ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 11:17 am

Mas, naquela noite, enquanto eu chorava, as pessoas que participavam do programa de reabilitação junto comigo pareciam se comportar diferente.
Eram tão viciadas quanto eu, mas agora pareciam diferentes.
Cantavam — e mais: queriam sair dali curadas.
E quanto a mim? O que eu queria?
Não saberia responder naquele momento.
Desejava apenas chorar. Nada mais.
Lágrimas, apenas lágrimas sentidas e mornas desciam dos meus olhos naquela noite.
Eu não podia acreditar!
Eu, a Joana, estava chorando!
Creio que nem eu mesma acreditaria que alguma força superior tocara meu
Minha mãe diria que foi a mão de Deus. Que seja!
Eu fui por muito tempo fria e insensível.
Quem me conhecesse não compreenderia o significado das minhas lágrimas.
Mas eu tinha que mudar.
Claro que estranhei os meus próprios pensamentos e sentimentos.
Parece-me que depois de longo tempo eu estava pensando em mim mesma.
Era como se antes eu estivesse hipnotizada, e, agora, liberta de alguma influência estranha que talvez tivesse se apoderado de mim.
Não sei ao certo. Mas agora eu me sentia diferente, estranhamente bem, depois das lágrimas derramadas.
De repente, é como se eu ouvisse a voz do meu pai ressoando dentro dos meus pensamentos:
"Louvado seja o Senhor!"
Ou seria pura imaginação minha?
Aproximava-se o dia em que eu deveria voltar para casa e encarar minha mãe novamente.
Como seria isso para mim?
Como seria para a mamãe me rever depois de dois meses de separação?
Mas eu precisava, eu desejava me modificar completamente.
Por quê? Eu não sei direito, apenas sentia necessidade de retornar para casa e rever minha mãe, tentar recuperar o tempo perdido.
Será que era possível?
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Ave sem Ninho

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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 11:19 am

12 - Lágrimas

Por isso o procurei pelo mundo.
Joana recebeu a visita de Paulo na clínica; ele viera para buscá-la e conduzi-la para casa.
Ela queria agradecer-lhe, mas, como não estava acostumada com gentilezas, tentou ensaiar algo para dizer.
Porém, o orgulho era maior que suas forças.
Não conseguiu de imediato.
— Então, como está a nossa Joana, doutor?
— Graças a Deus, parece que a menina se recuperou muito, Paulo.
— Menina? — perguntou Joana.
Acho que vocês estão querendo é ganhar a minha confiança.
Basta olhar para mim que qualquer um saberá a minha idade.
Não sou mais uma menina.
— Claro que é — respondeu Paulo.
Todos nós somos meninos e meninas.
Tanto para nossos pais, quanto para Deus.
É só questão de ponto de vista, não é, Dr. Adalberto?
— Claro! Joana, tem dias na vida em que a gente se comporta igual a meninos travessos.
Outros dias, outras vezes, nos comportamos igual a meninos bonzinhos.
Todos nós estamos brincando de adultos, mas, no fundo, no fundo, somos mesmo é crianças espirituais.
— Bem, mas quero saber mesmo, doutor, é se Joana já está liberada para retornar para casa.
Parece-me que ela está completamente renovada.
— Ah! Como eu gostaria de voltar — pensou Joana.
— O que você acha, Joana? — perguntou o médico de plantão, Dr. Adalberto.
— Eu? Acho que já tenho condições de voltar.
— Você acha? — perguntou Paulo.
— É! Eu acho.
Na verdade estou muito envergonhada por tanta coisa que andei aprontando.
Nem sei como encarar minha mãe depois de tudo...
— Não se preocupe, Joana — falou o médico.
Essa coisa de vergonha não deve ter lugar dentro de nós.
Você é muito amada e esperada.
Tenho certeza de que sua mãe estará de braços abertos esperando por você. Não acha?
— Não sei, doutor. Não sei mesmo.
O senhor nem imagina o que já andei aprontando por aí...
— Ah! mas tenho certeza de que agora você é outra. Isso é o que importa.
— Mas, então, doutor, ela vai ou não vai para casa? — perguntou Paulo.
— Claro que sim.
Apenas gostaria de dar algumas recomendações, que, creio, poderão auxiliar muito a nossa Joana.
Como você sabe, Joana, aqui nós só trabalhamos com medicamentos naturais e homeopáticos.
Portanto, o que vamos indicar para você não é nada diferente daquilo que já experimentou aqui.
O mais importante de tudo não é que você tome os medicamentos, apenas.
Qualquer remédio que o ser humano ingerir precisa encontrar na pessoa em tratamento uma espécie de ressonância, para que surja o efeito desejado.
— Não entendo, doutor.
— Por exemplo: você alcançou a sua melhora aqui, na fazenda, em nossa clínica, não apenas pelo tratamento de desintoxicação ou pelos medicamentos que você tomou.
Com certeza você fez o seu próprio esforço por melhorar intimamente.
— Se eu fiz, doutor, eu nem notei.
— Mas nós notamos, Joana, nós notamos.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 11:19 am

Veja como você chegou aqui, há dois meses.
Estava revoltada, com raiva e repelia a nossa ajuda.
Com o tempo, você se integrou com a turma da clínica, com os outros companheiros em tratamento e foi se modificando pouco a pouco.
Um mês depois, você já participava do culto no lar, fazia orações e...
— Mas eu não virei espírita por isso.
Eu apenas achei bonito o que as pessoas faziam.
— Eu sei, eu sei, Joana.
Mas, ouça bem, você se modificou intimamente.
Isso você não pode negar.
Eu até vi você chorando outro dia...
— Isso foi fraqueza minha, doutor...
— Ou pode ser outra coisa também, não acha?
— Outra coisa? Não entendi!
— Pode ser que você se libertou de algum peso que carregava consigo.
Quem sabe, Joana, suas lágrimas representavam a sua fortaleza espiritual?
Paulo ficava calado ouvindo toda a conversa.
— Fortaleza espiritual?
Qual nada, foi fraqueza minha, mesmo.
— Não acho que seja isso.
Depois das lágrimas derramadas, vem o alívio do coração.
— Isso é verdade, doutor.
Até parece que uma represa se rompeu dentro de mim e que as lágrimas me aliviaram por dentro.
— Então? Veja só quanto você se modificou.
O importante daqui para frente é que você continue se tratando direitinho.
Não deixe que a depressão tome conta de você de maneira alguma.
É preciso combater o pessimismo e começar a fase mais difícil de todas, que é a aquisição de valores nobres, acalentando pensamentos felizes e optimistas.
— Isso vai ser difícil, doutor.
O senhor sabe um pouco da história de minha vida...
— Claro que não é assim! Você vai conseguir.
O pagado não importa, Joana. Agora só depende de você.
Olha, eu acho até que você é muito feliz.
O Paulo já me falou que sua mãe é evangélica, e aí você já terá elementos de sobra para prosseguir.
Com certeza sua mãe deve orar muito.
É importante, neste momento, que você participe das orações em família.
Você também tem o Paulo, que, com certeza, estará acompanhando de perto o seu caso.
— Então, doutor? — perguntou Paulo.
Ela vai ou não vai embora?
— Claro, claro!
Pode arrumar suas coisas, Joana, estaremos esperando aqui por você.
Eu passarei ao Paulo as instruções quanto a uma dieta e ao tratamento.
Ficando a sós, enquanto Joana saiu para buscar os seus pertences, os dois aproveitaram o tempo para maiores entendimentos.
— Então, Dr. Adalberto, o que o senhor acha do caso de Joana?
— Bem, eu nem sei como lhe dizer, Paulo; tenho medo de aprofundar mais no assunto...
— Fale, doutor, este é o momento em que podemos falar mais à vontade.
— Claro, Paulo, é claro!
Hesitando um pouco, Adalberto prosseguiu:
— O caso de Joana merece maiores cuidados.
Você, por certo, já sabe que ela é vítima de um longo processo de obsessão, não é?
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 11:20 am

