório Del Prate, presidente da famosa Cia. De Perfumes.
Não disse que precisava sair e se relacionar?
Esse homem pode lhe abrir muitas portas.
— Mas você acabou de dizer que ele lhe trata mal e que está cheio disso tudo.
— Isso não importa.
Em todo o caso, vou lhe confiar alguns de meus segredos.
Ele puxou Caio pelos braços e foram para outro bar, mais sossegado.
Guido cumprimentou o gerente e em seguida sentaram-se numa mesa afastada, a fim de que pudessem conversar sem serem ouvidos.
Guido pediu ao garção dois drinques e, assim que chegaram, eles brindaram.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 8:24 pm

Ele começou a relatar:
— Eu conheci o Gregório há dois anos.
Ele tentou me lançar como modelo de um de seus perfumes, o Neptuno.
Todavia, o perfume não descolou, meu rosto não caiu nas graças do público e eu fiquei sem trabalho.
Aí surgiu um almofadinha metido a modelo e teve mais sorte.
Sorte curta, diga-se de passagem.
Marco António fez campanha para o perfume Nero e, bem, você bem sabe que esse perfume vende como água, no mundo inteiro.
Marco António ficou famoso, apareceram outras propostas e Gregório não está podendo mais cobrir seu cachê.
Caio não emitia som.
Estava mudo, o suor escorria pela fronte.
— Você está se sentindo bem? – perguntou Guido, preocupado.
— E... Estou.
É que eu já ouvi esse nome em algum lugar – balbuciou sem saber o que, de facto, dizer ao amigo.
Guido continuou e não deu muita atenção à maneira desconfortável com que Caio ouvia a conversa.
Caio, procurando manter as aparências, questionou:
— E como se resolveu o impasse com o Marco António?
— Não precisou se resolver – respondeu Guido, sorrindo.
O idiota teve o que mereceu.
— Como assim?
— Digamos que ele sofreu um pequeno acidente e está impossibilitado de trabalhar, seja para o Gregório, seja para outra empresa ou agência de modelos.
— Sério?
— Sofreu queimaduras e não poderá voltar tão cedo ao mercado.
Se é que vai ter chance de voltar para o mercado de modelo.
— Pobre coitado – rebateu Caio, sentindo compaixão pelo rapaz acidentado.
— Eu vou receber um bom dinheiro do Gregório porque fui eu quem ajudou Marco António a se machucar.
— Não entendi...
Guido fez um gesto vago com a mão.
— Uma hora eu explico melhor.
O bom disso tudo é que a vaga dele precisa ser preenchida na Cia. De Perfumes.
Talvez Gregório queira você para ser seu novo garoto—propaganda.
— Eu não gostei dele.
— E adianta gostar ou não?
O que importa são as oportunidades que aparecem.
— Mas você não queria ser o modelo do perfume Nero?
Eu não posso tomar seu lugar.
— Você não vai tomar o meu lugar.
Eu tenho o Maximiliano, para que vou trabalhar?
Além do mais, eu não tenho esse rosto bonito que você tem.
Caio sorriu.
— Você tem sido muito bom para mim, um grande amigo.
Nunca trairia sua confiança.
— Obrigado, meu caro.
Não se esqueça de que o Max é louco por mim e, quando voltar de Londres, vai me dar um apartamento e aumentar a minha mesada.
Prefiro ter alguém que me sustente a trabalhar feito burro de carga.
— Vai ser dependente dele o resto da vida?
— Claro! – rebateu Guido.
Eu quero muito dinheiro, entende?
Muito. Muito mais que qualquer emprego possa me dar.
Eu falo em ser rico de verdade, em viver no luxo, viajar para lugares sofisticados e ficar hospedado nos hotéis mais caros do mundo.
E conseguirei isso tudo trabalhando? Nunca.
Com Max ao meu lado, terei isso e muito mais.
E, como ele é sozinho no mundo, sem parentes, eu vou herdar tudo o que ele tem.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 8:25 pm

— Como tem tanta certeza de que ele nunca vai deixá-lo?
— Oras, porque tenho.
Max é de palavra, homem de confiança.
Se ele me prometeu, vai ter de cumprir, custe o que custar.
— E se ele mudar de ideia?
Infeliz essa pergunta de Caio.
Os olhos de Guido brilharam rancorosos.
— Ele não vai mudar de ideia.
Isso eu nunca vou permitir.
Caio sentiu ligeiro mal-estar.
Era melhor sentir o mal-estar e deixar Guido soltar suas farpas.
Assim ele ganharia tempo e poderia se recompor do susto.
Como esse mundo era pequeno!
Numa cidade enorme como São Paulo ele tinha de topar justamente com o filho de Loreta?
Será que Gregório sabia do seu envolvimento com a mãe?
Não, isso não era possível.
Loreta era mulher discreta e ninguém sabia de nada, a não ser a empregada.
Isso era coincidência.
Pura coincidência, nada mais.
Gregório, mesmo que o tivesse visto em Bauru, nunca iria imaginar que fosse a mesma pessoa.
Caio agora estava mudado, outra aparência, roupas bonitas e elegantes.
Estava bem distante daquele rapaz caipira, cabelos mal ajambrados e roupas puídas.
Era melhor afastar essas besteiras da cabeça.
Gregório nunca soubera e nunca saberia do envolvimento entre ele e Loreta.
Caio tinha certeza disso.
Ou melhor, precisava acreditar nisso para não começar a delirar e entrar em desespero.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 8:25 pm

