UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 8:26 pm

- De onde tirou essas ideias tão diferentes?
- Eu adoro estudar o comportamento humano.
Eu, papai e mamãe nos debruçamos sobre alguns livros e estudamos em família.
É divertido, produtivo e nos esclarece muitas dúvidas que temos acerca dos mistérios da vida - ela fez uma voz engraçada.
- Você é muito diferente das meninas que conheço.
- Gosto muito de mim mesma.
- Convencida!
- Não. Se eu fosse convencida, diria:
"Sou melhor que você".
Mas não sou melhor nem pior que ninguém.
Sou um pedaço do milagre da vida.
Meu amor por mim mesma me fortalece e me mantém protegida.
- Como faço para gostar de mim?
- Amor-próprio e auto-aceitarão são para começar a olhar a si mesmo com olhos mais carinhosos.
O garção os serviu e, enquanto lanchavam, Marcos perguntou:
- Você não pensa em namorar?
- Penso.
- Tem algum pretendente?
- Até o momento, não.
- Gostaria de ser minha namorada?
Carmela riu.
- Namorada? Está louco?
- Por quê? - perguntou ele, voz sumida.
- Mal nos conhecemos.
Primeiro precisa haver atracção, afinidades, gostos em comum...
Creio que podemos começar a nos relacionar como amigos.
- Amigos?
- Sim. Vamos aos conhecendo.
Não quero me apaixonar cegamente por alguém que acabei de conhecer.
Depois, vou viver um casamento enfadonho por conta de minha ansiedade?
Não. Eu não sou como muitas moças de minha idade que querem se casar "ontem".
- Você não existe.
- Existo sim - ela tocou em sua mão e sorriu.
Viu como eu existo?
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 8:26 pm

CAPÍTULO 21

Valentina chegara a poucos minutos da oficina de costura.
Estava cansada, tivera um dia cheio de trabalho.
Precisava se preparar para a organização da exposição de quadros de sua amiga Tarsila.
Estava sentada na poltrona do escritório, aguardando a chegada do irmão.
Tirou os sapatos e massajava os pés quando a campainha tocou.
Ela estranhou, pois no início da noite era muito raro alguém aparecer na porta de sua casa.
Benta foi atender e voltou com semblante carregado.
- O que foi Benta?
Parece que viu o diabo!
- E vi! A senhorita Selma está lá no vestíbulo.
- Selma?! O que ela quer?
- Disse que tem algo urgente a tratar.
Valentina respirou fundo para não se desequilibrar.
Não gostava de receber visitas inesperadas.
E ainda por cima a visita de Selma.
- Conduza-a até a saleta ao lado do vestíbulo.
- Sim.
Valentina voltou a calçar os sapatos.
O que sua prima queria desta vez?
Ela ajeitou-se e foi até a saleta.
- Selma, o que faz aqui? - perguntou voz firme.
- Oh, prima - disse ela num tom fingido e carregado de drama - eu fui assaltada a algumas quadras daqui, estou com medo.
- Assaltada? Aqui perto?
Nunca soube de assaltos por aqui antes.
Selma tentou conter a raiva.
Odiava ser questionada dessa maneira.
Respirou e prosseguiu, fingindo ar preocupado:
- Aqui perto, acredita?
Depois da Revolução esta cidade virou um antro de desajustados.
Saquearam minha bolsa.
Fiquei sem dinheiro.
Estou com medo.
- Mas...
- Eu sei que não gosta de receber visitas sem ser anunciada, mas veja bem, numa situação dessas, eu não pensei duas vezes e corri para cá.
- Eu posso providenciar algum dinheiro e você retorna para Leme.
Pode pegar o trem nocturno, o que acha?
- Eu gostaria, mas sinto-me indisposta.
Estou muito nervosa.
O homem que me atacou foi muito rude.
Puxou a minha bolsa com força e me empurrou.
Olhe como está meu joelho - apontou.
De facto, o joelho estava ralado e havia ainda um pouco de sangue.
A cinta-liga fora rasgada, contudo, isso fora um arranjo muito bem feito entre ela e Inês, minutos antes.
Selma precisava achegar-se mais a Paulo Renato e estava difícil fazer essa aproximação sem frequentar a casa do primo.
A intuição de Valentina não estava botando fé naquela história, mas fazer o quê?
- Bom, dormirá aqui em casa hoje e amanhã cedo partirá.
Sabe que não gostamos de receber visitas.
- Sei, sim.
Desculpe pelo transtorno.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 8:26 pm

Valentina chamou uma das criadas e pediu para arrumar o quarto de hóspedes.
- Eu vou pedir para colocarem mais um prato a mesa do jantar.
- Obrigada, prima.
Em seguida, Paulo Renato chegou e caiu feito um patinho no conto de Selma.
Ela finalizou dramática:
- Ninguém me ajudou nada.
As pessoas correram e eu fiquei ali, estatelada no chão, pedindo ajuda...
- Fique connosco esta noite.
Amanhã faremos novo curativo e você terá condições de voltar para o interior.
- Uma noite de sono tranquilo é tudo de que preciso.
- Depois podemos ir à polícia, dar queixa.
- Não, isso não.
Nada de envolvimento com a polícia.
Por sorte, os documentos estavam no fundo falso da bolsa - mentiu.
Eu só perdi dinheiro e outras bobagens de mulher que carrego na bolsa.
- Nossa família tem nome e reputação.
Você está certa, prima.
O que menos precisamos no momento é de nossos nomes nos jornais ou revistas de fofocas.
Selma sorriu.
- Obrigada, Paulo Renato.
Como sempre, é muito gentil.
Ele fez uma mesura com a cabeça e afastou-se.
Selma sorriu por dentro.
- Eu não vou embora amanhã.
Vou arrumar uma maneira de ficar mais tempo por aqui e arquitectar um plano de fazer com que Paulo Renato case-se comigo.
Valentina percebeu uma energia densa e esquisita ao redor da prima.
Esperou o irmão subir para seus aposentos.
Convidou Selma para irem à saleta contígua à sala de estar.
Benta serviu-lhes chá.
Selma fingia uma dor no joelho.
Foi mancando e fazendo caras e bocas.
Assim que se acomodou no sofá, Valentina perguntou-lhe:
- O que pensa fazer?
- O que disse?
- Não se faça de sonsa.
Sei que está de olho em Paulo Renato e arrumou uma maneira de entrar na nossa casa.
- Eu...
- Não me venha com conversa fiada.
Não gosto de você e não a quero mais aqui.
Selma mordiscou os lábios com raiva.
- Por que não some com esse bando de artistas degenerados que patrocina?
- Você não entende nada da vida, como pode entender de arte?
- Você não pode ditar as regras nesta casa!
- Como não?
- Divide a casa com Paulo Renato.
Sei que ele jamais me expulsaria daqui.
Você é ruim e má.
Por que interfere tanto em minha vida?
Valentina nem registou a ofensa.
Não se deixou intimidar.
Procurava manter a impessoalidade.
- Você é digna de piedade.
Uma mulher sem brio, que fica à espera de migalhas de amor.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 8:26 pm

