UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 9:28 pm

Dele, os olhos de Marilda percorreram a sala tosca e mal-arrumada.
- O que eu quero de minha vida?
Bom, eu não sei o que quero, mais sei o que não quero - enfatizou.
Não quero viver essa vida pobre, sem atractivos.
Não quero um homem ao meu lado inútil e beberrão.
Não mereço isso.
- Merece os chifres que ele te botou, isso sim - redarguiu a mulher, dando uma gargalhada e em seguida olhando-a com ares de superioridade.
- Fique com ele. Fique com a casa, com tudo.
Eu vou terminar de fazer minha mala e vou-me embora.
Não volto mais.
- Marilda, precisamos conversar.
Não é bem assim...
A mulher o censurou.
- O que é isso, Jaime?
Não é bem assim o quê?
É bom que ela saiba que vamos ficar juntos.
- E você não queria que Lilian ficasse aqui connosco.
Dizia que eu era só sua.
- Mentira! - esbracejou a mulher.
Jaime diz isso só para mim, não é querido?
Ele afundou as mãos no rosto.
Marilda finalmente descobriu que Jaime não prestava.
- Vocês se merecem.
Marilda virou as costas e voltou para o quarto.
Nem se dava conta de quanto tempo havia vivido ao lado daquele homem.
Num instante as memórias assaltaram de súbito a sua mente.
Lembrou-se de quando saiu de casa grávida do namorado.
O pai não quis ajudá-la e ela teve de se virar.
O namorado lhe virou as costas e ela veio para Santos.
Perdeu o bebé.
Fragilizada e sentindo falta de apoio, deixara-se levar na conversa e caiu na lábia de Jaime.
Ele era um moço bem bonito dez anos atrás.
Alto, forte, trabalhava nas docas.
Marilda sentiu-se protegida e assim foi vivendo.
Nos últimos anos Jaime dera para beber além da conta e vivia de bicos.
Ela era quem sustentava de facto a casa.
Nunca houve amor, paixão, nada.
No entanto, ele tinha algo inegável: era amante fervoroso na cama.
Marilda sentia-se plenamente realizada com ele.
Mas os anos mostraram que somente sexo não era capaz de manter um relacionamento aceso.
Precisava de muito mais para que um romance seguisse adiante.
Jaime fora um suporte, ela acreditava.
Mas como ele fora um suporte se ela fizera tudo?
Marilda sorriu para si.
Sentia-se mais forte e confiante.
Jaime era um estorvo em sua vida e era chegado o momento de desligar-se dele para sempre.
Ela terminou de arrumar as roupas, em seguida pegou os artigos de uso pessoal.
Entrou na sala e a mulher estava abraçada a Jaime.
- Não vai levar nada do que tem aqui.
Vou conversar com o dono do imóvel e vamos continuar vivendo nesta casa.
Marilda deu de ombros.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 9:28 pm

- Faça o que bem entender.
Eu não boto mais os meus pés aqui.
- Isso é desplante!
Perdeu seu homem para mim.
- Eu não perdi nada.
- Jaime me faz mulher.
Ele sabe das coisas.
Ele sorriu e abaixou a cabeça em seguida para que Marilda não percebesse o ar de satisfação em ser disputado.
- Fiquem juntos.
Como disse anteriormente, vocês se merecem. Adeus.
Ela saiu e nem olhou para trás.
Foi caminhando, passos lentos, arrastando sua mala.
Mais uma vez saía para o mundo, sozinha.
Mas desta vez Marilda tinha certeza de uma coisa:
ela iria triunfar, pois se sentia forte.
Não era mais a garota triste e medrosa de anos atrás.
Agora era mulher que aprendera bastante.
Sofrera e estava na hora de dar nova guinada em sua vida.
No fundo, sentia-se feliz.
Ao dobrar a rua, apressou o passo.
Precisava cuidar de Lilian.
Marilda chegou à delegacia e a menina correu ao seu encontro, abraçando-a com força.
- Pensei que havia fugido.
Marilda afagou-lhe os cabelos.
- Não, minha querida.
Eu prometi que voltaria.
- Demorou bastante.
- Fui fazer minhas malas.
Marcos puxou-lhe discretamente pelo braço.
- Vamos subir a serra logo mais.
Comprei as passagens.
Só não sei quando você voltará para Santos.
- Creio que nunca mais.
- Por que diz isso?
- Fui demitida.
- Sinto muito.
- E o homem com quem vivia me colocou dois chifres deste tamanho - ela fez um gesto engraçado com a mão, metendo os dedos na testa.
A sorte não está do meu lado - tornou, sorridente.
- Depois de tudo isso, ainda sorri?
É mulher de muita fibra, Marilda.
- De que adianta chorar?
Não sou mulher tão culta, pois estudei até o clássico.
Contudo, sou boa na faxina, cozinho muito bem, sou organizada e disciplinada.
Adoro cuidar de casa.
Sou pau para toda obra.
E, de mais a mais, Jaime é um perdido.
Eu sustentava a casa, colocava comida na mesa, pagava o aluguer.
De que adianta viver ao lado de um vagabundo?
Quer saber?
Aquela mulher me fez um grande favor.
Tirou aquela pedra enorme que atrapalhava meu caminho.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 9:28 pm

- No que puder ajudar, conte comigo.
Eu tenho bons contactos em São Paulo e não vai ser difícil você arrumar um emprego.
Marilda sorriu emocionada.
- Obrigada, Marcos. Agradeço.
- Vamos partir logo mais.
- Comentou com Lilian sobre a irmã?
- Não. Deixarei essa tarefa desagradável com Carmela.
Ela saberá como contar toda a história para a menina.
Vamos, tenho de assinar uns papéis e comeremos algo antes de o trem partir.
Marilda assentiu com a cabeça.
Havia perdido o emprego e o companheiro de mais de dez anos, tudo numa única manhã.
Ela respirou fundo, olhou para o céu e agradeceu.
Sabia que por debaixo dessa aparente desgraça, algo de bom estaria por acontecer.
O instinto de Marilda estava absolutamente certo.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 9:28 pm

CAPÍTULO 27

O médico terminou de examinar o tornozelo de Selma.
Ela podia voltar a andar.
Devagar, passos lentos.
Dali a uma semana, poderia inclusive voltar para Leme.
Ela sorriu e, quando o médico partiu, ela tratou de se arrumar.
Fazia três dias que estava presa naquele quarto e não sabia o que acontecera até então.
Jurema limitava-se a entrar no quarto para levar e retirar a bandeja com as refeições.
- Essa casa está calma demais.
Preciso saber como andam as coisas.
Jurema entrou depois que o médico saiu.
- Quer que traga seu café, d. Selma?
- Não. Vou tomar um bom banho, colocar um lindo vestido e descer para o desjejum.
Vou tomar o café na saleta de refeições.
Chega de ficar nesta cama.
A criada nada respondeu.
Estava de saída quando Selma lhe perguntou:
- Quanto ganha aqui?
Jurema falou o valor e ela indagou em seguida:
- Gostaria de ganhar mais?
Os olhos da criada brilharam de cobiça.
- Sim, senhora.
- Depois do café conversaremos.
A criada sorriu e saiu.
Jurema não gostava nadinha de Selma.
Tinha um ódio surdo e brutal pela mulher.
Mas precisava de dinheiro, estava interessada num sujeito e necessitava comprar umas fazendas para fazer novas roupas.
Precisava chamar a atenção dele.
- O dinheiro dessa dona pode me ser útil.
Vou me fingir de amiga. Farei o que ela pedir.
Uma hora depois, Selma estava sentada e saboreando seu café da manhã.
Havia caprichado no visual.
Embora fosse petulante, chata e irritante, era uma mulher bonita e sabia se vestir com classe.
Paulo Renato entrou na saleta e espantou-se com tamanha beleza e disposição.
- Ora, ora!
Mal o médico saiu de casa e resolveu botar as asinhas para fora?
Danadinha.
Selma levou a mão à boca, num riso calculado e fingido.
- Doutor Mendes praticamente me deu alta.
Disse que eu preciso caminhar aos poucos.
- Soube que você poderá voltar para Leme na semana que vem.
Essa informação Selma não queria que Mendes tivesse passado para o primo.
Ela estava já pensando numa maneira de ficar mais tempo.
- Poderei voltar.
Mas antes gostaria de ver com Valentina sobre...
Paulo Renato a cortou com amabilidade na voz.
- Valentina não está mais morando aqui.
- Como não?
Aqui é a casa ela! - falou, num tom fingido, pois sabia que a prima partira de vez.
- Mudou-se, de facto, na noite em que você se acidentou.
Selma levou a mão ao peito.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 9:29 pm

