ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 12, 2016 11:37 am

Peço-lhe por estas que sofrem, por Joana em particular.
Permita, Senhor da Glória, que os teus anjos nos socorram, mas que, acima de tudo, se faça a tua, e não a nossa vontade. Amém.
A casa humilde banhou-se de safirina luz, e as entidades perversas sentiram o choque vibratório, demandando em retirada.
A mulher infeliz, que tinha suas energias sugadas, pareceu imediatamente aliviada.
Ernesto aproximou-se da pobre irmã e, com passes longitudinais, desligou-a do corpo físico, o que não foi muito fácil.
A operação demorou quase uma hora.
Observei atento o ocorrido, quando vi uma espécie de luminosidade esvair-se do corpo da moça agonizante.
Parecia uma névoa que se erguia do corpo físico que morria.
Com olhar mais atento, notei que a espécie de vapor luminoso assumia a mesma forma do corpo físico, como se fosse um duplo do organismo somático.
Entretanto, o corpo me parecia muito mais bonito do que a parte espiritual que se desprendia.
O espírito semiliberto trazia as marcas da loucura e do terror estampadas em sua aparência espiritual.
Recém-liberto do corpo físico, o espírito da amiga de Joana parecia mergulhado em intenso pesadelo.
Olhos arregalados desmesuradamente olhavam-nos, sem perceber-nos a presença ou entender o que se passava.
Estava transtornada diante da própria realidade.
Não sabia ainda que estava desencarnada.
— A oração sincera — principiou o nosso instrutor — tem um poder que os homens estão longe de compreender.
Orando, a alma coloca-se em ligação directa com a fonte de todo o bem e amor.
O coração que se eleva atrai os recursos do Alto e entra em sintonia com o Pai.
Se todos soubessem, adquiririam o hábito de orar e vigiar as matrizes do pensamento.
Orar é falar com Deus, que sempre responde aos seus filhos.
A lição era muito profunda.
Fiquei por ali algum tempo, depois me retirei para, eu mesmo, orar.
Agradeci a Deus a oportunidade que me concedia de aprendizado.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 12, 2016 11:38 am

6 - Vampirismo

Descobri que, durante todo o tempo em que errava, em que caminhava prisioneira de minha máscara, apenas procurava por Deus.
Após o incidente com Joana e sua amiga, uma nova etapa começava em sua vida.
A amiga desencarnara por overdose.
Isso, para Joana, foi como um choque eléctrico que a fez acordar um pouco para a realidade.
Com as orações da mãe e a interferência de amigos, Ernesto e eu conseguimos inspirar os companheiros encarnados a procurar um tratamento mais completo para Joana.
Entretanto, em matéria de pensamento, de transmissão de nossas inspirações, os companheiros encarnados sentem dificuldades em captar-nos a influência.
Com muita boa vontade conseguem reflectir nossas ideias e intuições, porém, muitas vezes, a essência se perde, em meio aos pensamentos desencontrados ou pouco acostumados à disciplina.
Assim, nossa influência sobre Joana e sua mãe Altina foi interpretada como a necessidade de internar Joana numa espécie de clínica de recuperação de viciados.
Mas o que sugeríramos não era bem isso.
Porém, tudo faríamos para auxiliar.
O caso merecia o nosso concurso.
Ernesto e eu dirigimo-nos a um núcleo espírita próximo à casa de Joana.
Lá encontramos outros companheiros espirituais que nos auxiliariam no caso.
Indicamos à equipe espiritual o local onde a infeliz enferma residia.
Auxiliaram quanto podiam, inclusive acompanhando os familiares da amiga de Joana durante todo o tempo em que providenciavam o sepultamento do corpo.
A equipe de espíritos amigos tudo fazia a fim de que as entidades vampirizadoras fossem afastadas.
No velório, todos da família procuravam evitar tocar no assunto das drogas.
Tentaram esconder o facto de que a pobre criatura era viciada e que morrera de overdose.
— Como está bonita, minha filhinha — dizia a mãe.
É um anjo de Deus...
Chorava amargamente a mãe de Adriane, a garota que desencarnara.
Do nosso lado, Adriane espírito parecia tresloucada, não entendendo a situação.
Tentava se apossar do corpo físico a todo custo, mas este se recusava a obedecer-lhe o comando.
A cada elogio que os familiares lhe endereçavam, sentia um choque vibratório intenso.
Os elogios e comentários eram uma tentativa de disfarçar a verdade, a verdadeira situação.
Não significavam a realidade dos sentimentos dos familiares, que de certa forma se sentiam aliviados com a morte da moça.
Os parentes mais próximos de Adriane pensavam até na tranquilidade que teriam devido ao desencarne da criatura.
Não imaginavam que, embora os convidados não pudessem ler seus pensamentos e sentimentos, o espírito de Adriane a tudo ouvia, naquele momento considerado sagrado para todos.
Novamente vimos a turba de espíritos se aproximar do corpo de Adriane.
Para ela mesma, como espírito recém-liberto, a falange de seres tenebrosos se parecia com demónios que disputavam seu corpo.
Desgovernada, saiu correndo porta afora, sendo seguida por um companheiro do nosso plano.
Ernesto mais uma vez entrou em acção, auxiliado por oito entidades que nos acompanhavam.
Dispersou as últimas reservas de fluidos vitais do antigo corpo de Adriane.
Agindo assim, os espíritos vampirizadores nada puderam fazer, saindo logo em seguida atrás da moça.
A cena que se desdobrou à nossa visão espiritual foi aterradora.
O bando de entidades obsessoras encontrou Adriane em pleno desequilíbrio, ao lado de uma sepultura, no cemitério onde seu corpo estava sendo velado.
O espírito, recém-liberto da roupagem física, não tinha noção de seu verdadeiro estado.
Captando as influências perniciosas, Adriane entrou em sintonia com as entidades infelizes, e o que vimos foi uma verdadeira fúria demoníaca.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 12, 2016 11:38 am

Os espíritos perturbados assenhorearam-se de Adriane, que se debatia parecendo vítima de algum pesadelo.
Entre palavrões e algazarras, o espírito de Adriane foi levado pelos malfeitores espirituais.
Ernesto indicou um espírito de nossa equipe para acompanhar o caso, embora não pudéssemos fazer muita coisa em benefício de Adriane.
Ela escolhera o seu destino.
Só mais tarde, quando a dor do arrependimento batesse em seu coração, é que seria realmente liberta.
— Não se preocupe, Ângelo — falou o instrutor Ernesto.
O espírito de Adriane não estará desamparado.
Um abnegado irmão da nossa equipe estará ao seu lado constantemente, esperando o momento em que ela desperte da letargia espiritual que a domina.
Por agora, o que podemos fazer é orar e esperar.
Observei o cemitério e vi que muitas lápides pareciam iluminadas por estranho brilho.
Eram o resultado das orações dos familiares, que ali concentravam suas energias mentais.
Endereçavam seus recursos psíquicos e sentimentais não ao morto, ou desencarnado, mas à própria sepultura, como se fosse um templo sagrado onde repousava para sempre seu ente querido.
Muita gente ignora a verdadeira realidade espiritual.
Saindo do cemitério, agucei meus sentidos de repórter ao ver uma estranha cena.
Uma mulher, vestida de um costume preto e vermelho, parecia embriagar-se com estranha bebida, sentada sobre a própria sepultura.
Seus pés, entretanto, pareciam ser picados por milhares de formigas, que lhe subiam pelo corpo espiritual.
Pensei que poderia falar com ela, entrevistá-la, quem sabe...
Ela, porém, não registrava a minha presença.
Tentei, em vão, chamar-lhe a atenção, até que Ernesto me convidou mais enfático:
— Não perca o seu tempo, Ângelo.
Temos coisa mais importante a realizar.
Você ficaria surpreso com tantas coisas que veria acontecer num cemitério.
Essas almas que aqui permanecem ligadas aos despojos físicos não têm ainda condições de serem auxiliadas.
Necessitam de tempo para que se libertem dessa situação difícil.
Trabalhemos; outros campos de serviço nos aguardam.
Não foi fácil para Joana libertar-se das drogas.
Anastácio acabou se envolvendo tanto com o problema de Joana que se aliou à mãe da menina na tentativa de auxiliá-la.
Altina orava todos os dias sem cessar, mas não sabia como poderia internar sua Joana numa clínica especializada.
Não tinha recursos financeiros para isso.
Dependia inteiramente do amigo Anastácio e dos companheiros de igreja.
Certo dia Anastácio conversava com um cliente de sua padaria, quando ficou sabendo que ele era espírita.
Um tanto quanto curioso, tentou extrair informações a respeito da religião espírita.
— Fale-me a respeito, Seu Paulo — pediu Anastácio.
Diga-me que espécie de trabalhos vocês fazem lá, para ajudar as pessoas.
Não me interprete mal, não, mas é que dizem tanta coisa a respeito do espiritismo, que só de lembrar nos dá arrepios...
— Não é nada disso não, Seu Anastácio — falou Paulo, solícito.
É pura ignorância do povo, quando falam que fazemos trabalhos para os outros.
O espiritismo não realiza nenhuma mandinga para ninguém; espiritismo é ciência que estuda as leis de Deus e da vida, respondendo nossos questionamentos de forma esclarecedora.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 12, 2016 11:38 am