CAPÍTULO 6

Luísa remexeu-se nervosamente na cadeira do consultório.
O médico fazia anotações e, percebendo seu estado, parou e a encarou nos olhos.
Sua voz era doce e serena.
— O que a aflige Luísa?
— Genaro deveria estar aqui comigo.
O Dr. Pediu que ambos viéssemos para uma conversa séria.
Mas ele não faz outra coisa a não ser comício.
Mal o vejo.
— Eu precisaria falar com ambos, é claro.
Mas posso lhe adiantar alguma coisa.
— E então, Dr. Ribeiro?
— Temos aqui um caso de infertilidade.
— Infertilidade?
— Sim – tornou o médico.
Falo na impossibilidade de procriação.
É um problema que pode acontecer com qualquer casal e deve sempre ser considerado como de ambos, pois uma parte pode apoiar a outra e, assim, a solução será mais rápida e menos dolorosa.
— Eu sou seca, é isso?
Ribeiro sorriu.
Esse termo não é apropriado.
Na verdade, Luísa, a causa da infertilidade pode estar presente em ambos os sexos.
A investigação diagnóstica deve começar pelo homem, por tratar-se de exames menos evasivos e mais simples.
Depois, partimos para a mulher.
Mas – ele salientou – como Genaro se recusou a fazer exames, começamos por você.
— E? – perguntou ela, apreensiva.
— Você não tem nada.
Aparentemente, pode engravidar à vontade.
— Quer dizer que Genaro tem problemas?
— Sim. Seus exames me dão certeza de que você não tem problema algum para engravidar.
Logicamente, o problema está em Genaro.
— Santo Deus! – exclamou Luísa.
— Ao contrário do que alguns pensam, a infertilidade não tem nada a ver com impotência.
Isso tem de ficar bem claro para que Genaro não se sinta constrangido ou diminuído.
— Ele se diz cabra macho.
Doutor Ribeiro riu:
— Cabra macho, mas infértil.
— Pode ser genético, doutor?
— Não creio.
Posso citar como exemplos de causa da infertilidade masculina, a obstrução do sistema de condução do espermatozóide, causas hormonais e varicocele.
— Varicocele?
O que é isso?
— É o processo de dilatação das veias do testículo, semelhante àquela que ocorre nas pernas.
— Varizes?
— Isso, Luísa. Entendeu bem.
Como varizes.
Pode causar dor e infertilidade.
O tratamento, normalmente, é cirúrgico.
Pelos seus exames, tenho certeza de que o problema está com seu marido.
Por essa razão, queria reunir os dois aqui no consultório.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 8:25 pm

— Genaro não vai entender.
Ele diz que sou fria e jura que tomo pílulas.
— Quero que o traga ao consultório, qualquer dia, qualquer horário.
Sei que ele é homem de vida pública e sua agenda de compromissos está sempre lotada.
Ainda mais agora que sua candidatura foi lançada.
— É ele mal pára em casa – respondeu ela, procurando ocultar a felicidade que sentia de ver o marido raras vezes em casa.
— Deve estar muito orgulhosa de Genaro, não?
Luísa deu um sorrisinho amarelado, amuado.
Procurou ocultar seu descontentamento com o marido.
Estava triste, muito triste.
Genaro continuava a ser grosso e bruto.
Continuava a procurá-la para fazer amor e a machucava, sem dó nem piedade.
Sem contar os tapas.
Ela estava farta de tanto levar tapa na cara.
Até quando iria suportar?
Ela estava cansada, mas Genaro lançara-se candidato às eleições para deputado federal e ela precisava segurar as pontas até o fim do ano.
Estavam em abril e faltavam sete meses para a eleição.
Era muito tempo.
Luísa orava todos os dias e pedia aos céus que lhe desse forças para suportar tanta dor e humilhação.
Assim que saísse o resultado das urnas, ela pediria a separação.
Sabia que ia arrumar encrenca com sua mãe.
Mas Neuza não apanhava como ela, não sentia as dores físicas e morais que ela sentia.
Luísa despediu-se do médico, saiu do consultório e preferiu caminhar, colocar as ideias em ordem.
Deixara o carro a algumas quadras de distância.
Iria até uma confeitaria ali perto e depois pegaria o carro.
Precisava relaxar.
O médico fora claro.
Genaro era infértil, não poderia gerar ou ter filhos.
Os exames dela nada aprontavam.
Doutor Ribeiro não quis afirmar com todas as letras, porquanto daria o diagnóstico preciso diante dos exames realizados por Genaro.
Por um lado isso a entristecia, visto que ela era louca por crianças e desejava ter filhos.
Por outro, na actual situação em que seu casamento se encontrava uma gravidez não seria bem-vinda.
A criança iria nascer num lar triste, em que os pais não se amavam e as brigas estavam se tornando recorrentes e insuportáveis.
— Melhor assim – disse ela para si mesma.
Não quero saber de filhos por enquanto.
Preciso aparar as arestas do meu casamento.
— Falando sozinha, como sempre?
Luísa voltou a si e olhou para trás assustada.
Ao reconhecer a amiga, abriu largo sorriso.
— Renata! É você mesma?
— Em carne e osso!
— Quanto tempo.
As duas se abraçaram e se beijaram.
— Eu a vi saindo do consultório e quase não acreditei.
Você não mudou nada nesses anos todos.
Continua linda e muito exuberante.
Luísa corou.
— Obrigada.
Pelo que tenho passado, isso é mais que um elogio.
— Há muito tempo penso em lhe procurar.
Todavia, acabo metida no trabalho e me esqueço.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 8:25 pm