Em seguida, abaixou a cabeça, choramingando.
- Foi culpa minha. Tudo culpa minha!
- Não foi. Valentina é mulher de personalidade forte.
Sinto dizer, mais ela não gosta de você.
Selma sempre soube disso.
Não era nenhuma novidade.
Ela também não nutria simpatia pela prima.
Mas sabia que Paulo Renato era altamente manipulável.
Se ele seguia à risca tudo o que Valentina lhe dizia, agora era ela quem iria lhe ditar as regras.
Por dentro ela vibrava, exultava de alegria.
Por fora, demonstrava estar estarrecida com o ocorrido.
- Mil vezes culpa minha!
Farei o possível para que Valentina retorne.
- Ela mudou-se para a casa do Morumbi.
- Ela não pode viver naquele fim de mundo. Aqui é o seu lar.
- Não creio que seja o momento para falarmos sobre o assunto.
- O que eu poderia fazer para Valentina gostar de mim?
- Nada.
Ela percebeu a animosidade na voz do primo.
Procurou contemporizar:
- Precisamos falar sobre a venda da fazenda.
- Não quero mais falar sobre o assunto, por ora.
Selma nada disse.
Precisava arrumar uma maneira de alegrar Paulo Renato e fazer com que ele acreditasse que ela iria assinar, finalmente, os papéis para a venda da fazenda, em Leme.
Estava feliz.
Valentina havia saído de seu caminho e ela estava sozinha naquele casarão.
Continuaria pagando uma soma de dinheiro a Inês para que a secretária vigiasse o patrão e daria um dinheirinho também para Jurema.
Tudo estava a seu favor.
Foi depois do café, quando pôde caminhar a passos lentos pela casa que ela teve certeza de que Valentina havia ido embora de vez.
As paredes estavam sem os quadros, alguns móveis também não mais estavam ali.
A maioria das esculturas e obras de arte haviam desaparecido.
- Agora eu serei a rainha desta casa - disse para si, enquanto saboreava o ilusório gosto da vitória.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 9:29 pm

CAPÍTULO 28

Ao desembarcar na capital paulista, Lilian não cabia em si tamanho contentamento.
- Finalmente chegamos!
Estou tão feliz. Não vejo a hora de abraçar Clarinha.
Marcos e Marilda entreolharam-se.
Marilda mordiscou os lábios.
- Não se sente cansada?
Podemos descansar e amanhã...
- Nada disso. Quero ir para casa.
Estou com saudades de minha irmã, da minha cama.
Não suporto ficar mais um minuto sequer longe de minha irmãzinha.
- Vamos para a casa de Carmela - ajuntou Marcos.
Você está ciente de que Dinorá foi embora, não é?
- Contaram para mim esse detalhe enquanto subíamos a serra.
Mas ela também levou os móveis?
E minhas roupas?
- Calma, Lilian.
- Como, calma?
Marilda, ela levou tudo de minha casa?
Os móveis e tudo o que tinha lá dentro foi meu pai quem comprou, no tempo que fora casado com minha mãe.
Ela não podia!
- Mas fez.
O importante agora é que vai reencontrar Carmela.
Ela é sua amiga querida, não é?
- Se é! Eu a adoro.
Pegaram um táxi e em vinte minutos estavam na casa de Maria e Cornélio.
Os pais de Carmela a receberam com carinho.
Encheram-na de beijos.
Maria fez um prato especial, do qual a menina apreciava bastante.
Lilian apresentou Marilda e eles simpatizaram muito com ela.
O clima era de alegria.
Carmela surgiu na sala e foi com emoção que as amigas se abraçaram.
As lágrimas corriam insopitáveis, em ambos os rostinhos.
- Amiga. Que susto.
Onde você se meteu?
- Não faço ideia.
Dormi em casa e acordei num galpão sujo.
Mas não quero falar sobre isso agora - Lilian passou as costas da mão sobre os olhos humedecidos.
Onde está Clarinha?
Carmela havia ensaiado a melhor maneira de dizer, mas como falar?
A melhor maneira era a directa, sem rodeios.
No entanto, Lilian indagou:
- Ela ainda está no hospital?
Foi Maria quem disse.
- Sim. Ela ainda está internada.
Carmela pendeu a cabeça negativamente para os lados.
- Não, mãe. De que adianta?
Lilian precisa saber da verdade.
- Que verdade?
- Precisamos conversar. - Carmela pousou suas mãos nas da amiga.
O estado de saúde de Clara piorou e ela não resistiu.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 9:29 pm

- Como, não resistiu?
- Ela estava fraquinha. Debilitada.
- Então ela... Ela... - Lilian não conseguia articular palavra.
Carmela a abraçou e sussurrou em seu ouvido.
- Sim, minha amiga.
Clarinha morreu.
Lilian estava muito cansada e triste para gritar.
De que adiantaria?
Depois de tudo o que lhe acontecera, a morte da irmã coroava sua vida de infortúnios.
De que adiantava viver?
Somente para sofrer?
Se nessa idade já tinha sofrido tanto assim, o que seria sua vida dali dois, cinco, dez anos?
Uma nuvem preta formou-se sobre sua cabeça.
Lilian perdera os sentidos.
Seus braços desprenderam-se dos de Carmela e seu corpo pendeu para trás.
- Ela desmaiou! - gritou Marilda.
- Eu sabia que isso poderia acontecer - respondeu Carmela, voz suave.
- O que vamos fazer?
Precisamos levá-la ao hospital.
- Não, Marilda.
Ela precisa repousar.
Seu corpo está cansado e diante dos últimos acontecimentos o desmaio foi seu melhor amigo.
Lilian precisa mesmo ficar apagada por algumas horas.
Amanhã vai ser outro dia e ela vai acordar melhor.
- Poderíamos tê-la poupado.
- E contar quando, mãe?
Amanhã, depois, semana que vem?
Lilian precisava saber da verdade.
De que adiantaria postergar o comunicado?
Iríamos sofrer e em nada ajudaríamos, com nossa mente apreensiva, esperando o melhor momento, como se existisse um, para lhe dizer sobre a morte de Clara.
Quando se trata de más notícias, qualquer momento é ruim.
Melhor saber tudo na hora.
- Tem razão - ajuntou Marcos.
Amanhã ela vai acordar melhor.
Ao seu lado ela vai se refazer e recomeçar sua vida.
Carmela sorriu e pediu:
- Poderia levá-la para o meu quarto?
Ele fez que sim com a cabeça.
Maria interveio:
- Vai ficar connosco, não?
Marilda não sabia o que responder.
- Na verdade não tenho onde ficar.
A minha preocupação era unicamente com Lilian.
Eu tenho algum dinheiro aqui e amanhã cedo vou procurar uma pensão.
- Longe disso - protestou Cornélio.
Você protegeu nossa pequena Lilian.
Seremos eternamente gratos.
Ficará aqui connosco tanto quanto precisar.
- E amanhã mesmo vou ver se acho um trabalho para você - redarguiu Marcos.
- Obrigada. Eu não tenho como recusar.
Saí de São Paulo há tantos anos.
Agradeço a gentileza.
Eu fico, mas ajudo nos afazeres domésticos.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 9:29 pm

