UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 31, 2016 9:04 pm

- Ele tranca a porta do banheiro.
- Quando ele sair do banho, entre sorrateiramente e pegue a cueca.
- Você poderia me poupar desse constrangimento e fazer você mesma.
- Não posso d. Selma.
- Por que não?
- Porque a senhora precisa tocar no tecido.
- Arghl
- Mas é. A senhora precisa pegar colocar num saco e me entregar.
Eu não posso tocar na cueca.
E a senhora tem que tocar nela por sete dias, antes de me entregar.
- De onde tirou isso, Jurema?
- Magia, ora.
Eu sei fazer amarração de homem como ninguém.
Trago o seu amor em questão de dias.
Conte comigo.
Selma sorriu de maneira maliciosa.
Ela nunca havia se rebaixado tanto na vida, mas em todo caso valia à pena.
Era uma questão de sobrevivência.
Havia utilizado da sedução para atrair o primo, sem resultado.
Estava na hora de apelar.
E ela faria de tudo, mas de tudo mesmo, para ter Paulo Renato aos seus pés.
Nem que tivesse de seguir as orientações de Jurema.
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Ave sem Ninho

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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 31, 2016 9:04 pm

CAPÍTULO 38

No finzinho da tarde, o motorista entrou com o carro na garagem do casarão.
Lilian não tinha entendido direito.
Tudo fora muito rápido.
Marilda assegurou:
- Tenho certeza de que tudo vai dar certo.
Dona Valentina é óptima pessoa e quer conhecê-la.
Vamos morar juntas.
- Nesta casa enorme?
Marilda sorriu.
- Sim, mas lá nos fundos.
Não se esqueça de que serei uma criada.
- Dona Maria disse que eu posso morar lá com ela.
A Carmela vai casar e o quarto vai ficar vago.
- Quer mesmo ficar lá?
- Eu gosto deles, eles me acolheram com amor e carinho.
Sempre gostei da Carmela.
Ela é a irmã mais velha, uma amiga de verdade.
Contudo, gosto muito de você.
Não sei explicar, mas prefiro morar aqui com você.
Marilda a abraçou carinhosamente.
- Minha pequena, que lindo!
Eu adoro você.
Desde que a vi no armazém senti algo inexplicável.
Mas algo bom.
Sinto aqui no peito - apontou - que seremos muito felizes.
- Será? Carmela me disse a mesma coisa, porém passei por tanta coisa ruim.
Não queria mais sofrer.
- Desde que nos conhecemos, você tem sofrido?
- Não. Na verdade, desde que meu pai apareceu naquele sonho, muita coisa mudou na minha cabecinha.
Sou jovem, mas às vezes sinto que minha idade se perde na eternidade.
- Deve ser seu espírito lúcido a chamando à realidade e ao amadurecimento.
Você saiu mais forte dessas experiências dolorosas.
Lilian sorriu.
Marilda notou uma cárie.
- Há quanto tempo não cuida dessa boca?
- Desde antes de papai ir para a guerra.
- Uma menina tão bonita!
Preciso levá-la ao dentista.
Desceram do carro e foram conversando animadamente.
Lilian aspirou o perfume das flores no imenso jardim.
- Que lugar lindo!
Marilda pendeu a cabeça para cima e para baixo e seus olhos encontraram os de Argemiro, afofando a terra para plantio.
Ele lhe sorriu e ela sentiu brando calor invadir-lhe o peito.
- Está de volta?
- Sim.
- Quem é essa menina de rosto adorável?
A jovenzinha se apresentou.
- Meu nome é Lilian.
Argemiro tentava notar a semelhança entre ambas.
- É sua filha?
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 31, 2016 9:05 pm