— Sim, doutor. Inclusive já tive a oportunidade de levar o nome dela para as nossas reuniões lá, no centro.
Parece-me que o caso vem de séculos de perseguições.
— É até difícil para nós, aqui, na clínica, trabalharmos em processos como este.
Não temos ainda condições de reunir médiuns para a tarefa de desobsessão.
Embora tenhamos uma orientação espiritual, ainda não possuímos pessoal suficientemente comprometido com esse tipo de tarefa.
Resumimos o nosso atendimento às terapias alternativas, aos passes e a orientações morais.
Para outras coisas dependemos inteiramente da ajuda de outros companheiros.
— Não se preocupe, doutor, continuarei me interessando pelo caso de Joana.
— Mas não é só isso que me preocupa, Paulo, não é só isso.
Como você sabe, a Joana abusou muito da sorte, envolvendo-se com gente da pesada.
Mais ainda, ela se expôs demais, usando seringas para injectar as drogas que consumiu.
— O que o senhor quer dizer, doutor?
Vamos, pode falar directo.
— Bom, eu acho que não tem como esconder a minha preocupação, Paulo.
Joana estava internada aqui, connosco; tivemos de realizar alguns exames.
Colhemos a mostra de seu sangue e procedemos à rotina de sempre. Nada de especial.
Só que, observando os resultados, vimos que as defesas imunológicas de Joana estavam muito baixas.
Aliás, baixas demais, o que nos preocupa bastante.
— Mas isso não é normal no caso dela, doutor?
— Isso não é normal no caso de ninguém, Paulo.
No entanto, refiro-me ao facto de que as células de defesa de Joana baixaram além dos limites...
— O que isso quer dizer exactamente, doutor?
— Bom, Paulo, considerando que Joana já teve um comportamento de risco, creio que o melhor mesmo é encaminhá-la para outro médico e realizar exames mais detalhados.
— Quer dizer, HIV?
— Isso mesmo, Paulo.
Infelizmente mantenho a suspeita de que Joana se infectou com as picadas, nas rodas de droga a que se entregou no passado.
— Mas isso é só suspeita ou tem algo mais confirmado?
— Por enquanto é só suspeita, mas convém não brincar com o caso.
— Por que vocês não fazem aqui o exame para verificar com mais certeza?
— Não podemos realizar o teste anti-hiv contra a vontade do paciente.
E, no caso de Joana, creio que seria melhor outro médico fazer o pedido.
Já que ela volta hoje para São Paulo, é melhor conduzi-la urgentemente para novos exames.
— Como devo falar nesse assunto com Joana, doutor?
Não sei como me comportar nesse caso.
— Tenha cuidado, Paulo.
Joana está numa fase em que necessita de muito cuidado, quando abordarmos certas questões delicadas.
Use a intuição.
Com certeza, os amigos espirituais o auxiliarão no caso.
Quando Joana voltar, eu mesmo tentarei algo que a auxilie.
Quem sabe não conseguiremos alguma coisa dela?
O importante é que ela deve manter a serenidade e o optimismo, o que, no presente caso, vai requerer muito de você e da família dela.
Mal o médico acabou de falar, Joana foi entrando na sala, carregando sua mala para viagem.
— Deixe que eu a ajude — falou Paulo.
— Não precisa, Paulo, tem pouca coisa, mesmo.
Eu dou conta de carregar.
— Creio que agora a gente já pode ir, não é, doutor?
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 11:20 am

— Um momento, Paulo.
Preciso passar algumas coisas para Joana.
— Passar o que, Dr. Adalberto?
— Calma, Joana, é apenas uma prescrição para que você procure um médico lá, em São Paulo.
— Procurar um médico?
Eu pensei que era só seguir os conselhos do senhor lá, em casa, mesmo...
— É claro que você poderá se ajudar muito, Joana, conforme nós já conversamos antes.
Mas também é preciso que você continue com a orientação médica.
Um bom médico poderá lhe ajudar a se recuperar rapidamente.
— Já que não tem jeito, doutor...
— Bom, eu quero que você seja muito feliz e que em breve possa vir nos visitar.
— Eu não sei agradecer direito, doutor...
— Não precisa, Joana, não precisa.
Basta tomar conta de você mesma.
E você, Paulo — falou Adalberto com um breve piscar do olho esquerdo — procure tomar conta direitinho da Joana.
— Tomarei conta dela pessoalmente, doutor, mas acho que ela já está muito bem, mesmo.
— Cuidem-se, amigos. Cuidem-se!
A conversa terminou ali, enquanto Paulo e Joana partiam rumo à capital.
Iriam de ônibus, o que daria tempo para continuarem a conversa.
Com certeza, na viagem de volta, ambos poderiam estreitar os laços de amizade.
Até aquele momento, Paulo fora o benfeitor de Joana.
A partir de então, eles deveriam se aproximar ainda mais.
Poderiam conversar, trocar experiências.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 11:20 am

13 - Novo nascimento

Todo erro, toda fuga é também uma procura.
Minha mãe nunca me havia parecido tão bonita quanto desta vez.
Quando desci do ônibus na Barra Funda, não podia imaginar que seria capaz de sentir tanta emoção assim.
Os olhos de minha velha mãe pareciam saltar como duas pérolas iluminadas.
Lágrimas caíam de nossos olhos. Eu chorava.
Chorava sem parar, abraçada com minha mãe.
Ela apenas dizia, acariciando meus cabelos:
"Louvado seja o nome do Senhor Jesus!"
Neste momento, deixei-me arrastar por uma alegria indizível, que me invadiu.
Eu tinha uma mãe, e ela me amava, apesar de tudo o que eu aprontei durante a vida toda.
Paulo estava radiante, e nos abraçamos os três.
Apenas dois meses haviam se passado longe de mamãe e eu já me sentia outra.
Talvez a distância física tenha servido para mim como um choque que me despertou para aquilo que eu nunca antes dera importância.
Enquanto nós duas chorávamos, Paulo parecia sorrir.
Ele, na verdade, se rejubilava diante das emoções que eu conseguia extravasar pela primeira vez, durante longos e longos anos.
Durante todo o trajecto da viagem de retorno a São Paulo, eu e Paulo falamos muito.
Parece que éramos duas maritacas falando o tempo todo.
Não conseguíamos parar de falar.
Mesmo ali, no terminal da Barra Funda, enquanto toda emoção reprimida em minha vida se extravasava em lágrimas, nos falávamos um com o outro.
Falávamos sem palavras, só com o olhar e pelas lágrimas.
Isso tudo estava sendo muito bom para mim.
Creio que nesse pouco tempo que passei lá na clínica muita coisa se modificou dentro de mim.
Será que foi só o tratamento?
Não sei dizer direito.
Sei apenas que eu nunca me senti assim antes.
Nunca senti tanto o afecto de minha mãe e tanta felicidade em revê-la como agora.
Também com o Paulo as coisas aconteciam de forma diferente.
Encontrei nele um bom amigo.
A viagem de volta serviu como oportunidade para que eu o conhecesse melhor e para que pudesse me abrir pela primeira vez com alguém, sem medo de ser mal-interpretada.
Estranho, tudo aquilo.
Mas confesso que eu gostava da nova maneira como estava encarando a vida.
Até então eu não conhecia minha mãe direito.
Parece-me que, naquele dia, era o início de um período diferente em minha vida.
Certo que eu tinha ainda muita coisa a modificar dentro de mim, mas pela primeira vez eu desejava fortemente ser outra mulher.
Chegamos em São Paulo um pouco antes do Natal.
Faltavam poucos dias para as comemorações do aniversário de Jesus.
Creio que minha mãe, o Paulo e alguns amigos estavam me preparando uma boa surpresa.
Era um Natal diferente para mim.
Resolvemos comemorar juntos naquele ano.
Foi assim que minha mãe convidou Paulo, Seu Anastácio com a família e o pastor lá da igreja que minha mãe frequentava.
Deixei-me embriagar pelo clima de festa e até andei ensaiando alguns agradecimentos.
Quem me conheceu antes, como o Seu Anastácio e os vizinhos, nem conseguia acreditar.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 11:20 am

Eu estava diferente, mais leve.
Era como se um peso tivesse saído de meus ombros.
Naquele Natal as pessoas que me amavam prepararam presentes especiais para mim.
O pastor resolveu cantar um hino de louvor a Deus, que me fez chorar.
Ao terminar as orações de louvor e agradecimento, vi minha mãe em êxtase de tanta alegria.
Ela, coitada, não podia disfarçar tanta emoção.
Abrimos então os presentes.
Eram presentes simples, mas eu nunca antes ficara tão alegre por ganhar presentes como naquele Natal.
Minha mãe me presenteara com um hinário, em que eu poderia aprender música de louvor e gratidão a Deus.
O pastor deu-me uma Bíblia Sagrada.
Segundo ele, seria a certeza de minha salvação.
E Paulo me deu de presente um livro diferente:
O Evangelho segundo o espiritismo.
Vocês nem imaginam como o pastor olhou a minha mãe naquele instante.
Paulo disfarçou com um sorriso, e Seu Anastácio salvou a situação, pedindo para todos cantarem uma canção de Natal.
Enquanto todos cantavam, senti-me arrebatada pela melodia e lembrei-me dos velhos tempos de farras.
Onde eu estava no Natal passado?
Talvez pelas ruas, nas rodas de drogados ou, quem sabe, na prostituição.
Na verdade eu deveria estar "adoidada" por aí, conforme dizia no meu antigo vocabulário.
Como o tempo muda a gente!
Naquele Natal, eu estava ali com a família, toda sensibilizada diante da manifestação de carinho de tanta gente.
Resolvi me retirar da sala da pequena casa onde eu morava com minha mãe.
Entrei para o meu quarto para pensar um pouco.
O Natal parece exercer sobre a gente um estranho domínio, um fascínio mesmo.
Parece-me que alguém lá em cima, aqui dentro do nosso peito, seja lá onde esse alguém se encontre, aproveita a ocasião festiva das festas natalinas e arrebenta a última muralha, a barreira que por tanto tempo teimamos em manter.
O que seria isso?
Ainda não estava tão modificada assim a ponto de ter as respostas para todos os meus questionamentos.
Sei simplesmente que eu estava sensível, profundamente sensível naquele dia.
Sentei em minha cama, e de repente tudo à minha volta parecia ganhar um novo significado para mim.
Eu sentia como se mãos invisíveis estivessem por trás dos acontecimentos, trazendo-me de volta à realidade.
Como estava sendo importante para mim aquele convívio familiar, a casinha pequena, os gritos, os escândalos da vizinha, os hinos e orações de minha mãe.
Como estava sendo importante para mim o apoio que Paulo estava me dando.
Como o próprio Paulo estava sendo importante...
Sentia-me especialmente próxima dele naqueles dias.
— Joana, ô Joana?
Que faz aí sentada, menina?
— Ah! Paulo, eu já disse para você outro dia que não sou nenhuma menina.
— Eu sei, Joana, mas é o meu jeito de falar.
Olha, o pessoal está aí fora, todo mundo alegre e feliz por você.
Não fique aí toda recolhida, não.
Aproveite a festa e venha se alegrar.
— Não estou triste não, Paulo, é que tudo isso está sendo muito novo para mim.
Parece que estou mais sensível estes últimos dias.
— É a magia do Natal.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 11:21 am

