Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 11:39 am

— Tranquilizo-me. Ninguém soube ou sabe.
Os pais dele não precisam saber.
Isto foi há muito tempo.
Conhecemo-nos no exército.
Tive medo de comentários e nos separamos.
Nesses anos todos, senti remorso, pensava que ele procurara a morte.
Sinto-me aliviado.
Ele agradeceu, sabe o que faço por seus pais.
— Foi maravilhoso! -— exclamou Estela.
— Esta comunicação foi realmente esclarecedora.
— Para mim, foi um bálsamo.
A comunicação dele comprovou ser tudo o que vimos e escutamos, verdadeiro.
Ninguém sabia, e ele falou o que eu precisava ouvir.
Vou saber mais sobre o espiritismo.
— Fico contente pelo senhor.
Não é bom sentir remorso.
Agora sabe o que aconteceu, que ele está bem e feliz no plano espiritual e que vem visitá-los.
Titio, João Roberto queria que isto ocorresse, que buscássemos ajuda para sermos esclarecidos.
— Foi isso! Entendi que ele quis nos ajudar.
Estou aliviado por ter sido perdoado.
Você não vai mesmo falar?
— Juro, titio, pela felicidade dos meus filhos.
Juro que não falo nada a ninguém.
— Obrigado! Sinto-me aliviado duas vezes.
Foi algo tão profundo que não quero que ninguém mais saiba.
Vamos dormir?
— Boa noite, titio!
Estela saiu do quarto.
Epaminondas ficou ainda por minutos sentado na poltrona e pensou:
"Obrigado, Meu Deus, por esta graça!
Pela oportunidade de saber dele.
Queria tanto que João Roberto estivesse bem.
Por mais este motivo, devo procurar entender o espiritismo e frequentar o centro espírita da cidade.
Ele faz parte da equipe de trabalhadores.
Amei-o tanto! Como pode isto ocorrer?
Com certeza, se compreender a lei da reencarnação, entenderei.
'Sentimentos não mudam (7), afirmou João Roberto.
Certamente, eles se purificam, tornam-se verdadeiros.
Vou amá-lo como filho.
Se sentimentos paternais são intensos, sem egoísmo, quero amá-lo assim.
Saber como ele está e o que aconteceu me fez muito bem".
Foi dormir tranquilo.
Estela entrou no aposento que ia dormir, sem fazer barulho.
Os três estavam dormindo, e Isabela estava com expressão tranquila.
Deitou-se e orou, agradecendo a Deus.
"Realmente, todos nós temos nossa história de vida.
O amor e o desamor parecem sempre estar presentes.
Prometi ao titio guardar segredo, agora prometo a mim mesma não falar nada a ninguém.
É bom ele não precisar sentir mais remorso.
Titio é uma pessoa tão boa!"
Voltou a orar e dormiu.
Sonhou com a montanha, que passeava por ela, e sentiu muita paz.
Acordou disposta.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 11:39 am

11. Sábado

Estela acordou no horário de sempre, levantou-se, chamou Mariano para ir trabalhar, deixou as crianças dormindo e foi ajudar Josemar a preparar o café.
Encontrou o tio na sala de estar.
— Titio, vamos esperá-los para o café? -— perguntou Estela.
— Já tomei uma xícara.
Vamos esperá-los para o desjejum.
Mariano tomou café e foi, como todos os sábados, de moto para o trabalho.
Não esperaram muito, e os hóspedes vieram à sala.
Estela acordou os filhos e se reuniram na sala de jantar.
Conversaram animados sem, contudo, mencionar a reunião da noite.
Marcelo estava descansado e todos afirmaram que dormiram bem.
— Eu nem sonhei e não vi a Mimi! -— Isabela suspirou aliviada.
— Ontem à noite -— contou Elisa —- pensei bastante em algo que há tempos queria fazer e fui adiando...
Quero adoptar uma criança!
Tive alguns namorados, não deram certo, e não me casei.
Desde adolescente, quis ser mãe.
Passei por situações em que esta vontade foi deixada para depois.
A doença da minha mãe, depois, minha irmã, com dois filhos pequenos, ficou enferma.
Agora, não tenho mais idade para ser mãe biológica e, depois, não tenho companheiro.
Pensei muito no que escutei ontem e concluí que posso ser mãe!
Quero ser! Talvez uma criança queira ser filho ou filha de alguém, e podemos nos encontrar para ser uma família.
Talvez não seja fácil adoptar.
Mas, quando se quer uma coisa, temos de batalhar por ela.
— Acho -— falou Epaminondas -— que nada mesmo é por acaso.
Vou contar a vocês um facto triste.
A cidade perto do sítio é pequena, mas temos também, como vizinha, uma vila; lá devem morar umas quinhentas pessoas.
Nesta vila, reside uma mulher, que é o personagem principal da história que vou contar.
O marido dela há um ano e meio viajou em busca de emprego.
Por dois meses lhe mandou dinheiro.
Depois, ela recebeu uma carta informando que ele havia falecido em um acidente.
Quando o marido partiu, ela estava grávida de seis meses.
Dias depois de ter sabido da morte do esposo, o neném nasceu, um menino.
Esta mulher já tinha dois filhos:
um garoto, o mais velho, que agora deve ter quatro anos; e uma menininha, de dois anos e meio.
Então as pessoas começaram a ajudá-la.
Também tenho contribuído, compro roupas para eles e, uma vez por mês, José Elídio e eu levamos, para esta família, alimentos; compro alguns e levo o que o sítio produz.
Epaminondas fez uma pausa e depois continuou:
— Esta senhora, há uns oito meses, passou mal, levaram-na ao médico e foi constatado, depois de exames, câncer em estado adiantado.
Alguns amigos e eu intensificamos no auxílio.
Ela não tem parentes na região, afirma que todos são muito pobres e que o marido foi criado num orfanato.
Pensei muito:
o que fez esta mulher para passar por tudo isto?
Ela sabe que tem pouco tempo de vida, quer encaminhar os filhos.
Deixá-los em lares confiáveis.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 11:39 am

Todos se comoveram.
— Que história triste! -— suspirou Estela.
— Quando soube da doença dela -— continuou o dono da casa contando -— senti ser injusto!
"Por que isto?", me perguntei.
Agora começo a pensar que nada é injusto. Tudo tem resposta.
Pela lei da reencarnação, tudo é explicado.
Terça-feira fui visitá-la.
Dois irmãos que moram na vila, casados, querem ficar com os meninos.
São boas pessoas, os garotos têm ido às casas destas famílias e parece que as crianças já gostam deles.
A mãe quer afastá-los aos poucos do seu convívio.
— E a menina? Tem alguma família interessada nela? -— perguntou Elisa.
— Não tinha até terça-feira.
Pensei em conversar com Estela e Mariano para trazê-la para cá.
As crianças não serão adoptadas, ficarão sob guarda, mas poderão ser adoptadas depois de um tempo.
Esta mãezinha não queria, não quer, os filhos num orfanato ou num abrigo; deseja, para eles, um lar.
— Ai, meu Deus! -— exclamou Elisa.
— O que faço? Quero a menina!
Será que receberei essa graça?
"Que coisa!" pensou Estela.
"Realmente, quando fazemos o bem, recebemos mesmo muito mais.
Sinto que Marcelo resolverá um problema, e Elisa está para receber uma graça.
Tomara que dê certo de ela ficar com a menina.
Vieram ajudar e estão sendo auxiliados!"
— Se você quiser, Elisa -— ofereceu Epaminondas —- posso pedir para José Elídio levá-la na vila.
Conhecerá a família, a menininha, ficará a par da situação e, se houver interesse, passe o dia lá.
Na vila tem um bar que serve refeições:
almoce e marque uma data para voltar.
— Quero ir! Não vou incomodar?
— Não -— respondeu gentilmente o proprietário do sítio.
— José Elídio a levará, dirá a essa mãe que você é minha conhecida e boa pessoa.
— Vou me arrumar para ir.
Elisa estava eufórica, saiu da sala e foi para seu quarto.
— Convido-os a passear -— falou Epaminondas —- vou levá-los para conhecer a cidade e, depois, a fazenda.
Minha sobrinha, as crianças irão connosco.
Estela entendeu que, além de não caber na camionete, ela deveria ficar e ajudar no preparo do almoço.
Os hóspedes foram aos quartos se arrumar.
Estela viu o tio conversando na área com José Elídio, que enxugava lágrimas do rosto.
Logo após, Epaminondas entrou na sala de jantar, onde a sobrinha estava arrumando a mesa.
— Contei a ele -— falou o dono da casa, -— disse que nossas visitas são pessoas espíritas que vieram aqui nos ajudar a resolver os problemas das manifestações e que eles viram, ao lado dele, uma moça desencarnada, que foi convidada a comunicar na reunião que fizemos; que a ex-namorada estava perto dele pelo juramento que fizera e porque se sentia culpada.
Disse-lhe também que esta moça teve outro envolvimento e, ao ficar grávida, não sabia quem era o pai e que este homem lhe deu o dinheiro para fazer o aborto.
— Zé não quis saber quem era o outro? -— perguntou Estela.
— Sim, quis; ele perguntou, e eu falei o que me foi recomendado, que era para esquecer o passado, para se sentir livre da culpa e que não tinha motivos para sentir remorso.
Ele, como eu, sentiu-se aliviado.
Afirmou que quer esquecer o passado.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 11:40 am

