Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 12:14 pm

— É lindo, não é? -— perguntou ele.
— Sim, a peça é encantadora.
Ela é da casa?
Quando o senhor comprou a propriedade, o vaso estava aqui?
— Não, havia somente alguns móveis.
Nenhuma decoração.
Pelo meu trabalho, mudei muitas vezes de cidade, fiz várias viagens pelo país e pelo exterior e fui adquirindo peças de decoração.
Achava bonito, comprava e guardava.
Quando reformei a casa, as coloquei para enfeitá-la.
— É tudo de muito bom gosto!
Epaminondas sorriu, Estela entendeu que ele gostava de cada peça e que talvez elas tivessem histórias como os objectos dela que foram vendidos ou trocados e os que trouxeram e continuavam nas caixas.
Já na primeira semana, Estela se organizou e passou a ajudar nas tarefas domésticas:
lavava e passava as roupas de sua família, limpava os dois quartos e banheiros e ajudava na cozinha.
No sábado, junto de Josemar, preparava o almoço do dia seguinte e, domingo, fazia tudo sozinha por ser folga dos empregados.
Quando estavam na cozinha, as três mulheres, Estela, Josemar e Silmara, conversavam.
Josemar chamou a sobrinha do patrão para conhecer onde dormia.
Do lado direito da cozinha, por uma porta, ia para o apartamento dela; a parede deste aposento fazia divisa com o quarto do dono da casa.
O apartamento era confortável, espaçoso como o banheiro, de mobiliário simples e uma televisão igual à que tinha na sala.
— Vejo minhas novelas daqui! -— explicou Josemar.
— No sábado, à tarde, vou para a cidade e volto ou domingo à noite ou na segunda-feira de manhã.
Sou viúva há muitos anos, criei meus filhos sozinha.
É um casal, e já estão casados.
Fico, na cidade, na casa de minha filha.
— Como vai à cidade? —- perguntou Estela.
— Às vezes de bicicleta, outras de carona com Silmara, que tem uma motinha.
Levo sempre muitas coisas aos meus filhos.
O senhor Epaminondas me dá frutas, ovos e frangos.
Meu patrão é muito bom.
Estela gostou das pessoas que trabalhavam ali.
Josemar era uma morena forte, simpática, sorria muito e era educada, logo se tornaram amigas.
Silmara também era simpática e educada, se cuidava, vinha arrumada, até maquiada, para trabalhar, gostava de crianças, era solteira e desejava casar e ter filhos.
O dia a dia Na Sombra da Montanha era rotineiro.
Isabela gostava de ficar no quarto de brinquedos, mas Felipe andava por todo o sítio com o tio ou com os empregados.
Epaminondas e o garoto tornaram-se amigos, ele perguntava demais, queria saber tudo o que acontecia no sítio, o tio explicava e achava o garoto inteligente.
Felipe estava gostando muito de morar no campo.
O Natal se aproximava, e Epaminondas perguntou a Estela:
— Vocês costumam dar presentes às crianças?
— Sempre demos; quando temos dinheiro, eles ganham presentes melhores.
— E, no momento, não têm dinheiro, não é?
— Hum... é que... -— Estela gaguejou.
— Entendo. Vou comprar algo para eles.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 12:14 pm

No chá da tarde, o tio perguntou:
— O Papai Noel costuma passar por aqui.
O que vocês querem ganhar?
— Se ele desse qualquer coisa, iria pedir para ficar aqui para sempre — desejou Felipe.
O dono da casa sorriu.
— Com certeza isto acontecerá.
Mas o que querem ganhar?
— Eu queria muito uma boneca grande -— respondeu Isabela.
— Agora já tenho a Mimi.
— Não quer mais nada?
Algum brinquedo?
— Queria ter roupas para ela, gostaria de trocá-la -— Isabela sorriu.
— Eu -— falou Felipe —- se puder, gostaria de ganhar uma máquina fotográfica, uma que revela as fotos.
Você bate a fotografia e, logo após, ela aparece.
— Interessante! -— exclamou Epaminondas.
— Vamos torcer para que todos ganhem presentes.
Quando as crianças saíram da sala, Epaminondas falou a Estela:
— Vou pedir para Silmara brincar com as crianças e vamos à cidade, quero comprar o que eles pediram, mas sou péssimo em compras.
Você me ajudará.
Estela trocou de roupa, e ela e o tio foram à cidade.
— Aqui deve ter as roupas para a boneca.
É uma loja de artigos para bebé.
A mãe de Isabela pegou duas roupinhas que achou que serviriam na boneca.
Epaminondas pegou outras.
— Se a menina quer isso, que sejam muitas então -— decidiu ele.
Foram numa outra loja de roupas de crianças.
— Pegue três trocas de roupas para Felipe e Isabela -— ordenou o tio.
Estela não ousou falar nada. Obedecia.
Mas, ao pegar as roupas, perguntou:
— Titio, posso pegar duas trocas e comprar ténis ou sandálias para eles?
— Pegue o que falei.
Isto será presente de Natal.
Amanhã voltaremos com as crianças, e serão elas que escolherão os sapatos.
Foram também a outra loja, de roupas para adultos, e Estela teve de escolher duas roupas para ela e outras duas para Mariano.
E, por último, foram a uma loja de electrodomésticos; o tio perguntou sobre a máquina fotográfica que Felipe queria ganhar, encontrou e comprou.
Estela não ficou nem sabendo quanto custou.
— Estas compras devem ser escondidas, serão presentes de Natal -— determinou Epaminondas.
À noite, Estela contou para o marido.
— Tio Bino -— concluiu Mariano -— determina e pronto.
Mas é boa pessoa.
— Penso que temos de lhe dar um presente. Mas o quê?
— A loja recebeu umas lanternas grandes, potentes e bonitas.
Posso conversar com o senhor Joaquim e comprar uma para ser descontada no meu ordenado e a daremos de presente.
— Faça isto!
No outro dia, foram à loja de calçados.
Epaminondas comprou para as crianças ténis, sandálias e uma bota para Felipe andar pelo sítio.
O garoto se alegrou tanto que seus olhos chegaram a lacrimejar de emoção.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 12:15 pm

O tio também pediu ajuda à sobrinha para comprar presentes para todos os empregados.
Passaram o Natal tranquilos, não cearam, não mudaram a rotina.
No outro dia, cedo, as crianças encontraram os presentes na sala de estar embaixo de uma árvore enfeitada.
Entusiasmados, abriram os pacotes.
Gostaram dos presentes.
— Este é do senhor -— falou Mariano.
— Está escrito seu nome no embrulho.
Epaminondas pegou sorrindo o pacote, abriu e exclamou:
— Que lanterna bonita! Gostei muito!
Há muitos anos não ganho presentes nem de aniversário nem de Natal. Obrigado!
Isabela gostou tanto das roupas da boneca que ficou a manhã toda trocando as roupas de sua Mimi.
Felipe leu todas as instruções da máquina fotográfica e depois quis testá-la tirando fotos da família, da casa e do jardim.
O ano novo também foi de alegria.
Nestes dois dias festivos foi folga dos empregados, então Epaminondas, Mariano e Felipe trataram dos animais, e Estela fez o almoço.
Entusiasmados, organizaram-se para fazer um piquenique no domingo na montanha.
Os cinco saíram cedo, logo após o desjejum, e foram de camionete até um pedaço; depois, foram caminhando.
O passeio foi agradável, Epaminondas foi explicando as coisas que viam e contava casos.
Eles viram animais, pássaros e árvores diferentes.
Pararam na nascente, onde foram lanchar.
Felipe era o mais entusiasmado, gostou do passeio.
Após o descanso, desceram a montanha.
Havia uma trilha.
O tio prometeu a Felipe voltar novamente antes das aulas começarem.
Parecia tudo tranquilo.
Mariano estava gostando do emprego e fazendo boas vendas.
Felipe estava muito contente.
Porém Estela continuava apreensiva.
Foi então que ela prestou atenção na filha.
A menina estava quieta, brincava muito no quarto dela ou no de brinquedos e estava sempre com a boneca Mimi.
"Será que estou me preocupando à toa?", pensou.
Resolveu prestar mais atenção na menina.
Entrou no quarto e encontrou a menina brincando, trocava a roupa da boneca.
Isabela tinha feito uma cama para Mimi ao lado de seu leito, onde colocou um lençol dobrado como colchão.
Conversava baixinho.
— Oi, querida! — disse Estela.
— Está brincando sozinha?
— Brinco com Mimi.
- Conversa com ela?
— Sim - Isabela foi lacónica.
— Mimi responde?
— Esta? Qual? A boneca? Penso que responde.
— "Qual?"! Tem outra Mimi? -— perguntou a mãe.
Isabela sacudiu os ombros, estava ultimamente fazendo muito este gesto.
— Responda, filha -— pediu Estela.
— A Esmeraldina.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 12:15 pm