Dizem certos amigos que tenho que nesta época Deus aproveita esta nostalgia que invade a gente e toca mais fundo em nosso coração.
— É, esses amigos seus até que não estão errados, não.
Diga-me, Paulo, você fala tanto de amigos que dizem isso, amigos que dizem aquilo...
— Mas é a primeira vez que lhe falo desses amigos, Joana, é só uma forma de expressão.
— Não é, mesmo.
E também não é a primeira vez que você me fala assim.
Olha que eu também tenho observado você; mas me diga, Paulo, quem são esses amigos que lhe falam tanta coisa bonita assim?
— Veja bem, Joana...
— Nada disso comigo, Paulo; fale-me sem rodeios.
— Já que você quer mesmo saber, os meus amigos, a quem sempre me refiro, são os amigos de Jesus.
Só isso — falou Paulo, dando um largo sorriso.
— Você não me engana, rapaz. Não me engana.
Saímos os dois e nos integramos à turma que estava na sala contando as alegrias do Natal.
Para muita gente era apenas mais um Natal, mas para mim era o início de uma vida nova.
Era, talvez, o meu novo nascimento.
Também foi naquele dia que tive a coragem de encarar Paulo de uma maneira diferente.
Tive a audácia de olhar bem fundo nos olhos dele e notei, pela primeira vez em minha vida, que os olhos de um homem também escondem a beleza do luar.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 11:21 am

14 - Shalom

Mas por todos esses caminhos não o encontrei, simplesmente porque...
Veja, Jessé, como Miriam está modificada — falou Adab para o antigo verdugo de Joana.
Veja, filho, Miriam agora não é mais a mesma.
Olhe estampadas em sua fisionomia as marcas do sofrimento.
Observe, Jessé, como ela se modificou com o tempo.
Agora ela se utiliza de um novo corpo, meu filho.
Ela nos atende com o nome de Joana.
Cássio, modificando a sua aparência perispiritual, revestia a forma da velha Adab, que vivera nas proximidades de Jerusalém, no primeiro século da era cristã.
O instrutor Ernesto também vivera àquela época, sob a roupagem física de Ozias, o pai de Jessé, o antigo perseguidor de Joana.
Àquela época, a nossa tutelada vivia na Judeia reencarnada como Miriam, a mulher que infelicitara a sua vida através de calúnias e intrigas, arrastando por quase dois mil anos os frutos de sua infelicidade.
Estávamos agora na pequena casa onde se reunia a família de Joana.
Aliás, onde a resumida família encontrava o seu abençoado refúgio.
Era Natal, e a alegria e sensibilidade que a comemoração do aniversário de Jesus proporcionava mostrou-se para a nossa equipe espiritual como um momento muito fértil.
Conduzimos para aquele ninho doméstico o espírito de Jessé, numa tentativa de reviver nele os sentimentos de outrora, quando ele ainda não se deixara macular pela ideia de vingança.
Ao ver a veneranda figura de Altina, o antigo obsessor identificou no mesmo momento o seu amigo David, com o qual compartilhara no passado muitos momentos de grande felicidade.
— David, então é você?
Como pode ser?
— É a lei da vida, meu filho.
O seu amigo David resolveu renascer e abraçar Miriam como a sua filha.
David assumiu o corpo físico de Altina Gomides para dar oportunidade de renascimento àquela que você perseguia.
— Mas, minha mãe, como isso pôde acontecer? Não entendo...
— Temos muitas coisas a entender ainda, Jessé.
Temos muito o que aprender.
Veja bem, meu filho, eu mesmo retornei em novo corpo físico para auxiliar a nossa Miriam.
— Como assim, minha mãe?
— Olha para mim, meu filho, a velha Adab; olhe bem.
Concentrando-se, Adab procedeu ao mesmo fenómeno de estruturação das células perispirituais, em sentido inverso.
A aparência feminina foi cedendo aos poucos, e uma luz intensa foi irradiando da forma perispiritual de Cássio, que ressurgia aos olhares atentos de Jessé.
— Sou eu mesmo, meu filho.
A velha Adab que você ama.
Pela lei divina dos renascimentos, eu assumi ao longo dos séculos diversas outras personalidades.
Em minha última existência física, fui Cássio, o pai de Miriam, reencarnada como Joana.
— Então todos vocês retornaram por amor a Miriam?
Só eu permaneci por tanto tempo preso ao ódio?
— Sim, meu filho, foi o que ocorreu.
Mas não nos detenhamos nos factos passados.
Aproveitemos a festa em que comemoramos o aniversário de Jesus e nos renovemos também.
— Mas não foi por causa desse Jesus que Miriam entregou a todos nós no passado?
— Exactamente, meu filho — respondeu Cássio.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 15, 2016 11:21 am

Mas também foi esse Jesus que conseguiu, com seu amor, amolecer os nossos corações e conquistar para sempre o coração de Miriam.
— E o meu pai, onde ele está agora?
Onde está meu pai, Ozias?
Olhando para o instrutor Ernesto, Cássio esboçou um leve sorriso.
Jessé olhou em direcção ao nosso instrutor, seus olhos se cruzaram, e, enquanto ouvíamos os companheiros encarnados cantarem os hinos de Natal, do nosso lado,
Ernesto e Jessé se abraçavam, pai e filho se reencontrando depois de quase dois mil anos.
Era o ano em que renasciam para Jesus dois filhos novos, Miriam e Jessé, que reencontraram o caminho do bem.
Eu os via agora, Ernesto, o iluminado instrutor, e Jessé, o antigo verdugo, abraçados na casa de Altina Gomides e Joana, transubstanciados em luz, na luz do perdão, na luz das luzes daquele Natal.
Não havia como deter a avalanche de sentimentos e emoções que extravasavam de todos naquele dia.
Do outro lado da margem do rio da vida, os amigos encarnados cantavam glória a Deus nas alturas e paz na Terra.
Do nosso lado, almas se reencontravam, prometendo um futuro de paz e entendimento.
Quando vimos Joana se retirando para o seu quarto, relembrando a vida de outrora, Cássio convidou-nos a segui-la.
— Veja a nossa Joana, meu filho.
Veja como ela se propõe a modificar-se.
Neste momento, Paulo entrou em cena, conversando com Joana e chamando-a para a sala.
O instrutor Ernesto, aplicando passes no córtex cerebral de Paulo, sensibilizou-o para que ele percebesse a nossa presença.
Paulo, com a sua discrição de médium de Jesus, anotou o pensamento de Ernesto e comentou com Joana.
— É a magia do Natal.
Dizem certos amigos que tenho — falou Paulo, referindo-se aos pensamentos que captara do instrutor espiritual — que nesta época Deus aproveita esta nostalgia que invade a gente e toca fundo em nosso coração.
A conversa entre Paulo e Joana continuou até eles se reintegrarem aos outros companheiros, que festejavam em outras dependências da pequena casa.
Aqui, entre nós, a alegria também era indisfarçável.
A família espiritual se reunira sob a bênção divina.
Era Natal.
Mais um ano do calendário da Terra em que comemorávamos o nascimento de Jesus.
Quase dois mil anos de aprendizado.
Nascia Jessé, nascia Miriam na pessoa de Joana, a nova filha de Jesus.
Nossa caravana partia da Crosta entre as alegrias do Natal e as luzes que avistávamos por toda parte, comemorando o aniversário do Salvador.
Retornamos a nossa comunidade espiritual para nos reunirmos com os companheiros espirituais numa festa de amor.
O firmamento estrelado reflectia as belezas da natureza, e a nossa colónia espiritual estava toda enfeitada, como eu nunca vira antes.
Todos os espíritos que comungavam os mesmos ideais de elevação espiritual nos reuníamos para relembrar Jesus.
Trouxemos connosco Jessé, que estava radiante diante da beleza que via reflectida na cidade espiritual.
— É Jerusalém! — ele falava a todo momento.
É Jerusalém renovada.
— Aqui, Jessé — falou Ernesto — você encontra exactamente aquilo que precisa.
Com o seu coração renovado, você se sintoniza com a cidade dos nossos amores.
Jerusalém representa, para nós, a cidade de Deus, a cidade de David, o recanto da paz.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 1:28 pm