- Vamos para a cozinha - solicitou Maria.
Ajude-me a preparar o jantar.
Enquanto isso, vamos nos conhecendo melhor.
Marilda sorriu feliz.
Pediu licença e acompanhou Maria.
Carmela desceu com Marcos e foram para o jardim em frente à casa.
Sentaram-se em uma namoradeira.
- Não tenho palavras para lhe agradecer a gentileza.
- Não há de quê.
Percebi a sua aflição naquele dia e o que fiz foi ajudar.
Eu tenho contactos e não foi difícil chegar até Lilian.
- Como você chegou até ela?
Que mulher extraordinária!
Marcos sorriu e contou tudo para Carmela.
Não ocultou um facto sequer, nem mesmo sobre o estupro.
Ela ouviu tudo em silêncio.
De vez em quando pendia a cabeça para cima e para baixo.
- Lilian sempre deu muita força ao sofrimento e à dor.
A vida não poderia lhe responder de outra forma.
A vida nos trata como nos tratamos.
- Quer dizer que Lilian é culpada por toda essa desgraceira que lhe aconteceu?
- Sinto informá-lo, mas é.
- Inacreditável. Você não tem coração.
- Tenho. Um coração grande e nobre.
Generoso e amigo.
Você está se deixando levar pelos dramas, pela desgraça, está mergulhado em dor e sofrimento.
No entanto, Lilian escolheu viver acreditando que a vida não é boa, que o mal vence o bem, sempre.
Esse é o mundo que ela criou para si.
Portanto, só pode viver de acordo com o que acredita.
Se ela acha que a vida pune, maltrata e machuca, é isso o que vai encontrar em seu caminho.
- Ela é muito novinha.
Merecia um pouco mais de ternura da vida.
- A ternura funciona somente na ausência da maldade e na presença da bondade.
- Como mudar tudo isso?
- Bom, se ela alterar sua maneira de enxergar o mundo, passar a ver a vida com mais alegria e aprender que tem força suficiente para mudar positivamente o ambiente ao seu redor, terá uma vida plena e feliz.
- Só mudando sua maneira de pensar?
- Sim. Parece fácil.
Mas é exercício árduo, requer muita disciplina, vontade, desejo profundo de estar em comunhão com Deus.
- No entanto...
- Somos dotados de capacidades extraordinárias.
Ao reencarnar neste planeta, a vida nos está dando nova oportunidade de crescimento.
Cada vida na Terra nos ajuda a nos libertarmos das amarras da ilusão.
Passamos vidas e mais vidas acreditando num Deus punitivo, ruim e bravo.
Infelizmente, a figura de Deus alcançou forma humana e o tratamos como tratamos nossos pais.
- Aprendi que Ele é bom e justo.
Mas depois de ver Lilian passar pelo que passou, como acreditar nisso?
- Porque você humanizou a forma divina.
Se algo de bom nos acontece, é porque foi obra de Deus.
Se algo de ruim nos acontece, é porque somos burros e merecemos ser castigados.
Eu não fui educada a ser minha amiga.
Você não aprendeu a ser seu próprio amigo.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 9:29 pm

O mundo lhe tira o poder de ser dono de si, pois, diante disso, quanto mais tomamos consciência do poder que temos para mudar a nós mesmos e consequentemente o mundo ao nosso redor, menos as pessoas terão poder e força sobre nós.
- Dessa forma você tira o poder do mundo e o coloca todo em si.
- Estamos reencarnados para perceber que essa é a verdade.
Precisamos tomar posse de nós mesmos.
Sermos donos de nós.
Claro que nossa responsabilidade aumenta, porquanto somos responsáveis por tudo o que nos acontece.
- Lilian é uma garota.
Não acho justo o que lhe fizeram.
- Não se trata de ser ou não justo.
Os factos estão aí e a vida só protege os que desconhecem a verdade, pois os que a conhecem são efectivamente responsáveis por tudo o que lhes acontece.
O mesmo acontece connosco.
Quando somos bebés precisamos de alguém que cuide de nós.
Assim que nos tornamos adultos, caminhamos com as nossas próprias pernas.
Veja, a vida só cobra atitudes de cada pessoa quando ela amadureceu o suficiente para aproveitar as lições.
Não se trata de castigo, mas sim de uma excelente oportunidade de aprendizagem.
- Você tem uma maneira bem interessante de interpretar os fatos.
- Sei disso - Carmela sorriu.
Se Lilian quiser, desejar mudar com vontade, vai ter uma vida plena e feliz.
- Acha mesmo?
- Acho.
Marcos estava cada vez mais apaixonado pela jovem.
Havia pensado em várias maneiras de aproximar-se e pedi-la em namoro.
Contudo, tinha medo de ser rejeitado.
Carmela não demonstrava estar interessada.
- Um doce pelo seu pensamento - disse ela.
- Nada.
- Seus olhos estão brilhando. O que é?
Marcos respirou fundo e a encarou nos olhos.
- Inútil eu continuar assim.
- Assim como?
- Dissimulando o que sinto.
- Não estou entendendo.
- Carmela! Eu a amo.
Um brando calor invadiu-lhe o peito.
Ela fechou os olhos e suspirou feliz.
Antes de ela falar, Marcos a tomou nos braços e beijou-lhe os lábios com sofreguidão.
Depois, com voz que a emoção tornava rouca, sussurrou em seus ouvidos:
- Eu a amo.
Quero que seja minha companheira por toda a vida!
- Eu também o amo, Marcos.
Beijaram-se com ardor e começaram a trocar juras de amor.
Cornélio avisou lá de dentro que o jantar estava servido.
Marcos aproveitou a ocasião e pediu a mão de Carmela em namoro.
Maria e Cornélio vibraram de felicidade.
Simpatizavam muito com Marcos.
Nuri apareceu na sala e contemplou o casal e os demais.
Lançou sobre o ambiente pétalas de rosas brancas que, no invisível, destruíam as energias densas emanadas pelo sofrimento e dor de Lilian.
Em seguida, seu espírito deslocou se até o quarto onde estava Lilian.
Beijou a na face.
- Fique bem. Confie.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 28, 2016 9:30 pm

CAPÍTULO 29

Dinorá dobrou a rua e acelerou os passos.
Fazia algum tempo que tinha a nítida sensação de estar sendo novamente seguida.
Um homem de chapéu e sobretudo sempre aparecia em seu caminho nos últimos dias.
Depois que aquele capanga vagabundo se afastara, ela acreditou que o gringo se esquecera dela.
Afinal de contas, Dinorá agora era outra mulher.
Mal se lembrava das meninas ou da vida que levava em São Paulo.
Estava casada com um homem bom, trabalhador e companheiro.
Os negócios do casal não geravam lucros exorbitantes, mas eles pagavam suas contas e tinham uma vida confortável.
Ela percebeu que o sujeito estava chegando mais perto e pisou fundo.
Passou em frente de um armarinho e entrou.
Comprou alfinetes, agulhas, alguns carretéis de linha.
Pagou e, ao sair, olhou para os dois lados da rua para certificar-se de que o indivíduo havia desaparecido.
Ao constatar que aparentemente tudo estava calmo, ela saiu com o pacotinho sobre os braços e seguiu o caminho de casa.
Três quadras antes de chegar, sentiu uma pegada forte no braço.
Ela nem teve tempo de gritar.
Aquele homem de chapéu e sobretudo falou num tom ameaçador:
- Sua vadia!
- O que é isso?
Solte-me, eu vou gritar.
Vou chamar a polícia.
O homem sorriu sinistramente.
- Vadia de uma figa!
Pensou que Adolf tivesse desistido?
O seu prazo está se esgotando.
Ao escutar o nome do cafetão, Dinorá sentiu o estômago embrulhar.
- E agora? - pensou, baixou o tom de voz e continuou:
- Pode me soltar. Eu não vou correr.
- Ainda bem - disse o rapaz.
Eu receberei uma boa quantia por ter espremido você.
Minha missão é avisá-la de que Adolf quer um encontro.
- Encontro?
- Sim. Ele quer uma conversa olho no olho com você.
- Eu não posso.
Sou mulher casada e...
- Cale-se! Sei bem tudinho sobre seu passado.
Não venha com ares de santa para cima de mim.
Se não aparecer neste local logo mais às oito da noite - ele tirou um papel do bolso e o entregou para Dinorá - seu marido vai correr risco de morte.
O seu prazo acabou.
Ela levou a mão à boca.
- Isso não! Bartolomeu não tem nada a ver com isso.
Por favor, não façam mal a ele.
- Se aparecer ao encontro, nada de mal vai lhe acontecer.
O bem-estar de seu marido está em suas mãos.
- Está bem. Eu vou.
Dinorá respirou e caminhou pela Avenida do Mangue.
No início, sentiu as pernas falsearem por instantes.
Adolf seria uma eterna pedra em seu sapato?
Teria de viver eternamente se escondendo do gigolô?
Não, viver assim não valia a pena.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 7:52 pm

