Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 11:12 am

Seu esposo, Juarez, era um homem também agradável, louro, de olhos verdes, alto, magro, tinha a voz rouca.
Reparou em Marcelo:
o jovem deveria estar com vinte e cinco anos, parecia nervoso; olhava tudo, observando, sorria sem abrir a boca; seus cabelos eram ralos, com certeza era candidato a ficar careca.
Era um jovem bonito.
Elisa devia estar com quase cinquenta anos, tinha os cabelos tingidos de louro, olhos arredondados castanho-escuros, sua voz era harmoniosa, era magra e de estatura mediana.
Isabela aproximou-se de Marta, que a abraçou.
Seus olhinhos eram de súplica.
— Vou ajudá-la, meu bem -— prometeu Marta.
— Você ficará bem!
- Tenho medo do Coisa Ruim castigá-los -— falou a menina baixinho.
— Não precisa temer -— Marta sorriu, tentando tranquilizá-la.
— Ele não fará nada nem a mim, nem a você, a ninguém.
Foram almoçar.
Depois, Estela os levou aos quartos, e Isabela continuou segurando firme a mão de Marta.
— Vocês querem descansar ou passear pelo sítio? -— perguntou Estela.
— Vamos -— respondeu Marta -— colocar nossos pertences nos quartos; depois, gostaria de ir ao escritório, iremos dar um passe em Isabela e, após, sairemos para passear no jardim.
Minutos depois, todos foram ao escritório:
os hóspedes; Epaminondas, que estava interessadíssimo; e o casal com os filhos.
— Vamos -— disse Marta —- se o senhor não se importar, fazer nossa reunião aqui esta noite, mas agora vamos fazer a leitura do Evangelho, uma oração e daremos um passe em Isabela.
Todos se sentaram, se acomodaram nas poltronas e no sofá.
Marcelo abriu ao acaso o Evangelho segundo o espiritismo e leu o texto 14, do capítulo 13, "Que vossa mão esquerda não saiba o que faz vossa mão direita".
"Que dissertação bonita sobre a caridade!", pensou o dono da casa.
"Titio age deste modo.
Penso que ele é espírita e não sabe", concluiu Mariano.
Depois, Marcelo orou pedindo protecção, e os quatro se aproximaram de Isabela e lhe deram um passe.
A garotinha deu um longo suspiro de alívio.
— Meu bem - disse Marta tranquilamente - você não mais verá a moça nem sentirá mais nada.
Não se preocupe com o Coisa Ruim, ele logo deixará de ser mau.
— Verdade? -— perguntou Isabela.
— Mimi faz o que quer.
Vocês não sentem medo dela? De verdade?
— Não, meu bem, não temos medo -— afirmou Marta.
— Não vejo a Mimi desde ontem -— contou a garotinha —- mas ela me avisou que, se eu falar dela, irá castigar a mim ou à mamãe.
Não quero ser filha dela.
Quando Mimi fica perto de mim, me sinto tão cansada.
Estou falando dela.
Será que irá me castigar?
Estela sentiu vontade de chorar.
Isabela sofria mais que pensava e sentia raiva da desencarnada, mas não falou nada.
— Isabela, confie em mim -— pediu Marta.
— Viemos aqui para auxiliá-los.
Você não verá mais essa mulher.
A garotinha suspirou novamente.
Seus olhinhos brilharam, estava esperançosa, abraçou Marta.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 11:12 am

— Mariano -— pediu a médium —- leve as crianças para a área da frente que iremos em seguida para passearmos pelo pomar.
O pai saiu do escritório com os filhos.
— Às oito horas podemos nos reunir aqui? -— perguntou Marta e, com o consentimento do dono da casa, planeou:
— Podemos colocar quatro cadeiras em volta desta escrivaninha.
— Dona Marta -— disse Estela —- confio na senhora, mas também temo.
Fiquei indignada com o que Isa contou.
O espírito a chantageava.
— Quando não se tem argumento, chantageia-se.
Muitos desencarnados imprudentes fazem isso, e aqueles que trabalham para o bem não os temem.
Esta desencarnada, a Mimi, estava sugando as energias de Isa, a deixando enfraquecida.
Desde ontem eles estão presos, por isso sua filha não a viu mais.
— Presos? Que bom! -— exclamou Epaminondas.
— Provisoriamente, eles estão num local na casa, estão adormecidos, mas isto não resolve o problema.
À noite, vamos tentar ajudá-los.
Escutaremos suas histórias, vamos auxiliá-los a resolver seus problemas e depois levá-los para um socorro.
— A senhora está dizendo que eles também têm problemas? - perguntou Epaminondas.
— Sim - respondeu Marta - e, pelo que começo a entender, são muitas as suas dificuldades.
Posso participar da reunião?
Gostaria de ver esse intercâmbio -— pediu o proprietário do sítio.
Sim - autorizou Marta - penso que o senhor e Estela podem ficar.
Mariano deve ficar com as crianças.
Vou explicar como será.
Normalmente, só fazemos essas reuniões nos centros espíritas, nós a chamamos de "trabalhos" ou "reuniões de orientação a desencarnados" ou "desobsessões".
Marcelo e Elisa são médiuns.
Os desencarnados se aproximam deles, falam, os dois repetem, e eu converso com eles, os orientando.
Normalmente, as conversas são rápidas.
Os mentores, protectores, os bons espíritos que trabalham connosco trazem os desencarnados necessitados de esclarecimentos para estas reuniões, onde recebem o auxílio de que precisam.
Nossos mentores permitiram que viéssemos aqui junto a eles porque viram a dificuldade de vocês para receber auxílio.
Iremos também aprender muito ouvindo esses espíritos que estão aqui.
Será uma reunião diferenciada porque tentaremos solucionar suas dificuldades para irem embora daqui para sempre.
Começamos a reunião com a leitura do Evangelho, depois fazemos uma oração pedindo protecção e, pelos médiuns, conversaremos com os desencarnados.
Vocês fazem o Evangelho no lar?
— Não, senhora, não fazemos -— respondeu Estela.
— Posso ensiná-los no domingo, pela manhã, a fazê-lo -— ofereceu-se Marta.
— Família que ora unida permanece unida -— opinou Marcelo.
— Vamos agora conhecer a parte externa da casa? -— convidou Epaminondas.
Passaram pelo jardim, ninguém comentou sobre a árvore seca.
— Ela não chorou hoje - falou Isabela.
A menina quis ficar perto de Marta, pegou em sua mão, sentia-se protegida ao lado dela.
A garota não se cansou, Estela entendeu que a filha se fortalecera com as energias recebidas no passe e que Mimi não a estava sugando.
Foram ao pomar, comeram frutas, viram os patos e tomaram o chá da tarde.
— Agora vamos tomar banho e descansar um pouquinho.
Senhor Epaminondas, que o jantar seja somente um lanche -— pediu Juarez.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 11:12 am

— Pode ser sopa? -— perguntou o dono da casa.
— Sim, está óptimo - respondeu Marta.
Estela ajudou as crianças a se banharem e as deixou na sala vendo televisão; tomou banho e explicou ao esposo o que ia ocorrer à noite no escritório.
— É melhor mesmo -— concordou Mariano -— eu ficar com as crianças.
Tenho medo dessas coisas.
Após o jantar, irei com nossos filhos à sala de televisão e depois iremos dormir.
Se eu perceber que Isa está vendo alguma coisa, corro com ela para o escritório.
— Confio em dona Marta, nada irá acontecer com Isa.
Foi ajudar na cozinha.
— Dona Estela, os hóspedes são pessoas legais e educadas.
São seus amigos? -— Josemar estava curiosa.
— São -— foi lacónica na resposta.
— Eles vieram nos ajudar a nos livrarmos das almas penadas?
Seria tão bom que isto ocorresse -— Josemar insistiu.
Estela sorriu, não respondeu, havia combinado de não comentar o porquê das visitas estarem ali.
"Josemar", pensou Estela, "como mora na casa, com certeza saberá o que iremos fazer.
Titio contará a eles depois".
Antes do jantar, reuniram-se na sala de estar.
Epaminondas, curioso, quis saber o que ia acontecer logo mais à noite e sobre a religião que os hóspedes seguiam com tanto carinho.
Perguntou:
— O que é espiritismo?
— O espiritismo, -— respondeu Juarez tentando ser objectivo e esclarecer:
-— A melhor explicação que vem agora à minha mente sobre o assunto é a do livro de Allan Kardec O que é o espiritismo.
Nesta obra, o codificador nos esclarece que é ao mesmo tempo uma ciência de observação e uma doutrina filosófica.
Como ciência prática, ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que dimanam destas mesmas relações.
É a ciência que trata da natureza, da origem e do destino dos espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal.
Dá-nos a prova patente da existência da alma, da sua individualidade depois da morte, da sua imortalidade, não pelo raciocínio, mas por factos.
O espiritismo tem por fim demonstrar e estudar a manifestação dos espíritos, suas faculdades, sua situação feliz ou infeliz, seu futuro; em suma, o conhecimento do mundo espiritual. (1)
— Interessante! Gostaria de ler este livro! -— exclamou Epaminondas.
— Vou lhe mandar pelo correio as obras de Allan Kardec -— prometeu Juarez.
— Desencarnados podem mesmo ficar vagando? -— perguntou Mariano.
— Podem -— explicou Juarez.
— Ao ter o corpo físico morto, o espírito continua vivo com a mesma personalidade, gostando ou odiando as mesmas coisas e pessoas.
Recebemos o retorno de nossos actos assim que mudamos de plano.
Pessoas boas são recebidas, auxiliadas pelos afins, ou seja, por seres bondosos.
E aqueles que cometeram actos maldosos são acolhidos por espíritos imprudentes.
A maioria dos desencarnados não está encaixada nem como seres bondosos, nem como maldosos:
esses tiveram, como todos nós, oportunidades de fazer o bem e não o fizeram, mas também não fizeram maldades.
O corpo carnal falece, e normalmente se iludem, julgando que ainda estão encarnados.
Há também, entre os que vagam, aqueles que sabem de sua situação, mas não querem sair de onde estão ou deixar sua situação de errantes.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 11:12 am