Também conforta-nos sobremaneira, pois, através de suas lições morais, nos aproxima cada vez mais de Deus e nos faz ver que Ele, que é pai, está aqui mesmo, dentro de nós. Só isso.
— Mas então vocês falam de Deus também?
— Mas é claro, Seu Anastácio.
Sem que Deus queira, nada podemos realizar...
Faça o seguinte: eu lhe darei este livro aqui — tirou O Evangelho segundo o espiritismo da bolsa e deu-o ao padeiro — e quando o senhor tiver algum tempo, leia-o, assim terá uma ideia a respeito do espiritismo.
Não adianta eu tentar lhe dizer muita coisa agora.
Leve o livro, e em outra oportunidade falaremos.
Conversando, Anastácio soube que Paulo trabalhava como voluntário numa espécie de clínica de recuperação de usuários de drogas.
Paulo lhe disse que era uma clínica de seus amigos espíritas e que ele, a cada duas semanas, auxiliava quanto podia.
— Mas não me diga... parece que o senhor caiu do céu, Seu Paulo — falou Anastácio.
É que tenho uma amiga que está vivendo um caso muito sério com este negócio de drogas.
A filha precisa urgentemente de um tratamento.
Quem sabe o senhor não poderia auxiliar?
— Claro, Anastácio, faremos o que for possível...
Assim, após esse contacto, as coisas começaram a se encaminhar para Joana.
Ela foi conduzida ao tratamento integral na fazenda-clínica, auxiliada de perto por Paulo e por Anastácio.
Do outro lado da vida, consciências sublimadas auxiliavam para que o caso de Joana fosse devidamente acompanhado.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 12, 2016 11:38 am

7 - Pesadelo

Revoltei-me nessa procura e, revoltando-me, neguei que Ele existia.
Joana reconhecia a necessidade de reeducar-se; entretanto, não tinha força de vontade suficiente para libertar-se do vício.
Fora internada com o auxílio de companheiros espíritas, amigos de Paulo, que tentavam ajudar quanto podiam.
Mas o caso de Joana não era tão simples assim.
Junto com os traumas, vícios e demais dificuldades orgânicas a moça vivia um difícil estado de obsessão.
Entidades trevosas, atraídas pelo seu vício, vinham ao seu encontro diariamente.
O espírito de Adriane, que desencarnara de overdose, actuava como ponte entre Joana e tais entidades.
Todas as noites vinham os pesadelos, e o desespero tomava conta da moça.
Na clínica, os doentes eram tratados com passes e fluido terapia, além dos medicamentos habituais.
Mas para que tudo corresse bem era necessário que o paciente contribuísse para a própria melhora.
Sem cooperação, não era possível alcançar resultados positivos.
Numa determinada noite, quando Joana dormia, seu espírito desprendido encontrou Adriane.
Iniciava-se um intenso pesadelo.
Joana recusava-se a recorrer à oração; então, no momento em que mais precisava, não tinha como valer-se da ajuda espiritual.
Adriane apresentava-se à visão espiritual de Joana muito bonita e com um charme especial, convidando-a a dar uma volta por aí.
Nessa ocasião, Ernesto e eu nos aproximamos de Joana espírito, tentando de alguma forma auxiliá-la, tirando-a da companhia de Adriane.
Mas não encontrávamos ressonância alguma nas disposições de Joana, que saiu de mãos dadas com Adriane, passeando por regiões tenebrosas do mundo espiritual.
Tentamos de tudo, mas parecia que Joana não queria ser ajudada.
Só nos restava esperar e observar.
A paisagem na qual se desenvolvia o pesadelo de Joana era um misto de criação mental de entidades perversas e da mente enferma de Adriane, que servia de marionete para outros espíritos mais perigosos.
Desdobrada pelo sono físico, Joana seguia o espírito dementado de Adriane para regiões cada vez mais densas e obscuras do mundo oculto.
Seguíamos as duas, Ernesto e eu, esperando um momento adequado para interferirmos.
Adriane seguia com a companheira em direcção a uma estranha construção em meio à paisagem fluídica do plano extrafísico.
Ao longe, erguia-se um estranho castelo, para onde as duas se dirigiam.
Do lado de fora, à semelhança de antigo castelo medieval, um fosso contornava a estranha edificação.
Mas parecia que Joana estava hipnotizada, não conseguindo libertar-se do domínio de Adriane, que a essa altura já não conseguia manter a aparente tranquilidade ou a forma externa com a qual se apresentava para Joana durante o sono físico.
Intenso desespero parecia dominar o semblante de Adriane, e ela, imantada ao espírito desdobrado de Joana, entrou no castelo sombrio, que funcionava como um laboratório de inteligências perversas.
— Este caso, Ângelo — falou-me Ernesto — merece estudos mais aprofundados e acção emergencial.
Como você sabe, Adriane, quando encarnada, exercia uma certa influência sobre Joana.
Agora, quando se acha sob influência de espíritos perversos, busca novamente a sintonia com a companheira de viciação, tentando dominá-la e trazê-la definitivamente para o desequilíbrio.
— Temos que fazer algo, Ernesto; não podemos deixar Joana à mercê de entidades tão infelizes.
— Aguardemos, companheiro.
O momento é muito delicado, e temos de saber esperar com acerto.
Façamos o seguinte: enquanto você acompanha as duas ao interior da construção, retornarei à procura de auxílio.
Para realizarmos algo com proveito é preciso nos utilizarmos de fluidos humanos, animalizados.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 13, 2016 2:01 pm

Devo retornar e procurar ajuda.
— Que farei de minha parte?
— Continue com as duas, Ângelo, mas não tente nada sozinho.
Ainda não é o momento.
Espere-me, e localizarei você onde estiver.
Ernesto voltou procurando recursos para libertarmos Joana do pesadelo em que se via envolvida.
Prossegui junto das duas, adentrando o pátio interno daquela construção fluídica.
Poucos espíritos pareciam ocupar o pátio do castelo medieval localizado nas regiões sombrias do plano astral.
Duas entidades vestidas de forma espalhafatosa, numa mistura de cores vivas e roupas extravagantes, vieram ao encontro das duas.
Adriane, não aguentando mais a representação, deixou-se cair ao lado de Joana desdobrada.
As duas entidades aproximaram-se, e vi quando um forte grito partiu da boca de Joana, que neste momento perdeu completamente as forças, deixando-se vencer pelo magnetismo das entidades diabólicas.
Tudo isso se passava diante de mim sem que pudesse fazer alguma coisa, pois aguardava o retorno de Ernesto.
A minha presença não era notada pelos espíritos, devido à diferença de nossas vibrações.
Vibrávamos em dimensões diferentes.
Joana foi conduzida para dentro do prédio juntamente com Adriane, que aos poucos se transformava diante dos olhos excessivamente abertos de sua companheira.
Acompanhei-as para dentro do novo ambiente.
O que vi desafiava minha própria imaginação.
Um salão circular abrigava vários aparelhos, compondo o cenário de um moderno laboratório, contrastando com a arquitectura medieval.
Para ali foram conduzidos os espíritos desdobrados de Joana e Adriane, que a essa altura parecia totalmente demente, abatida e desfigurada.
Perto de uma maca estavam de pé quatro espíritos, vestidos de túnicas que arrastavam penosamente sobre o chão daquele laboratório estranho.
Não conhecia nenhuma daquelas aparelhagens, mas sabia que não eram utilizadas para o bem.
O ambiente era iluminado por uma luz amarelada, que formava estranhos contrastes com as sombras dos objectos projectadas no salão circular.
As entidades perversas movimentavam-se lentamente, penosamente, carregando nas mãos algo que se assemelhava a instrumentos médicos.
Estava montado todo o cenário do pesadelo de Joana, que neste momento era conduzida para uma das macas, onde seria submetida a uma cirurgia em seu corpo espiritual.
Eu esperava o momento em que Joana, mesmo desdobrada, orasse em busca de socorro superior, o que favoreceria alguma acção de minha parte.
Ocorre que Joana, na vida quotidiana, não havia desenvolvido o hábito de orar.
Agora, vivendo o seu pesadelo, desdobrada em outra dimensão da vida, não orava, apenas se debatia entre o medo e o desespero, naturalmente transmitindo para o corpo físico, que repousava na clínica, as impressões descontroladas do seu espírito.
Uma das entidades aproximou-se de Joana e falou, com expressões grotescas:
— Agora é a hora do ajuste de contas com a megera.
Adriane serviu como isca a fim de que a trouxéssemos para o nosso reduto.
— Sim — falou outro espírito.
É hora de substituirmos o implante no perispírito de Joana.
Creio que o estágio dela nessa tal clínica diminuiu a nossa acção sobre o seu espírito.
Com o novo aparelho que implantaremos em seu corpo espiritual, aumentaremos o seu desejo e a dependência pelas drogas.
— Não tem como fugir de nossa organização — falou novamente a infeliz entidade.
No passado, ela se comprometeu connosco e tentou fugir várias vezes de nossa falange.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 13, 2016 2:01 pm