Dinorá escutou uma voz feminina em sua mente.
- Conte tudo a Bartolomeu.
Ele vai entender e ajudar.
Ela meneava a cabeça para os lados, negativamente.
- De jeito algum! É muita vergonha.
Não quero que isso aconteça.
- Vergonha?
Como foi que você conheceu Bartolomeu?
Ele sabe do seu passado.
Falar sobre Adolf não vai aborrecê-lo, muito pelo contrário.
Bartolomeu gosta sinceramente de você, tem um bom coração.
Conte-lhe tudo.
Dinorá meneava a cabeça para os lados e não queria dar atenção à voz amiga que tentava ajudá-la.
Passou a mão pela testa, como a afastar os pensamentos.
- Não. Eu sei o que é melhor para mim.
Não vou contar nada para Bartolomeu.
Vou fazer do meu jeito.
O espírito de Nuri, que tentava incutir bons pensamentos na cabeça de Dinorá, desistiu.
- Querida, fiz o que me foi possível.
Tenho tentado nesses meses todos inspirar-lhe bons pensamentos, mas não posso agir no seu lugar.
Cada um é responsável por aquilo que crê.
Você escolheu esse caminho.
Nada mais posso fazer.
Nuri beijou-lhe o rosto e desvaneceu no ar.
Dinorá andava de um lado ao outro da sala.
- Não, não posso contar nada para ele.
Adolf é mau. Bartolomeu é inocente.
Não vamos resistir. Ele acabará com nós dois.
Não posso deixar isso acontecer.
- O que não pode? - indagou Bartolomeu, que acabara de entrar.
- Oh, querido.
Já em casa? - Dinorá fez a pergunta para dissimular sua angústia.
- Fechei a loja e subi.
Você geralmente me ajuda a cerrar as portas.
O que aconteceu?
Ela respondeu de chofre:
- São as regras.
Coisas de mulher.
Sinto-me indisposta.
Ele aproximou-se e a beijou no rosto.
- Podia ter me dito antes.
Quer que eu vá até a farmácia lhe comprar algo?
- Não. Eu mesma vou.
- Mas está indisposta.
- Não. Eu preciso de ar fresco.
Vou num instante e já volto.
- Está bem.
Enquanto isso, vou fazer a contabilidade do dia.
- Está certo, meu bem.
Dinorá beijou-lhe nos lábios, apanhou a bolsa e saiu.
Ao ganhar a rua, abriu a bolsa e apanhou o papel.
Precisava ir até a Praça Quinze. Não era longe.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 7:52 pm

As estrelas despontavam no céu e muitas pessoas se amontoavam para comprar passagens com destino a Niterói e Paquetá.
Dinorá olhou de um lado para o outro, tentava ver se localizava entre os transeuntes aquele rapaz que a abordara horas atrás ou mesmo o rosto do cafetão.
Não demorou muito para ela encontrá-lo.
Adolf estava parado nas imediações da praça.
Dinorá sentiu medo.
Aproximou-se a passos lentos.
Procurou manter voz natural:
- Como vai?
Ele respondeu com o sotaque bem carregado:
- Até que enfim a encontrei.
Não sabe o trabalho que me deu.
- Aquele era um de seus capangas?
- Eu não tenho capangas.
Não posso confiar nem mesmo na minha sombra.
Tempos alias mandei um funcionário atrás de você, contudo, parece que ele não lhe botou medo.
Depois eu escolhi pagar um homem para segui-la.
É um detective ordinário, que trabalha em porta de cadeia.
Quando a gente paga, os resultados aparecem num piscar de olhos.
- Ele me machucou e me xingou.
- Pobrezinha. Desculpe-me.
Da próxima vez que eu contratar alguém para tentar localizar a rameira que me deu calote, vou pedir para que seja mais educado.
- Sem graça.
Você sabe que assim que eu tiver o dinheiro eu lhe pago.
- E por que fugiu de São Paulo?
- Não fugi.
Eu resolvi viver aqui na capital federal.
Casei-me e tenho uma boa vida.
Meu marido não desconfia, mas eu tiro uma quantia de dinheiro do caixa da loja toda semana.
Me dê mais alguns meses e até o fim do ano eu quito a minha dívida.
- Verdade?
- Pode apostar, Adolf.
- Não vou esperar até o fim do ano.
- Por favor...
- Não. Agora não saio mais do seu pé.
Eu tenho contactos e é só eu estalar os dedos - ele fez um gesto característico com a mão - e Bartolomeu morre.
Claro, você morre em seguida e tenho certeza de que vai directo para o hölle.
- Para onde?
- Quando fico irritado misturo português com alemão.
Quis dizer que você vai directo para o inferno.
- Oh, não! - Dinorá sentiu um medo descomunal.
Eu juro que vou lhe pagar.
Só preciso de mais tempo.
- Nein! Negativo.
- Não sei como juntar tanto dinheiro assim.
- Vire-se.
Adolf meteu a mão num dos bolsos do paletó.
Pegou um cartão.
- Aqui está O endereço.
Preciso voltar a São Paulo no domingo.
Portanto, no sábado, você vai me encontrar nesse local aí - indicou com o dedo.
- Eu ajudo o Bartolomeu na loja.
Sábado é dia de muito movimento.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 7:52 pm

- Sábado é o seu prazo final.
- Como eu vou para Paquetá sem despertar suspeitas?
- Problema seu.
Não posso circular pelo Rio.
Tenho lá meus motivos.
Portanto, encontre-me sábado, nesse local, ao meio-dia.
- Mas...
Ele não a esperou terminar de falar.
Fez uma mesura com seu chapéu e sumiu entre os passantes.
Dinorá sentiu um ódio surdo brotar dentro de si.
- Canalha! Patife!
Ele vai ver só o que vou fazer.
- Ainda há tempo de mudar e evitar momentos desagradáveis no futuro.
Era a voz amiga que tentava demover Dinorá de cometer outra loucura.
Ela respondia mentalmente como se estivesse escutando a si própria.
- Mudar o quê?
Eu arrumo o dinheiro e Adolf vai querer mais.
Esse homem é mau e nunca mais vai sossegar.
Vai sempre exigir mais e mais.
- Converse com seu marido.
Seja sincera e não dê asas à maledicência e maldade humanas.
Você mesma prometeu que iria mudar.
Meteu-se numa grande encrenca em última existência no planeta.
Quer arrepender-se novamente?
Atrasar sua jornada evolutiva?
Dinorá não dava ouvidos.
Respondia para si mesma, esbracejando mentalmente:
- Diabos o arrependimento.
Esse crápula merece uma lição.
Bartolomeu tem que ficar longe disso.
Eu vou fazer do meu jeito.
Sábado eu irei me encontrar com Adolf e acabar com essa chantagem.
Nuri deu de ombros.
Estava acostumada com essa vida de mentora.
Ela procurava ajudar os amigos que haviam reencarnado na Terra.
Recebera a dura missão de ajudar esses espíritos reencarnados, incutindo-lhes na mente palavras de estímulo, apoio e superação.
Jamais deveria fazer alguma coisa pelos amigos reencarnados.
Nuri só poderia lhes inspirar bons pensamentos, mais nada.
O resto ficava por conta do livre-arbítrio de cada um.
Ela não podia escolher no lugar deles.
Antes de começar esse trabalho, Nuri fez muitos cursos no astral.
Aprendera a se tornar um ser impessoal, ou seja, a ajudar as pessoas sem se envolver no problema.
Ela era companheira da dor alheia, mas não entrava nessa dor, não se deixava contaminar pelo drama e negatividade, fosse entre os vivos ou os "mortos".
Nuri era espírito dotado de muita sabedoria e muito querida no astral superior, como também no astral inferior.
Tinha amigos em todas as faixas vibratórias e, com a sua firmeza interior, sua integridade, era capaz de andar por todas as dimensões do mundo astral, desde as esferas superiores até o umbral.
No caso de Dinorá, Nuri tentara conversar com a amiga, durante o sono, várias vezes, entretanto a perturbação de Dinorá era tamanha que ela mal conseguia manter-se lúcida fora do corpo físico.
Não havia compatibilidade energética para que ambas pudessem conversar.
A vida era cheia de surpresas e inúmeras possibilidades de crescimento.
Nuri tentava ajudar a amiga com palavras positivas e edificantes.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 7:53 pm

