UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 30, 2016 8:28 pm

Eu lhe dei dicas, alertei, orientei.
Você não quis saber. Não me ouviu.
Deixou a cobra entrar em casa.
- Ela torceu o pé, coitada.
- Hum, esse pé foi deliberadamente torcido.
- Está fantasiando, Valentina.
- Fantasiando? Eu?!
Selma é capaz de qualquer coisa para ficar ao seu lado.
Eu tenho certeza de que torceu o pé de propósito.
Ou tirou e vai tirar proveito desse "incidente".
Ela é terrível.
- Está sendo dura demais.
- E por que está aqui na minha casa?
Por que está me pedindo conselhos?
Paulo Renato coçou a cabeça.
- Tem razão.
Preciso tomar uma atitude.
- Imediatamente.
Antes que seja tarde demais.
Você precisa se impor, meu irmão.
- No fundo, tenho medo dela.
Não sei o porquê.
- Deve ser medo de outra vida.
- Acredita mesmo nisso?
- Acha que nascemos à deriva?
Acredita que somos irmãos ao acaso?
- Gostaria de acreditar, entretanto, é tudo fantasioso, não tem relação com a realidade.
Da maneira que você explica os factos, fica tudo claro.
- Se fica claro é porque tem um fundo de verdade.
- Há casos em que sei que a injustiça foi cometida.
Como advogado quero lutar pelas injustiças sociais.
Contudo, nem sempre levo a melhor.
E se você me afirma que tudo não acontece por acaso, de repente começo a perceber as coisas de outra maneira.
- Precisa rever seus valores, suas atitudes.
O que nos foi ensinado nem sempre é verdadeiro.
Precisamos nos sentir livres para procurar as verdades, satisfazer nossas curiosidades.
- Eu tenho muitas dúvidas na cabeça.
Sobre a vida, sobre a morte...
- Há explicação para tudo, querido.
- Não encontro esse assunto tratado nos jornais, revistas ou roda de amigos.
- Junte-se ao meu grupo às terças-feiras.
Discutimos esses assuntos, não temos medo de falar sobre os mistérios da vida.
- Não sei ao certo.
- Pense. Não tenha pressa.
Na hora certa você virá atrás de respostas.
É natural. Faz parte de nossa natureza querer descobrir, investigar, questionar.
Mais dia, menos dia você virá ao nosso encontro.
Paulo Renato nada disse.
Mordiscou os lábios e consultou o relógio.
- Santa Maria! Dez da noite.
- Fazia tempo que não conversávamos tantos assuntos.
- Sinto-me em paz aqui na sua casa.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 30, 2016 8:28 pm

O ambiente é tão tranquilo e sereno.
- O que deve ser o contrário do que se percebe na sua casa.
- De facto.
- São as energias perturbadoras de Selma que deixam o ar da casa pesado.
Precisa aprender a respeitar-se, Paulo Renato.
Ser dono de suas vontades.
Está na hora de crescer e não repetir os erros do passado.
Ele nada disse. Assentiu com a cabeça.
Estava difícil a convivência com Selma, pois ela era dura e intempestiva.
Era mulher de génio irascível e ele fora educado a não levantar o tom de voz ou mesmo agir de maneira grosseira com uma dama.
Um cavalheiro, segundo a educação que recebera de seus pais, jamais cometia deselegâncias dessa natureza.
Ele iria para casa e conversaria com Selma, civilizadamente.
Ela iria entender.
Assim ele acreditava.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 30, 2016 8:29 pm

CAPÍTULO 33

António chegou em casa radiante.
Arlete sorriu feliz.
Fazia tempo que o filho não demonstrava sinais claros de felicidade.
Desde que a esposa o largara, ele ficara triste e amuado.
Passara dias trancado no quarto e havia alguns dias resolvera reagir.
Acordava cedo, tomava café, arrumava-se e ia passear no centro da cidade.
Visitou lugares da infância e notou como a cidade estava mudada e mais elegante.
A bem da verdade, António havia saído de lá alguns anos atrás e não tivera tempo de notar o quanto a prosperidade e o luxo tiveram seu grande momento em Poços de Caldas enquanto o jogo estivera liberado no Brasil.
A nata da elite brasileira desfilava elegantemente pelos salões do Palace Casino e do Palace Hotel.
Até mesmo celebridades de outros países vinham para Poços.
Para se ter uma ideia da importância da cidade, o então presidente Getúlio Vargas tinha suíte especial no hotel, com decoração idêntica à sua suíte no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, capital do país nesta época da história.
Arlete suspirou:
- O que aconteceu?
Ganhou uma fortuna nas roletas dos casinos?
- Não, mãe.
Aconteceu algo melhor.
- O que foi?
- Acabei de passar nos correios e recebi telegrama informando que fui promovido e serei transferido para Campinas com um salário bem melhor.
- Mesmo?
- Sim, mãe.
Vou estar mais perto de você e papai.
A distância é pouco mais de cento e cinquenta quilómetros, bem menos caso eu continuasse em Belo Horizonte.
Poderei vir mais vezes, caso precisem.
Ela o abraçou feliz.
- Fico tão contente que esteja retomando gosto pela vida.
Estava preocupada.
Você mal se alimentava.
- Agora estou bem.
Isabel faz parte do passado.
Ela me deixou e partiu com outro.
Ela que seja feliz.
Eu vou atrás de minha felicidade.
Cansei de me sentir um pobre coitado.
- Isso mesmo.
Reaja positivamente, meu filho.
António vibrava feliz.
Lenita apareceu na cozinha.
- Você está feliz.
Ele a pegou no colo e a levantou para o alto.
- Estou, irmãzinha.
Estou muito feliz.
- Se você está feliz, eu também estou.
Gosto de você.
António sentiu-se surpreendido.
Os olhos de Lenita brilhavam emocionados.
Por instantes ele sentiu forte emoção.
Mas isso era um despropósito.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 30, 2016 8:29 pm

Lenita era uma menina de pouco mais de cinco anos de idade.
Ele não podia sentir nada que não fosse amor fraternal.
Ele a desceu e a colocou no chão.
Em seguida, ela o puxou para a sala.
- O que é?
- Quero que me conte a historinha da cidade.
- Outra vez?
- De novo.
Você conta tão bonito, António,
Arlete fez um gesto afirmativo com a cabeça.
Ele assentiu e deixou-se conduzir pela irmãzinha postiça até a sala.
Sentaram-se no sofá.
Lenita sentou ao seu lado e sorriu:
- Conte.
- Está bem.
Ele respirou fundo e recomeçou:
- Bom, a cidade recebeu seu primeiro visitante ilustre, o imperador Dom Pedro II, em fins de 1886.
Ele veio acompanhado da imperatriz d. Teresa Cristina, para a inauguração do Ramal da Estrada de Ferro Mogiana.
Três anos depois, em 1889, o município foi desmembrado do distrito de Caldas e elevado à categoria de vila e município.
Município de Poços de Caldas.
- Nossa!
Um imperador como dos livros de historinhas aqui na cidade!
- Para ver a importância de Poços de Caldas.
- Quando ele vai voltar aqui?
- Quem?
- O imperador.
Não tem mais vontade de vir?
Eu adoraria conhecê-lo!
António sorriu da ingenuidade de Lenita.
Tentou, de maneira divertida e didáctica, mostrar a ela que a história que contara era bem antiga e que o imperador morrera havia mais de quarenta anos.
Tentou, mas ela não se convenceu.
Enquanto contava a história, uma nova onda de emoções percorreu o corpo do rapaz.
António olhava para Lenita e sentia muito mais que amor "de irmão".
Era algo que ele não saberia explicar, pois jamais sentira algo parecido, nem mesmo pela sua ex-esposa.
Achou melhor espantar os pensamentos com as mãos e contar novas historinhas divertidas para Lenita, porquanto sua vida iria mudar.
Para melhor.
Marcos chegou no horário marcado para o jantar e, antes de ir para a cozinha, Carmela o chamou para uma conversa na varanda.
Beijaram-se e ele pegou em suas mãos.
- Estava morrendo de saudades.
- Eu também.
- Precisamos falar sobre nosso futuro.
- Estamos namorando há pouco tempo - tornou ela, enquanto se sentavam na namoradeira da varanda.
- Sei o que quero.
Você é a mulher que amo e quero ter por toda a vida ao lado.
Ela sorriu feliz.
- Também o amo.
No entanto precisamos fazer as coisas com calma.
Eu quero trabalhar.
- Concordo plenamente.
Aprecio a inteligência feminina.
Você é mulher culta e eu jamais faria qualquer coisa para impedi-la de fazer o que gosta.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 30, 2016 8:29 pm

