Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

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Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 20, 2016 10:37 am

Na sombra da montanha
Vera Lúcia Marinzeck

Espírito António Carlos

1. Dificuldades

 Estela estava aflita e nervosa, andava de um lado para o outro na casa.
Era uma mulher miúda, estrutura pequena, magra, cabelos curtos e olhos vivazes verde-claros.
Logo iria buscar os filhos na escola e não tinha nada para fazer de almoço.
 "Tomara que Mariano traga alguma coisa para comer, temos somente pão e manteiga.
Ainda bem que as crianças têm se alimentado na escola, comem pouco no almoço. Meu Deus! Que vida!"
 Estela sempre foi muito activa, trabalhara desde os seus treze anos como empregada doméstica.
Desde que o primeiro filho nasceu, saiu do emprego para cuidar dele.
Depois, veio a segunda filha e continuou no lar, onde fazia tudo.
Até dois meses atrás ajudava o esposo no trabalho no bar.
 O marido não chegou, e ela foi buscar os filhos na escola.
 "Mais três semanas e estarão de férias.
Será que terei alimentos para dar a eles?", pensou, tristonha e preocupada.
 A escola ficava somente a três quarteirões da casa deles.
Estela andou rápida e esperou com as outras mães em frente ao portão.
Não estava com vontade de conversar, ultimamente não sentia vontade de fazê-lo com ninguém; por isso, encostou-se no muro, um pouco afastada das outras mães.
Ouviu o sinal, o portão foi aberto e logo saíram várias crianças.
Isabela veio ao seu encontro: era uma menina linda, estava com oito anos, seus cabelos eram claros com tons avermelhados, tinha os olhos como os de sua mãe, verdes, também era magra e de sorriso encantador.
Sorriu ao ver a mãe.
Aproximou-se, oferecendo o rosto para ser beijado, e segurou na mão de Estela.
Em seguida, aproximou-se Felipe, o filho de dez anos.
Ele se parecia com o pai: era alto e forte para a sua idade, tinha lábios grossos e cabelos negros, assim como os olhos.
Sorriu também, oferecendo o rosto para o beijo.
- Oi, mamãe! Tudo bem? Vamos embora?
Estela pegou a mochila da filha, colocando-a nas costas, e, de mãos dadas com os filhos, foram para a casa.
As crianças, como sempre, contavam factos ocorridos na escola.
A mãe fingia prestar atenção, mas estava preocupada, amargurada por não ter comida para oferecer às crianças.
 Os dois comeram o pão com manteiga, tomaram água e não reclamaram, tinham se alimentado na escola.
 "Bendita merenda!", pensou Estela.
 Ela ficou mais preocupada:
o marido estava em casa pela manhã, quando foi levar as crianças à escola, mas, quando voltou, ele não estava mais, saíra de moto.
 "Que situação!" lamentou.
"Comi somente um pedaço de pão, estou com fome e ainda tenho de me preocupar com Mariano.
Tomara que ele não tenha ido cobrar os antigos fregueses do bar.
Na semana passada, ao cobrar um deles, levou um soco no rosto que o deixou machucado."
 Foi um alívio quando escutou o barulho da moto.
Correu ao portão e viu o marido com expressão cansada e triste.
Entrou e sorriu para os filhos.
Comeu as três fatias de pão que sobraram.
 "Não teremos mais nada para o jantar", pensou Estela.


Última edição por Ave sem Ninho em Qua Jan 20, 2016 10:42 am, editado 2 vez(es)
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 20, 2016 10:39 am

— Vão agora ver televisão — pediu o pai às crianças, vou descansar um pouquinho.
Fez sinal para a esposa acompanhá-lo ao quarto.
Entraram, ele fechou a porta e tirou do bolso um envelope.
— Vi esta carta na caixa de correspondência hoje pela manhã, provavelmente foi entregue ontem.
Mariano se sentou numa cadeira que estava no quarto.
Estela olhou o envelope e conseguiu ver o remetente.
Epaminondas..., o tio do marido.
E, pela expressão do esposo, o tio não o ajudaria desta vez.
— Fui a muitos lugares hoje de manhã — falou Mariano baixinho, não queria que os filhos escutassem a conversa, e continuou, em tom de lamento:
— Fui a locais em que deixei currículos e em que pedi emprego. Falei com as pessoas encarregadas de contratar, e eles me disseram que, por estes meses, não terão vagas nem para faxineiro.
Mariano abaixou a cabeça, segurava a carta com força.
Estela olhou-o com carinho.
Seu esposo fora filho único.
A mãe se separou do pai quando ele era neném.
O irmão dela, o tio Bino, o Epaminondas, foi quem os auxiliou.
Ele era oficial do exército e, pelo seu trabalho, residia longe de onde moravam; por isso, levara a irmã e o sobrinho para residirem perto dele.
A mãe, embora jovem, tornara-se amarga, nunca mais se envolveu com alguém e faleceu quando Mariano estava com dezoito anos.
Seu tio Bino sempre ajudara a irmã e depois o sobrinho, que estudou até o segundo grau e foi trabalhar.
"Também tive uma vida difícil", pensou Estela.
"Meu pai morreu quando tinha dez anos.
Tenho uma irmã e um irmão.
Mamãe casou-se novamente.
Nunca gostei do meu padrasto e, quando notei que ele me olhava de modo estranho, senti medo.
Hoje entendo que seu olhar era de cobiça.
Contei à mamãe, que me chamou de mentirosa, acusando-me de querer acabar com seu casamento.
Uma tia me ajudou, arrumou-me um emprego nesta cidade, que não é longe da que morava, afastando-me assim do meu lar.
Fui ser empregada doméstica.
Morava no emprego.
Conheci Mariano numa festa, começamos a namorar e casamo-nos meses depois.
Para comprar os móveis, continuei trabalhando e esperamos quatro anos para termos filhos."
— Conte, pediu Estela o que está pensando.
Mariano a olhou e mostrou a carta novamente.
— Tio Bino respondeu.
Não mandou dinheiro desta vez...
— O que ele escreveu? — perguntou ela.
— Titio não mandou dinheiro nem vai mandar.
Mas fez uma proposta — Mariano respondeu e abaixou novamente a cabeça.
"Tio Bino já nos ajudou muito, principalmente Mariano.
Sustentou a mãe e ele desde bebé, parou de lhe dar mesada quando começou a trabalhar.
Deu para nós, de presente de casamento, uma quantia razoável de dinheiro.
E, como Mariano não tem sorte, mudou muito de emprego e, nos intervalos de um trabalho e outro, quando ficava desempregado, tio Bino sempre mandava dinheiro.
Começo a pensar:
será falta de sorte mesmo?
Ou, infelizmente, Mariano é irresponsável?
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 20, 2016 10:39 am

Quando saiu do último emprego, foi para montar um bar em sociedade com um colega.
Os dois pegaram todo o dinheiro disponível e montaram o bar.
O tio lhe deu novamente dinheiro, porém afirmou que seria a última vez.
O negócio não deu certo, vendiam fiado, os fregueses não pagavam, e os dois, ele e o sócio, brigavam.
Com muitas dívidas, fecharam o bar."
— Estela, você não vai falar nada?
Ela teve vontade de gritar:
"Estou com fome! O que iremos jantar?
Até quando ficaremos assim?
Vou procurar emprego como empregada doméstica."
Não respondeu. Mariano, depois de olhá-la por um segundo, falou:
— Precisamos conversar e decidir.
De manhã, peguei a carta, li e, numa tentativa, saí e fui a três lugares que talvez pudessem me dar emprego — repetiu Mariano.
Foi em vão. Nada!
Fez uma pausa.
— Tio Bino respondeu à carta em que lhe pedi ajuda, dizendo que, como escrevera da última vez em que me mandou dinheiro, não mandaria mais, que não voltaria atrás no que decidira e não mandou nada.
Mas fez uma proposta.
Calou-se e abaixou a cabeça novamente.
Estela se impacientou.
— Vamos, diga o que é!
— Tio Bino quer que vá morar lá com ele - falou Mariano devagar.
— Só você?
— Não, nós quatro. Titio escreveu que, se quisermos, ele manda nos buscar e que é para levarmos somente nossos pertences pessoais.
Ele nos acomodará em sua casa e seremos bem tratados.
Você lembra da casa dele? Foi lá uma vez.
A residência é enorme.
As crianças vão ter espaço para brincar e vão comer todos os dias.
Tem uma excelente escola perto.
Tio Bino é boa pessoa.
"Muito excêntrico!", pensou Estela.
— Continue, por favor — pediu a esposa.
— Fale o que está pensando.
— É que não estou vendo outra saída.
Indo morar com titio, estaremos abrigados e, melhor, alimentados.
Será somente por uns tempos. Prometo!
— Está bem, vamos decidiu Estela, também não vendo outra alternativa.
Mariano melhorou seu astral, deu um leve sorriso e falou o que planeava.
— Estela, se você concordar, vou agora entregar a moto ao senhor Laércio, devo duas prestações, ele me disse que a comprará de volta; com o dinheiro, compro alimentos e pago o que devo ao proprietário do prédio do bar.
Vi hoje o senhor António mexendo no lixo, fiquei pensando se seria por resto de comida ou latinhas.
Veio à mente dela a figura do senhor António e pensou:
"Ele e a esposa, ambos idosos, fizeram, dos três cómodos da frente da casa em que moram, um espaço para alugar e, com o aluguel, complementavam a renda, porque, segundo o senhor António, ele e a esposa tomam muitos remédios.
Mariano e o sócio alugaram esses cómodos e fizeram o bar.
A mulher do outro sócio e eu fazíamos salgados para serem vendidos e íamos faxinar o local.
Quando o bar estava aberto, tínhamos dinheiro para comprar alimentos.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 20, 2016 10:40 am