- Isso é problema meu - Selma baixou os olhos e percebeu que Paulo Renato passava e se postou atrás da porta.
Era a hora de encenar e fazer com que ele se tornasse seu aliado.
Mudou o tom.
- Eu me apaixonei pelo seu irmão.
Poderia me casar com qualquer outro homem de destaque na sociedade.
Sabe que sou bonita e rica.
Mas meu coeur... quer dizer, meu coração, pertence a Paulo Renato.
- Mentira. Você não ama meu irmão.
- Claro que amo.
Como pode querer saber o que vai aqui ao meu coração? - apontou para o peito.
Está sendo injusta comigo.
- Não estou. E, quer saber?
Eu não tenho nada a ver com a vida de vocês.
- Melhor assim.
Para que arrumarmos mais confusão.
Eu gosto de você, Valentina.
- Eu não gosto de você, Selma.
Novo brilho rancoroso perpassou o olhar dela.
Mordiscou os lábios e disparou:
- Ainda bem que Auguste está morto.
Deus me livre casar com um mulher tão fria quanto você.
Valentina estava aprendendo a ser firme e não dar trela aos comentários dos outros.
Todavia, crescera num mundo em que as pessoas, desde o berço, davam atenção e valor ao que os outros diziam.
Muitos anos de condicionamentos destrutivos e negativos eram difíceis de serem modificados.
Falar de Auguste ainda mexia com seus sentimentos, porém ela não pensou duas vezes.
Quando percebeu, sua mão já havia descido sobre o rosto de Selma.
Era tudo o que a prima do mal queria.
Fingiu uma dor muito maior do que a produzida pelo tapa.
- Você me bateu! - gritou.
Paulo Renato entrou na saleta, indignado.
- Valentina, como ousa?
- Perdi a cabeça. Aconteceu.
Prometo que vou me policiar para evitar esse tipo de constrangimento.
- Perdeu os modos?
Como pode ser tão sem educação?
Selma não merece isso.
A prima nada dizia.
Vibrava de contentamento por dentro.
Por fora, tentava forçar semblante consternado.
- Já lhe disse que não voltará mais a acontecer, Paulo Renato.
- Mas isso não se faz!
É um absurdo. Uma dama não bate em outra dama.
Quanta grosseria!
Valentina sentiu uma forte dor na cabeça.
Percebeu que o irmão estava completamente "enfeitiçado" pela prima.
E ela mesma contribuíra para isso.
Meneou a cabeça para os lados de forma negativa.
- Foi à gota d'água.
Vou-me embora.
- Como assim?
- Faltam alguns móveis para a casa do Morumbi ficar pronta.
O quarto está arrumado.
Vou embora agora mesmo.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 8:26 pm

- Mas Valentina...
- Sem, mas, Paulo Renato.
Vou para a minha casa.
Lá eu não terei de dar satisfação a ninguém.
- É tarde.
- Pedirei ao motorista que me leve.
A Benta vem comigo.
Amanhã eu volto e pego as roupas e as minhas obras de arte.
Chega.
Valentina falou num tom firme, rodou nos calcanhares e saiu.
Selma esforçou-se no início para fazer uma lágrima descer pelo canto do olho.
Contudo, ao escutar o pronunciamento de Valentina, vibrou de contentamento.
Agora poderia colocar seus planos para funcionar.
Livrara-se do encosto que atrapalhava o seu caminho rumo à felicidade ao lado de Paulo Renato.
Por essa razão, lágrimas de felicidade corriam sem cessar.
Ele aproximou-se.
- Não chore.
- Impossível.
Valentina foi muito rude.
E me bateu...
- Precisa se recompor.
- Na verdade creio que me excedi - disse, de maneira dissimulada.
- Você não tem culpa da grosseria de Valentina.
Ela é quem lhe deve um pedido de desculpas.
- Tive sim.
- Foi maltratada e não admito esse tipo de grosseria em minha casa.
Selma abraçou-se a ele e, enquanto Paulo Renato alisava seus cabelos, ela sorria maliciosamente.
Havia conseguido separar os irmãos.
Dali em diante tudo seria fácil.
Bem fácil, tinha certeza.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 8:52 pm

CAPÍTULO 22

Arlete bateu com a colher de pau no triângulo que ficava preso na varanda da casa, próximo da cozinha.
- O almoço está pronto!
Lenita terminou de jogar milho para as galinhas.
Luisinho a ajudava.
- Estou com fome.
- Eu também - disse ela.
- Me dê a bacia.
Vá na frente. Vou logo em seguida.
A menina sorriu.
- Obrigada, Luisinho.
Lenita saiu e foi na direcção da casa.
Parou no tanque, lavou as mãos.
Depois, entrou na cozinha e sentou-se na cadeira.
- Que cheiro gostoso.
- Fiz arroz, tutu de feijão, torresmo e bisteca.
- Quanta coisa!
Arlete sorriu.
Fazia algum tempo que Lenita estava em sua casa e tudo corria da melhor maneira possível.
Dorival fora a São Paulo e descobrira que, de facto, Lenita Chiarelli era órfã.
Com a ajuda de um amigo advogado, indicado por um de seus filhos, correu com os papéis para legalizar a adopção.
Eles se afeiçoaram muito à menina.
E ela também gostava muito deles.
- Depois do almoço vou ensiná-la a bordar.
- Sim, mãezinha.
Arlete sentiu um grato calor invadir-lhe o peito.
- O que foi que disse, Lenita?
- Eu disse que sim, mãezinha.
Ela limpou as mãos no avental e aproximou-se.
Pegou nas mãozinhas da menina e, com olhos marejados, disse emocionada:
- Você é uma menina linda que o papai do céu nos mandou de presente.
Sou muito grata em tê-la connosco.
Espero que seja muito feliz nesta casa.
- Eu sou.
Arlete a abraçou.
- Minha filhinha.
Prometo que vou cuidar sempre de você.
- Eu sei disso.
Por isso amo você, mãezinha.
Luisinho entrou na cozinha.
Aproximou-se e beijou as duas.
O carinho que sentia por Lenita era puro e verdadeiro.
Lenita sorriu ao vê-lo.
- Que cheiro bom!
- Sente-se, filho.
Está atrasado.
- Aonde você vai? - perguntou Lenita.
- Trabalhar, ora. Na estação.
- Também quero ir.
- Negativo. Você fica aqui com a mamãe.
Tem um monte de coisa de meninas para fazer.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 8:52 pm

Ela assentiu com a cabeça, de maneira graciosa.
- Está bem.
Eu fico e ajudo a mãezinha.
- Papai regressa hoje de viagem e ficará connosco até o fim da semana.
- Oba!
A harmonia no lar só não era completa porquanto António ainda não havia se refeito da separação.
Não queria mais voltar para Belo Horizonte.
- Não é assim que as coisas funcionam, meu filho - falou Arlete depois de servir o almoço para as crianças.
Luisinho levou Lenita para o pomar.
Foram pegar laranjas no pé das árvores para Arlete fazer doces em compota.
António suspirou profundamente.
- Não volto mais, mãe.
Isabel foi embora com o Gualberto.
Era meu melhor amigo.
Não suportarei os comentários maledicentes das pessoas.
- Contudo, precisa se refazer.
Se Isabel foi embora, é porque tinha de ser assim.
- Sinto-me muito mal.
- Ela nunca foi de grandes demonstrações de carinho.
Nunca me meti na vida dos meus filhos, adoro minhas noras, mas Isabel nunca nutriu muita simpatia por nós.
Sempre arrumava desculpas para não nos visitar.
Você é bonito e um homem de bem.
Ainda é jovem.
Vai encontrar uma mulher que mereça seu amor.
- Será? Estou tão machucado, mãe.
A dor da separação me corrói a alma.
- Tudo passa. Inclusive essa dor.
- Tirei licença.
Meu chefe ficou de ver para mim uma maneira de me transferir para outro lugar ou até me promover.
Sempre fui um bom funcionário.
Mas voltar para Belo Horizonte, nunca mais.
Arlete sorriu e achegou-se ao filho.
Abraçou-se a ele e depositou um beijo no seu rosto.
- As coisas vão melhorar bastante.
Tenho certeza de que no futuro vai agradecer por Isabel ter partido.
Sinto que você ainda não amou e, quando isso acontecer, esses lindos olhos verdes vão enche-se de brilho e luz.
António sorriu.
- Obrigado, mãe.
Você é sempre muito amável.
Ela se afastou e pegou duas xícaras.
Colocou-as na mesa e serviu a si e ao filho o café.
- A felicidade é a maneira como enxergamos o que nos rodeia.
Veja, eu poderia lamentar ter um filho para cuidar nessa altura de minha vida, reclamar que teria mais uma boca para sustentar, roupas para lavar etc., contudo, a vinda de Lenita encheu esta casa de mais luz, mais alegria.
Eu enxerguei como um presente de Deus, e não como um fardo.
Ele sorriu.
- Fiquei feliz quando soube da decisão de adoptarem Lenita.
Ela é encantadora. Lembra-me a Aninha.
Arlete deixou uma lágrima escapar pelo canto do olho.
- Ela lembra sua irmãzinha, sim.
Estou tão feliz.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 8:52 pm