— Ela responde a você? Conversam?
- Sim.
— O quê?
— Sobre tudo -— respondeu a garota, falando devagar.
— Por que veio aqui?
Estou brincando de coisas sérias.
Olhou para a mãe que sentiu seu olhar estranho.
— Vim ver você e convidá-la para ver os patos.
— Não quero!
Mimi não gosta muito de ir lá fora.
Prefere ficar aqui.
Virou as costas e tirou a roupa da boneca.
— Você vem comigo! -— Estela foi firme.
— Por quê?
— Porque eu quero!
Pegou na mão da menina, puxou-a para fora do quarto e tentou distraí-la no quintal.
A garota, por uns trinta minutos, interessou-se pelos patos, sorriu ao alimentá-los.
— Ah, sim! Vou! -— disse Isabela.
Virou para a mãe e disse:
— Devo entrar.
Quero ir para o meu quarto.
— Por quê?
— Mimi está me chamando.
Dona Estela -— gritou Silmara - a senhora vem fazer o bolo?
— Vou, sim -— respondeu Estela.
Procurou pela filha e viu a menina entrar na cozinha.
Foi fazer o bolo para o chá da tarde.
Durante o chá, prestou atenção nos filhos.
Felipe estava sempre contente, se alimentava bem e conversava bastante.
Estava eufórico porque, no dia seguinte, na quarta-feira, iria novamente à montanha com o tio.
Ele se interessava bastante pelos animais e plantações.
E, infelizmente, percebeu que Isabela conversava cada vez menos e estava se alimentando pouco.
Tinha os afazeres da casa e tentou fazê-los o mais rápido possível para estar com a filha.
"Meu Deus, o que pode estar acontecendo com Isabela?
Será de novo sua paranormalidade?
Será que algo sobrenatural está afligindo a menina?"
Assim que acabou de ajudar na cozinha, Estela foi ao quarto da filha e a encontrou deitada em sua cama.
Aproximou-se e a pegou no colo.
— O que você tem, filhinha?
O que está sentindo?
— Moleza, mamãe.
Estou muito cansada.
— Vamos brincar lá fora?
— Não quero.
Prefiro ficar deitada -— respondeu a garotinha.
Estela ficou ali, acariciando-a, e a menina dormiu.
"Será que está doente?" pensou Estela.
A mãe estava preocupada. Deixou-a dormindo.
No outro dia, sem o tio na casa, pois ele e Felipe foram à montanha, Estela tentou ficar mais com a filha e a levou para o quintal.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 12:15 pm

Sentaram-se no balanço, a mãe estava com a menina no colo.
Isabela se aconchegou e exclamou baixinho:
— Mamãe, me proteja!
Quero a senhora!
Não quero ser filha dela!
— Filhinha! Minha querida!
Ficaram abraçadas por alguns minutos.
De repente, Isabela saiu correndo atrás de um passarinho.
Passaram a tarde no quintal brincando.
Nem no resto da semana e nem na outra, nada aconteceu de diferente.
A expectativa era o início das aulas.
Mariano recebeu o ordenado e o deu para a esposa guardar, a fim de comprar material escolar.
Foram fazer a matrícula, Epaminondas foi junto e comprou os uniformes.
Estela pegou as listas dos materiais.
O tio decidiu comprar também os ténis e as sandálias que faziam parte do uniforme.
— Titio, aqui na cidade não há pobres?
Os uniformes são caros.
Alunos podem ir à escola sem eles? -— perguntou Estela.
— Você viu os preços dos uniformes? — indagou Epaminondas.
— Eu vi — respondeu Felipe.
— Tinha três preços para as mesmas peças.
— Isso mesmo — falou o tio.
— Os uniformes são todos iguais.
As pessoas que podem pagam o preço mais caro; o preço intermediário é o de custo; e o terceiro é somente para constar que pagaram, mas, se não podem comprar, recebem também.
Assim, todos os alunos vêm iguais para a escola.
Comprei dois para cada e tive o prazer de pagar pelo preço mais caro; agindo assim colaboro para que todos os alunos venham às aulas uniformizados.
— Gostei! Que ideia interessante! -— exclamou Estela.
— A escola não corre o risco de alguns pais que podem pagar não o fazerem?
— Isso acontece. Infelizmente há pessoas que gostam de obter vantagens.
Mas tem dado certo.
A escola tem pessoas que ajudam, e a prefeitura também colabora.
O tio comprou os ténis e as sandálias.
— Vamos tomar sorvetes e depois iremos embora -— determinou Epaminondas.
— Amanhã, Estela, você, com as crianças, vem aqui novamente para comprar o material escolar.
Felipe estava entusiasmado, Isabela foi contagiada pelo irmão.
A escola era espaçosa; o pátio, grande, tinha quadras de desporto e, nas salas de aula, as carteiras eram confortáveis.
Gostaram do local onde iriam estudar.
No outro dia, voltaram, e Estela comprou, com o dinheiro que Mariano lhe dera, todo o material da lista e também mochilas e lancheiras.
— José Elídio -— determinou Epaminondas -— os levará à escola e, como é no mesmo horário que Mariano vai para o emprego, ele irá junto.
Irão de camionete.
José Elídio os buscará, meu sobrinho virá com eles para almoçar e voltará à loja de bicicleta.
"Titio determina tudo, mas devo admitir que resolve sempre da melhor forma", pensou a mãe das crianças.
Estela foi com eles no primeiro dia de aula e, como muitas mães entraram, ela também o fez.
Conheceu as professoras dos filhos.
Quando as crianças foram para as classes, despediu-se delas com beijos e voltou para o sítio com José Elídio.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 11:50 am

"Quem sabe, com as aulas, Isabela se distrai", pensou.
Os dois gostaram da escola e dos novos amiguinhos.
Mas, três dias depois, Isabela voltou a ficar calada, tristonha e a se alimentar pouco.
A mãe não queria preocupar mariano, que estava entusiasmado no emprego.
Trazia para casa e lia com atenção revistas e artigos sobre os materiais que a loja vendia.
Perguntava ao tio sobre os utensílios agrícolas e os dois conversavam animados sobre o assunto.
Não queria incomodar o tio, receava aborrecê-lo e não sabia o que fazer.
"Será que devo levá-la ao médico?
É melhor! Quando Mariano receber de novo seu pagamento, vou pegar o dinheiro e levá-la para uma consulta."
Mas Mariano recebeu e chegou em casa com uma moto.
— Meninos! Estela! Tio Bino!
Venham ver a moto que comprei.
Era do filho do senhor Joaquim.
Pagarei em prestações que serão quase o valor todo meu ordenado.
Valeu a pena! Está bem conservada -— vendo a esposa com expressão preocupada, ele perguntou:
— Não gostou, querida?
— Mariano, meu bem, não deveríamos pagar o locatário?
— Esqueci!
Mariano parou de rir, mas logo voltou a fazê-lo ao mostrar a moto ao filho.
Epaminondas puxou Estela, afastando-a uns passos do sobrinho, e lhe falou baixinho.
— Quando José Elídio foi buscá-los, ele pagou o locatário.
— Como o senhor sabia que devíamos a ele?
— Mariano me passou um telegrama contando que, com a venda da moto e dos móveis, ia pagar todas as dívidas, ficaria somente devendo uma parte do aluguel da casa.
— Quanto o senhor pagou? -— Estela quis saber.
Epaminondas falou a quantia.
— Devíamos bem menos!
— O que ele recebeu a mais ficará em sua consciência.
Deixe Mariano ficar contente e falou alto:
— Bonita moto, meu sobrinho!
Valerá o trabalho de meses para pagá-la!
— Depois do almoço, não irei mais de bicicleta para a loja, mas, sim, de moto -— Mariano estava realmente contente.
No outro dia, Estela estava na cozinha fazendo o chá da tarde quando Silmara a chamou:
— Dona Estela, Isabela está chorando de novo lá no jardim, na árvore seca.
Ela largou o que fazia e rapidamente foi ao jardim.
A filha estava sentada no cercado que rodeava a árvore, de cabeça baixa, com a boneca ao lado, e chorava sentida.
- O que houve, querida?
Por que está aqui?
Por que chora? -— perguntou Estela aflita.
— Ela chora todos os dias aqui -— respondeu a menina.
— Quem é ela?
— A Mimi.
Estela sentou-se na mureta e pegou a filha no colo.
— Filhinha, meu bem, não chore.
Mamãe está aqui.
— Ajude! -— exclamou a menina chorando.
A garota abraçou forte a mãe.
Estela se levantou com ela no colo e a levou para a cozinha, sentou-a numa cadeira e foi acabar de preparar o chá.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 11:50 am