As dívidas foram aumentando e, por falta de pagamento, foram tirados os utensílios do local, geladeira, fogão, balcão, mesas, cadeiras, e fecharam o bar após muitas discussões.
Seu ex-sócio arrumou emprego, e Mariano não.
Ficaram devendo aluguel, água e luz dos cómodos, dívidas que deveriam ser acertadas para que pudesse ser novamente alugado".
— Faça isto — Estela conseguiu dizer, estava se sentindo engasgada - pague o senhor António e vamos comprar alguns alimentos.
— Pensei também -— Mariano falou compassado, estava muito triste - que poderíamos oferecer para os vizinhos, a quem devemos, nossos móveis.
É sugestão de tio Bino.
Como escrevi a ele contando que tinha muitas dívidas e nenhum dinheiro, titio sugeriu que fôssemos para lá somente com nossas roupas, porque em sua casa teremos de tudo.
Para pagarmos parte das dívidas e, eu trabalhando e não tendo despesas, pagaremos o restante mais tarde.
— Vender tudo?!
Estela não conseguiu segurar e chorou.
Mariano pegou nas mãos dela e chorou também.
Por minutos, choraram baixinho, com receio de os filhos escutarem.
Ela, talvez mais do que o marido, gostava de cada objecto da casa, eles tinham história.
O vaso da sala fora comprado à prestação, ela achou-o lindo, custara caro, mas tinha valido a pena.
A cama, compraram para o casamento; a geladeira fora trocada quando Mariano ainda estava empregado.
— Teremos tudo lá? Tem certeza? - perguntou Estela.
— O lugar não tem telefone.
— Penso que, por ser um pouco afastado da cidade, ainda não tenha ou pode ser que titio não queira.
Nós também estamos sem telefone aqui.
— Não conseguimos pagar a conta - Estela suspirou.
Ela enxugou seu rosto e o do marido. Abraçaram-se.
— Vamos, meu querido, fazer o que tem de ser feito.
Entregue a moto, pague o senhor António para que ele pague a luz e a água do cómodo e que Deus o ajude a alugá-lo logo.
— Farei isto e venho para irmos ao supermercado.
Vamos jantar esta noite!
Estela, realmente não vejo outra alternativa.
Não pago há dois meses a energia da casa, com certeza irão cortá-la.
A água está há três meses sem ser quitada.
O aluguel da casa está para vencer o quarto mês.
— Sei. Amanhã cedo, ao levar as crianças à escola, vou conversar com a directora; depois, com os vizinhos a quem devo dinheiro.
Vamos pagar o máximo que conseguirmos nossas dívidas.
— Vou agora.
Obrigada, Estela. Amo você!
— Eu também o amo!
Mariano saiu do quarto, lavou o rosto.
Sentia-se melhor.
Pelo menos resolveram o que fazer, iriam morar com o tio.
Saiu com a moto, e Estela ajoelhou-se diante da imagem de Nossa Senhora, orou e indagou a si mesma preocupada:
"Meu Deus, como será viver num local diferente?
As crianças e eu nos acostumaremos?"
Lembrou-se do tio Bino.
Era um homem robusto, alto, claro, sua voz tinha um timbre forte; quando falava, se sobressaía aos demais.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 20, 2016 10:40 am

Mariano, com a mãe e o tio, moravam numa cidade longe dali.
Com uma transferência de Epaminondas, foram residir perto de onde morava.
Quando o militar aposentou-se, foi para aquela cidade em que residia no momento e comprou uma casa grande num sítio.
Mariano tinha outros tios por parte de mãe que continuaram na cidade natal, mas não se comunicavam.
Do pai dele, sabia muito pouco: seu progenitor tinha oito filhos, irmãos que Mariano não conhecia nem sabia os nomes.
Para ele, sua família era somente o tio Bino, que, mesmo assim, via pouco, mas estavam sempre se correspondendo.
"Comigo também não é muito diferente.
E como se não tivesse família", pensou tristonha.
"Minha irmã foi morar em outro país, escreve raramente.
Meu irmão mora nesta cidade, ele se dá bem com minha mãe e padrasto.
Pedir algo a eles é me humilhar.
Pedi, há tempos, uma vez em que Mariano estava desempregado, e escutei:
“Não tenho e, se tivesse, não emprestaria.
Quem mandou casar com um preguiçoso?”.
Nem respondi, chorei muito ofendida.
Quando contei ao meu irmão que o bar não estava dando certo, ele se queixou de que tinha dívidas, que a situação estava difícil etc.
Para não ver meus filhos com fome, fui à casa dele no horário do jantar.
Na terceira vez, ele me disse:
'Estela, é melhor não vir mais aqui em casa.
Não é certo vir jantar connosco.
Não tenho obrigação de lhe dar nada'.
Voltei chorando para casa.
É melhor mesmo irmos morar com tio Bino e que Mariano entregue a moto, não a vendeu antes porque tem duas prestações para pagar e porque, para um dos empregos em que mandou currículo, a pessoa tinha de ter moto para entregar mercadorias."
Foi à sala e sentou-se no sofá.
Isabela fazia a lição de casa, e Felipe via televisão.
Para economizar energia, o aparelho era pouco ligado e, como o pai deixou, o garoto assistia atento ao programa infantil.
"Vou negociar tudo, levaremos as roupas, alguns brinquedos, os álbuns de fotografias, o resto tentarei vender e pagar as dívidas.
Na véspera de mudar, vou telefonar para meu irmão e mãe avisando-os da mudança.
Eles não ligam para mim, não deveria me importar com eles, mas me importo.
Depois de instalados, escreverei somente para dizer que estamos bem.
Nunca mais irei me queixar a eles."
Corrigiu a tarefa de Isabela, que foi, depois, assistir televisão.
Estela tentou prestar atenção no programa, mas não conseguiu.
"Morar na casa dos outros é tão difícil!
Fiz isto quando fui empregada.
Gostei tanto de ter minha casa, um lar.
Tudo passa. Tomara que tio Bino nos trate bem.
Vou ser carinhosa com ele."
Mariano chegou e novamente fez sinal para ela ir ao quarto.
— Pronto, querida, uma parte está feita.
Primeiro fui ao correio e passei um telegrama para titio.
Escrevi que aceitamos o convite e que queremos ir o mais rápido possível.
Na carta, ele disse que poderia mandar nos buscar com a camionete.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 20, 2016 10:40 am

Tomara que seja logo.
Entreguei a moto, peguei o dinheiro e paguei ao senhor António tudo o que devíamos, água, luz e aluguel.
Ele me agradeceu! Você acredita?
O senhor António me agradeceu porque lhe paguei.
Do bar, não devo mais nada.
O que compramos, pagamos somente as primeiras prestações e, por falta de pagamento, eles retiraram tudo e não devolveram nada.
A mercadoria, comprava somente à vista.
Vamos agora ao mercado?
Compraremos o essencial para nos alimentarmos por uns dias.
Depois, irei pagar a energia eléctrica, a água e os dois meses de aluguel desta casa.
Espero que sobre um pouquinho para o caso de surgir alguma eventualidade.
Estela avisou aos filhos que iam ao mercado, e o casal foi andando rápido, sentiam-se envergonhados por dever aos vizinhos.
— Vou comprar sabão, não quero levar roupas sujas para a casa de seu tio —- disse Estela.
Compraram tudo o que anotaram e o fizeram rápido, não queriam se encontrar com conhecidos.
Voltaram para a casa.
— Vamos fazer agora o nosso jantar.
Não almoçamos e estamos com fome -— determinou Mariano.
Foram à cozinha e prepararam os alimentos.
— Que cheiro gostoso!
Vamos ter comida? -— perguntou Felipe.
— Sim, meu filho respondeu Mariano, vamos ter um jantar muito gostoso. Teremos bifes.
Os quatro jantaram, comeram bastante.
— Vamos fazer de conta — Mariano falou baixinho para a esposa — que não temos problemas, que tudo está certo.
Ficaram alegres.
No outro dia, levantaram-se cedo.
Enquanto Estela trocava as crianças para ir à escola, Mariano fazia o café.
Depois, deu leite aos filhos, com bolachas que eles gostavam.
Estela esperou, como de costume, os filhos entrarem na escola e entrou também.
Foi conversar com a directora.
Conhecia-a, ela era filha de sua ex-patroa.
Falando rápido, explicou:
— Meu marido arrumou emprego em outra cidade.
Queria as transferências dos meus filhos.
Estamos para mudar, não dá para esperar as férias.
Estamos passando por sérias dificuldades, e este emprego é a nossa salvação.
O empregador já arrumou uma casa para morarmos.
Peço-lhe, por favor, que me dê as transferências como se eles tivessem terminado o ano lectivo.
Eu não sei ainda o nome da escola em que irão estudar.
— Vou ajudá-la -— afirmou a directora, compreendendo o drama de Estela; ela sabia das dificuldades da família.
— Repetirei as últimas notas deles, tanto Felipe como Isabela são bons alunos e darei as transferências.
Mas, até mudar, traga-os à escola.
— Sim, os trarei. Muito obrigada.
— Quando tiver a data certa para se mudar, me avise.
Estela voltou para casa.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 20, 2016 10:40 am