— Shalom abere! — exclamava Jessé.
— Shalom, meu filho, shalom! — respondeu Cássio ao filho pródigo que retornava ao lar.
Na colónia espiritual com a qual nos sintonizávamos, comemorávamos também o Natal.
Festejávamos com todas as possibilidades que tínhamos à nossa disposição.
Mas naquele Natal, em especial, festejávamos a alegria do reencontro de uma família espiritual que, depois de quase dois mil anos, se abraçava, entre as estrelas, para comemorar Jesus que voltava aos corações.
Shalom — como disse Cássio.
Shalom aberé.
A paz novamente reina em Jerusalém.
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Ave sem Ninho

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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 1:29 pm

15 - Dores e paixões

Veio o amor, o amor por alguém que caminhava comigo.
A aproximação de Paulo com a família de Altina não se deu por acaso.
Seu envolvimento com Joana denotava algo muito mais profundo do que um acontecimento fortuito do cotidiano.
Os gregos antigos apresentavam em sua mitologia a figura de um deus brincando com dados, significando, esses dados, os destinos dos homens.
Mas a realidade da vida em nada se assemelha à lenda do país da Hélade.
Ninguém vive no mundo ao sabor de forças cegas ou à mercê de um ser superior que brinca de dados com as vidas humanas.
Ao contrário, tudo se encadeia no universo.
Tudo e todos estão ligados por fios invisíveis que se cruzam no tempo e no espaço, nas experiências vivenciadas no passado.
Ou, então, os encontros e desencontros da vida presente resultam em futuros compromissos, em futuros voos da alma em companhia daqueles com os quais conviveu e interagiu em sua passagem pelo palco do mundo.
Ao encontrar um outro ser, relacionar-se por alguns momentos ou por anos, ninguém permanece o mesmo.
Em tudo no universo há troca incessante de energias, de experiência.
Sempre adquirimos ou assimilamos algo do próximo, tanto quanto influenciamos o outro com a nossa presença em sua vida.
Nossa presença nas experiências do outro pode desencadear processos de dor ou de felicidade.
A participação de outra pessoa em nossas vidas também influencia de uma forma ou de outra aquilo que somos e, muitas, vezes, desencadeia processos cármicos que precisamos vivenciar.
Com Paulo e Joana não ocorreu diferente.
Os pensamentos do rapaz estavam povoados com a imagem de Joana.
A vida desta passou a ser preenchida com as imagens de Paulo, com a sua presença, com a sua ousadia em romper o preconceito, as dificuldades e aproximar-se, se envolvendo de tal maneira que não mais poderiam viver um sem o outro.
— Meu filho, noto-lhe os pensamentos e o semblante preocupado, ultimamente — falou Célia, a mãe de Paulo.
O que está acontecendo, meu filho?
Abra-se com sua mãe...
A casa em que Paulo residia era uma mansão, comparada à simplicidade da residência de Altina Gomides e Joana.
Ele morava no Bairro Ipiranga, junto com a mãe e mais três irmãos.
A conversa dos dois ocorria no jardim da casa, onde estavam acostumados a se reunir nas tardes de sábado, num bate-papo muito familiar.
— Ah! mãe, não é nada que mereça incomodar você.
Creio que devo ser mais discreto em meus sentimentos e pensamentos.
— Talvez seja o contrário, filho — falou Célia, aproximando-se de Paulo e abraçando-o.
Quem sabe não é exactamente o oposto e você esteja guardando sozinho seus pensamentos e sentimentos e agora deva compartilhar isso com alguém?
— Eu não gostaria de incomodá-la, mamãe.
Você sabe, as dificuldades que você vem enfrentando com a saúde, o papai longe de casa e os meus irmãos, sempre envolvidos com as badalações deles...
— Ora, meu filho, o que é isso?
Será que você está usando desculpas para fugir da sua mãe?
Ou será que não o conheço?
— Não é isso, D. Célia — respondeu Paulo, sorrindo forçado.
Mas veja que nós já temos muitos problemas por aqui, e não é hora de acrescentar mais fogo na fogueira...
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 1:29 pm

— Sabe, Paulo, mesmo que você se recuse a falar sobre o assunto eu vou insistir um pouco mais.
Os problemas sempre existem e existirão, e um a mais em nossas vidas não pesará muito.
Aliás, Paulo, não é você mesmo que diz que a gente tem de compartilhar os problemas a fim de vislumbrar os resultados?
Sei que é difícil, muitas vezes, os filhos se abrirem para os pais.
Entretanto, estamos numa situação em que a nossa família se vê diante de duas únicas saídas:
ou somos transparentes ao ponto de confiarmos uns nos outros ou então a família irá se diluir de tal maneira que perderá o contacto entre os seus membros e se perderá.
Temos de nos envolver, filho, mesmo que eu não concorde com as suas ideias ou você não aprecie as minhas.
Só não posso permitir que você carregue o peso de suas experiências sozinho.
Creio que todas as mães fariam o mesmo com seus filhos.
— Minha querida mãezinha, ai de mim se não fosse você... Abrace-me...
— Então? Não se abre com a mamãe?
Não se preocupe quanto a mim.
Estou enfrentando com muita coragem os problemas de saúde.
Afinal, você não é o companheiro de minha vida?
Não é o meu garotão querido, que nunca me abandonou?
Então? Vai falar ou não do que incomoda?
— Bem, creio que não há como resistir a sua chantagem...
Diga-me, mamãe, será que todas as mães são chantagistas assim?
— Paulinho...
— Está bem, D. Célia, tudo bem, mas não me diga que você não seja uma excelente estrategista.
— Bem, meu filho, não posso discordar completamente de você, mas convenhamos: que funciona, funciona.
São as armas de todas as mães.
Usamos do coração para atingir os corações dos filhos.
Isso nunca falha.
— É, creio que não falha mesmo.
Sabe, mãe, aquela garota da qual lhe falei meses atrás, a Joana?
— Sim, sim; diga, filho.
— Como lhe disse, eu estou muito envolvido com a família dela.
Juntos, já fizemos de tudo a fim de auxiliá-la nas dificuldades criadas pelo seu envolvimento com as drogas.
— E ela está correspondendo aos seus esforços?
— Sim, mamãe, claro.
Isso é muito bom.
Ela já passou da fase de perigo, e creio que até mesmo já se libertou do uso das drogas, só que os efeitos psicológicos são patentes.
A Joana está em fase de readaptação à vida social, porém um facto vem acontecendo e está me preocupando muito...
— Já sei! Você está apaixonado por ela.
— Mamãe, que mente suja...
— Ora, meu filho, só quem é bobo não percebe...
— Você acha?
— Claro, está expresso em seus olhos.
Eles brilham quando você fala no nome de Joana.
— Mamãe, você não presta.
— Não, mesmo, filho, e acho que, se você não correr logo, perderá um momento precioso em sua vida.
— Mas, mãe, não tenho certeza direito a respeito de meus sentimentos.
E quanto a Joana?
Não sei se ela sente alguma coisa.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 1:29 pm