— Com certeza, esquecerá.
Tantos anos se passaram! -— exclamou Estela.
— Vou com as visitas à cidade -— explicou o tio.
— Depois, aos pastos, e, após o almoço, se eles quiserem, os levarei à montanha, iremos até onde se pode ir de veículo.
Estou ansioso para a reunião da noite; espero que seja, também, proveitosa.
— Espero que o Coisa Ruim seja orientado e que vá embora.
Elisa voltou à sala com a bolsa e arrumada.
— Quero que a garotinha me ache bonita!
Epaminondas explicou ao empregado o que deveria ser feito e lhe deu dinheiro.
— Se ficarem na vila, almocem no bar.
Explique a essa mãe tudo o que recomendei.
Os dois foram de carro.
Elisa estava ansiosa.
O grupo se reuniu na área e, a convite do dono do sítio, acomodaram-se na camionete e foram à cidade.
Isabela foi no colo de Marta.
A garota dava um jeitinho e se aconchegava a ela, instintivamente pedindo protecção.
Estela foi aos quartos, organizou-os, abriu as janelas, deu uma limpada nos banheiros.
Ao entrar no quarto dos filhos, viu a boneca numa cadeira.
Pegou-a com as roupinhas e a levou para o quarto em que guardavam várias coisas, abriu o armário e, vendo que numa prateleira tinha lugar, a colocou.
"Ficará guardada por uns tempos", determinou.
Foi à cozinha e encontrou Josemar e Silmara conversando, elas falavam das visitas.
Estela aproveitou e contou o porquê de eles estarem ali.
— Conheci dona Marta anos atrás, quando Isabela começou a ver um desencarnado, isto é, um espírito; era de um homem que, quando encarnado, morou na casa em que estávamos residindo.
Uma vizinha me levou ao centro espírita, e este homem desencarnado foi levado para um socorro, foi ajudado, e Isabela ficou boa, não viu mais este espírito.
Percebi, logo que chegamos no sítio, que havia aqui seres do Além desorientados.
Lembrei de dona Marta e contei ao titio, que me pediu para convidá-los e rogar por auxílio.
Eles vieram e, ontem à noite, nos reunimos no escritório.
Elisa e Marcelo são médiuns e, por meio deles, dona Marta conversou com alguns desencarnados que aqui estavam e com alguns que vinham aqui.
Eles foram orientados e foram levados para locais próprios, onde receberão a ajuda de que necessitam e não voltarão mais.
Esta noite nos reuniremos novamente para orientar os outros.
O sítio, a casa e nós ficaremos livres destas manifestações físicas.
— Das assombrações? -— perguntou Silmara.
— Sim, eles são desencarnados, estão vivos sem o corpo físico -— respondeu Estela.
— Isto é muito bom! -— exclamou Silmara.
— Desconfiei -— falou Josemar -— que alguma coisa estava acontecendo.
Simpatizei com as visitas e fiquei curiosa para saber quem eram elas.
Gostei de saber que são pessoas espíritas.
Espero que dê certo.
Penso que já deu, a casa está em paz.
O que você acha disto, Silmara?
— Eu?! Espero também que dê certo.
A senhora não ficou com medo de escutar os espíritos se comunicando?
— Não fiquei -— respondeu Estela.
— Nós todos temos problemas, passamos por dificuldades, temos nossas histórias, e os desencarnados também os tem.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 11:40 am

Temos, todos nós, nos dois planos, de resolver nossos problemas.
O que senti ontem, escutando-os, é que eles estavam desorientados, necessitados de auxílio e esclarecimentos.
— Folgamos -— informou Josemar -— no sábado à tarde, nos domingos e feriados.
Como o senhor Epaminondas nos pediu, por ter visitas, não vamos folgar, tiraremos nossa folga outro dia.
E, se a situação das assombrações for resolvida, valeu a pena ficar sem folga.
Foram fazer o almoço
Epaminondas saiu com os hóspedes e as crianças, foram à cidade, pararam na praça, desceram e tomaram sorvetes.
Conheceram a cidade, voltaram para o sítio, foram ao pasto e passearam pelo local.
Voltaram à casa e foram almoçar; depois, descansar.
As crianças ficaram por ali esperando-os.
— Você está bem, filha? -— perguntou a mãe, que ainda estava preocupada.
— Estou! Muito!
Não queria que dona Marta fosse embora.
— Meu bem, dona Marta não pode ficar.
Mas não se preocupe, ela vai levar Mimi embora.
— O Coisa Ruim também?
— Sim, aqui não ficará nenhum espírito -— afirmou a mãe.
"Tomara mesmo que isso aconteça", pensou Estela.
À tarde, o dono da casa e as visitas foram passear de camionete na montanha.
O casal ficou conversando na área.
— Você acredita mesmo que tudo se resolverá? -— perguntou Mariano.
— Estou confiante -— respondeu Estela.
— Quero muito que isto ocorra.
Gosto daqui, e não temos, no momento, como alugar e montar uma casa.
Meu bem, qual dos quatro você acha que devo pedir o favor de levar para mim o pagamento ao locatário?
Vendi bem este mês, ia receber a comissão junto do pagamento.
Pedi ao senhor Joaquim um adiantamento, um vale, e ele me deu.
Será que Marcelo fará isto por mim?
— Não devemos mais nada ao dono da casa que moramos.
Titio mandou o Zé pagar.
E ele cobrou mais do que devíamos.
— Tio Bino fez isto? Vou pagá-lo.
Mas, tenho somente a quantia que devia.
— Espere as visitas irem embora e aí converse com titio.
Estela foi ajudar Josemar e Silmara a preparar o chá da tarde, o jantar seria uma sopa.
Também foi organizar o almoço do outro dia, do domingo.
Epaminondas tinha realmente prazer em mostrar o morro.
Foi dirigindo devagar o veículo e explicando as paisagens que viam.
— Daqui dá para ver a nascente; quilómetros adiante, esse filete d'água desagua num rio maior.
Aquelas árvores crescerão mais ainda.
Vejam que interessante o formato daquela pedra.
— Parece um sapo! -— exclamou Felipe.
— Foi uma bruxa que transformou um sapo em pedra.
Pássaros fazem ninhos nessas árvores.
Titio e eu vimos, outro dia, um macaco bem ali.
— Agora teremos de voltar, aqui termina a estrada, existe somente uma trilha para ir ao topo.
— Podemos descer e andar um pouquinho? -— pediu Juarez.
— Claro! -— concordou Epaminondas.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 12:04 pm

Desceram da camionete e andaram pelas trilhas.
Admiraram as plantas, as árvores, os pássaros e uns animais silvestres.
— Esses animais, embora ariscos, não fogem das pessoas; como não faço mal a eles e não deixo que façam, os bichinhos não sentem medo de nós, humanos -— explicou o dono das terras.
Gostaram do passeio, voltaram entusiasmados com o que viram.
Quando a camionete parou em frente ao jardim, Estela e Mariano foram recebê-los.
Marta, Juarez e Epaminondas conversavam animados sobre plantas.
Marcelo ficou ao lado do veículo.
Isabela e a mãe foram conversar com ele.
— Admirando o jardim? -— perguntou Estela.
— Sinto-o diferente —- respondeu Marcelo —- parece que antigamente tinha mais árvores.
Agora tem mais plantas floridas. A capela...
— Era ali! -— mostrou Isabela.
— Não tem nem sinal porque foi realmente desmanchando; fizeram, em cima, aquele canteiro de azaleia.
— Como sabe o nome da planta? -— perguntou a mãe.
— O Zé que me disse -— respondeu a garota.
— Você se lembra da capela? -— indagou Marcelo.
— Não! Foi a Mimi que me falou.
Quando chegamos aqui, a vi sentada ali na mureta da árvore seca.
Ela me chamou e falou:
"Que bom que me vê! Seremos amigas!
Não fique com medo, sou boazinha.
Olhe! Ali, naquele canteiro, havia uma capela; eu ia rezar lá, agora o faço aqui.
Deste lado, havia um muro.
Este, gostei que derrubaram".
Ela afirmou que era boazinha; no começo, até foi.
Depois, Mimi queria ser minha mãe, ameaçava-me o tempo todo e me dava cansaço.
Estela apertou a mão da filha.
— Ai, mãe!
A mãe largou a mão da menina, que correu para perto de Marta.
— Meu Deus! -— exclamou Marcelo.
— Que mediunidade tem essa menina!
— Agora não descuido mais.
Vou frequentar o centro espírita, trabalhar com minha mediunidade e levá-la toda semana para tomar passe.
— Faça isso, não a deixe sofrer com as manifestações que podem ocorrer com vocês.
Isabela tem mediunidade em potencial.
— Foi algum desencarnado que lhe contou da capela e do muro? -— Estela quis saber.
— Não, são lembranças minhas.
Tudo explicado pela lei da reencarnação.
Não estou entendendo ainda o que está acontecendo comigo.
Talvez, no passado, em uma das minhas encarnações, tenha conhecido este lugar, a montanha, o pasto e o espaço do fundo da casa.
— Talvez a reunião de hoje o esclareça -— falou Estela.
— Tomara! -— exclamou Marcelo esperançoso.
— Quem sabe não resolvo o que ficou pendente?
Porque sinto isto, que ficou, no passado, alguma coisa que não foi resolvida.
Marta os chamou:
— Observem que lindo!
O sol está se escondendo atrás do morro!
— Montanha! -— corrigiu Felipe.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 12:05 pm