Mariano determinou:
— Estou lavando as roupas, farei o almoço e você vá conversar com os vizinhos.
No almoço, contaremos às crianças sobre nossa decisão.
Estela foi, eram sete os vizinhos a quem deviam alguma coisa:
a dois, eram somente mantimentos; aos outros, eram alimentos e dinheiro.
Contou a verdade.
— Mariano se endividou com o bar, que não deu certo.
Venderam fiado e não receberam.
O tio dele nos convidou para morarmos com ele.
Como não vemos outra alternativa, aceitamos e estamos para nos mudar.
Levaremos somente nossas roupas.
Não sei como agradecê-los pela ajuda que nos deram.
Vamos vender os móveis, tudo o que temos.
Quero saber se, em troca do que lhe devemos, não querem ficar com alguma coisa.
— E completava, variando:
— "A senhora queria uma outra geladeira, a minha está muito boa"; "Não quer o meu fogão?"; "Tenho um bom roupeiro" etc.
Negociou. Somente um dos vizinhos não quis ficar com nada, e Estela pagou-o.
O restante ia ficar com alguma coisa e até voltaram dinheiro.
"Como Deus é bom nos colocando entre pessoas boas", pensou ela agradecida.
Fez uma lista dos objectos e quem ficaria com eles.
Em casa, Mariano e ela organizaram tudo.
— Depois do almoço, vou pagar a energia e a água que devemos da casa.
Após, irei ao locatário dar esta quantia, é o aluguel de dois meses; direi que, recebendo mais, irei pagar o restante.
Depois, irei à loja que compra e vende móveis usados para negociar com eles o restante de nossas coisas.
Quando terminaram de almoçar, Mariano falou aos filhos.
— Felipe e Isa, vamos à casa do tio Bino.
Iremos logo. Ficaremos lá por uns tempos.
— E a escola?
Iremos nas férias? — Perguntou Isabela.
— Iremos logo — respondeu o pai.
— Meus filhos -— Estela resolveu explicar —- vocês sabem que papai tem procurado emprego e não encontrou.
Ficamos sem dinheiro.
Temos o que comer porque papai vendeu a moto.
Tínhamos dívidas que estamos pagando.
Tio Bino nos convidou para ficarmos com ele até tudo voltar ao normal.
Resolvemos aceitar.
Como não vamos precisar mais dos móveis, lá tem de tudo, estamos vendendo para pagar as dívidas.
— Vamos ficar sem nada? -— perguntou Isabela.
— Como disse, na casa do tio Bino tem de tudo.
Quando voltarmos, compraremos novamente -— falou a mãe em tom carinhoso.
— Não vou mais à escola? -— perguntou Felipe.
— Você e Isa irão até à véspera da mudança — respondeu Estela.
— Conversei com a directora, ela lhes dará as transferências, e vocês foram aprovados.
— Como chama mesmo a casa de tio Bino? -— indagou Felipe.
— Na Sombra da Montanha -— respondeu Mariano.
— É um bonito nome.
Será que poderemos conhecer a montanha?
A que faz sombra? — quis o menino saber.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 20, 2016 10:41 am

— Com certeza — respondeu o pai.
— Não vou mais ver minhas coleguinhas? — perguntou Isabela.
— Lá você terá outras amigas — disse Mariano.
— Moraremos com tio Bino -— Estela falou, tentando animá-los.
— Porém, não é definitivo.
Ficaremos lá por uns tempos e depois voltaremos.
— Posso contar aos meus amigos que viajaremos? -— pediu o garoto.
— Sim, pode —- autorizou a mãe —- diga que passaremos uns tempos na casa de um tio.
— Vocês irão gostar de lá! -— Mariano suspirou.
— É um lugar muito bonito, a casa é enorme, tem cavalos, galinhas, patos e vocês poderão correr pelo quintal e jardim.
— Será que tio Bino é bonzinho? -— Indagou a menina.
— É, sim, meu bem. Gosto muito deste tio.
E óptima pessoa. Vocês irão gostar dele -— afirmou Mariano.
— Deve ser bom morar numa casa que tem cavalo, galinha e pato! -— exclamou Isabela.
— Estou gostando. Quero ir!
"Que Deus ajude para que isto aconteça:
que gostemos de lá, que tio Bino goste de nós, e nós, dele", Estela desejou ardentemente.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 20, 2016 10:41 am

2. A MUDANÇA

No outro dia à tarde, quarta-feira, Mariano recebeu um telegrama do tio informando que, na sexta-feira, pela manhã, às oito horas, seu empregado José Elídio estaria em frente da casa dele para trazê-los, que estivessem prontos porque os esperava para o almoço.
Foi uma correria para arrumar tudo.
Estela combinou com os vizinhos para buscarem o que haviam trocado no outro dia.
Vieram até outros vizinhos para comprar e ela acabou vendendo mais alguma coisa, escondendo o dinheiro.
Mariano foi buscar o comerciante que negociava móveis usados.
Ele comprou alguns e já ia tirá-los da casa.
Enquanto os carregava, o locatário bateu palmas.
— Senhor Mariano — disse ele, ao vê-lo à porta - quero ver se pagou a água e a energia.
Mariano mostrou os comprovantes.
— Mesmo assim, faltará pagar dois meses e treze dias do aluguel, além da água e da luz deste mês.
O comerciante de móveis acabou de carregar e foi pagar Mariano, que recebeu o dinheiro e o entregou ao locatário.
- Embora duvide -— disse o dono da casa — que me mandará o restante, escrevi neste papel o que me deve.
Mariano pegou o papel e foi com os filhos para o cómodo no quintal organizar os brinquedos.
O proprietário da casa despediu-se, mas logo voltou e conversou com Estela.
— Como irão fazer para me entregar a chave da casa? — perguntou.
— Vou deixá-la com a vizinha e, na casa, ficará alguma coisa, como os colchões: o senhor dê ou, se quiser, fique com eles.
Estava aborrecida, o senhor falava alto, os vizinhos escutavam.
Entendia que ele tinha razão, eles deviam, mas tinham intenção de pagar.
Sentiu vontade de dar o pouco de dinheiro que escondera, mas não o fez, este seria para uma emergência.
Se não desse certo ficar com tio Bino, o que fariam?
Se tivessem de se mudar de novo, para onde iriam?
Pelo menos tinha o suficiente para comprar passagens de ônibus ou para um remédio.
Decidiu não dá-lo ao locatário.
— O senhor me desculpe, mas agora não pode ir embora? -— pediu Estela.
— Temos muito o que fazer.
— Sobrou ainda muita coisa.
Se venderem, quero o dinheiro.
— Senhor, estes outros móveis são dos vizinhos, são para pagar dívidas.
— Paga a eles e não a mim?
— Estamos pagando proporcionalmente. Por favor!
Estela não aguentou e lágrimas escorreram pelo rosto.
Mariano e as crianças estavam no quintal, e ela temeu que o marido escutasse, viesse ver o que ocorria e começasse outra discussão.
Mariano se exaltava com facilidade e acabaria brigando com aquele homem, não queria que os filhos presenciassem uma cena deprimente.
O homem, vendo-a chorar, se acalmou.
— Está bem, vou embora.
E espero que realmente vocês me paguem.
Não posso ficar no prejuízo.
Deixem o que quiserem e tentarei vender, abaterei na dívida ou ficará para os juros.
Foi embora, tendo a certeza de que não receberia o restante e que ficaria no prejuízo.
Dormiriam em colchões no chão e tinham somente duas cadeiras para sentar.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 20, 2016 10:41 am