— Os espíritos maus podem vagar? -— perguntou o dono da casa.
— Os que são bons não ficam em situação de errantes, normalmente se adaptam aos locais de socorro e continuam fazendo o bem.
Os que se julgam maus podem vagar entre os encarnados, e os motivos são muitos.
— O senhor é médium? -— indagou Epaminondas a Juarez.
— Não sou, mas trabalho no centro espírita, auxilio dando atenção às pessoas que vão lá em busca de socorro, cuido da manutenção do local, enfim, ajudo como posso.
— O senhor nasceu num lar espírita? -— Estela quis saber.
— Não -— respondeu Juarez.
Seguia a religião de minha família, não era assíduo na igreja.
Conheci Marta, namoramos e me interessei pelo espiritismo porque ela era espírita.
Gostei muito da doutrina de Allan Kardec, senti no íntimo que conhecia seus ensinamentos e, por eles, compreendi muitas coisas.
— A senhora, dona Marta, sempre foi espírita? -— perguntou o proprietário do sítio.
— Também não tive o privilégio de nascer num lar espírita.
Desde pequena, via e conversava com desencarnados, recebia recados e os dava.
Sentia medo, mas tive um lar estruturado, meus pais acreditavam em mim.
Minha mãe me levava para tomar passes.
Na adolescência, quis saber o que ocorria comigo e me tornei espírita.
Adulta, passei de recebedora a doadora.
Estou há muitos anos fazendo o bem com minha mediunidade.
— A senhora não se cansa? -— Epaminondas estava curioso.
— Minha sobrinha me contou que a senhora está sempre auxiliando.
— Não me canso -— respondeu Marta esclarecendo.
— Quando trabalhamos fazendo o bem, ele nos fortalece e alegra.
Sinto-me muito bem. Aproveito o tempo.
Faço o que tenho de fazer enquanto tenho tempo.
As oportunidades não voltam, pelo menos não iguais ou com as mesmas pessoas.
É como perder um trem em que estão amigos, companheiros de jornada:
eles vão, e você fica.
Pode-se até pegar outro, mas não será a mesma coisa.
Alegro-me por estar fazendo o que tenho de fazer, realizo com amigos, e é prazeroso estar com eles.
— Interessante! Enquanto se tem tempo! -— exclamou o tio das crianças.
— É fazer no presente, não adiar -— comentou Elisa.
— E você, Elisa, como se tornou espírita? -— Estela quis saber.
— Minha família é espírita, meus avós paternos são seguidores da doutrina de Allan Kardec, meu pai foi educado no espiritismo, e minha mãe, assim que casou, se tornou espírita.
Aprendi a lidar com minha mediunidade ainda menina, frequentei o estudo da Evangelização Infantil, depois a Mocidade Espírita.
Agora faço parte da equipe de médiuns nas reuniões de desobsessões.
Todos olharam para Marcelo, que contou:
— Eu sofri com o que ocorria comigo, era uma criança inquieta.
Dizia, assim que comecei a falar, que alguém chorava por mim.
Minha mãe me levava para tomar passes.
Adolescente, não quis ir mais e continuei mais inquieto ainda.
Comecei a namorar uma sobrinha de tia Marta, e ela me convenceu a ir ao centro espírita.
Minha esposa, então namorada, fez comigo cursos de estudos e, depois, passei a fazer parte da equipe de trabalhadores da casa.
Minha mulher foi passar uns dias na casa da mãe, seus pais moram longe, e ela foi com meu filho para ficar mais dias.
Não pude acompanhá-la por causa do meu trabalho e vim com titia para cá.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 11:12 am

— O que você sente quando um desencarnado fala para você repetir? - indagou Estela.
— Às vezes sinto as sensações que ele está tendo no momento - respondeu Marcelo.
— Sinto, às vezes, dormência nas mãos, vontade de chorar.
Ora fico irritado, sentindo vontade de bater com as mãos na mesa ou agredir alguém e até gritar.
Mas me controlo, estou no leme da situação.
Este controle se aprende com o estudo e na prática.
Não tem por que obedecer ao desencarnado.
Ele somente está ali para receber orientação e ajuda.
O Coisa Ruim não poderá me sufocar? - perguntou Isabela.
Não, meu bem, ele não irá fazer mais nada nem com você nem com ninguém -— repetiu Marta.
Os adultos se olharam.
Felipe, desde que começaram a conversar, foi para a sala de televisão e assistia a um programa.
Todos pensaram que Isabela estava brincando com um joguinho de montar, mas, pelo visto, estava atenta à conversa.
Acharam melhor não falar mais sobre este assunto na presença da garota.
Vamos jantar? - convidou o dono da casa.
Saíram, Epaminondas foi à frente, e ficaram no escritório, para sair por último, Marta, Marcelo e Estela.
Está acontecendo alguma coisa com você, Marcelo? - perguntou Marta.
Sinto-o triste. Está preocupado?
É o local - respondeu o moço. Desde que nos aproximamos daqui, tive uma sensação estranha, fiquei inquieto, parecia que conhecia este lugar.
Quando vi a montanha, tive a certeza de que já estive aqui.
Se estive, foi em outra encarnação, porque, nesta, é a primeira vez que venho a esta região.
Não senti nada dentro da casa, mas, sim, por fora, esperava ver uma capela e um muro cercando a casa do lado do pomar.
Estou me esforçando para não ficar triste.
— Havia uma igrejinha na área do jardim - intrometeu-se Estela.
— Ela estava em ruínas e foi desmanchada e este muro também existiu.
Isa também falou desta capela.
— Marcelo - falou Marta- sua vinda aqui talvez possa ter motivos.
—Estela - contou Marcelo - desde pequeno sinto que tenho algo a resolver e que alguém chora por mim. Mesmo tendo aprendido a lidar com a minha mediunidade e, com ela, ajudar pessoas, às vezes fico triste.
Espero não estar assustando você.
Não está - respondeu Estela - nesta casa tem uma desencarnada triste que chora todos os dias. Acho que as pessoas sensíveis sentem a tristeza dela.
Com certeza é isto! - suspirou o moço.
Marcelo, fique atento, mas não se preocupe - recomendou Marta - seu protector está ao seu lado, tente se entrosar na conversa e se distraia.
Dona Marta - falou a mãe das crianças - titio e eu não iremos atrapalhar a reunião:
ele quer conhecer este intercâmbio, e eu estou curiosa para saber o porquê desses desencarnados estarem aqui.
Faremos o combinado. Agora vamos jantar - pediu a médium.
Sentaram-se. Epaminondas orou, como sempre fazia, e Josemar serviu a sopa.
Foi uma refeição agradável.

1. Nota do autor espiritual (N. A. E.): Juarez com certeza dissertou com as palavras dele.
Copiamos do livro estes trechos que são realmente fonte de preciosos esclarecimentos.
Foram tirados de textos do preâmbulo e dos capítulos 1 e 2.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 11:13 am

8. A Primeira Reunião

Mariano foi com as crianças, após o jantar, para a sala de televisão.
O dono da casa, a sobrinha e as visitas foram para o escritório.
Os quatro se sentaram nas cadeiras em volta da escrivaninha; Epaminondas e Estela, no sofá.
— Primeiramente -— informou Marta - vamos ler um texto do Evangelho, depois faremos uma oração e nos concentraremos.
Fui informada, pelo meu mentor, de que hoje conversaremos com alguns desencarnados e, amanhã, novamente nos reuniremos, para orientar os outros.
Vocês dois -— referiu-se a Epaminondas e Estela —- por favor, não interfiram, escutem e orem por estes espíritos desorientados, necessitados de socorro.
Por mais que tenham vontade de comentar ou responder, fiquem calados.
Quando terminarmos a reunião de orientação, é nosso costume comentarmos o que ocorreu, e aí poderão fazer perguntas.
Marcelo, por favor, abra o Evangelho Segundo o Espiritismo e leia um texto.
Marcelo o fez e leu, do capítulo 14, "Honrai vosso pai e vossa mãe", o item 3, "Piedade filial".
— O mandamento "Honrai vosso pai e vossa mãe" é uma decorrência da lei geral de caridade e de amor ao próximo, pois não podemos amar ao nosso próximo sem amar nosso pai e nossa mãe...
"Ainda bem que fui bom filho", pensou Epaminondas, "e continuo sendo, no lugar dele".
"Penso que tenho de meditar mais sobre o que estou ouvindo, vou ler este capítulo com atenção.
Com certeza, sou boa mãe, mas... e filha, estou sendo?", indagou Estela a si mesma.
Quando terminou o item 3, Marcelo folheou o livro até o último capítulo, 28, "Colectânea de preces espíritas", procurou o que queria, encontrou e leu:
— Suplicamos ao Senhor Deus Todo-Poderoso enviarmos bons espíritos para nos assistir, afastar aqueles que poderiam nos levar ao erro e nos dar a luz necessária para distinguir a verdade da impostura.
Afastai... (1)
Emocionaram-se com a beleza da prece.
Quando terminou, Marcelo fechou o livro e todos ficaram em silêncio por alguns instantes.
Então Elisa começou a falar:
— O que é isto aqui?
Por que estão na casa?
Que invasão é esta?
— Boa noite! -— respondeu Marta.
Tio e sobrinha entenderam que Elisa estava repetindo o que um desencarnado falava, e Estela percebeu que era Mimi.
Os dois escutaram atentos.
— Boa noite nada! Responda!
Por que falo e ela repete?
Está me remedando?
— Estamos reunidos, em nome de Jesus, para orientar os desencarnados que estão na casa.
É um intercâmbio. Essa moça é médium; você, próxima a ela, fala, e a médium repete, isto para conversar connosco.
Você sabe que desencarnou, não é?
— Sou alma do outro mundo, assombração, moradora do além.
"Desencarnada" é a primeira vez que escuto.
"Des", negativo... "Carnada"!
"Desencarnada" quer dizer "sem carne"?
"Aquele que vive sem o corpo de carne”?
Se for isto, sim, sou e sei que sou.
Há tempos meu corpo morreu e continuei viva.
Sou inteligente!
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 11:13 am