- Não, mas é como se fosse.
- É casada?
- Quem? Eu?!
- Sim, você.
- Não, não sou casada.
Quer dizer, fui, mas... bom, desculpe, não quero falar sobre isso.
Argemiro sorriu satisfeito.
- Dona Valentina as espera na biblioteca.
Marilda pegou na mão de Lilian e ambas entraram na casa.
- Ele gosta de você.
- Quem? Argemiro?
- É. Ele olha para você do mesmo jeito que o Marcos olha para a Carmela.
- Você é muito novinha para notar essas coisas.
Ambas riram.
- Ele é bonitão - ajuntou Lilian.
Parece aquele galã de cinema, o Errol Flynn.
- Pare com isso, menina - protestou Marilda, sinceramente encabulada.
Benta as recebeu no vestíbulo com lindo sorriso nos lábios.
Dirigiu cumprimentos as duas e estendeu a mão para Lilian.
- Como vai, menina bonita?
- Vou bem. E a senhora?
- Não me chame de senhora.
Eu sou a Benta. A seu dispor.
- Oi, Benta. - replicou a mocinha enquanto seus olhos brilhantes e vivos percorriam o ambiente.
Benta as conduziu até a biblioteca.
Assim que seus olhos pousaram-nos de Lilian, Valentina sentiu algo indescritível.
Era como se conhecesse Lilian havia muito tempo.
Ela procurou manter voz natural.
Aproximou-se e cumprimentou Marilda.
Em seguida abaixou-se e a fitou nos olhos.
- Como vai, minha querida?
- Eu estou bem.
E a senhora?
- Também estou.
- Bonita a sua casa.
Tem muito bom gosto.
Valentina esboçou largo sorriso.
- Se quiser, poderá morar aqui.
- A Marilda me falou.
Eu não tenho pai e mãe.
Perdi minha irmãzinha e se não fosse a minha amiga Carmela e a Marilda, acho que estaria num asilo de meninas.
- Agora você tem um lar.
- Lilian poderá viver aqui, d. Valentina?
- Poderá. Quero que ela fique connosco.
Essa pequena sofreu muito e está na hora de ter uma vida boa.
Eu vou ajudá-la a se tornar uma moça bonita e inteligente.
- Eu gosto de estudar, mas tive de parar.
- Voltará no próximo ano.
Vou arrumar uma boa escola para você.
Lilian sorriu feliz.
- Eu a conheço, estive em sua casa nos Campos Elíseos algumas vezes fazendo entregas de roupas e tenho grande simpatia pela senhora.
Valentina sentiu nova onda de calor invadir-lhe o peito e uma afeição sincera pela menina.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 31, 2016 9:05 pm

Disse com voz que procurou tornar natural.
- Eu não me lembro muito bem... mas...
- Quem sabe nos conhecemos de outras vidas também?
- Acredita em vidas passadas?
- Minha amiga Carmela me ensinou algumas coisas.
Ela sabe um monte de coisas.
Depois de tudo o que me aconteceu, só a reencarnação faz sentido para mim.
De outro modo, por que eu ficaria órfã?
Por que outras crianças têm pais e eu não?
Se Deus gosta de todos do mesmo jeito, então teria alguma coisa errada aqui, concorda?
- Concordo. Você é inteligente e sagaz.
Creio que vamos nos dar muito bem.
- Também acho.
- Mas vamos tomar providências e cuidar desses dentes.
Você está com cáries.
- Marilda me falou - tornou Lilian, cenho fechado.
Mas tenho medo.
- Eu a levarei num dos melhores dentistas.
Ele é meu amigo e trata seus pacientes com carinho e enlevo.
Conversaram um pouco mais e em seguida Benta surgiu na biblioteca carregando uma bandeja com uma jarra de refresco e guloseimas.
Os olhos de Lilian brilharam emocionados.
Valentina não sabia explicar a sensação agradável que se apoderou dela.
Estava radiante e feliz.
Depois que Lilian empanturrou-se com os doces, Valentina fez questão de mostrar-lhes o quarto.
Não era grande, mas confortável.
Havia um guarda-roupa com três portas, duas cómodas, uma penteadeira e duas camas de solteiro, com uma mesinha de cabeceira ao lado de cada cama.
- Esses móveis estão na família há anos.
Espero que gostem.
O ambiente era agradável e bem-arrumado.
O quarto cheirava a lavanda. Lilian sorriu.
- Adorei. Vou gostar de morar aqui.
Valentina passou determinadas recomendações a Marilda.
Ela começaria a trabalhar na próxima semana.
Deveria trazer seus pertences e teria folga aos domingos.
Lilian podia ajudar nos afazeres, mas Valentina estava preocupada com sua educação.
Talvez levasse Lilian à oficina de costura a fim de ensiná-la um ofício.
Já era tarde quando Marilda e Lilian saíram do casarão.
Valentina fez questão que, devido ao horário, Elias as levasse até o Cambuci.
No trajecto, elas conversaram animadas.
- Eu adorei a casa.
Adorei mais ainda a d. Valentina.
- Ela gostou muito de você.
- Eu também gostei dela.
Parece que já a conheço há muito tempo.
- Pode ser. Dona Valentina é pessoa da alta sociedade.
E conhecida e benquista, pessoa bem considerada por todos.
É amante das artes e possui acervo invejável de obras de arte.
- Adoro pintura.
- Eu não sabia.
Estudei um pouco na escola e aprendi um bocado quando trabalhava no hotel.
Se quiser, em vez de lhe contar histórias de ninar, posso ler sobre história da arte.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 31, 2016 9:05 pm