Estela tentou fazer de tudo para parecer uma aventura.
— Vamos colocar estes colchões na sala e sentaremos neles para ver televisão.
Amanhã à noite dona Ivone vem buscá-la.
"Pelo menos teremos o que comer", pensou Estela.
Tentando suavizar a situação, ela brincou, e os quatro acabaram rindo por dormirem no chão da sala.
No outro dia, quinta-feira, levou-os à escola, entrou também e pegou as transferências.
Em vez de voltar para a casa, entrou numa igreja e orou por uns quinze minutos, pedindo protecção para a nova maneira que viveriam e que tio Bino os ajudasse realmente.
Depois, foi a um bar e comprou fichas telefónicas.
Foi a um orelhão e ligou primeiro para dona Marta, agradecendo-a e pedindo que orasse por eles.
Recebeu votos de boa mudança.
Telefonou também para duas amigas, se despedindo, e depois para a mãe e o irmão.
Para todos falou:
— Vamos ficar uns tempos com um tio de Mariano.
Meu marido irá trabalhar lá.
A cidade é pequena, mas acolhedora; a casa é grande, com um quintal enorme.
As crianças terão bastante espaço para brincar.
Escrevo mandando o endereço.
Escutou alguns comentários e respondeu, agradecendo os bons votos para que tudo desse certo.
"Nem meu irmão nem mamãe quiseram saber detalhes, foram frios comigo.
Parece que se sentem aliviados por saber que ficarei longe e por não ter lhes pedido nada.
Se Deus quiser, não mais pedirei.
Meu irmão até recusou dar alimentos para os sobrinhos.
Que eles fiquem em paz!
O melhor é esquecê-los."
Voltou para casa.
Encontrou Mariano negociando outros objectos com vizinhos e conhecidos destes.
— Obtive, com a venda de nossas coisas, uma quantia irrisória.
Vou guardar, podemos precisar.
Se não der certo com titio, dá pelo menos para pagar o ônibus para voltar.
— Não podemos pensar nisto! — exclamou Estela.
— Temos de ir esperançosos de que irá dar certo.
Tem de dar! Por favor, querido, pense positivo.
Vamos ter paciência com seu tio e rogar a Deus que dê paciência a ele para nos aturar.
Vir embora? Para onde? Por favor...
— Você, como sempre, tem razão — concordou Mariano.
— Estamos indo invadir a vida pacata do titio.
Vou fazer de tudo para não contrariá-lo.
Com certeza, ele já me arrumou um emprego, espero que seja no sítio.
Vou trabalhar e guardar dinheiro.
Você controla as crianças para não perturbá-lo e eu vou ganhar nosso sustento.
"Será difícil isto ocorrer" pensou Estela.
"Mariano sempre promete e não cumpre.
Será que não é ele quem faz as coisas erradas?
Age erroneamente para que tudo o que faz não dê certo?
Talvez o tio consiga fazê-lo um homem responsável.
Se não der certo, voltar para onde?
Estamos agora somente com roupas, nem poderemos ter casa. Vendemos tudo."
Depois do almoço, Mariano levou o fogão para uma vizinha.
— Vamos jantar na pizzaria e amanhã tomaremos o café na padaria.
As crianças se alegraram.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 21, 2016 12:00 pm

A tarde, a casa estava quase vazia e as malas, prontas.
Os brinquedos das crianças foram colocados em duas caixas.
— Se der, levaremos as bicicletas; se não for possível, prometo, quando conseguir, comprar outras — disse Mariano.
Dormiram juntos, como na noite anterior.
Estela demorou para adormecer.
Estava preocupada, apreensiva.
"Meu Deus! Que tudo dê certo!
Espero que o tio Bino nos aceite de bom grado.
Dai-nos paciência.
Sei como é ruim morar em casa alheia.
Ajude-me a agir para não incomodá-lo muito.
Ave-Maria..."
Estela, havia muito tempo, ao orar a Ave-Maria, na segunda parte, dizia:
"Maria, mãe de Jesus..."
Isto porque acreditava que Maria era realmente mãe de Jesus, um espírito sábio, que nascera entre nós para ensinar a todos o caminho certo.
No outro dia, o casal estava apreensivo, e as crianças, ora eufóricas ora entristecidas por deixarem a escola, os amiguinhos e os vizinhos.
Alegraram-se por tomar café na padaria.
Às sete horas e cinquenta minutos estavam prontos.
Mariano esperava no portão.
Faltavam três minutos para as oito horas, quando estacionou, em frente à casa, uma camionete cabine dupla.
O condutor desceu sorrindo e se apresentou:
— Sou José Elídio, empregado do seu tio Epaminondas, vim buscá-los.
Bom dia! Reconheço-o, é o senhor Mariano, não é?
— Bom dia! Sou, sim, o Mariano.
Como vai? Lembro-me do senhor também.
— Por favor, não me chame de "senhor".
Ontem mesmo o senhor Epaminondas nos recomendou chamá-lo de "senhor", e de "dona", a sua esposa.
"Titio com suas etiquetas.
É melhor não contrariá-lo."
— Estamos prontos — informou Mariano.
Os três saíram da casa.
"Ainda bem que caberá tudo o que encaixotamos", pensou Estela.
Mariano apresentou José Elídio à família.
— Lembro-me da senhora.
Faz tempo que foi ao Na Sombra da Montanha.
As crianças cresceram e estão muito bonitas.
— Agradeço-o, senhor — disse Estela.
— Querida, titio não quer que o chamemos de "senhor".
Ele a chamará de "dona".
Estela abriu a boca para falar, mas fechou em seguida e sorriu.
Não gostava de ser chamada de "dona" nem de "senhora".
— Crianças, todos me chamam de Zé.
É assim que devem me chamar, por favor.
— Sim, o chamaremos de Zé — concordou Estela.
Ele abriu a caçamba e tirou um baú e duas caixas grandes de madeira.
— Temos bastante espaço — informou Zé.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 21, 2016 12:00 pm

— O senhor Epaminondas disse que, neste baú, a senhora deve colocar as coisas que deseja guardar, mas que não irá usar no sítio.
Trouxe também estas caixas; se quiserem, podem usá-las.
Entraram na casa com as caixas e o baú.
Rapidamente, o casal tirou tudo das caixas de papelão e, seguindo as orientações, encheram o baú e as caixas de madeira.
Zé e Mariano carregaram a camionete.
Acostumado, José Elídio organizou e coube tudo, até as bicicletas.
— Ainda tem um espaço — falou Zé.
— Se a senhora quiser encher as caixas de papelão, podemos fazê-lo.
Estela colocou as louças da cozinha, pratos, talheres, xícaras... e as crianças pegaram mais brinquedos.
Tudo carregado, fecharam a casa, deixaram a chave com a vizinha e se despediram dos que saíram à rua para vê-los ir embora.
Mariano acomodou-se na frente; Estela e as crianças, no banco de trás. Partiram.
O casal tentava disfarçar, mas estavam receosos.
Estela esforçou-se para não chorar, e os meninos estavam quietos.
José Elídio começou a conversar e tentou alegrá-los.
— Vocês gostam de pássaros?
Lá no sítio tem muitos.
O senhor Epaminondas não deixa ninguém matá-los ou prendê-los.
Temos dois locais em que colocamos alimentos para eles.
E a passarada agradece cantando.
São mansinhos e não se assustam com a nossa presença.
Felipe se entusiasmou, fez várias perguntas sobre os pássaros, José Elídio respondeu, e passaram a conversar.
— A viagem é de quatro horas — informou o motorista.
— Iremos parar num posto.
Vim ontem e dormi num hotel.
O senhor Epaminondas mandou.
— Você sempre obedece o senhor Epaminondas? — perguntou Felipe.
— Ele é meu patrão — respondeu José Elídio —- mas também é amigo.
Não é obedecer, é cumprir ordens.
Ele é seu tio.
— Papai, como vou chamá-lo? - Felipe quis saber.
— De "tio" — respondeu Mariano.
Quando chegarmos lá, irei perguntar se é "tio Bino" ou "tio Epaminondas".
Enquanto não soubermos, é melhor todos chamarem-no somente de "tio".
A viagem foi tranquila.
— Estamos chegando — informou o motorista.
— Na frente da montanha, está a casa do meu patrão; seguindo a estrada, vamos à cidade.
Abriremos a porteira e, por uma estrada de chão, caminharemos por uns quatrocentos metros e nos defrontaremos com a casa.
— O que é "porteira"? - perguntou Felipe.
— Um portão diferenciado — respondeu Mariano.
— Cadê a montanha? — indagou o garoto, observando tudo.
— Ali! — mostrou o pai.
— Aquela é a montanha? — admirou-se o menino.
— Parece muito pequena — opinou Isabela.
Não é um morro? — Felipe estava curioso.
— O que é, eu não sei — respondeu Mariano.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 21, 2016 12:00 pm