Isabela ficou quietinha, tomou o chá com bolo.
— Vamos, querida, agora, fazer sua lição.
Foram ao escritório, e a garota, obediente, fez sua tarefa.
No outro dia recebeu um bilhete da professora de Isabela pedindo para ir à escola.
Marcou o horário, era no período do recreio.
Estela teve de informar o tio.
— Quer que José Elídio a leve?
Será algum problema? -— perguntou Epaminondas.
— Com certeza não.
Professores gostam de conhecer os pais de alunos novos.
Vou caminhando. Só que não poderei ajudar no almoço.
— Isto não tem importância.
Josemar sempre fez a comida sozinha.
Estela, andando depressa, foi caminhando do sítio à escola.
Chegou antes do horário marcado.
Assim que as crianças saíram para o pátio, a professora a convidou para entrar na sala.
— Dona Estela -— disse a professora —- chamei-a aqui porque Isabela ainda não se entrosou, penso que nem com a escola nem com os coleguinhas.
É muito quieta, não conversa nem no recreio, come seu lanche, sentadinha sozinha num banco e continua lá até dar o sinal.
Não está atenta.
Mas o que mais me preocupa é isto.
A professora deu uma folha de papel para Estela, que leu:
"Minha mãe é bonita.
Gosto dela.
Não quero a outra por mãe.
Ela some e aparece."
— O que é isto? -— perguntou Estela.
— Pedi para as crianças escreverem o que quisessem.
No segundo ano, eles escrevem pouco e com alguns erros.
Isabela escreveu tudo correctamente.
A senhora não acha confuso?
— Sim, acho, eu não entendo.
— Isabela é adoptada? -— perguntou a professora.
— Não! É minha filha e de meu marido!
— Vou dar mais atenção a Isabela.
Talvez a mudança de cidade, casa, e escola a tenha deixado insegura e confusa.
A senhora deve também lhe dar mais atenção e carinho.
Pode ir agora. Obrigada por ter vindo.
Estela saiu da escola com vontade de chorar e o fez assim que saiu da cidade, caminhando pela estrada.
"Meu Deus! O que está acontecendo?
Será que Isabela não quer ser mais minha filha?
O facto é que ela não está bem e não sei o que fazer.
Mariano está bem no emprego, Felipe gosta demais do sítio, e eu também.
Mas Isabela não gosta.
Ela tem algo de diferente.
Será influência de espíritos?
Como dona Marta está fazendo falta!"
Chegou em casa, e o tio perguntou:
— O que a professora queria?
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 11:50 am

— Somente me conhecer.
A professora é atenciosa.
"É melhor titio não saber.
Com certeza não entenderá.
Se tivermos de nos mudar daqui, iremos para onde?"
Como sempre, o almoço era um encontro prazeroso.
Epaminondas mudou seu horário, e almoçavam todos juntos.
Antes do chá, o dono da casa lia o jornal na sala de estar e Estela arrumava a mesa da sala de jantar quando olhou pela janela e viu Isabela sentada no cercado da árvore seca.
Rápida, foi até ela.
Epaminondas, vendo-a sair com expressão preocupada, a seguiu.
A mãe da menina não notou que o tio estava atrás dela.
— Isa, por que está aí?
Por que senta no cercado?
— A árvore fica às vezes bonita, não fica?
Verde com flores amarelas...
Ora fica feia e triste...
Estela reparou novamente na árvore.
"Com certeza", pensou, "difere-se muito das outras plantas do jardim que estão vivas e floridas.
Este galho é interessante, é voltado para o lado esquerdo.
Poderia fazer nele um balanço.
Embora seca, parece ter ainda alguma vida.
Que mau gosto deixá-la aqui!"
Ela escutou um choro.
Olhou para a filha.
Isabela não chorava.
Prestou atenção, era um lamento sofrido.
Estela olhou para os lados e nada viu, virou para trás e viu o tio olhando-as.
— Será um gato? -— perguntou Estela.
— Aqui não tem gato -— respondeu Epaminondas.
— Por gostar de pássaros, não tenho gatos.
— Quem chora? — perguntou a mãe, olhando para a filha.
- Mimi! — respondeu Isabela.
Estela pegou a filha, a boneca e entrou na casa.
Epaminondas entrou atrás.
A mãe levou a filha para o quarto e receou fazer mais perguntas à menina, que foi brincar de casinha.
As duas ficaram ali e se esqueceram do chá.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 11:51 am

5. Manifestações Físicas

Depois do banho, Estela ligou a televisão para a filha ver, e a menina, obediente, ficou calada olhando para a tela.
— Felipe, quero ver seus cadernos. Vamos ao escritório!
— Mamãe, fiz toda a lição -— reclamou o garoto.
No escritório, Estela viu que de facto o filho fizera a lição.
- Felipe, você tem notado que Isa está diferente?
— Diferente como?
— Mais calada, algo assim?
— Está muito calada -— respondeu o garoto.
— Nem briga nem brinca comigo.
Ela somente se altera quando pego naquela boneca.
Acho que é a boneca.
Minha irmã conversa sozinha.
— O que ela fala? -— Estela quis saber.
— Não presto atenção.
Acho que foi ontem que a ouvi falar para a boneca:
"Não sei se quero que seja minha mãe".
Mamãe, você sabia que aqui teve uma igrejinha e um muro no jardim?
Isa falou isto num dia que estávamos passeando com tio Bino.
Ele perguntou como ela sabia, e eu tratei de inventar a resposta.
Será que Isa está com aquelas coisas de novo?
— Se você vir que ela está agindo diferente, me chame, está bem?
A porta do escritório bateu, assustando mãe e filho.
Estela sentiu frio.
— É o vento -— falou ela.
— Posso ir? Quero ver televisão.
- Pode.
O garoto abriu a porta e correu, foi para a sala.
Estela verificou as janelas, estavam fechadas.
Arrepiou-se. Foi se juntar aos outros na sala.
No quarto, quando se preparava para dormir, Estela falou ao marido.
— Mariano, estou preocupada com Isa.
Acho que voltaram aquelas esquisitices.
Ela parece doente.
— Aquilo de novo?
Oh, não, querida!
Não deixe isto acontecer.
Titio pode não gostar, não acreditar e talvez pense que estamos inventando.
E se, por isto, ele não nos quiser mais aqui?
Encontrei-me profissionalmente, estou gostando de lidar com ferramentas, fiz amizade com os colegas e com muitos fregueses, o senhor Joaquim me elogiou.
— Com seu ordenado, talvez consigamos viver em outro local -— falou a esposa.
— Querida, isto no momento não é possível.
Comprei a moto, e como montar uma casa?
Não temos nada. O melhor é você vigiá-la.
Fique mais com ela.
Talvez nossa filhinha esteja sentindo a mudança.
Você não está se preocupando demais?
"O problema, como sempre, é meu", pensou Estela.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 11:51 am

"Talvez deva levá-la ao médico.
Posso pedir dinheiro emprestado ao tio Bino para pagar a consulta e usar o dinheiro que tenho guardado para comprar os remédios."
Demorou para dormir.
No outro dia, enquanto arrumava as crianças para irem à escola, perguntou à filha.
— Você gosta da escola?
— Queria, às vezes, ficar lá o dia todo -— respondeu a menina.
— Por quê?
— Porque sim. Estou cansada, mamãe.
"Ela deve estar doente mesmo", pensou Estela.
À tarde, Felipe mostrou à mãe uma das fotos que tirara da irmã sentada na mureta da árvore seca.
Do lado esquerdo da foto apareceu um vulto, parecia uma mulher de roupa clara e cabeça baixa.
— Não é estranho, mamãe? -— perguntou Felipe.
— Deve ter entrado claridade na máquina.
Vou guardar esta foto.
Felipe lhe deu, e Estela guardou-a numa gaveta em seu quarto.
Naquele momento, achou que a fotografia apenas saíra ruim, mas depois receou.
“Será que Mimi foi retratada?
Isto é possível?
Deve ter sido uma falha da máquina."
Dias depois, quando foi arrumar os quartos, estava no corredor e ia abrir a porta do das crianças, Estela viu um vulto.
Ela parou, sentiu gelar, arrepiou-se.
Viu uma mulher com roupas claras e compridas, parecia chorar, o vulto saiu do quarto dos filhos, passou pela porta fechada e entrou no dos brinquedos.
Estela ficou parada por alguns segundos, depois entrou no dormitório, arrumou-o, sentou-se na cama e chorou baixinho:
estava confusa, com medo, esforçava-se para não se desesperar.
De repente, sentiu uma mão no seu ombro e escutou um choro.
Apavorada, sentindo muito medo, levantou-se, foi ao banheiro, lavou o rosto e foi fazer suas tarefas.
Resolveu ficar mais tempo com a filha.
Tentava fazer, pela manhã, todas as suas tarefas, para, à tarde, estar mais com a menina.
Levava-a ao quintal, brincava com ela, mas Isabela queixava-se de estar cansada, queria se deitar.
Preocupada, Estela percebeu que a filha emagrecera, seu olhar estava triste.
Resolveu conversar com a filha sobre Mimi.
Depois do almoço, foi para o quarto com ela.
— Filhinha, precisamos conversar.
Estou preocupada com você.
Tem estado cansada, quer ficar no quarto, conversa com Mimi...
O que conversa com ela?
— Tia me conta casos.
Chora muito porque é triste.
— A boneca? -— perguntou a mãe.
Isa mexeu com os ombros.
— Você tem visto a mulher? -— Estela insistiu.
Estava apreensiva e temia a resposta.
— Sim, ela quer ser minha mãe, porque não teve filhos. Mas eu quero você, e aí ela chora, chora muito.
— Você não quer isto, não é?
— Não sei, estou cansada, triste também, e choro -— respondeu Isabela.
— Ela se chama Mimi?
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 11:51 am