- Sei disso, meu querido.
Entretanto, estamos juntos há pouco tempo.
Eu não trabalho e, portanto, não tenho salário.
Como faremos para conseguir casa, por exemplo?
Quem casa quer casa, certo?
- Tem razão.
Eu tenho algumas economias, dinheiro de herança.
Meu tio também pode me dar uma ajudazinha.
Estava pensando em conversar com o Dr. Paulo Renato e fazer-lhe uma proposta de compra da casa em que Lilian vivia.
- Você pensou nisso?
- Não é apaixonada pela casa?
Pois então, vamos comprá-la e reformá-la à sua maneira.
Carmela beijou-o várias vezes nos lábios e no rosto.
- É um amor!
- Sou e serei sempre o seu amor.
- Vai fazer uma proposta ao seu patrão?
- Sim. É um belo imóvel, maior que a casa dos seus pais.
Poderemos reformá-la e estaremos ao lado de seu pai e sua mãe.
Criaremos nossos filhos próximos dos avós.
Não é uma ideia fascinante?
- É uma excelente ideia.
Eu adoro aquela casa e gosto do bairro.
Adoraria que nossos filhos crescessem aqui, perto dos avós.
Marcos emocionou-se e seus olhos marejaram.
- O que foi, querido?
Por que está assim?
- Porque você disse nossos filhos!
- E vão ser de quem?
Do padeiro?
Ele soltou sonora gargalhada e beijou-a várias vezes nos lábios.
- Amo você, Carmela.
Amo mais que tudo nesta vida.
- Também o amo.
Ficaram de braços dados e conversando amenidades.
Em seguida, Maria os chamou, pois o jantar estava sendo servido.
Comeram e conversaram animadamente.
Durante a degustação do licor, Marcos falou dos planos futuros, do noivado, da possibilidade da compra da casa no outro lado da rua.
Cornélio e Maria exultaram de felicidade.
Gostavam muito de Marcos e acreditavam que ele e Carmela teriam um belo e duradouro casamento.
No fim do jantar, Lilian quis lavar a louça e ajudar Marilda no término da sobremesa.
Carmela puxou Marcos discretamente pelo braço.
Voltaram à varanda.
A noite estava quente e as estrelas inundavam o céu.
- O que foi?
- Preciso lhe falar de Marilda.
- O que tem ela?
Carmela falou rapidamente sobre o relato de vida de Marilda e as coincidências que a ligavam a Milton.
Marcos arregalou os olhos, estupefacto.
- Tem certeza de que ouviu essa história toda, da maneira como acabou de me contar?
- Tintim por tintim.
Quando perguntei a Marilda o nome do pai, não tive mais dúvidas, seu Milton é o pai dela.
- É tudo muito fantástico.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 30, 2016 8:29 pm

- Pois sim.
Conversei com seu Milton tempos atrás e ele me contou sobre a história de sua vida.
Falou-me de sua filha, da gravidez, do abandono, da ida dela a Santos.
Tudo se encaixa.
Ele inclusive prometeu-me escrever uma cartinha para ela.
- Pelo jeito não vai mais precisar de cartinha.
- Creio que não.
- Seu Milton anda muito ocupado.
Tem trabalhado bastante.
- Talvez tenha pensado na carta, mas não a tenha escrito.
Estive aqui pensando...
- Sim?
- O que acha de marcarmos um encontro entre ambos?
- Como? Levá-la até o escritório?
- Não. Penso em algo discreto, mais no estilo familiar.
- Numa reunião?
- Pensei num almoço de domingo.
- É uma óptima ideia.
- Como seu Milton vive sozinho, poderíamos convidá-lo para almoçar.
Não avisaremos Marilda.
- Bom, não crê que ele possa ficar chateado e aborrecido?
Afinal, expulsou-a de casa.
- Ele arrependeu se amargamente dessa atitude.
Seu orgulho não permitia um encontro ou reconciliação com a filha.
Entretanto, conversamos bastante e ele foi cedendo, até o ponto em pensar escrever, de facto, a tal carta para Marilda.
- Para nos certificarmos, precisamos saber da boca de seu Milton o nome da filha dele.
Se ele disser que é Marilda...
- Faça isso.
Converse com ele amanhã cedo.
- Pode contar comigo, meu amor.
- Se ele confirmar - disse Carmela - marcamos o almoço para o próximo domingo.
- Perfeito.
Marilda apareceu no jardim e trouxe dois pratinhos com pudim de leite.
- Desculpem, mas esfriou há pouco.
Marcos serviu-se e fechou os olhos.
- Meu Deus!
Eu não comia um pudim desses havia anos.
Foi você mesma quem fez?
Marilda fez sinal afirmativo com a cabeça.
- Receita de minha mãe.
É uma das poucas que me lembro de cabeça.
Carmela provou o doce.
- Está divino.
Você tem excelente mão para a cozinha, Marilda.
- Obrigada. Faço por gosto.
Adoro cozinhar, passar, arrumar.
Aprendi com o serviço no hotel e percebi que adoro cuidar bem de uma casa.
Carmela olhou para ela e seus olhos em seguida fitaram os de Marcos.
- Você não mencionou outro dia que a irmã do Dr. Paulo Renato precisa de empregados na casa nova?
- É verdade.
Dona Valentina mudou se para o bairro do Morumbi e levou somente uma das criadas.
Que eu saiba, ainda não contratou outros empregados.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 30, 2016 8:30 pm

- Algo me diz que Marilda seria perfeita para d. Valentina.
Marilda levou a mão ao peito.
- Puxa! Um emprego em casa de família?
É o que mais quero.
- Posso verificar amanhã mesmo - ajuntou Marcos.
Posso ligar para d. Valentina.
Marcamos um encontro.
- Eu adoraria.
Preciso muito de um trabalho.
- Verei o que posso fazer, Marilda.
- Obrigada, Marcos.
- Só tem uma condição.
- Qual é?
- Que você me traga outra fatia generosa desse delicioso pudim de leite.
- É para já!
Marilda retirou-se e estava feliz.
Um emprego era tudo o que ela mais precisava.
Queria começar nova vida, ter outra actividade, estabelecer-se na cidade grande, ser independente.
Santos não era mais um lugar que tencionava voltar.
Não queria mais reencontrar o ex-companheiro.
Ela suspirou feliz.
Enquanto cortava outra fatia de pudim, olhou de soslaio para Lilian.
A menina estava sorridente e conversava animadamente com Cornélio e Maria.
Seria maravilhoso se pudesse levar Lilian com ela.
Afinal, apegara-se à menina e Lilian não tinha mais nenhum parente vivo.
Marilda fez pequena oração de agradecimento a Deus.
A luz parecia ter retornado em sua vida.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 30, 2016 8:30 pm

CAPÍTULO 34

No dia seguinte, Marcos chamou Milton para uma conversa.
Como de costume, Milton fizera uma planilha com todos os valores cobrados e recebidos, em seguida propôs novas maneiras de cobrança dos alugueis.
Marcos sorriu feliz.
O trabalho de Milton estava rendendo bons frutos para o escritório.
Paulo Renato estava cada vez mais decidido a dedicar-se às aulas na futura universidade e os negócios seriam automaticamente transferidos para as mãos de Marcos.
- Se continuar assim com boas ideias, vou montar uma secção específica de alugueis e o senhor cuidará dela para mim.
Os olhos de Milton brilharam emocionados.
- Seria maravilhoso.
Eu adoro meu trabalho, mas mudar, ter mais responsabilidade, é algo que me fascina e me faz bem.
- Bom escutar isso do senhor.
Preciso de gente com garra e vontade de trabalhar.
Sinto que em breve vou ter de dividir os serviços do escritório e adoraria tê-lo como um dos chefes.
- Obrigado pelo estímulo.
Conversaram outros assuntos relacionados aos inquilinos e, no fim da conversa, Marcos sondou Milton.
Interessou-se em saber mais sobre a vida daquele simpático senhor.
Milton discursava com tremenda clareza e desenvoltura.
Marcos já sabia sobre sua viuvez, mas não sabia nada sobre a única filha, somente algumas referências.
- Você nunca falou sobre sua filha.
Milton coçou a cabeça.
- É um assunto que eu havia deixado guardado numa gaveta, trancada a sete chaves.
Não queria mais ter contacto com essas emoções.
Todavia, a sua pequena - tocou no ombro de Marcos -, com seu jeitinho meigo e dócil, convenceu-me a escrever uma carta para minha filha.
- O senhor a escreveu?
- Ainda não.
Eu sou bom com números, mas minha redacção é péssima.
Sou melhor na conversa, olho no olho.
Não sou muito fã da escrita.
Eu tenho tanta coisa para falar para minha filha que precisaria de um caderno inteiro...
Eles riram.
- Carmela tem o dom de apaziguar e serenar os corações.
- É um espírito iluminado - tornou Milton.
Eu gosto muito de sua namorada.
Ela vai fazê-lo muito feliz.
- Sinto o mesmo.
Carmela é a luz que iluminará para sempre o meu caminho.
- Gostaria muito que minha filha fosse assim, como a sua pequena.
- A propósito, qual é o nome de sua filha?
- Marilda.
Marcos sorriu malicioso.
- Seu Milton, gostaria de almoçar comigo na casa dos pais de Carmela, no domingo?
- Eu? Almoçar?
Por quê?
- Aprecio a sua companhia.
Carmela também tem apreço por sua pessoa.
Gostaríamos que passasse a tarde connosco, a menos que tenha outros compromissos.
- De maneira alguma.
Adoraria participar de um almoço em família.
Desde que minha esposa morreu, os domingos têm sido monótonos e sem graça.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 30, 2016 8:30 pm