Dinorá as rejeitava e deixava se escorregar num mar de ilusões e aborrecimentos.
Dinorá havia escolhido.
E não havia Cristo que pudesse demovê-la da ideia.
No decorrer da semana ela dissimulou bem e Bartolomeu nada percebeu em seu comportamento.
O sábado chegou e ela pretextou muita dor por conta da menstruação.
Bartolomeu entendeu, afinal, sua esposa vinha sentindo dores fortes nos últimos dias.
- Descanse.
Eu dou conta do recado.
- É dia de muito movimento.
- Eu sei, contudo estou acostumado.
Fique e descanse hoje e amanhã.
Segunda-feira você estará novinha em folha.
- Estarei sim.
Obrigada, querido.
Bartolomeu beijou-a na face.
Foi para a cozinha, requentou o café do dia anterior, comeu uma fatia de bolo e desceu para abrir a loja.
Dinorá ficou na cama por mais uma hora.
Levantou-se, tomou banho, arrumou-se e saiu.
Ao descer, deu uma olhadela na loja e Bartolomeu atendia duas clientes.
Ela aproveitou e acelerou o passo.
Dinorá chegou à Praça Quinze e apertou novamente o passo até chegar a uma pequena fila em frente à bilheteira.
Comprou a passagem e pegou a última barca da manhã.
A distância até Paquetá girava em torno de uma hora.
Dinorá estava tão nervosa que mal percebeu a beleza paisagística do trajecto.
Mal notou a beleza da Ilha Fiscal ou mesmo da Ilha de Jurubaíbas.
Queria chegar a tempo de encontrar o gringo e acabar com a aflição.
No dia anterior pegara uma sacola de couro e metera lá um punhado de notas de dinheiro, misturadas com papel de jornal.
Ela desceu da barca e logo pegou uma charrete com destino à Praça de São Roque, endereço onde deveria encontrar Adolf.
O passeio correu agradável e ela desviou sua atenção, por ora, para outras charretes e bicicletas.
Sorriu ao observar as ruas de saibro e residências antigas e bem conservadas, além de todo aquele verde.
Alguns minutos depois, ela nem precisou pedir para o rapaz parar.
Avistou Adolf num elegante conjunto de linho branco, com chapéu da mesma cor.
Ele sorria sinistramente e Dinorá procurou disfarçar a raiva.
- Cheguei a tempo.
- Bom. Antes vamos dar uma volta.
Quero que você conheça melhor a ilha.
- Não vim a turismo, vim para resolvermos a questão - falou num tom ríspido e mostrou a sacola.
Adolf sorriu.
- Mesmo assim, não quero fazer a transacção aqui na praça.
Acompanhe-me.
- Para onde?
- Vamos descendo.
Vou levá-la até a pedra da Moreninha.
- Que lugar mais estranho é esse?
Adolf gargalhou.
- O que tem de bonita, tem de burra.
- Não me ofenda.
- Uma brasileira que nunca ouviu falar na Moreninha?
Eu, que sou gringo, conheço o romance! Ora essa.
- Não tenho tempo para romances.
Trabalho o dia todo.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 7:53 pm

Adolf não respondeu.
Caminharam em silêncio até o mirante.
- Veja que lugar magnífico.
- Ao diabo o lugar!
Eu não vim até aqui para turismo.
- Seu humor está péssimo.
Quando me servia, ou mesmo quando atendia na minha área, tinha um sorriso mais encantador nos lábios.
Ela não respondeu.
- Trouxe o prometido?
- Sim. Está aqui - apontou para a sacola.
Alguns casais estavam próximos.
O lugar, afinal, era feito para os enamorados.
De repente, do nada, uma nuvem negra surgiu no céu.
O Sol sumiu e as grossas gotas de água começaram a despencar com fúria.
As pessoas corriam para se proteger.
Em instantes o local ficou vazio.
A chuva caía pesadamente sobre a ilha, e parecia transformar em água todo o ódio que Dinorá sentia naquele instante.
Era uma oportunidade única.
Livrar-se do infeliz.
Caso contrário, Adolf iria persegui-la e chantageá-la pelo resto da vida.
Precisava dar um basta e uma lição no gringo.
Ela nem pensou duas vezes.
De maneira rápida, tirou a faca de dentro da sacola e cravou-a no peito dele, com força descomunal.
- Alemão porco e imundo!
Chega de me chantagear. Morra!
Adolf, pego de surpresa, mal teve tempo de se defender.
Olhou para a faca encravada no peito e de lá seus olhos vermelhos de fúria e indignação fulminaram Dinorá.
Com voz carregada de surpresa e raiva, vociferou:
- Verflucht! Maldita! - gritou por fim, em português.
Dinorá retirou a faca.
Adolf meteu a mão sobre o ferimento tentando estancar o sangue, que jorrava aos borbotões.
Em seguida, semi-inconsciente, caiu sobre si próprio e ela golpeou lhe nas costas.
- Posso não conhecer o romance, mas não sou burra!
As últimas palavras dele foram:
- Não vai se livrar de mim tão fácil.
E em seguida teve forças para praguejar em sua língua materna:
- Ich werde dich in der hölle finden...
Dinorá não entendia lhufas do que Adolf pronunciava.
Mas pelo olhar odioso e pelo tom de voz nada amistoso, ela percebeu que ele tentara lhe dizer algo como:
Eu a encontrarei no inferno.
E, de facto, foram essas as últimas palavras do alemão.
Adolf fechou os olhos para sempre.
Ao redor do corpo inerte formou-se uma poça de coloração avermelhada.
Dinorá, horrorizada com o que acabara de fazer, retirou a faca e colocou-a na sacola, mãos trémulas.
Em seguida, passou os dedos nos olhos do alemão e os cerrou.
Colocou o chapéu sobre o rosto de Adolf.
Olhou ressabiada para os lados e nada; nem pessoas, nem pássaros, nem cigarras.
Só chuva e silêncio, um terrível e assustador silêncio.

Trata-se de romântico mirante imortalizado no livro A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, de 1844, tido como o primeiro romance publicado no Brasil e reeditado com êxito até os dias actuais.
O local citado ficou conhecido do grande público por conta do sucesso da novela A Moreninha, interpretada pela actriz Nívea Maria e exibida pela Rede Globo entre 1975/76
(N.A.)
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 7:53 pm

CAPÍTULO 30

Lilian despertou no meio da noite e novamente o grito ecoou pelo quarto.
Carmela acordou de um salto e correu até o colchão onde a amiga dormia.
- O que foi?
- O pesadelo. De novo.
Eu, Clara, um homem e outra mulher. Um horror.
- Faz dois dias que você tem tido esses pesadelos, amiga.
- Faz mais que dois dias.
Há anos esse pesadelo me atormenta.
- Os últimos acontecimentos contribuíram para você ter esses pesadelos.
- Acontece, Carmela, que no sonho eu sou adulta.
Sei que sou eu.
Uso roupas mais antigas.
- Deve ser algo que aconteceu no seu passado, já lhe disse isso tempos atrás.
Lilian passou as mãos pelos olhos.
Levantou o tronco.
- Como assim?
- Se esse sonho se repete e você se vê usando roupas antigas, é algo que a marcou profundamente numa vida passada.
- Acha possível?
Eu vivi outra vida?
- Outra, não. Várias!
Carmela acendeu a luz do abajur e achegou-se até a amiga.
Deitaram-se uma ao lado da outra.
Ela prosseguiu:
- Acredito que viemos várias vezes ao mundo, nascemos, morremos e voltamos.
Se o processo não seguisse essa ordem, como explicar tantas diferenças e desigualdades no mundo?
- Como assim?
- O facto de você não ter pai ou mãe.
Por que você não tem família e eu tenho?
Por que alguns morrem cedo e outros ficam por aqui bem velhinhos?
O que está por trás de tudo isso?
- Deus. Imagino.
- Ora, acredita que a força inteligente que rege o Universo é imparcial?
Não nos foi passado, ao longo dos séculos, que Deus ama igualmente todos os seus filhos?
- Sim, foi o que aprendi.
Mas recuso-me a acreditar num acinte desses!
Como pode?
Se Deus é bom e justo, por que então me tirou minha mãe, depois fez meu pai morrer e ainda por cima levou minha irmãzinha?
Fiquei sem ninguém, sem nada, sem família. Órfã.
Lilian falou e encostou a cabecinha sobre o peito da amiga.
As lágrimas corriam insopitáveis.
Ela bem que queria entender, compreender melhor todo esse processo de dor que se estabelecera em sua vida desde que sua mãe morrera anos atrás.
Ela estava cansada de sofrer.
Perdera os entes queridos e fora brutalmente molestada por um indivíduo asqueroso e detestável.
Lilian sentia que suas forças estavam se esvaindo.
Tinha vontade de morrer.
Pensara, assim que soubera da morte da irmã, na real possibilidade de matar-se.
Comentou isso com Carmela enquanto as lágrimas ainda escorriam pelo rosto vermelho e triste.
- Morrer seria uma óptima escolha.
Sei que é feio, mas confesso a você, minha amiga, que pensei em dar cabo de minha própria vida.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 7:53 pm