Renata olhou para a amiga e viu que Luísa não estava bem.
- Eu tenho certeza de que esse encontro não foi ao acaso.
Você está com cara de quem precisa desabafar conversar.
— Você adivinhou – suspirou Luísa.
Estou precisando de um ombro amigo.
Tem tempo para mim?
— Claro! – exclamou feliz.
Trabalhei até tarde ontem e pude sair mais cedo hoje.
Fui fazer umas compras e estava indo para casa.
— Mora por aqui?
— Aqui perto.
Na Alameda Casa Branca.
— Estamos morando na mesma cidade! – exclamou Luísa, feliz.
— Estamos.
— Você não escapa mais de mim, Renata.
As duas riram.
— Quer tomar um chá lá em casa?
— Adoraria.
— Depois eu a levo para casa.
— Não será necessário, meu carro está a algumas quadras daqui.
Vamos conversar muito!
— Está motorizada, Renata?
Ela sorriu.
— Minha vida mudou bastante, Luísa.
Desde que cheguei a São Paulo, muitas coisas aconteceram.
Coisas boas e não tão boas.
Mas aprendi bastante e aqui estou.
Venha, será um prazer recebê-la em casa.
Luísa sorriu feliz.
Gostava muito de Renata.
Ela fora uma de suas grandes amigas de colégio, lá em Campinas.
Fazia alguns anos que perderam o contacto e agora, milagrosamente, Renata aparecia, num momento em que Luísa estava precisando de boa companhia, de uma voz amiga que lhe desse suporte para sua vida tão atribulada e infeliz.
Um espírito jovem, vendo-as se afastar abraçadas e felizes, suspirou alegre.
— Pensei que esse encontro nunca fosse acontecer.
— Você não pode se exceder, Henry.
Fique atento ao controle de suas emoções.
Isso lhe custou caro no passado e aqui no astral.
Está careca de saber que qualquer descontrole pode resultar numa tremenda dor de cabeça.
Então, componha-se.
— Eu sei Carlota.
Mas eu quero nascer, ou melhor, reencarnar.
Estudei anos a fio, mudei minha postura, minha maneira de ser e tenho certeza de que Luísa não vai se importar em ser minha mãe de novo.
— Não adianta colocar a carroça na frente dos bois. Tudo tem seu tempo certo.
Precisamos conversar ainda com ela e com o pai da criança.
— Se é que ele não vai me abandonar de novo – falou Henry, num tom sentido.
— O futuro a Deus pertence.
Vocês terão nova chance.
Poderão formar uma linda família.
— Assim espero.
Aprendi tanto sobre o amor, sobre o perdão, fiz tanto curso, e, olhando para minhas vidas passadas, aprendi que a paixão causa grande estrago em nossa alma.
Às vezes, precisamos de muitas vidas para nos livrarmos ou mesmo nos curarmos.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 8:25 pm

— Você tem razão – ponderou Carlota.
É grande o número de pessoas insatisfeitas afectivamente.
— Por quê? – indagou Henry.
Mesmo tendo feito muitos cursos e mudado algumas crenças em relação à afectividade, é bom ouvir seus comentários.
São sempre inteligentes.
Carlota sorriu:
— Obrigada, meu querido – e continuou: — as respostas das pessoas geralmente são semelhantes.
Muitas vão responder que tem medo de se envolver, que a relação íntima sempre termina em dor, que para se ter alguém é preciso ceder, abrir mão de ser você mesmo para satisfazer o outro, etc.
Carlota pousou a mão no ombro do espírito afoito e prosseguiu:
— O amor, Henry, é assunto delicado, porquanto a afectividade é feita de emoções, vibrações provocadas pela mente.
Muitos condicionamentos nos trazem dor e sofrimento devido a uma maneira errada de enxergar a vida.
Se aprendermos a olhar certo, a dor se vai e sentimos bem-estar.
— Concordo com você, Carlota.
Cada um é responsável por sua vida afectiva e mudar a mente é mudar nossas reacções afectivas.
Tal evolução é trabalho de cada um.
— A paixão faz parte de um conjunto de crenças que produzem emoções sacrificiosas e doloridas.
— É só ver o que aconteceu ao meu pai, em sua última vida.
Por conta da paixão, arruinou a minha vida e a da minha mãe.
— Pois é. Gostar de alguém é sempre bom, é saudável, é comunicação de alma para alma.
A vida nos ensina que não temos necessidade dos outros, e sim da gente, mostrando que a fonte de segurança é o nosso espírito.
Fortalecendo essa ligação, não dependemos de ninguém.
E, não dependendo de ninguém, nossa busca vai se tornar mais acertada, menos dependente.
Poderemos ser nós mesmos e amar de verdade.
— Torço para que Luísa compreenda isso e pare logo de sofrer.
— Antes de se envolver com alguém, é necessário, em primeiro lugar, estar bem consigo mesmo.
Assumir os próprios valores é passo decisivo para uma vida afectiva sadia e feliz.
Luísa tem tudo para ser feliz.
Cabe a ela tomar posse de si e abrir-se para o verdadeiro amor.
— Sabemos que não será fácil, mas eles têm tudo para se ajustar.
— Estamos por perto.
E Renata é uma das nossas.
Sua aproximação vai fazer muito bem à Luísa.
— Assim espero Carlota.
****
Caio arrumou-se com aprumo.
Depois de uma semana pensando em que atitude tomar, resolveu ir ao encontro de Gregório.
Tinha certeza de que o empresário nunca soubera nem saberia de seu envolvimento com Loreta.
Isso era coisa do passado, agora ele estava chegando aonde queria:
a um passo de ser famoso.
Guido chegou com algumas correspondências nas mãos.
Separou as que pertenciam a Maximiliano e as depositou numa caixa específica para isso.
Max ligava de Londres a cada quinze dias.
Guido pegava a caixa, passava para Max o teor dos envelopes e assim cuidava da correspondência, pagava as contas e mantinha a casa em ordem.
Todo fim de mês, Max lhe enviava uma boa quantia para as despesas da casa e dos empregados, bem como uma mesada para Guido.
Ele aproximou-se de Caio, sorriso largo.
— Tem correspondência para você.
Caio sorriu feliz.
— Nesses meses morando aqui com você, tomei a liberdade de dar o endereço para minha mãe.
Deve ser carta dela.
Caio apanhou os envelopes e um deles era de sua mãe.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 8:26 pm