— Morro? Pode ser. É uma montanha e ponto final.
Uma montanha pequena.
— Esta elevação tem trezentos e oitenta metros de altura — explicou José Elídio.
É um lugar bonito.
Quando seu tio comprou a propriedade, esta montanha era feia, estava desmatada, tinha alguns pés de café velhos.
Meu patrão adquiriu muitas mudas de árvores e, por três anos, plantamos, replantamos, e deu resultado:
as árvores cresceram, e o local passou a ser habitado por alguns animais silvestres.
É, de facto, lindo!
Tem uma nascente d'água que, com o reflorestamento, revigorou-se.
Ela corre para o outro lado, para a fazenda vizinha.
— O tio fez isto para o outro fazendeiro? — perguntou Felipe.
— Devemos cuidar da natureza para nós e para os outros - respondeu o empregado do sítio —- é isto que meu patrão afirma.
À tarde, quando o sol está deste lado, fica atrás da montanha, e a casa tem uma sombra refrescante.
A propriedade do senhor Epaminondas começa na porteira, tem as terras no fundo e a montanha.
"Morro!", pensou Felipe.
— Titio tem plantação? — perguntou Mariano.
— Temos um pomar com muitas árvores frutíferas, e ele normalmente planta milho, feijão... e temos uma horta.
Na frente da casa, tem um bonito jardim.
— Quem cuida da casa? — Estela quis saber.
— Silmara limpa a casa, é a empregada mais nova, tanto na idade como no tempo de casa.
Josemar é a cozinheira, as duas dividem as tarefas domésticas.
Temos também João da Cruz ou, como chamamos, Dacruz.
Ele mora com a mulher, Isaurinha, numa casa perto da horta.
Josemar dorme na casa, num apartamento do lado da cozinha; Silmara e eu moramos na cidade.
Em época de plantio ou colheita ou para alguma eventualidade, serviço extra, são contratados trabalhadores diaristas.
Chegaram à porteira.
José Elídio, deixando a camionete ligada, desceu e abriu.
Mariano desceu também.
O motorista entrou no veículo, passou pela porteira, e Mariano a fechou, entrando na camionete em seguida.
Agora, devagar, foram pela estrada de terra levantando poeira.
"'Porteira' é um portão realmente diferente", pensou Felipe.
"Tábuas de madeira em forma de X e que rangem."
A camionete parou em frente à casa.
— Com certeza, o senhor Epaminondas os está esperando para o almoço.
Também estou com fome.
Vou almoçar e depois descarregar a camionete.
O proprietário da casa veio recebê-los sorrindo.
— Meus sobrinhos! Sejam bem-vindos!
Como as crianças cresceram! Estão lindos!
Abraçou-os.
— Titio! — exclamou Mariano.
— Oi, tio! — disseram as crianças.
— Boa tarde! — cumprimentou Estela.
Isabela observou, curiosa, o jardim.
Os canteiros eram divididos por caminhos de terra e algumas pedrinhas.
Tinha muitas plantas, pequenos arbustos e algumas flores.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 21, 2016 12:00 pm

Tudo misturado. Era bonito.
Do lado direito, em frente à casa, havia um cercado redondo de pedras de três metros de diâmetro por uns quarenta de altura, onde estava uma árvore morta, seca.
A garotinha afastou-se do grupo e se aproximou da árvore.
— Vamos entrar e almoçar — convidou Epaminondas.
— Depois lhes mostrarei a casa.
"O lugar é agradável", pensou Felipe.
"A casa está no sopé do morro e dá para vê-lo muito bem.
Ele é majestoso! Quero ir lá.
Espero poder ir. É a montanha!
'Montanha', porque chamam-na assim?
Será sagrada ou misteriosa?
Talvez seja a morada de heróis."
Em frente a área, estavam os outros três empregados.
O dono da casa os apresentou. Cumprimentaram-se.
Estela prestou atenção na casa.
Era grande, com muitas janelas; na frente, era rodeada por uma área onde tinha cadeiras, redes, vasos e mesinhas.
Era cercada por um trabalho de madeira muito bonito de uns cinquenta centímetros de altura.
Para entrar na área, tinha cinco degraus.
Estava tudo muito bem conservado: a pintura era nova, azul-clarinha; os beirais das janelas e as portas eram brancos; e as madeiras, todas recém-envernizadas.
Estela ia subir os degraus quando deu por falta da filha.
Olhou pelo jardim e a viu parada em frente da árvore morta.
Foi rápido para perto da menina.
Não quis gritar.
Aproximou-se e percebeu que ela estava distraída.
— Isabela, meu bem, vamos entrar.
O que está olhando?
- A árvore — respondeu a garota.
— Está seca, mas ora parece bem verde, com flores amarelas.
Está vendo?
Estela arrepiou-se.
"Meu Deus! Não! De novo não!
Tomara que Isa não comece de novo.
Não aqui! Não teremos dona Marta para nos acudir."
Olhou para a árvore, não era muito alta, talvez tivesse uns três metros de altura, devia ter sido mais alta.
Estava seca, nenhuma folha.
Pegou na mão da filha e pediu:
— Venha, querida, vamos almoçar e depois conhecer a casa.
Entraram, lavaram as mãos e se sentaram à mesa.
— Aqui, na cabeceira, é o meu lugar — informou Epaminondas.
— À direita, se sentará Mariano e, depois, Felipe; à esquerda, Estela e Isabela.
Temos horários certos para as refeições.
Hoje almoçaremos mais tarde porque os esperei chegar.
Quando começarem as aulas, as crianças almoçarão mais tarde.
"Titio", pensou Mariano, "continua com horário para tudo.
Talvez seja por ter sido militar".
O almoço foi colocado à mesa.
"Que banquete!", pensou Estela.
"Com certeza, quis nos agradar."
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 21, 2016 12:01 pm

— Vamos agradecer o alimento — disse Epaminondas.
— Obrigado, meu Deus, por ter este alimento à mesa e por ter saúde para comê-los.
Abençoe este dia em que recebo meus sobrinhos e que eles sejam protegidos neste lar.
Amém!
Vamos nos servir.
Espero que estejam com fome. Eu estou!
Estela serviu Isabela, e Mariano, Felipe.
Comeram em silêncio.
A comida estava gostosa.
Depois, foi servida a sobremesa, um doce caseiro.
O dono da casa falou:
— Normalmente, costumo dormir após o almoço.
Hoje não o farei, vou mostrar a casa a vocês.
Aqui é a sala de refeições:
café da manhã, almoço, jantar e chá da tarde.
Em frente à porta de entrada, por onde passamos, é a sala de estar, de visitas.
Quase não as recebo.
— Foi andando na frente, e os quatro o acompanharam.
— Aqui, nesta outra sala, é onde assisto televisão, já aviso que não pega muitos canais.
Tenho, neste canto, um aparelho bom de som.
Vou adquirir músicas do gosto de vocês.
Aprecio músicas clássicas.
Enquanto andavam, Epaminondas explicava, e Estela observava.
"Tudo é simples e de bom gosto", pensou ela.
"Na sala de estar, tem sofás e mesinhas e, na de televisão, tem dois sofás e uma poltrona que, com certeza, é onde titio se acomoda.
Os tapetes são persas."
— Perto da sala de jantar, por esta porta, iremos à cozinha.
Silmara estava lavando louças, sorriu para eles.
A cozinha era grande:
tinha um fogão a lenha e outro a gás, uma mesa pequena com quatro cadeiras, uma pia enorme e muitos armários.
— Aqui -— o dono da casa continuou mostrando -— é a dispensa.
Não tenho paciência de fazer compras.
Espero que minha sobrinha o faça agora para mim.
Estela sorriu e observava tudo com atenção na cozinha, tinha uma geladeira grande e um freezer moderno.
— Por esta porta, descemos ao quintal.
Depois o conhecerão.
Descemos por uma pequena escada e nos defrontamos com a horta e, depois desta, está o galinheiro.
Vamos conhecer os quartos.
Voltaram à sala de estar:
no canto direito estava uma porta aberta, que atravessaram e se depararam com um corredor.
— São seis quartos! Exagero! — exclamou Epaminondas.
Acomodei as crianças num mesmo quarto até elas se acostumarem e, no do lado, está o dormitório de vocês.
São todos suítes.
— Não lembrava da casa assim — falou Mariano.
— Eu a reformei.
Imagina que nesta casa enorme havia doze quartos com dois banheiros somente.
Foi uma reforma e tanto.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 21, 2016 12:01 pm

Fiz isto pensando que talvez vocês viessem morar comigo ou que, quando eu morrer, ficasse mais fácil de vendê-la.
— Titio, como devemos chamá-lo? — perguntou Mariano.
— Como você me chama?
— De "tio Bino".
— Continue. Chamem-me assim, todos vocês: de "tio Bino".
Estou contente por tê-los comigo.
Espero que se sintam à vontade.
Este primeiro quarto é das crianças.
A vista deste lado é linda, dá para ver um pedaço do jardim e a montanha.
— A montanha é encantada? — perguntou Felipe.
— Bem... não sei.
Ela é linda! — respondeu Epaminondas.
— Dá para ver a árvore?
A que ora está seca e ora não? — perguntou Isabela.
— Isa, por favor — pediu a mãe.
— O nome dela não é Isabela?
Chamo as pessoas pelos nomes, sem diminuí-los.
Seu nome é bonito.
Não, não dá para ver aquela árvore daqui.
Não sei nem explicar porque não a substituí.
Todas as vezes que penso em cortá-la, desisto.
— Talvez ela não deixe, não queira — falou baixinho a menina.
Somente a mãe escutou porque Felipe andava pelo quarto e exclamava entusiasmado:
- Nossa! É grande! Que maravilha!
Realmente o quarto estava bonito.
Era grande, com um armário de seis portas, duas camas de solteiro e uma mesinha no meio.
As colchas eram estampadas com motivos infantis.
Epaminondas abriu a porta do banheiro.
Isabela se assustou.
Estela pegou em sua mão e apertou.
O banheiro era grande e bonito.
Tudo estava arrumado com toalhas e sabonetes.
Os homens saíram do quarto, Estela e a filha ficaram para trás, e a mãe perguntou à menina:
— O que a fez se assustar?
— Tive a impressão de ter visto uma moça.
Mas acho que foi a toalha.
As duas se reuniram com eles para ver a suíte do casal.
Era também grande, com armário e um espaçoso banheiro.
"Nunca pensei em morar num local assim", pensou Estela.
"Que luxo! Será que está perfeito demais?
Não quero ser pessimista, mas nada é perfeito.
Sinto algo no ar."
— Aqui era outro quarto, que fiz de escritório.
Tenho muitos livros.
Podem pegar para ler, mas peço-lhes para ter cuidado.
Livros são tesouros que ensinam, distraem, são companheiros...
Havia, nesse cómodo, uma grande escrivaninha, duas poltronas, um sofá pequeno e, nas três paredes, estantes com livros.
Uma janela espaçosa iluminava bem o local de leitura.
— Esses outros cómodos estão quase vazios -— informou Epaminondas.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 21, 2016 12:01 pm