— Ah, sim! Da montanha! -— exclamou Juarez.
Todos admiraram a beleza do momento.
O sol, devagar, sem pressa, descia no horizonte e se escondia atrás do morro sombreando a casa, o local.
Era de facto um espectáculo muito bonito.
Como Elisa e José Elídio não voltaram para o almoço, eles concluíram que estava dando certo o encontro.
Quando viram o carro chegando, aguardaram ansiosos.
Elisa desceu, correu para Marta e a abraçou.
- Acho que deu certo!
Deus me deu uma filha!
Vendo todos atentos, contou:
— Chegamos à vila e fomos à casa de Dirce, a mãe das crianças.
Ela não está bem, sente muitas dores e se esforça para não gemer.
Conheci as crianças, são lindas.
Os meninos vão mesmo ficar com duas famílias da vila; são dois irmãos que têm somente filhas.
Os garotos têm ficado muito com estas famílias e gostam deles.
Não tinha ninguém ainda interessado na menina.
Ela se chama Juliana; será, se Deus quiser, a minha Juju.
Ela é tão meiga, parece um pouco comigo.
Simpatizamos uma com a outra assim que nos vimos.
Ela foi para o meu colo e ficou quietinha, aconchegada no meu peito.
Depois do almoço, fiquei a sós com Dirce e conversamos.
Disse a ela da minha vontade de ser mãe, que podia confiar em mim, que seria boa para Juliana, a educaria e lhe daria amor.
Sabem o que Dirce me respondeu?
Foi maravilhoso o que escutei.
Elisa fez uma pausa, todos estavam curiosos; ela suspirou e continuou contando:
— A mãezinha enferma falou:
"Sonhei, há duas noites, com Sílvio, meu marido, que me disse:
'Dirce, nossos filhos ficarão bem.
Deus está nos dando a graça de deixá-los encaminhados.
Nossa menina terá uma mãe, uma verdadeira mãe.
Podemos nos despreocupar.
Esta senhora está chegando.
Por laços afectivos, Juliana se parece com ela.
Você, ao vê-la, entenderá e poderá dar nossa filha a esta moça'".
Dirce estava ofegante, não tem forças para se levantar da cama.
Abracei-a. Nós duas choramos por minutos, emocionadas.
Eu prometi:
"Por Deus, vou cuidar de sua filha!"
Nossa filha!", exclamou Dirce.
Planeei rápido o que queria fazer.
Saí da casa, fui a um orelhão, liguei para o meu trabalho e pedi para sair de férias, tenho uma vencida.
Combinei de sair na quarta-feira.
Depois, liguei para meu irmão, contei a ele o que acontecia, e ele se propôs a me trazer na quarta-feira e me buscar no domingo.
Vou ficar numa pousada na vila.
Quero, nesses dias, que Juliana se acostume comigo, goste de mim, porque eu já a amo.
Dirce assinará um documento que um advogado fará me dando a tutela da menina.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 12:05 pm

No domingo, iremos para casa.
Segunda e terça-feira desta semana vou organizar meu lar para recebê-la.
Tenho dinheiro guardado e vou usá-lo para comprar cama, brinquedos e muitas roupas para alegrá-la.
Moro sozinha, minha casa é ao lado da de minha mãe.
Se estou triste por ver o sofrimento de Dirce, estou contente por ser mãe, ter uma filhinha.
Todos se alegraram e desejaram que tudo desse certo.
— Vamos tomar banho para jantar -— determinou Juarez.
Estela ajudou os filhos a se banharem e, após, reuniu-se com os outros na sala de estar.
Felipe foi ver televisão, e os adultos conversaram sobre a cidade e as plantas.
A esposa de Mariano fechou as janelas dos quartos.
Escurecia, a noite sem lua proporcionava mais um espectáculo, o céu estava salpicado de estrelas.
O grupo, antes de ir para a sala de refeições, foi à área para admirar a beleza nocturna.
— Vamos ao jardim para ver melhor o céu -— convidou o dono da casa.
Por minutos, ficaram calados, admirando as estrelas.
— Cada estrela é um sol! -— exclamou Juarez.
— Que deve ter planetas em sua órbita.
Há muitas moradas na casa do Pai!
Muitos mundos habitados, como nos esclareceu Allan Kardec.
Tudo o que Deus faz é maravilhoso!
Todos concordaram.
O grupo ia se dirigir à área para entrar na casa quando escutaram um barulho de objectos caindo.
— Meu Deus! -— exclamou Estela.
— O que é isso?
"Serão as assombrações novamente?
Os desencarnados?", pensou Epaminondas.
— Vamos ver o que aconteceu.
O barulho veio da sala de jantar -— Marta estava tranquila.
Entrou na casa e se dirigiu à sala de refeições, o grupo veio atrás.
Encontraram Josemar de joelhos catando cacos no chão.
A empregada, ao vê-los, explicou:
— Deixei cair a bandeja com os copos. Quebraram cinco.
— Não faz mal! -— Epaminondas suspirou aliviado.
— Pensei que fosse o Coisa Ruim -— falou Isabela.
— Não, meu bem, não foi -— afirmou Marta.
— Não chame mais esse desencarnado dessa forma.
Não vamos nem mais falar dele.
Como viu, o barulho que ouvimos teve explicação.
— Josemar escorregou e deixou cair a bandeja -— Isabela riu.
— Muitos barulhos têm explicações -— comentou Juarez.
— Uma vez, era solteiro, fui a uma festa e cheguei de madrugada em casa.
Para guardar o carro, tinha de passar pelo quintal da residência.
Estava alegre, a festa tinha sido agradável; de repente, vi uma sombra na parede da casa, algo muito estranho.
Parei, senti-me gelar.
A sombra movia-se, parecia o abrir e fechar de asas enormes.
Pedi socorro a Deus e tentei rezar, mas não consegui sair do lugar.
Virei a cabeça devagarinho e vi, em cima do muro, um galo que fugira do galinheiro.
Ele abria e fechava as asas.
Uma luz do quintal do vizinho estava acesa e iluminava a ave, fazendo com que sua sombra fosse projectada na parede.
Fiquei aliviado e fui dormir.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 12:05 pm

Conclusão: manifestações físicas existem, mas, antes de julgar o que são, devemos verificar e, sem medo, o porquê do barulho, das visões que temos.
Muitas vezes eles têm explicação, como um galo no muro, uma bandeja que caiu...
E as manifestações físicas que ocorreram aqui, com certeza, não irão ocorrer mais.
Ajudando os desencarnados, resolveremos a questão.
— Tudo simples! -— exclamou Marcelo.
— Vamos jantar — convidou o dono da casa.
Jantaram. Marcelo se esforçava para parecer tranquilo, mas estava inquieto; Marta olhava para ele e sorria, tentando tranquilizá-lo.
Depois do jantar, ficaram um pouquinho na sala de televisão.
Estela ajudou Josemar.
— Vamos deixar a mesa preparada para o chá — determinou Estela.
Voltou à sala, o grupo se levantou e se despediram de Mariano e das crianças.
— Mariano — pediu à sua esposa, — feche as portas da área da frente e a do fundo para mim.
A mãe beijou os filhos, e os seis se dirigiram ao escritório.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 12:06 pm