Não adianta se refugiar num corpo físico.
Configuramos o aparelho parasita de tal forma que despertará em sua mente imagens desesperadoras.
Com certeza, após causar muitos estragos na vida de outras pessoas, ela será levada ao suicídio.
— Sim; aí ela será definitivamente nossa.
As entidades infelizes esboçaram uma caricatura de riso, mas não conseguiram ir além de uma careta.
Tentariam realizar um implante em Joana e, para isso, já estavam tirando o implante anterior, que deveria ser substituído pelo novo aparelho parasita.
Eu não sabia o que fazer para deter o processo.
Orei intensamente, pedindo ajuda e tentando me comunicar com Ernesto.
Nesse momento, intenso tremor pareceu abalar a estrutura do castelo do terror, exactamente quando um dos espíritos retirava o estranho aparelho do psicossoma de Joana e já se preparava para colocar o outro.
O tremor parecia aumentar cada vez mais, abalando os aparelhos e demais instrumentos do sinistro laboratório.
As entidades, apavoradas, tentavam a todo custo salvar aquele lugar, quando Ernesto foi entrando no ambiente, trazendo ao seu lado o pastor da comunidade evangélica da qual fazia parte Altina, a mãe de Joana.
O pastor, desdobrado, actuava como médium de Ernesto, que, retirando o ectoplasma do evangélico, interferia directamente na acção do mal.
Em meio ao tumulto, causado pelos diversos tremores que sacudiam o local, o instrutor Ernesto parou por um momento, concentrando-se, e se fez visível por instantes, para aquelas entidades desesperadas.
Irradiando intensa luz do seu plexo solar e do seu coração, Ernesto parecia estar ligado por fios dourados ao espírito desdobrado do pastor, que, levantando as mãos sobre Joana, ministrou-lhe um passe magnético.
Por toda a estranha edificação se ouvia um coro.
Era um hino que estava sendo cantado na igreja, que neste momento realizava um culto, uma vigília, para libertar Joana das drogas e das garras do inimigo ou do demónio, como acreditavam.
Castelo forte é o nosso Deus
Espada e bom escudo
E se vacila um filho seu
Envia a sua ajuda.
Destrói o perspicaz
Ardil de Satanás
Com artimanhas tais
E astúcias tão cruéis
Que igual não há na Terra.
Se a nós quiserem devorar
Um tal poder com seu ardil
Jamais nos podem assombrar
O tal cruel demónio vil.
Satã, o tentador e vil acusador
Jamais nos vencerá
Pois foi vencido já,
Ali na cruz do Salvador.
Ouvíamos todos o hino cantado a plenos pulmões pelos evangélicos que se reuniam em oração, tentando a libertação de Joana dos vícios que a dominavam.
Na verdade, os companheiros evangélicos nem suspeitavam o que ocorria naquelas regiões do plano extrafísico.
Porém, o magnetismo de suas vibrações foi tão intenso que o mentor Ernesto o aproveitou para interferir directamente na situação, libertando o espírito desdobrado de Joana da acção das entidades das trevas.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 13, 2016 2:02 pm

— Ela é protegida, ela é protegida! — gritava desesperada uma entidade, ao avistar a presença luminosa de Ernesto.
— Fujamos, são os filhos do Cordeiro, não podemos fazer nada mais...
Os espíritos do mal saíram correndo, enquanto eu me dirigia à maca e retirava Joana da prisão extrafísica.
O pastor, embora desdobrado, parecia guardar lucidez do que ocorria em nosso plano.
Aproximou-se de Joana e, vendo-me ao seu lado, naturalmente interpretou a presença de Ernesto e a minha como sendo a interferência de anjos de Deus, enviados para espantar a força maligna.
Mais tarde declararia na igreja, para a admiração dos crentes, que fora arrebatado pelo Espírito Santo e vira coisas maravilhosas, operadas pelas mãos do Senhor e pelos seus anjos, para a libertação da filha da irmã Altina.
Não importa, para nós, como seja a interpretação da nossa acção.
O importante é que a pequena comunidade evangélica auxiliou com seu magnetismo espiritual, e Ernesto, aproveitando a oportunidade, conseguiu libertar Joana.
Enquanto eu conduzia o espírito desdobrado de Joana para o corpo físico, Ernesto, tomando Adriane em seus braços, já desfalecida, a conduzia para uma reunião espírita que ocorria naquele momento.
Ela necessitava de um choque anímico, a fim de que despertasse da hipnose e fosse auxiliada.
Quando reconduzi o espírito de Joana para o corpo, ela abriu os olhos gritando por socorro e se debatendo, acordando do pesadelo em que se encontrava.
Lembrando os clamores de sua mãe, gritava com toda a força de sua alma:
— O sangue de Jesus tem poder!
O sangue de Jesus tem poder!
Vade retro, Satanás... afasta de mim...
Os companheiros da clínica corriam para ver o que causara tamanho escândalo.
Mas, apesar de tanta trovoada, a tempestade já havia passado.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 13, 2016 2:02 pm

8 - Terapia espiritual

Eu procurava Deus em qualquer parte, em toda porte.
aquela noite, após conduzir Joana espírito N para o corpo físico, reintegrando o espírito desdobrado ao corpo que repousava, fomos em direcção a um agrupamento de companheiros espíritas rogar auxílio para o caso.
Adentramos o ambiente de uma singela casa na Vila Belém, onde se reuniam oito companheiros encarnados, estudando O Evangelho segundo o espiritismo.
O ambiente familiar demonstrava a serenidade de regiões mais elevadas.
Em nossa dimensão, seis entidades participavam do culto no lar, além dos mentores responsáveis por cada um dos presentes.
Imediatamente Ernesto e eu fomos identificados pela vidência de uma companheira, a dona da casa, senhora sexagenária que coordenava os estudos da noite.
Sentimo-nos em casa.
Quando terminaram os comentários a respeito das lições da noite, os amigos encarnados prepararam-se para a prece final.
De nossa parte, procuramos o mentor da reunião e transmitimos a ele a nossa preocupação quanto ao caso de Joana.
Este, prestimoso, nos auxiliou junto ao grupo familiar do Evangelho.
Eis que ficou marcado o dia e a hora em que o grupo se reuniria novamente para atender o caso em questão.
— Temos que aproveitar o nosso tempo e agir com urgência, Cássio.
Há pouco, as entidades vingativas que atormentam Joana saíram em disparada, ao nos perceberem a presença.
Libertamo-la da acção desses infelizes companheiros, mas creio sinceramente que devemos agir com urgência.
— Creio que sim, Ernesto.
Sei que você e Ângelo fizeram o melhor por minha filha, mas agora já posso auxiliar mais directamente.
Procuremos agir sem demora.
Dirigimo-nos para o local onde Joana, desdobrada, havia sido aprisionada pelas entidades perversas.
Adentramos o antigo castelo, que, agora, parecia desabitado, pois não víamos ali nenhum espírito vândalo.
Estranhei o facto de não ver nenhuma das entidades que víramos antes.
Cássio, então, quebrando o silêncio, falou:
— Foram-se todos daqui.
A presença de vocês espantou os espíritos do mal, e eles retiraram-se para outros sítios.
Não podemos deixar essa construção do jeito que está.
Corremos o risco de voltarem com mais entidades malévolas e assumirem novamente o lugar, transformando-o num reduto das trevas.
— Teremos que destruir a construção? — perguntei.
— Talvez, talvez — falou Ernesto.
Mas bem que poderíamos aproveitar a construção fluídica de alguma forma.
O que acha, Cássio?
— Boa ideia, Ernesto.
Sabemos que não é tão fácil erguer e estruturar uma construção assim, no plano extrafísico.
É preciso muita energia mental. Entretanto, podemos, quem sabe, aproveitar a construção existente e transformá-la num posto de socorro, que sirva a propósitos do infinito bem.
— Mas isto aqui não era um posto dos espíritos das trevas?
Como poderíamos aproveitar tudo isto para o bem?
— A tentativa não é de todo impossível, Ângelo.
Também na Crosta ocorrem factos semelhantes com muita constância — retrucou Cássio.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 13, 2016 2:02 pm