Talvez seja apenas produto de minha imaginação.
Quem sabe não seja apenas preocupação com a vida dela?
— Não me venha com essa, meu filho.
Não fuja de sua felicidade assim.
Esses momentos em nossas vidas, Paulo, são muito preciosos para que os dispensemos dessa forma.
Não há como adiar a felicidade sem que haja sérias consequências para o coração.
Não resista, meu filho.
— É que tenho muitas apreensões em relação a Joana e não tive coragem ainda de falar abertamente com ela.
— Então você não está sendo amigo verdadeiro da sua Joana.
Os amigos que se prezam costumam usar de transparência nas relações.
— Mas eu sou amigo, sim.
E muito bom amigo.
— Só que ser amigo muito bom não é o que você deseja, não é?
— Bem...
— Claro que não, meu filho.
Eu bem conheço vocês todos e sei do jeito de cada um dos meus filhos.
Você quer se aproximar da Joana e tê-la como mulher. Só isso.
— Mamãe, deixe de ser...
— Franca! Franca e moderna, pode dizer, Paulo.
Para que esconder sentimentos e desejos?
Eles sempre acabam ganhando da gente.
Vai por mim, filho, é a experiência de toda uma vida.
Quando a gente guarda os desejos e sentimentos por tanto tempo, tentando mascarar aquilo que sentimos, eles acabam por irromper dentro de nós; rompem as nossas defesas, e aí vem o caos.
No seu caso, conheço-lhe muito bem os impulsos, afinal, eu estudo os meus filhos o tempo inteiro e não posso enganar-me quanto às suas tendências e emoções.
— Como assim, estuda-me?
— Olhe, meu filho, não pense que a sua religião seja uma couraça para conter seus sentimentos e desejos.
Creio que o erro de muitos religiosos seja o fato de usarem a religião para mascarar a vida íntima e se esconder da vida atrás de um altar ou de muito trabalho, a fim de despistar os próprios sentimentos.
— Ora, mamãe, mas você sabe que não sou assim.
Eu sou espírita, e o espiritismo...
— Sei que o espiritismo é muito bom, meu filho, e não estou aqui discutindo a validade da proposta espírita.
Não é isso. Mas essa máscara de santidade, de evolução compulsória me dá medo.
Eu acho que vocês não se permitem ser felizes sem a presença do medo.
Têm medo de se entregar às relações afectivas, medo de que a felicidade bata à porta e que essa felicidade seja diferente daquela que vocês idealizaram.
Abra-se, filho, deixe a vida conduzir você e não pretenda disfarçar seus sentimentos de homem com a caridade despretensiosa dos religiosos.
Não perca a oportunidade, Paulo.
— Mas você então me incentiva a procurar a Joana.
— Incentivar? Deixe de bobagem, meu filho.
Em breve você descobrirá que o estou empurrando para os braços da felicidade.
Incentivar é muito suave para o seu caso.
Vá, vá, meu filho, não fique assim amuado feito animal.
Levante-se e vá procurar Joana.
Diga-lhe a respeito de seus sentimentos.
Não perca tempo.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 1:30 pm

— Você acha, mamãe? Acha mesmo?
— Levante-se, meu filho.
Honre as calças que você veste.
Assuma-se com seus sentimentos e, se você acredita tanto assim em espíritos, incorpore, faça qualquer coisa, mas permita-se ser feliz.
Paulo não pôde resistir ao empurrão materno e saiu à procura de seu destino.
Com certeza, Deus não joga dados com a vida humana nem manipula as experiências de seus filhos, por isso ele enviou as mães, que são mestras na arte de convencer os filhos na busca da felicidade.
Paulo saiu, enquanto Célia esperava os outros filhos para a conversa habitual das tardes de sábado.
Em breve tempo, eles apareceram, e a família reuniu-se para o diálogo que deveria unir os corações.
Os acontecimentos transcorriam conforme as leis da vida determinavam.
Paulo deveria reencontrar Joana na presente existência para que pudessem se beneficiar com as experiências conjuntas.
Por detrás desses eventos na vida de Paulo e Joana, espíritos amigos tentavam a todo custo inspirá-la quanto ao melhor caminho através do qual poderiam se conduzir.
Já havia alguns dias que Joana não via Paulo.
Estava ansiosa por lhe falar.
O rapaz não ligava, e ela não tinha coragem de dar-lhe um telefonema.
Tinha de encontrá-lo.
Esperou por ele todos esses dias.
Como gostaria de compartilhar um momento tão importante quanto o que vivia...
Fora fazer uma consulta dias antes.
Devido ao seu passado, ao uso de drogas intravenosas, o médico a aconselhara a fazer o exame de sangue que detectasse se ela era ou não seropositiva.
Afinal, viviam no século do HIV.
Não poderia descuidar-se.
Paulo a aconselhara a fazer o exame Elisa.
Ela rejeitara a ideia durante muito tempo, mas, agora, com os pensamentos que abrigava em sua mente a respeito dele, ela tinha de fazer os testes.
Não poderia sequer pensar em compartilhar a sua vida com alguém de forma mais intensa, íntima, sem se certificar de algo tão importante.
Resolveu então procurar um outro médico, porque ficara com medo de que Paulo desconfiasse.
O seu médico, que era amigo de Paulo, poderia também falar com ele.
Joana pretendia esconder de Paulo os resultados do exame, caso fossem positivos, e também esconder seus sentimentos.
Mas... e se não fossem positivos?
Se ela não fosse portadora do HIV? ISSO abriria uma oportunidade ímpar em sua vida.
Noites e noites de insónia e mais as preocupações e os medos fizeram da vida de Joana um inferno.
Não havia como adiar.
Ou ela fazia o exame ou então não dormiria mais de tanta angústia.
Resolveu então procurar um posto de saúde.
Entrou no consultório do médico e relatou a verdade a respeito de suas preocupações.
Desejava realizar o exame.
Nos dias que antecederam a resposta do médico, Joana também não dormira.
Esse período coincidiu com os dias em que não se encontrara com Paulo.
Aumentaram, por isso, sua angústia e insegurança.
Pensou então que não iria procurar o médico para receber o resultado.
Os pensamentos desencontrados, como um vulcão em erupção, pareciam querer romper o cérebro, que explodiria.
O stress estabelecera-se, e, durante esse dia que antecedera os resultados, Joana teve febre, diarreia e vários outros sintomas próprios de desequilíbrios e abalos emocionais mais intensos.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 1:30 pm

Em sua mente, acreditava que já estava doente.
A aids se instalara definitivamente.
Nem precisava dos resultados.
Se ela fosse ao médico, quem sabe ele apenas recomendaria sua internação em uma clínica ou hospital onde pudesse esperar a morte com mais dignidade?
"Desistiria", pensou Joana.
Mas, se por um lado ela pensava em desistir, por outro não poderia morrer em paz caso não fosse ao médico.
Altina, a sua velha mãe, também ficava aflita com a situação da filha.
Depois de muito conselho, de muito insistir, convenceu-a a procurar o médico e receber os resultados.
Quando entrou no consultório, o suor caía-lhe da face afogueada pela febre.
O médico assustou-se com o estado de Joana.
— O que é isso, garota? O que está acontecendo?
— Diga, doutor, pode falar a verdade comigo, não esconda nada.
Veja como estou.
— Mas o que está acontecendo?
Deite-se aqui — apontou a maca.
Vamos, diga-me.
— É o HIV, doutor, a aids.
Já estou no estado terminal.
Eu sei que é isso.
Me diga, não é mesmo?
— HIV? O que é isso, Joana?
Veja o que você está aprontando para si mesma.
— Não é o que dizem os resultados, doutor? — perguntou Joana ofegante, ao lado da mãe aflita.
Como sofrem as mães de todo o mundo.
Como têm de acompanhar os filhos em suas dores; sofrem mudas, caladas, e o seu sofrimento
reprimido, para não exacerbar as dores dos filhos, parece ser um sofrimento infinito.
— Por favor, espere lá fora, minha senhora, depois eu a chamo.
— Deixe minha mãe, doutor — falou com voz entrecortada a moribunda.
Não quero morrer sozinha.
— Prefiro que espere lá fora, minha senhora — falou enfático o médico.
— Sim, seu doutor, mas muito cuidado com a minha Joana.
Qualquer coisa, me chame, estarei orando para Jesus.
Altina saiu do consultório, mas sob protestos de Joana.
— O que é isso, Joana?
Como pode submeter sua mãe a uma situação dessas?
— Mas, doutor, eu já estou morrendo.
— Mas se você se considera nesse estado, porque se deu o trabalho de vir aqui? Conte-me.
— Eu vim pegar o resultado do exame de aids.
— HIV, Joana, HIV.
— Sim, doutor — Joana tossia muito.
Eu sei que vou morrer com aids e eu tinha que vir aqui.
— Mas eu acredito que você deve estar enganada, Joana.
Parece que você veio pedir um atestado prévio de óbito, e não buscar os resultados dos exames.
Veja o estado lamentável em que se encontra.
— Fale, doutor, fale, por favor, estou com aids, não estou?
A face de Joana gotejava suor, enquanto ela tinha dificuldade em se expressar.
Dirigindo-se à sua mesa, o médico pegou um envelope, abrindo-o lentamente.
Olhou para Joana e falou com voz calma e pausada:
— Resultado do exame de Joana Gomides: HIV — negativo!
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 1:30 pm