12. Os antigos proprietários da casa

Acomodaram-se como na noite anterior.
Marcelo abriu o Evangelho segundo o espiritismo e leu do capítulo 8, "Bem aventurados os puros de coração" itens 20 e 21, "Bem aventurados aqueles que têm os olhos fechados"
(Vianriey, Cura de Ars-Paris, 1863). (1)
O texto que chamou a atenção de Estela foi:
"Meu pai, curai-me, mas fazei com que minha alma doente seja curada antes das enfermidades do meu corpo".
Mas o que ela achou muito apropriado, naquele momento, para os envolvidos, foi:
"Quando uma aflição não é consequência dos actos da vida presente, é preciso procurar a sua causa em uma anterior.
O que chamamos..."
Quando Marcelo terminou a leitura, fez a oração.
— Deus, permita que os bons espíritos estejam connosco nesta reunião e que possamos ajudar os desencarnados que aqui estão e que eles recebam nosso carinho e orientação.
Apagaram a luz e ficou somente um abajur aceso.
Ficaram em silêncio, até que Marcelo falou, repetindo o que um espírito falava.
— Não sei de nada! Não fiz nada! -— exclamou a desencarnada.
— Por que estou aqui?
Vejo, nesta sala, uns como eu, vivos sem o corpo de carne e ossos, e outros como eu fui.
Minha filha me disse, assim que acordei e vi estes estranhos na casa:
"Mãe, como certeza, eles irão nos levar ao escritório, e basta a senhora ficar perto de uma pessoa, que eles chamam de 'encarnado', e eles se referem a nós como 'desencarnados', para falar e um deles repetir.
É um fenómeno muito interessante."
Não acreditei, e nós três viemos para cá.
Vejo o velho, isto é, o actual proprietário deste lugar com a sobrinha e as visitas.
De facto, me colocaram perto deste moço, parece que o conheço, eu falo e ele repete como um bobo.
Vocês podem me explicar o que está acontecendo aqui?
— Existem -— respondeu Marta -— pessoas que têm mais sensibilidade, nós as chamamos de médiuns, são pessoas que conseguem ver, ouvir aqueles que já fizeram suas passagens de plano, que são vocês.
Eles aprenderam e passaram a fazer parte destas comunicações para ajudar os desencarnados a receber orientações.
— Acho que não entendi.
Parece complicado.
O que importa é que falo e todos escutam.
Mas por que estou aqui?
— Você não está cansada de viver assim?
Não deseja viver de modo diferente? -— perguntou Marta.
— Existe outra forma de viver? Como?
Já me desiludi com a morte.
Meu corpo físico morreu e demorei para entender.
Fiquei aqui e continuei vivendo.
Como ir para outro local?
Não vi Deus na hora da morte, não fui para o céu nem para o inferno.
— Podemos ir para muitos lugares quando mudamos de plano, uns são feios e outros, muito bonitos.
O bom é aprender a viver no plano espiritual, como esses desencarnados que está vendo aqui connosco.
— É verdade que nascemos muitas vezes?
Estou curiosa para saber se isto é verdade —- falou a desencarnada através da psicofonia.
— Sim, é — respondeu a orientadora.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 12:06 pm

— Você agora está como desencarnada, poderá voltar a um outro corpo físico, esquecer de tudo e recomeçar.
— Serei outra pessoa?
Posso ser homem?
— Sim, você pode pedir, e isto poderá ocorrer.
— Isso é bom! -— exclamou o espírito que estava sendo orientado.
— Quero fazer isso!
Esquecer será maravilhoso!
Minha vida, desta vez, não foi fácil.
Tenho notado que muitas coisas mudaram.
Ser mulher antigamente era sofrido.
Hoje a vida delas está melhor.
Fui criada com muita severidade.
Meu pai e meu sogro combinaram meu casamento.
Não gostei do noivo nem ele de mim.
Meu marido me disse que eu era feia e o achei grosseirão.
Não foi um casamento fácil.
Tivemos filhos, sempre fui tratada como um objecto e não podia ter opinião.
Meu esposo, aquele ali, está me ouvindo e, se fosse possível, ao me escutar falando isto, já teria me batido.
— Você sempre foi vítima? -— perguntou Marta.
— Certamente sim.
Por que duvida? O que sabe?
— Se você não tivesse feito nada de errado e perdoado, não estaria vivendo como está.
Teria, ao ter desencarnado, sido auxiliada e não estaria aqui vagando.
— Não sei sair daqui; depois, ele não quer que eu me afaste.
Creio que não tenho para onde ir.
Do meu modo e como posso, cuido deles, do esposo e da filha.
Meus filhos homens, assim que ficaram adultos, se mudaram, não vieram mais aqui, não gostavam do lugar.
Eu gostava dos meninos; depois que eles foram ingratos, não liguei mais para eles.
Meus filhos também desencarnaram, um deles veio aqui, conversou connosco, mais comigo, tentou me levar daqui.
Não quis ir com ele.
Como poderia ir para um lugar que não conheço e deixar os dois aqui?
Minha filha me acusa de muitas coisas, diz que não a defendi.
Mas como poderia defendê-la se não conseguia nem me defender?
Ela não via as surras que levava e sem motivo.
Imagina se tivesse motivo.
— Você não sente remorso?
Não fez nada que sua consciência a acuse?
— Sentir, sinto.
Mas o que importa se sinto ou não remorso?
Sou uma coitada! -— a desencarnada respondeu com tom de lamento.
— Você se lembra da moça que trabalhava como empregada na sua casa e que foi acusada de ter roubado uma de suas jóias?
O que você fez por ela?
— Não quero falar desse assunto.
— Se não contar, falo eu. (2)
— Eles não sabem! -— exclamou a senhora pela psicofonia, referindo-se ao marido e à filha, que estavam presentes, tendo, ao lado, trabalhadores da equipe.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 12:06 pm

— Acredito, senhora -— disse Marta —- que já é tempo de não ter mais segredos, de se livrar da culpa, de pedir perdão, perdoar e se libertar.
Vocês três, depois desta noite, se separarão, serão bem tratados, cuidados em locais próprios para desencarnados, mas distantes uns dos outros.
— Você me garante que ele não irá mais me bater? -— a desencarnada sentia medo.
— Garanto, ele não irá maltratá-la.
— Tive de me defender.
Ele sempre teve amantes, mas nunca dentro de casa.
Percebi seu interesse pela moça, sentia que ela ia acabar cedendo.
Mandei Juquinha esconder meu colar na casa desta empregada.
Acusei-a. Pensei que meu marido ia somente expulsá-los.
Juquinha era uma menina deficiente mental que ficava na casa e fazia alguns serviços.
Pare! Não a deixe falar - A comunicante se referia à filha, que se intrometeu no relato.
- Está bem, conto! Eu batia muito em Juquinha.
Ela não entendia minhas ordens, isto me enervava.
Penso agora que descontava nela minha raiva, eu apanhava, e eles tinham também de ser castigados.
Batia em Juquinha, em algumas das empregadas e também nos filhos.
Não fui boa mãe, surrava os meninos por qualquer motivo e não os defendia do pai.
Nesta filha, a única mulher que tive, batia pouco.
Porém, lhe fiz uma grande maldade.
Sempre neguei, mas fui eu quem contou ao seu pai que ia fugir com o namorado.
Não queria que se casasse com um simples agricultor.
Queria um marido rico para ela.
Não se intrometa!
Por que não fica como seu pai, calada?!
Novamente se referiu à filha.
— Você me perguntou o que fiz de errado?
A não ser isto, só uns abortos.
Sofria muito nos partos.
Já tinha três filhos homens e depois tive uma menina, essa aí, feia como o pai.
— Com certeza, fez também actos bondosos, não é? -— perguntou Marta.
— Como?!
— Deu esmolas, ajudou pessoas, aconselhou?
— Devo ter feito, não me lembro.
Pare de se intrometer, filha!
Está bem, respondo: não fiz.
Mimi teve de ser repreendida.
Marta lhe pediu:
— Por favor, a senhorita fique calada.
Terá oportunidade de falar.
— A doutrinadora voltou a se dirigir à comunicante:
— Senhora, quando temos a oportunidade de fazer o bem e não fazemos, deixamos de fazer a nós mesmos.
Com certeza, poderia ter convivido melhor com seu marido e com sua família.
Poderia ter sido amiga de seus filhos, e eles a amariam.
Deveria ter sido boa patroa, ajudado os que sofriam.
Porém, o passado passou, é o presente que importa.
Estamos lhe oferecendo ajuda para ir embora daqui e recomeçar, aprender a viver com dignidade.
— Reencarnarei?
Quero recomeçar voltando ao corpo de carne.
Por favor! -— pediu a desencarnada que estava sendo orientada.
— Isto ocorrerá.
Acontece com todos nós.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 12:06 pm

— Vou pedir para nascer num corpo masculino. Serei homem!
— Quer ir embora connosco?
— Quero! -— a orientada suspirou.
— Então diga "adeus" a eles porque irá agora.
— Adeus! Perdoe-me, filha!
Vou com eles, não volto mais, e talvez não mais nos veremos.
Marcelo calou-se.
A desencarnada que fora orientada foi levada para um posto de socorro.
O orientador espiritual da equipe decidiu que eles, por um período, não se encontrariam, seriam levados para locais diferentes.
Aproximaram o ex-proprietário do local a Elisa.
— Boa noite! -— cumprimentou Marta.
— Boa noite!
Perguntou:
-— Sou obrigado a participar deste espectáculo grosseiro?
Sei que morri! Gosto de assustar.
Para mim, está tudo bem.
- Não - respondeu Marta.
Não é obrigado a nada.
Tem seu livre-arbítrio.
Faz o que quer e pode receber o que não quer.
Todos nós temos deveres e direitos.
Porém, nossos direitos não podem invadir o direito alheio.
Você foi administrador destas terras no período que viveu encarnado.
Seu corpo físico faleceu, você continuou vivo, e somente o acompanharam nesta mudança, seus actos.
O que é matéria mudou de administrador.
— Vi, com desgosto, meus filhos dividirem a fazenda e vendê-la aos pedaços.
Ingratos! Você errou, não fui administrador, mas dono!
— Nosso é somente aquilo que podemos levar quando mudamos de plano, nossos actos, nossas acções; se boas, receberemos o bem; se não forem, teremos a dor por aprendizado.
— Desencarnei e fui levado para um local muito feio e ruim.
Uns espíritos ignorantes me batiam e me humilhavam.
Um dia tudo mudou, não os vi mais e fugi; vim, sem entender, para esta casa.
O Fantasma da Lua Cheia diz que foi ele quem me trouxe para cá.
Este lugar foi meu e continuarei aqui.
Era melhor quando não morava ninguém.
Teve moradores que tive de expulsar.
Aprendi a assombrar, a fazer os barulhos e a jogar objectos.
Um espírito me ensinou.
Pego energia da natureza, fluido de encarnados, daqueles que têm em abundância, e, pela minha vontade, faço.
Divirto-me bastante.
Quando vim para cá, encontrei minha mulher e minha filha, ambas chatas e sem graça, e que, como eu, tinham falecido.
Você não vai interferir! Cale a boca!
— Mimi tinha interferido e pediram para que ficasse calada.
— Elas tinham desencarnado, como vocês falam, e ficamos aqui.
Tem o incómodo do meu ex-empregado vir me bater todos os meses.
Mas fazer o quê? Ele é mais forte.
Não quero voltar para aquele lugar feio, o Umbral.
Não tenho como me esconder dele, o sujeito me encontra.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 12:06 pm