— Por que está neste lugar? — perguntou Marta.
— Aqui é minha casa! Moro aqui-— respondeu o espírito, e Elisa repetiu.
— Foi seu lar enquanto estava encarnada.
— "Lar" não! Nunca tive lar, era casa mesmo.
— Por que não "lar"? - indagou Marta, que, orientada pelo seu mentor, conversava com a desencarnada.
"Lar" é onde uma família mora, é onde existe amor e respeito, não tive isso e nem aqui foi um lar.
Não tenho que lhe responder.
Não estou gostando desta conversa.
Como entraram aqui?
— O dono da casa nos convidou.
— Como? Não vi isso acontecer.
Por que vieram? — perguntou a desencarnada.
— Viemos aqui para ajudá-los.
Desde ontem estão dormindo.
A desencarnada fez uma pausa, pensou no que escutara e perguntou.
— O que está acontecendo?
Estou observando. Não os conheço: nem os quatro sentados nem estes outros de pé.
O que se passa neste escritório?
Os que Mimi vira de pé eram membros da equipe espiritual que participavam da reunião.
— Somos espíritas, estamos reunidos para ajudá-los -— Marta falava com tranquilidade.
— Quem pediu ajuda?
— Como se chama?
— Mimi. Você não respondeu o que perguntei.
Quero saber quem foi o infeliz que pediu ajuda.
Vou exigir que o Coisa Ruim o castigue.
— Por que prejudica pessoas? — perguntou Marta.
— Não prejudico ninguém.
Aqui é minha casa, moro no sítio.
É ruim conviver com outros moradores.
Mas não consegui expulsá-los.
O velho chato faz caridades, não consegui castigá-lo ou afugentá-lo desta casa.
Não faço nada de mal.
Somente moro nesta residência.
Os incomodados que se mudem.
— A criança, você não a está prejudicando?-— Marta insistiu.
— Eu?! Ela é minha filha!
— Como "filha"?
— Não se adopta? Então a adoptei.
Queria mesmo a outra.
A criança que morou aqui há anos atrás.
Ela era linda, loura, olhos azuis, cabelos cacheados.
Os pais se apavoraram e se mudaram.
Não vou abrir mão desta garota.
É minha filha! É porque quero!
— Você sabe que desencarnou — Marta tentava esclarecê-la - está aqui há muitos anos.
Não pensa em viver de outro modo?
Sabe que reencarnamos, que nosso espírito volta outras vezes ao corpo físico?
— Não sei nada disso.
Não quero e não vou sair daqui.
Depois, tenho que conter o Coisa Ruim, somente eu o controlo.
Não posso deixar ele sufocar minha filhinha.
Ele maltrata todos de quem eu gosto.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 11:13 am

— Senhora Mimi, vamos também conversar com este desencarnado que citou, tentaremos orientá-lo — falou a doutrinadora.
— "Senhorita", por favor.
Vão conversar com ele?
Essa eu quero ver! Estou curiosa! — Mimi riu.
— Então a convido para ficar ouvindo nossas conversas.
Ouviremos todos os desencarnados que, de certa forma, estão envolvidos com esta casa e com seus moradores.
— Posso ficar, estou curiosa para ver como vocês irão se entender com este grosseirão, o Fantasma da Lua Cheia, que está presente agora, e com o Coisa Ruim.
— Quem é essa pessoa que você chama de Coisa Ruim? - perguntou a doutrinadora.
— Foi meu pai.
Ele não merece respeito nem ser chamado de "pai", é horroroso.
— Você é feliz?
— Claro que não! Sou muito infeliz!
Que pergunta tola! — respondeu a desencarnada com sinceridade.
— Não quer ser feliz?
— Todos querem ser felizes.
Foi ele quem não deixou, o Coisa Ruim.
Sofro há muitos anos — queixou-se Mimi.
O diálogo prosseguia pelo intercâmbio mediúnico, a desencarnada Esmeraldina falava, e a médium Elisa repetia.
— Você não se lembra de Jesus?
Deus? -— perguntou a doutrinadora.
— Actualmente, muito pouco.
Lembrava-me mais quando estava como vocês.
— Encarnada — completou Marta.
— Sim, rezava muito, ia às missas, ajoelhava-me e rezava o terço, às vezes feria os joelhos.
— Sentia o que orava?
— Sentia? Como? -— a desencarnada realmente quis saber.
— Ao orar o Pai-Nosso, pedimos perdão, assim como perdoamos.
Você perdoou? Pediu perdão?
— Não pedi perdão porque ninguém tem que me perdoar!
Não perdoei!
— Como orou então?
— Você não sabe o que ele me fez.
Se soubesse, não ficaria com essa cara de indignada.
"Não perdoou"? Claro que não perdoei!
— Por que não ora mais? — Marta queria que a desencarnada pensasse nas orações.
— Cansei-me. Certa vez morou nesta casa uma mulher rezadeira, orava muito, não gostava dela nem me aproximava dessa senhora.
Foi uma época ruim, ficamos todos desconfortáveis, ainda bem que se mudaram logo.
Este velho não deveria tê-los chamado.
Fiz um trato com ele, estávamos todos bem.
— Não estão bem, nem eles nem vocês — afirmou a doutrinadora.
— Não só cansei de rezar como agora me cansei de vocês.
Sinto-me incomodada como há tempos não me sentia.
— Você não quer conhecer outra forma de viver?
Podemos lhe proporcionar isso.
— Você não disse que ia me deixar ver e ouvir as conversas dos outros? -— lembrou Mimi.
— Pois bem, que assim seja.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 11:13 am

— O que devo fazer para ver esse espectáculo?
Devo rir ou aplaudir?
— Somente prestar atenção.
Está vendo essa mulher ao seu lado?
— Estou. Quem é ela?
— Uma desencarnada que, há tempos, compreendeu que fazer o bem é o caminho da felicidade.
Trabalha connosco. É um ser bom.
Ela ficará ao seu lado.
Você escutará hoje e amanhã nossas conversas e depois voltará a falar connosco.
— Está bem. Somente uma pergunta:
Nunca vi este quase careca, este moço que está sentado à minha frente.
Porém, parece que o conheço. Quem é ele?
— Se conhece, lembrará -— respondeu Marta.
Mimi afastou-se e ficou encostada na parede perto de uma trabalhadora desencarnada.
Olhava tudo curiosa.
Estela, por momentos, viu o vulto de Mimi.
Orou para ela ficar tranquila e querer ser ajudada.
O intervalo foi rápido; segundos depois, Marcelo começou a falar.
Estela e o tio perceberam que ele repetia o que um outro espírito falava.
— Estamos aqui: o Grosseirão, a dona Mimi e eu.
Desde que o Zé parou a camionete hoje pela manhã para pegar as visitas que estou diferente.
Não consegui me aproximar mais dele.
Fiquei sonolenta, acho que dormi.
— O que está fazendo ao lado dele?
Por que age assim? -— Novamente, Marta conversou com este espírito, uma mulher desencarnada.
— Jurei que ia fazer e faço!
Dona Mimi me instrui, ajuda.
Ela já me avisou que a empregadinha nova está interessada nele.
Não deixo mesmo ele se casar. O Zé é meu!
— Ninguém é de ninguém. Por que isso?
— Gosto de contar! -— falou a desencarnada através do médium Marcelo.
— Foi assim:
Zé e eu começamos a namorar muito jovens.
Eu o amava e queria casar.
Ele me enrolou, dizia que era muito novo, que queria primeiro comprar uma casa etc.
Começamos a brigar, às vezes passávamos dias sem nos falar.
Numa destas brigas, ele foi à cidade vizinha e ficou com uma moça.
Zé realmente se interessou por ela. Sofri muito.
— Aconteceu somente isso?
Não quer falar, desabafar?
Estamos aqui para escutá-la e ajudá-la.
— Às vezes penso que preciso de ajuda; outras, que não.
Não sei se quero falar. O que importa o passado?
— Para nós, não importa -— respondeu Marta.
— Como foi você quem os viveu, estes momentos lhes são importantes.
São lembranças suas.
Se não quer falar, tudo bem, mas pense somente que queremos auxiliá-la.
Você é feliz?
— Não estou feliz.
Como dona Mimi, sofro bastante -— a desencarnada suspirou.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 11:14 am

— Acho que você tem razão.
Fiz algo grave, e isto me atormenta.
Se falar, estarei desabafando.
Se vocês não me condenarem, saberei então que querem mesmo me ajudar e que posso confiar em vocês.
Quando fiquei sabendo que Zé estava saindo com outra moça, para me vingar, encontrei-me com o patrão do meu pai, que era casado.
A esposa dele ficou sabendo e disse que ia contar para os meus pais e para o Zé.
A desencarnada fez uma pausa e perguntou:
— A senhora não acha muito errado o que fiz?
— Não estamos aqui para julgar, mas para ajudar.
Com certeza não pensou nas consequências.
— Não pensei mesmo!
Descobri que estava grávida e não sabia quem era o pai.
Desesperada, morri.
Culpei o Zé, ele não deveria ter se interessado por outra mulher.
Eu o amava. Jurei ficar com ele.
Cumpro somente meu juramento.
O espírito dessa moça fez uma pausa, como que escutasse alguém falar com ela, voltou a falar, e Marcelo repetiu:
— Não me amole, dona Mimi! É tão puritana!
Fique quieta aí, agora sou eu quem está falando.
Não interferi enquanto falava.
Não disse que é invejosa, má e que não perdoa.
Conversava com a senhora porque era a única pessoa que me dava atenção.
Se contasse o que fiz, não ia mais falar comigo.
Sempre tão certinha!
Foi isso mesmo o que aconteceu:
impulsiva, encontrei-me com esse homem, que há tempos tentava me seduzir.
— Você sente dores? -— perguntou Marta.
— Não queria que tivesse acontecido o que se passou.
Se pudesse voltar no tempo, teria aceitado a decisão do Zé, não teria me encontrado com aquele homem nem feito o que fiz.
Sim, sinto dores no abdómen, sinto-o podre, o cheiro me incomoda.
Interessante, agora não estou sentindo mais, sinto cheiro de rosas, que é exalado desta senhora desencarnada que está perto de mim.
— Sabe por que sentia o cheiro desagradável e as dores? -— perguntou a doutrinadora.
— Sei. Porque eu a causei.
Foi por causa de minha morte. Eu a provoquei.
A desencarnada fez outra pausa.
O orientador desencarnado do grupo sabia que aquele espírito necessitava de esclarecimentos e que somente resolveria seu problema se ele falasse o que o atormentava.
Normalmente, o que dá agonia ao espírito são seus actos errados.
Por isso, Marta perguntou:
— Como desencarnou?
— Tem de haver motivos para morrer?
Morre-se e acabou!
— Acabou mesmo?
— Não! Infelizmente não!
Queria que tivesse acabado. Mas não acaba!
De facto, tem de haver motivos para morrer.
Passei mal, fui para o hospital, não resisti a uma hemorragia -— fez uma rápida pausa.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 11:17 am