— O quê? Então não estou com aids? Não estou morrendo?
Joana levantou-se imediatamente da maca, tomou os resultados das mãos do médico e saiu do consultório correndo, sem dar oportunidade de o médico falar mais nada.
Atónito com as reacções da quase-morta, o médico ficou parado, sem entender o comportamento de Joana.
— Meu Deus, como é desequilibrada.
Só faltava abrir uma sepultura, jogar-se dentro e pedir a alguém para jogar terra por cima.
E nem me deu tempo de falar com ela a respeito dos resultados...
Do lado de fora do consultório, a mãe aflita mantinha a cabeça baixa, orando a Jesus pela vida de sua Joana.
Ah! meu Deus, pensava Altina, eu estou perdendo minha filha outra vez.
A pobre mulher chorava baixinho, enquanto orava mentalmente.
Os outros pacientes, que aguardavam o atendimento, ficaram sensibilizados, ao verem a mulher sofrida e angustiada, derramando suas lágrimas.
A porta do consultório abriu-se abruptamente, e Joana saiu de dentro com um envelope nas mãos.
Altina arregalou os olhos sem entender nada, ou então assustada com o resultado imediato de suas orações.
Não deu tempo de raciocinar.
Eram apenas lampejos de pensamentos que passaram em sua mente.
— Vamos, mamãe.
Eis aqui os resultados.
— Mas, filha, você não está doente?
E a febre?
— Que febre, mamãe?
Eu não tenho nadinha de nada.
Olhe aqui os resultados.
Veja em minhas mãos a resposta.
O médico disse que deu negativo.
Negativo, mamãe.
— Filha, eu não entendo — balbuciou Altina.
— Não precisa entender, mamãe.
Vamos embora daqui.
Joana literalmente arrastou Altina pelo corredor, não lhe dando oportunidade de se esclarecer.
— E a febre, filha? E a diarreia?
— Ah! mamãe, e eu entendo lá dessas coisas? Passou tudo.
Eu acho que foram suas orações...
Altina não compreendeu direito como a filha melhorou de um momento para outro.
Afinal, ela não estava com aids?
E os sintomas que estava sentindo há alguns dias?
Será que suas orações eram tão poderosas assim?
— O sangue de Jesus tem poder! — falou Altina em alto e bom tom.
— Louvado seja Deus — respondeu Joana.
A mente cria.
A mente em desequilíbrio passa ao corpo as sensações alimentadas pela pessoa.
Emoções fortes, quando são alicerçadas numa mente cheia de pensamentos pessimistas, produzem estados de saúde delicados, e o corpo, reflexo da mente, expressa o teor das emoções, dos sentimentos e pensamentos com máxima fidelidade.
Joana voltou para casa, agora ansiosa para reencontrar Paulo e mostrar-lhe os resultados de seus exames.
Não tinha tempo a perder.
Desejava a todo custo rever seu benfeitor.
Será que telefonaria para ele?
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 1:30 pm

Não sabia ao certo o que fazer ou como proceder.
Apenas desejava vê-lo.
Ansiava por encontrá-lo.
Não poderia passar muito tempo longe de sua presença, de sua atenção, de seu afecto.
Todo o seu ser ansiava por ele.
Paulo, Paulo, Paulo. Só Paulo importava.
Parece que estava em transe de tanto que o chamava mentalmente.
Era o transe do amor, da paixão, da vida que conspirava pela felicidade.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 1:31 pm

16 - Comunidade gospel

Sei que não o encontraria entre os santos.
Jamais o encontrei entre os salvos.
Também não o vi nos altares das igrejas.
Não o encontrei entre os eleitos.
Passava das 20 horas quando Paulo chegou à casa de Joana.
No caminho ele resolveu comprar uma lembrança para ela e acabou demorando mais que o previsto.
Naturalmente que fora ajudado pelo trânsito, que contribuía para que Paulo e outras milhares de pessoas pudessem aproveitar mais o tempo dentro de automóveis, ônibus e outros veículos.
Joana estava na cozinha, ajudando a mãe em alguns afazeres domésticos.
Embora conservasse as mãos ocupadas com o trabalho de casa, a mente e o coração estavam fixos na pessoa de Paulo, em quem concentrava a sua atenção.
A campainha soou três vezes seguidas.
— Paulo! — gritou Joana, que saiu correndo em direcção à porta.
— Meu Deus, por que tanta pressa assim? — falou Altina, olhando em direcção à filha, que saía em disparada.
Abrindo a porta rapidamente, Joana não se conteve de alegria ao rever o rapaz e atirou-se em seus braços, sem raciocinar a respeito de sua atitude.
— Joana... — balbuciou Paulo com o coração disparado — que bom vê-la novamente.
Os dois permaneceram abraçados por um pequeno espaço de tempo, o suficiente para que pudessem ler nos olhos um do outro as palavras não escritas da alma, as páginas do coração.
Foi Paulo que primeiro acordou daquela espécie de transe que envolve os apaixonados e, desenvencilhando-se dos braços de Joana, foi entrando porta adentro, perguntando por Altina.
— A mamãe está na cozinha — respondeu Joana já sem graça, porque se revelara por inteiro, através dos gestos e de sua atitude.
"Como está linda" — pensou Paulo...
"Ah! Meu Deus, bons espíritos, será que não estou indo longe demais?"
Seus olhos se cruzaram novamente, e um clima especial se estabeleceu entre ambos.
Em outra dimensão da vida esses acontecimentos não passaram despercebidos.
Cássio, o pai de Joana, a tudo assistia, de maneira a interferir nas vidas envolvidas, pois fazia parte do planeamento do Alto que os dois se unissem.
Dirigindo-se a Paulo, sem que este percebesse, através da intuição, o espírito de Cássio estendeu as mãos sobre o plexo solar do rapaz, magnetizando-o.
Depois de alguns minutos dirigiu sua atenção para a glândula pineal, que rapidamente se iluminou, diante da acção magnética do bondoso espírito.
Como resultado, o rapaz sentiu imediatamente as emoções irromperem de seu interior e lançou-se num ímpeto em direcção a Joana, tomando-a nos braços, sem saber como dominar as emoções e os pensamentos que lhe vinham à mente.
— Não posso mais viver sem você, Joana — falou Paulo, segurando Joana em seus braços.
— Paulo, meu Paulo... — mal terminou a frase, e o rapaz continuou.
— Eu te amo, Joana, como nunca amei uma mulher antes.
Não sei se você saberá interpretar o meu gesto, mas não consigo mais esconder o que sinto...
Joana deixou-se inebriar pelas palavras de Paulo, que a beijou suavemente nos lábios, iniciando uma nova etapa na vida dos dois.
Com tantas emoções contidas, Paulo e Joana deixaram-se dominar pelo carinho.
As palavras brotavam de suas bocas com a facilidade com que desabrocha uma flor na primavera.
Não perceberam que estavam sendo observados por Altina, que assistia à cena, ao mesmo tempo em que tentava se esconder para não ser flagrada.
Os dois continuariam ali por muito tempo, não fosse a interferência superior de uma alma boa e pura como a vizinha, amiga de todas as horas.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 16, 2016 1:31 pm

— Al-tin-nnaaaa... sou eu, minha amiga.
Sua vizinha que-ri-di-nha.
Está com visitas, amiga?
A vizinha foi logo entrando, naturalmente sem ser convidada, pois, para os amigos dessa natureza, são dispensados os convites, considerados muito formais.
— Meu Deus, veja só como adivinhei que tinha visitas.
Eu nem vi o seu carro aí em frente, Seu Paulo — falou a vizinha, intrometendo-se na vida da família.
Veja, Altina, como sou discreta, nem vou atrapalhar o casal de pombinhos, que devem estar interessados em conversar...
Paulo e Joana foram surpreendidos abraçados em meio às juras de amor.
Do lado de cá da vida, Cássio, o benfeitor espiritual, desistiu de tentar interferir.
Resolveu deixar que os acontecimentos agora transcorressem rumo às correntezas das águas da vida.
Encontrei Cássio levitando sobre a casa de Altina e Joana.
Com um sorriso, ele me recebeu de braços abertos, dizendo:
— Bem, meu amigo, graças a Deus que os dois se ajustaram.
E, olhando para baixo, em direcção à vizinha de Altina, que parecia estar com o chacra laríngeo hiperdesenvolvido e estimulado, de tanto que falava, continuou Cássio:
— Mas nem tudo é perfeito. Tenho de me acostumar com isso!
Vim ao encontro de Cássio a seu convite, a fim de visitarmos uma comunidade de espíritos cujas experiências se deram, na Terra, em sintonia com o pensamento e a filosofia da Reforma Protestante.
Eram espíritos que fundaram uma colónia no espaço próximo à Terra e que ali se reuniam, conservando a característica de suas antigas crenças.
Nunca imaginei que conheceria algum dia uma comunidade de espíritos evangélicos.
Afinal, sempre pensei que, do lado de cá da vida, só existiam espíritos espíritas, ou que todos, senão a maior parte daqueles que desencarnaram no mundo, se transformariam em espíritos espíritas assim que chegassem aqui.
Cássio me surpreendeu em meus pensamentos, enquanto nos dirigíamos para a metrópole espiritual.
— O que você pensa a respeito da expressão "espírito espírita"?
— Bem — comecei, assustado com o facto de Cássio haver penetrado em meus pensamentos — não é que eu pense que do lado de cá da vida os espíritos deveriam adoptar somente a visão espírita.
Uso apenas esse termo para significar que talvez os espíritos que conservem as suas crenças como na velha Terra fossem convencidos aqui a respeito da realidade da reencarnação e de outros ensinamentos próprios da doutrina espírita.
— Ah! Ângelo, não creio que você seja tão ingénuo assim...
— É, devo admitir que me perdi na forma de me expressar — confessei.
Aproximamo-nos rapidamente da cidade espiritual.
Na verdade, era uma metrópole localizada na região espiritual de uma cidade bem conhecida do sul do Brasil.
A metrópole brilhava como uma pérola de luz coagulada.
Parecia ser estruturada em matéria astralina de regiões superiores do planeta.
A medida que nos aproximávamos, pude perceber que a arquitectura local lembrava certas cidades europeias, mais precisamente algumas cidades alemãs que eu visitara quando encarnado.
Cássio socorreu minha curiosidade:
— Essa comunidade espiritual foi fundada no ano de 1878, por espíritos de missionários alemães e franceses que foram atraídos pela psicosfera do Brasil.
Para aqui se dirigiram, com o objectivo de implantar, nas terras brasileiras, a mensagem evangélica.
Desde então, a comunidade tem crescido imensamente.
Hoje, abriga uma população de mais de um milhão e meio de espíritos que se afinizam com o pensamento das diversas correntes evangélicas.
Entramos na metrópole espiritual, e pude perceber a beleza de sua arquitectura e a paisagem harmoniosa a nossa volta.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 17, 2016 1:22 pm