Depois, não posso deixar que as duas, esposa e filha, sejam chicoteadas no meu lugar.
Dói, mas passa logo.
Tenho esperança de que ele se canse.
— O senhor não está cansado dessa sua maneira de viver? -— perguntou Marta.
— Não. Conheci lugares ruins.
Aqui não está bom, mas poderia ser pior.
— Não quer conhecer lugares melhores?
— Melhor para quem? -— o desencarnado riu.
— O que é bom para você com certeza não é para mim.
Não gosto de lugares onde se fica somente orando.
Acho monótono falar de Jesus.
Detesto receber ordens.
— Penso que divergimos.
Não gosto de ser surrada, de não ter ninguém para me amar e com quem contar.
Também não aprecio atormentar.
No lugar que estou lhe propondo conhecer, fala-se, sim, de Jesus, de seus ensinamentos, mas em horas marcadas; estuda-se o Evangelho, mas trabalha-se; aprende-se muitas coisas; são locais limpos; têm disciplina para ter ordem.
Não sentirá mais dores, e a esperança fará você acreditar em dias melhores.
— Poderei também reencarnar?
Esta ideia me atrai, viver no corpo carnal é muito agradável.
— Poderá fazer o pedido -— respondeu Marta.
— Já ouvi que todos temos direito de reencarnar e serei atendido.
Estou agora com vontade de assustá-los, estão tão tranquilos!
Com certeza se surpreenderiam escutando minha vida.
Não querem saber o que fiz?
— Quer contar?
Se quiser, podemos ouvi-lo, mas não nos assustaremos -— respondeu Marta.
— Podem ter certeza de que não escutarão coisas boas -— o comunicante riu novamente.
— Meu pai era muito severo.
Gostava de uma moça e fui obrigado a casar com outra.
Não fui feliz.
Trabalhei muito, foi uma das minhas qualidades.
Tive mesmo muitas amantes.
— Se não quiser, não precisa contar -— interferiu Marta.
— Agora estou com vontade de falar e vou fazê-lo.
Fiz muitas coisas e recebi boa parte delas de volta.
Fiquei revoltado pelo meu pai ter feito meu casamento e, ainda mais, ao saber que minha amada se casara e fora residir longe daqui.
Papai ficou doente, confiou a mim barras de ouro e prata e me pediu que, quando morresse, repartisse esta fortuna com meus irmãos.
Como ele estava demorando para morrer, troquei seus remédios por água.
Ele desencarnou com muito sofrimento.
Fiquei com as barras para mim e tentei ficar com as melhores terras.
Depois de muitas brigas, dividimos as fazendas, deixando minha mãe sem nada.
Nunca mais conversei com meus irmãos e vi minha mãe somente por duas vezes depois deste desentendimento.
Ela foi morar com uma de minhas irmãs, as mulheres foram as mais prejudicadas na partilha.
Houve brigas também pela herança de minha mulher.
Ameacei, briguei, e ela recebeu a herança de seu pai.
Fiquei rico, tivemos quatro filhos:
três homens e aquela ali -— mostrou onde Mimi estava.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 12:07 pm

— Meu filho mais velho não acatava minhas ordens, recusou-se a casar com a filha de um conhecido.
Saiu de casa, foi para uma cidade longe, penso que escreveu para os dois irmãos pedindo para eles irem para a cidade ficar com ele.
O segundo filho me roubou, pegou todo o meu ouro, prata, jóias da mãe, dinheiro que tinha guardado em casa, e fugiram.
Não fui atrás deles por dois motivos.
Não queria que as pessoas, parentes e conhecidos, soubessem que meus filhos me roubaram, haveria muitos comentários e seria ridicularizado.
Depois, não sabia onde estavam.
Eles não deram notícias.
Morri e depois a filha, ficando somente minha mulher na casa.
Um dos meus filhos veio aqui para saber se a mãe precisava de alguma coisa.
Ela o tratou mal, e ele foi embora.
Anos depois, voltou desencarnado, e não o aceitamos, enxotei-o.
Sei que eles se deram bem, com o que me roubaram abriram um armazém de cereais, casaram e tiveram filhos.
Meus filhos queixavam-se muito da mãe, que lhes batia e os castigava.
Não gostavam de mim nem dela.
Não sabia que as duas, esposa e filha, maltratavam Juquinha, a Maria José.
Ela era minha filha!
O desencarnado comunicante fez uma pausa e voltou a falar:
— Não vou mais olhar para essa mulher, minha filha faz cara de espanto.
Não sei por que me chama de Coisa Ruim.
Quanto a juquinha, aconteceu que tive um envolvimento com uma empregada.
Penso que gostei dela, do meu jeito.
Ela engravidou e, a meu mando, disse a todos que o pai era um empregado da fazenda vizinha que sumira.
Todos pensaram que fui caridoso deixando a empregada e a filha trabalhando na casa.
A menina nasceu deficiente.
A mãe morreu, e Juquinha ficou connosco.
Cuidei dela, não permiti que ninguém abusasse sexualmente da menina, ela tinha um quarto, alimentos e roupas.
Não sabia que era maltratada.
Minha mulher nem imaginava que aquele ser feio era minha filha; se soubesse, coitada dela.
Encarnado, não conseguia entender o porquê de Juquinha ter nascido órfã e doente.
Agora volto a me perguntar:
Por que ela foi tão maltratada?
— Deus é justo, e tudo o que faz é perfeito -— Marta tentou esclarecê-lo.
— Quando não conseguimos explicar o porquê do sofrimento nesta existência, podemos compreender que foi uma reacção do passado, de uma outra encarnação.
— Fez e paga? -— perguntou o desencarnado através da médium Elisa.
— Sim.
— Xi! Minha mulher quer reencarnar para esquecer e certamente o fará, porque, pelo que escutei, todos voltam a fazê-lo.
Se fez, paga, ela, com certeza, sofrerá as consequências de suas maldades.
Eu também! Pensando melhor, a reencarnação já não me atrai.
Juquinha certamente sofreu o que fez anteriormente outros sofrerem.
Estou me lembrando que ela me lembrava minha avó paterna, que era muito enérgica com as escravas da casa.
Na época não entendia o porquê de lembrar de vovó algumas vezes em que via Juquinha.
Talvez as duas sejam um mesmo espírito.
— Pode ser que sua avó tenha reencarnado e recebido o nome de Maria José.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 11:28 am

— Pagou o que fez! -— exclamou o desencarnado.
— Aprendeu pela dor a respeitar as pessoas.
O sofrimento ensina; a quem não aprende pelo amor, fazendo o bem, a dor tenta alertar para ser melhor.
Juquinha certamente teve uma existência difícil, desencarnou e foi socorrida, porque não ficou vagando e, para ter sido auxiliada, não guardou mágoa e perdoou.
— Estou curioso para entender um facto.
Juquinha colocou a jóia na casa da empregada.
Ela errou?
— Como deficiente, não conseguia entender que aquele ato estava errado.
Obedecia por medo.
Se não fizesse, era surrada.
— Ela também não fez o bem.
Acho que não fez nenhuma caridade.
Por que foi socorrida?
— Você pensa que a caridade é somente dar objectos materiais? -— perguntou Marta.
- Penso, sim.
Juquinha não fez, não tinha nada a dar a alguém.
Não tinha nem para ela.
— Com certeza -— falou Marta, orientada pelo mentor do grupo -— essa garota teve uma reencarnação de resgate e deve ter aprendido muito pela dor.
Não se queixava e perdoou.
Perdoando, fez bem a si mesma e àqueles que a maltrataram.
Fez caridade, sim, amou a todos da casa.
Sei, por informação, que foi castigada muitas vezes no lugar de outras empregadas.
Em algumas, foi acusada injustamente, mas não delatou; em outras, assumiu a culpa para que uma grávida não fosse dispensada ou a mais idosa.
Juquinha consolou companheiras quando estavam tristes.
Actualmente, este espírito está reencarnado numa família estruturada, estuda, é bonita e muito religiosa.
Você, sabendo disto, entenderá que, mesmo em situação adversa, podemos ser caridosos e recebemos, por actos bons, o retorno.
Você fez o bem?
— Até alguns minutos atrás, julgava que sim -— respondeu o desencarnado.
— Pensava que agira correctamente por não ter ido atrás dos filhos ladrões.
Estou pensando agora que, assim como roubei do meu pai, meus filhos me roubaram.
Impedi esta filha aí de cometer um erro, agora não sei se era ou não um erro.
Achava-me generoso por não ter expulsado minha mulher de casa ou por não tê-la matado, esquecendo-me de que ela também casara obrigada.
Fiz algumas caridades, dei água a viajantes, alguns alimentos.
Paguei missas na igreja e dei esmolas ao padre.
— Tem suas mãos sujas de sangue —- falou Marta.
— Isto é triste!
Por mais que tente limpá-las, vejo-as manchadas de sangue.
Brigava muito com os vizinhos, outros fazendeiros.
Uma vez tive um desentendimento mais sério com um deles.
Este homem prometeu me matar.
Por uns tempos, fiquei mais dentro de casa e contratei mais jagunços.
Seria ele ou eu.
Planeei uma emboscada, sabia que este inimigo ia sempre visitar uma amante, e homens o mataram.
Foi ele com dois de seus filhos que me levaram para o Umbral quando desencarnei.
Fui castigado por este crime.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 11:28 am