- E Luisinho afeiçoou-se bastante a ela.
Percebo que eles se dão muito bem.
Como gostaria de ter um filho...
- Você ainda pode se refazer e encontrar uma mulher à altura.
E ainda ter filhos.
- Estou tão desiludido que não consigo visualizar uma vida feliz.
- Acredite e confie que a vida sempre trabalha pelo nosso melhor.
António bebericou seu café e finalizou:
- Sabia que iria me recuperar aqui com vocês.
Nada como a família da gente para nos ajudar nos momentos mais difíceis.
No finzinho da tarde daquele dia, Dorival chegou em casa acompanhado de Luisinho.
Beijou a esposa e a menina.
Trazia nos braços uma caixa pesada.
Colocou-a sobre a mesa da sala.
- O que é isso? - indagou Lenita.
- Uma caixa com uma colecção de livros que meu filho José enviou da Capital.
- Pensei que fosse uma boneca.
- Outra?
Ela sorriu de maneira graciosa.
- Adoro bonecas.
Queria ter um monte - fez um gestinho com os dedos da mão.
- Como tem passado?
- Muito bem. Comi bastante hoje.
Depois fui apanhar laranjas no pomar com o Luisinho.
Brinquei um pouco com o António também.
Ele sorriu satisfeito.
Sentou-se numa poltrona e colocou Lenita em seu colo.
- Sabe que gostamos muito de você?
- Eu também.
Mas sinto saudades de minha irmã.
Ele e Arlete trocaram olhar significativo.
Não constava que Lenita tinha irmãos.
Era filha única e, segundo o que pudera apurar, ela fora deixada no asilo de meninas.
Certa vez, ele havia escutado de um passageiro médico uma afirmação de que crianças têm amigos imaginários.
Lenita havia criado uma amiguinha e a chamava de irmã.
Era isso. Dorival procurou mudar o assunto.
- Quem sabe um dia vai encontrá-la?
- Pode ser.
Mas eu não quero me afastar de vocês.
Gosto daqui. Tenho um quarto só meu!
- É. Só seu.
Nós também a amamos muito.
Lenita o beijou, pegou sua boneca e ficou num canto da sala brincando.
Dorival puxou a esposa até a cozinha.
- Creio que em breve receberemos a escritura e nova certidão.
- Tem certeza de que ela não tem parentes vivos?
Dorival meneou a cabeça para os lados, de maneira negativa.
- Não. Era filha única e os pais estão mortos.
Mas algo me intriga...
- O que é?
- Uma das moças que trabalha na instituição me afirmou que Lenita havia morrido.
Arlete levou a mão à boca.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 8:52 pm

- Morrido? Como assim?
- Disse-me que Lenita fora levada ao hospital e que lá morrera.
- Pode ter havido algum engano.
Você lhe disse que Lenita está viva e que está bem?
- Sim.
- E qual foi a sua resposta?
- Ela deu de ombros.
Eu lhe disse que o advogado não encontrou nenhum atestado de óbito com esse nome.
Rodou nos cartórios da cidade e nada.
Daí ela me falou que poderia ter se enganado.
Na verdade, não estava muito interessada em colaborar.
- Fico com medo de alguém aparecer aqui amanhã e tirá-la de nós.
Dorival achegou-se da esposa e a abraçou.
Colocou a cabeça dela ao encontro de seu peito.
- Não vão tirar nossa menina.
- Tem certeza?
- Sim. Estamos amparados pela lei.
Queremos fazer tudo certinho, dentro dos conformes.
Isso é o que importa.
- É que estou um tanto apreensiva.
- Pois não fique.
Se Lenita caiu aqui em nosso lar, é porque era para ser.
Por que Deus faria algo terrível connosco?
Ele nos põe a menina no colo e depois a leva, sem mais nem menos?
Não acredito nisso.
Lenita é um presente de Deus.
Arlete fez que sim com a cabeça.
- Eu tenho rezado bastante e tenho fé de que Lenita será criada por nós.
Vai se transformar numa linda mulher, casar e ser muito feliz.
- Pois bem. Vamos acreditar no bem, vamos agir positivamente.
Somos amorosos, pessoas de bem, portanto, merecedores de coisas boas.
- Devemos acreditar. Confiar.
- Isso mesmo, minha querida. Confiar.
Luisinho apareceu na soleira da porta.
- Mãe, estou com fome.
- Vou esquentar o jantar.
- Pai, vamos abrir a caixa?
- Sim, vamos ver a colecção de livros que o José nos enviou.
Chama-se Thesouro da Juventude.
É uma obra que reúne, segundo seus editores, os conhecimentos que todas as pessoas cultas necessitam possuir, oferecendo os em forma adequada para o proveito e entretenimento.
Vamos desenvolver em Lenita o gosto pela leitura, assim como fizemos com você.
- Posso olhar?
- Pode meu filho, pode.
Dorival sentou-se à mesa enquanto Arlete esquentava o jantar.
Estava feliz.
Havia criado seus três filhos mais velhos e eles estavam muito bem encaminhados na vida.
José, o mais velho, era contador.
Amante dos livros, sempre presenteava Luisinho com livros, despertando no garoto desde cedo o gosto salutar pela leitura.
Francisco era engenheiro e morava com esposa e filhos em Recife.
António desejava mudar-se de Belo Horizonte depois do abandono da esposa, mas era um bom filho.
Dorival olhou para António e sorriu.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 8:52 pm

O filho estava com Lenita no colo e Luisinho apoiado no encosto da poltrona.
António lia para eles trechos da colecção que José enviara.
Dorival sorriu outra vez.
Era um homem feliz e com filhos maravilhosos.
Agora iria dedicar-se na criação de Luisinho e Lenita.
Tinha certeza de que os dois também iriam se dar muito bem na vida.
Ele acreditava e tinha muita fé nisso.

Na época em que Lenita foi adoptada, o Código Civil de 1916 regulava a adopção nos arts. 368 a 378, chamada de adopção simples pelos efeitos que gerava.
Nesse sistema, a adopção se dava por meio de escritura pública, sem interferência judicial.
O instituto da adopção sofreu sensíveis mudanças desde então, com a publicação da Lei 3.133 de 1957, a Constituição Federal de 1988, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) de 1990 e o Novo Código Civil de 2002
(N.A.)