— Penso que, assim que as crianças acostumarem, poderão dormir em quartos separados.
Quando comprei a casa, havia alguns móveis:
uns ficaram onde estavam, outros coloquei naquele quarto do fundo.
Aqui — ele abriu uma das portas — coloquei uns brinquedos, e as crianças poderão fazer dele um local para brincar.
— Nossa! — exclamou Felipe.
Isabela abriu a boca, seus olhos brilharam, e correu para uma boneca grande.
Havia muitos brinquedos.
Os dois ficaram encantados.
— Vocês poderão brincar à vontade.
Coloquem aqui os brinquedos que trouxeram ou, se quiserem, levem alguns para o quarto de vocês.
Vamos ver os outros.
Este está vazio, tem somente um armário, em que poderão guardar o que trouxeram.
Este último é meu espaço.
Por favor, não entrem se não forem convidados.
Não gosto que mexam nos meus pertences pessoais.
Olhem daqui da porta para não ficarem curiosos.
Tenho uma saleta, meu quarto, e esta porta é a do banheiro.
Nada de mais.
Mas não gosto que entrem aqui.
"Porta vedada", pensou Felipe.
"Mistério!"
"Será que titio tem armas em casa?" - indagou Mariano a si mesmo.
"Realmente, ele não tem nada de mais no seu quarto", concluiu Estela.
"Uma cama grande, poltronas, armários, banheiro como os outros, mas tem belos tapetes."
— Conheceram a casa.
Agora José Elídio irá descarregar a camionete, e vocês deverão colocar seus pertences nos armários.
Fiquem à vontade por aí.
O chá é sempre às quatorze e trinta, mas, como almoçamos hoje mais tarde, será às quinze e trinta.
Escutarão o sino e deverão ir à sala de refeição.
Agora irei descansar um pouco.
Epaminondas entrou no seu quarto e fechou a porta.
— Não devemos fazer barulho enquanto tio Bino estiver repousando — pediu Estela.
— Mamãe, posso ir ao quarto de brinquedos? — perguntou Isabela.
— Eu também quero ir — falou Felipe.
— Vocês organizarão somente seus brinquedos — determinou Mariano.
— Sua mãe e eu cuidaremos do resto.
As caixas e as malas foram trazidas para o corredor.
As bicicletas ficaram na área.
O casal foi colocando as roupas nos armários.
"Temos poucas roupas, os armários continuam vazios", pensou Estela.
As crianças se entusiasmaram com os brinquedos novos, não sentiram o tempo passar.
Quando escutaram o som baixo do sino, lavaram as mãos e foram à sala de refeição tomar o chá.
— - Aqui está perfeito demais! — exclamou Estela em tom baixo.
— Estou gostando demais desta casa!
— Felipe estava entusiasmadíssimo.
— Terei amigos! — falou Isabela.
— Gostei muito dos brinquedos novos.
Vou colocar o nome nesta boneca de Esmeraldina.
— Que nome estranho.
Onde ouviu isso? — perguntou o irmão.
— Sei lá. Penso que ouvi.
Mas vou chamá-la de Mimi. É carinhoso.
Alegres, foram tomar o chá.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 21, 2016 12:01 pm

3. Propriedade Na Sombra da Montanha

Os quatro recém-chegados admiraram-se com a mesa posta:
havia doces, bolos, pães e bolachas.
Não tinha como não comer muito.
"Pelo visto", pensou Epaminondas, "a situação deles estava difícil mesmo.
Devem ter passado fome.
Logo se acostumarão com os alimentos em fartura."
— Meninos, agora vou acompanhá-los à área externa para que conheçam toda a propriedade.
Se você, meu sobrinho, quiser ir com Estela, nos acompanhe ou podem acabar de colocar seus pertences nos lugares.
O casal preferiu acabar de guardar o que trouxeram.
O tio e as crianças saíram da sala.
— Estela - disse Mariano baixinho - você deve ter notado que titio é mandão.
— Vamos tentar nos adaptar.
Estamos bem instalados, e a mesa é farta.
— Você está mais magra.
Passou fome, não foi?
— Vamos esquecer o que passamos, o importante é que agora nossos filhos ficarão bem.
Vamos acabar de colocar as roupas das crianças nos armários.
Logo acabaram tudo.
Sentaram-se no sofá da sala e esperaram pelo tio e os filhos.
Epaminondas saiu com as crianças.
Ao vê-las, sorriu e pensou:
"Crianças realmente alegram qualquer local.
Será muito bom tê-las comigo."
— Vocês podem brincar à vontade no jardim.
Somente não maltratem as plantinhas.
Não colham as flores, elas são belas vivas nos canteiros.
O Dacruz água-as quando não chove.
Tenho plantas mais resistentes.
Ali está ele.
Dacruz, venha ver meus sobrinhos.
As crianças gostaram dele, que sorriu, cumprimentando-as.
— Dacruz está comigo desde que comprei a propriedade.
Ele já morava aqui.
Reside com a esposa Isaurinha numa casa do outro lado.
— No quintal? — perguntou Felipe.
— A área é muito grande para ser chamada de quintal, mas, se quiserem chamá-la assim, tudo bem.
— O senhor deixa eu ajudar o Dacruz quando ele for cuidar do jardim? — perguntou Isabela.
— Tudo bem, porém não vá atrapalhá-lo.
Pergunte antes o que pode fazer.
— Autorizou o tio e explicou:
— Dacruz cuida também da horta e do pomar.
Quando precisa de ajuda, contratamos trabalhadores diaristas.
Vamos agora para a parte de trás da casa.
Passaram por um corredor ao lado direito da residência.
— Temos passagem dos dois lados da casa — informou o proprietário.
— Aqui antes não havia um muro? — perguntou a garotinha.
— Muro? Sim, havia.
Quando comprei a casa, desmanchei-o.
Como sabe disto? — indagou Epaminondas.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 21, 2016 12:01 pm

— Tio Bino, aqui tem maritacas?
— Felipe perguntou, não deixando a irmã responder.
— Gostaria de vê-las.
É verdade que elas roem os fios?
— Temos poucas destas aves por aqui.
Às vezes escutamos o barulho que fazem.
Já ouvi comentários de que elas roem os fios eléctricos, mas, por aqui, isto não acontece.
Pronto, chegamos. Este é o quintal!
— Que grande! — exclamaram os irmãos admirados.
— Deste lado é o pomar, temos muitas árvores frutíferas.
Vocês podem pegar o que quiserem, somente não podem desperdiçar, como pegar uma manga e comê-la pela metade. Entenderam?
— Sim — ambos responderam.
— Nesta mangueira, mandei fazer dois balanços, para que possam balançar.
Podem subir nas árvores.
Se não souberem, Dacruz os ensina.
Aqui está o galinheiro.
Ali, temos uma torneira que abastece o local com água.
Estas aves são tratadas duas vezes por dia.
Não entrem nele sozinhos, as aves podem se assustar.
Aquele galo é valente, tem ciúmes de sua morada e não gosta de estranhos.
As aves têm de acostumar com vocês e, mesmo depois, poderão entrar, mas com a Josemar.
— Tem muitas aves? — quis o garoto saber.
— Sim, temos.
Elas são para nos alimentar e nos fornecer ovos.
Quando se excedem esses alimentos, mando para a creche na cidade.
Ali tem uns patos que ficam soltos.
Vamos andar mais um pouco.
Temos ali uma plantação de milho, e aqui é a horta.
Todas as verduras e legumes que consumimos vêm da horta.
Tudo que é excedente também mandamos para a creche.
Do lado esquerdo, lá no fundo, fica o pasto, onde temos três vacas e dois cavalos.
— O morro, digo, a montanha é do senhor mesmo? — Felipe estava curioso.
— Ela faz parte do sítio.
Vou levá-los para andar por lá ainda nestas férias.
Iremos fazer um piquenique.
Sairemos cedo, comeremos lá e voltaremos à tarde.
Vocês dois podem andar por toda a propriedade, mas não estraguem nada e não mexam sem antes perguntar se podem.
Perguntem a mim, ao Dacruz ou ao José Elídio, que estamos sempre por aqui.
Vejam que bonito!
Neste horário, o sol começa se esconder atrás da montanha, fazendo sombra na casa.
Não é lindo?
As crianças escutavam o tio com atenção.
Olharam para o céu e para a montanha.
— Foi o senhor quem deu o nome a este lugar? — perguntou Felipe.
— Quando comprei, aqui era chamado de Fazenda Santa Luzia.
Achei o local muito bonito e sossegado.
Já na primeira semana, ao ver o sol atrás da montanha, mudei o nome do lugar.
É sugestivo, não acham?
— Muito! — exclamou Felipe.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 21, 2016 12:02 pm