Vou embora! Cansei desta conversa.
Não consigo mentir com este espírito me olhando.
Hum! Hum! Por que não consigo sair daqui?
Não consigo me mover!
— Estamos conversando, e nossa conversa não acabou.
Você errou, mas não estamos aqui para julgá-lo, mas, sim, para lhe dizer que é amado por Deus, que quer seu arrependimento.
Aqui viemos para ajudar:
primeiramente, a família encarnada; depois, vocês, os desencarnados.
Afirmo que nem você nem nenhum desencarnado poderá permanecer mais aqui neste sítio.
Mude sua forma de viver, aceite nosso auxílio, o levaremos para um local do qual gostará e aprenderá a ser útil.
Depois de um tempo, se quiser, poderá pedir para reencarnar.
— Voltar a viver num corpo de carne?
Pensei que queria, mas agora estou com medo de receber o retorno de meus actos, talvez tenha um corpo pior do que o da Juquinha.
Esta casa -— elucidou a doutrinadora -— não será mais a mesma, a família modificará as energias deste lugar fazendo o Evangelho no lar e orando.
Frequentarão o centro espírita e, se você voltar aqui, receberá orientação novamente num trabalho de socorro.
Depois, se voltar, não encontrará mais os desencarnados que ficavam aqui, porque todos irão embora.
Quanto mais tempo demorar para se melhorar, mais sofrerá.
— E se não gostar de viver nesse local para onde vocês vão me levar?
— Estará lá como convidado, poderá sair se quiser; porém, não poderá ficar mais aqui.
— Tenho escolha? -— perguntou o antigo proprietário da casa.
De ficar aqui, não!
Venha connosco, gostará do lugar.
— Estou mesmo cansado desta conversa.
Vou conhecer esse local, depois decidirei o que farei!
Não falo mais! Adeus!
De facto, não falou, não respondeu ao cumprimento de boa-noite.
Adormeceram-no novamente, e ele foi levado da casa, do sítio.
Elisa, que, através de sua mediunidade, dera a comunicação, sorriu, demonstrando estar bem.
Mas Marcelo suspirou.
— Você está bem, Marcelo? -— perguntou Marta.
— Sim, estou —- respondeu o médium.
Por segundos, o escritório ficou silencioso.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 11:28 am

1. N. A. E.: Como é importante fazer parte de uma reunião assim!
Médiuns encarnados aprendem muito com estas reuniões, e o maior tesouro que se adquire é que, ao desencarnar, percebem de imediato o que lhes ocorreu.
Por terem feito amigos, estes o socorrem.
Fazer esta mudança de plano com conhecimento é para os que fizeram jus, por merecer.
Os médiuns que participam desta orientação, orientados estão.
Para os desencarnados que vagam, que estão perturbados, receber o socorro de que necessitam é de suma importância.
Que caridade é feita a estes espíritos!
Realmente, é um trabalho de muita benevolência.


2. N. A. E.: Marta doutrinava, tentava elucidar os desencarnados necessitados de auxílio.
O orientador espiritual do grupo a instruía.
Normalmente, antes da reunião, a equipe de trabalhadores do plano espiritual organiza quem irá receber, por uma incorporação, o esclarecimento de que precisa.
Servidores do bem, ao vê-los, sabem o que está ocorrendo com os necessitados, o que lhes aflige e o que desejam.
Em alguns casos, para melhor ajudar, um membro da equipe procura saber quem é e o que fez.
Para esta reunião, um socorro diferenciado, no qual as equipes dos dois planos vieram ao sítio com o intuito de socorrer os envolvidos, procuraram saber o porquê destes desencarnados estarem ali e o que fizeram para estar vagando.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 11:28 am

13. Mimi

Elisa começou a falar novamente, ela repetia o que uma desencarnada falava:
— Sou Mimi. Estou decepcionada!
Muito triste! Ouvi muitos absurdos!
Coisas horrorosas que uma moça não deve escutar!
Mas por que não falo por ele?
Esta mulher falou pelo meu pai.
Impressionante!
Foi fiel na repetição, só não repetiu os nomes feios que ele disse.
Papai me xingou e a vocês.
Acho que vou chorar...
— Não chore -— pediu Marta - aproveite para falar de você, queremos auxiliá-la.
— Que auxílio é este?
Estou achando que estou recebendo uma maldade.
A verdade às vezes dói.
Penso que seria melhor continuar desconhecendo certas coisas.
Vocês fizeram isto de propósito, deixaram que escutasse a todos, para me castigar.
Ouvi factos que não queria e me decepcionei.
Estou sofrendo com estas decepções, como é triste ser enganada!
Começou com a moça que acompanhava o empregado, pensei que éramos amigas, ela não gostava de mim e mentiu.
Agora percebo, por ser ingénua, acreditei no que quis.
Pensava que o aborto dela fora espontâneo, que ela escondera a gravidez por vergonha por ser solteira.
Raciocinando agora, se isto tivesse ocorrido, com certeza essa moça não ficaria como ficou, vagando por aí...
Teve amante, um homem casado! Que absurdo!
Não sabia quem era o pai do filho que esperava!
Ajudei uma pessoa vulgar!
Mimi fez uma pausa, suspirou e continuou seu relato:
— Minha mãe! Com esta, não me decepcionei muito.
Nunca foi carinhosa, surrava muito meus irmãos, também apanhei, mas foi menos.
Ela batia em algumas empregadas que, por não terem para onde ir, recebiam o castigo caladas.
Não gostava de meus pais, não tive motivos para amá-los.
Mamãe era rancorosa, amargurada, pessimista, ria da dor do próximo.
Não a amo e não fui amada.
Meu pai, de facto, é o Coisa Ruim.
Como foi mau!
O que sabia da história do casal de empregados era que ela roubara e que foram expulsos da fazenda.
Não sabia que papai os chicoteara nem que ela morrera por ter sido castigada.
Sabendo o que aconteceu, esse ex-empregado teve motivos para vir aqui e bater nele.
— Ninguém -— interferiu Marta -— tem motivos para se vingar.
Você não escutou que esse empregado recordou que fizera algo parecido na outra vida dele?
O que este homem deveria ter feito era perdoar, como sua esposa perdoou, e cuidar de sua vida.
— Esse negócio de reencarnação é fogo!
Faz e recebe! Que coisa!
Não podemos ser perdoados?
— Sim, somos sempre perdoados quando pedimos perdão.
Porém, a acção está feita e necessita de reparação.
A dor não castiga, ela tenta educar-nos, tenta nos ensinar a ser melhores.
- Se roubo, serei roubada.
É isto? -— perguntou Mimi.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 11:29 am