O Thesouro da Juventude era uma obra originalmente inglesa.
Tratava-se de uma enciclopédia com 18 volumes.
Com introdução do jurista, legislador e historiador brasileiro Clóvis Bevilacqua (1859-1944), a obra adaptada ao mercado brasileiro, com quase 6.000 páginas, possuía um texto admirável, sendo fonte de conhecimento de milhares de jovens entre as décadas de 1920 e 1960
(N.R.)
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 8:53 pm

CAPÍTULO 23

Algumas nuvens escuras anunciavam que em breve a chuva viria com toda a força.
Era fim de tarde e Bartolomeu primeiro olhou para o céu e depois consultou o relógio.
- Está quase no horário de fechar a loja.
Dinorá saiu detrás do balcão.
- Eu o ajudo a colocar os produtos para dentro.
Bartolomeu sorriu.
Era apaixonado por aquela mulher.
- Ajude-me rápido, pois as gotas começaram a cair.
Dinorá assentiu com a cabeça e correu a ajudar o marido.
Ela e Bartolomeu haviam se casado no civil.
Agora era uma mulher que poderia se dar ao respeito.
Ninguém sabia de seu passado.
Moravam na capital federal, numa cidade com mais de um milhão e meio de pessoas.
Dinorá era somente mais uma pessoa nesse enxame de gente que povoava o Rio de Janeiro.
Não despertava nenhum tipo de suspeita em relação à sua vida pregressa.
Bartolomeu havia juntado um pouco de dinheiro e comprara do amigo, em prestações, uma loja de quinquilharias no centro da cidade.
Havia uma placa na porta:
Tudo por dois mil réis - algo como o que conhecemos hoje por lojas de R$ 1,99.
O negócio dava pouco lucro, mas o suficiente para pagar as despesas e ter uma vida tranquila e comedida, sem luxos.
Ele conseguira um sobrado antigo, por um aluguer em conta, nas imediações da Avenida do Mangue.
A loja ficava embaixo e ele e Dinorá moravam em cima.
Havia uma sala, cozinha, um quarto e banheiro, suficiente para os dois.
Eles recolheram as bugigangas e desceram as portas de ferro.
- Eu preciso fazer a contabilidade do dia.
- Vou comprar algo para nosso jantar.
- Está chovendo muito, Dinorá.
- Não tem problema, eu levo uma sombrinha.
Volto num minuto.
Bartolomeu fez sinal com a cabeça e voltou aos papéis.
Dinorá pegou sua sombrinha e saiu.
A chuva já havia diminuído bastante.
Ela estugou o passo e foi até a mercearia ali perto.
Ao entrar na loja, viu uma mãe e uma garotinha de mais ou menos cinco anos e outra menina aparentando dez anos de idade.
Lembrou-se imediatamente de Clara e Lilian.
Mordiscou os lábios, apreensiva.
- Espero que estejam bem.
Eu não fiz por mal.
Precisava cuidar de mim e de minha vida.
Dinorá sentira uma ponta de remorso no caminho para o Rio.
Ela se livrara das meninas, mas sua mente a atormentava bastante, enchendo-a de perguntas.
- Por que não as deixou numa instituição para menores?
Por que não as deixou juntas?
Por que as separou?
Eram muitas perguntas, muitos porquês, e Dinorá não se sentia confortável com isso.
Ela desejara fortemente mudar e ser uma pessoa melhor.
Fizera isso com as meninas não por maldade, mas para se livrar delas e de Adolf.
Adolf... só de lembrar aquele nome ela sentia um nó na barriga.
Sumira com Bartolomeu, mudara-se para o Rio.
Trocara o cabelo louro por uma tintura castanho escuro.
Suas vestes eram mais recatadas.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 8:53 pm

A maquilhagem era menos carregada.
Dinorá empenhava-se, dia após dia, para se tornar uma mulher comum, que não despertasse qualquer suspeita.
Ela entrou na loja e comprou algumas coisas.
Estava dedicando-se e aprendera a cozinhar.
Não tinha uma mão lá tão boa para a cozinha, no entanto, sabia fazer o trivial e isso contentava Bartolomeu.
Ela pagou pela compra, despediu-se do dono e saiu.
Procurava andar olhando para baixo, pois temia ser reconhecida.
Em vez de contar a Bartolomeu sobre as ameaças de Adolf, preferira ficar calada e sofrer em silêncio.
- O medo é só meu - dizia para si.
Adolf jamais vai nos encontrar. Eu mudei muito.
Agora tenho sobrenome e sou casada.
Uma esposa exemplar.
Ela riu, olhou para sua aliança no anular da mão esquerda.
- Preciso me esquecer do passado.
Dinorá repetia sempre essa frase para si.
Tentava incutir na mente que o passado não tinha força, contudo estava ficando difícil.
A sua mente não aceitava essa verdade.
E, quando alimentamos o medo, acabamos por criar um fantasma que consome as nossas energias.
Ela estava criando um fantasma enorme.
Por mais que tentasse se livrar, o passado a perseguia.
E iria persegui-la enquanto sua mente se mantivesse presa ao medo e à maldade.
Dinorá chegou na porta do imóvel e quando ia fechar a sombrinha, um homem aproximou-se.
- Como vai?
- Boa tarde - disse secamente.
- Pensei que fosse mais simpática.
- Não sou dada a conversar com estranhos.
Sou mulher casada e de respeito.
O homem gargalhou.
- De respeito?
Desde quando vagabunda tem respeito?
Dinorá o encarou com olhos aterradores.
Sorte estar ainda chovendo, pois não havia quase ninguém na rua.
Os poucos que passavam procuravam acelerar o passo para fugir dos pingos.
- Como se atreve?
Ela levantou a sombrinha para dar na cara do homem.
Ele foi mais rápido e segurou o braço dela.
Em seguida, dobrou seu corpo e a prensou na parede.
- Escute aqui, Dinorá, não adianta me enganar.
Vim a mando de Adolf.
O nome causou-lhe profundo mal-estar.
Então aquele alemão desgraçado a descobrira! Como?
Ela tentou dissimular.
- Não sei do que está falando.
- Não se faça de besta.
Vim aqui porque tenho uma ordem.
Adolf quer que você lhe pague o dinheiro que ficou lhe devendo em Santos.
Um conto de réis.
- Loucura!
Não era tanto dinheiro assim!
- Esqueceu-se dos juros?
- Não tenho esse dinheiro.
- Problema seu.
Converse com seu marido.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 8:53 pm

- Jamais!
Meu marido não pode saber de nada.
- Pois então trate de arrumar logo o dinheiro.
Adolf lhe dá o prazo até o fim do mês.
Ou você nos entrega o dinheiro ou matamos você e seu marido.
- Por favor, Bartolomeu não tem nada a ver com meu passado.
Eu posso pagar Adolf aos pouquinhos...
- Nada feito.
Arrume o dinheiro e não vou mais importuná-la.
O rapaz afastou-se e sumiu.
Dinorá ficou parada, encostada no muro ao lado da porta da loja.
Suas pernas estavam bambas.
Sua garganta secou e ela não conseguia sequer concatenar pensamento que fosse.
Respirou fundo, ajeitou o vestido.
Entrou em casa.
Procurou dissimular.
- Você demorou - falou Bartolomeu, sem tirar os olhos das contas sobre a mesa.
- A chuva apertou e eu esperei acalmar.
Fiquei no armazém até há pouco.
Vou preparar o jantar.
Bartolomeu assentiu com a cabeça.
Dinorá foi para a cozinha e começou a cortar os legumes para a sopa.
Por mais que tentasse, sentia um nó na barriga, uma dor no estômago sem igual.
As lágrimas escorriam de seus olhos e inundavam sua face.
Ela só tinha quinze dias para juntar o dinheiro.
Era muito pouco tempo, e mesmo que Adolf lhe tivesse dado mais tempo, ela jamais conseguiria juntar tamanha fortuna.
Foi a primeira vez que Dinorá sentiu medo e pavor.
Mas aos poucos a mente foi serenando e uma ideia surgiu.
Ela sorriu e cravou a faca sobre a tábua dos legumes.
- Vou acabar com isso de uma vez por todas.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 8:53 pm