— Esmeraldina, mas quer que a chame de Mimi ou "mamãe".
Mas eu não quero!
— Ela está aqui agora? -— Estela quis saber.
— Não, mas posso chamá-la.
— Então chame-a -— pediu a mãe.
Isabela colocou as mãos nas laterais da testa e fechou os olhos, isto por alguns segundos.
Abaixou as mãos, abriu os olhos e falou:
— Ela está aqui!
— Muito bem! -— falou Estela em tom baixo, mas com firmeza.
— Escute, alma do outro mundo.
Quando se morre, tem que seguir seu rumo.
Não pode ficar perto dos que estão vivos, encarnados.
Está atrapalhando e muito.
Eu sou a mãe da Isa! Eu!
Não perturbe mais minha filha! Fora daqui!
Estela não sabia explicar como teve coragem de falar tudo aquilo, pois sentia a presença daquele espírito ali parado perto das duas.
Escutou um choro.
Olhou para a filha, ela não chorava.
A menina olhava atenta, ora para o vulto, ora para a mãe.
— Mamãe, não dá certo.
Já fiz isto, Mimi se afastou, e o Coisa Ruim veio me perturbar, ele é medonho, tive de chamá-la, ela me protege.
O Coisa Ruim é mau mesmo.
Mimi está chorando e falou que vai se afastar.
Mamãe, estou com medo!
Estela abraçou a filha, pegou-a e foi com ela para a cozinha.
Colocou-a sentada numa cadeira e foi fazer um bolo.
Minutos depois, Silmara entrou na cozinha apavorada, ela estava no quintal.
— O que foi, Silmara? -— perguntou Josemar.
Ela não conseguia falar, estava branca e tremia.
Tomou a água que Josemar lhe deu e falou gaguejando:
— Estava pegando ovos quando escutei uma gargalhada.
Pensei, embora isto nunca tenha acontecido, que poderia ser o Dacruz ou o Zé.
Olhei e não vi ninguém.
Aí me jogaram goiabas, duas me acertaram.
As aves se assustaram, e eu senti soprarem na minha nuca. Corri para dentro.
— Serão macacos? -— perguntou Josemar.
Deve ser o barulho de algum animal e você confundiu com gargalhada.
Macacos atiram coisas.
— Não sei...
Parou de falar porque Josemar a olhou séria.
Isabela também olhou para a mãe, que sentiu no seu olhar um "Não avisei?"
Escutaram barulho de portas batendo.
Parecia que todas as portas da casa batiam, uma atrás da outra.
Em seguida, José Elídio entrou na cozinha com a testa sangrando.
— Estava no jardim e fui atingido por uma pedrada. Jogaram muitas.
— Eu vou embora!
Vou para casa, não estou me sentindo bem -— falou Silmara.
— Não vai, não! -— determinou Josemar.
— Vá chamar o senhor Epaminondas, mas antes pegue para mim a caixa de medicamentos, aquela que está na dispensa.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 11:51 am

Silmara pegou a caixa, e Josemar começou a fazer um curativo na testa de José Elídio, que estava branco e tremia.
Ouviram portas batendo, barulho de louças sendo quebradas e de pedras sendo jogadas no telhado.
— Parece que alguém está rindo -— disse José Elídio.
— Meu Deus! Ajude-nos!
Josemar começou a rezar.
Uma das bocas do fogão de gás acendeu sozinha.
Estela desligou o botão, pegou Isabela no colo e correu com ela para o quarto das crianças.
— Isa, filha, chame por Mimi.
A garota fez como das outras vezes, colocou as mãozinhas nas laterais da cabeça e fechou os olhinhos.
Demorou desta vez.
— Ela está aqui -— informou a menina.
— Peça a ela para nos ajudar.
— Mimi está ouvindo, não preciso repetir.
— O que preciso fazer para ela nos auxiliar?
— Pedir desculpas -— respondeu Isabela.
— Peço! Mimi, me desculpe! Socorra-nos!
Estela implorou, olhou para a filha e perguntou:
— Ela vai nos ajudar?
Escutaram as aves do galinheiro fazendo um alvoroço, as galinhas estavam assustadíssimas.
— Por favor, Mimi -— pediu Estela, e lágrimas escorreram por seu rosto.
— Ela disse que vai ajudar e saiu, sumiu -— falou a menina.
Isabela abraçou a mãe.
A casa ficou silenciosa.
Estela pegou a filha no colo e voltou à cozinha.
A sensação que teve foi de que houvera uma grande tempestade e que esta passara.
Epaminondas, Josemar, José Elídio e Silmara estavam na cozinha.
Olhavam uns para os outros, estavam calados.
Estela sentiu o cheiro forte, o bolo queimava.
Desligou o fogão.
Ela abriu a porta da cozinha, olhou para o galinheiro, as aves continuavam assustadas.
— Onde está Felipe? -— perguntou a mãe.
Esquecera do garoto com a confusão.
— Ele foi com Dacruz ao pasto.
Deve voltar logo -— respondeu Josemar.
— Vamos, José Elídio, ao galinheiro; devem ter morrido aves -— chamou Epaminondas.
O empregado estava com medo, mas foi.
— Será que acabou? -— perguntou Silmara, que tremia assustada.
— Sim, acabou -— afirmou Isabela.
Não tomaram chá naquela tarde.
Estela, da porta da cozinha, viu que morreram algumas aves.
Epaminondas e José Elídio tiraram-nas do galinheiro, deixaram-nas no chão do outro lado para ser enterradas e depois alimentaram as restantes.
— Façam o que for mais urgente -— determinou o proprietário a Silmara e a José Elídio —- depois vão para suas casas e, por favor, não comentem o que aconteceu aqui com ninguém.
Os dois, minutos depois, foram embora.
Felipe chegou, como sempre, contente, falando de cavalo.
Ninguém contou nada a ele, não estavam com vontade de conversar.
E aonde Estela ia, levava Isabela.
Ela foi fechar a casa, viu dois vasos quebrados, assim como alguns enfeites, e retirou os cacos.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 11:52 am

Ajudou os filhos a se banharem.
Foram jantar e, pela primeira vez, não teve sopa, somente o que restara do almoço.
Mariano e Felipe conversaram animados.
Todos viram um pouco de televisão e foram dormir.
"Vou dormir aqui com Isa", pensou a mãe.
— Mamãe - falou a menina.
— Tudo está bem agora.
Mimi manda no Coisa Ruim, e ele obedece.
Ela está falando que está tudo tranquilo e que não precisa dormir aqui.
Estela arrepiou-se, não respondeu, não queria mais se desentender com Mimi, pois vira o resultado.
Beijou os filhos e foi para o seu quarto.
Mariano já estava dormindo.
Ela se deitou, não estava com sono e ficou pensando:
"Não posso deixar isto continuar. Não mesmo!
Aqui tem almas perdidas ou desencarnados, como dona Marta diz.
Está sendo muito complicado para mim entender o que está acontecendo.
Preciso de ajuda.
Necessito auxiliar minha filha.
Vou conversar com tio Bino, espero que ele seja compreensivo, mas, se não for, paciência.
Isabela é mais importante do que o conforto desta casa.
Mariano pensa que titio pode nos mandar embora desta casa se ele souber que nossa filha é sensitiva, mas talvez titio compreenda.
Todos viram a confusão que ocorreu nesta tarde".
No outro dia, Estela acordou cansada, abatida, sentindo dores pelo corpo e na cabeça.
Assim que os filhos saíram para ir à escola, aproximou-se do tio.
— Titio, preciso conversar com o senhor, por favor.
— Venha comigo -— pediu ele.
Levou-a para seu quarto e fechou a porta.
Sentou-se numa poltrona e a convidou para se sentar próxima a ele.
Estela resolveu contar o que estava acontecendo com a filha; tinha pensado e repensado durante a noite o que dizer, mas estava indecisa e nervosa.
Decidiu falar a verdade, apesar do receio que sentia de ele não aceitá-los mais no sítio.
Depois de uns trinta segundos calados, ela falou:
— É a primeira vez que moro numa casa assim, onde há fartura, tem conforto.
Sou grata ao senhor por isto.
Minha família é pobre, sou a filha caçula.
Tenho uma irmã e um irmão.
Meus pais brigavam muito, ele faleceu e, três meses depois, minha mãe trouxe para casa um homem.
Minha irmã, a mais velha, foi trabalhar como babá, mas esta família se mudou para outro país e ela foi junto, onde está até hoje, não voltou mais, correspondemo-nos raramente.
Meu irmão se entendeu com nosso padrasto.
Este homem me olhava muito, principalmente quando mamãe não estava presente e até chegou a passar a mão nos meus braços e pernas.
Contei a mamãe, que não acreditou.
Uma tia, irmã de meu pai, arrumou emprego para mim de empregada doméstica para dormir no emprego.
Parei de estudar e fui.
Deu certo, senti-me aliviada por sair de casa.
Conheci Mariano, namoramos, casamos e nos amamos.
Demorei para perceber que meu marido é instável.
Agora está muito entusiasmado com o emprego, mas já vi isto:
esta euforia passa, começa a pôr defeito no que faz e, de repente, sai ou é mandado embora.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 11:52 am