Veja você que muitas igrejas evangélicas alugam ou compram prédios onde antes funcionavam cinemas especializados em filmes pornográficos, ou outros ambientes onde, antes, havia grave comprometimento moral.
Transformam esses ambientes em igrejas e, conforme ensinam em suas religiões, fazem o melhor que podem para a transformação do mundo.
— Cada um faz a sua parte — falou Ernesto.
Cada um faz o que sabe e o que pode.
No fim, conforme nos diz o apóstolo Paulo, tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus.
— Mas, no presente caso, como se dará a transformação da construção fluídica, que neste momento aparece à nossa visão espiritual como um castelo sombrio incrustado nesta região sombria? — perguntei, curioso.
Na verdade, desde que voltei ao mundo espiritual sempre vi soberbas construções nos planos superiores ou construções diferentes, estruturadas também em matéria subtil.
Mas nunca vira como essas construções eram feitas.
Nunca presenciara nenhum espírito agindo directamente sobre os fluidos dispersos no ambiente extrafísico, moldando-os de tal maneira a formar essas construções que vemos do lado de cá da vida.
Minha curiosidade novamente voltava a dominar minhas forças.
O assunto era palpitante.
— Neste caso, Ângelo — retornou Ernesto — temos de pedir ajuda ao Alto.
Como na Terra, quando se projecta um hospital, um edifício qualquer, é preciso que um arquitecto faça as medições e transforme as ideias num desenho sobre o papel.
Aqui também não fugimos a essa necessidade.
Existem espíritos experimentados nos projectos de construção fluídica.
Os engenheiros e construtores espirituais são espíritos já experimentados no domínio da mente.
Através da ideoplastia, trabalham na intimidade daquilo que chamamos moléculas fluídicas, transformando a matéria do nosso plano de maneira a favorecer o nosso trabalho do lado de cá da vida.
— Então, vocês não poderão modificar o ambiente por conta própria, é isso?
— Não, Ângelo. Não podemos.
Pelo menos, Cássio e eu ainda não possuímos recursos para realizar tal proeza.
Também, com as actividades que nos esperam, não teríamos tempo para esse tipo de realizações.
Nossa tarefa é outra.
Ernesto sorriu para mim, indicando-me, de leve, a direcção em que se encontrava Cássio, que neste momento parecia concentrado.
— Ele já está passando a sugestão para os espíritos de nossa comunidade — falou Ernesto.
Em breve isto aqui se transformará numa espécie de canteiro de obras do mundo espiritual.
Voltaremos mais tarde, Ângelo, e você, com certeza, terá oportunidade de fazer suas anotações e satisfazer sua curiosidade de repórter e escritor.
Ernesto parecia adivinhar os meus pensamentos.
Será que eu não conseguiria esconder destes dois companheiros o que pensava?
Fiquei sem resposta dessa vez, pois Cássio veio até nós, convidando-nos a partir imediatamente atrás das entidades infelizes.
Antes, porém, Ernesto localizou uma espécie de rastro magnético das entidades.
Segundo ele me explicou, é aquilo que na Terra os cientistas chamariam de "radiação de fundo".
Todo espírito imprime no ambiente em que se encontra a carga magnética de que é portador.
Os fluidos são facilmente impressionáveis e se moldam com extrema plasticidade ao teor energético de cada ser pensante.
Neste caso particularmente, as entidades sombrias haviam deixado atrás de si um rastro de energia, de magnetismo, como se suas auras tivessem impregnado o ambiente ao redor.
Seguimos os três pela região inóspita e sombria do plano extrafísico, atravessando pântanos e, às vezes, desertos que se erguiam naquela paisagem árida desta outra dimensão da vida.
Estávamos na região que nossos irmãos espíritas chamam de umbral.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 13, 2016 2:02 pm

Para nós, entretanto, não importam os nomes que os encarnados possam dar a esses lugares ou situações que muitas vezes defrontamos do lado de cá da vida.
Nossa tarefa é trabalhar e servir, independentemente do vocabulário desta ou daquela religião ou das definições de espíritos e de homens.
Transpusemos o imenso deserto, quando avistamos ao longe uma elevação, para onde nos conduzia o rastro magnético dos espíritos que perseguiam Joana.
Ernesto alertou quanto à necessidade de mantermos o pensamento elevado em oração, rogando o auxílio do Alto.
Não sabíamos o que iríamos encontrar.
Aproximamo-nos da elevação, e pude notar que naquele lugar a paisagem não era a mesma de antes.
Árvores ressequidas se erguiam aqui e acolá, em meio a montes de pedras que se espalhavam pelo local, formando um ambiente desolado e triste.
Havia muitos espíritos reunidos, como se estivessem recebendo ordens de seu chefe espiritual.
Aproximamo-nos lentamente, e pude ver como, um a um, os espíritos foram se retirando, até que apenas um ficou, embora assustado e sem entender nada.
Os outros o haviam abandonado na paisagem lúgubre.
Estava só, mas sabia que algo diferente estava acontecendo.
Ameaçou sair correndo, mas Cássio interferiu, estendendo a mão direita em sua direcção.
Uma espécie de barreira magnética impediu que a entidade pudesse se retirar.
Cássio então falou:
— Este companheiro é o responsável pela perseguição à nossa Joana.
Os outros espíritos são apenas serviçais que obedecem às ordens dele.
Vejamos o que podemos realizar.
O espírito não podia nos ver, mas sabia que algo diferente estava por acontecer.
Sentia com todas as forças de sua alma.
Cássio foi se aproximando devagar, com as mãos estendidas em direcção ao espírito.
— Quem está aí?
São os filhos do Cordeiro? Miseráveis!
Não adianta interferir, ela não escapará de minhas mãos.
Ela é minha, minha.
Não importa se usam a força de vocês, ela sempre me pertencerá.
— Calma, companheiro, calma! — falava Cássio, mesmo sabendo que a infeliz entidade não poderia ouvi-lo.
O ódio que a dominava colocara-a em dimensão diferente da nossa.
Embora estivéssemos todos na condição de desencarnados, nossa situação era diferente.
Ele, o espírito perseguidor, por seus actos e pensamentos estava vibratoriamente distante de nós.
Cássio poderia ter influência sobre ele.
Sua condição moral dava-lhe certa ascendência sobre o espírito infeliz.
Mas só aos poucos a entidade poderia ser influenciada e, quem sabe, voltaria à razão, reconhecendo o erro em que se encontrava.
Ernesto e eu, atentos, auxiliávamos através da oração.
A paisagem extrafísica na qual nos encontrávamos parecia transformar-se lentamente.
O espírito perseguidor revivia seus sentimentos com intensidade, não conseguindo disfarçar seu rancor e seu ódio contra Joana.
Curioso, fiquei imaginando o que estaria por trás de toda essa perseguição.
Eu não conseguia entender a razão de tanto ódio, da perseguição e desse processo obsessivo tão intenso.
— As causas se encontram no passado, Ângelo — falou Ernesto.
Somente nas experiências do passado espiritual, arquivadas na memória do espírito, encontraremos a história viva de tantos desafectos e desamores.
Observemos o que acontece.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 13, 2016 2:03 pm

Com a aproximação de Cássio, o espírito, que antes parecia tão imponente, orgulhoso e desejando vingança, ameaçava ruir sobre si mesmo.
Abatia-se lentamente.
Eu presenciava a transformação lenta da entidade e via que, do coração de Cássio, intensa luz dourada e azulínea irradiava-se ao encontro da entidade.
O espírito tentava libertar-se da influência superior, mas era impotente para isso.
Aos poucos foi assumindo uma posição diferente.
Parecia uma criança medrosa, encolhida perto de uma árvore raquítica.
Sua mente parecia delirar ante a influência amiga de Cássio.
— Ele revê seu passado.
Observemos — falou novamente o instrutor Ernesto.
Aproximei-me de Cássio e da entidade.
Eu nunca vira algo assim, como estava acontecendo com aquele espírito.
A simples presença de Cássio parecia haver afectado a memória espiritual do espírito sofredor.
O que se passava por dentro dele naquele momento?
O que estaria pensando, ou melhor, quais as imagens e qual história se passava na intimidade daquele ser?
Como eu gostaria de saber...
Quem sabe assim não poderia entender melhor essa estranha perseguição espiritual, o envolvimento de Joana com as drogas durante tantos anos?
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 13, 2016 2:03 pm

9 - Recordações do passado

Mas mesmo no negação eu o buscava.
Eu procurava pelo Pai.
Miseráveis, malditos filhos do Cordeiro.
Eu me vingarei, juro que me vingarei!
Minha mente vagava pela escuridão. Era estranho.
Enquanto aquele homem estendia a mão sobre mim, luz intensa vinha em minha direcção.
Eu jamais vira algo assim.
Ou será que apenas não me lembrava?
Não sei dizer direito.
Mas era estranho tudo isso.
Enquanto a luz de seu peito se reflectia sobre mim, eu mesmo, em meu interior, me sentia na escuridão.
Trevas, somente trevas, nada mais!
Aos poucos uma lenta percepção de algo que se definia vagamente foi se esboçando em minha mente.
Essa percepção de coisas e lugares, de vidas e experiências, sensações e emoções, parecia emergir da escuridão de minha alma.
Percebo movimentos. Movimentos incessantes.
Tudo em mim parece explodir de dentro para fora.
Reconheço vozes, cantos, encantos...
Sinto as mãos suadas e a roupa poeirenta.
Ouço algo, como se fosse uma roda de carroça rangendo; algo balançando, sem cessar.
As vozes se definem, o balanço torna-se real, o tempo se curva sobre si mesmo e me vejo.
Como sou bonito! Vejo aquela gente toda, as carroças, as crianças, os velhos e os jovens.
Todos eles eu os vejo.
Tudo se movimenta, e não sonho mais, eu vivo; eu revejo cada um daqueles rostos e os reconheço.
A poeira sobe alto, envolvendo as carroças e os cavalos, que, com tanta sede, parece que a qualquer momento irão desmaiar.
— Jessé! Jessé!
Pare a carruagem, pare imediatamente!
Eu já sabia. Meu nome era Jessé.
Assim me chamavam, assim eu respondia.
A voz que me chamava era de outro rapaz.
O nome dele? Ah! Agora sim.
Agora tudo clareava para mim.
— O que houve, David? Vamos, fale logo, homem!
Por Deus, não podemos parar aqui, no meio deste deserto ingrato...
Os cavalos têm sede, as mulheres e as crianças clamam por água, e os nossos homens, todos eles já estão cansados e desanimados.
Temos de encontrar um lugar seguro...
— Pare, Jessé, pare todas as carroças e animais.
Precisamos nos reunir em círculo imediatamente.
— O que está acontecendo, rapaz?
Parece que estamos sob ataque?
David era um rapaz alto e magro. Meu primo.
Assim veio a lembrança em minha mente.
Ah! Como eu amava David.
Para mim ele era mais do que meu primo.
Era o irmão que eu não tivera.
Juntos, convencemos a família a sair daquele local de intrigas, de guerras, de traições.
Sim, isso mesmo. Jerusalém se transformara num monte de intrigas.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 13, 2016 2:03 pm