— Dona Mimi, não quero que interfira!
Não estou mentindo!
Fiz um aborto! Pronto! Falei!
Ela começou a chorar, um choro sentido.
O médium Marcelo não conseguiu se controlar, lágrimas escorreram pelo seu rosto, e repetiu o que o espírito falava, desta vez em tom baixo.
— Fiquei aflita!
Meu amante me deu dinheiro, fui à casa de uma mulher que fazia abortos, uma senhora conhecida como Mata Anjos.
Fiz o aborto. Tive uma hemorragia e aguardei esperançosa que passasse.
Quando desmaiei, mamãe me levou ao hospital, estava passando mal, piorei e "desencarnei", como vocês falam.
Sofri, perturbei-me, sentia dores e fraqueza.
Fiquei assim por uns tempos, agora sei que foi por três anos.
Fui melhorando porque fiquei perto de Zé.
Ele pensava em mim com remorso.
Na casa dele, a irmã, minha ex-cunhada, me dava forças.
Zé trabalhava aqui e vinha com ele.
Dona Mimi conversou comigo, me explicou que meu corpo de carne morrera e que, para não ir para o inferno, tinha de cumprir meu juramento:
ficar com o Zé e não deixá-lo casar ou ficar com alguém.
— Sabe do espírito que ia ser seu filho? -— perguntou Marta.
— Disseram, uns espíritos como estes que vejo aqui agora, que ajudam no hospital, que o espírito que ia ser meu filhinho me perdoou e foi reencarnar em outro lar.
— E por que não segue o exemplo deste espírito?
Por que não perdoa?
— Fiquei magoada -— falou a desencarnada em tom queixoso -— com o que aconteceu.
Mas sou eu quem precisa de perdão -— chorou novamente.
Marcelo não chorava, mas os presentes sentiam o espírito chorando e ela o fazia de forma sentida, sofrida.
Estela sentiu isto e orou para ela.
— Gostava do Zé -— voltou ela a falar —- queria casar.
No começo do namoro, ele também queria.
Não foi culpa dele, era jovem, mudou de ideia.
O amante que me seduziu mentiu dizendo que me amava e que a esposa dele sabia, mas ela nem soube de sua traição.
Ele me ameaçou, e eu senti medo.
Analisando agora, fui eu quem errou.
Não se pode obrigar ninguém a amar.
Não deveria ter me envolvido com homem casado.
Não deveria ter abortado.
E agora? Vou para o inferno?
— Minha filha -— disse Marta com carinho —- estes anos em que sofreu não foram para você um inferno?
Este espaço que muitos pensam em que se sofre pela eternidade não existe.
Há, no plano espiritual, muitos lugares em que desencarnados podem ficar, e alguns são maravilhosos, onde os bons espíritos moram, e são estes, os bons, que a ajudarão.
— Poderia ter sido diferente!
Se não tivesse feito o que fiz, estaria encarnada; meu filhinho, na adolescência; e talvez tivesse outros filhos.
Desencarnei antes do previsto.
Sei disto porque, no hospital, uma socorrista me disse.
Penso tanto nisto!
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 11:17 am

— Sente remorso? -— perguntou Marta.
— Sim, sinto.
— Peça perdão e aceite nossa ajuda.
— Peço, sim. Deus me perdoe!
Que este espírito que expulsei do meu ventre me perdoe.
Queria pedir desculpas ao Zé.
Por falar nele, e meu juramento?
Promessa não tem de cumprir?
— Você prometeu algo sem fundamento.
Estava desesperada naquele momento.
Não, minha filha, não precisa cumprir, você prometeu sem pensar nas consequências.
Você mesma já compreendeu que este homem não teve culpa.
Deixe-o seguir sua vida e cuide de você.
— O senhor -— falou Marcelo repetindo o que a desencarnada falava —- o patrão dele, por favor, conte tudo ao Zé, diga que eu imploro o perdão dele.
Peça também para ele não mexer no passado e querer saber quem foi o meu amante.
Sabe o que eu pensava?
Que Deus nunca ia me perdoar.
Agora, com vocês me auxiliando, pedi perdão e me sinto perdoada, estou aliviada.
— Minha filha, fique tranquila, basta nos arrependermos para sermos perdoados; porém, devemos fazer o propósito de não cometer mais o mesmo erro.
— Penso, sinto, que não terei mais filhos.
Deus me deu um, e não aceitei.
— Não pense nisto -— Marta a consolou.
Concentre-se em se melhorar.
Irá com estes amigos para um abrigo onde aprenderá a viver como desencarnada e, depois, reencarnará para continuar seu progresso.
Vamos ajudá-la a ter seu corpo perispiritual sadio.
Pense que está perdoada, e você sadia, estamos lhe dando energias benéficas.
— Sinto-me bem. Meu Deus!
Meu ventre está como antes de fazer o aborto.
Obrigada, meu Deus! Obrigada a todos vocês!
Vou embora com estes espíritos e prometo ser obediente, trabalhadora, quero aprender a ser boa pessoa.
Sinto-me tranquila como há muito tempo não me sentia.
Agradeço-os novamente. Também agradeço à dona Mimi.
Penso que ela estava equivocada em afirmar umas coisas que agora entendo não serem reais, mas me auxiliou.
Que Deus nos abençoe!
Chorou novamente.
Dois trabalhadores da equipe do plano espiritual aproximaram-se dela, pegaram em suas mãos e a levaram dali.
Por segundos, o escritório ficou em silêncio.
Epaminondas e a sobrinha estavam atentos.
"Coitada! Errou e sofreu.
Tomara que fique bem", desejou Estela.
"José Elídio", pensou o dono da casa, "sofreu tanto por remorso.
Que história! Vou contar tudo a ele".
— Vamos nos concentrar para receber mais um convidado -— pediu Juarez.

1. N. A. E.: Prece 6, "Para o início da reunião".
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 11:18 am

9. O Fantasma da Lua Cheia

- Convidado!?!
Nem sei como e por que estou aqui -— falou Elisa, repetindo o que um desencarnado falava.
— Boa noite! -— cumprimentou Marta.
— Boa noite! Sou o Fantasma da Lua Cheia.
Gosto de ser chamado assim, meus amigos moradores do Além nem sabem meu nome, me chamam por este apelido.
Aqui, no sítio, eles me chamam de Grosseirão.
Sou grosseiro somente com quem merece.
Sei ser educado.
Repito, não fui convidado; se tivesse sido, não teria aceite.
Estou aqui neste cómodo da casa desde que entraram, escutei a leitura e a oração.
Essa prece é bonita, mas não é para mim.
Escutei a mulher do Zé.
Fico contente por ela ter ido embora.
Melhor para ele.
E ali está a Mimi, recuso-me a chamá-la de "dona", ela não é dona de nada.
É a Santa do Fingimento!
Tem medo de mim; quando venho aqui, se escondem: ela e a mãe.
— Vem muito aqui? -— perguntou Marta.
— Venho somente para fazer o que tem de ser feito -— respondeu Elisa, repetindo o que o espírito dizia.
— Não era para estar aqui esta noite.
— Fomos buscá-lo para que recebesse orientação.
— Interessante este processo.
Muito! Eu falo, e ela repete.
Estou vendo quatro desencarnados atentos ao que faço.
Vocês por acaso sabem quem eu sou?
- Não sabemos; se quiser falar, estamos atentos para escutá-lo -— respondeu Marta.
— Venho aqui, como já disse, para cumprir minha obrigação e volto para o meu lugar.
Porque estão aqui?
— Viemos a esta casa para tentar auxiliar todos os desencarnados envolvidos com este sítio.
— Não sei se conseguirão, estava sossegado lá na esquina.
Gosto de ir ao bar, estava lá e, de repente, me vi aqui.
Não me embriago, é difícil eu vampirizar os beberrões do bar.
Não gosto mais da bebida.
Divirto-me escutando conversas dos encarnados e dos desencarnados.
— Sabe então que é um desencarnado? -— indagou a orientadora.
— Não falei que estou aqui desde que começou este falatório?
Há muito tempo que sei que estou morto.
Tenho até o apelido de Fantasma.
— Por que vem aqui?
— Para bater no senhor, no ex-dono da fazenda, no pai daquela ali.
Fique quieta, Mimi; se você se intrometer como fez com a mulher do Zé, dou-lhe umas bofetadas.
Como ia dizendo, venho aqui no primeiro dia da lua cheia, bater nele.
Espero que não fiquem com peninha desse homem.
— Senhor -— perguntou Marta —- por que faz isso?
Você se satisfaz castigando-o?
— Não se intrometa a senhora também.
Não tem nada a ver com isso.
Vou embora -— fez uma pausa.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 11:18 am