Ele abriu-o rasgando a lateral com os dentes.
Na carta Rosalina dizia estar bem.
Havia terminado o supletivo relativo ao ginásio. Sabia ler e escrever com desenvoltura.
Quanto às novidades, informava que Eny finalmente conseguira vender a casa em que funcionava o bordel e que, por conseguinte, ela, Rosalina, perdera o emprego de faxineira.
Entretanto, conseguira o emprego de bedel na mesma escola em que cursava o supletivo à noite.
O salário não era tão alto, mas dava para pagar as despesas e fazer pequena poupança.
Rosalina dizia que ainda sonhava em mudar para uma casa de tijolos.
No mais, finalizava a carta abençoando o filho e terminava por dizer que estava frequentando um Centro Espírita, porquanto agora ela tinha condições de ler os livros da doutrina e tantos outros que tratavam de assuntos ligados à espiritualidade.
Caio fez um esgar de incredulidade.
— Algum problema? – perguntou Guido.
— Mamãe está bem.
— Então não tem com o que se preocupar.
Por que está com essa cara?
— Ela está frequentando um Centro Espírita.
— Mesmo?
— Não gosto de ver minha mãe metida nesses assuntos.
— Por que não?
— É coisa de gente ignorante.
Guido meneou a cabeça para os lados.
— Você está sendo preconceituoso, isso sim.
— Eu?!
— Claro. Espiritismo não é sinal de ignorância, muito pelo contrário.
— Não gosto do assunto.
— Eu sou espírita.
Caio arregalou os olhos.
— Você, Guido?!
— Sou.
— Mas nunca me contou nada!
— Porque não sabia qual a sua parada, entende?
— Você acredita mesmo na existência dos espíritos?
— E como! – exclamou Guido.
Eles são grandes aliados da gente.
— Aliados?
— Sem dúvida.
É só pedir e eles fazem tudo o que a gente quer.
— Como assim? – indagou Caio, sem entender.
— Na verdade eu não sou assim um espírita convencional.
Eu frequento um lugar na cidade.
— Um lugar?
— É. Uma espécie de terreiro.
Lá você pede o que quiser e os espíritos fazem.
Caio gargalhou.
— Isso é patético.
Então eu vou, peço e eles fazem?
— Hum, hum.
— Assim, sem mais nem menos?
— É sim. De vez em quando eu levo uma bebida ou dou um dinheiro para eles comprarem material para o trabalho.
Até hoje eu me dei muito bem.
— E para que eu precisaria de ajuda?
— Acha que me aproximei do Maximiliano como?
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 8:26 pm

— Como?
— Com a ajuda dos espíritos, oras.
— Está de brincadeira...
— E pensa que o Marco António se queimou por quê?
— Não vá me dizer...
Guido o interrompeu, freneticamente.
— Sem dúvida foi obra dos espíritos.
Eles afastaram o marco António para eu ganhar o dinheiro que Gregório havia me prometido.
— Conversa fiada.
— Não é, não.
— Coincidências, mais nada.
— Os espíritos têm actuado sobre o Maximiliano.
Quando voltar de Londres, eles me garantiram que o Max vai me dar um apartamento e gorda mesada.
— Por que tem tanta certeza disso?
— Porque os espíritos me asseguraram que ele está no papo.
Vai fazer tudo o que eu quero.
Os espíritos enfeitiçaram-no.
Caio riu novamente. Bem alto.
Caminhou em direcção à sala.
Estava atrasado para o encontro com Gregório.
— Você e suas histórias fantasiosas.
Feitiço é coisa de filme, como aquele do Elvis Presley, Feitiço Havaiano.
— Pode rir e debochar, mas é a mais pura verdade.
Eu fiz um trabalho para amarrar o Maximiliano na minha vida.
Ele não escapa de mim. Eu juro.
— Se você acredita, sorte sua.
Caio afastou-se, guardou a carta da mãe numa cómoda.
Pegou o outro envelope.
Olhou o verso e não havia remetente.
— Muito estranho – disse em voz alta –, uma carta sem remetente.
Ele abriu e, conforme lia, seu rosto foi se tornando pálido.
Guido aproximou-se do amigo, mas não conseguiu ler o conteúdo da carta.
Era um papel sulfite branco e as palavras eram recortadas de revistas e jornais.
Estavam coladas, lado a lado, e formavam a seguinte frase:
“Você matou Loreta.
Eu sei.
Estou de olho em você.”
— O que foi cara? – perguntou Guido, com ar interrogativo e estupefacto no semblante.
Você está com uma aparência cadavérica.
— Não sei... Quer dizer... Eu... Eu...
Caio não respondeu.
Seu corpo pendeu para frente e ele apoiou-se no ombro de Guido para não cair.
O ar parecia lhe faltar.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 8:26 pm