As cidades de Judá já não nos interessavam mais.
Reunimos toda a família.
Débora e sua família vinham connosco.
Eu era solteiro. Era judeu nascido na Macedónia.
Aos 12 anos viera com a família para Jerusalém.
Mas os tempos eram difíceis.
Havia intrigas por toda parte.
Os sacerdotes tentavam de tudo para se manterem no poder e, para conservá-lo em suas mãos, não pensavam duas vezes.
Matavam, saqueavam e roubavam.
Famílias inteiras eram vítimas de suas mentiras.
Foi nesse clima que meu pai, o velho Ozias, nos trouxe de volta a Jerusalém.
Mas a desgraça logo se abateu sobre nossa família.
Nossa casa, localizada na parte alta da cidade, era causa de inveja a muitos judeus e aos sacerdotes levitas.
Desejavam despojar meu pai de seus bens, mas não encontravam ocasião propícia.
Foi há pouco tempo que Tito, o general romano, havia invadido a cidade e destruído o sagrado templo.
Tudo era tumulto.
Mas, mesmo assim, meu pai queria voltar a Jerusalém e morar na cidade sagrada.
Agora, porém, nem tão sagrada assim.
Degradada seria a palavra correta.
Tito passara e despedaçara tudo.
Mas justamente aí é que os sacerdotes tentavam se aproveitar da situação para se firmar no poder.
Há algum tempo, diziam, um homem estranho viera da Galileia.
Diziam que ele era profeta e havia profetizado o fim do templo e também havia falado do final dos tempos.
Mas ninguém parecia se preocupar com ele; afinal, da Galileia não vinha nada de bom.
Era uma região desprestigiada.
Pobres, miseráveis, mendigos, corruptos e ladrões.
Era terra sem valor.
Só que os sacerdotes não contaram com o facto de que o Galileu tivesse tanto poder assim sobre o povo, sobre a multidão.
Estranho poder, o dele.
Se dizia o filho de Deus, o rei dos judeus.
Ele morreu, diziam.
Mas diziam também, os seus seguidores, que ele ressuscitara dos mortos.
E o pior de tudo é que por toda parte se viam grupos de seus seguidores.
Essa foi a nossa ruína; foi a ruína de nossa família.
Dizem que, na época da destruição do templo, os seguidores do Galileu conspiraram, tirando muita gente da cidade santa.
Partiram aos montes, em caravanas.
Mas depois voltaram.
Estavam por aí falando de lendas, milagres e encantos.
Parece que toda a Jerusalém estava se rendendo às histórias dos pescadores, dos seguidores do Galileu.
Minha mãe foi uma das que se renderam à estranha influência dos seguidores do Galileu.
O velho Ozias revoltou-se. Eu me revoltei.
Não foi somente porque minha mãe se convertera, não.
Era bem mais profunda a minha dor, a minha raiva.
Eu não sabia a quem odiar mais.
Se aquela gentinha cheia de histórias de milagreiros ou a Miriam.
Fora ela o instrumento da nossa desgraça, principalmente da minha, da minha desgraça.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 13, 2016 2:03 pm

Eu conheci Miriam logo que chegamos a Jerusalém.
Ela era bela, orgulhosa, uma menina-mulher.
Eu, apenas um garoto, mal entrando na mocidade, mas literalmente encantado pelos trejeitos de Miriam.
Com o passar dos anos, o encanto de adolescente se transformou no desejo do jovem, do homem.
E Miriam mantinha-se distante, provocando-me.
Eu estava rendido pelos encantos e pelas curvas do seu corpo de mulher.
As mulheres sempre me fascinaram.
Mas Miriam guardava algo especial e tocava-me de forma também especial.
Mas ela era como uma gazela arisca.
Orgulhosa como ela só e desejosa de fazer fortuna, de fama.
— Ora, Jessé, você não poderá me oferecer aquilo que eu mais desejo neste mundo.
— Fale-me, Miriam, fale-me o que deseja e lhe darei o mundo.
Qualquer coisa que desejar.
— Seu bobo, você não consegue imaginar o que se passa na cabeça de uma mulher como eu.
Jerusalém está acabada, saqueada, destruída.
Não desejo mais nada daqui. Desejo Roma.
Isso mesmo, meu destino é a corte de César...
— Mas, Miriam, por que não nos casamos e nos tornamos felizes ao lado um do outro, conforme as tradições do nosso povo?
— Idiota! Eu não nasci para isso.
Quero o mundo, não a tradição.
Desejo o ouro, e não a Torá.
Vejo-me em Roma, e não nos pátios destruídos do templo.
Sou nascida para mandar nos homens, e não para me submeter a eles.
Miriam estava louca pelo poder, pelo dinheiro, pelo ouro.
E eu, pobre coitado, poderia ter aos meus pés qualquer mulher, qualquer uma, menos Miriam.
Eu era alto, belo, com os cabelos acobreados.
Herdara de meus avós, nascidos na Iduméia, os olhos azuis que fascinavam as mulheres de todo lugar.
Mas eu mesmo, miserável de mim... estava fascinado pelos encantos de Miriam.
Mas ela era dada às intrigas dos sacerdotes; queria tirar partido de tudo.
Minha velha mãe, conhecida como Adab, era nascida em Filipos.
Embora judia, não esperava muita coisa do povo judeu.
Era uma visionária. Coitada da velha Adab.
Esperava um mundo novo, um novo sistema de coisas, e foi exactamente esse tipo de pensamento que a perdeu.
Desejava um mundo diferente; conforme ela dizia, os judeus e suas crenças já não a satisfaziam.
Queria algo novo, diferente.
Foi assim que minha mãe, a velha Adab, preparou-se intimamente para aceitar as crenças dos seguidores do Galileu.
Certo dia, quando ela se dirigia ao mercado da cidade, ouviu um daqueles convertidos falar de suas crenças.
A velha Adab, minha mãe, curiosa como todas as mulheres, se deixou arrastar pela multidão e foi-se entre os novos conversos.
Junto com ela se foram os nossos dias de sossego.
A velha Adab deixara-se conquistar por aquelas ideias loucas, absurdas, histórias de pescadores e pecadores.
Uma perseguição sem igual se abateu sobre os seguidores do Galileu.
Não sei que poder tinha aquele homem que, mesmo depois de morto, a multidão seguia; aliás, seguia sua ideia, seus sonhos e suas promessas.
A perseguição aumentou, e os sacerdotes e os príncipes do povo prometiam ouro e prata, somas principescas, para quem entregasse os cristãos, os convertidos do Caminho.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 11:11 am

Assim eles se chamavam.
Ozias, o meu pai, tentou todos os recursos para tirar a velha Adab daquela loucura, mas foi em vão.
Nossa família passou a viver um pesadelo. O medo dos sacerdotes e dos romanos agora rondava a nossa família, e tudo, tudo o que construímos ameaçava ruir devido à nossa velha mãe e às suas crenças absurdas.
Foi aí que Miriam entrou, sendo o pivô de toda a intriga que destruiu nossos sonhos.
Tentamos esconder minha mãe até mesmo de Miriam, mas ela era faceira, conhecia nossos mínimos pensamentos.
Diziam por aí que Miriam se envolvera com uma bruxa, uma feiticeira da Ásia, que lhe ensinara a fazer beberagens.
Creio que foi uma dessas suas fórmulas diabólicas que ela me deu.
Eu estava louco, apaixonado por Miriam. E ela sabia disso.
Sabia e tirava o máximo proveito da situação.
Assim, ela foi se insinuando em nossa família; tentava a todo custo obter alguma informação que lhe rendesse crédito junto aos sacerdotes e aos espiões de Roma.
Foi a minha perdição. A nossa perdição.
Embriagado pela visão da mulher de meus sonhos, troquei o segredo de nossa família, a conversão da velha Adab, minha mãe, por alguns momentos de amor, entre as sedas e os perfumes de Miriam.
Ela viu aí a oportunidade que tanto desejara.
Não pensou muito e entregou a velha Adab para o Sumo-sacerdote e os dignitários romanos.
Foi a desgraça.
Adab foi capturada, nossos bens confiscados, e, após uma semana de torturas intensas, a velha Adab fechou os olhos para sempre.
Vimos nossos castelos de sonhos desmoronar.
Ozias, o meu pai, parecia enlouquecer.
Tanto ele como meus tios foram presos pela guarda dos sacerdotes.
Fugi feito louco, mas não queria acreditar que Miriam fosse a causa de nossa miséria.
Ela me encontrou junto com David, o meu primo, e mais uma vez me rendi aos seus encantos.
Prometendo ajuda, ela me fez revelar o paradeiro do resto da família, que se escondera numa das aldeias da Samaria.
Tarde eu acordei para a desgraça.
Miriam entregou a todos, e fui obrigado a fugir com David para terras distantes.
Foi somente graças à reputação de meu pai e a algumas amizades que fizera que ele escapou de ser morto.
Com muito jeito ele conseguiu fugir, e nos juntamos, toda a família, numa caravana que partia rumo a outras terras.
Dentro de mim ficou a marca registrada de meu encontro com Miriam.
A traição, a revolta, a paixão, a dor e o ódio, misturados num sentimento inominável.
Este sou eu, o filho da miséria e da dor...
À medida que o elevado mentor estendia suas mãos sobre a cabeça da entidade revoltada e aflita, a memória espiritual parecia trazer à tona o extracto de suas experiências pretéritas.
O fenómeno era natural, e, ao que me parecia, a presença de Cássio ao lado de Jessé, o perseguidor de Joana, ajudava a despertar as mais recônditas lembranças do espírito obsessor.
Eu a vi novamente, por diversas vezes nos encontramos em outras ocasiões.
Muitas e muitas vezes cruzamos nossos passos nas estradas da vida.
Miriam retornou, e eu também.
Ela foi a cigana maldita que me conquistou o coração e destruiu logo após a minha vida. Sim!
Isso foi depois, muito depois, lá na Boémia.
Mais tarde ela retornou à Terra na pessoa de Elácides, na antiga Bretanha, e eu novamente me vi seduzido pelos seus encantos e deixei-me arrastar pelos olhos cor de mel daquela que tantas vezes foi a minha ruína.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 11:12 am