- Pois garanto-lhe que este domingo será especial.
- Por quê?
- Apareça na casa de Carmela ao meio-dia.
Será um prazer recebê-lo.
Milton concordou com a cabeça.
Jamais fora convidado para um almoço familiar.
Desde que a esposa morrera e sua filha partira para Santos, ele fechara-se em copas.
Perdera contacto com os familiares do interior.
Estava muito só e nos domingos geralmente acordava cedo, tomava café num bar ali perto de casa e depois fazia uma longa caminhada até o parque da Luz.
Ele gostava de ver as crianças brincando nas fontes, os casais enamorados andando felizes e de mãos dadas.
Lembrava-se dos tempos quando namorava sua esposa.
E dos tempos em que levava Marilda para brincar ao redor do lago e nos jardins floridos e perfumados.
Eram tantas coisas boas que aconteceram em seu passado que Milton sonhava em poder voltar e reviver todas aquelas lindas emoções.
Agora, os tempos haviam mudado e ele estava se sentindo só.
Completamente só.
Era engraçado Marcos tê-lo convidado para ir almoçar na casa dos pais de Carmela, pois naqueles dias sentira uma vontade muito grande em rever a filha.
Havia planeado ir até Santos no sábado ou domingo e procurar Marilda no hotel em que ela supostamente trabalhava.
Agora, com o convite irresistível que Marcos lhe fizera, deixaria Santos para a próxima semana.
Assim teria como organizar melhor sua viagem.
Na tardinha do mesmo dia, uma cliente veio entregar alguns papéis para Paulo Renato.
Inês imediatamente ligou para Selma, avisando-a da chegada de uma mulher ao escritório.
- Ela é bonita? - indagou Selma.
- Muito. Se eu fosse a senhora, viria imediatamente para cá.
Quando essa cliente vem, o Dr. Paulo Renato tranca-se com ela e sabe Deus o que acontece entre as quatro paredes daquela sala.
- Sirva café e água para essa despeitada.
Entre e saia quantas vezes for necessário.
Não os deixe a sós um minuto sequer.
- Eu sei, d. Selma, é que eu preciso ir embora, está no fim do expediente.
- Estarei aí em poucos minutos.
E, se fizer o que lhe peço, será regiamente recompensada.
- Sim, senhora.
Inês desligou o telefone.
Sorriu para sua amiga.
- Bom, Elenice, sabe como proceder.
É só jogar um charme para o Dr. Paulo Renato.
- Não gosto de fazer isso.
- Preciso lhe pagar os perfumes, não tenho dinheiro.
Se d. Selma a vir na sala do Dr. Paulo Renato, nem que seja por um minuto, eu ganho uma boa quantia em dinheiro.
Pago você e ainda me sobra um bom troco.
- Está abusando da madame.
Se ela desconfiar que você atiça as clientes para fazerem charminho ao doutor, sei não...
- Ela nunca vai desconfiar.
É uma bobona. É louca pelo Paulo Renato.
Se eu digo que alguém está interessada, d. Selma fica possessa, louca e me dá mais dinheiro.
As duas riram.
- Inês, essa sua mania de tirar vantagem dos outros é perigosa.
- Ela nunca vai desconfiar.
Outro dia mesmo estava precisando de um dinheiro extra.
Não tive dúvidas. Liguei para a Nilza, lembra-se dela?
- Aquela actriz de teatro de revista?
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 30, 2016 8:30 pm

- Ela mesma.
Liguei e pedi que fizesse um pequeno acto aqui no escritório.
Liguei para Selma e a louca veio correndo.
Acreditou que a Nilza fosse cliente e estava dando em cima do Dr. Paulo Renato.
Ganhei meu dinheiro.
Elenice entrou na sala de Paulo Renato.
Ele estava na sala de Marcos.
Para Selma pouco importava onde ele estivesse.
Ela não tolerava, de forma alguma, mulher bonita no escritório.
Inês sorria de satisfação e dizia para si mesma:
- Otária! Como é fácil enganar essas madames fúteis e idiotas.
Selma chegou em seguida e ao ver Elenice teve um treco.
A mulher era muito bonita, mas em seguida Inês fez uma pequena cena e a tirou de lá.
- Obrigada, Inês.
Não sei o que seria de mim sem tê-la aqui espionando o escritório.
- Imagine, d. Selma.
Eu faço isso com sentimento verdadeiro de amizade.
Prezo seu bem-estar e não admito que mulher alguma se insinue para o Dr. Paulo Renato.
Ele tem de ter olhos somente para a senhora, mais ninguém.
- Isso mesmo.
Assim é que se fala.
Não quero mulher metida neste escritório.
Selma retirou uma generosa quantidade de notas da bolsa e as entregou a Inês.
- Dona Selma, quanto dinheiro!
- Sei recompensar meus aliados.
- Obrigada.
- Onde está Paulo Renato?
- Eu o afastei da sala tão logo a sedutora chegou - mentiu.
Ele agora está trancado com o Dr. Marcos.
- Mesmo?
- Pode confiar.
Selma assentiu com a cabeça e foi até a sala de Marcos.
Bateu e sorriu aliviada ao ver o primo sentado com o rapaz.
Somente os dois.
- O que faz aqui? - indagou Paulo Renato.
- Vim fazer compras na Rua São Bento.
Estava precisando de luvas e passei para dar um oi.
Estou de saída - em seguida fuzilou Marcos com os olhos - Au revoir.
Ela nunca se esquecera da reprimenda subtil que recebera do jovem tempos atrás, dizendo a ela que falar frases em francês não era de bom tom.
Afinal, o que aquele garoto recém-saído das fraldas sabia sobre elegância?
Ele era classe média e jamais havia saído do país.
Achava-o metido e insuportável.
Rodou nos calcanhares e saiu.
Fez uma mesura com as mãos para Inês e tomou o elevador.
Inês sorriu feliz.
- Como é fácil enganar essa trouxa.
Nunca vi uma mulher tão fútil e arrogante em toda a minha vida.
Com esse dinheiro vou comprar um tecido e fazer um belo vestido.
Vou arrumar um marido rico e me dar bem.
Ela nem notou as sombras escuras que estavam ao seu redor, alimentando-se de suas ideias mesquinhas e de sua mentalidade torpe.
Inês não sentiu a presença dessas sombras.
Estava acostumada com elas, desde a adolescência, quando aprendera a tirar vantagem e ludibriar as pessoas.
Esses espíritos perdidos em nossa dimensão alimentavam-se dos pensamentos negativos dela.
E ajudavam Inês a levar adiante seus planos para arrancar cada vez mais dinheiro de Selma.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 30, 2016 8:31 pm