CAPÍTULO 7

Loreta tinha despertado havia algum tempo no mundo espiritual.
Fazia meses que havia desencarnado e estava em fase de tratamento, num posto de atendimento perto da crosta terrestre.
Sentia-se fraca e infeliz.
— A fraqueza é natural – comentou a enfermeira, – visto que seu corpo físico foi sugado de suas energias vitais.
Você atirou-se de maneira desenfreada ao sexo e larvas astrais formaram-se e grudaram-se ao redor de sua aura.
Precisará de bom tempo para se recuperar e se livrar delas.
— Mal consigo me levantar – ela balbuciou.
— Assim será por mais algum tempo, Loreta.
Até que seu perispirito possa se reequilibrar por completo e aí sim, você poderá ter alta, sair desse posto de atendimento.
— São meses aqui dentro. Estou cansada.
— Tenha paciência.
Logo estará apta para sair e nos deixar.
Uma lágrima escorreu pelo canto do olho de Loreta
— Estou muito triste.
— Por quê?
— Porque fracassei.
Como esposa, como mãe, como mulher.
Reencarnei decidida a frear meus impulsos sexuais, a ser menos atirada em matéria de sexo e não consegui me conter. Falhei.
A enfermeira ia responder, mas a porta se abriu e Carlota entrou no quarto.
— O que se passa nessa cabecinha triste?
— Não sei Carlota.
Um sentimento de impotência, de não ter feito nada certo nessa vida.
Na verdade, sinto como se houvesse desperdiçado uma encarnação inteira.
Carlota fez sinal e a enfermeira se retirou.
Ela caminhou até a janela, abriu as cortinas, a luz do sol invadiu o quarto, dando novo colorido ao ambiente.
Carlota sorriu e aproximou-se de Loreta.
— Creio que está na hora de você fazer terapia.
— Terapia?
— Sim. Seu perispírito está se recompondo aos poucos, não obstante, você não ajuda.
A mente é ferramenta poderosa para o bem-estar de nosso corpo, seja ele físico ou espiritual.
Você está fazendo com que o processo se prolongue, arraste-se por tempo indeterminado.
— E o que fazer? Estou perdida.
Sinto-me triste porque não fiz nada certo.
— Quem lhe disse isso?
— Minha consciência me acusa.
É como se algo dentro de mim estivesse com raiva, acusando-me de que não fiz o meu melhor.
— Você fez o melhor que pôde.
Tudo bem, não conseguiu cumprir com os anseios de sua alma.
Exigiu muito de si mesma e acabou por não cumprir seus objectivos.
Mas isso é natural, Loreta.
— Natural?
— Sim. A maioria dos encarnados volta com essa mesma sensação.
Quando percebem que podiam ter feito diferente, quando constatam que a vida contínua, que nada muda a não ser a dimensão que nos separa do mundo físico, muitos perdem a cabeça, querem se matar até.
E isso é impossível, porquanto o corpo físico pode ser morto, mas o espírito, jamais.
E a consciência os acusa.
Isso, na verdade, é bem típico dos críticos.
Você é muito crítica consigo mesma?
— Sempre fui exigente, crítica nunca.
Carlota sorriu.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 07, 2016 8:26 pm

— É a mesma coisa.
Você sempre exigiu muito de si.
Isso torna nossa passagem na Terra muito pesada, visto que, pelo facto de reencarnarmos esquecidos das vidas passadas, às vezes não entendemos porque temos de passar por situações tão dolorosas.
Claro que essa escolha é nobre e nós, aqui do astral, vibramos muito e procuramos ajudar quem toma essa resolução.
Todavia, são poucos os que conseguem não se deixar levar pelas ilusões do mundo terreno.
— Eu me deixei levar.
Sinto que não evoluí.
— Você deu vida a Genaro e Gregório.
Isso conta bastante.
Você procurou ser mãe amorosa, deu-lhes amor, carinho, educação, cumpriu seu papel de mãe com louvor.
— E veja no que eles se transformaram!
Um não dá a mínima pelo semelhante e o outro é corrupto e engana as pessoas, além de tratar mal sua esposa.
— Você enxerga por um ângulo, eu enxergo por outro.
Você fez o que uma mãe zelosa e amorosa deveria fazer.
O que eles se tornaram, quando adultos, é de responsabilidade deles.
A educação que você lhes deu amenizou bastante a maneira rude e cruel com que eles tratavam o próximo.
— Amenizou! – exclamou Loreta, incrédula.
Eles desprezam o ser humano.
Carlota sorriu novamente.
— Você ainda não tem condições de ver o que os dois fizeram em outras vidas.
O que fazem hoje é nada, comparado aos actos cruéis do passado.
E por quê? Porque você os recebeu como filhos e, de alguma maneira, seu amor os tornou menos agressivos.
— Não vejo diferença.
— Um dia você verá.
E assim poderá se livrar do sofrimento que criou para si mesma.
A terapia vai ajudá-la Loreta, sem dúvida.
Entretanto, só você vai poder sair desse estado de desânimo. Só você.
Loreta deu livre curso às lágrimas.
A sensação de impotência e inutilidade apossava-lhe a alma e ela não tinha forças, por ora, para se livrar dessas forças destrutivas que permeavam seu espírito.
Fazia parte de seu aprendizado, de seu crescimento.
Logo, Loreta teria plenas condições de se livrar desse estado de tristeza e tratar de sua evolução.
Essa tarefa cabia somente a ela. E a mais ninguém.
****
A conversa de Renata e Luísa fluiu agradável.
Mataram as saudades, colocaram o papo em dia.
Falaram do passado, dos problemas que ambas enfrentaram da falta de dinheiro, das adversidades da vida.
Renata concluiu, após saborear delicioso chá de maça:
— Confesso que, olhando para trás, sinto-me vitoriosa.
Quando papai morreu e perdemos tudo, eu arregacei as mangas e fui à procura de trabalho.
Fui contratada pela fábrica de bebidas lá de Campinas.
Depois me esforcei, estudei à noite, fiz uns bicos em alguns bares e assim me graduei em administração e vim para São Paulo.
Luísa emendou:
- Hoje, passados alguns anos, você se encontra numa posição confortável, graças ao seu próprio esforço.
Renata sorriu.
Pousou sua xícara no pires, sobre a mesinha, e assentiu:
— Sim. Devo muito a mim mesma.
Entretanto, devo muito ao plano espiritual.
Luísa abriu e fechou os olhos algumas vezes.
— Como disse?
— Se não fossem os amigos espirituais, eu não teria conseguido.
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Ave sem Ninho