E mesmo aí, com tantas dores e sofrimentos, vi-me rodeado pelo carinho de Adab, que também me acompanhava nesta jornada secular.
Ora minha mãe, ora amiga e companheira de tormentos, Adab era a única esperança para meu infortunado coração sofredor.
Mas há muito tempo que eu não via Adab.
Aliás, desde que o ódio se instalou definitivamente dentro de mim.
Desde que eu reconheci Miriam, Elácides, Palmira e Lucrécia, escondidas todas elas na roupa desgraçada de Joana.
Ela pensava que iria se esconder de mim. Não mesmo!
Não adianta ela se disfarçar de Joana, pois agora serei eu o autor da desgraça dela.
Contratei outros espíritos para se aliarem a mim, em meu desejo de vingança.
Prometi a eles a própria Joana.
Eu mesmo a entregarei em suas mãos, para extraírem dela a última gota de seus fluidos; para que suguem as últimas reservas de energia que lhe restem.
Eu apenas assistirei, rindo gostosamente de sua miséria, e ela verá, ela sentirá na pele a própria infelicidade da qual me viu lamentar por tanto tempo...
Cássio aproximava-se cada vez mais do companheiro cego de vingança.
Em determinado momento se deteve, retirou suas mãos de sobre a cabeça do espírito vingador, como se interrompendo as lembranças do passado que eclodiam na mente da entidade perseguidora, e orou.
Neste momento presenciei algo que era um misto de divino e maravilhoso.
Cássio transubstanciava-se ante nossa presença.
E mais: enquanto acontecia o fenómeno, quando Cássio orava, o espírito perseguidor de Joana caía ao solo, afectado pela visão que se fazia presente ao seu lado.
Cássio parecia diluir-se em névoas luminosas e evaporar-se em meio às cintilações de estrelas que provinham de sua alma já experimentada.
As feições de Cássio foram aos poucos se modificando ante a nossa visão espiritual.
Assumia agora a forma feminina; uma mulher que aparentava mais ou menos 50 anos de idade, igualmente envolvida em intensa luz.
As vestes lembravam as vestimentas simples dos tempos recuados da Judeia.
Sobre a cabeça, um manto cobria-lhe agora os cabelos esbranquiçados, e os olhos reflectiam talvez a tranquilidade das águas do Jordão.
Era Adab, a velha Adab das recordações do companheiro infeliz.
— Meu filho, por que tanto ódio e sentimento de vingança em teu coração? — começou a falar Cássio, sob a aparência da velha judia.
— Não posso acreditar, meu filho, que dentro de ti possa ter se instalado tanto ódio, quando já vivemos juntos tantos momentos de amor...
Enquanto Adab falava, achegando-se ao perseguidor de Joana, o espírito revoltado perdia as forças, vencido pela manifestação de amor.
Parecia-me que o obsessor deixara-se cair nos braços de Adab, que agora o aconchegava ao colo, como uma mãe prestimosa.
Lágrimas desciam do rosto de Adab, que segurava o espírito entre seus braços, com imensa demonstração de carinho.
Era a vitória do amor sobre o ódio, da luz sobre as trevas.
Adab prosseguiu:
— Filho amado, venho acompanhando teus passos e abrigando-te em meu coração por longo tempo.
Sei que não podes me ver, meu filho, mas com certeza poderás sentir minha presença acariciando-te como a brisa que um dia soprou sobre nós nas terras abençoadas de nosso povo.
"Não compensa o ódio, meu filho.
Quando fazes alguém sofrer, igualmente sofres e projectas a dor sobre outras pessoas que são queridas por ti.
"Vês a Joana? A nossa Joana?
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 11:12 am

Eu a abriguei em meus braços como filha querida, nesta última existência em que ela sofre a tua perseguição.
Mudei apenas de corpo, meu filho, mas continuo por dentro a mesma alma feminina que um dia aprendeste a amar como a tua velha mãe Adab.
Vês a mãe de Joana, que sofre junto à filha perseguida pelo teu ódio?
Na certa não podes ainda identificar em Altina o teu amigo David, reencarnado com a missão de mãe, que tenta recuperar a nossa Joana.
Detém-te, meu filho.
Não prossigas forjando mais dor para o teu destino.
Na Terra e fora dela somos todos inocentes perante a lei divina, e nenhum sentimento de culpa nos é imputado pela divina bondade de Deus.
"Somos nós mesmos os nossos verdugos.
Deus não nos condena, meu filho.
Tanto Joana como nós somos ainda crianças espirituais, que, errando, tentamos acertar os passos nos caminhos que nos levam ao Pai."
Adab prosseguia falando ao coração do espírito, tocando-lhe com profundidade a alma doente.
Ao nosso redor, o ambiente espiritual parecia reflectir o sentimento elevado do momento.
Presenciei um facto extraordinário naquele local.
À medida que Adab ia falando ao coração de seu filho, os fluidos da paisagem espiritual na qual nos encontrávamos iam se modificando e transformando-se lentamente num ambiente mais agradável.
Flores perfumosas surgiam aqui e ali como fruto dos sentimentos de Adab, que se irradiavam por toda parte.
Ernesto, observando a minha curiosidade, esclareceu-me:
— Cada espírito forja em torno de si o próprio inferno ou cria o seu céu de conformidade com seus sentimentos e com a vibração de sua alma.
Como o perseguidor de Joana se demorava em pensamentos de vingança, alimentados por sentimentos e emoções descontroladas, os fluidos à sua volta plasmaram o ambiente desolado que vimos anteriormente.
Cássio, ou melhor, Adab, revivendo os pensamentos de amor em relação ao filho querido, anulou a força mental inferior que modelou o ambiente astralino, e, através da ideoplastia, do magnetismo superior de seu espírito, presenciamos a transformação lenta da paisagem espiritual à nossa volta.
— Então, o companheiro Cássio é na verdade a mesma Adab da antiga Judeia, que reencarnou como o pai de Joana?
— Sim, perfeitamente.
E não estranhe, Ângelo, pelo facto de um espírito que antes se revestiu de um corpo físico de determinado sexo apresentar-se em próxima encarnação em outro corpo, com sexo diferente.
A questão da escolha do sexo relaciona-se às necessidades evolutivas do espírito.
Havendo necessidade, o espírito troca de sexo em reencarnações futuras, de acordo com as experiências pelas quais tenha de passar.
Como vê neste caso, David, o companheiro do perseguidor de Joana, da época recuada da Judeia, renasce agora como Altina Gomides, e a velha Adab, que no passado foi a mãe do infeliz companheiro e vítima das intrigas e falsidades de Miriam, retorna ao palco das experiências físicas como Cássio.
Juntos abrigam no coração o espírito endividado de Miriam, que também foi, em outra encarnação, Efigénia, a filha de Henriqueta, e ambos faziam parte de minha família.
"Como pode observar, David, conforme as recordações do perseguidor desencarnado, não assumiu o corpo feminino apenas uma vez.
Antes que ele fosse Altina Gomides, vivemos juntos no passado, quando ele assumiu a forma de Henriqueta.
Miriam, por sua vez, foi a minha irmã querida nessa existência a que me referi, assumindo o nome de Efigénia."
— E você, então, nesta história toda...
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 11:12 am

— Eu sou a reencarnação do antigo marido de Adab, o velho Ozias; no passado distante, tive a felicidade de ser o pai de Jessé, o actual perseguidor de Joana.
A história se fechou. Encontramo-nos juntos novamente após tantos séculos de lutas e sofrimentos.
Entre nós, Cássio foi o que mais soube aproveitar as oportunidades que a vida nos concedeu, e hoje é o que reúne mais condições de auxiliar Joana.
Fiquei perplexo diante de tudo o que ouvia.
Imaginei como a história de nossas vidas se interligava por fios invisíveis que, ao longo do tempo, iriam se definindo nas experiências que deveríamos vivenciar.
O instrutor Ernesto convidou-me a silenciar e contribuir para que o momento que vivíamos pudesse ser aproveitado ao máximo.
Adab, ou Cássio, continuou falando baixinho, enquanto Jessé, o perseguidor de Joana, jazia abatido sobre os braços da veneranda entidade.
Não havia como resistir à força do amor.
O ódio de Jessé contra Miriam.
Joana não resistia tanto assim que pudesse se opor ao magnetismo amoroso de Adab.
Embora o espírito perseguidor não pudesse registrar a nossa presença, e principalmente a presença de Adab, ele registrava os sentimentos, enquanto os pensamentos de Adab eram recebidos em forma de intuição.
— Mãe, minha mãe...
Socorre-me, pelo amor de Deus...
Jessé, o perseguidor de Joana, não mais podia resistir.
A força do amor vencera suas últimas resistências.
— Socorre-me, pelo amor de Deus...
Os gritos e soluços do companheiro infeliz sensibilizaram a nossa alma ao máximo.
Lágrimas desciam de nossos olhos quando vi Ernesto se aproximar de Adab, auxiliando-a mais intensamente na tarefa de resgate daquela alma equivocada.
Com passes magnéticos, Ernesto fez com que o espírito adormecesse nos braços de Adab.
As lágrimas desciam dos olhos de ambos.
Para mim, que observava o desfecho daquela história, as lágrimas daqueles espíritos assemelhavam-se a orvalhos de luz que suavizavam as dores daquela alma rebelde.
Não tive como conter as emoções de minha alma.
A paisagem espiritual diluía-se em luz enquanto Adab retomava a forma espiritual de Cássio, dando por encerrada aquela etapa da história daquelas vidas.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 11:12 am