- Acredita que se matar iria aliviá-la?
- De que adianta viver?
Para sofrer?
Mal atingi a adolescência e sofri por uma vida inteira.
Não quero uma vida de amarguras e sofrimentos.
- Você é uma pessoa muito negativa.
Sempre reclama de tudo e de todos.
Lilian abriu e fechou a boca.
Estava indignada.
Carmela nunca falara assim com ela.
A amiga prosseguiu:
- Você vem há muito tempo vivendo num processo de mágoas e raivas.
Perdeu o afecto, perdeu a ternura.
Sem ternura, a alma não consegue se expressar.
Infelizmente, você dá muita trela para o mal e, se bem sabe, quando damos espaço para o mal, ele vai entrar em nossa vida.
Nunca pensou numa maneira positiva de encarar a vida, os factos que a cercam?
- Fala isso porque não sofreu o que sofri.
- De que vai adiantar me dizer isso?
Acaso vai mudar o que já aconteceu?
Reclamar muda alguma coisa do que você passou?
- Não.
- Então, procure tirar proveito das situações, não importa se elas foram ruins ou boas.
O que importa é que de acordo com seu padrão de pensamentos vai atrair as situações na sua vida.
Veja, Marilda apareceu na sua vida.
Ela é excelente pessoa.
Os olhos de Lilian brilharam emocionados.
- Isso é!
Marilda é um anjo que caiu do céu.
- Olhe por esse ângulo, pelo lado positivo.
Você viveu determinadas situações desagradáveis porque sua maneira de ser assim o permitiu.
Mude sua maneira de pensar e as coisas serão diferentes.
- É. - ela deu de ombros - talvez o melhor seja ir vivendo e morrer em breve.
- Acredita que morrer seria o fim?
- Nunca ninguém que morreu veio falar comigo.
Não sei se a sua crença na reencarnação é um ponto a ser entendido como verdadeiro.
Acho tudo muito fantasioso.
Carmela fechou os olhos e percebeu o contacto de Nuri.
Um leve toque em sua pele foi o suficiente.
Ela sorriu ao perceber a presença do espírito amigo.
Nesses momentos ficava mais lúcida.
Era por esse motivo que estava falando de maneira mais firme com a amiga.
- Você afirma que nunca conversou com um morto.
- Sim.
- E o que me diz da conversa que teve com seu falecido pai?
Lilian abriu e fechou os olhos várias vezes.
Desprendeu-se do colo da amiga.
Seus olhos ainda inchados e vermelhos de tanto chorar se arregalaram.
- Como sabe disso?
Eu não falei para ninguém!
- Mas eu sei. Sinto.
Algo me diz que você teve contacto com seu pai.
É verdade?
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 7:53 pm

Ela assentiu com a cabeça.
- É sim. Eu vi ou sonhei que vi meu pai.
- Não importa se foi acordada ou em sonho.
De uma forma ou de outra temos a possibilidade de comunicação com outras dimensões de vida.
Você saiu do corpo e conversou com o espírito de Aureliano.
Muito provavelmente ele veio confortá-la e dar-lhe forças.
- Pois certo!
Foi quando... - Lilian lembrou-se do estupro.
Suas faces enrubesceram.
Ela havia contado tudo a Carmela no dia imediato ao seu regresso a São Paulo, no entanto, sentia se envergonhada.
A amiga percebeu o embaraço.
Procurou manter voz tranquila.
- Diante do que lhe ocorreu, não acredita que tudo tenha um motivo de nos acontecer?
Por que você não foi protegida das garras desse brutamontes?
Creio que seu pai deve ter aparecido logo em seguida e - ela olhou para um ponto fixo no quarto - lhe mostrado alguma relação dessa atrocidade com uma vida passada sua.
Lilian lembrou-se imediatamente, pois Nuri aproximou-se e pousou delicadamente uma mão sobre sua testa e outra sobre sua nuca, garantindo que Lilian relembrasse nitidamente o encontro que tivera com Aureliano no armazém do cais do porto.
- Carmela! É impressionante.
Agora eu me lembro de tudo.
Papai apareceu e me confortou!
Ele estava lindo, usando a sua farda.
Eu o vi e me emocionei.
Conversamos e ele disse para ter calma que tudo iria melhorar.
Depois, mostrou alguma cena ou me contou - não me lembro ao certo - sobre uma vida pretérita minha e o porquê de eu ter sofrido aquele abuso.
Eu estava muito triste e fragilizada naquela noite, mas de uma coisa eu tenho certeza:
meu espírito compreende e aceita os factos.
Minha alma ansiava passar pelo mesmo que fiz a outra pessoa.
- Está vendo?
Depois você me diz que não acredita na continuidade da vida depois da morte do corpo físico?
Se não pensarmos que tudo continua pela eternidade, não haveria justiça no mundo capaz de aquietar nossos corações aflitos.
Você vive, cresce sem pai e mãe, sem família.
Mais tarde, lá na frente, você morre.
E eu que tive pais e uma linda família também vou morrer lá na frente.
Ou seja, teremos o mesmo fim, apesar de os caminhos e histórias serem diferentes.
Por que teremos o mesmo fim se tivemos experiências tão diferentes de vida?
Para que então experienciarmos situações desagradáveis e doloridas na vida se vamos morrer?
De que adianta perseguir a bondade como meta de vida e ligar-se tão somente ao bem?
- Tem razão. Se eu pensar dessa forma, uma pessoa que faz o mal e outra que faz o bem... as duas vão morrer e acabou?
Não é justo!
- Não é. Seguindo essa forma de raciocínio, a reencarnação cai como uma luva a fim de nos ajudar a entender melhor o mundo em que vivemos.
Lilian entristeceu-se.
- Gostaria de ter uma vida melhor.
Contudo, minha vida é uma desgraça só.
- Não diga isso, querida.
- Como não?
Eu nem tenho casa para morar.
Estou aqui de favor.
Logo terei de ir embora, ir para uma instituição para menores abandonados.
- Mamãe conversou comigo e ela e papai pensam em ir à justiça para você poder viver connosco.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 7:54 pm