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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 08, 2016 8:22 pm

— Explique melhor.
— Um dia eu estava sentada na cama, não conseguia dormir.
Conciliar o sono estava impossível.
O calor naquela noite estava insuportável e eu resolvi me sentar, no escuro mesmo.
Passei a pensar na minha vida, nas perdas que tivera.
Primeiro eu perdera papai.
Mamãe, triste e amargurada, entrou em desespero, num desgosto muito grande e morreu alguns anos depois.
— Eu me lembro dessa fase.
Renata prosseguiu:
— Meu tio Plínio nos tirou tudo e eu e meus irmãos ficamos jogados, literalmente, na sarjeta.
De repente, comecei a chorar.
Eu estava para ser demitida.
A fábrica de cerveja estava com dificuldades e eu sabia que possivelmente poderia ser cortada do quadro de funcionários.
Luísa interessou-se.
Pegou um biscoitinho, mordeu-o na ponta e encarou a amiga.
— Estou interessadíssima.
Por favor, amiga, continue.
— Eu já havia passado por tanta dificuldade que naquela noite rezei com força.
Lembrei-me dos tempos de colégio e orei, orei bastante, pedindo ajuda a Deus.
Então dormi.
— E?
— Sonhei que estava caminhando por uma rua comprida, embora florida e bem calçada.
De repente, encontrei meu pai.
Eu o abracei tão feliz tão saudosa.
Ele retribuiu o abraço e assim continuamos a caminhar, de braços dados.
Eu podia sentir seu perfume, o calor de sua pele.
Era algo inacreditável.
Papai me disse muitas coisas.
Que mamãe ainda estava em recuperação e que eu deveria continuar firme em meus propósitos, que não deveria esmorecer.
Renata parou por um instante.
A lembrança do pai sempre a enchia de saudade e ela não conseguia deixar de marejar os olhos.
Luísa apertou-lhe a mão com carinho, encorajando a amiga a continuar seu relato.
Renata pigarreou, tossiu e, por fim, continuou.
— Papai me disse que tudo o que acontecera era porque ele havia praticado muitos actos escusos no passado e havia prejudicado meu tio Plínio.
Não obstante, meu tio poderia agir de outra maneira para resolverem à pendência do passado, sem criar laços de discórdia e tristeza.
Papai assegurou-me que estava bem, que havia aprendido a lição e que, não por acaso, eu havia atraído essas adversidades por conta de meu crescimento espiritual.
Pediu-me que eu fosse ao Centro Espírita perto de onde eu morava, porque lá eu iria receber ajuda dos espíritos e, em breve, se eu persistisse minha vida iria mudar para melhor, para muito melhor.
— E o que você fez?
Se era um sonho...
— Pois bem.
Eu acordei com a última frase de papai e vi a imagem do Centro Espírita.
Naquele mesmo dia fui até lá.
— E isso a ajudou?
— Muito!
— Como sabe que o sonho tinha a ver com a realidade?
Afinal, às vezes somos nós que criamos nossos sonhos.
Acho que li isso em uma revista, lá no consultório do Dr. Ribeiro.
— Sei disso, mas você não vai acreditar Luísa!
Assim que cheguei ao Centro Espírita fui encaminhada para atendimento.
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Ave sem Ninho

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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 08, 2016 8:22 pm

— Como assim?
Como funciona isso?
— Quando chegamos ao Centro Espírita, na recepção, sempre há alguém simpático para nos atender.
Afinal, quase ninguém vai a um Centro Espírita por amor.
São sempre os casos mais tristes, as curas impossíveis, a dor de perda de entes queridos.
Depois que passamos por médicos, exames e igrejas desesperamo-nos e encontramos alento num Centro Espírita.
Por tudo isso, o trabalho de quem está na recepção é de extrema importância.
— A ideia que sempre tive desses lugares é de que não são confiáveis, cheio de aproveitadores.
Porque as pessoas chegam lá em desespero, tristes, e indivíduos inescrupulosos podem nos iludir e arrancar nosso dinheiro.
Renata sorriu.
— Quando se trata da dor humana, sempre haverá os charlatões de plantão.
Entretanto, um Centro Espírita nunca cobra por nada.
O atendimento é gratuito, sempre.
— Gratuito?
— Sim. Ocorre que o Centro funciona num determinado espaço, seja um galpão ou um sobrado.
Há o aluguer do espaço, o pagamento de impostos, o consumo de luz eléctrica, de papel higiénico dos banheiros, de água e de copinhos para tomar água e outras tantas despesas.
Se o atendimento é de graça, lógico que o Centro Espírita vive de doações, de ajuda dos que lá frequentam.
Por tudo isso há almoços beneficientes, bingos, rifas etc.
Tudo para ajudar no pagamento das contas.
— Nunca havia pensado nisso, Renata.
— Pois agora pode mudar seus conceitos.
— Sem dúvida – Luísa falou curiosa.
Mas como foi o atendimento nesse Centro?
Parece que você gostou muito de lá.
— Você não tem ideia de como fui bem atendida.
Assim que informei sobre minha ida, a atendente me encaminhou para uma salinha e deu-me uma senha para que eu passasse em consulta com um médium da casa, a fim de saber qual o tratamento espiritual mais adequado para mim naquele momento, se devia ser um tratamento emocional ou mental.
Tão logo o meu número foi chamado e me sentei, fiquei admirada com as palavras da senhora que me atendeu:
“— Seu pai está ansioso aqui do meu lado.
Achava que você não fosse acreditar no sonho e não viesse.
Veio aqui para dizer que o que você sonhou na noite passada nada mais foi do que um encontro entre ambos.
Seu pai está bem, diz que sua mãe está em recuperação e que seu tio Plínio não merece receber sua vibração de ódio.
Ele não tem culpa do que fez.
Vai responder pelos seus actos, é claro, porque a vida é regida por leis, e uma delas é a da acção e reacção.
Seu tio precisa que você vibre luz para ele.
Assim, não vai se ligar nele nem tampouco em outros problemas que não lhe dizem respeito”.
Renata não conteve as lágrimas.
Luísa a abraçou com carinho.
— Meu Deus! Você ouviu da atendente o mesmo que seu pai lhe disse!
— Sim. E ela ainda descreveu meu pai.
Seus olhos, os cabelos, o sorriso, os óculos que ele usava...
Até a roupa que ela me descreveu eu conhecia.
Foi o terno com o qual nós o enterramos.
— Isso é de espantar qualquer um – asseverou Luísa, levando a mão à boca.
— E foi então que passei a acreditar na continuidade da vida.
Não tinha mais dúvidas a respeito.
Fui tão bem atendida e acolhida!
Fiz tratamento de passes e, em quatro semanas, os passes actuaram sobre minha mente; eu me tornei outra pessoa, muito mais alegre, mais dona de mim, mais segura.
— O que me diz é formidável!
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 08, 2016 8:23 pm