— Não havia uma igrejinha? — perguntou Isabela.
— Estava em ruínas, e eu a desmanchei.
Todos os locais são para orar.
Como sabia da igrejinha? -— Epaminondas olhou para a garota.
— Todas as fazendas têm uma.
Vimos isto nos desenhos animados — respondeu Felipe.
— Ficava logo ali, no jardim — apontou Epaminondas para o lado direito.
— Vamos entrar, irão tomar banho e jantaremos.
Depois, com certeza, irão descansar, pois devem estar cansados.
Então, gostaram do lugar?
— Muito, mas muito mesmo! — Felipe estava alegre.
— A comida é deliciosa.
Teremos muitos lugares para brincar.
Titio, somos obedientes e não lhe daremos trabalho.
Aqui é lindo! A montanha é também!
— E você, Isabela, gostou?
— Gostei, sim.
Tudo é lindo, mais do que antigamente.
Epaminondas pegou nas mãos deles e subiram a escada, entraram na casa.
— Temos quarenta minutos para nos banhar e vir para o jantar — determinou o tio.
As crianças, contentes, acompanharam a mãe, que as levou ao banheiro e as ajudou no banho.
— Mamãe, aqui está maravilhoso! -— exclamou Felipe.
— Nem estou com fome e já é hora do jantar.
— E você está gostando, Isa? -— a mãe quis saber.
— É muito bonito!
A montanha realmente faz sombra!
Chegaram cinco minutos antes à sala de jantar.
Epaminondas os esperava.
— Isto é bom! -— aprovou o dono da casa.
— Gosto de pontualidade.
Horário é horário e deve ser respeitado.
Se um de vocês tiver de se atrasar por algum motivo, que avise.
Tomo o meu desjejum às seis horas.
Mas não precisam se levantar tão cedo.
O café estará na mesa até as oito horas; depois desta hora, se quiserem, terão de tomá-lo na cozinha.
Todo jantar tem sopa e o que restou do almoço.
Se Estela quiser fazer algo diferente, fique à vontade, mas tem de ter sopa no jantar.
— Josemar cozinha muito bem.
A comida está muito gostosa — elogiou Mariano.
— Não temos sobremesa no jantar, isto para não engordar.
Doces, somente no almoço e no chá da tarde —- informou o proprietário da casa.
— Depois da refeição, vocês podem ver televisão ou ficar na sala de estar conversando.
— Ninguém sai à noite lá fora? -— perguntou a menina.
— Podem sair, há luzes na varanda que podem ser acesas.
Quando queremos, por algum motivo, andar por aí, levamos lanternas.
Você quer ir lá fora?
— Não, não quero — respondeu Isabela.
— Não gosto de escuro.
Vou ter de dormir no escuro?
— No seu quarto tem abajur.
Pode ligá-lo -— autorizou Epaminondas.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 12:13 pm

Acabaram de jantar.
— Mariano, quero conversar com você, vamos ao escritório -— pediu o tio.
Estela e os filhos foram à sala de televisão e a ligaram.
Ali, pegava somente dois canais; escolheram um e ficaram assistindo.
Tio e sobrinho entraram no escritório.
Epaminondas fechou a porta, sentou-se numa poltrona e convidou, com a mão, Mariano a se sentar próximo a ele.
— Meu sobrinho, convidei-o para ficar aqui com sua família.
Este facto influencia muito minha vida de solteirão solitário.
Espero que dê valor ao meu gesto como também que fique atento para não haver excesso.
Pelo que vi e o que José Elídio me contou, de facto, vocês estavam na pior.
Não vou sustentá-lo! Não mesmo!
Quero que você assuma o sustento de sua família, que é maravilhosa.
Começará a trabalhar na segunda-feira.
Mariano, por duas vezes, tentou interromper o tio, mas ele não lhe deu chance e continuou a falar.
— Pelas circunstâncias, por o estar ajudando, interfiro em sua vida.
A localidade aqui é pequena e não temos muitos empregos.
No meu pequeno sítio ou chácara, como é chamado este pedaço de terra, você não tem o que fazer.
Não posso deixá-lo no lugar de um empregado. Não mesmo!
Não quero dispensar ninguém, ainda mais sabendo que você é instável.
Meus empregados estão comigo há muito tempo.
Por isso, arrumei, com um amigo, emprego para você, é numa loja de ferragens.
Ele vende um pouco de tudo:
produtos agrícolas, ferramentas, sementes, desde pregos a martelos.
Espero, quero, que goste e que dê certo, como também desejo que seja um bom empregado.
Já que começa na segunda-feira, você tem amanhã e domingo para fazer aqui o que deseja.
A loja abre às sete horas e trinta minutos e você estará lá neste horário.
Aqui terá moradia e alimentos, mas terá de comprar roupas para vocês e materiais escolares para seus filhos.
Seu ordenado não será muito, mas com certeza dará para os gastos.
— Eu... -— falou Mariano.
— Desculpe-me —- interrompeu Epaminondas —- não quero sua opinião.
Terá de ser assim e será.
Talvez tenha pensado em outra coisa, mas isto está resolvido.
Vou levá-lo na segunda-feira e apresentá-lo ao senhor Joaquim.
Como terá uma hora e trinta minutos para o almoço, poderá fazê-lo em casa.
E, para ir e voltar do trabalho, poderá ir de bicicleta ou caminhando.
Agora vamos nos juntar a eles na sala de televisão.
Mariano ficou calado, foram à sala, sentaram-se, e o tio conversou com as crianças.
Estela notou que o marido estava aborrecido, mas não comentou nada.
Vendo que os filhos estavam com sono, Estela falou:
— Vamos dormir?
Levantamo-nos cedo e estamos todos cansados.
— Vou verificar se a casa está fechada.
A partir de segunda-feira, será você, Estela, quem fará isto.
Vou ensiná-la.
Vou ficar vendo mais um pouco de televisão e depois irei dormir.
Despediram-se com boas-noites.
O casal e os filhos foram para os quartos.
Entraram no dormitório das crianças.
Troquem de roupa, escovem os dentes -— ordenou a mãe.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 12:13 pm

O casal acomodou-os na cama. Estela ligou o abajur e apagou a luz.
— Esta claridade está boa para você, Isa?
— Está, sim. Vamos orar.
Estou com sono.
Oraram orações decoradas e finalizaram com o Pai-Nosso.
— Lembrem-se, meus filhos, não vamos trancar nem esta porta nem a do nosso quarto; se precisarem, vão até lá.
Boa noite! -— disse Mariano.
O casal saiu e foram para o quarto deles.
— Como foi a conversa com seu tio?
Senti-o preocupado ou que ficou aborrecido -— Estela quis saber.
Mariano a puxou para o banheiro, fechou a porta e respondeu baixinho:
— Titio me arrumou um emprego!
Tinha esperança de que ele tivesse mudado, porém continua mandão, resolve e pronto.
Tratou-me como um moleque que nem arrumar emprego sozinho consegue.
Começo a trabalhar na segunda-feira numa loja de ferragens.
Terei horário para tudo e posso escolher ir caminhando ou de bicicleta.
Titio tem a camionete e um carro, mas não me emprestará.
Falou que me levará somente no primeiro dia para me apresentar ao dono.
Não é um absurdo?
— Mariano, vamos ter paciência, por favor.
Lembro-o de que até fome passamos.
Aqui tem fartura.
Pense nas crianças, elas estão bem instaladas.
Estamos bem instalados.
Não faltará comida, Felipe e Isa não terão de comer merenda na escola para não passar fome.
Seu tio, do jeito dele, está tentando resolver nossas dificuldades.
Pensou que seria difícil para você pedir emprego.
— Não poderia ajudá-lo aqui?
Ele afirmou que não, porque, se eu ficasse trabalhando no sítio, teria de mandar um empregado embora, e isto ele não quer fazer, porque eles estão há tempos trabalhando para ele, e disse também que sou instável.
Estou com vontade de chorar.
Não queria trabalhar numa loja.
Estela abraçou-o.
Naquele momento, achou que o tio fora severo demais com seu esposo, mas tentou consolá-lo.
— Meu bem, talvez seja melhor você ter um emprego independente.
Dará certo, irá gostar, e aí poderemos mudar, ter nossa casa.
— Você também terá tarefas.
Com certeza, tio Bino determinará o que fará — falou Mariano.
— Acho justo e até prefiro.
Ajudando nas tarefas da casa, me sentirei útil.
Não quero ser hóspede.
Desejo mesmo fazer algo.
— Sendo assim, sinto-me melhor.
Talvez tenha razão.
Trabalhando aqui, seria, além de morador de favor, empregado de titio.
— Numa loja de ferragens não estará em contacto com bêbados e desocupados, como era a maioria dos frequentadores do bar, mas atenderá trabalhadores e, com certeza, pessoas educadas.
Com seu ordenado, talvez consiga guardar uma parte para comprar uma outra moto.
Não esqueça, querido, que, por mais que tentemos não dar trabalho, viemos modificar a rotina de seu tio.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 12:13 pm