CAPÍTULO 35

O domingo amanheceu ensolarado e sem nuvens.
O céu era de um azul intenso e convidava as pessoas a um passeio ou a sentarem-se em confortáveis cadeiras na frente de suas casas, formando rodas animadas com os vizinhos, costume bastante frequente naqueles tempos, entre os moradores da capital paulistana.
Marcos acordou cedo, barbeou-se e colocou uma roupa desportiva.
Estava feliz, pois, além de permitir o reencontro entre Marilda e Milton, tinha outra notícia feliz para dar à moça.
Ligara para Valentina e ela concordara em receber Marilda para uma entrevista, na semana seguinte.
Ela estava precisando de empregados e a indicação de Marcos viera a calhar.
O amor que sentia por Carmela aumentava a cada dia e ele não tinha mais dúvidas:
iria pedir sua mão em casamento o mais breve possível.
Marcos vivia na casa dos tios, Claudemiro e Odete.
Eles eram óptimas pessoas, haviam cuidado de Marcos desde que o avô falecera.
Agora ele estava bem empregado, ganhando um bom salário e tinha condições de propor casamento à sua amada.
Iria ter uma conversa em particular com Cornélio sobre suas pretensões com Carmela.
Ele olhou-se mais uma vez no espelho e sorriu.
Parecia que tudo ia muito bem.
Marcos desceu, cumprimentou os tios.
Pediu bênção, costume que mantinha desde a adolescência, e saiu.
Tomou o bonde e meia hora depois estava na casa de Milton.
Ficara de pegá-lo e levá-lo até a casa de Carmela.
- Gentileza sua, rapaz.
Hoje vou quebrar a rotina de passear nos jardins da Luz.
Tenho me sentido muito só e caminhar no parque faz-me muito bem.
- Ora, seu Milton, tem a mim, Carmela, seus pais... há muita gente que gosta do senhor.
Milton suspirou.
- Gostaria muito de reencontrar minha filha.
- Escreveu-lhe a cartinha, como Carmela lhe havia sugerido?
- Pensei, pensei, e não consegui colocar no papel esse turbilhão de emoções que me sacode o corpo.
Faz muitos anos e mudei muito.
Hoje jamais faria o que fiz à minha filha.
Nunca a expulsaria de casa.
Se arrependimento matasse...
- Não pense dessa forma.
Não se culpe pelo que aconteceu.
Cada um dá o melhor de si.
Cada um faz o melhor que pode.
O senhor fez o melhor que pôde, anos atrás.
Agora está mudado e reconhece que pode fazer melhor.
Isso é um avanço.
- Carmela é uma menina excepcional, culta, bela e muito sensível.
Ela abriu-me os olhos para várias questões que nunca havia pensado antes.
Desde que abri meu coração e contei o drama que vivi com minha filha, Carmela sempre que pode me conforta com palavras edificantes.
Sua namorada me faz enorme bem.
- É minha namorada tem o dom de apaziguar corações.
É um dom.
- Eu quero aproveitar que estamos sós e lhe pedir para me dar uns dias de folga na próxima semana.
- Por quê?
- Preciso reencontrar minha filha, mesmo que ela não queira me ver.
- Acha que ela seria capaz disso?
- Não sei ao certo.
Marilda ficou muito triste quando eu a abandonei.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 30, 2016 8:31 pm

Eu era a única pessoa no mundo com quem podia contar.
Depois que perdeu seu bebé, eu até pensei em buscá-la em Santos, contudo, o orgulho falou mais alto.
Por besteira, deixei de procurá-la.
- Calma, seu Milton.
Tudo acontece no tempo certo.
Não se esqueça de que os anos passaram e sua filha também amadureceu e deve estar mudada.
Creio que ela não lhe guarda mágoas.
- Assim espero.
Algum tempo depois, desciam os quarteirões próximos da casa de Carmela.
Andaram algumas quadras e chegaram.
Maria havia feito um cardápio especial para o dia.
Macarrão, maionese, um belo frango recheado e salada.
De sobremesa Carmela e Lilian ajudaram-na no preparo do famoso bolo prestígio.
A mesa estava posta para sete pessoas.
Milton, bastante arguto, observou a mesa.
- Pensei que éramos somente nós.
Por que mesa para sete?
- Temos uma convidada - sorriu Maria.
Ela está terminando de se arrumar e desce num minuto.
Cornélio convidou Marcos e Milton para uma cerveja na varanda.
As meninas ficaram ajudando Maria nos preparativos do almoço.
Lilian cortou um pedaço de queijo em cubinhos, temperou com azeite, orégano e sal, colocou-os num pratinho e levou até a varanda.
Milton estava contente.
- Essa menina é uma graça.
Até hoje não entendo como uma madrasta pôde ter feito a coisa daquelas com ela.
- Lilian é um encanto de menina - tornou Cornélio.
Estamos pensando em legalizar os papéis e adoptá-la.
Ela é muito ligada em Carmela.
Parecem irmãs.
- Muito bonito seu gesto - disse Milton.
- Não se trata tão-somente de gesto.
Gostamos da menina.
E, claro, percebemos que ela tem um comportamento triste.
- Pois não deveria?
Depois de tudo o que a pobrezinha passou?
- Lilian passou por momentos bastante desagradáveis.
No entanto, eu acredito que somos responsáveis por tudo o que nos acontece na vida.
Só assim a vida tem sentido.
- Mas ela é uma menina. Indefesa.
- Aos seus olhos ela é uma menina.
Aos olhos de Deus seu corpinho abriga um espírito que já viveu muitas vidas.
Esquecemo-nos do passado, mas cada um de nós nasce com determinadas características, que nada mais são do que o somatório das vidas pretéritas.
- Acho tudo muito interessante, mas discordo.
- Tem todo o direito de discordar.
- Sabe Cornélio, se somos responsáveis por tudo o que nos acontece, e vivemos várias vidas, por que razão não temos lembranças dessas vidas?
Acho injusto nascer e esquecer.
- Pois eu não acho. Muito pelo contrário.
O esquecimento é uma bênção de Deus.
Imagine que eu e você, por exemplo, tivéssemos brigas e desavenças por vidas a fio.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 30, 2016 8:31 pm

De repente, para acabarmos com esse círculo de dor e sofrimento, resolvêssemos dar um passo além na nossa escala evolutiva e decidíssemos voltar ao planeta como pai e filho, para aprender a nos amar e nos respeitar.
Se você se lembrasse de nossas desavenças no passado, ou pior - Cornélio estava com a modulação de voz diferenciada -, se você se lembrasse que numa dessas vidas passadas podia ter me matado, como iria conviver comigo na mesma casa?
- Interessante essa visão.
Quer dizer que nem sempre uma família é tão-somente um elo de luz e amor?
Pensei que todos os que nascem numa mesma família fossem espíritos que se quisessem bem.
- Quase sempre, não.
Existem os felizardos, espíritos que estão acima do orgulho, do preconceito, livres de todos os valores distorcidos que aprendemos neste mundo.
Infelizmente, a maioria de nós desencarna cheio de rancores, mágoas, desentendimentos.
Quando chegamos ao mundo astral, tomamos ciência de que tudo é eterno e de que nada adiantaram as brigas, desavenças, ou até mesmo, em casos extremos, ter tirado a vida de alguém.
Isso tudo nos perturba profundamente e então pedimos, imploramos pela dádiva da reencarnação, a fim de podermos melhorar nossas crenças e posturas, como também conviver com os nossos desafectos.
Daí os desajustes que observamos entre pais e filhos.
Um filho hoje pode ter sido o carrasco do pai no passado.
- Aprendi muita coisa com Carmela - ajuntou Marcos.
Escolhi pensar numa vida mais positiva e saudável, mudando meus pensamentos e atitudes.
Antes eu reclamava mais, culpava o mundo pelos meus infortúnios.
Confesso que hoje, entendendo um pouquinho mais os mecanismos que regem a vida, tenho uma vida mais plena e feliz.
- É uma questão de mudar seus conceitos e mergulhar no mar de bondade que acolhe todos os filhos deste planeta - finalizou Cornélio.
Milton nada disse.
Os pensamentos tumultuavam sua mente.
Fazia tempo que procurava respostas para sua própria existência.
Ele havia perdido a esposa, havia se desentendido com a filha e estava só.
No começo acreditara que Deus o estava punindo, achava que não fosse merecedor de bênçãos, de felicidade.
Demorou muito para ele começar a perceber que esse conceito mesquinho e infantil de punição em nada o ajudava a ter uma vida melhor.
Pelo contrário, a culpa e o remorso o consumiam por dentro e por pouco Milton não se tornou uma pessoa triste e amarga, de mal com a vida.
Os anos o ajudaram a perceber que ele tinha o poder de escolha e que podia tomar suas próprias decisões.
Não fora Deus quem tirara sua filha de seu convívio.
Fora ele mesmo, cego pelas ilusões do mundo, ferido em seu orgulho de pai, que se deixara levar pelos ditames da sociedade.
Fora ele o responsável pelo afastamento de sua filha.
Somente ele.
E estava na hora de mudar e tentar remendar essa situação.
No quarto, Marilda terminava de se arrumar.
Carmela lhe emprestara um lindo vestido com estampa floral.
Marilda também tingira os cabelos e agora estavam mais alourados, deixando sua tez mais delicada e o rosto mais jovem.
Ela estava mais jovem, de facto.
O convívio com Lilian, Carmela e sua família era saudável e todas as noites elas sentavam-se na varanda e conversavam sobre vários assuntos, principalmente sobre as nossas responsabilidades diante da vida.
Marilda estava maravilhada com os ensinamentos de Carmela.
Ao ajeitar as sobrancelhas no espelho da penteadeira, sorriu para sua imagem.
- Por que será que o almoço de hoje é tão especial?
Por que querem que eu me vista tão bem?
Será que me arrumaram um pretendente? - perguntou para si, de maneira alegre e sorridente.
Ela terminou de arrumar os cabelos, aspergiu suave perfume nos pulsos e no pescoço.
Em seguida desceu.
Ouviu vozes vindas da varanda, mas nem deu muita atenção.
Ajudou Maria a colocar os arranjos sobre a mesa.
Ao ver que havia mais um prato na mesa, sorriu para si.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 30, 2016 8:31 pm