Estela fez uma pausa, suspirou e olhou para o tio:
ele estava atento, mas de cabeça baixa.
— Mas -— continuou Estela -— não é isto que quero falar com o senhor.
Isa, minha filha, desde pequena, sorria muito, parecia que alguém invisível brincava com ela; depois falava sozinha, dizia ter amiguinhos que ninguém via.
Epaminondas levantou a cabeça e olhou para ela, que sentiu vontade de parar de contar, porém continuou:
— Ela estava com seis anos quando nos mudamos de casa.
Foi uma época difícil.
Ela gritava à noite e acordava assustada, dizendo que tinha um homem no seu quarto.
Começou a agir diferente, estava sempre com medo, não queria brincar nem ficar sozinha, emagreceu, não comia direito.
Levei-a ao médico, que receitou vitaminas e calmantes.
Não resolveu. Tive uma educação católica, porém ia pouco à igreja.
Fui lá à procura de ajuda.
O padre me tratou bem, mas não concordei com o que ele me falou e não voltei mais.
Isa me falou que o homem que via lhe contara que ficara muito doente e que todos, os dois filhos, o abandonaram ali e que lhe doía a garganta.
Conversando com uma vizinha, ela me contou que, antes de nós, residira ali um senhor com um casal de filhos e que era viúvo.
Quando ele faleceu, os filhos venderam a casa e se mudaram.
E foi esta mesma vizinha que, talvez percebendo que algo de errado estava acontecendo connosco, me convidou para ir me benzer.
Fui com ela e levei as crianças.
Conheci dona Marta, uma senhora muito boa, caridosa, que pediu para eu escrever nosso endereço num caderno e que voltasse mais vezes.
Naquele dia, Isa dormiu a noite toda sem acordar ou gritar.
Levei-a mais vezes, então vim a saber que o local aonde estávamos indo era um centro espírita e que dona Marta dava passes.
Isa não viu mais o espírito deste senhor, que foi orientado e saiu de nossa casa, foi levado a um local para ser auxiliado.
Passei a ir sempre ao centro espírita e levava as crianças para receber o passe.
Isa não me deu mais preocupação até...
— Por favor, continue -— pediu Epaminondas.
— Chegar aqui, nesta casa.
Desculpe-me, titio, mas algo aqui não está certo.
Não quero ofendê-lo nem parecer ingrata, o senhor tem nos ajudado tanto!
— Isabela é sensitiva?
Conte-me tudo. Não estou ofendido.
Sei de muitas coisas.
— Não é melhor o senhor me contar?
Talvez eu possa entender.
— Vou lhe contar -— Epaminondas suspirou.
— Quando me aposentei, queria residir num sítio perto de uma cidade.
Almejava sossego e tranquilidade.
Uma pessoa me falou desta região, afirmou que era pacata e singela.
Vim para cá e me hospedei no único hotel da cidade.
Gostei do lugar.
Aqui, Na Sombra da Montanha, há muitos anos, era uma enorme fazenda e, quando o casal proprietário faleceu, os filhos homens, que residiam em outros locais, venderam a propriedade.
Dividiram-na em áreas e, depois, algumas foram redivididas.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 11:53 am

Este pedaço de terra estava à venda e teve muitos donos.
Achei o preço razoável; para mim, valia mais.
Fiquei sabendo que esta casa fora a sede, a moradia deste casal, dos primeiros donos que a construíram e que era assombrada.
Não acreditei. Achei que, por ser velha, tinha alguns barulhos.
Amei o lugar assim que o vi, comprei e vim para cá.
Tinha ainda algum dinheiro guardado e recebo uma aposentadoria de valor razoável, então comecei a reformar a casa.
Infelizmente, logo percebi que o local era, de facto, mal assombrado.
Muitas coisas estranhas aconteciam.
Morava, naquela época, na região, um índio, pelo menos ele dizia ser um.
Contratei-o para nos livrar das assombrações, paguei caro.
O resultado foi parcial.
Ele afirmou que, por meio de queima de ervas e orações, fechou este pedaço, meu aposento, e garantiu que aqui nenhuma alma penada entraria.
De facto, não entra mesmo, fez isto também na casa de Dacruz e no quarto de Josemar.
Às vezes escutamos choro, vemos vultos ou jogam frutos na gente.
Este índio fez um trato com um dos espíritos, não me pergunte como foi feito isto, não sei responder:
eles não nos perturbariam muito, mas era para não cortar a árvore seca.
Não cortei e eles não estavam nos prejudicando.
Passamos a conviver com estes pequenos fenómenos.
Os empregados não se importam muito, somente a ajudante não fica.
Silmara está connosco há pouco tempo.
Eu pago bem meus empregados, talvez por isso eles permaneçam no sítio.
Penso que Silmara deve se demitir depois de ontem.
Ainda há os gemidos, mas estes ocorrem à noite, e os que não moram aqui não os escutam.
— Gemidos? -— perguntou Estela.
— Vocês não ouviram?
— Não!
— Todos os meses -— contou Epaminondas —- no primeiro dia de lua cheia, esteja ela escondida atrás de nuvens ou não, lá pelas nove horas da noite, escuta-se um barulho, parece ser de chicotadas e gemidos.
Normalmente são dezanove e depois somente se escuta gemidos de dor.
E ruim escutar isto.
Agora me conte, o que Isabela tem visto?
É somente ela que vê ou ouve?
— Minha filha, assim que chegou ao sítio, foi para perto da árvore e disse que ora a via seca, ora verde com flores amarelas.
Gostou demais da boneca e colocou o nome nela de Esmeraldina, a Mimi.
Para mim, ela conversava com a boneca, mas percebi que Mimi é um espírito que chora muito e...
O perigo, pelo que entendi, é que esta desencarnada quer nossa menina para filha.
Quer ser a mãe dela.
Isa está confusa, não tem se alimentado direito, e Felipe me contou que ela fala muito sozinha, penso que é com o espírito.
Não sabendo o que fazer, resolvi conversar com esta mulher, estava nervosa e desesperada, e Isa afirmou que este espírito estava no quarto; fui grosseira e a ofendi, percebo agora que falei coisas que não devia.
A moradora do além saiu do quarto.
Isa me disse que é ela quem controla o Coisa Ruim, que deve ser um outro espírito.
E aí deu aquela confusão de ontem.
Apavorada com os barulhos, com o que acontecera, levei minha filha para o quarto e pedi para ela chamar o espírito da mulher; ela o fez, eu me desculpei, e pararam aquelas manifestações.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 24, 2016 11:58 am

Titio, não estou louca, mas talvez fique.
— Pedi a todos os empregados para não falar a vocês o que acontecia aqui.
Percebi que você se intrigou com a árvore seca no jardim.
Segundo o índio, um dos espíritos que fica aqui, que não é tão ruim, não queria que a cortassem e, se eu a deixasse lá, ele controlaria os outros, nos protegeria.
Confesso que receio cortá-la e deixar nervosa esta alma perdida.
E a árvore está lá para lembrar que aqui também residem alguns espíritos.
Não queria que soubessem disto, temi assustá-los, tive esperança de que não percebessem.
Queria, quero, tanto que vocês se adaptassem, gostei muito de ter companhia.
Felipe é uma alegria.
Gosto do menino como a um filho.
Vocês pretendem ir embora?
Não queria que fossem.
— Eu com receio de lhe contar, e o senhor com o mesmo receio.
Estava preocupada, pensei que o senhor pudesse não nos querer mais aqui.
Titio, não temos para onde ir.
Não queremos ir embora desta casa. Não quero!
E, mesmo com estes problemas, estou aliviada por saber que nos quer aqui.
Eu também vi vultos, senti calafrios e escutei portas baterem antes dos acontecimentos de ontem.
Não me importo e poderia, como o senhor, me acostumar.
Mas não posso ver passivamente o que está ocorrendo com minha filha.
Fui chamada na escola porque Isabela não está enturmada, não conversa com ninguém, nem no recreio, está triste, apática e, com certeza, se continuar assim, ficará doente.
Amo-a muito!
Amo demais meus filhos!
Os dois se olharam e suspiraram.
"Não posso deixar umas assombrações levá-los daqui, não mesmo.
Mas o que faço?
O que poderei fazer para impedir?", pensou o proprietário do sítio.
— O índio! -— exclamou Estela.
— Quando notei que Isabela poderia estar sendo afectada pelas almas penadas, fui atrás dele.
Sabia que tinha se mudado. Não o encontrei.
Parece que este índio não pára muito tempo em lugar nenhum.
Por mais que tenha indagado, não consegui saber dele.
— O que fazer? -— perguntou Estela mais para si.
— É, o que fazer? -— repetiu o tio.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 24, 2016 11:58 am