- Jura? Dona Maria faria isso por mim?
- Claro que faria. Mas...
- Mas o quê?
- Por mais que eu queira que isso se torne verdade, algo me diz que seu caminho não é aqui connosco.
Carmela falou com tanta firmeza que Lilian estremeceu por instantes.
Olhou seriamente para a amiga.
Nem ousou rebater ou replicar.
Carmela continuou, influenciada por Nuri:
- Sua vida vai mudar de uma maneira jamais esperada ou sonhada.
Seu espírito precisou passar por determinadas situações a fim de crescer e seguir adiante, com mais firmeza, mais lucidez, mais inteligência.
Você agora conhece a dor, sentiu e viveu dessa dor.
Daqui para a frente vai pensar duas vezes antes de tomar qualquer atitude.
Deixará de ser ansiosa e imprudente.
Terá uma vida óptima, caso siga verdadeiramente os desejos do seu coração.
A vida só vale a pena se vivermos pelas portas do coração.
Lilian emocionou-se.
Sentiu uma força sem igual.
Sentia-se naquele momento amparada e querida.
Sabia que tinha forças e não iria hesitar.
Dali para a frente deixaria de ser uma menina negativa e que se deixava levar por pensamentos ruins e desagradáveis.
Queria ser feliz. Queria viver.
Carmela tirou um pacotinho debaixo do travesseiro.
- O que é isso?
- Hum, não me esqueci.
Feliz aniversário!
Lilian abraçou-a e seus olhos marejaram.
Abriu o pacote e era um metro de tecido muito bonito, de cor viva.
- Vou costurar um lindo vestido para você.
- Obrigada, Carmela.
Muito obrigada.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 7:54 pm

CAPÍTULO 31

Marilda acordou bem naquela manhã.
Havia alguns dias estava hospedada na casa de Carmela e neste dia precisava começar a procurar emprego.
Ainda estava difícil arrumar emprego de um dia para o outro na cidade, por conta da Revolução.
Entretanto, meses haviam se passado e precisava dar um rumo em sua vida.
Ela aprontou-se, colocou o vestido que já começava a ficar puído e desgastado nas mangas.
Mas Marilda tinha muita pouca roupa e estava lisa, sem um tostão.
Se não fosse a generosidade de Maria e Cornélio, ela estaria dormindo num banco de praça.
Maria estava coando o café quando ela apareceu na soleira da cozinha.
- Bom dia!
- Bom dia, Maria.
- Acordou cedo.
Podia ficar mais um pouco no sofá.
Procurei não fazer barulho para não acordá-la.
- Não fez. Eu dormi bem e estou disposta.
Vou atrás de emprego.
Preciso me virar, Maria.
Não posso mais viver da caridade de vocês.
Maria a olhou de cima abaixo.
Com aquela aparência, Marilda não arrumaria nada.
Estava muito mal vestida.
Ela percebeu o olhar reprovador.
- O que foi?
- Essa roupa.
Está velha e com a costura desgastada.
Você não causa boa impressão.
Marilda aproximou se da mesa e sentou-se numa cadeira.
Serviu se de uma xícara de leite.
Em seguida, Maria despejou o café fumegante que acabara de coar.
Marilda pegou o açucareiro e, enquanto adoçava seu café com leite, suspirou triste:
- Eu saí de Santos sem nada.
Não podia me dar ao luxo de gastar em roupas e usava uniforme no emprego.
Sei que minha aparência não é das melhores, mas veja, eu preciso arrumar trabalho, quero me ajeitar aqui em São Paulo.
- Vou ajudá-la.
Carmela tem bom gosto e bom olho para moda.
Tenho certeza de que logo vai se levantar e vai lhe emprestar um vestido.
Assim você se sentirá mais confiante e terá chance real de arranjar um bom emprego.
- Só sei lavar, passar e cozinhar.
Isso não é profissão.
- Como não?
Conheço muita gente que precisa de uma lavadeira, de uma cozinheira.
- Eu gostaria muito de continuar próxima de Lilian.
Afeiçoei-me a ela.
- Lilian é um encanto de menina.
Sofreu muitas agruras, mas sinto que ela logo vai superar tudo isso e terá uma vida plena e feliz.
- Acredita mesmo nisso?
- Sim. Absolutamente.
Assim como acredito que você também terá uma vida plena e feliz.
Marilda meneou a cabeça para os lados de maneira negativa.
- Imagine!
Perdi meu emprego, meu companheiro me trocou por outra.
Estou sozinha no mundo.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 7:54 pm

- Eu olharia isso de outra maneira.
- Como assim?
- Você está, em primeiro lugar, viva.
Está saudável, tem disposição.
Perdeu o emprego, mas emprego aparece a todo momento.
Quem quer trabalhar sempre acha trabalho. Sempre.
Em relação ao companheiro que a deixou, bom, eu olho de maneira positiva para essa questão.
Ele não a merecia.
Você é mulher encantadora, Marilda, merece um homem que a valorize, que a ame como você é de verdade.
Ela esboçou leve sorriso.
- Não havia pensado dessa forma.
Estava me sentindo um lixo, abandonada e traída.
Sempre procurei ser uma boa companheira, leal, fiel, amiga.
Cuidava das despesas de casa.
Cumpria com os papéis de uma dona de casa.
- Aí é que está o seu problema.
Ele olhava para você e não via uma mulher, via uma serviçal.
- Não tinha tempo para me arrumar.
Quando saía do emprego ia para o cais e ganhava uns trocados limpando os armazéns.
Precisava pagar o aluguer e comprar comida, pois Jaime gastava tudo em bebida e jogo.
- Trate de ser mais feminina, mesmo que tenha de pagar o aluguer e comprar comida.
Uma mulher precisa e deve valorizar sua aparência, sua feminilidade.
Você é uma mulher bonita.
- Não sou. Estou gasta.
Maria riu-se com gosto.
- Nada como um novo corte de cabelo, novo penteado.
Carmela vai lhe emprestar alguns vestidos e ensiná-la a usar pó-de-arroz, batom e rouge.
Vai encontrar emprego rapidinho.
- Obrigada, Maria.
Vocês têm sido uns amores comigo.
Em seguida Carmela e Lilian apareceram na cozinha.
Estavam bem-dispostas.
A conversa que tiveram na madrugada fizera muito bem a Lilian.
Elas beijaram Maria e Marilda e sentaram se à mesa.
Maria disse:
- Fiz esse bolo de fubá e à noite teremos bolo prestígio para comemorarmos de facto o seu aniversário.
O que me diz?
Lilian sorriu feliz.
- Hum, adoro bolo.
E o prestígio da senhora é dos céus.
Desse jeito vou engordar.
- Isso é bom. Está muito magrinha.
Precisa ganhar força e cor.
Elas se serviram de café e logo Carmela notou o vestido puído de Marilda.
Conversaram animadamente e Carmela lhe deu alguns toques de beleza.
Marilda sentiu-se à vontade com elas e falou de sua vida.
Contou sobre a juventude, a morte da mãe, sobre o namoro e a paixão por Demerval.
Depois veio a gravidez inesperada e Demerval sumiu.
Marilda precisou do apoio do pai, mas ele era muito rígido nos costumes e ideias.
Expulsou-a de casa.
Fazia muitos anos que eles não se viam.
Carmela achou aquela história familiar.
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Ave sem Ninho

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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 7:54 pm

Continuou dando trela para Marilda e fez mais algumas perguntas.
Ela subiu com Marilda e Lilian.
Ajudou-a a escolher um vestido florido e um chapéu de feltro com redinha na frente.
Indicou à Lilian o batom e rouge sobre a penteadeira.
Quando Marilda fechou-se no quarto com Lilian para trocar o vestido, Carmela desceu correndo as escadas e confidenciou à mãe:
- Essa história da Marilda não lhe soa familiar?
- De facto. Mas o que seria?
- Mãe, não se lembra da história do seu Milton?
Eu lhe contei sobre a filha que ele expulsou de casa.
Depois o aconselhei a escrever uma carta para ela. Lembra-se?
- Acredita que seja ela?
- Tudo se encaixa.
Marilda não tem irmãos e perdeu a mãe.
Foi embora grávida. Viveu em Santos.
Seu Milton tem uma filha que engravidou e foi parar em Santos.
A história é muito parecida.
- Não pode ser!
Seria coincidência demais.
- E por acaso acredita mesmo em coincidências?
Maria riu.
- Tem razão.
Nada acontece por acaso.
Mas, se Marilda for mesmo a filha do seu Milton...
Meu Deus! Que maravilha.
- Vamos saber disso já, já.
Marilda desceu e parecia outra mulher.
Os cabelos presos em coque, o vestido de crepe e a maquilhagem leve conferiam-lhe aparência bem mais agradável.
Seus olhos esverdeados foram realçados e o batom vermelho e discreto salientava os lábios carnudos.
Carmela sorriu satisfeita.
- Viu como está melhor?
- Eu me olhei no espelho e nem acreditei.
Estou me sentindo outra mulher.
- Que bom.
- Vou procurar emprego.
- Por que não vai dar uma volta no centro da cidade?
Rever locais que você não vê há tantos anos?
Mal chegou à capital.
Aproveite o tempo.
Está hospedada em casa e poderá ficar quanto tempo quiser.
Você tem casa e comida. Aproveite.
- Não acho justo...
- Um dia ou uma semana não vão alterar nossa rotina.
Fique. Aproveite e vá passear com Lilian.
Antes de Marilda retrucar, Maria pegou a bolsa sobre o guarda-comida e tirou umas notas.
- Aqui está.
O suficiente para as passagens de bonde e para um sorvete.
Voltem perto da tarde para o almoço.
Lilian exultou de felicidade.
- Faz tempo que não ando na cidade.
Vamos, Marilda. Vamos.
- Não sei.
- Eu vou com vocês - tornou Carmela.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 7:54 pm