— Por que não consigo sair daqui?
Não consigo nem me mexer.
Não estou gostando disto!
É melhor vocês me deixarem ir embora.
E você, moça, por que não grita?
Estou falando alto e ela continua repetindo em voz baixa.
Por que não repete meus xingamentos?
— Calma! Você não pode sair, não sairá até conversar connosco, e educadamente.
Por favor, comporte-se! -— pediu a doutrinadora.
— Deixe-me ir embora.
Se não é para eu vir mais aqui, não venho.
Já o castiguei bastante.
Porém, aviso-os:
se eu não o castigar, será pior.
— Por que você acha que será pior?
— Dou-lhe um correctivo todos os meses -— respondeu o desencarnado.
— Sem isto, com certeza, ele se sentirá com mais poder e atormentará os encarnados.
— Podemos saber por que faz isso?
Por que vem aqui bater nele?
— Não gosto de falar do passado.
Foi tudo muito triste -— o desencarnado suspirou.
— Sofri muito! Minha vida não foi fácil.
Desde pequeno, trabalhei muito. Não vou falar.
— Está bem, respeitamos sua vontade.
Porém, lhe indago:
Até quando ficará assim? Vagando?
Continuando infeliz? — perguntou a doutrinadora.
— "Infeliz"? Não julgava ser, sentia-me às vezes triste e sozinho.
Vendo esses espíritos que estão aqui, começo a pensar que continuo infeliz.
Eles me parecem estar tão bem, calmos, limpos... transmitem paz.
— Eles aprendem a amar.
— Vou contar a vocês o que me aconteceu.
Escutando-me, talvez, me entendam e, quem sabe, me auxiliem no castigo que dou a ele.
Nasci num lar pobre.
Minha mãezinha era uma pessoa boa, fez de tudo para nos educar, a mim e aos meus irmãos.
O desencarnado, embora tivesse afirmado que não queria falar de si, relaxou, acomodou-se mais perto da médium, sentou-se e continuou a contar:
— Minha família morava aqui perto.
Quando moço, ia à cidade aos sábados e foi lá que conheci a minha Mariinha, moça bonita e prendada.
Namoramos e casamos.
Vim trabalhar aqui na fazenda, que, naquela época, era grande.
Se estava bom por um lado, não estava por outro.
O Coisa Ruim não era bom patrão.
Trabalhávamos muito, Mariinha e eu recebíamos pouco.
O lado bom é que nos amávamos.
Até procurei outro emprego, mas infelizmente as fazendas por aqui eram todas parecidas.
Numa tarde, o senhor acusou minha mulher de ladra.
Disse que ela tinha roubado um colar, uma jóia cara de sua esposa.
Mandou um empregado à nossa casa, que encontrou a jóia.
O dono das terras tinha sempre de cinco a seis empregados que também faziam sua segurança, ele tinha muitos desafectos, e estavam, ele e os outros fazendeiros, sempre em desavenças.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 11:18 am

Estes empregados eram chamados de "jagunços" e estavam sempre armados.
Já estava escurecendo.
Meu patrão ficou possesso, mandou amarrar Mariinha num tronco de uma árvore no pomar.
Fui defendê-la, os jagunços me seguraram, e ele a chicoteou.
Gritei, e ele me perguntou:
"Essa ladra já levou dezanove chibatas, quer agora apanhar no lugar dela?".
Respondi que "sim".
Os três homens que me seguravam me soltaram, e fiquei na mira de três armas.
Corri, protegi Mariinha com meu corpo e recebi dezanove chicotadas.
A lua estava linda, na fase cheia e, de onde estávamos, minha mulher e eu víamos a lua redonda como um prato prateado a clarear o local.
Para não gritar de dor, fixei meu olhar na lua.
Estava, naquele momento, desesperado; sentia a dor física, mas a moral era maior, estava impotente, apanhando como escravo e vendo a mulher que amava ferida, gemendo.
Escutei:
"Já basta. Solte-a e que sejam levados daqui".
Foi a ordem do senhor das terras.
Um empregado a desamarrou, ela estava amarrada por cordas na árvore.
Mariinha caiu no chão; eu, embora fraco, com dores e sangrando, a levantei.
O empregado, cumprindo a ordem, com uma charrete, nos levou à cidade, nos deixou na periferia, disse que no outro dia iria levar ali algumas coisas nossas.
Não tínhamos para onde ir, a noite estava fria.
Um mendigo que morava num barraco nos convidou para entrar.
Este homem nos ajudou, esquentou água para limpar nossos ferimentos.
Mariinha começou a passar mal, foi então que percebi que ela estava tendo uma hemorragia.
"Estou perdendo o nosso neném", contou ela.
Não sabia e perguntei:
"Por que não me contou?".
"Ia fazê-lo esta noite, agora não tem importância."
Não sabia o que fazer, mas o mendigo sim, e decidiu:
"Vamos deitá-la aqui e aquecê-la, vou buscar o médico".
"Não tenho dinheiro", lamentei.
"Esse médico não cobra dos pobres", afirmou o homem, "é uma pessoa muito boa.
Vou buscá-lo”.
Saiu, não acreditei que o médico viria.
Desesperado, não sabia o que fazer.
Segurei nas mãos dela e rezei, implorei a Deus para salvá-la.
Mariinha perdia muito sangue e gemia.
"Estou ficando fraca", disse.
O mendigo e o médico chegaram.
Ele perguntou o que acontecera e, me ouvindo explicar, foi examinando-a.
Pediu panos, e o homem que nos hospedava correu e pediu aos vizinhos, que eram todos pobres, mas voltou com lençóis.
O médico tentou de tudo para salvar minha mulher.
Porém, quando o dia clareou, Mariinha morreu.
O médico tentou me consolar.
"Ela foi para o céu, estará melhor.
Sinto muito. Não consegui salvá-la."
Foi embora de cabeça baixa.
Fiquei transtornado, não conseguia sequer ordenar meus pensamentos.
Foram aqueles pobres da periferia que moravam em barracos que me ajudaram.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 11:18 am

Mariinha foi enterrada à tarde.
A família dela veio, e escutei de um de seus irmãos:
"Você é um miserável, não soube defendê-la!".
— O desencarnado fez uma pausa e perguntou:
— Tenho ou não tenho motivos para castigá-lo?
Todos aqui estão quietos.
Sentem dó de mim?
— Estamos atentos ao seu relato.
Por favor, continue —- pediu Marta.
— Voltei do enterro e fui para a casa do homem que nos abrigara.
Ele me deu uma sopa, comi, fazia mais de trinta horas que não me alimentava.
Depois ele me deu um copo cheio de aguardente, tomei e dormi.
O empregado da fazenda trouxe algumas coisas nossas, panelas e roupas.
As roupas de Mariinha, dei para as mulheres vizinhas, e o resto ficou no barraco.
Comecei a me embriagar.
Um dos meus irmãos veio me ver, quis me levar para a casa dele ou para a dos meus pais, que estavam idosos.
Não quis ir. Sentia tanta dor que não conseguia raciocinar, suavizava minha tristeza com o álcool.
Os ferimentos físicos doíam e foram cicatrizando, mas não os da alma, ambas as dores deixaram marcas.
Tornei-me um vagabundo, mendigo e bêbado.
Novamente o desencarnado fez uma pausa.
Marta perguntou:
— Com certeza, você agradeceu ao médico, ao homem que os abrigou e aos vizinhos, não foi?
— Como?!
— Você não os agradeceu?
— Não! Não o fiz! -— exclamou o comunicante.
— Por quê?
— Não sei. Pensava somente no meu sofrimento.
— Entendemos que sofreu.
Não deveria, porém, se lembrar de que aquele homem ofereceu a vocês dois, que lhe eram desconhecidos, o que ele tinha, sua casinha?
Do médico, que se privou do seu descanso e ficou horas tentando salvar sua esposa e não cobrou?
Dos vizinhos que, mesmo tendo tão pouco, o ajudaram a fazer o enterro e lhe deram consolo?
— Agora estou entendendo o que eles fizeram por mim.
Fiquei no barraco com aquele homem, tornamo-nos amigos de bebedeira.
Ele morreu, fiquei ali, e, anos depois, meu corpo faleceu.
Continuei minha vidinha, enturmei-me com outros afins.
Aprendi muitas coisas com espíritos que vagavam:
como vampirizar para ter sensações e como deveria agir para me vingar.
Resolvi esperar meu desafecto desencarnar para castigá-lo.
Mariinha veio me ver, estava muito bonita.
Contou que estava bem, que morava com outros desencarnados num lugar bonito.
Falou do passado, disse que perdoara e que não fora ladra.
O patrão, naquela época, a estava assediando e, como ela se recusara a ser amante dele, aconteceu o castigo.
Ela não roubou a jóia.
Insistiu para eu perdoar e ir com ela.
Mariinha fez isto mais quatro vezes. Neguei.
Queria me vingar, mais ainda quando soube de tudo; antes tinha dúvidas, pensava que minha mulher, numa tentação, pegara a jóia.
Ela tinha me pedido várias vezes para irmos embora daquela fazenda.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 11:19 am