10 - A visita de Paulo

Comecei o entender que, em todo aquele tempo aparentemente perdido, apenas procurava pelas pegadas de Jesus.
Os dias passaram velozes sobre esses acontecimentos.
Encontramos novamente a pupila de Ernesto, a mãe de Joana, entretida entre os cânticos de louvor e os afazeres domésticos.
Altina Gomides dedicava-se às tarefas do lar, mas conservava a imagem da filha impressa na memória.
Como mãe, não podia ignorar a situação de urgência em que se encontrava a sua Joana.
Sofria calada, mas esperançosa.
Afinal, na igreja que frequentava, o pastor convocara uma equipe de fiéis que se reuniam constantemente em oração.
Faziam uma vigília, uma noite toda de leituras da Bíblia, cânticos de hinos e salmos, dedicada à recuperação de Joana.
Entretanto, Altina permanecia com algumas preocupações próprias de mãe, acrescidas de algumas dúvidas a respeito dos recursos oferecidos por amigos para a recuperação da filha.
— Ah! Meu Pai amado, não sei se fiz bem em aceitar a ajuda do Seu Paulo e do Seu Anastácio.
São tantas coisas na cabeça da gente que, confesso — pensava Altina Gomides —, não sei se fiz certo aceitando auxílio de alguém que não é evangélico.
Mas também eu não tinha nenhuma saída.
Altina justificava-se intimamente pelo facto de recorrer ao auxílio de Anastácio e também por saber da religião de Paulo, o benfeitor de sua filha.
— Ele é espírita! — pensava a respeito de Paulo.
Valha-me, Deus!
O sangue de Jesus tem poder!
Nem sei o que é pior para mim, se é ver minha filha sofrer ou saber que ela corre algum risco sendo tratada numa clínica espírita.
Tomara que o pastor não me pergunte nada a respeito.
Com os pensamentos conturbados, a pobre mãe continuou seus afazeres domésticos, cantando hinos de louvor e gratidão a Deus.
Ela não pensava assim por ser inimiga dos espíritas.
Ocorre que não tinha ideia formada a respeito do espiritismo, a não ser as informações que lhe eram transmitidas pelos pastores e missionários de sua pequena comunidade religiosa.
Para eles, o espiritismo era obra do demónio, e os espíritos, o próprio diabo disfarçado.
Altina tentou ficar livre desses pensamentos e distrair-se nos trabalhos que tinha a realizar.
Subitamente, sentiu que não estava sozinha em casa.
Algo ou alguém a espreitava.
A princípio julgou que era apenas imaginação sua, já que antes estava pensando a respeito de certas coisas estranhas, como seja o espiritismo...
Dirigiu-se então para o pequeno quarto de dormir, quando sentiu que alguma coisa a tocou no ombro direito.
Seus cabelos se eriçaram.
— O sangue de Jesus tem poder!
Começou a entoar hinos cada vez mais alto, tentando disfarçar o nervosismo.
Nesse clima de mistério que a envolvia, resolveu parar com os cânticos e ler um comentário bíblico, uma passagem do Livro Sagrado.
Fechou os olhos como que em oração e, abrindo o livro ao acaso, deparou com o livro dos Actos dos apóstolos, no capítulo 2, quando Pedro e os demais apóstolos recebem os dons do espírito.
Se Altina pudesse dilatar a sua visão naquele momento e penetrar a outra realidade da vida, veria que, ao seu lado, um espírito amigo a induzia na escolha do texto sagrado.
Não era o acaso que a levara a abrir a Bíblia exactamente naquele livro e capítulo.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 11:12 am

Terminada a leitura do texto, Altina pronunciou sentida prece, rogando a Deus a bênção para o seu lar.
Eis que, novamente, sentiu uma mão tocar-lhe a face suavemente, desta vez mais lentamente.
O coração da mulher disparou, a pulsação alcançou um ritmo acelerado, e ela parecia desfalecer, sentindo as forças a abandonarem.
Continuou a orar a Deus, entre o medo do invisível e a vontade louca de sair correndo.
Conteve a custo o grito que já se esboçava em sua boca.
A situação se suavizou um pouco, e ela alcançou maior equilíbrio.
Levantou-se e dirigiu-se à porta que levava para a rua.
Ensaiou sair de casa e, então, ouviu um sussurro atrás de si.
— Tina, minha Tina! Sou eu, o Cássio.
Altina pára como que petrificada.
Não pode ser. Cássio já morreu.
O seu Cássio, o pai de Joana e companheiro dilecto do seu coração, agora repousava no paraíso, esperando a ressurreição no dia final, quando Jesus voltasse nas nuvens do céu.
Ela não conseguia movimentar-se direito.
Suas pernas recusavam-se a lhe obedecer.
Sentiu o sangue congelar em suas veias.
Como gostaria de ver o seu Cássio.
Como seria bom abraçar novamente aquele que fora um exemplo de cristão, de marido e pai.
— Mas, assim, não!
Deus me livre. Jesus me salve!
— Tina, minha Tina, não tenha medo. Sou eu...
A voz teimava em lhe falar.
Agora ela tinha certeza.
Só o seu Cássio a chamava assim, de "minha Tina".
Mas ele estava morto, no paraíso...
Altina tentou virar-se lentamente, e o que viu fez com que ela sentisse a vida abandonar o seu corpo cansado.
Jamais imaginaria que algum dia veria um espírito.
E jamais pensaria que, se isso ocorresse, seria justamente o espírito do seu querido Cássio.
Suspensa a uns 30 centímetros do chão, pairava a forma de um homem de mais ou menos 50 anos de idade.
Vestindo um terno impecavelmente branco, trazia nas mãos um buquê de flores pequeninas e, aberto, um livro do qual irradiava intensa luz.
— Sou o Cássio, minha Tina, estou aqui para ampará-la e inspirá-la, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo — falou o espírito.
E, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, Altina desmaiou ali mesmo, entre a manifestação de seu antigo companheiro e as últimas palavras que conseguiu balbuciar:
— Oh! glórias, glórias, aleluia...
Havia algum tempo que Anastácio e Paulo batiam palmas, chamando à porta da pequena casa onde morava Altina Gomides.
Chamavam em voz alta, despertando a atenção de uma vizinha, que se mostrava curiosa quanto a tudo o que acontecia na vizinhança.
— Moço, moço! — chamava a berros a vizinha.
Se mal pergunto, por acaso vocês querem saber da D. Altina?
E sem esperar a resposta dos visitantes, a mulher foi logo acrescentando:
— Ela está aí, sim.
Agora mesmo eu a vi cantando tão alto que parece que queria converter o mundo inteiro.
Vocês sabem, não é?
Esse povinho crente chateia a gente com essa cantoria o dia todo.
Ah! Vocês sabem da última?
Dizem que Joana, aquela, a filha da Altina... está doida!
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 11:13 am