CAPÍTULO 24

Marilda chegou com a polícia a tempo.
Zezão era grande e forte, mas estava enfraquecido pela perda de sangue.
Lilian conseguiu desenvencilhar-se dele.
Dois policiais correram a tempo e algemaram o brutamontes.
Lilian abraçou-se a Marilda.
- Ele quase me pegou de novo.
- Não vai mais pegá-la, querida.
Fique sossegada.
- O que vão fazer?
- Vão levá-lo algemado para um hospital e depois directo para a cadeia.
Para que isso aconteça, precisamos ir à delegacia.
- Tenho medo.
- Medo de quê, Lilian?
- Ele pode fugir da prisão e vir atrás de mim.
- Qual nada. Tipos como esse não fogem e não vão atrás de você.
Zezão nunca mais vai atormentá-la.
- Jura?
- Palavra de Marilda.
- Agora precisamos ir.
Eu demorei porque passei em casa e trouxe esse vestido.
Vai ficar grande, mas depois compramos outro para você.
Lilian colocou o vestido. Ficou folgado.
Marilda lhe emprestou um cinto e, arruma aqui e ali, o vestido até que ficou ajeitadinho.
Marilda prendeu os cabelos da menina e fez um pequeno coque.
Seguiram para a delegacia e os policiais, cientes do que Zezão havia feito na garota, informaram aos detentos sobre o estupro.
O estivador brutamontes não foi perdoado.
Ao dar entrada na cela, foi espancado e, em seguida, violentado várias vezes pelos outros presos, pois segundo o código dos bandidos, quem estupra uma menor de idade, além de ser violentado, merece morrer.
Zezão não chegou a morrer, mas sentiu na própria pele o que fizera a Lilian.
Duas semanas depois ele foi afastado e encaminhado para outra cadeia, em outro município.
A menina ficou internada alguns dias na Santa Casa de Santos.
Na semana seguinte, recebeu alta.
Estava bem-disposta.
Marilda chegou com uma sacola.
- Comprei esse vestidinho para você e esse par de sandálias.
Lilian sorriu.
- Obrigada.
- Vamos até em casa.
Eu consegui uma semana de folga.
Vou levá-la para a sua cidade.
- Preciso voltar para casa.
- Vou acompanhá-la e, assim que reencontrar sua madrasta e sua irmã, eu volto.
- Não gostaria nunca mais de ver o rosto de Dinorá.
Tenho certeza de que ela me mandou para aquele armazém de propósito.
- Não vamos pensar nisso.
Você está bem e está comigo.
Amanhã cedo partimos.
Marilda morava numa casinha bem simples, porém bem ajeitada.
Conseguia levar uma vida digna juntando o salário do hotel mais os trocados que ganhava nas faxinas nos galpões.
Ela vivia com Jaime, um rapaz de boa índole, mas muito fã da bebida e da jogatina.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 8:54 pm

Adorava uma roleta de casino.
Era autoritário e não gostava que Marilda dividisse a atenção.
Não queria Lilian na vida deles.
- Ela é uma criança ainda.
Eu preciso levá-la para São Paulo.
- Não quero que fique aqui entre nós.
Você é só minha.
- Cruz credo, homem.
Que maneira é essa de falar?
Ele nada disse.
Virou as costas e saiu.
Lilian apareceu na sala.
- Ele não gosta de mim.
- Não é isso. Jaime é ciumento.
Não gosta que eu divida minha atenção com nada nem ninguém.
- Você gosta dele?
- Gosto. Foi o único homem que me aceitou.
Nunca me recriminou por eu ter engravidado.
- Ele não parece bem.
- Deixe disso, Lilian.
Jaime logo vai se acostumar e gostar de você.
Afinal de contas, você não vai viver comigo, certo?
Tem casa e família esperando-a em São Paulo.
- É verdade, se bem que Dinorá não é minha família, mas gostei bastante de você.
Lilian deu mais alguns passos e abraçou Marilda com carinho.
Sou e serei eternamente grata por tudo o que me fez de bom.
Você foi uma fada, ou melhor, a borboleta que Carmela me ensinou a imaginar.
Marilda, olhos marejados e sorriso terno, não entendeu.
- Borboleta? O que é isso?
- Minha amiga me ensinou a imaginar borboletas na hora de acontecimentos desagradáveis.
Confesso que foi praticamente impossível enxergar ou imaginar borboletas quando aquele monstro montou sobre mim.
Mas agora entendo que você é a Materialização daquela borboleta. Obrigada.
Lilian falou e beijou lhe o rosto.
Marilda sentiu um brando calor.
Lembrou-se de que, se seu filho tivesse vindo ao mundo, estaria com a idade de Lilian.
Ela abraçou-a com força.
- Conte comigo com o que precisar.
Mesmo depois de encontrar sua família, não vamos deixar de nos corresponder por carta ou mesmo de nos visitar.
Permaneceram mais um tempo abraçadas e foi no dia seguinte que Marilda recebeu a visita de um policial.
- A senhora deve comparecer ao distrito.
- O que foi?
- Não sei, mas é sobre a menina.
Marilda explicou a Lilian que deveriam comparecer à delegacia.
- Estará comigo, portanto não tenha medo.
Chegaram ao distrito e depois das formalidades, foram encaminhadas para uma pequena sala.
Marilda segurava a mão de Lilian e não desgrudou da menina um minuto sequer.
De vez em quando olhava para ela e sorria, tentando imprimir segurança e tranquilidade.
Minutos depois o chefe de polícia apareceu na saleta.
Vinha acompanhado por um moço bem apanhado, bem vestido e com semblante encantador.
- Deixarei o advogado aqui para conversar com vocês.
Pela descrição - o comissário de polícia apontou para Lilian - deve estar à procura dela, certo?
O rapaz assentiu com a cabeça e as cumprimentou.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 8:54 pm