- Estava certa.
Deve haver um pretendente.
Na varanda, Milton mantinha conversação agradável.
Ele encarou Cornélio e Marcos que lhe sorriam.
- Tenho muito que fazer.
Estou decidido.
Semana que vem vou para Santos.
- Por quê? - perguntou Carmela, que apareceu na soleira.
- Em vez de escrever uma carta, vou pessoalmente procurar minha filha.
O convívio e amizade de vocês têm me mostrado novas formas de tratar os assuntos mal resolvidos do meu passado.
Preciso e vou reencontrar minha filha.
Podem apostar.
Carmela lhe sorriu e entrou.
Voltou em seguida e disse, fitando Milton nos olhos:
- Tenho uma surpresa para o senhor.
Carmela falou e foi para o lado.
Milton olhou, olhou.
O rosto era familiar. Bonito, porém familiar.
Ele espremeu os olhos e em seguida encarou os demais.
Todos sorriam.
Marilda quebrou o silêncio:
- Eu não faço a mínima ideia de como vocês encontraram meu pai.
Isso só pode ter a mão de Deus.
Entre lágrimas, ela disse voz trémula de emoção:
- Pai. Sou eu. Marilda.
Milton ficou ainda fitando o nada por alguns instantes.
Em segundos, recuperado do choque, levantou-se de um salto e aproximou-se dela.
- Não posso crer! Você, aqui?
Ela lhe estendeu os braços.
- Venha cá e me dê um abraço.
Sem nada falar, Milton abraçou-se a ela e ficaram assim por instantes.
Ele beijava os cabelos da filha, o rosto, várias vezes.
Em seguida, encarando-a nos olhos disse voz chorosa:
- Perdão!
Eu lhe peço encarecidamente que me perdoe minha filha.
- Eu não tenho de perdoar nada, paizinho.
Eu o amo.
Quem ama não perdoa, pois nunca tem o que perdoar.
Vamos esquecer o passado.
- Isso mesmo - tornou Carmela, emocionada.
Vamos esquecer o passado.
O que importa é de hoje em diante.
Deixemos o passado em seu devido lugar, lá atrás.
Podemos aprender muito com as experiências passadas, mas não podemos deixar que elas interfiram em nossa vida.
Nós vamos entrar e deixá-los a sós.
Creio que vocês têm muito que conversar.
Marilda e Milton sorriram e assentiram.
- Sim - disse ela.
Preciso conversar com meu pai.
- Ela tem razão.
Tenho muito que lhe dizer.
- Espero que o senhor diga à Marilda tudo o que não conseguiu colocar no papel.
Carmela piscou maliciosamente e entrou, acompanhada do pai e do namorado.
Marilda sentou-se ao lado do pai e pousou delicadamente as suas mãos sobre as dele.
As lágrimas de felicidade desciam insopitáveis, em ambos os rostos.
Enquanto conversavam, lindas fagulhas coloridas eram derramadas do Alto directamente sobre eles.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 30, 2016 8:31 pm

CAPÍTULO 36

O almoço na casa de Cornélio transcorreu de maneira tranquila, alegre e divertida.
Marilda sentou-se agarradinha ao lado do pai e assim ficaram por toda à tarde.
Ora um falava, ora o outro.
Milton contou sobre sua solidão, falou da saudade e de quanto Carmela fora importante para ele vencer o orgulho e resolver procurar a filha.
Marilda, por sua vez, contou ao pai todas as agruras que passara, sem deixar escapar um detalhe sequer.
Falou inclusive do relacionamento conturbado com Jaime.
Às vezes, os olhos de Milton marejavam.
Gostaria de ter podido estar mais próximo da filha, principalmente nos momentos mais difíceis de sua vida.
Eles estavam por demais emocionados e não paravam de falar nas coincidências da vida.
- De coincidência, a vida não tem nada - falou Maria, de maneira alegre.
- É verdade - ajuntou Carmela.
Seu Milton tinha vontade imensa de reencontrar a filha.
Marilda estava arrependida de muitas coisas e estava consciente de querer uma vida melhor.
No fundo também queria reencontrar o pai.
O desejo de ambos falou mais alto e a vida nos usou para uni-los novamente.
Eu sempre disse a Lilian, cuidado com o que você pede, pois a vida lhe atende.
Todos concordaram e sorriram.
Fizeram um brinde ao reencontro entre pai e filha.
Lilian murmurou:
- Funciona para vocês, menos para mim.
- Engano seu, minha amiga.
- Engano? Claro que não!
Eu pedi para ter uma família e não tenho.
Pedi para ter meu pai de volta e não tive.
Tudo o que pedi não recebi.
- Eu me lembro de algum tempo atrás quando você me disse que pedia a Deus para que Dinorá sumisse de sua vida.
Ela sumiu.
- Bom, é verdade.
- Quanto ao seu pai, a morte dele faz com que vocês não possam se relacionar mais neste mundo, visto que Aureliano hoje transita em outra dimensão.
No entanto, vocês podem entrar em contacto por meio de sonhos ou aparições, de acordo com seu grau de sensibilidade.
- Como já lhe contei, tive um lindo sonho com papai durante o tempo em que fiquei naquele armazém.
- O espírito de seu pai esteve lá, Lilian.
Pode ter certeza de que, sempre que possível, ele vai estar ao seu lado.
Quanto ao facto de ter uma família, bom, nós gostaríamos muito que você vivesse aqui em casa.
- Eu gosto muito de d. Maria e seu Cornélio - ela falou e sorriu - mas você vai embora assim que se casar.
- Quem falou em casamento?
Estou namorando! - protestou Carmela.
- Bom, aproveitando a tarde alegre e a família reunida, eu gostaria de pedir a mão de Carmela em casamento - disse Marcos, num tom emocionado.
Todos se olharam e sorriram alegres e emocionados.
Cornélio levantou-se e abraçou Marcos efusivamente.
- É um prazer tê-lo como genro, meu jovem.
Abençoo essa união.
Maria fez o mesmo.
E em seguida os demais.
Carmela, olhos marejados, abraçou-o e beijou-o delicadamente nos lábios.
- Casar-me com você é tudo o que mais quero!
Ele abraçou-a.
- Farei de você a mulher mais feliz do mundo.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 31, 2016 9:02 pm