Doidinha varrida.
E também que está internada no pinel.
Coitada, a mãe nem de longe liga pra ela...
— Minha senhora, por favor! — interferiu Anastácio.
Nós só queremos falar com D. Altina, só isso.
— Ah! Eu tô reconhecendo o senhor. Tô sim.
A mulher saiu correndo de casa, segurando uma vassoura na mão direita, e dirigiu-se a Anastácio, falando sem parar:
— O senhor é o moço lá da padaria, não é?
Aposto que veio aqui cobrar da crente o dinheiro que ela deve ao senhor.
E, virando-se para Paulo, o amigo e benfeitor da família, disse, sem se preocupar muito com o que falava:
— Meu Deus do céu, que moço bonito é o senhor.
Aposto que é um irmão lá da igreja de D. Altina.
Acertei, não é mesmo?
E arrumando os cabelos, balançando-se toda, começou a gritar para dentro da casa de Altina:
— D. Altina, D. Altina... vem logo, tem visita pra senhora!
Voltando-se para os dois visitantes, que a essa altura estavam sem saber o que fazer com a situação constrangedora, falou, modificando o tom de voz:
— Aposto como ela está fingindo que não ouve.
Tem gente que faz de tudo pra não pagar o que deve.
Mas deixa comigo, eu faço ela vir loguinho, loguinho.
Al... tinn... naaa!
Altina, minha filha, é notícia de sua Joana, vem logo, sua boba...
Paulo e Anastácio resolveram interferir para evitar maiores escândalos.
Com muito jeito, convenceram a mulher a se retirar.
Quando pensaram que haviam conseguido solucionar o problema da intromissão, a mulher retorna, apressada, e diz para os dois, que ficaram boquiabertos:
— Ah! Eu já ia me esquecendo de me apresentar.
Prazer, meu nome é Mariquinha.
Sou a melhor amiga de D. Altina e de Joana.
Precisando de alguma coisa — falou rebolando — é só pedir.
Saiu a mulher toda saltitante, deixando os dois sem entender nada.
Olhando para Paulo, meio sem graça, Anastácio resolveu dar uma olhada para dentro da casa, pois a porta da rua parecia entreaberta.
Se em meio a tanto barulho ninguém atendia à porta, Anastácio julgou que algo não ia bem.
Notou uma sombra ou algo parecido, como se alguém estivesse deitado no chão.
Falou para Paulo:
— Acho que devemos nos atrever e entrar.
Parece que tem alguém deitado no chão.
Isso não é comum.
— Vamos logo, Anastácio, não nos demoremos.
Quando os dois passaram pelo portão e se viram no umbral da porta, entenderam o que se passava.
Altina estava estendida, desmaiada.
Entraram imediatamente e socorreram a mulher, transportando-a para um sofá.
Aos poucos Altina Gomides foi retornando à realidade, após os cuidados prestados pelos visitantes.
— Me desculpem, vocês. Não sei o que aconteceu.
Parece que eu vi o Cássio, e, então, apaguei.
Ai, meu Jesus, o que está acontecendo?
Paulo e Anastácio foram informados por Altina do que ocorreu em sua casa, a respeito da visão que tivera e do medo intenso que a dominava.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 11:13 am

— Não se preocupe, D. Altina — falou Paulo.
O que lhe aconteceu é algo muito comum, só que, não tendo explicação imediata para o facto, a senhora se assustou.
— Deus me livre disso; eu acho que a minha vida está dando uma reviravolta.
Desde que Joana saiu do hospital, no ano passado, têm acontecido coisas estranhas connosco.
— Que é isso, D. Altina? — interferiu Anastácio.
Talvez a senhora esteja muito cansada de toda essa situação com a Joana e, aí, não está aguentando a pressão.
Mas, olha bem, devemos ficar felizes, pois a Joana está agora sendo tratada direitinho.
— É isso mesmo, D. Altina — continuou Paulo.
Vim aqui mais o Anastácio para ver se está tudo bem ou se lhe falta alguma coisa.
Temos muito ainda a fazer em benefício de Joana.
A senhora precisa se fortalecer.
— É, Seu Paulo, mas agora é que estou preocupada mesmo.
Depois disso que aconteceu comigo nem sei como dizer ao pastor lá de minha igreja que um espírito apareceu para mim.
Tenho medo de que os irmãos da igreja pensem que eu me afastei de Deus.
— Não fique tão apreensiva, D. Altina, tente encarar tudo isso com mais tranquilidade.
O facto de um espírito ter lhe aparecido não significa que terá de mudar de religião.
— Eu nem posso pensar nisso, Seu Paulo, eu nem quero pensar nessa possibilidade.
Imagina só, eu, uma serva do Senhor!
Fui lavada e banhada no sangue de Jesus e baptizada com o fogo do Divino Espírito Santo.
Ai, meu Jesus! Isso não pode estar acontecendo comigo.
Eu entreguei o meu coração para Jesus...
— É claro, D. Altina, é claro.
Eu acho que aqueles que entregam a sua vida a Jesus são protegidos por Ele, que é o Senhor e Mestre de todos nós.
Quem sabe o espírito de Cássio não voltou apenas para lhe dizer que tem a permissão de Deus para lhe auxiliar no caso de Joana?
Pense nisso.
— Será mesmo, Seu Paulo?
Mas ele era crente em Jesus.
Como é que um crente, alguém que já morreu, pode voltar assim, me assombrando? Ele é um finado.
Defunto, que eu saiba, não retorna de uma hora para outra para atormentar os vivos.
— Será que a senhora não se lembra da Bíblia, D. Altina? — perguntou Paulo.
— Que tem isso a ver com a Bíblia7.
— Se a senhora é uma crente em Jesus e acredita na Bíblia, com certeza vai se lembrar que está escrito no Novo Testamento o encontro que Jesus teve com os espíritos de Moisés e Elias, não se lembra?
— Claro que me lembro.
Mas Jesus é Jesus.
Ele é o Senhor da Glória.
Ele pode tudo.
— Mas o Mestre não falou que se nós acreditássemos nele poderíamos realizar as mesmas coisas que ele realizou e muito mais?
Ou a senhora não se lembra também desse ensinamento?
— Ora, Seu Paulo, então, sendo o senhor um espírita, também lê a Bíblia7.
Eu pensava que o espiritismo era contra Deus e a Bíblia.
— Claro que não, D. Altina — interferiu Anastácio.
Olha que eu tenho até lido um livro que o Paulo me deu de presente e que fala muito mesmo de Jesus.
É O Evangelho segundo os espíritos.
— O Evangelho segundo o espiritismo, Anastácio!
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 11:13 am

Isso mesmo, D. Altina.
Temos no espiritismo os ensinamentos de Jesus como sendo o que de mais importante há para as nossas almas.
Acreditamos em Jesus e também nos entregamos a ele para conduzir os nossos destinos.
Só não acreditamos naquilo que as religiões ensinam a respeito dele.
— Ora essa, Seu Paulo.
Agora eu não entendi nadinha de nada.
Sorrindo, Paulo deu uma boa desculpa e ensaiou se retirar juntamente com Anastácio.
— Não se preocupe com isso agora, D. Altina.
Não é importante que a senhora compreenda essa questão agora.
Temos muito tempo para conversar.
Agora, o que importa é que a senhora...
— Al... tinn... naaa!
Altina queridinha, adivinha quem é que está chegando...
Era a vizinha, que, não aguentando de curiosidade, invadira a casa para ouvir a conversa.
— Sou eu, Altina.
Com licença, vocês.
Sou a sua melhor amiga.
Ma-ri-qui-nha! Vim trazer aquela xícara de café que você me emprestou naquele dia.
Você se lembra, não é?
Os três foram interrompidos abruptamente com a chegada da vizinha, que vinha enriquecer o diálogo com suas profundas observações filosóficas.
— Vocês sabem, não é?
Acho que Altina já falou pra vocês que nós duas somos como irmãs.
Aliás, irmãs gémeas, não é, Altina?
Olha que eu não sou tão crente assim, como a Altina, mas eu a-do-ro Jesus.
Fala com eles, Altina, fala, mulher...
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 14, 2016 11:13 am

11 - Conversa íntima

Vi-me mais sensível pelo experiência do sofrimento.
O tempo passou.
Os dias em que fiquei internada naquela fazenda, em tratamento, pareciam uma eternidade para mim.
Até que o lugar era bonito.
A clínica funcionava também como um retiro.
Mas as coisas não foram tão fáceis e suaves para mim.
Cortar o vício da cocaína e da heroína parecia o diabo.
Nunca sofri tanto assim.
Eu havia perdido a esperança de ser alguém, algum dia.
É possível que, se eu tivesse me esforçado, talvez conseguisse ser alguma coisa na vida.
Mas eu estava ali; internada e recebendo tratamento desse bando de gente estranha.
Todo dia era remédio e mais remédio. E aquela psicóloga?
Quem ela pensava que era?
A revolta me dominara por completo.
Eu precisava sair dali. Mas para onde iria?
Resolvi então colocar em evidência meus próprios métodos de me livrar dessas situações difíceis.
Transformei-me num problema sério de disciplina lá na clínica.
Passei a brigar com os trabalhadores do local.
Fazia pouco caso do tratamento e faltava constantemente às visitas à psicóloga.
Ninguém conseguia entender a razão da minha rebeldia. Nem mesmo eu.
Com o tempo, porém, fui me cansando de minhas próprias atitudes.
Que povinho estranho!
Parecia que os tais médicos não desistiam de mim.
E aquela mania de fazer orações, de rezar e cantar?
Isso de certa forma me lembrava minha mãe e também meu pai.
Engraçado é que de uns tempos para cá comecei a sonhar com papai.
Aquela voz mansa me chamando.
Nem sei por que estou falando nisso.
Até então eu era uma pessoa seca.
Não me comovia com nada. Nada ma fazia chorar.
Mas em apenas dois meses ali eu abati meu orgulho.
Os sonhos com papai se tornaram cada vez mais constantes, só que eu não me lembrava direito dos detalhes.
O que mais me chateava naquele lugar eram os tratamentos de desintoxicação.
Nunca bebi tanto líquido em minha vida.
Tudo muito natural, para minha infelicidade.
Outras pessoas estavam também internadas ali.
Eu não ligava muito para elas.
Que se danem, eu pensava.
Mas com o tempo fui me sentindo sozinha, e a saudade de mamãe só agora tocava o meu peito.
Foi numa dessas noites de inverno, quando eu estava sentada na varanda da casa de dormir, que a saudade bateu mais forte.
Aí eu não aguentei e chorei.
Não sei quando eu havia chorado antes.
Creio que aquele choro foi uma espécie de válvula que se abriu em minha alma.
Eu não aguentava mais segurar a barra.
Na verdade, eu não me aguentava.
As pessoas que estavam ali comigo se reuniram num canto do extenso salão para cantar e rezar.
Eu me conservava afastada.
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