Cássio me conduziu para um breve passeio na colónia.
Pude observar que mesmo aqui, do lado de cá da vida, continuavam as preferências por esta ou aquela interpretação evangélica das Escrituras.
— No princípio da actividade da colónia, quando começaram a chegar aqui diversos espíritos provenientes de escolas religiosas diferentes, esboçou-se o caos nas relações sociais de nossa comunidade.
É que os espíritos vindos da Terra não deixaram na sepultura suas manias, suas concepções a respeito da vida ou suas características de culto ou crença.
Cada comunidade evangélica aqui representada queria advogar suas ideias e exigia audiência com o Todo-Poderoso, acreditando que esta colónia espiritual fosse o próprio paraíso e que Jesus estaria em algum lugar por aqui, administrando os destinos do planeta.
"Os orientadores da colónia espiritual utilizaram recursos mentais superiores, a fim de tentar apaziguar as diversas facções das comunidades evangélicas representadas pelos espíritos que chegavam da Terra.
"Muitos pastores desencarnados faziam plebiscitos com seus simpatizantes desencarnados, tentando dominar a colónia e prosseguir, do lado de cá da vida, com as mesmas posturas que os caracterizavam na Terra.
Muitos ainda não se reconheciam desencarnados, e outros vinham para cá e continuavam dormindo, aguardando o juízo final.
"A situação ficou tão difícil que os administradores da colónia, como espíritos mais esclarecidos que eram, pediram a interferência das entidades mais elevadas.
"Só a partir do ano de 1967, portanto há pouco tempo, a situação entre os diversos agrupamentos evangélicos desencarnados pôde ser apaziguada.
"Um mensageiro de uma comunidade superior à nossa veio nos visitar.
Todos os espíritos da metrópole foram avisados do acontecimento, e, para que acalmassem os ânimos, foi-lhes dito apenas que receberíamos um mensageiro do Senhor, que deveria pôr fim às disputas intermináveis em nossa colónia espiritual.
"A notícia soou como uma bomba em nossa colónia.
Logo, logo os responsáveis pelos agrupamentos evangélicos de desencarnados organizaram-se para receber o "anjo do Senhor", que viria trazer o decreto divino para a comunidade de desencarnados.
"A colónia espiritual conheceu um tempo de tranquilidade.
Representantes de diversas comunidades religiosas organizaram vigília e grupos de oração, esperando o dia de receberem o representante do Senhor.
Esse tempo de calmaria propiciou a oportunidade para que os dirigentes de nossa comunidade se reunissem com os espíritos que estavam à frente de suas ovelhas desencarnadas.
"Quando o mensageiro do Plano Superior nos visitou, era tal a expectativa da multidão de espíritos afinizados com a fé evangélica e protestante que a presença do emissário foi vista por tais espíritos como se fosse uma segunda vinda de Jesus à Terra.
Suas mentes, acostumadas com as imagens fortes evocadas da Bíblia, acabaram produzindo um efeito benéfico.
Porém, estruturaram a imagem de Jesus na fisionomia do mensageiro espiritual.
Puro fenómeno de ideoplastia, que se realizava à vista de todos.
"A partir de então, os espíritos passaram a se comportar de uma forma especialmente tranquila, embora vez ou outra recebêssemos pedido de audiência com Jesus ou com os apóstolos, para discutir interesses da comunidade de espíritos ou de pastores desencarnados que se sentiam humilhados por não estarem sentados em tronos reinando ao lado de Deus."
— Puxa vida! — pensei.
Como deve ser difícil conciliar todas essas facções de espíritos...
— É, Ângelo, é muito difícil mesmo.
Aproveitando a oportunidade que se fazia presente, resolvi abusar da bondade do benfeitor espiritual e apresentar minhas dúvidas.
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Ave sem Ninho

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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 17, 2016 1:22 pm

— Diga-me, Cássio, como entender tantas religiões na Terra, oriundas do tronco central do cristianismo?
— É perfeitamente possível imaginar a Terra como uma grande escola, um educandário.
Sob essa óptica, as diversas religiões funcionam como classes adequadas ao amadurecimento dos diversos alunos.
Naturalmente que esses alunos rebeldes hão de se julgar cada um superior ao outro, como se tivessem direitos a privilégios, advogando cada classe a atenção plena do director.
Entretanto, mesmo que as diversas classes ostentem a sua cultura, a sua visão científica ou religiosa a respeito das diversas disciplinas ensinadas no educandário, todas elas são gerenciadas pela mesma lei e pelo mesmo director.
Algum dia os alunos descobrirão que são todos irmãos de aprendizado e que as variações existentes no educandário chamado Terra são necessárias para o crescimento de todos.
Nenhuma classe tem privilégios.
— Creio que não poderia ilustrar melhor a situação.
E quanto àquelas religiões criadas a partir das ramificações da Reforma Protestante?
Como entender o facto de que há tantas disputas entre elas e ao mesmo tempo parecem se unir combatendo o espiritismo?
Para elas a mediunidade parece uma praga que merece ser exterminada.
— Todas as religiões cristãs nasceram do desejo de agradar a Deus, e seus fundadores foram médiuns que, num momento ou em outro, se sintonizaram com entidades do nosso plano.
É claro que nem sempre os espíritos que os intuíram eram espíritos esclarecidos, imperando aqui e ali elementos das crenças pessoais ou interesses egoístas.
Mas, com raras excepções, essas religiões nasceram do contacto mediúnico com outras dimensões da vida.
— Mas como entender a mediunidade no meio de gente que não acredita em espíritos?
— Veja bem, Ângelo, citarei alguns casos apenas como exemplo para suas observações, conservando um profundo sentimento de respeito pelos nossos irmãos evangélicos.
Como sabemos, o século xix foi um marco na história do pensamento espiritualista.
Desde o início do século entidades espirituais elevadas reencarnaram no planeta para auxiliar as falanges do Consolador na tarefa de libertação das consciências.
O mundo experimentou momentos de grande euforia quando chegou a época do advento do espiritismo.
Foram observados vários fenómenos em toda parte do planeta, chamando a atenção para o mundo dos espíritos.
Nesse contexto nasceram algumas religiões da Terra.
— Não entendo onde você quer chegar com essas observações.
— Por volta de 1843, religiosos da América do Norte, liderados por um homem chamado Guilherme Miller, ao estudar a Bíblia chegaram à conclusão de que algo diferente estava para acontecer no panorama espiritual do mundo.
Porém, deram uma interpretação muito pessoal aos seus estudos e observações.
Naturalmente, era uma época muito fértil no terreno mediúnico, pois vários médiuns despontavam aqui e ali, estimulados pelas falanges do Consolador.
Surgiu nesse grupo uma médium, Eilen White, que reunia várias faculdades, como a psicografia, a vidência e a clariaudiência.
Entretanto, devido à sua educação evangélica, todos interpretaram tais faculdades como sendo dons do Espírito Santo.
Ela foi instrumento nas mãos dos espíritos para evitar uma catástrofe de grandes proporções.
Muitos esperavam a volta de Jesus à Terra por desconhecerem certos elementos que favoreciam a interpretação de algumas profecias bíblicas.
— Essa médium era auxiliada por espíritos mais esclarecidos?
— Certamente, Ângelo.
Porém, encontraram alguns obstáculos junto a ela, devido a sua educação protestante, como eu disse antes.
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Ave sem Ninho

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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 17, 2016 1:23 pm