Em seguida, fizeram um brinde.
- Ao casal! - disseram todos em uníssono.
No dia seguinte, Marilda arrumou-se mais uma vez com apuro e bom gosto.
Agora se sentia pronta para uma entrevista na casa de Valentina.
Milton fez questão que ela se mudasse para sua casa.
Sua casa!
Fazia anos que Marilda havia saído de lá.
Ao entrar e rever os móveis, os cómodos, tudo do mesmo jeito como anos atrás, voltou aos tempos de adolescência.
Ela sorriu e contemplou.
No entanto, não tencionava viver com Milton.
Por mais que amasse o pai, sua vida havia mudado bastante.
Ela queria trabalhar e morar no emprego.
Visitaria o pai nos fins de semana.
Ela se afeiçoara bastante a Lilian.
Desejava estreitar cada vez mais o elo de amor que as unia.
Depois de aspergir delicado perfume, Marilda desceu e Milton já havia saído para o trabalho.
Marilda sorriu ao olhar para um porta-retratos em que ela aparecia sentada e comportada entre os pais, muitos anos atrás.
Os retratos naqueles tempos eram em preto e branco e as pessoas deveriam manter um ar sério.
Sorrir não era permitido.
Mesmo assim, ela pegou o porta-retratos e o beijou delicadamente.
Apanhou a bolsa, colocou o chapéu e ganhou a rua.
Andou por alguns quarteirões, contemplando os lugares que percorrera quando adolescente, pelo bairro do Cambuci.
Em seguida chegou ao largo, tomou o bonde.
Precisaria tomar mais um, pois o trajecto até o Morumbi era bem longo.
Marilda saltou do bonde e caminhou bastante.
Perguntou aqui e ali e mais alguns minutos chegou à casa de Valentina.
Sorriu ao ver o lindo casarão rodeado de árvores e flores.
Ela encostou-se ao grande portão de ferro, fechou os olhos e aspirou o perfume delicado que vinha dos jardins.
Tocou a sineta e foi atendida por Argemiro, pois Benta havia saído com o recém-contratado motorista para fazer compras.
Ela apresentou-lhe um cartão de Marcos e Argemiro sorriu.
- Entre. Vou levar a senhorita até a sala de estar.
Dona Valentina a espera.
Marilda retribuiu o sorriso.
Há anos não era chamada de senhorita.
Ela olhou de soslaio.
Argemiro era bem apanhado, tinha um tipo físico bem interessante.
Era alto, forte, mãos grandes e cheias de terra.
O olhar e o sorriso eram arrebatadores.
Havia algo de encantador que chamou a atenção de Marilda.
- Você é quem cuida do jardim?
- Sim. Sou apaixonado por plantas.
Nasci para esse trabalho.
Cuido delas como se fossem minhas filhas!
- Que lindo.
O jardim é muito bonito.
Parabéns. - Argemiro sorriu e ela continuou:
- Aquela planta é uma dama-da-noite, certo?
- É. O aroma desta árvore é inebriante.
- Eu adoro.
Senti o perfume delicado dela assim que me encostei ao portão.
Adoro plantas.
Você tem mãos abençoadas.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 31, 2016 9:02 pm

Mais uma vez, parabéns pelo seu esmero e dedicação.
Um terreno deste tamanho dá muito trabalho.
- Amo o que faço. Sou feliz.
Adoro trabalhar aqui neste casarão, longe do agito da cidade.
Marilda assentiu com a cabeça.
Argemiro era, de facto, um homem encantador.
Ela entrou na casa e ele apontou para a poltrona.
- Dona Valentina já vem.
- Obrigada.
Ele retirou-se e Marilda olhou ao redor.
A sala onde ela fora conduzida era mobilada com extremo bom gosto.
Nada exagerado.
Era tudo mais simples do que imaginara encontrar, porém de uma elegância sem igual.
Ela levantou-se para observar melhor os quadros numa das paredes.
Ficou admirando-os e foi tomada de surpresa ao ouvir agradável voz atrás de si:
- Gosta de pintura, Marilda?
Marilda rodou nos calcanhares.
Ficou fascinada com o porte e altivez de Valentina.
No hotel em que trabalhara havia visto uma ou outra ricaça, porém nunca tinha visto de perto uma mulher da alta sociedade e ainda tão bonita, tão elegante, e tão dócil.
Ela instintivamente estendeu-lhe a mão.
- Prazer, d. Valentina.
- Gosta de pintura?
- Não entendo muita coisa, mas trabalhei alguns anos num hotel em Santos e conheci certa vez uma senhora que me ensinou um pouquinho de arte.
Pelo menos aprendi a diferença entre os pintores Manet e Monet.
Ambas riram.
Valentina simpatizou de imediato com Marilda.
- Embora o impressionismo tenha suas origens em Edouard Manet, o movimento é derivado, de facto, da obra Impressão - Nascer do Sol, de 1872, de Claude Monet.
- Por certo.
O impressionismo retratava a luz e o movimento utilizando pinceladas soltas como elemento principal da pintura, e as telas eram pintadas ao ar livre para que o artista pudesse capturar melhor as nuances da natureza.
Sempre gostei dos impressionistas e este quadro de Monet em sua parede é algo... é algo que impressiona!
- Talvez seja daí o facto de o movimento ter recebido esse nome.
Marilda assentiu com a cabeça.
Em seguida, Valentina apontou para outro quadro.
- Conhece este daqui?
Marilda aproximou-se da tela e espremeu os olhos, observando nitidamente todas as nuances.
- Eliseu Visconti - disse com naturalidade.
Imagine essas paisagens de Teresópolis, cheias de atmosfera luminosa e transparente...
- Estou surpresa com tanta acuidade visual e sensibilidade.
Você veio mesmo para trabalhar como criada?
Não quer ser minha dama de companhia?
Marilda riu com gosto.
- Longe disso, d. Valentina.
Eu sei um pouquinho assim de arte - fez pequeno gesto com os dedos - porque aprendi nos tempos em que trabalhei no hotel e porque também tive aulas de pintura no colégio.
Mais do que gostar de quadros, gosto mesmo é de cuidar de uma casa.
- A indicação de Marcos me poupa de perguntas desnecessárias.
No entanto, com essa sensibilidade e sorriso encantador, o emprego é seu.
Terei muito gosto em tê-la trabalhando aqui comigo.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 31, 2016 9:02 pm

Marilda fechou os olhos e fez pequena e sentida prece de agradecimento.
Tudo corria às mil maravilhas e ela precisava de trabalho.
Valentina acertou o salário e outras peculiaridades relativas ao serviço.
Mostrou-lhe a casa.
E, no fim da visita, perguntou:
- Tem certeza de que é o que quer fazer?
Cuidar desta imensa casa?
- Sou muito organizada e adoro manter tudo limpo e em ordem.
Prometo que vou cuidar desta casa como se fosse minha.
Pode apostar.
- Sei disso.
Você conversa olhando nos olhos, não os desvia de maneira alguma.
Gosto de pessoas assim.
Você é verdadeira e espontânea.
- Obrigada.
- Bom Argemiro você conheceu há pouco.
Benta e o motorista chegarão a qualquer momento.
Você vai dividir o serviço com Benta.
Sabe que deverá morar no emprego, certo?
Marilda pendeu positivamente a cabeça para cima e para baixo.
- Cada empregado tem seu próprio quarto.
No fim do corredor há dois banheiros, um para os homens e outro para você e Benta.
Marilda mordiscou levemente os lábios.
- O que foi? - indagou Valentina.
- Esse emprego é tudo o que mais quero e preciso no momento, d Valentina.
Gostei da casa, do ambiente, da senhora...
- Então, qual o problema?
- Eu me afeiçoei muito a uma menina e...
Marilda contou a maneira como encontrara Lilian no galpão, sobre os ferimentos da menina, sobre o elo de afeição sincera que brotara por conta daquelas experiências tão desagradáveis.
Marilda sabia que Maria e Cornélio se dispunham a ficar com Lilian, mas ela sentia um aperto no peito toda vez que pensava em se desligar da garota.
E finalizou:
- Ela é encantadora.
E não tem parentes vivos.
Gostaria muito de poder tê-la aqui comigo.
Ela poderá ajudar-me no serviço.
A senhora não precisará pagar nada a mais por isso.
Entretanto, algo me diz que Lilian deve vir para cá.
Valentina ficou parada por instantes.
Marilda falava de maneira sincera e sem rodeios, com a maior naturalidade do mundo.
Esse "aperto no peito" era sinal claro de que a menina deveria vir para sua casa.
Valentina não demonstrou um pingo de emoção, contudo, enquanto Marilda relatava a história de Lilian, ela mesma sentira uma emoção diferente.
Valentina estava tão envolvida na história que não percebeu Nuri ao seu lado, sussurrando-lhe palavras encorajadoras e positivas.
- Aceite-a, Valentina.
Deixe que Lilian volte para casa.
Chegou o momento do reencontro.
Ela respirou fundo e fitou Marilda nos olhos.
- Traga esta menina até aqui.
- Quando?
- Hoje.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 31, 2016 9:02 pm

Marilda levou a mão ao peito.
- Hoje? Mas o percurso é longo.
- Isso é o de menos.
Meu motorista chegará a qualquer momento.
Não se preocupe com condução.
- Pode ser amanhã?
- Não. Hoje!
Valentina falou com tal convicção que Marilda pendeu a cabeça para cima e para baixo e nada disse.
Em instantes ouviram barulho de carro.
Valentina sorriu.
- Meu motorista acabou de chegar.
Elias vai levá-la.
Ele conhece bem a cidade.
Vá buscar a menina e volte ainda hoje.
- Sim, senhora.
Marilda levantou-se e em seguida foi apresentada a Benta.
Elas se simpatizaram de imediato e, quando entrou no carro para buscar Lilian, Marilda não percebeu que era observada.
Num canto do jardim, Argemiro sorria feliz.
Seu peito batia descompassado e o corpo esquentara sobremaneira.
Desde que sua noiva partira anos atrás, com um primo seu, ele se fechara para os assuntos do coração.
Agora, sem mais nem menos, ele estava ali, feliz e com as portas do coração novamente abertas para o amor.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 31, 2016 9:02 pm