Em seguida, puxou uma cadeira e sentou-se à frente da garota.
- Você se chama Lilian Lobato?
- Sim.
- Eu vim de São Paulo por intermédio de uma amiga sua, a Carmela.
Os olhos de Lilian brilharam e ela abriu largo sorriso.
- Carmela! - suspirou.
Minha amiga conseguiu me encontrar.
Graças a Deus. Quero voltar para casa e rever minha irmã.
Estou morrendo de saudades de Clara e não sei como vim parar aqui.
Marcos olhou para Marilda, fez pequena mesura com a cabeça e ela percebeu que ele queria falar a sós com ela.
Então, levantou-se e tornou:
- Querida, aguarde aqui um instante.
Lilian nada entendeu, mas obedeceu.
Marilda levantou-se e acompanhou Marcos.
Fora da sala, ele confidenciou.
- Não sei como proceder.
A madrasta dela sumiu do mapa e a irmãzinha faleceu.
Marilda levou a mão ao peito.
- Santo Deus! E agora?
- Lilian deverá ser encaminhada para o Instituto de Menores do Tatuapé ou coisa do género.
Ela não tem mais família.
- A pobrezinha sofreu muito...
Marilda contou tudo a Marcos.
A maneira como encontrara a menina no galpão, o estupro que sofrera, a dor que Lilian sentira no corpo e na alma.
Marcos escutava tudo com pesar e emocionou-se com a história.
- Não devemos contar-lhe a verdade.
Melhor irmos para São Paulo e lá, ao lado de Carmela, talvez a notícia seja menos difícil de ser transmitida.
Lilian e Carmela são muito amigas.
- Concordo. Eu pedi uns dias de folga no hotel e me deram uma semana.
Posso pedir mais uns dias e acompanhá-la até lá.
Lilian não confia em ninguém e tem medo de ficar sozinha com um homem.
- É natural diante do que sofreu.
- Vamos conversar com o comissário e sair daqui.
Marilda deu seu endereço para Marcos.
Combinaram de na manhã seguinte ele apanhá-las para subirem a serra.
Na saída da delegacia, Lilian percebeu a voz amuada e a tristeza no semblante de sua nova amiga.
- Aconteceu alguma coisa, Marilda?
- Não. Nada.
- Você está com uma cara...
- É que temos de ir a São Paulo e, chegando lá, não queria me separar de você.
- Eu também não.
Gostei de você desde o primeiro momento.
Marilda passou o braço pelas costas de Lilian.
- Também gostei de você, querida.
Sabe que se meu filho estivesse vivo teria a sua idade?
- Mesmo?
- É.
- Você seria uma óptima mãe.
Diferente daquele bicho da Dinorá.
- Não fale assim dela.
- Pede para não falar porque não a conheceu.
Tenho certeza de que Dinorá aprontou comigo.
Ela foi a responsável em me jogar aqui.
Se eu a encontrar um dia e juro que vou - ela vai ouvir tudo o que está entalado na minha garganta.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 8:54 pm

- Não diga isso, menina.
- Nada deu certo.
Perdi minha mãe quando pequena.
Agora perdi meu pai e fui violentada por aquele marginal.
O que posso esperar?
Somente dor e sofrimento.
- Você ainda poderá ser muito feliz.
- Vou reencontrar minha irmã e seremos felizes.
Vou trabalhar e nunca mais vou me separar de Clara.
Marilda fechou os olhos para não demonstrar a emoção.
Se Lilian acreditava que a vida era somente dor e sofrimento, o que mais pensaria se descobrisse sobre a morte da irmã?
Ela nem quis pensar sobre isso.
Apertou os braços sobre a menina e convidou:
- Vamos tomar um sorvete?
- Hum, sorvete?
Quero sim!
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 8:54 pm

CAPÍTULO 25

Valentina nem pestanejou.
Não bastaram os pedidos de Paulo Renato para que ela reconsiderasse e permanecesse em casa.
Ela partiu, levando Benta consigo.
Selma deu de ombros e fingiu constrangimento.
- Ela se foi por minha culpa.
Eu não deveria ter vindo aqui.
- Não diga isso.
- É verdade - mentiu.
Eu sou a causa dessa briga entre vocês.
Vou-me embora amanhã cedo.
Escreverei uma carta para Valentina.
Ela vai voltar e vocês voltarão a viver como antes.
- Não adianta. Ela não vai voltar.
Conheço minha irmã.
Valentina é mulher determinada, tem palavra.
Ela só antecipou sua ida para o Morumbi.
- Como pode uma pessoa querer viver numa área tão distante de tudo?
Eu jamais moraria naquele fim de mundo.
- É desejo dela há muito tempo.
Eu só não esperava que ela fosse embora assim, no meio de uma discussão.
- Lamento. Estou triste.
Amanhã eu darei um jeito e, antes de retornar para a fazenda, em Leme, escreverei uma carta de desculpas.
Valentina vai entender.
- Obrigado pela atenção, Selma.
Você é especial.
Nunca pensei que fosse tão generosa.
- Non, Je ne... - Ela começou em francês, mas em seguida tratou de consertar:
Não, eu não...
Imagine, primo, eu fico encabulada com tanto galanteio.
Ela falou e em seguida uma criada informou que o quarto de hóspedes estava pronto.
Selma despediu-se e subiu as escadas.
Ao chegar no topo, avistou uma baratinha.
Selma tinha pavor de baratas.
Deu um grito de susto e perdeu o equilíbrio.
Quase rolou escada abaixo.
De repente, veio um pensamento sinistro.
E se rolasse a escada de verdade?
Poderia pretextar uma torção no pé e ficar mais alguns dias.
Ela desceu os degraus e, ao chegar perto do segundo antes de tocar o chão, jogou-se e gritou.
Imediatamente Paulo Renato correu.
Aproximou-se e abaixou-se.
- Selma! Por Deus!
O que aconteceu?
Ela torcera o tornozelo de propósito.
Estava inchado e vermelho.
- Vi uma baratinha no topo da escada.
Eu me descontrolei e escorreguei, caí.
Uma das criadas aproximou-se.
- Desculpem o ocorrido.
Eu deixei a porta do sótão aberta e, como não limpamos com regularidade...
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 8:54 pm

Paulo Renato fez um gesto com as mãos, interrompendo-a.
- Não precisa justificar-se - e, voltando para Selma:
- Como se sente?
Quer ir para o hospital ou quer que eu chame um médico?
- Prefiro que chame um médico.
Ele a pegou delicadamente nos braços e a conduziu até o quarto de hóspedes.
Aquele tombo fingido viera em boa hora.
Selma sentia-se como uma princesa dos contos de fada.
A proximidade do seu rosto no do primo, o cheiro de seu perfume, os braços másculos... ela estava doidinha por Paulo Renato.
Agora que Valentina saíra daquela casa, ela iria tomar o lugar da prima.
Enquanto o primo descia e telefonava para o médico, Selma sorria, embora o tornozelo estivesse realmente dolorido.
- Ah, Paulo Renato, como a vida é boa!
Nem nos meus sonhos mais mirabolantes imaginei que chegasse aqui tão rápido.
Agora é uma questão de tempo para seduzi-lo e fazer casar-se comigo.
Adorei o tombo na escada.
Esta escadaria ainda poderá ser-me de grande utilidade...
O médico chegou e a examinou.
Selma não havia fracturado nada, mas seu estado solicitava descanso absoluto, repouso total.
Ela não poderia colocar o pé direito no chão.
Pelo menos por uns dois dias.
- Ela ficará aqui connosco, doutor.
- Melhor mesmo.
Selma fez esforço para ser natural.
- Não quero atrapalhar.
Preciso voltar para Leme.
Eu posso pagar um carro de aluguer e ir deitada.
- Imagine - protestou Paulo Renato.
Não nesse estado.
Precisa ao menos voltar a andar.
Fique alguns dias.
Os empregados vão tratá-la muito bem.
Semana que vem você parte para Leme.
O médico concordou e finalizou:
- Melhor aproveitar e descansar.
Alguns dias a mais e estará novinha em folha.
- Obrigada, doutor.
Vou seguir suas recomendações.
Ela despediu-se do médico.
Doutor Mendes ainda lhe prescreveu um medicamento em caso de dor.
Em seguida, Paulo Renato o acompanhou até o vestíbulo.
Pediu que uma das empregadas subisse para ver se a prima necessitava de alguma coisa.
Jurema, ainda abalada com a partida da patroa e de Benta, assentiu com a cabeça e subiu ao quarto de hóspedes.
Selma a tratou com frieza e total distanciamento.
Passava o dedo pela mesinha de cabeceira e praguejava:
- Imundo este quarto.
Foi você quem fez a limpeza?
Jurema suava frio.
- Sim... sim, senhora.
É que não tive tempo suficiente porque aconteceram muitas coisas e...
Selma a cortou com grosseria.
- Cale a boca!
Não quero um relatório ou lamúrias, quero limpeza.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 27, 2016 8:55 pm