— Passei a frequentar o Centro Espírita, fiz cursos, participei das actividades sociais e das palestras.
Logo em seguida arrumei emprego numa fábrica aqui em São Paulo e tudo começou a ficar mais colorido para mim.
Renata riu.
Li muitos livros e hoje sou uma pessoa melhor, comigo e com os outros.
— E seus irmãos?
— Não querem saber de melhorar.
Ficam na cola de meu tio, recebem migalhas dele e estão lá, numa vidinha apertada, cheios de ódio no coração.
Não é o que escolhi para mim.
— Mas você não lhes contou sobre o sonho?
Ou sobre o Centro Espírita?
— Claro que contei, mas eles não acreditaram.
Riram de mim. Disseram que eu estava me transformando numa doida varrida, que minha vida ia afundar em breve.
Que eu estava para me tornar uma mulher ignorante e presa nessas bobagens espirituais – Renata deu de ombros, e prosseguiu:
— continuei meus estudos, graduei-me em administração e hoje sou gerente de uma confecção em expansão.
Apresentei ao meu chefe algumas ideias de modelos de biquínis para a próxima estação.
Se forem acatadas, tenho chances de ser promovida.
E ganhar mais.
— A próxima estação não está muito distante?
— Penso lá na frente, Luísa – ela fez um gesto engraçado com as mãos –, lá na frente.
— Você sempre foi diferente.
Atirada, moderna, sempre adorou o novo.
Está na profissão certa.
— Queria mesmo ser dona de meu próprio negócio.
Mas tudo vem no tempo certo.
Talvez a vida esteja me preparando para maiores responsabilidades.
Sinto isso.
— Quanto aos seus irmãos, creio que não há nada que você possa fazer.
— Eu não posso mudar a opinião deles, a vida deles.
Tentei ajudá-los, inclusive com dinheiro, para custear uma faculdade, para que os dois tivessem uma profissão e pudessem crescer por si mesmos.
Mas eles brigaram comigo, disseram que eu queria comprá-los.
E, ainda, que eu tencionava fazer isso para tê-los em minhas mãos.
Pura ilusão. É que eles são assim e acreditam que, por serem manipuladores, todas as outras pessoas também o são.
Cada um é responsável por si.
— Concordo... Quer dizer...
Em termos – Luísa hesitou.
— Como assim?
— Somos responsáveis em termos.
— Por que diz isso?
— Ora, Renata, acha que eu gostaria de estar até hoje ao lado de Genaro?
Eu quero ser feliz e veja o que a vida me fez...
Sou vítima de um destino cruel.
Será que o Espiritismo pode me ajudar?
Será que eu fui muito má e estou agora tendo de arcar com isso?
Renata riu.
— Você está lendo muita revista de consultório.
— Mas o Espiritismo não diz que o sofrimento é causa de erros do passado?
— Não. Cada um interpreta as obras de Allan Kardec de acordo com seu grau de evolução, de acordo com suas experiências de vida.
Eu diria que o sofrimento é falta de inteligência.
A gente sofre porque não faz o melhor de si.
Ficamos presos às ilusões do mundo, distanciamo-nos de nossa essência, de nossos verdadeiros valores e, quando nos damos conta, estamos metidos em situações que nos trazem dor e sofrimento.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 08, 2016 8:23 pm