6. Buscando Auxílio

- Dona Marta! - exclamou Estela.
— A senhora espírita que nos socorreu aquela vez.
Talvez ela possa nos ajudar novamente.
— Bem lembrado! -— concordou Epaminondas.
— Mas como? Se tivermos de ir até lá, iremos.
Se ela puder vir aqui...
Estela, telefone para ela. Agora!
José Elídio a levará à cidade, lhe darei fichas telefónicas, e você ligará; se não encontrá-la, volte à tarde e tente novamente.
Peça a esta senhora, implore para que nos ajude. Ela cobra?
— Não cobra nada!
O centro espírita auxilia os necessitados.
Ajuda todos os que pedem.
- Estou pensando! -— exclamou o dono da casa.
Poderíamos convidá-la para passar uns dias aqui, Na Sombra da Montanha, ela e algumas pessoas que trabalham na equipe.
Como foi mesmo que o homem morto, o que estava na sua casa, saiu de lá?
— Os espíritas não falam "morto", chamam as pessoas que mudaram para o Além de "desencarnados" -— explicou - Estela.
— Dona Marta me esclareceu que algumas pessoas que desencarnam ficam desorientadas e perturbam os encarnados, os que vivem usando um corpo físico.
— Faz sentido! -— exclamou Epaminondas.
Desencarnados são os que vivem sem este corpo e continuam vivos de outra forma.
— Aprendi, indo ao centro espírita e escutando palestras, que os motivos para desencarnados ficarem num local são muitos.
— Penso que os que estão aqui têm seus motivos.
Devemos nos livrar deles, mas também ajudá-los.
Estela, telefone para esta senhora, explique nossa situação, rogue por auxílio e a convide para vir aqui -— repetiu ele.
Podemos hospedá-los.
Na semana que vem, teremos um feriado na sexta-feira.
Quem sabe eles não vêm?
Estela, faça menos serviço em casa e fique mais perto de Isabela.
— Se na cidade tem um centro espírita, será que eles não podem nos socorrer? -— perguntou Estela.
— Vamos, por favor, tentar esta senhora, sua conhecida; se não conseguir, iremos ao centro espírita da cidade.
Aqui, a localidade é pequena, todos se conhecem e, infelizmente, existem comentários.
Esta propriedade tem fama de assombrada.
Se eu for lá pedir ajuda, é capaz de nem empregados conseguir mais.
Você gosta do espiritismo?
— É uma religião muito fraterna, ajuda sem olhar a quem e seus ensinamentos são esclarecedores e explicam a justiça de Deus.
— Que reencarnamos muitas vezes? -— quis saber o dono de casa.
— Acreditando nesta possibilidade, entende-se o porquê de tantas diferenças.
— Vá telefonar -— pediu ele.
Se for agora, poderá esperar as crianças na saída da escola.
Não esqueça de falar que, se eles quiserem vir, José Elídio os buscará e depois os levará.
Aqui estão as fichas telefónicas; se quiser, ligue para mais pessoas.
Tem um orelhão perto da escola.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 24, 2016 11:59 am

— Escrevi cartas, na semana seguinte a que chegamos, para minha irmã, irmão e mãe.
Somente minha irmã respondeu me desejando sorte na nova moradia.
Agradeço o senhor, mas telefonarei somente para dona Marta.
Vou me trocar, pegar o número do telefone dela e ir.
— Vou avisar José Elídio.
Minha sobrinha, não devemos falar do que conversamos com ninguém.
Sobre este assunto, devemos somente conversar aqui, que acredito que eles não entram.
Se as assombrações ou, como você fala, os desencarnados desorientados escutarem, podem perturbar mais ainda, talvez eles não gostem que peçamos ajuda.
Com as fichas na mão, Estela foi ao seu quarto e trocou de roupa.
Foi à cozinha e avisou que ia à cidade e que era para Josemar preparar o almoço e o chá.
José Elídio já a esperava; foram à cidade, pararam em frente à escola, ela pediu para o empregado esperá-la, foi até o orelhão, colocou as fichas e discou.
" eu Deus, fazei com que dona Marta atenda!"
E ela atendeu.
Marta alegrou-se por conversar com Estela, escutou-a atenta.
Dona Marta -— Estela falou rápido —- infelizmente, Isabela está me dando trabalho de novo.
Nossa mudança para cá deu certo em parte.
Mariano arrumou emprego, está gostando, Felipe está entusiasmado, a escola é boa.
Nosso tio é gentil, excelente pessoa, a casa é grande, o local bonito, mas é assombrado.
Penso que tem muitos ou alguns desencarnados perturbados na casa, no sítio.
Isabela está tristonha, calada, chora muito, come pouco e conversa com um dos espíritos.
Estou lhe pedindo ajuda.
Por favor, nos auxilie!
Será que a senhora, com algumas pessoas com quem trabalha, não vem aqui?
Foi o tio Epaminondas quem pediu para convidá-los.
Na casa, tem muitos quartos.
Ele mandará um empregado buscá-los e levá-los de volta.
Na semana que vem, tem um feriado.
Será que não podem vir?
Aqui é agradável, poderão passear e descansar.
Dona Marta, a senhora está me ouvindo?
Estela falou sem parar.
— Sim, estou ouvindo. Entendi.
O local é bom, todos estão gostando, mas o que está atrapalhando é que na casa tem desencarnados que os estão perturbando.
É isto?
Perturbam mais a Isa.
A senhora quer que eu conte tudo?
— Não precisa -— respondeu Marta.
— Fale o endereço que vou anotar.
Quanto a ir aí, pode ser, se tem essa facilidade de nos buscar e nos trazer.
Depois de amanhã, nesta mesma hora, telefone novamente que lhe darei a resposta.
Vou pedir a nossos protectores para os ajudarem e nos orientarem.
— Estes protectores são também desencarnados? -— perguntou Estela.
- Como existem pessoas encarnadas boas e outras não, no plano espiritual também existem.
Bons aqui, bons no outro lado e, com os imprudentes, acontece o mesmo.
— Pense com carinho na possibilidade de vir para cá, por favor!
Confio tanto na senhora! -— implorou Estela.
Ela falou o endereço e se despediram.
A mãe de Isabela foi para a porta da escola.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 24, 2016 11:59 am

Mariano espantou-se ao vê-la; ele veio da loja, como fazia todos os dias, e esperava no portão para pegar carona e ir almoçar.
— Titio me pediu para dar um telefonema.
Já o fiz -— explicou ela.
As crianças alegraram-se em vê-la.
Foram para a casa, almoçaram, Estela despediu-se do marido e, quando Epaminondas foi para o quarto como sempre fazia, foi atrás dele.
Bateu de leve na porta, o tio abriu e ela entrou.
— Telefonei, titio!
Dona Marta irá nos ajudar!
Depois de amanhã vou telefonar para saber se será possível ela vir aqui e quantas pessoas virão.
— Enquanto esperamos pelo auxílio deles, fique mais com nossa menina, evite deixá-la sozinha.
Estela saiu do quarto do tio, entrou no dos filhos e encontrou Isabela deitada.
— Filhinha, vamos passear?
— Não, estou cansada, com sono.
Estela insistiu, mas Isabela queria dormir.
Deixou-a dormindo e foi ver Felipe, que fazia a lição da escola.
O garoto esperava o tio acordar para irem à plantação de milho.
Ela aproveitou para lavar roupas e fazer um bolo.
Depois voltou ao quarto, acordou a filha e saiu com ela para o quintal.
Evitava o jardim, por causa da árvore seca.
Mãe e filha sentaram-se num banco.
Estela sentiu a presença da mulher por perto e falou, tentando ser educada.
— Uma boa mãe quer que a filha se alimente bem, brinque ao ar livre para ficar sadia, quer sua filhinha alegre.
— Ela foi chorar na árvore -— informou Isabela.
— Vamos balançar?
Logo será servido o chá.
Estela sentou-se num balanço com a filha no colo.
De repente, perto delas, caiu uma goiaba.
Não havia por perto nenhuma goiabeira, estas estavam do outro lado do pomar.
Ela se levantou com a filha e foi para a cozinha.
— Sirvo o chá, dona Estela? -— perguntou Josemar.
— O senhor Epaminondas e Felipe saíram e voltam somente mais tarde.
— Vamos tomá-lo aqui na cozinha.
Onde está Silmara?
— Está limpando a área da frente -— respondeu Josemar.
— Pensei que ela não viria mais.
— Silmara precisa do emprego -— contou Josemar.
— Como todos nós, precisa do seu ordenado.
O senhor Epaminondas paga bem, é educado, um patrão compreensivo, depois...
— O que tem "depois"? -— Estela quis saber.
— Bem... ora... é... Silmara gosta de alguém.
Se não vier mais trabalhar aqui, não o verá.
"Será", pensou Estela, "que Silmara gosta do titio?
Não! Estou lembrando agora que ela olha muito para o Zé.
Com certeza, Silmara o ama e parece não ser correspondida.
Não notei interesse dele por ela.
Ainda bem que nossa ajudante não saiu."
Tentou ficar com Isabela o tempo todo.
No dia marcado, foi, como da outra vez, à cidade telefonar para obter a resposta.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 24, 2016 11:59 am