— Se cometo alguma acção indevida, o certo é compreender que meu acto foi errado, arrepender-me, pedir desculpas, porém fica faltando a reparação.
Oportunidades surgem para que se repare pelo amor; se recusadas, a dor vem ensinar para não repetir a acção maldosa.
Muitas vezes cometemos actos maldosos e ficamos indiferentes à dor que causamos, mas, quando sentimos a mesma dor, temos a oportunidade de entender que não devemos mais provocá-la. Entendeu?
— Como Juquinha? -— perguntou a desencarnada através da mediunidade de Elisa.
— Ela teve uma vida difícil.
Sofreu, muitas vezes a vi chorando, principalmente quando apanhava.
Pelo que entendi, ela desencarnou, foi socorrida e perdoou.
Juquinha sofreu o que fez alguém sofrer.
Será que aprendeu a lição?
— Somente -— elucidou Marta -— podemos dizer que aprendemos a lição quando temos oportunidade de cometer o mesmo acto errado e não o fazemos.
Sim, o que soubemos de Juquinha foi que ela resgatou seus erros, aprendeu para não repeti-los, provou que é capaz de perdoar.
Fez muitas coisas boas no período que esteve no plano espiritual; no momento, está reencarnada, é inteligente e boa pessoa.
— Se eu me encontrar com ela, vou pedir perdão.
Era minha irmã.
Ainda bem que mamãe não soube, porque, se soubesse, a coitadinha teria sofrido muito mais.
Estou com medo de reencarnar.
— Você não tem actos bons para recordar?
— Não sei. Pensei que ajudava a moça que acompanhava o empregado e, pelo visto, não agi certo.
Ela estava se prejudicando e também o Zé.
Desencarnei e fiquei aqui na casa, mamãe também.
Desconfiei somente tempos depois que meu corpo de carne tinha morrido.
Contei à minha mãe a minha desconfiança.
Ela, no começo, não aceitou, mas acabou por entender.
Papai chegou aqui muito ferido, tinha sofrido muito num lugar horrível.
Mamãe cuidou dele, o fez por medo.
Certa vez, passou por aqui um desencarnado conhecido do papai, que nos ensinou a fazer barulhos, jogar coisas etc.
Meu pai foi o que mais se interessou em aprender.
Ficamos nós três aqui na casa, na antiga fazenda, agora sítio ou chácara.
Não gostávamos uns dos outros, tínhamos que nos tolerar por não ter para onde ir, temíamos sair daqui e parar no lugar terrível que papai ficou por uns tempos.
Foi numa noite de lua cheia que aquele desencarnado veio aqui e chicoteou o Coisa Ruim.
Quando isto ocorria, mamãe e eu nos escondíamos e, depois do castigo, minha mãe cuidava dele.
Os períodos melhores aqui foram quando não morava ninguém na casa.
Quando pessoas compravam o sítio e vinham residir na nossa moradia, começávamos a perturbar.
Gostei somente quando um casal veio morar aqui com aquela menina linda, quis ser a mãe dela.
A garotinha me via, conversava comigo.
O casal não gostou, a menina ficou doente, e eles se mudaram com minha filhinha.
Sofri muito.
Não quis ir junto, fiquei com medo de sair daqui.
Sou avessa ao desconhecido.
— Você sugava energia desta menina, fazendo-a adoecer, como faz com Isabela.
— Não prejudico minhas filhas! -— Mimi se indignou.
— Elas não são suas, têm mães e pais.
— Nunca ouviu falar em "adopção"? -— perguntou a desencarnada.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 11:29 am

— Não é o caso, não moram no mesmo plano.
As meninas têm famílias estruturadas e mães que as amam.
Você, perto delas, suga energias, as deixando cansadas, enfraquecidas. Isto é ruim.
— Não devo ter feito isso!
Será que é por isso que, ficando perto delas, sentia-me mais disposta?
Se for verdade, é outra coisa que achei que era certa e não era.
Você me perguntou se eu fiz algo de bom.
Rezei muito. Não dei esmolas porque não tive nada de meu.
Papai morreu, mamãe tomou conta de tudo, não foi fácil, os empregados nos roubavam.
Mamãe me criticava, dizia que não servia para nada e que só sabia chorar.
Não me alimentava direito.
Fiquei doente, tive pneumonia e morri; "desencarnei", como vocês falam.
Mamãe ficou sozinha, não quis saber dos filhos, e, quando ela veio para o Além, os três vieram, dividiram a fazenda, pegaram tudo o que havia de valor na casa e venderam as terras.
Foi muito doloroso ver meus irmãos se desfazerem de tudo.
Deram nossas roupas e riram dos objectos velhos, mas que gostávamos.
Concordo com vocês quando afirmaram que nada material é nosso.
Objectos que gostamos mudam de dono.
Foi triste vê-los se desfazerem de tudo.
Fiquei magoada com eles, agora entendo-os, eles tinham de fazer aquilo.
Somente o que era meu mesmo me acompanhou, os meus sentimentos, e vim muito pobre para este lado.
— Você era solteira? -— perguntou Marta.
— Sim, não me casei com quem quis, então não me casei com ninguém.
Papai até tentou me arrumar marido, mas me recusei, espantava os noivos, os punha para correr.
— Pelo que foi contado aqui, todos temiam seu pai quando encarnado, até você.
Por que ele, desencarnado, a obedecia? -— perguntou a doutrinadora.
— Culpava-o por ter sido infeliz e penso que ele sentia um pouquinho de remorso por isto.
Quando meu pai chegou aqui, depois de ter estado no Umbral, estava fragilizado, e impus condições para deixá-lo ficar, tinha de seguir algumas normas, que eram sobre não abusar para poder usar, ou seja, ficar aqui.
Não mandava tanto nele assim.
Esse velho, desculpe-me, o proprietário actual, contratou aquele homem, o índio, que queimou ervas que nos impediram de entrar em certos lugares.
Não nos importamos, já que poderíamos ficar em muitos outros cómodos e soltos pelos pastos, jardim e pomar.
Fiz um trato com o índio:
se ele deixasse a árvore lá, eu controlaria meu pai.
Conversei com o Coisa Ruim, o fiz entender que, se passássemos do limite, aquele indígena com seus ajudantes desencarnados nos pegariam e nos levariam para o lugar onde ele esteve.
O melhor era usar do bom senso, não incomodar muito.
Passamos a conviver com limitações, mas livres.
Papai sabia que, se abusasse, seríamos expulsos.
Foi o que ocorreu.
Permiti que ele fizesse umas manifestações, e esta senhora tratou de buscar ajuda.
— Você não se recorda mesmo de nenhum acto bondoso que tenha feito encarnada? -— insistiu Marta.
— Como vou lembrar?
Estou nervosa, decepcionada e muito triste por ter sido enganada.
Está vindo agora à minha mente que batia em Juquinha, nos cachorros e gatos, ofendia as empregadas.
Detestava casamentos:
prejudiquei a festa de uma de minhas primas, estragando a massa do bolo; rasguei o vestido de outra; e nunca mais me convidaram para nenhuma festa.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 11:29 am

Não queria que ninguém casasse; depois de casados, não me importava mais, a vida de casado não é um mar de rosas.
— Poderia nos dizer porque não queria que cortassem a árvore do jardim?
— É uma triste história! -— suspirou a desencarnada.
— Um caso de amor infeliz.
Vou contar a vocês.
Eu amei, e muito.
Foi um sentimento maravilhoso, mas muito triste.
Vou explicar.
Meu pai não me dava muitas roupas; nos vestíamos, mamãe e eu, de forma simples.
Usava as minhas melhores vestes em festas ou para ir à igreja.
Era jovem, andava pela fazenda, raramente a cavalo, caminhava pelo pomar, na trilha do morro, às vezes, pelo pasto.
Normalmente ia sozinha ou uma empregada me acompanhava.
Uma vez, na trilha do morro, um rapaz me abordou; assustei-me, mas parei para conversar com ele.
O moço era filho de um sitiante que fazia divisa com nossa fazenda.
A conversa foi muito agradável, ele pensou que eu fosse uma empregada, filha de empregados da fazenda.
Não desmenti.
Gostei dele e marcamos outro encontro, e estes se tornaram frequentes.
Duas vezes por semana, nos encontrávamos, ou na trilha do morro ou nos fundos do pomar.
Enamoramo-nos, amei-o e, pela primeira vez na minha vida, senti-me amada.
Mas me preocupei, sabia que meu pai não ia deixar namorá-lo ou casar com ele.
Meu namorado insistia em conhecer minha família, queria pedir minha mão em casamento.
Com medo de se afastar de mim, adiava para falar de quem era filha.
Depois de muito pensar, resolvi contar ao meu amado quem eu era e planear nossa fuga, iria para perto de meus irmãos, eu sabia onde estes estavam, tinha a certeza de que eles nos ajudariam.
A comunicante fez uma pausa para, em seguida, continuar:
— Quando falei quem era, ele se apavorou, “Meu Deus, Mimi!", meu amor me chamava assim.
"Não pode ser!
Seu pai nunca deixará você se casar comigo!
Tenho medo dele, como todos os vizinhos têm!
Ele é capaz de me matar!"
Entusiasmada, contei a ele meu plano, mas ele continuou preocupado.
"Seu pai pode prejudicar a minha família.
É melhor nos separarmos.
Não queria isto, amava-o, embora entendesse sua preocupação.
Convenci-o a fugir comigo.
"Não tenho dinheiro.
Como ir embora?
Como viajaremos?"
Eu arrumo", afirmei.
Pensei muito em como arrumar o dinheiro e resolvi contar à minha mãe e lhe pedir ajuda, sabia que ela sempre tinha dinheiro guardado, que conseguia pegar escondido do meu pai.
Mas fui traída. Mamãe contou ao papai.
Embora ela sempre tenha negado, tive a confirmação hoje, quando a escutei.
Papai não fez nada comigo.
Mandou seus jagunços ao sítio dos pais do meu namorado; eles puseram fogo nas plantações, mataram a tiro vários bois e animais domésticos, derrubaram a área da casa e deram o recado:
na próxima vez, poriam fogo em tudo com eles dentro.
Meu namorado se apavorou, veio aqui à fazenda e se suicidou.
O coitadinho preferiu morrer a se separar de mim.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 11:29 am