Amanhã vou ser transferida para o quarto de Valentina e você vai limpar este quarto de acordo.
Caso contrário, eu farei você ser demitida.
- Oh, não, d. Selma. Por favor!
- Faça seu serviço direito, sua insolente.
Se eu tiver uma crise alérgica por conta dessa sujeira, juro que falo com Paulo Renato e mando-a embora.
Há muitas mulatinhas desesperadas como você precisando de trabalho.
Jurema não respondeu.
Sentiu um ódio tremendo de Selma.
Assentiu com a cabeça e saiu.
Enquanto descia as escadas, não deixava de pensar ruindades.
- Tomara que ela fique coxa ou então paralítica.
Odeio essa mulher. Odeio!
A casa do Morumbi era linda.
Uma construção neoclássica bem grande e espaçosa, encravada num terreno de mais de cinco mil metros quadrados.
Faltavam alguns móveis para completar a decoração das salas e do quarto de hóspedes.
O resto dos cómodos estava divinamente mobilado.
Benta e o motorista ajudaram com as malas feitas de última hora.
No dia seguinte, Valentina trataria de contratar mais uma empregada e um motorista.
Havia um caseiro que morava numa edícula nos fundos do terreno, numa grande casa feita especialmente para os empregados.
Argemiro cuidava do vasto jardim e da manutenção do casarão.
Ele espantou-se ao ver a patroa chegar tarde da noite.
- Aconteceu alguma coisa, d. Valentina?
- Não, Argemiro.
Resolvi mudar-me hoje.
- É tarde. Pensei que viesse somente daqui a alguns meses.
- Mudei de ideia.
Agora ficarei de vez.
Ele sorriu.
Gostava sinceramente da patroa.
- Precisa de alguma coisa?
- No momento quero descansar.
Benta subiu com as malas.
Amanhã ou depois volto à minha antiga casa para pegar mais alguns pertences.
Valentina deu mais algumas ordens a Argemiro.
Em seguida, entrou no palacete.
Olhou ao redor e sorriu para si.
- Esta é minha casa.
Só entra quem eu quero.
Estou salva. Aqui a Selma não entra.
Disse isso com tanta força, com tanta propriedade, que num segundo o exterior da casa foi coberto com um tipo de película, como uma capa de protecção contra energias desagradáveis ou negativas.
Era uma espécie de capa na coloração violeta.
Em seguida, Valentina sentiu uma leve brisa acariciar-lhe o rosto.
Uma sensação agradável.
Subiu, trocou de roupa e dormiu o sono dos justos.
Na manhã seguinte, embora com poucas provisões, a mesa do café estava posta na copa Argemiro acordara bem cedo e, seguindo uma lista feita por Benta, discou para o serviço de carro de aluguer, comprou tudo o que fosse necessário para o café da manhã da patroa. Providenciou o que Benta pediu e apanhou um punhado de rosas no jardim.
Quando Valentina desceu e viu a mesa arrumada e as rosas dispostas num jarro, emocionou-se.
Cumprimentou Benta e chamou Argemiro.
- Vejo que tem cuidado desta casa com muito carinho.
Não é época de rosas e, no entanto, você colheu um punhado delas.
Estão lindas.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 9:26 pm

- Amo cuidar do jardim, senhora.
Sou amigo das plantas.
Embora seja importante cada uma das estações do ano para o cultivo da terra e plantio de sementes, nesta casa elas crescem à deriva, apesar do clima quente ou frio.
Eu converso com elas, dou carinho e atenção...
Benta levou a mão à boca, num sorrisinho.
Argemiro abaixou a cabeça, envergonhado.
- Desculpe, d. Valentina.
Sei que falei bobagens, mas é assim que trabalho.
- De maneira alguma, Argemiro.
Penso como você.
- Como assim?
- Eu também tenho o hábito de conversar com as plantas.
- Mesmo?
- Sim. As plantas percebem as vibrações de energia das pessoas e do ambiente como um todo.
Elas são muito sensíveis.
Se elas perceberem nosso amor e carinho, vão florescer lindas e belas, cheias de vida.
Se não lhes dermos a devida atenção, o inverso também ocorre. Elas morrem.
- Penso do mesmo jeito, d. Valentina.
Desde pequeno sempre tive mão boa para plantas.
- Você nasceu com esse dom.
Faz parte de sua natureza.
Continue assim, Argemiro.
Gosto do seu trabalho, gosto muito de você.
Ele levantou a cabeça e fixou seus olhos nos dela.
Procurou disfarçar a emoção na voz.
- Obrigado, d. Valentina - abriu largo sorriso.
Gosto muito da senhora e gosto muito de trabalhar nesta casa.
Que Deus nos abençoe a todos.
- Assim seja, Argemiro.
Tenha um bom dia.
- Com licença.
Ele se retirou e Valentina sentou-se para tomar seu café.
Após o desjejum ela apanhou a bolsa, as luvas e solicitou um carro de aluguer.
Chegou no casarão dos Campos Elíseos e Paulo Renato ainda estava em casa.
Valentina sentiu uma energia pesada no ambiente.
Percebia o local conturbado, extremamente desagradável.
Ela respirou fundo, lembrou-se das conversas com seus amigos do "sarau filosófico".
Fez uma meditação e, numa postura firme e decidida, entrou na sala.
O irmão levantou-se de pronto.
- Precisamos conversar.
Fiquei muito triste e magoado com a sua saída súbita de casa.
O motorista me disse que ouviu comentários hoje cedo na vizinhança.
- E eu com isso?
- Não gosto de cenas.
E que não é de bom tom que as pessoas comentem sobre nós.
Já não basta você ser chamada de modernista.
Qualquer assunto relativo a você vira matéria dessas revistas de fofocas.
- Problema deles.
Eu não devo nada a ninguém.
- Vamos conversar.
Selma vai ficar alguns dias e depois tudo voltará ao normal.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 9:27 pm