Na última vez que vi Mariinha, ela se despediu, disse que ia nascer de novo.
Minha mãe morreu, fiquei sabendo dias depois, ela também veio tentar me levar.
Resolvi me vingar.
Por este motivo, fiquei mais lúcido, não vampirizei mais o álcool dos encarnados que se embriagavam. Esperei.
O dono da fazenda desencarnou, tornou-se ex-dono.
Porém, aborreci-me, ele foi levado para o Umbral por outros desafectos.
Consolei-me porque ele sofria por lá, mas eu queria castigá-lo do modo que planeava.
Alguns anos depois, eu o peguei, tirei-o do Umbral e o trouxe para cá.
Aqui estavam a esposa dele e a filha, que também já tinham mudado de plano.
Nenhum deles mereceu ser socorrido, vagavam.
Então, organizei minha vingança.
— Sente-se satisfeito com o que faz? -— indagou Marta.
— No começo, sentia-me, agora não sei.
Toda lua cheia venho aqui, o amarro e lhe dou dezanove chibatadas.
Não é a mesma coisa, não é como se tivesse carne.
Ele sente dor porque eu quero, mas é bem menos; se fosse encarnado, sentiria mais.
O ferimento sara logo.
— O desencarnado fez outra pausa e falou mais alto:
— Por que essa mulher está me olhando?
Não deu palpites, mas está assustada.
Não sabia disso? -— Nova pausa.
— Pensava realmente que Mariinha tinha roubado e que somente tínhamos sido expulsos da fazenda?
Não sabia do castigo?
Acredito, você não devia saber mesmo.
Foi isto o que de facto ocorreu.
Meu ex-patrão não tinha como se safar do castigo.
Não consegue se esconder de mim.
Chamo-o, e ele vem para ser chicoteado.
Ameaço-o também e, afirmo, ele sabe que faço o que falo, que, se ele não vier, apanhará dobrado ou chicotearei a mulher ou a filha.
Por que agora estou pensando naquele médico?
Por que estou pensando no dono do barraco?
Naqueles vizinhos?
Suas fisionomias vêm à minha mente.
Vejo-os nitidamente. Por quê?
— Talvez seja porque lhes deve agradecimentos -— respondeu Marta -— ou para entender que você somente se fixou nas maldades que lhe fizeram, esquecendo-se do bem que recebeu.
Tanto sua esposa quanto sua mãe tentaram alertá-lo para que conhecesse outra forma de vida, que perdoasse, mas não quis.
— Que coisa!
Não quero pensar naquele médico ali naquele barraco de um só cómodo, suado, tentando salvá-la, preocupado comigo, lutando contra a morte.
Era um bom profissional, não cobrou, foi atendê-la sabendo que não ia receber, não exigiu nada, e eu nem agradeci.
Estava transtornado naquele momento, mas depois poderia ter agradecido, ter dito "Deus lhe pague", mas não o fiz nem agradeci às pessoas que me ajudaram.
Queria somente me vingar.
O que fiz de minha vida?
Não tenho nada nem ninguém.
Nada! Não sei das pessoas que amei e que me amaram, sei somente do desafecto.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 11:19 am

Por que estou sentindo que fui eu a dar as chicotadas?
Por quê? Querem me enlouquecer?
— Você, nestes anos —- respondeu Marta —- deve ter visto muitas coisas e entendido outras, como, por exemplo, que nosso espírito reencarna, veste um corpo de carne, este falece, continua vivendo e volta a um outro corpo, tendo um novo reinicio.
Você também já reencarnou muitas vezes.
Está sentindo o que fez para ter sido injustiçado e chicoteado. Lembra-se?
— Estou recordando:
fui um jagunço, roubei uma arma, coloquei a culpa num negro e o chicoteei sabendo que era inocente.
Ele me perdoou.
Eu, nesta existência, não reparei meu erro!
— Nesta sua última reencarnação, recebeu a reacção desse acto errado.
Deveria ter perdoado, aprendido a lição de não cometer uma injustiça, perdoar e continuar vivendo, trabalhando, sendo honesto.
Se tivesse prestado atenção, teria sido grato àqueles que lhe ajudaram e seguido o exemplo deles, que, mesmo com pouco, doaram.
Poderia ter sido feliz, constituído outra família.
Sua esposa fez isto, não ficou parada, seguiu em frente, foi socorrida; foi, após a morte de seu corpo físico, para um lugar bonito, entendeu que tudo tem razão de ser, perdoou, se preocupou com você e ficou bem.
Convido-o a agradecer àqueles que o ajudaram.
O médico é fácil, é um trabalhador do bem na cidade:
benfeitor encarnado, bondoso servidor desencarnado.
Se não encontrar os outros benfeitores, aja como eles, faça o bem, somente assim terá paz.
— Nunca pensei que eu tinha feito algo parecido com o que recebi.
Sinto, no meu íntimo, serem verdadeiras estas lembranças.
Odiei tanto ser castigado e já castiguei.
Se aceitar a ajuda de vocês, para onde irei? -— ele quis saber.
— Primeiramente, para um abrigo, um local onde poderá conviver com pessoas que se esforçam para ser boas.
Ouvirá o Evangelho, poderá estudar para saber ler e escrever, aprenderá a fazer o bem.
Poderá, depois de um tempo, se quiser, voltar a reencarnar.
— Como sabe que não sei ler?
— Senti que tem vontade de saber -— respondeu Marta, intuída pelo mentor espiritual do grupo.
— Tenho mesmo. Vou embora com vocês.
Para demonstrar que começo a entender, quero dizer:
Obrigado! Muito obrigado!
Vocês livram o sítio do Fantasma da Lua Cheia!
Você aí, diga ao seu pai que não me verá mais.
Estou indo embora e espero ser para sempre.
— Você não poderia perdoar para ser perdoado ou como foi perdoado?
— Nunca pensei em perdoar -— suspirou o desencarnado -, mas, agora que lembrei ter sido um carrasco, entendo que você tem razão.
Se preciso de perdão, devo perdoar.
Mas, se falar que perdoo, não é com sinceridade.
Vou me esforçar, no lugar para onde vou, para me melhorar, quero escutar orações e o Evangelho, e aí talvez meu perdão seja sincero.
No momento, não estou com vontade de perdoar.
Mas minha gratidão, esta é sincera.
Sinto-me grato. Adeus!
Elisa suspirou e, por segundos, ficaram calados.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 11:19 am

Marta ia encerrar quando Marcelo falou, repetindo o que um desencarnado dizia:
— Boa noite, amigos!
Sinto-me alegre por estar aqui esta noite.
Também trabalho ajudando o próximo.
— Boa noite -— respondeu Marta.
— Poderia nos explicar o porquê de estar aqui?
Faço parte dos trabalhadores do centro espírita da cidade e também de uma equipe de um hospital, na ala que atendem pessoas que sofrem por queimaduras.
Vim aqui porque fui atraído por alguém.
Pedi ao orientador do grupo se podia me comunicar e, com a permissão, vou dizer algo para esclarecer.
Não se culpe!
Naquela época, estava triste realmente, sofria; porém, nunca pensei em desencarnar.
Sabia que tudo passa e que aqueles momentos sofridos também passariam.
Foi um acidente!
Raciocinando, depois do ocorrido, compreendi que seria difícil voltar.
A intenção é a que vale, quis salvá-los.
Desencarnei por sufocação, pensei que desmaiara e acordei dias depois num local de socorro.
Chorei muito quando soube que tinha desencarnado.
Gostava de viver e não queria morrer, mas a morte do meu corpo físico foi diferente de como pensava.
Fui muito auxiliado, minha avó materna me ajudou; meses depois, aceitei minha mudança de plano e continuei amando a vida.
Fui estudar para aprender a viver no plano espiritual e conheci muitas coisas do lado de cá.
Entendi que tudo tem razão de ser, estou bem, sou feliz.
Você vem muito aqui neste sítio? -— perguntou Marta.
— Visito-os.
— Sabia desses desencarnados que estavam aqui?
— Sim, sabia -— respondeu o comunicante.
— Via-os, embora eles não me notassem, não sentiam minha presença.
— Tem mais algum desencarnado aqui ou que visita esta casa que não sabemos?
— São esses mesmos.
— Você não poderia tê-los ajudado? -— Marta quis saber.
— A ajuda maior que vocês, encarnados, e a equipe desencarnada estão dando é alertar os que aqui moram.
Com certeza, esses espíritos socorridos irão aprender e seguir seus caminhos longe daqui.
Os encarnados com certeza meditarão sobre o que viram e ouviram; espero que procurem compreender a vida como una e que, quando fizerem suas passagens para este lado, o espiritual, não fiquem vagando.
Sim, poderia socorrê-los, levá-los um a um para uma orientação, mas não iria obter êxito, pois queria ajudar também os encarnados.
Almejava mesmo que eles pensassem na desencarnação e que conhecessem a Doutrina Espírita.
Agradeço-os e lhes desejo paz e tranquilidade. Obrigado!
— De nada. Se quiser falar mais alguma coisa, fique à vontade -— falou Marta.
— Era somente isto.
Queria dizer que não quis morrer.
Tudo está certo e sou grato pelo que faz em minha intenção. Muito grato.
Os sentimentos não mudam, eles nos acompanham no plano espiritual. Boa noite!
— Boa noite! -— respondeu Marta e determinou:
— Agora vamos orar e terminar nossa reunião.
— Deus, nosso Pai -— orou Juarez em voz alta —- agradecemos por tudo ter corrido bem.
Que os bons espíritos possam continuar ajudando esses desencarnados que aqui estiveram para receber esclarecimentos.
Também somos gratos pelas lições que aprendemos.
Que Jesus nos inunde de luz e bênçãos.
Assim seja!
— Assim seja! -— responderam todos.
Juarez acendeu a luz; durante a sessão, somente um abajur estava aceso.
— Agora podemos conversar —- falou Marta.
Os dois convidados, Epaminondas e Estela, se olharam e depois observaram os quatro, que estavam tranquilos e sorriam.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 11:19 am