Sabia que não seria mais possível ficarmos juntos, se matou.
Enforcou-se num galho daquela árvore do jardim.
Encontraram no seu bolso uma carta e, nela, meu amor se despedia de mim.
Costumávamos nos corresponder:
ele escrevia para mim e colocava a carta no vão de uma pedra no pomar; eu o respondia e punha no nosso esconderijo.
Ele morreu e foi para o inferno, como todos os suicidas.
Chorei muito e prometi a mim mesma que choraria por ele todos os dias.
Fazia isto quando encarnada e, logo que entendi que desencarnara, passei a chorar com hora marcada.
Uma empregada, logo após esta tragédia, me disse que minhas lágrimas iam até o meu amado no inferno e suavizariam o calor do fogo.
Ele saberia que eu chorava, se sentiria amado e consolado.
— Não me suicidei! -— exclamou Marcelo.
— Não me matei!
Não fui para o inferno!
— Marcelo! Por favor, se acalme! -— pediu Marta.
— Não vejo nenhum desencarnado ao lado dele -— falou Mimi através da médium Elisa.
— Por que ele está me interrompendo?
Quanto mais olho para ele, mais sinto que o conheço.
Porém, tenho a certeza de que não conheço esse quase careca.
Como falava, meu amor se suicidou, sim!
Encontraram-no enforcado na árvore do jardim, que, na época, era verde e, na primavera, se enchia de lindas flores amarelas.
Dentro do bolso dele, havia uma carta para mim, reconheci sua letra; na missiva, ele escrevera que me amava e que nosso amor era impossível, que ia embora, queria que eu fosse feliz e que pensasse nele de vez em quando.
Gritei desesperada quando vi meu amor dependurado por uma corda no galho.
Meu pai mandou dois empregados me levarem para meu quarto e me trancar.
Soube depois que outros dois empregados tiraram o corpo dele da árvore e levaram para os pais.
Como não parava de gritar, papai entrou no quarto e me bateu.
"Pare, menina!", ordenou ele.
"Ele morreu porque quis.
Encontraram esta carta no bolso dele, é para você.
Se continuar gritando, amarro-a na cama e a amordaço."
Sabia que ele fazia o que dizia e parei de gritar.
Li a carta. Sofri muito, a dor que sentia parecia que me arrebentaria o peito.
Soube, por uma empregada, o que meu pai fizera na véspera com a família dele.
Ele preferira morrer do que ficar longe de mim e, para não prejudicar a família, tomou aquele decisão trágica.
Os pais dele venderam o sítio e foram embora para longe com os filhos.
Senti ódio de meus pais:
de minha mãe, porque não guardou meu segredo, não me ajudou; e do meu pai, por ter atacado o sítio, a casa que ele morava.
Fiquei anos sem olhar para eles, conversava somente se muito necessário.
Nunca esqueci este amor.
Amei-o muito, ainda o amo, e fui amada.
Papai até tentou me casar, mas me recusei.
Era tão grosseira com os pretendentes e me enfeava tanto quando eles vinham me conhecer que nenhum deles quis casar comigo.
Resolvi ficar solteira.
— Você soube que mudou de plano, do físico para o espiritual, viu outros desencarnados e não viu o moço que amou? -— perguntou Marta.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 11:29 am

— Ele se suicidou e foi para o inferno.
Todos os que se suicidam vão para o inferno.
Não podia ir lá nem ele pôde sair do seu castigo eterno.
— O inferno não existe -— esclareceu Marta.
— Não pensou que sua morte não foi como esperava, como acreditava?
Morreu e não viu Deus, não foi julgada, não viu o céu nem o purgatório...
Não quis entender o porquê de ter permanecido aqui?
— Foi uma escolha! Quis ficar!
Mas agora estou curiosa.
Por que ficamos aqui?
— A vida continua -— Marta tentou novamente esclarecê-la.
— Somos sobreviventes, nosso espírito continua vivo após a morte do corpo físico.
Continuamos os mesmos, com nossos sentimentos e gostos.
Não somos julgados, a não ser pela nossa consciência.
Existe um local que chamamos de Umbral, que é feio e é onde se agrupam desencarnados que sofrem, mas essa permanência é temporária.
Existem também lugares bonitos, onde os bons e aqueles que desejam se melhorar moram; são locais agradáveis, mas também moradias temporárias.
E, infelizmente, há desencarnados como vocês, que ficam onde residiram, e os motivos são diversos, o fazem por gostar e por querer ficar.
— Aquela árvore era a lembrança do meu amor que morreu por mim.
Mas que coisa! Por que esse moço está assim?
Por que chora? Sinto que o conheço.
— Você, depois de tudo o que ouviu, sabe que reencarnamos.
— O que você está querendo me dizer?
Recuso-me a escutar.
Meu Deus! - Mimi fez uma ligeira pausa e olhou atenta para Marcelo.
— Ele não está no inferno?
Reencarnou?! Impossível!
Ele me amava e não ia fazer isto comigo!
— Estou tentando lhe explicar que nenhum sofrimento é eterno.
— Se ele tivesse saído do inferno, teria vindo ficar comigo.
— Mimi, por favor, raciocine -— pediu a doutrinadora.
— Vocês chamam o inferno de Umbral e lá é um local de sofrimento, só que passageiro.
Quem se suicida não vai para lá? -— perguntou Mimi, esforçando-se para entender.
— O sofrimento não é eterno para ninguém.
Quem se suicida comete um erro grave; quando se arrepende, é perdoado e ajudado.
— Eu não me matei! -— exclamou Marcelo, interrompendo-a novamente.
— Você, Mimi, foi contando, e lembranças vieram à minha mente.
São confusas, porém tenho a certeza de que não me suicidei.
— Quem é esse homem?
Como ousa me desmentir?
Por que ele diz se lembrar do que conto?
Que confusão é esta? -— perguntou Mimi.
— Boa noite!
Sou o mentor do grupo -— Marta repetiu o que o orientador desencarnado falava e, pelo intercâmbio mediúnico, após uma ligeira pausa, o espírito responsável pela equipe explicou:
— Procurei saber dos acontecimentos do passado ocorridos neste lugar para esclarecê-los.
Mimi, o moço que você amou, de facto, pensava que era uma empregada; estava feliz, planeando um futuro de amor e filhos.
Quando soube quem era seu pai, apavorou-se; mesmo temendo pela família, aceitou fugir.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 11:30 am

Você pediu ajuda à sua mãe, que contou ao marido, que, irado, atacou a casa dele.
Seu namorado se desesperou, contou aos pais do seu namoro, e a família decidiu que ele deveria ir embora dali para longe.
Não vendo outra alternativa, temendo pelos familiares, ele pegou seus pertences, colocou-os num cavalo e foi embora do seu lar.
Porém, não quis partir sem se despedir da amada.
Escreveu uma carta e, ao colocá-la no esconderijo no pomar, foi surpreendido por um empregado armado da fazenda, que o amarrou e chamou pelo patrão.
O progenitor de Mimi decidiu matá-lo.
Com a ajuda deste empregado que o amarrou, enforcou-o no galho da árvore do jardim.
Foi encontrado horas depois, todos falaram que foi suicídio, e ninguém duvidou depois que encontraram a missiva.
Até os pais dele pensaram que o filho se matara.
— O Coisa Ruim é pior do que pensava! -— exclamou Mimi chorando.
Marcelo também chorou.
O orientador voltou a falar.
— Ele foi socorrido e levado para um abrigo.
Perdoou. Não sentiu mágoa.
Soube que a família se mudou, sentiu pela imprudência de querer deixar a carta, sentiu pelo sofrimento dos pais e pelo da namorada.
Na colónia, local onde estão os desencarnados bons e os que querem aprender, ele estudou, se preparou e reencarnou.
Desejou muito que sua amada refizesse sua vida e fosse feliz.
Mimi quis abraçá-lo, mas foi impedida.
O orientador continuou a elucidar.
— Senhorita, por favor, contenha-se, peço-lhe que repense sua vida.
Sofreu e preferiu alimentar seu sofrimento.
Não quis ver ou fazer mais nada.
Sua vida poderia ter sido diferente se tivesse perdoado, fosse ajudar aqueles que sofrem.
Quando enxugamos lágrimas, não temos tempo para chorar ou encaramos os motivos que nos fazem sofrer de outra forma.
Somos consolados conforme consolamos.
— Realmente, não adianta ficar mais sentida com papai.
Que vida triste eu tive e tenho...
Meu amor não morreu por mim!
Não fui amada como pensava!
— Pelo que lembro, penso que a amei, sim -— Marcelo novamente a interrompeu.
— O amor verdadeiro é aquele que quer o outro feliz.
Não pode ser demonstrado se matando ou assassinando alguém.
— Sinto-me desiludida!
Mais uma decepção!
Vocês estão sendo cruéis comigo!
— Você foi convidada a escutar todos os desencarnados envolvidos de alguma forma em sua vida para ficar a par da verdade -— falou carinhosamente o orientador espiritual através de Marta.
Não é bom viver baseado em factos falsos.
Não alimente a desilusão.
Procure agora entender tudo o que aconteceu, tentar esquecer e ter esperança no futuro.
Por que não segue o exemplo de Marcelo?
Ele não fez nada de errado, viu sua família ser prejudicada, foi assassinado e perdoou.
— Estamos separados para sempre?— - perguntou Mimi.
— "Para sempre" é algo que não devemos dizer ou acreditar.
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Re: Na sombra da montanha - António Carlos / Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

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