Valentina estava vestida de firmeza e serenidade.
Com voz imperturbável, deu a palavra:
- Eu amo muito você, Paulo Renato.
É meu irmão querido.
No entanto, temos muitas diferenças de ideias em relação à vida, ao mundo, às pessoas.
Tenho me fortalecido nos últimos anos, procurado respostas para tantas indagações e hoje sou uma mulher mais lúcida, vivo melhor comigo mesma.
Não tolero mais ter de conviver com pessoas por conta da etiqueta social.
Convivo com as pessoas pelo que elas têm de bom para oferecer.
Eu respeito a sua maneira de encarar a vida.
Respeito que você dê mais atenção ao mundo do que aos próprios sentimentos.
Mas eu não compactuo com isso.
Preciso viver a minha vida, ao meu modo, da minha maneira.
- Sempre foi assim.
Você sempre fez o que quis.
Depois que Auguste morreu você mudou bastante.
Com a morte de nossos pais você mudou mais ainda.
E vivemos bem assim, com nossas diferenças.
- Não vivemos.
Eu fiz de tudo para ficar bem, para ficar em paz, para manter esta casa longe de energias que atrapalhassem nosso dia-a-dia.
- Bobagens! Você e suas "energias".
Eu não vejo nada.
Valentina sorriu.
Caminhou até próximo da janela.
Abriu a cortina.
O sol invadiu o ambiente.
Ela passou os dedos sobre o aparador e no mesmo instante folículos de pó começaram a dançar no ar a olhos vistos.
Em seguida ela cerrou a cortina.
Era como se a poeira voltasse a ser invisível aos olhos.
- Percebe?
- O quê?
- Eu deixei o Sol entrar e você viu as partículas de pó.
Fechei a cortina e é como se o pó não estivesse circulando.
Isso mostra que existem muitas coisas que nossos olhos não enxergam.
Nossos olhos não enxergam o pó, mas ele está aqui, entre nós.
O mesmo acontece com as energias.
Elas não são palpáveis, não são vistas a olho nu, no entanto, estão ao nosso redor, interferindo e influenciando nossa vida, seja para o bem, seja para o mal.
- Não seja dramática.
Selma é tão-somente uma mulher carente que precisa de companhia.
Ela gosta de mim.
- Se você pensa assim...
- Está fazendo juízo errado de nossa prima.
Ela é boa pessoa.
- Não vim aqui perder meu tempo para falar de Selma.
Vim porque vou deixar com você esta lista - ela retirou um papel da bolsa.
- O que é isso?
- São as roupas e objectos que desejo que sejam enviados para minha nova casa.
Sabe que sempre apreciei a arte e quero todos os meus quadros e esculturas.
Você nunca ligou para os objectos de arte.
- Tem toda razão. - Paulo Renato deu uma olhada rápida na lista e meneou a cabeça para cima e para baixo.
O que pede é justo.
Lamento que tenhamos de fazer isso.
Eu queria muito que você ficasse.
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Ave sem Ninho

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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 9:27 pm

Valentina aproximou-se e o beijou no rosto, com imenso carinho.
- Você é bom.
Infelizmente ainda vai precisar de um pouco mais de lucidez para enxergar as coisas como são.
E esse exercício é seu, não meu.
Fique em paz.
Ela falou, rodou nos calcanhares e saiu.
Paulo Renato ficou olhando para a silhueta de Valentina até ala desaparecer na curva do vestíbulo.
Sentiu um aperto no peito sem igual.
Mas era hora de cada um seguir seu caminho, tinha de ser assim.
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Ave sem Ninho

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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 9:27 pm

CAPÍTULO 26

Depois da notícia triste sobre a morte da irmãzinha e o sumiço da desventurada madrasta, Marilda sentiu que precisava estar mais próxima de Lilian.
Após a caminhada e o sorvete, voltaram ao distrito e ela pediu que Marcos fizesse companhia à garota e foi conversar com seu chefe no hotel.
Pediria umas duas semanas até que tudo ficasse ajeitado.
Mas o chefe nem quis saber.
- Depois da Revolução eu tenho um monte de mulher que quer trabalhar até pela metade do seu salário.
Só uma semana. Nem mais, nem menos.
- É problema delicado.
Preciso subir até São Paulo e retorno no máximo em quinze dias.
Sempre fui óptima empregada aqui no hotel.
O senhor há de convir que...
Ele a cortou com as mãos.
Pegou umas notas de dinheiro.
- Isso é tudo. Pode ir.
Não a quero mais aqui.
Marilda engoliu em seco.
Depois de anos trabalhando no hotel, sendo excelente funcionária, cumpridora de seus horários e deveres, era sumariamente despedida, sem direito a nada, pois naquela época os trabalhados não tinham garantias; não havia leis que asseguravam os direitos trabalhistas.
Ela estava arrasada.
O dinheiro que recebera mal dava para cobrir o aluguer.
Precisava conversar com Jaime.
Ele iria ajudá-la.
Assim que regressasse da capital paulista, eles alugariam outro casebre, e poderia arrumar outro emprego.
Antes de voltar à delegacia ela passou em casa.
Jaime estava deitado no sofá, abraçado a uma garrafa de cachaça.
Roncava e se remexia.
Ela olhou para os lados e o cómodo estava uma bagunça só.
No entanto, o pouco que ali havia era devido ao seu trabalho, ao seu suor.
Jaime em nada contribuíra para a mobília, para nada, afinal, torrava tudo na jogatina.
Marilda sentiu sede.
Pegou um copo sujo sobre a pia e quando foi lavado, o copo escorregou e se espatifou no chão.
Jaime acordou.
- Desculpe-me. Não queria fazer barulho.
Vim pegar umas mudas de roupa.
Vou a São Paulo e retorno dentro de alguns dias.
- Como?
- Fui demitida do hotel.
- Aprontou de novo?
Como pôde ser mandada embora logo agora?
Eu também não tenho trabalho fixo.
O que vamos fazer?
- Boa pergunta. Vou conversar com o proprietário deste imóvel.
Pedir mais um mês para acertar o aluguer.
Não sou mulher de ficar parada.
Logo aparecerá alguma coisa. Sou útil.
Jaime apoiou-se na poltrona.
Olhava nervosamente para a porta de entrada.
- O que foi?
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 9:27 pm

- Na... nada.
Pensei que estivesse no trabalho.
Você nunca chega cedo em casa.
- E daí?
- Bom - ele coçou a cabeça - pensei que fosse chegar só à noite.
- Jaime, as coisas estão ficando pretas para o nosso lado.
Você mal consegue manter-se num emprego fixo.
Tem bebido além da conta e é fã de um casino.
Eu acabei de ser demitida.
Precisamos pensar numa solução para não irmos parar debaixo da ponte.
Jaime continuava olhando para a porta e para o relógio.
Estava aturdido.
Alguém chegaria a qualquer momento...
Marilda meneou a cabeça para os lados.
- Não adianta conversar.
Vou arrumar a mala e depois conversar com o proprietário.
Nunca fui mulher de atrasar aluguer.
Ela falou e foi para o quarto arrumar as roupas.
Consultou o relógio na cabeceira e estava preocupada.
Lilian estava sozinha na delegacia e ela precisava ir ter com ela o mais rápido possível.
Enquanto terminava de juntar as roupas, Marilda ouviu vozes vindas da sala.
Estranhou. O tom da conversa aumentou e ela não pôde deixar de escutar.
Era uma mulher quem falava:
- Não aguento mais ficar na surdina.
Não quero mais ser a outra.
Eu pago a sua bebida e seu jogo.
Você me disse que ia conversar com ela hoje e...
Marilda apareceu na sala.
- Conversar comigo?
O que Jaime teria para conversar comigo?
Ele enrubesceu e a mulher colocou as mãos no quadril.
Media Marilda de cima abaixo, com olhos reprovadores.
- Essa é a lambisgóia que o sustenta?
Por Deus, Jaime, eu sou bem mais bonita e vistosa.
Ele não sabia o que dizer.
- Você está me traindo com uma rameira? - indagou Marilda, nervosa.
- Não sou rameira, não.
Vivi de prostituição, mas não vendo mais meu corpo.
Eu sustento o vício do seu marido e mantenho a cama dele quente.
Marilda fingia não escutá-la.
Passou um olhar de reprovação à mulher e em seguida seus olhos miraram o companheiro:
- Há quanto tempo você me trai?
- Não é bem assim - tornou ele, confuso.
- Há quanto tempo?
Foi a mulher quem respondeu:
- Há alguns meses. Somos felizes.
Jaime estava esperando o momento certo para lhe contar.
Vamos viver juntos.
Marilda olhou para Jaime.
Sua aparência era péssima.
Ele continuava abraçado à garrafa de cachaça.
Seu corpo exalava um cheiro acre, mistura de bebida com falta de banho.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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