— Vamos dormir, estou cansado.
Estela orou muito, pediu a Deus que desse certo morar ali.
No outro dia, logo após o café, Estela deixou as crianças no quarto de brinquedos, foi à cozinha e indagou a Josemar sobre como lavar roupas.
Após escutar as explicações, foi aos banheiros, pegou as roupas que trocaram no dia anterior e as lavou.
Possuíam poucas roupas, por isso tinham que ser lavadas e passadas todos os dias.
Depois de ver as crianças, que continuavam brincando, foi ajudar na cozinha.
Após a sesta do almoço, Epaminondas convidou-os para dar uma volta de camionete pela propriedade.
Gostaram do passeio, viram as plantações e o pasto.
— Amanhã, antes do almoço, levo-os à cidade -— decidiu o tio.
O casal entendeu que a vida ali seria rotineira, com horário para tudo:
dormir, levantar, café da manhã, almoço, chá da tarde e jantar.
Domingo, logo após o café da manhã, Epaminondas informou:
— Vamos à cidade.
Vou lá somente quando tenho algo para fazer; se não, é o José Elídio quem vai para mim.
Não gosto de fazer compras e será você, Estela, quem as fará.
Não vou à missa.
Não tenho religião como rótulo, sou somente religioso.
Vocês fiquem à vontade para frequentar o culto que quiserem.
Domingo é dia de missa.
Creio que tem em três horários.
Às oito horas e trinta minutos, tem uma.
Vamos à cidade e, se quiserem ir à igreja, eu os espero conversando com amigos.
Nós a conheceremos numa volta de trinta minutos.
Estela pensou que há tempos não ia à missa, desde que Isabela começara a ver vultos e o padre afirmara que era o demónio e que a menina era endiabrada.
— Também não vamos à missa -— falou Estela.
— Vamos, então, ao passeio —- convidou Epaminondas.
Acomodaram-se na camionete.
Ao parar na porteira, Mariano desceu para abri-la.
Estela olhou para trás e comentou:
— De facto, a casa fica à tarde na sombra da montanha.
O lugar é magnífico!
— Ainda bem que gostou -— Epaminondas sorriu contente.
— Realmente, o lugar é bonito.
Vocês serão felizes aqui.
A montanha é como mãe, acolhe todos à sua sombra.
Conheceram rapidamente a cidade.
— Aqui é a sorveteria; ali, a padaria; nesta rua estão as lojas.
Como vêem, não são muitas, mas podemos comprar roupas e calçados.
A praça é pitoresca e, na frente dela, está a igreja.
Nesta rua, no final, tem um templo evangélico e, perto, um centro espírita.
Os seguidores de Kardec fazem muitas caridades.
Ali está uma escola para os jovens e, do outro lado, a escola onde estudarão.
Tem bons professores e vocês, crianças, irão gostar.
Mariano, ali está a loja em que trabalhará.
Mariano observou-a, era relativamente grande se comparada às outras lojas que viram, tinha duas vitrines e, por elas, viam ferramentas de todas as espécies.
"Será que vou gostar?", Mariano estava preocupado.
— Vimos tudo. Querem passear na praça? -— perguntou o tio.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 12:14 pm

— Não! -— responderam juntos Estela e Felipe.
Voltaram para o sítio.
Era realmente perto, a estrada era de terra, porém estava em bom estado de conservação, era plana e tinha somente duas pequenas curvas.
"“Será fácil ir de bicicleta", pensou Mariano.
— Hoje fui eu quem preparou o café da manhã — contou Epaminondas.
— Domingo é folga de quase todos os empregados.
Como os animais não podem ficar sem alimento, Da-cruz folga na segunda-feira.
Josemar deixa pronto o almoço.
Esquentarei e, depois, vocês me ajudarão a lavar a louça.
— Titio, eu lavo a louça e o ajudo com o almoço -— ofereceu-se Estela.
— Meus domingos agora não serão mais solitários! -— suspirou o dono da propriedade Na Sombra da Montanha.
Pararam na porteira, e Felipe pediu.
— Titio, posso descer para ver a porteira e voltar caminhando para a casa?
— Estes pedidos devem ser feitos à sua mãe -— respondeu Epaminondas.
— Vou descer com você e caminhar um pouco -— disse Estela.
Isabela também quis descer, e os três ficaram na porteira.
Felipe examinou-a.
— Interessante, é realmente um portão diferenciado.
Depois de olhá-la bem, os três foram andando devagar.
— Por que, mamãe, você está assim?
— Assim como? -— perguntou Estela.
— Deste modo.
Estela entendeu a filha.
A garota sentiu a mãe apreensiva e tratou de tranquilizá-la.
— Estou bem, filhinha.
Gosto daqui e com certeza ficaremos bem.
Você está gostando?
Isabela mexeu com os ombros e foi Felipe quem respondeu:
— Eu estou gostando muito de Na Sombra da Montanha e não quero nunca mais ir embora.
Olhem aquele passarinho!
Será que canta?
Correu para vê-lo, e o pássaro, assustado, voou. Estela riu.
"Não devo ficar apreensiva.
Tudo está certo e continuará."
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 12:14 pm

4. A Árvore Seca

Na segunda-feira, o casal levantou cedo.
Mariano se arrumou, fez a barba e foram tomar o café.
O tio os cumprimentou sorrindo e, no horário marcado, levou o sobrinho à cidade de camionete.
Estela ficou apreensiva, o tio chegou e não comentou nada.
Mariano voltou para o almoço e também não falou sobre o emprego, porém sua expressão estava menos tensa.
Voltou de bicicleta para o trabalho.
O tio deu as instruções:
— A bicicleta é nova.
Gosto às vezes de pedalar.
Na garupa, tem esta caixa; nela, há uma boa capa de chuva e um protector de plástico para os pés.
Se a chuva o surpreender, use-os.
Lá na loja tem local próprio para guardar a bicicleta.
Bom trabalho, sobrinho!
Estela e as crianças ficaram vendo o pai até que passou pela porteira.
Na cozinha, fazendo o chá, Estela perguntou:
— Titio anda de bicicleta pelo sítio?
— Eu nunca vi -— respondeu Silmara —- ele comprou a bicicleta na semana passada.
Ela então entendeu que o tio a comprara para Mariano.
À noite, quando o casal ficou a sós, Mariano comentou:
— Querida, acho que irei gostar do emprego.
O senhor Joaquim é muito educado, fala em tom baixo, é simpático.
Ele deve ter setenta anos.
Tem paciência para ensinar e é entusiasmado, gosta do vetado.
’Você tinha razão, as pessoas que lá vão são educadas.
— Aprenda, Mariano, preste atenção e aprenda para que serve tudo o que é vendido para ser um bom vendedor.
— Vou ter um ordenado fixo, serei registrado e vou ganhar comissão de tudo o que vender.
O senhor Joaquim me disse que, em mais três dias, poderei atender aos clientes.
Na segunda-feira que vem, um dos vendedores, tem mais dois, sairá de férias.
Gostei deles também.
Ela ficou aliviada e desejou que o marido não enjoasse deste emprego como ocorrera com os outros.
Estela aprendeu a abrir e a fechar a casa.
Foi então que notou que havia nela objectos que julgou serem antigos e de valor.
Tinha muitas peças de cristal, objectos de decoração de muito bom gosto.
"Com certeza", pensou ela, "titio trocou as travas das janelas e as fechaduras das portas, estas são novas.
A casa fica bem fechada, ela é segura".
Sempre começava, tanto para abrir como para fechar, pelos quartos.
Deixava a casa toda aberta logo após o desjejum.
E, no primeiro dia que entrou no quarto em que eram guardadas muitas coisas, sentiu arrepios.
Não gostou desse quarto.
"O que será que tem nesses armários?"
Mesmo curiosa, ela não os abriu.
Somente não abria nem fechava as janelas do quarto do tio.
Ali, somente Josemar entrava para limpar duas vezes por semana, e ele ficava junto.
"Manias", pensou Estela.
E nenhum deles entrou lá nem ficaram curiosos.
Ao abrir as janelas do escritório, Estela admirava um vaso de cristal quando Epaminondas entrou.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

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