— Eu não gostaria de sofrer.
— Vivemos num mundo em que o sofrimento faz parte de nosso destino.
Se não sofremos nas situações desagradáveis, sofremos pela perda de um ente querido, pela perda de um grande amigo.
A dor, nesse estágio de evolução da Terra, serve para amadurecer nosso espírito, livrar-nos das amarras da ilusão de que tudo é feito segundo ordem das forças superiores que regem o Universo.
— E não é?
— Ora, Luísa, se essas forças ou Deus fizessem tudo, onde estaria o nosso mérito?
De que adiantaria viver, sofrer, chorar, rir, se temos alguém – Renata apontou para cima – que faz tudo a toda hora?
E, de mais a mais, se esse Deus determina tudo, por que então deixaria que vivêssemos entre guerras, discórdias, crianças mortas prematuramente e outros desatinos?
— Não sei.
Talvez a minha concepção de Deus seja muito humana.
Nunca me aprofundei nas verdades da vida.
— Então não crê que seja a hora de mudar?
— De mudar?
— Sim. De mudar, de deixar que essa impotência tome conta de você.
Está na hora, Luísa, de abandonar a vítima que paira sobre si mesma e tornar-se adulta de verdade.
Você mais parece uma criança triste e indefesa, como se todos os que a cercam fossem maiores e bem mais fortes que você.
Luísa não conseguiu conter o pranto.
Abraçou a amiga com força.
— Oh, Renata, você não sabe como anda a minha vida.
Estou tão triste, tão perdida.
Ajude-me, por favor, ajude-me...
Renata deu forte abraço na amiga.
Deixou que ela desse livre curso às lágrimas.
Quando Luísa acalmou-se, ela lhe serviu nova xícara de chá.
— Quer um lenço?
— Hum, hum.
Renata pegou uma caixinha sobre a mesa e o entregou a Luísa.
Ela apanhou alguns lenços de papel e assoou o nariz.
Recompôs-se e bebericou sua xícara de chá.
— Sou-lhe muito grata.
Não sei explicar, mas sinto que você apareceu na minha vida na hora certa.
Renata deu uma piscadinha.
— Tenho certeza de que os espíritos estão nos ajudando.
— Acha?
— Tenho certeza.
Minha intuição não falha.
— Não sei, preciso entender melhor tudo isso.
Você pode me ajudar?
Renata retribuiu com inquietante pergunta:
— Você está pronta para mudar?
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 08, 2016 8:23 pm

CAPÍTULO 8

“Você matou Loreta. Eu sei.
Estou de olho em você.”
A frase ecoava a todo instante na mente de Caio.
Martelava sua cabeça, como se alguém o estivesse acusando a todo e qualquer momento.
Fazia meses que ele havia recebido aquela carta misteriosa.
Quem havia feito isso?
Quem? Além da frase acusadora, a pergunta também fervilhava sua mente.
Caio revirou-se na cama.
Estava sem sono, triste, cansado.
Fazia alguns meses que chegara a São Paulo e não conseguira nada.
Digamos que não conseguira nada em relação à sua sonhada carreira de modelo.
O rapaz entregou-se ao sexo fácil e acomodou-se nessa vida libertina.
Tinha suas clientes, ganhava bem.
Todavia, seu corpo apresentava sinais de desequilíbrio e cansaço.
Havia uma voz que pedia para ele parar com essa vida.
Caio achava seu sua consciência, não percebia que Norma estivesse sempre ao seu lado, procurando inspirar-lhe bons pensamentos.
Ele não acreditava em vida após a morte, era homem de pouca ou quase nenhuma fé.
Ela tentava, sempre que possível, aproximar-se do irmão e soprar-lhe ideias positivas, a fim de que ele saísse desse circulo pernicioso e desgastante que tornara sua vida.
Se ele continuasse assim, logo seu corpo físico apresentaria sinais claros de esgotamento vital e uma doença poderia facilmente instalar-se em seu corpo debilitado.
Norma acreditava que o irmão pudesse mudar.
Afinal, ela tivera acesso a algumas vidas passadas de Caio e pôde verificar que ele fora batalhador e firme em seus propósitos.
O que o atrapalhava sobremaneira eram os impulsos sexuais desenfreados.
Isso sim, era motivo de alarde, porquanto a paixão desenfreada e o sexo fácil haviam lhe causado grande estrago em outras vidas.
Por conta do sexo sem responsabilidade, Caio terminara sua última encarnação de maneira deplorável.
Já fora hóspede do Vale do Sexo, local de permanência, no astral, de espíritos desencarnados em virtude do abuso desmedido de seus corpos em função de práticas sexuais desprovidas de qualquer sentimento nobre.
Por interferência das orações do espírito bondoso de sua irmã, Caio, às vezes, enchia-se de coragem para mudar e retomar o rumo de seus sonhos.
Inicialmente, o jovem pensou em arrumar um emprego simples, mas Guido o demoveu da ideia.
Queria a todo o custo que o amigo trabalhasse com ele.
Guido chegara a São Paulo havia alguns anos.
Sempre fora ambicioso e prometera a si mesmo que iria ganhar a cidade, ser rico e famoso.
A qualquer custo. Rosto jovem, porém comum, percebeu ser atraente de certo modo, e passou a seduzir mulheres e homens.
As chances de emprego não eram boas, visto que Guido não tinha formação, havia concluído a quarta série do primário, somente.
Sabia ler e fazer adição e subtracção. Divisão era algo que o atrapalhava.
Vendo que o dinheiro estava por acabar, e percebendo os olhares de cobiça sobre si, resolveu tirar proveito do corpo.
Foi assim que ele atirou-se no mundo da prostituição.
Seu primeiro alvo foi às mulheres.
Guido descobriu que havia um ponto próximo ao parque do Trianon, na região da Paulista, onde mulheres endinheiradas circundavam com seus carrões à procura de sexo com rapazes.
Esses meninos eram chamados de call boys, garotos cuja clientela era formada única e exclusivamente por mulheres.
A concorrência era pesada e logo Guido percebeu que os homens pagavam mais e exigiam menos.
O sexo era mais rápido e o facturamento também.
Havia um código entre os call boys de só saírem com mulheres.
Guido quebrou esse código e foi escorraçado das imediações do parque.
Apanhou bastante e acabou nas mãos de rico empresário, que o ajudou, deu-lhe um teto, dinheiro.
Óbvio que tudo isso em troca de sexo, com exclusividade, quer dizer, nem tanta exclusividade assim.
A infidelidade ao parceiro lhe custou à perda do teto e do homem que o sustentava.
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Re: PARA SEMPRE COMIGO - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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