10. Comentários Edificantes

- Vocês estão bem? -— perguntou Marta, olhando para o tio e a sobrinha.
— Sim, estou -— respondeu o dono da casa.
— Foi uma experiência que me comoveu, estou admirado.
Estou contente por vocês estarem resolvendo este problema que nos aflige e os deles, dos desencarnados envolvidos.
— Também estou bem —- afirmou Estela.
— Obrigada. Confesso que senti raiva destes espíritos, mas, depois de escutá-los, compreendi que todos tiveram motivos para estarem vagando, sofreram e sofrem.
Deve ser muito ruim se sentir perdido.
Os desencarnados ainda estão aqui?
— Os desencarnados que receberam orientação foram levados pela nossa equipe espiritual -— esclareceu Marta.
— A moça foi para o posto de socorro situado no plano espiritual do centro espírita que frequentamos.
Ela será tratada; por sentir culpa, tem, no seu corpo perispiritual, sequelas do aborto que fez.
— Ela se recuperará? -— perguntou Elisa.
— Esperamos que sim -— respondeu Marta.
— Penso que não ficará muito tempo connosco, deverá reencarnar, ter a bênção do esquecimento e do recomeço.
— A moça tem medo de reencarnar e não poder ter filhos.
Isto poderá ocorrer? -— Elisa quis saber.
Foi Marta quem respondeu, esclarecendo:
— No plano espiritual não existe:
fez isto, acontece isto.
A lei de causa e efeito existe, mas, para cada acção, as reacções podem ser muito diversas.
Esta desencarnada terá tratamentos, estará entre amigos, mas dependerá dela se recuperar totalmente.
Mesmo abrigada, se ela continuar se sentindo culpada, pensar no que fez, poderá novamente se sentir doente.
Se isto ocorrer, com ajuda, conversas, poderá voltar a se sentir sadia.
Mas, ao reencarnar, se ainda sentir remorso destrutivo, poderá afectar o corpo físico e ter, no futuro, problemas no aparelho reprodutor.
Porém, nem todas as mulheres que têm problemas para engravidar os têm por este motivo.
Temos, actualmente, muitos tratamentos para esta dificuldade e, com certeza, teremos muitos outros.
E quem quer ser mãe pode recorrer à adopção, pois mãe e pai verdadeiramente são aqueles que cuidam, educam e amam.
Conheci uma senhora, mãe de cinco filhos, que trabalhou num orfanato por trinta anos, foi uma dedicada funcionária, as crianças a amavam.
Desencarnou e, meses depois, deu-nos uma comunicação, dizendo que em sua outra existência tinha feito oito abortos.
Desencarnou, sofreu, compreendeu seu erro e veio, na encarnação seguinte, para reparar; sentia que realmente reparara, e pelo amor.
O melhor que temos a fazer é reparar, construir onde destruímos, harmonizar onde desarmonizamos.
Porque, quando cometemos um ato equivocado, estamos, pelo nosso livre-arbítrio, agindo de forma contrária às leis de Deus, da harmonia.
Ao errar, nós desarmonizamos nossas energias, e estas necessitam ser equilibradas em nossa estrutura perispiritual.
Podemos nos harmonizar pelo amor, fazendo o bem.
Mas, se recusadas as oportunidades, aí caberá a dor, o sofrimento, para nos harmonizarmos.
— Quando fazemos o bem ao próximo -— completou Juarez, o ensinamento —- dizemos que é a nós que o fazemos.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 11:37 am

Realmente é isto que ocorre.
Se estamos em alguns pontos ainda desarmonizados, ao fazer o bem, ao amar, vamos nos harmonizando.
Concluo, assim, que fazemos muito mais a nós mesmos quando somos bons.
— Marcelo, Elisa, como vocês estão se sentindo? — quis a dirigente saber.
— Quando dei a comunicação — respondeu Elisa — do desencarnado que vinha aqui para bater no outro, senti fluidos pesados, grosseiros, ele estava com vontade de esmurrar a escrivaninha, virá-la e xingar.
Depois, ele se comoveu, senti-o cansado e, por fim, a vontade dele de se melhorar.
Para onde ele foi levado?
— Ficará — respondeu Marta-— no nosso posto de socorro por uns dias.
Nosso orientador espiritual conversará com ele para saber onde, que local, será melhor para ele.
Penso que deve ser uma casa de auxílio no Umbral.
— Basta esta conversa para que eles mudem realmente? — quis Epaminondas saber.
— Não, -— respondeu Juarez.
Esta é a primeira abordagem.
E, para o desencarnado, um impacto importante, uma conversa esclarecedora, começaram a resolver seus problemas.
Infelizmente, alguns saem do abrigo dias depois e voltam a vagar.
— Ai, Meu Deus! -— exclamou Estela.
— Será que eles voltarão?
— Penso que não -— falou Juarez.
— A ex-namorada do José Elídio não volta.
O que vinha aqui chicotear provavelmente não o fará, não encontrará mais seu desafecto.
Os que serão doutrinados amanhã, com certeza, também aceitarão mudar a forma de viver.
Estão aqui há muitos anos e estão cansados de vagar.
Quando são levados para um socorro, são muito bem tratados, participam dos ensinamentos da casa, podem ler, conversar, fazer tarefas e recebem muita ajuda conversando com orientadores.
Aos poucos, vão realmente mudando.
— Marcelo, como você está? -— perguntou Marta, olhando preocupada para o moço.
— Sinto-me cada vez mais envolvido neste drama.
A primeira desencarnada a se comunicar, a Mimi, disse que sentia me conhecer, eu também tive a mesma sensação.
Fiquei nervoso e com medo de lembrar.
Mas agora estou bem.
O último espírito que deu a comunicação me deu paz e tranquilidade.
— Continue a se sentir assim -— aconselhou Marta.
— Tenha calma! Nada é por acaso!
— Tudo bem! — concordou Marcelo. — Agora estou tranquilo!
— Devo falar ao meu empregado o que a moça que ficava com ele pediu? -— perguntou Epaminondas.
— Sim — autorizou a dirigente da reunião — porém não diga nomes ou dê a entender quem foi o amante, isto se o senhor deduziu quem seja.
Aconselhe-o a esquecer, que tudo passou, ficou no passado, o presente é o período mais importante.
Para ele perdoar, esquecer e não ter mágoas.
Avise-o de que ele tem mediunidade, será interessante ele aprender a lidar com ela.
Convide-o para ir ao centro espírita e levar a irmã.
Porque a moça falou que sentia forças ao lado da irmã dele, com certeza, ela sugava energia desta encarnada.
Isto não ocorrendo mais, a irmã de José Elídio se sentirá melhor.
— Isso acontecia com Isabela, não é? -— perguntou Estela.
— Mimi sugava energias dela, minha filha estava cansada e triste, acho que ficaria doente, sentia-se sem energia.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 11:38 am

— Desencarnados que agem assim -— esclareceu Juarez -— estão ainda enraizados a sentimentos inferiores, sugam as substâncias vitais de encarnados.
Fazem isto para se sentirem alimentados, fortalecidos e enfraquecem os sugados.
Quando este processo é frequente e por mais tempo, o encarnado pode, sim, adoecer.
Afastando o espírito, a vítima logo se recupera.
Isabela estará bem em alguns dias.
— Como eles conseguiam jogar frutas, pedras? -— perguntou Epaminondas.
— Eles puderam fazer estas manifestações físicas porque aprenderam a fazê-las.
Conhecimentos têm aqueles que estudam e se dedicam a aprender, não é privilégio dos bons.
Maus, imprudentes, podem aprender.
Usavam dos fluidos da natureza, aqui abundantes, e da mediunidade de José Elídio e, depois, de Estela e Isabela.
— Eu sou médium? — indagou Estela.
— Sim, é — respondeu Marta.
— E agora? O que faço?
— Aconselho-a a ir aprender fazer o bem com sua mediunidade —- falou Marta.
— Tenho de desenvolver? -— Estela estava preocupada.
— Não é obrigada — novamente, Marta tentou elucidá-la.
— Não somos obrigados a nada.
Temos o nosso livre--arbítrio, fazemos de nossa vida o que queremos, porém existe a lei do retorno.
Faço o bem, recebo o bem; ajo com maldade, colho dores; se nada faço, recebo a inércia.
Afirmo a você que é prazeroso fazer o bem com a mediunidade, sentimos paz, e o tesouro que adquirimos é o do conhecimento.
Aprendemos muito trabalhando para o bem com a mediunidade e, para isto, basta aprender.
— E a mediunidade de Isabela?
O que faço para ajudá-la? -— a mãe da garota quis saber.
— Você, frequentando o centro espírita -— esclareceu Marta - nenhuma energia negativa ficará na casa, com você, e, consequentemente, nada atingirá sua filha.
Se você levá-la para tomar passes e se ela frequentar a Evangelização Infantil, aprenderá a lidar com sua mediunidade e será algo que aprenderá a amar.
Somente trabalhará quando for adulta.
— Ela não sofrerá por ser médium?
A mãe estava realmente querendo saber para ajudar a filha.
— A mediunidade — respondeu Marta -— não causa sofrimento.
Pode ser de uma pessoa ser médium e acontecer com ela o que ocorreu com José Elídio e Isabela, desencarnados ficarem perto sugando energias ou os prejudicando.
Isto não ocorre com quem trabalha, porque de médiuns activos no bem, um espírito experiente torna-se guia, mentor, protector e os protege dos desencarnados mal-intencionados.
A mediunidade é uma importante oportunidade de conhecimento e instrumento para fazer o bem.
— Vou ser espírita e ajudar as pessoas como estou sendo ajudada! -— determinou Estela.
— Achei muito interessante -— comentou Juarez -— o depoimento do desencarnado que disse que seu apelido era Fantasma da Lua Cheia e que, na noite em que nosso satélite está na sua fase mais bonita, vinha aqui para chicotear seu desafecto.
Devemos prestar atenção ao que ele contou para nunca agir assim.
Viu somente o que de ruim lhe fizeram.
Não prestou atenção no bem que recebeu.
Com certeza, foi doloroso ver a mulher que amava ser acusada; ele duvidou da inocência dela, soube a verdade quando desencarnou, e ela veio vê-lo, tentou auxiliá-lo.
Recebeu, naquela noite de luar, dezanove chicotadas no lugar dela.
Não sabia que a esposa estava grávida e, com a violência sofrida, aconteceu o aborto.
Não quis saber se houve motivos para ter sofrido esta violência.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 11:38 am