Estava esperançosa e se alegrou quando escutou:
— Vamos na sexta-feira e voltaremos no domingo.
Iremos, meu marido Juarez e eu, Marcelo e Elisa, que não são um casal.
Marcelo é casado, sua esposa e o filhinho estão viajando, passarão o feriado na casa da mãe dela, que mora longe.
Elisa é solteira.
Tem acomodação para todos?
— Temos, sim. Será um prazer recebê-los.
— Nossos mentores irão também e eles mandaram lhe dizer para continuar sendo discreta, não afrontar o espírito da mulher, para ter calma que tudo se resolverá. Entendeu?
— Sim -— respondeu Estela aliviada —- tentarei ficar calma, não afrontarei mais a desencarnada e terei paciência.
Fale para mim o endereço, para que José Elídio possa buscá-los.
Anotou o endereço e combinaram o horário, às oito horas ele os pegaria.
Aliviada e esperançosa, Estela esperou pelos filhos na porta da escola.
Mariano não se admirou porque ela já havia lhe dito que ia fazer um telefonema para o tio.
Depois do almoço, contou ao tio a agradável notícia e planearam.
— Vou agradá-los, comprarei doces caseiros, pegarei pães na padaria e pedirei para Josemar fazer comidas gostosas.
Vamos organizar onde dormirão.
O casal ficará no seu quarto, e você e Mariano dormirão no dos meninos num colchão no chão.
É melhor, pode ser que os desencarnados fiquem mais bravos e você estará lá para protegê-los.
Vou comprar uma cama e um colchão para colocar no quarto de brinquedo.
No outro quarto já tem uma cama, somente o organizaremos para que fique mais agradável.
Vamos agir normalmente, diremos aos empregados que receberemos visitas, que são amigos, e você conta na véspera para Mariano e peça para ele não comentar quem são os hóspedes.
Epaminondas entusiasmou-se:
— Vai dar certo! Tem de dar certo!
Estela esforçou-se para fazer o que foi lhe recomendado.
Ficava muito com Isabela.
Aquela noite, resolveu dormir com a filha.
— Não precisa, mamãe. Mimi me protege!
A mãe concordou e foi para seu quarto.
"Meu Deus, faça com que sexta-feira chegue logo."
No outro dia, ao ir ao quintal com a filha, sentiu o espírito perto.
Viu a casa do Dacruz e lembrou que o tio contara que tanto lá como o quarto de Josemar e o dele estavam, pela reza do índio, fechados, eram lugares que os desencarnados não podiam entrar.
Conhecia Isaurinha, ela era uma pessoa discreta, falava pouco e permanecia em sua casa.
Resolveu visitá-la.
— Isaurinha! - gritou Estela em frente ao portão.
— Boa tarde, dona Estela!
Olá, menina Isabela!
Isaurinha abriu o portão e sorriu ao cumprimentá-las.
— Viemos visitá-la, isto se não for atrapalhar.
— É um prazer. Entrem.
Aceitam um café? -— perguntou a esposa do Dacruz.
— Não, obrigada.
Viemos somente para vê-la, conversar um pouquinho...
Sentaram-se, e Isabela viu, sobre a mesa, um joguinho de montar.
Ficou olhando-o.
— Quer brincar? - perguntou Isaurinha.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 24, 2016 11:59 am

— Meu neto esqueceu esse jogo aqui em casa. Pode pegar!
A menina pegou, examinou as peças e ficou tentando montar.
Estela viu fotos na parede, e a dona da casa, percebendo que ela as olhava, explicou:
— Essas fotos são de meus filhos.
Três. Este é o mais novo, mora na cidade, é casado e tem dois filhos moços.
Esta é a filha, também casada, com dois filhos adultos, o meu neto mais velho deverá se casar no final do ano.
— E o outro? -— Estela quis saber.
A foto era de um homem bonito, estava de uniforme do exército.
— Este foi morar no céu.
— No céu tem casa? -— perguntou Isabela.
— Querida, é uma maneira carinhosa de falar que a pessoa não mora mais connosco.
A menina voltou a atenção novamente ao jogo.
— Faz tempo? -— perguntou Estela.
— Sim, faz. Mas não me esqueço, ele era muito amoroso.
— O que aconteceu?
— Um acidente -— respondeu Isaurinha.
Percebendo que a dona da casa ficara triste, Estela mudou de assunto e perguntou:
— Você gosta de morar aqui?
— Gosto, sim! Moro aqui há muitos anos.
Viemos residir neste lugar com as crianças pequenas.
Esta propriedade teve muitos donos, e fomos ficando...
A sede ficou abandonada por anos.
O dono mandava nos pagar e não vinha aqui.
Então o senhor Epaminondas a comprou. Homem bom!
Ofereceu para ficarmos, com um ordenado melhor, reformou a casa para morarmos e, enquanto reformava, ficamos num quarto na casa grande.
A casa ficou muito boa, temos dois quartos grandes; um banheiro, como o da casa sede; uma cozinha; esta sala; e a lavandeira.
Cozinho para mim e para meu velho, mas, quando fico doente, Josemar trás para nós almoço e jantar.
— A senhora não sai muito, não é? - Indagou Estela.
— Duas vezes por ano, vamos à casa de minha filha, que reside em outra cidade, ficamos normalmente de dois a três dias, às vezes vamos à casa do filho na cidade.
Eles vêm aqui também:
a filha, uma vez ao ano, e o filho, de vez em quando.
Andar por aí?
Isto faço pouco, meu joelho dói, e sinto também muitas dores nas costas.
Tomamos muitos remédios, Dacruz e eu.
Não nos falta nada porque o senhor Epaminondas é quem compra os remédios para nós.
Homem bom! -— repetiu Isaurinha.
— Temos electrodomésticos, televisão, tudo foi ele quem nos deu.
O patrão confia em Dacruz, e meu marido faz tudo por ele.
— Montei! Consegui! -— exclamou Isabela.
— Muito bem! O jogo é difícil e você montou -— elogiou a dona da casa.
— Vamos embora? -— pediu a garota.
— Ela me chama.
— Sim, vamos -— Estela falou rápido, temendo que Isaurinha perguntasse quem chamava.
Despediram-se, prometendo visitá-la outra vez.
— Mimi já chorou e quer ir para casa -— falou Isabela.
Estela não comentava quando a filha falava de Mimi.
Entraram, a mãe a ajudou a tomar banho, deixou-a na sala vendo televisão e foi fechar a casa.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 24, 2016 12:00 pm

Enquanto fechava a janela do escritório, ouviu uma risada, fingiu que não escutara e continuou sua tarefa.
À noite, Estela pensou em Isaurinha.
Sentiu pena, ela ainda sentia a desencarnação do filho e estava sempre doente.
"Será que ela vê os desencarnados?
Na casa dela, os espíritos não entram.
E, isto é verdade. Mimi não entrou, chamou por Isa lá de fora.
Será que a esposa do Dacruz não sai de casa por este motivo?
Será por medo? Tio Bino é um bom patrão.
Isto conta, e muito; se não, ninguém trabalharia aqui por causa das assombrações.
A casa que eles moram é boa e é confortável."
Estela não mais dormia bem, acordava muitas vezes e ficava atenta aos barulhos.
Às vezes, levantava-se e ia ver os filhos.
Abria a porta devagar e os via dormindo.
"Ainda bem que não vejo nada quando me levanto à noite.
A preocupação com as crianças é maior que meu medo.
Será um alívio a visita de dona Marta."
José Elídio foi à cozinha tirar o curativo.
Josemar passou um remédio.
Cicatrizara, mas ficou o sinal do ferimento.
Estela o indagou:
— Você viu quem o feriu?
— Cruz-credo! Eu não vi nem quero ver.
A senhora sabe agora o que acontece aqui?
— Infelizmente, sei. Você tem medo?
— Tenho. A senhora tem? -— o empregado quis saber.
— Também sinto medo -— respondeu Estela.
— Ainda bem que não durmo aqui.
Durante o dia é outra coisa; à noite, é bem pior.
— Você já pensou em sair daqui por este motivo?
— Não -— respondeu José Elídio.
— Onde vou arrumar um emprego bom como este?
As assombrações não incomodam muito.
É uma risada ali, um choro aqui, jogam frutas...
Foi a primeira vez que jogaram pedras e machucaram alguém.
Ainda bem que parou.
A senhora acabará se acostumando.
Desculpe-me perguntar:
- sua menina sempre foi quietinha assim?
— Ah! Sim! Ela é quieta!
Você mora na cidade? -— perguntou Estela.
— Moro, sim, com meus pais e com uma irmã solteira.
— Não tem namorada?
— Tive algumas, mas não deu certo, então desisti -— respondeu José Elídio.
Até logo, vou acabar de consertar uma cerca.
Josemar, que escutava a conversa, resolveu interferir e, assim que ele saiu da cozinha, contou:
— Zé não namora há muito tempo.
Conheço-o desde criança.
Ele, com vinte anos, teve uma namorada firme.
Ela pensava em casar, ele se achava jovem demais.
Zé conheceu uma moça na cidade vizinha, por quem se interessou, e terminou o namoro.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 24, 2016 12:00 pm