CAPÍTULO 37

Marcos terminou de analisar os documentos.
Estava tudo em ordem e o escritório de advocacia crescia e tornava-se cada vez mais admirado e respeitado.
Ele se sentia feliz.
O trabalho corria às mil maravilhas e Carmela seria sua esposa, em breve.
- Não posso me deixar levar por pensamentos negativos e destrutivos.
Carmela bem que me ensinou a combatê-los e é por isso que minha vida melhorou tanto - disse para si.
Paulo Renato entrou na sala e sua aparência não era nada boa.
- Por que essa cara?
Aconteceu alguma coisa? - indagou Marcos.
- Cansaço.
Estou cansado.
- Por quê?
Você gosta tanto de trabalhar.
O escritório está cada vez mais abarrotado de clientes e o dinheiro não para de entrar.
Deveria estar feliz.
- Em relação ao trabalho, eu estou... - Paulo Renato abaixou o tom da voz - estou preocupado com Selma.
Não sei mais o que fazer para tirá-la de casa.
- Dê-lhe um ultimato.
Afinal de contas, aquela é a sua casa, e não a dela.
Paulo Renato colocou os cotovelos sobre a mesa e afundou a cabeça neles.
Estava exasperado.
- Já tentei conversar e argumentar.
Nada. Ela não arredava pé.
- Você é o dono daquela casa.
- Mas não fica bem eu enxotá-la de casa.
Sou cavalheiro.
- Cavalheiro e burro.
Ele arregalou os olhos.
- O que disse?
- Burro. Você está se deixando levar pelas convenções sociais.
Não está colocando a sua vontade em primeiro lugar.
Não se esqueça de que a vida o trata como você se trata.
- Engano seu.
Os outros vêm em primeiro lugar.
- Quem lhe ensinou isso?
- Ora, meu pai, a escola, o mundo.
Não é nada elegante colocar-me em primeiro lugar.
Primeiro vem os outros, depois vem a minha vontade.
Assim é.
- Quem está enganado é você.
Como pode querer ter respeito se você não dá a mínima atenção ao que sente?
- Não sei o que fazer.
Selma é intransigente.
- Coloque-a para fora. E pronto.
- É fácil falar.
Não é você quem vive esse drama.
- Quem está fazendo drama é você, meu caro.
As suas ideias acerca da vida estão distorcidas.
Precisa reavaliar seus padrões e conceitos.
Percebo que ao seu redor há inúmeras amebas.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 31, 2016 9:03 pm

- O que é isso?
- São formas-pensamentos que você criou ao longo da vida.
Sabe aquelas vozes aqui dentro da cabeça - apontou para a testa - que ficam conversando connosco o dia todo?
- Sei. Geralmente elas me mandaram fazer um monte de coisas das quais não gosto.
- Porque são frutos das regras aprendidas ao longo da vida.
Você foi ensinado a dar valor aos outros e jamais a si mesmo.
Se você consegue algum mérito, foi por obra de Deus.
Se tiver um fracasso, foi você o causador da desgraça.
- É eu sempre me coloco para baixo.
Quer dizer, essas vozes é que me colocam para baixo.
Às vezes, penso que vou enlouquecer só pelo facto de escutá-las.
Mas o que fazer?
Elas são mais fortes que eu.
- Paulo Renato, acorde antes que seja tarde.
É um bom homem, bem apessoado, tem dinheiro e posses.
É inteligente e requestado pelas mulheres.
No entanto, esse seu jeito errado de ver a si próprio causa-lhe enorme sofrimento.
Você deve achar a vida sem-graça.
Deve se sentir triste e sem vontade de fazer nada.
Parece que a vida não tem sentido.
- É verdade.
- Tudo isso por quê?
Porque você se deixa levar justamente por essa vozes mandonas.
Elas adoram dizer para nós "faça isso", "faça aquilo", "isto é certo", "aquilo é errado" e assim por diante.
São vozes que julgam e condenam tanto a si mesmo como aos outros.
E podem crescer a ponto de tomar forma própria e atrair espíritos perdidos nesta dimensão, que pensam do mesmo jeito.
Eles se alimentam dessas nossas formas mentais negativas.
Paulo Renato bateu na mesa três vezes.
- Deus me livre!
Não gosto de falar em espíritos.
- Tudo bem, mas apesar de não querer entrar em contacto, é necessário repensar seu conjunto de crenças.
Você nasceu para ser dono de si, para ser feliz.
Mais nada. O que está fazendo com a sua liberdade?
- Valentina falou-me algo parecido.
Sinto enorme dificuldade em mudar.
- Ninguém aqui disse que o processo é rápido e indolor.
Requer paciência, tempo e carinho por si próprio.
Paulo Renato mordiscou os lábios.
Precisava fazer alguma coisa ou iria enlouquecer.
Ele não sabia o que era pior em sua vida:
Selma ou seus monstros interiores, que viviam o atormentando com uma série de obrigações, cada vez mais absurdas.
Ele levantou-se e andou de um lado para o outro da sala, pensativo.
Nuri estava perto dele e tentava inspirar-lhe bons pensamentos, até mesmo lhe dar estímulo para que reagisse e ele começasse seu processo de mudança interior.
Marcos levantou-se para se servir de água e seus olhos notaram dois pés atrás da porta que ligava sua sala à de Paulo Renato.
Olhou, observou e se aproximou pé ante pé.
Abriu a porta de maneira abrupta e qual não foi sua surpresa ao ver Inês ali, parada e com os ouvidos colados à porta.
Por pouco ela não caiu em seus braços.
- O que é isso?
Ela tentou se recompor e procurava as palavras, tentando amenizar o constrangimento.
- Não é nada... Eu...
Eu... passava por perto e tinha me esquecido de perguntar sobre... Sobre...
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Ave sem Ninho

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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 31, 2016 9:03 pm

Estava mais do que na cara que Inês estava bisbilhotando.
Fazia algum tempo que Marcos estava de olho nela.
Quando eles conversavam, ela procurava não olhar nos olhos do interlocutor.
Marcos não gostava disso.
Além do mais, Inês estava deixando o serviço a desejar.
Nuri sorriu para Paulo Renato.
- Precisa estar cercado de pessoas que o querem bem, como Marcos e Milton.
Há pessoas que não têm afinidade connosco e podem atrapalhar nosso caminho.
Não permita que o ambiente de trabalho seja contaminado por mentes negativas e bisbilhoteiras.
Portanto, tome uma decisão agora.
Paulo Renato sentiu forte impulso e aproximou-se de Inês.
- Está despedida.
- Como?!
- Isso mesmo. Está despedida.
Não a quero mais trabalhando aqui connosco. Rua!
Inês começou a chorar.
Em seguida, passou a gritar feito uma histérica.
A custo, Marcos conseguiu acalmá-la e uma funcionária lhe deu um copo d'água.
Ela bebericou um pouco, mãos trémulas e acalmou-se.
- Sente-se melhor?
- Doutor Paulo Renato não pode fazer isso comigo.
Não é justo.
Trabalho aqui há anos e sempre fui óptima funcionária.
- O que fazia atrás da porta?
Estava escutando a nossa conversa?
Para quê?
- Não estava escutando nada.
Foi um impulso, uma curiosidade de...
De mulher - mentiu.
- Não acredito em você.
O rosto de Inês ficou vermelho feito um pimentão.
Marcos era directo e parecia escutar-lhe os pensamentos.
- Precisa acreditar - contemporizou -, eu nunca fiz nada que pudesse prejudicar o escritório.
- Há algo de estranho em você.
Não sei o que é, mas uma sensação que não é sincera.
Estava de olho em você havia um bom tempo.
Você não é de confiança.
Ela se levantou de um salto.
- Não tenho de ser despedida e escutar desaforos! - bramiu.
Você é um almofadinha que mal saiu das fraldas.
Quem pensa que é para me dar reprimendas?
- Eu não estou fazendo nada.
Só disse o que sinto. Mais nada.
Se quiser, posso lhe fazer uma carta de recomendação.
Boa sorte com o próximo emprego.
- Malditos! Odeio vocês!
Inês gritou e novamente se descontrolou.
Os funcionários ao redor olharam espantados e ela apanhou sua bolsa e saiu.
Não esperou o elevador.
Desceu as escadas e quando ganhou a rua, tomou um carro de aluguer e foi directo até a casa de Paulo Renato.
Nem aguardou ser anunciada.
Entrou na casa feito um furacão.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 31, 2016 9:04 pm