É muito comum observarmos, nos escritos que ela deixou, a maioria psicografados, referências aos espíritos.
Ela descrevia seu mentor espiritual como sendo "o meu mensageiro" ou "o mensageiro do Senhor".
Entretanto, depois de muita insistência junto a essa médium, não obtendo respostas satisfatórias quanto à interpretação de suas palavras, seus mentores resolveram deixá-la entregue às próprias crenças.
Naturalmente, a esse tempo foram considerados pela comunidade evangélica como demónios, espíritos do mal.
Nasceu em meio às manifestações da mediunidade uma nova religião, embora combatendo as verdades eternas do espiritismo, como a imortalidade da alma, a mediunidade.
— Então eles se contradiziam?
— Isso ocorria mais por uma questão de ponto de vista equivocado.
Mediunidade para eles era do demónio, mas o mesmo fenómeno mediúnico, observado entre os seguidores da nova religião, era denominado de dons espirituais ou espírito da profecia.
— Então, pelo que posso observar, várias religiões que hoje combatem as manifestações espirituais tiveram seu começo com o trabalho de médiuns, que, mais tarde, foram chamados de profetas?
— Isso mesmo. Tanto quanto a dos adventistas, também a doutrina dos mórmons teve origem em manifestações de espíritos, mais ou menos à mesma época.
Foi o caso de Joseph Smith, que recebeu valiosas informações de seu mentor espiritual.
Dando a essas revelações uma interpretação de cunho pessoal, acabaram desvirtuando o conteúdo das comunicações.
Fundaram poderosas organizações religiosas, que, até hoje, combatem o espiritismo, sem entenderem direito que, na génese de suas próprias religiões, havia fenómenos mediúnicos muito intensos.
— Mas isso também ocorreu no início do movimento da Reforma, inaugurado por Lutero no século xvi?
— Claro, meu amigo.
Quem conhece a história das religiões naturalmente sabe dos processos ocorridos com seus fundadores, os quais foram considerados manifestações do Espírito Santo.
O próprio Lutero, ao subir as escadarias da igreja onde afixaria as suas 95 teses, na Alemanha, teve sua audição ampliada e ouvia vozes dos espíritos.
Consta de sua biografia que uma voz lhe falava que "o justo viverá pela fé".
Era um dos apóstolos de Jesus que inspirava o reformador quanto aos passos que daria para a libertação das consciências.
Entre uma conversa e outra, eu ia aprendendo com Cássio a respeito de coisas que na Terra me passaram despercebidas.
Encontrava naquela comunidade de espíritos diversas motivações para estudos.
Havia muito o que aprender.
Fiquei atónito com as revelações de Cássio.
Eu nunca poderia imaginar que ocorriam tantas coisas no plano espiritual.
Aproximamo-nos de imenso pavilhão, que se parecia com um hospital.
A arquitectura era muito simples, porém a construção espiritual parecia ter quilómetros de comprimento e vários andares.
Entrei no ambiente acompanhado de Cássio, que me apresentou ao espírito que organizava os trabalhos no pavilhão.
— Seja bem-vindo, companheiro — falou-me o espírito.
Meu nome é Matias, e sou responsável por essa seção do Pavilhão dos Silenciosos.
Ao olhar dentro do pavilhão notei que havia muitos leitos, a perder de vista, com espíritos que pareciam dormir.
Acima deles, parece que havia imagens mentais se confundindo, se misturando, se formando e se diluindo imediatamente, uma após outra.
Achei estranho o nome de Pavilhão dos Silenciosos.
Na verdade, achei tudo muito estranho.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 17, 2016 1:23 pm

Nunca vira tantos espíritos dormindo desde que cheguei ao plano espiritual.
Cássio auxiliou-me na curiosidade:
— Estes são espíritos que, na Terra, durante anos alimentaram a ideia de que a morte é o fim de tudo.
Conforme ensinavam em suas igrejas, dormiriam por muito tempo, até a segunda vinda de Jesus à Terra, quando Ele os acordaria.
Geralmente são espíritos afinizados com o pensamento das igrejas adventistas e testemunhas de Jeová, além de poucas outras que não admitem a imortalidade da alma.
— Mas essas igrejas não são espiritualistas? Não ensinam aos seus seguidores que existe uma vida além?
— Nem todas ensinam assim.
Nossos irmãos adventistas e testemunhas de Jeová ensinam que a alma é mortal e que somente nos fins dos tempos Deus vai recriá-las, através da ressurreição.
Até lá, os eleitos (naturalmente, de suas religiões) ficarão dormindo num estado de não-existência.
Algo que nem mesmo eles conseguem explicar, mas em que acreditam sinceramente.
Eis por que vemos muitos espíritos dormindo do lado de cá da vida.
Estruturaram de tal forma seus pensamentos e crenças quando estavam encarnados que muitos reencarnam por diversas vezes sem saber ou acordar para a realidade da vida imortal.
Precisam de tempo até para despertar.
Apontando para os leitos e mais precisamente para as formas dinâmicas observadas acima dos espíritos que dormiam, o companheiro Matias falou:
— As criações mentais que você observa se formando e se diluindo são o resultado dos pensamentos desses espíritos.
Tais pensamentos continuam sendo emitidos em forma de sonhos ou pesadelos.
Recusam-se a acordar para enfrentar a realidade da vida imortal, mas, como a actividade da vida do espírito é constante, não deixam de emitir ondas mentais.
— E os outros espíritos da colónia, que estão mais conscientes e participam da vida social desta comunidade?
— Para eles é diferente.
Ocorre que a maioria das religiões evangélicas ensinam seus fiéis que após a morte existe uma vida imortal.
Porém, localizam essa vida num pretenso paraíso ou no inferno, dependendo de qual religião a pessoa professar quando encarnada.
— Entendi! — falei, pensativo.
Fiquei abismado, verdadeiramente chocado com o que via.
Jamais imaginei presenciar cenas e ouvir explicações como essas.
Depois de visitar o pavilhão num rápido passeio orientado por Cássio e Matias, fomos conhecer a universidade da colónia.
Era o lugar onde os espíritos que administravam a metrópole espiritual transmitiam ensinamentos da Vida Maior para aquelas almas acostumadas a interpretações dos diversos segmentos da Reforma Protestante.
— Aqui — falou Cássio — conhecimentos sobre a reencarnação, as leis espirituais e os vários ramos do espiritualismo são ministrados, de acordo com o grau de entendimento dos espíritos de nossa comunidade.
— Como vocês fazem para explicar a reencarnação de algum
espírito, quando chega o momento próprio e ele tem de se afastar da comunidade?
Como os demais espíritos vêem a ausência de um companheiro que tem de reencarnar?
— Somos transparentes com todos.
Falamos abertamente da necessidade de "nascer de novo" no ventre materno.
Entretanto, nem todos compreendem o novo nascimento como sendo a reencarnação.
Quando chega o momento de reencarnar e determinado espírito se ausenta da metrópole para o processo reencarnatório, muitos espíritos interpretam de acordo com a sua crença.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 17, 2016 1:23 pm

Alguns dizem que o espírito reencarnante foi arrebatado pelos anjos; outros interpretam como sendo Jesus que convocou tal espírito para uma missão qualquer em algum recanto do universo.
Mesmo que falemos claramente a respeito da reencarnação, cada espírito interpreta o conhecimento de acordo com seu próprio ponto de vista.
Respeitamos todos.
Assim, conseguimos viver em paz.
Continuamos nosso passeio pela colónia espiritual, enquanto Cássio ia nos orientando quanto aos trabalhos realizados pela comunidade de espíritos.
A visita àquela metrópole do mundo espiritual havia me inspirado profundas observações e pensamentos.
Fiquei emocionado ao descobrir que ninguém está desamparado pela bondade divina.
Nossos irmãos evangélicos são também orientados pelo Alto e, mesmo que não pensem e nem creiam como os espíritas, são filhos de Deus; suas igrejas, seus ensinamentos fazem parte da grande escola da vida; trabalham em contacto com outra realidade e com outras necessidades evolutivas dos filhos de Deus.
Eis a verdade espiritual.
Mesmo dentro das igrejas evangélicas, os espíritos do bem trabalham para auxiliar a quantos necessitem.
Seus profetas e pastores são os médiuns através dos quais os espíritos trabalham em benefício dos que sofrem.
Por certo existem abusos em muitos lugares; porém, apesar dos desacertos próprios da alma humana, não podemos negar que muita gente é auxiliada, que os espíritos ignorantes são socorridos e que Deus aproveita a boa vontade e o conhecimento de suas criaturas para amparar seus outros filhos mais necessitados.
Todos contribuem para a obra de renovação da humanidade.
Deixamos a metrópole espiritual ouvindo os cânticos e hinos de louvor de um grupo de espíritos daquela comunidade.
Era a música gospel do plano espiritual.
Reencontramos o instrutor Ernesto e demandamos novamente a Crosta.
Eu, agora com novos elementos para estudos e observações, perdia-me em meio aos pensamentos, com tanta coisa a organizar, em vista dos acontecimentos dos quais participava.
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Re: ENCONTRO COM A VIDA - Ângelo Inácio / Robson Pinheiro

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