Dias depois, esta moça que ele namorara morreu por ter feito um aborto.
Ela o fez com uma mulher que tinha o apelido de Mata Anjo.
Antes de morrer, esta jovem foi levada para o hospital em estado grave.
Zé foi visitá-la. Ele jura que não sabia da gravidez.
A moça faleceu com muito rancor dele e afirmou que não ia deixá-lo ser feliz com ninguém.
O facto é que ele nunca mais conseguiu namorar com alguém por muito tempo.
Não é estranho isto?
"Será que o espírito desta jovem perturba o empregado do titio?
Impede que ele namore e case?
Isto será possível?
Não duvido de mais nada" - pensou Estela.
Isabela ficava muito com a boneca, trocava várias vezes a roupa dela e conversava sozinha.
Estela achava que a filha falava com a boneca e com o espírito.
No outro dia, à tarde, Estela subia a escada da frente da casa e, ao pisar no segundo degrau, sentiu puxarem sua saia e ouviu um assobio, destes dos rapazes que assobiam para as moças.
Escutou em seguida o som de um tapa, como se alguém tivesse batido na mão que lhe segurou a saia.
A mãe das crianças tremeu de medo, porém esforçou-se e fingiu que nada acontecera.
Mariano e Felipe nem percebiam o que ocorria.
O garoto estava entusiasmado em morar no campo, e Mariano, com seu trabalho.
Todas as tardes, mãe e filha iam à casa de Isaurinha e lá Estela relaxava, pois sabia, sentia, que a mulher desencarnada, a Esmeraldina/Mimi, não entrava.
Era agradável conversar com a esposa de Dacruz, e o assunto preferido eram os filhos.
Estela contou como viviam na outra cidade, das crianças na escola, das doenças que tiveram e dos acontecimentos divertidos.
Isaurinha também falava dos filhos, mais do que desencarnara.
— Ele se chamava João Roberto -— contou a dona da casa.
— Com dezanove anos, foi servir o exército e lá ficou, escolheu a carreira militar.
Gostava de sua profissão, e meu marido e eu nos orgulhávamos dele.
João Roberto nos mandava dinheiro, todos os meses, ajudava-nos.
Preocupávamo--nos, mais eu, por este meu filho não ter namorada, queria que se casasse, constituísse família.
Numa de suas visitas, ele estava muito contente e contou que estava amando alguém.
Indaguei, mas não soube de mais nada.
Três anos se passaram, e ele não falou mais sobre este assunto.
Recebemos uma carta dele nos comunicando que estava muito triste porque tinha terminado seu relacionamento.
Senti que meu filho sofria.
Duas semanas depois, nos comunicaram sua morte.
Vieram nos buscar, o enterro foi na cidade onde ele estava.
Vimos seu corpo, estava muito queimado, mas seu rosto estava com poucas queimaduras.
— Como foi este acidente? -— perguntou a esposa de Mariano.
— Contaram-nos o seguinte:
Estava tendo uma grande tempestade, com muitos raios, e um deles caiu no galpão onde estavam vários militares acamados com gripe.
Pegou fogo no galpão, que se alastrou com rapidez.
João Roberto foi lá e ajudou os enfermos a sair.
Como havia ainda pessoas lá dentro e o fogo estava alto, pois o local era de madeira, ele entrou novamente e desta vez não conseguiu sair.
Padeceram três, meu menino e dois enfermos.
Foi um acto de coragem, mas pensei também que, por meu filho estar infeliz, não queria viver.
Um amigo dele nos contou que era impossível entrar no galpão e sair vivo dele naquele momento.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 24, 2016 12:00 pm

— Ele foi um herói!
Heróis morrem pelos outros e salvam vidas! -— exclamou Isabela.
A garota ficava brincando ao lado da mãe, montava um quebra-cabeças, mas às vezes dava palpites.
— Deve se sentir orgulhosa dele! -— Estela se emocionou.
— É melhor pensar isto. Eu o amo! -— afirmou Isaurinha.
— Ele deve sentir seu amor! -— Estela abraçou-a.
Isaurinha também falou dos fenómenos que ocorriam no sítio.
Ela escutava quase todos os meses, no primeiro dia da lua cheia, barulho de chicotadas e alguém gemer.
"Não quero escutar isto", pensou Estela.
"Será que quinta-feira, na véspera de dona Marta chegar, ocorrerá este fenómeno?
Tomara que não."
Consultou o calendário e suspirou aliviada, a lua cheia seria na semana seguinte.
Epaminondas aguardava as visitas com ansiedade, e a sobrinha, além de ansiosa, estava esperançosa, esperava realmente receber auxílio.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 24, 2016 12:00 pm

7. Os Hóspedes

Na quinta-feira, tudo estava organizado.
Epaminondas comunicou aos empregados que iria receber quatro pessoas conhecidas que ficariam no sítio por três dias.
Tio e sobrinha, depois do chá da tarde, conferiram tudo: foram aos quartos, e estes estavam em ordem para receber as visitas; na cozinha, não faltava nada para o cardápio do final de semana.
Enquanto conferiam os detalhes, conversavam.
— Titio, tenho visitado Isaurinha e me intriguei porque ela me disse que é o senhor quem os ajuda.
Eles não recebem a pensão do filho que desencarnou?
O moço era oficial do exército.
— Era para receber, mas Dacruz e Isaurinha doam a pensão para o filho e a filha.
Todo mês é dividido este dinheiro para os dois, isto ocorre desde a primeira vez que o receberam.
— Por que isso, titio?
Ajudam os filhos e, se não fosse o senhor, passariam por necessidades.
— Também não acho certo, mas não dou palpites, e não me pediram opinião.
Faço a minha parte.
Há muito tempo tenho agido desta maneira e, o que me cabe fazer, realizo com carinho, sem perguntar se pode ou poderia ser diferente.
Neste caso, os dois filhos poderiam ajudá-los financeiramente ou deixar esta quantia para os pais, mas não o fazem, e não é por este motivo que não irei auxiliar um empregado de quem gosto e confio.
Recusar dinheiro não é fácil.
Infelizmente, nenhum dos dois filhos de Dacruz dá atenção aos pais.
Estela sentiu pena do casal.
"Ainda bem que titio os ajuda", pensou ela.
Quando Mariano chegou do trabalho, Estela informou ao marido:
— Nossos hóspedes são:
dona Marta, o marido dela e dois médiuns que trabalham no centro espírita onde levava as crianças para receber passes.
Eles vêm nos ajudar.
Contou para Mariano tudo o que acontecera.
— Meu Deus! Por que não me falou isso antes?
— De que ia adiantar?
Ia somente deixá-lo preocupado.
Estou esperançosa e rogo a Deus para que dona Marta possa novamente nos auxiliar.
José Elídio saiu à tarde do sítio, ia dormir num hotel e pegá-los às oito horas na manhã seguinte.
A noite foi tranquila, e Estela dormiu melhor.
No horário marcado para a chegada, a família os estava esperando na área.
— O Zé está chegando! -— gritou Felipe.
Foram ao jardim esperá-los.
Estela deu um abraço apertado em Marta.
— Que bom que veio!
Cumprimentaram-se, apresentando-se.
— Este é Juarez, meu marido -— disse Marta.
— Esta é Elisa, e este, Marcelo.
José Elídio tirou as bagagens deles da camionete, era pouca coisa, e as colocou na sala de estar.
Entraram na casa.
Epaminondas observou as visitas.
Primeiramente, olhou disfarçadamente para Marta, que era uma mulher pequena, olhos vivos, um pouco acima do peso; era tranquila, e seu sorriso, contagiante; um ser agradável, de quem a maioria das pessoas gosta de ficar perto.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

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