Jurema não sabia o que fazer.
- Vá chamar a sua patroa, anda.
- Mas...
- Diga que é a Inês, secretária do Dr. Paulo Renato.
- Dona Selma está descansando e...
- Dane-se! - vociferou Inês.
Vá chamá-la imediatamente, sua serviçal.
Jurema engoliu a raiva.
- Amanhã vou ao terreiro pedir para os espíritos fecharem os caminhos dela.
Quem essa branquela desaforada pensa que é?
Não sabe com quem está se metendo. - disse para si, enquanto subia as escadas e chamava "a patroa".
Jurema bateu e entrou.
Selma estava deitada confortavelmente sobre um canapé, lendo uma revista de moda feminina, importada naturalmente.
A prima grã-fina odiava os periódicos nacionais.
- Não gosto que entre no quarto sem que eu mande entrar.
- Desculpe senhora, mas tem uma moça lá na sala, nervosa.
Ela disse que não arreda pé enquanto não for atendida.
- Ora, quem é a doidivanas?
- Disse que se chama Inês.
Do escritório.
Selma levantou-se e sorriu.
- Inês? Deve ter alguma notícia muito boa para mim.
Em vez de telefonar veio directo.
Deve ser coisa boa.
- Não sei, não, d. Selma.
Ela está com uma cara de poucos amigos.
Gritou comigo e anda de um lado para o outro da sala, de maneira nervosa.
Selma vestiu um penhoar e desceu.
Encontrou Inês falando e gesticulando baixinho.
- Que surpresa é essa?
Sabe que não gosto que nos vejam juntas.
- Você vai ter de me ajudar.
- Ajudar? Como assim?
- O Dr. Paulo Renato me botou no olho da rua.
Perdi meu emprego.
- O que aconteceu?
- Não sei - mentiu.
Ele simplesmente me chamou e me despediu.
- E o que quer que eu faça?
- Que interceda por mim.
Diga a ele que sou óptima funcionária.
- Não sei se ele vai me escutar.
Nunca conversei com Paulo Renato sobre assuntos do escritório.
- Pois trate de conversar com ele.
É o mínimo que pode fazer - vociferou.
- Não gostei do seu tom.
Quem pensa que é?
Entra assim na minha casa e vai me dizendo o que devo ou não fazer?
- Em primeiro lugar aqui não é sua casa.
E depois, se não me ajudar, vou contar tudinho para o Dr. Paulo Renato.
Vou dizer que me pagava para ser sua espiã.
Tenho provas e posso colocar em xeque os seus planos de se casar com ele.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 31, 2016 9:04 pm

Selma estremeceu.
Inês poderia fazer tudo, menos contar ao primo sobre a função secreta que desempenhava no escritório.
Entretanto, estava nervosa, não gostava de ser pressionada.
Odiava que mandassem fazer as coisas.
Inês agora se tornara algo perigoso em sua vida.
Ela pensou rápido:
- Vou conversar com Paulo Renato.
- Quero voltar ao meu emprego de secretária.
- Farei o possível.
- É o impossível - completou Inês.
Eu vou voltar ou então você vai ter de acertar valores comigo.
- Está me chantageando?
- Se é assim que entende...
Selma abriu e fechou a boca, estupefacta.
Inês tinha ido longe demais.
Precisava ganhar tempo.
Dissimulou a raiva e sorriu:
- Vou fazer de tudo para que tenha seu emprego de volta.
Conversarei com Paulo Renato.
Peço que me dê alguns dias. Um mês.
- Nada de um mês.
Quero voltar o mais rápido possível.
Selma foi até o vestíbulo e apanhou a bolsa.
Pegou um punhado de notas e as entregou para Inês.
- Espero que isso ajude você a esperar.
Como disse, dê-me um tempo para resolver essa questão.
Prometo que terá seu emprego de volta.
Inês apanhou as notas e, olhos brilhantes, colocou-as na bolsa.
- Assim fico mais calma e de bico calado.
Vou ser paciente e dar-lhe um mês.
Depois disso, pode ter certeza de que abro o bico e conto tudo.
Absolutamente tudo!
Ela rodou nos calcanhares e saiu, batendo a porta com força.
Selma mordiscou os lábios com tanta raiva que logo sentiu um gostinho amargo de sangue.
- Preciso dar um jeito nessa pilantra.
Ela pensa que vai me chantagear...
Não sabe com quem está se metendo.
- Mas e se ela abrir o bico para o Dr. Paulo Renato? - indagou Jurema, logo atrás.
Desculpe d. Selma, escutei toda a conversa. - Selma ia responder, mas Jurema prosseguiu nervosa:
- Fique tranquila, pois minha boca é um túmulo.
Estou aqui para ser empregada fiel.
Eu, mais do que ninguém, prefiro à senhora àquela insuportável da d. Valentina.
Selma sorriu.
Adorava quando era colocada de maneira superior aos demais mortais.
Seu ego vibrava de felicidade.
- O que posso fazer?
Ela vai querer tirar dinheiro de mim.
Isso é aviltante.
- Posso ajudá-la.
- Como?
Paulo Renato não vai querer conversar sobre trabalho.
Ele nunca falou comigo sobre assuntos do escritório.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 31, 2016 9:04 pm

Agora que estou mais à vontade na casa, não posso contrariá-lo, entende?
Aprecio a sua ajuda, mas não pode fazer nada por mim.
- Posso sim.
Conheço um bruxo que é tiro e queda.
- Bruxo? Que negócio é esse, Jurema?
Cruz-credo! - Selma fez o sinal da cruz.
- Eu sei lidar com esse tipo de "negócio".
Ajudo a fazer poções e amuletos nos trabalhos.
Sempre deu certo.
- Não entendo o que quer dizer.
- Se precisar, eu posso levar o nome dessa desaforada ao local onde fazemos os "trabalhos".
Garanto que essa Inês some rapidinho de sua vida.
- Verdade?
- Pode acreditar - disse Jurema, com ar de superioridade.
Ela percebeu que Selma ficara pasma com o seu jeito firme e com conhecimento do assunto.
- Eu adoraria afastá-la de meu caminho.
- Pois pode contar comigo.
- Escute - indagou Selma, curiosa.
Esses serviços que vocês fazem servem para tudo?
- Para tudo.
- Pode fazer algo para me aproximar de Paulo Renato?
- Vixe! - gargalhou Jurema.
Amarração de homem é o que a gente mais faz.
Fazemos tudo isso em chácaras ou fazendas aqui mesmo, porque precisamos estar em contacto com a mata e com as cachoeiras para que o trabalho surta efeito.
- Ah, sei. E dá certo?
- Pode ter o homem que desejar, no momento que quiser.
Não falha.
E, para mostrar à senhora que o serviço tem resultado, eu o farei de graça.
- Por quê? Tem de pagar?
- Pois é claro.
Preciso comprar material para fazer um serviço muito bem-feito.
Selma meneou a cabeça para cima e para baixo.
- Então posso matar dois coelhos com uma só cajadada!
Eu me livro da Inês e faço o Paulo Renato se apaixonar por mim, de uma vez por todas!
- Pode fazer, sim. Eu garanto.
- O que precisa?
Jurema animou-se, enquanto seres invisíveis de forma escurecida dançavam ao seu redor.
- Da Inês, eu preciso do nome completo e de uma peça de roupa qualquer.
- Peça de roupa?
- Sim. Qualquer uma.
Chame-a aqui na semana que vem e invente alguma coisa, diga que vai fazer um trabalho assistencial para alguns feridos da Revolução que não têm roupas.
- E em relação a Paulo Renato?
- Aí é um pouco mais complicado.
- Complicado como? - perguntou Selma, aflita.
- Preciso de um pedaço de cabelo e - Jurema colocou o dedo no queixo - uma cueca usada.
- O que é isso, Jurema?
Que acinte!
- Mas preciso de roupa íntima, de preferência com suor ou líquido do homem que vamos amarrar na senhora.
Somente por esse motivo, preciso que me arrume uma cueca do Dr. Paulo Renato, de preferência no momento em que ele for se despir para tomar banho.
Tem como fazer isso?
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