- Oba! Vamos passear, Marilda - disse Lilian, animada.
Ela olhou para o rostinho alegre e cheio de vida da menina.
Havia poucos dias ela estava largada e acuada num armazém.
Agora estava ali, sorrindo e feliz.
- Vocês estão certas.
Vamos passear.
Carmela subiu e arrumou-se.
Em seguida, as três saíram e tomaram o bonde.
No trajecto, Marilda falou mais sobre sua vida e Carmela descobriu que o pai se chamava Milton.
Sorriu por dentro.
Agora seu amigo não precisaria de cartinha, de nada.
Era só arrumar um encontro entre pai e filha.
Ela iria contar essa incrível coincidência a Marcos assim que ele as visitasse logo à noite.
O passeio transcorreu agradável e Lilian perguntou:
- Quer ir ver seu namorado?
- Não. Marcos está atolado de serviço.
Ele vai jantar em casa hoje à noite.
Posso aguardar e controlar minha ansiedade.
- Gostaria de ver alguns tecidos no Mappin e depois na Tecelagem Francesa.
Vocês me acompanham? - indagou Marilda.
- Eu e Lilian vamos tomar um refresco na leitaria logo ali.
Vá olhar vitrinas e tocar nos tecidos.
Encontramo-nos daqui a uma hora em frente à Praça do Patriarca.
Marilda assentiu com a cabeça e seguiu feliz.
O dia estava ensolarado e as pessoas andavam elegantes e animadas pelas ruas.
Não se percebia mais o clima de guerra na cidade.
Parecia que a vida do paulistano voltara definitivamente ao normal.
Ela sentiu-se observada por dois cavalheiros e sorriu.
Ser notada e admirada fazia-lhe enorme bem, ajudando-a a não se sentir mais rejeitada.
Levantou o queixo e sua figura altiva e sorridente entrou na Tecelagem Francesa.
Em instantes dois vendedores vieram ao seu encontro.
Marilda sentiu-se feliz.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 7:55 pm

CAPÍTULO 32

Com seu jeito sedutor e manipulador, Selma foi ficando, ficando e logo estava praticamente morando na casa de Paulo Renato.
Mudara um pouco seu tom arrogante.
Deixara de falar frases em francês, pois sabia que o primo não gostava.
Esforçava-se para ser a mulher perfeita para ele.
Selma sentia-se confortável em dar ordem aos empregados como se fosse à dona da casa.
E de facto ela se sentia a própria.
Jurema no início tinha raiva da "nova" patroa, porém procurava dissimular sua ira.
Precisava do emprego e obedecia sem pestanejar.
Havia consultado um pai-de-santo e soubera por intermédio dele que Selma queria ficar na casa para se casar com Paulo Renato.
Soubera também que Selma faria de tudo para que o primo caísse de amores por ela.
Jurema aproveitou a dica e passou a mostrar-se amiga.
Precisava ganhar confiança total de Selma e para isso armou pequeno espectáculo.
Certo dia pegou um lenço usado do patrão.
Passou batom nos lábios e, em seguida, beijou delicadamente o lenço.
Imediatamente, colocou-o num dos bolsos do paletó.
Limpou a boca, correu até Selma e mostrou:
- Estava com medo de falar, mas a senhora precisa saber disso - e mostrou o lenço com batom.
- Você mexeu nas roupas do patrão?
- Sim, d. Selma.
Gosto muito da senhora - mentiu - e tenho notado certas coisas estranhas no comportamento do Dr. Paulo Renato.
- O que achou de estranho?
- Tem dias que ele sai do escritório e passa em algum lugar antes de vir para cá.
Os olhos de Selma brilharam rancorosos.
Fazia dias que tentava seduzir o primo e nada.
Percebia certa relutância por parte de Paulo Renato.
Se Jurema estava falando a verdade, deveria estar mais atenta.
Ela acreditou na criada e sorriu simpática.
- Se achar outra pista concreta como essa - apontou para o lenço com batom - eu lhe pagarei bem mais.
A criada sorriu feliz.
Seria fácil enganar a patroa.
Selma estava perdida no mar do ciúme doentio.
Jurema atiçara e mexera em seu ponto fraco.
Ela precisava desesperadamente casar-se com o primo.
E iria resolver o assunto naquela semana.
Selma não era bem-vista pelos outros empregados da casa.
Eles gostavam de Valentina e ela queria morrer quando um dos criados dizia:
“... mas d. Valentina não gosta disso" ou "d. Valentina gosta que passemos óleo de peroba nos móveis a cada quinze dias".
- Não me interessa o que Valentina gosta, ora!
Eu sou a nova patroa de vocês.
E ai se não acatarem minhas ordens.
Todos viviam em estado de medo, puro medo.
Jurema era a única que tirava proveito da situação.
- Agora vou enriquecer - disse para si, enquanto bolava outra maneira de mostrar à patroa os "desvios" do patrão.
Paulo Renato saia do trabalho e, antes de ir para casa, passava no Morumbi.
Sentia falta de Valentina.
Estava ficando insuportável a convivência com Selma.
A prima era invasiva, dominadora, chata e estava se sentindo a dona da casa.
- Mande-a embora.
- Não posso.
- A casa é sua agora. Só sua.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 29, 2016 7:55 pm

- Por favor, Valentina, ajude-me.
Se eu a tivesse escutado antes.
Não sei como tirar Selma de casa.
- Tirando.
- Como?
Amarrada?
Aos solavancos?
- Por certo. Eu a pegaria pelos cabelos e a arrastaria até a calçada.
Em seguida, jogaria sua mala.
Pronto. Serviço executado com sucesso.
- Não brinque comigo.
- Não estou brincando.
Eu faria isso mesmo.
Selma não tem limites.
Não respeita o próximo.
Ela foi assim com os pais.
Lembra-se como fazia titio de gato e sapato?
Ela é manipuladora, não tem escrúpulos para alcançar o que deseja.
- Você pode me ajudar.
Converse com ela.
- De maneira alguma.
- E se ela vier aqui na sua casa?
- Ela não virá.
Selma sabe que comigo existem limites.
Eu me respeito, sou dona de mim.
Ela não bota os pés aqui na minha casa. Nem morta!
- Valentina, estou perdido - Paulo Renato colocou as mãos sobre o rosto.
Passou em seguida as mãos nervosamente pelos cabelos.
- Não está perdido.
Está dramático, isso sim.
Assuma suas vontades.
Você tem medo de dizei "não".
Diz "não" a você, com naturalidade.
Por que diabos não pode dizer "não" a ela?
- É difícil.
- Difícil é negar a si próprio suas vontades em detrimento do que os outros querem.
Você é crescido, adulto.
Precisa saber lidar com suas emoções e impor seus limites.
- Eu gosto dela, mas tem se tornado figura repulsiva.
Manda em todos lá em casa.
Os empregados estão prestes a pedir as contas.
Valentina sorriu.
- Acho óptimo.
Estou precisando de criadas e motorista.
Quem sabe eles vêm trabalhar comigo?
- De maneira alguma.
A casa de Campos Elíseos é grande e dá trabalho.
- Não tem alternativa, meu irmão.
Precisa tirar sua prima de lá.
- Se você for conversar com ela, interceder a meu favor...
- Jamais faço o serviço dos outros.
Não quero essa energia para mim.
Você que trate dos seus assuntos.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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