E teve motivos, foi uma reacção de actos indevidos no passado.
No seu sofrimento, recebeu muitas ajudas.
Um empregado os tirou da fazenda e os levou à cidade.
O mendigo que se embriagava os acolheu em seu barraco e dividiu com os dois o pouco que tinha.
O médico veio atendê-la; a cidade, naquele tempo, não tinha hospital, ele ficou ali, tentando salvá-la por muitas horas.
Não cobrou; sabia, quando foi, que não ia receber nada e, de facto, não escutou nem um agradecimento.
Para ele, não fez diferença porque agiu por amor à profissão e ao próximo.
Este espírito é um grande exemplo, um benfeitor que, desencarnado, continua fazendo o bem porque tem de fazer, porque ama.
Também não prestou atenção nas atitudes dos vizinhos, todos residiam em barracos e o ajudaram.
Tudo o que recebeu ficou escondido, ignorado pela vontade de se vingar.
Para ele, foi como o sol que escondeu as estrelas.
Isto pode ocorrer connosco:
às vezes recebemos muito de uma pessoa e basta que ela nos faça algo que não gostamos ou que não possa nos fazer um favor para nos fixarmos neste facto e esquecermos o tanto que recebemos.
A vida deste homem poderia ter sido muito diferente, como seria a de muitas outras pessoas, se, em vez de se fixar em acontecimentos ruins, desse ênfase e valor ao que de bom recebeu.
— Concordo — afirmou Elisa —, é uma lição para ser pensada e seguida. O bem sempre deve prevalecer e ele nunca deve ser ocultado pela maldade.
— A primeira a falar foi a Esmeraldina, a Mimi...
Ela ainda está aqui? -— perguntou Estela.
— Não -— respondeu Marta - ela foi levada para onde estão seus pais, que amanhã receberão orientação.
De onde está, meditará sobre o que escutou e depois dormirá.
Era ela quem incentivava aquela desencarnada a cumprir seu juramento, a estar sempre perto do antigo namorado impedindo-o de que fosse feliz, casasse e tivesse filhos.
Porém, ela desconhecia parte do que aconteceu.
Ficou admirada quando soube a verdade.
Como também se assustou quando soube o que o pai fez.
Pensava que a empregada roubara a jóia.
Com certeza, ela saberá de muitas coisas.
Conhecer a verdade a fará mudar de ideia, não irá querer ficar mais aqui e espontaneamente pedirá para ser socorrida.
— Ela não ficando mais perto de Isabela é o que me interessa —- falou Estela.
— De facto, escutando os desencarnados percebi que todos têm sua história de vida.
Fizeram outros sofrer, mas também sofreram, sentiram medo e querem ser felizes.
— É isso mesmo,- — concordou Juarez —- todos nós temos história e, por ser nossa, é especial.
— Por que a ex-namorada de José Elídio ficou presa a um juramento? -— Epaminondas quis entender para aprender.
Pelo que entendi escutando seu relato -— respondeu Juarez - essa moça ficou mais por falta de opção e por medo.
Como Mimi ajudou-a, esclarecendo-a de que estava desencarnada, porém afirmou que, para não ir para o inferno, tinha de cumprir seu juramento, esta desencarnada ficou perto dele.
Ela sabia de algumas coisas.
Deve ter conversado com socorristas do hospital, pois sabia que o espírito que ia ser seu filho a perdoara.
Não estava bem, mas tinha medo de ficar pior.
José Elídio sentia remorso; com certeza sentia culpa por tê-la abandonando e, pela culpa, aceitava-a perto.
— Se ela tivesse desencarnado por um aborto espontâneo, isso teria ocorrido?
Ela ficar vagando? -— Estela quis saber.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 11:38 am

— Se vagasse, não seria por esse motivo -— respondeu Juarez.
— Um aborto espontâneo normalmente causa grande sofrimento para uma mãezinha e sua família.
A maioria dos desencarnados que vagam é porque não aceita a mudança de plano e se ilude pensando que estão ainda encarnados.
Os motivos são muito para que isto ocorra.
— Como podem ficar tanto tempo vagando? -— perguntou o dono da casa.
— Os motivos também podem ser muitos -— esclareceu Juarez.
— Nesta noite, vimos dois motivos.
A moça que julgava ter de cumprir um juramento, mas ela realmente vagava pelo sentimento de culpa.
O desencarnado que aqui vinha vagava pela vontade de se vingar.
Poderemos saber o porquê de Mimi estar aqui e de seus pais.
Em anos trabalhando neste auxílio, orientando espíritos, percebi que muitos vagam porque não querem se afastar de afectos ou da matéria, de bens financeiros que julgam lhes pertencer.
Realmente os motivos são diversos.
— Mimi e os outros desencarnados não entravam nos lugares que o índio fechou.
Queria entender este facto -— Epaminondas realmente queria compreender.
— Não sei o que esta pessoa, o índio, fez aqui no sítio e na casa -— respondeu Marta, instruída pelo seu mentor.
— Este homem deve ter mediunidade em potencial.
Com certeza, veio aqui e conversou com os desencarnados, porém não os orientou.
Veio para fazer seu trabalho e foi remunerado.
Infelizmente, não se preocupou se estes espíritos sofriam ou não, nem quis ajudá-los ou talvez não soubesse como auxiliar.
Fez um trato:
eles poderiam ficar desde que não incomodassem muito e não entrassem em certos lugares.
Para isto, o índio deve ter queimado ervas que os incomodam.
Curiosos, foram verificar e, como não conseguiram ficar nestes locais, pensaram que lhes eram vedados.
As ervas os incomodaram, e eles não tentaram mais.
Se tentassem depois, nada lhes aconteceria.
Estes cómodos não estão fechados a desencarnados.
Penso que, pelo trato, Mimi levou-o a sério e, é ela quem controla tudo, determinou que nenhum deles entrasse nos lugares vedados.
— Ainda bem que eles não sabiam disso! -— suspirou Epaminondas.
— Realmente, fizemos um trato através do índio:
eu não cortaria a árvore seca do jardim e Mimi nos protegeria.
Fiz mal em fazer este trato?
— Saber sempre faz falta -— respondeu Marta.
— Se tivesse conhecimento, tentaria buscar auxílio com pessoas sérias, em um centro espírita.
Não faria trato nenhum, mas faria o que estamos fazendo agora, auxiliando-os, esclarecendo-os.
Se não fez o correto, foi por ignorar.
A partir do momento que se sabe, deve-se fazer correctamente.
Todos os desencarnados que incomodam devem ser orientados e receber oferta de socorro.
— Como se sentem depois da ajuda que dão? -— perguntou Epaminondas.
— Voltando ao assunto da harmonia -— respondeu Juarez —- sinto-me muito bem e penso que os outros também se sentem.
O maior tesouro que podemos adquirir é o conhecimento adquirido pelo esforço e, se o colocarmos em prática, é algo que nos acompanhará quando fizermos a mudança de plano.
Aprendemos muito com este trabalho.
Nas reuniões de desobsessões, repetimos muito, orientando desencarnados, que seus corpos físicos morreram; penso que nós não necessitaremos desta orientação, com certeza saberemos logo quando isto ocorrer connosco.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 11:39 am

Uma vez, no meu trabalho como mecânico, consertando uma máquina, um martelo caiu na minha cabeça.
Desmaiei. Acordei no hospital.
Veio à mente o ocorrido na oficina, olhei bem onde estava e concluí que estava num leito de hospital.
Pensei: "Será que desencarnei?
Se meu corpo físico faleceu, devo ter calma.
Estou socorrido".
Espreguicei-me, a cabeça doeu.
"Deve ser ainda o reflexo do corpo carnal.
Vou me levantar."
Ia me erguer quando um enfermeiro entrou e falou:
"O senhor não pode se levantar! Quieto aí!"
"Estou encarnado?", perguntei.
"O que o senhor disse?", o enfermeiro não entendeu.
"Onde está minha esposa?"
"Ela já vem. Deite-se e comporte-se", ordenou o enfermeiro.
Com certeza, a morte do corpo acontecerá como ocorre com todos, sei que desencarnarei e tomara que, quando isto acontecer, possa contar com amigos.
Porém, tenho a certeza de que saberei, aceitarei esta mudança e serei muito grato ao auxílio que receber.
— Alguém mais quer comentar?
Fazer perguntas? -— indagou Marta.
Como ninguém respondeu, Juarez finalizou:
— Vamos encerrar, aceitaremos tomar chá e depois iremos descansar.
Levantaram-se e se dirigiram à sala de jantar.
Josemar tinha deixado tudo arrumado para o lanche.
Estela rapidamente esquentou a água para o chá.
Tomaram e comeram os quitutes.
Depois, Estela os acompanhou até seus aposentos e foi verificar se a casa estava fechada; quando voltou para o corredor e ia entrar no quarto das crianças, viu o tio na porta do quarto dele.
Epaminondas fez um sinal com a mão convidando-a a entrar.
A sobrinha o fez, e ele fechou a porta.
— O que você achou da reunião? -— perguntou o tio.
— Gostei -— respondeu Estela.
— O que quero mesmo, titio, é ficarmos livres desses desencarnados que estão nos perturbando.
— Eu achei muito interessante.
Já tinha escutado comentários sobre essas reuniões, assisti-la foi uma experiência fantástica.
Vou pedir novamente para participar amanhã.
Saber o que aconteceu com eles com certeza os fará entender.
Minha sobrinha -— Epaminondas a olhou e, nos seus olhos, havia súplica - acho que você deve ter percebido quem era o último desencarnado que se manifestou.
Tem conversado com Isaurinha, ele falou que alguém pediu sua presença.
— Sim, titio, senti-o, foi João Roberto.
— Compreendeu mais? -— ele perguntou, falando em voz baixa.
— Acho que sim.
— Peço-lhe não contar nada a ninguém, por favor -— rogou o dono da casa.
— Pedi, em pensamento, a presença dele na reunião.
Depois do depoimento da moça, roguei pra ele vir.
Não esperava ser atendido.
Foi uma grata surpresa.
— Não falo nada!
Não tinha intenção de contar nem comentar com o senhor.
Agora, não digo nada disto a ninguém, nem ao Mariano. Posso jurar!
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

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