- Não precisa me contar historinhas de ninar.
Não sou mais uma criança.
- Esqueci-me.
Está se tornando uma mocinha.
- Uma mocinha que agora tem casa e pessoas que me querem bem.
- Graças a Deus!
Elias parou o carro diante da casa, elas se despediram e desceram.
Entraram e Milton estava cabisbaixo.
- O que foi pai?
Por que essa cara?
- Você vai embora.
Vou perdê-la, de novo.
Marilda aproximou-se e sentou-se ao seu lado no sofá.
Pousou suas mãos sobre as dele.
- Nunca mais ficaremos separados.
Vamos morar em casas separadas, mas estaremos sempre juntos.
O senhor está acostumado com essa vida.
Está sozinho há anos.
Preciso do meu espaço, das minhas coisas.
Está na hora de ir atrás de minhas conquistas, de minha independência.
- Poderia trabalhar e voltar à noite.
Pelo menos dormiríamos sob o mesmo teto.
- Vir do Morumbi para cá todos os dias?
É muito cansativo, pai.
Prefiro assim.
E, de mais a mais, poderemos passar os domingos juntos.
Poderemos almoçar juntos, caminhar até o parque da Luz.
Dessa forma, não vamos enjoar um do outro.
Vamos sentir saudades, isso sim.
- Tem razão - ele esboçou leve sorriso.
Você precisa ter sua vida, ir atrás de sua felicidade.
Quem sabe, nessa onda de coisas boas, logo aparece um homem bom que a respeite, ame e valorize?
Marilda corou.
- É, pai, pode ser.
- Eu tenho certeza de que Marilda vai ser feliz - ajuntou Lilian.
Em seguida, ela lançou olhar malicioso para a amiga:
- Muito em breve, se o senhor quer saber.
- Assim espero.
- Pai, o senhor ainda está em forma.
É saudável e trabalhador.
Nunca mais pensou em se casar?
- Eu? Nesta altura da vida?
- Tem pouco mais de cinquenta anos.
Ainda pode viver muito.
- E é muito bonito - ajuntou Lilian.
O senhor parece aquele actor...
Marilda balançou a cabeça.
- Ai, Santo Deus!
Essa menina acha todos os homens parecidos com galãs de cinema.
- Mas é a pura verdade - tornou Lilian.
Hum, ela meteu o dedo no queixo, de maneira graciosa:
- Já sei! O senhor parece o Douglas Fairbanks.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 7:56 pm

- Acha mesmo? - perguntou ele, lisonjeado em ser comparado com um dos astros mais bonitos e galantes da época de ouro do cinema americano.
- Acho. O senhor usa os cabelos como os dele, penteados para trás.
Tem um bigode parecido.
É meio alourado e seus olhos verdes são bem expressivos.
Se não trabalhasse no escritório, poderia ser actor.
Todos riram.
De facto, Milton era um homem bem atraente.
Casara-se muito cedo e quando Marilda nasceu ele tinha vinte anos de idade.
Havia passado um pouco dos cinquenta, mas estava inteirão, bem conservado.
Desde que enviuvara, nunca mais pensou em casar-se de novo.
Marilda aproveitou e confessou.
- Fiquei surpresa em saber que ainda continua viúvo.
Mamãe tinha ciúmes, pois papai sempre fora muito assediado.
- Mentira. Está exagerando.
- Exagerando?
Eu me lembro quando pequena, que mamãe foi tirar satisfações com a finada cunhada do seu Manuel da padaria.
Ela sempre arrastava asas para o senhor.
- É verdade.
A Teresa tinha uma queda por mim.
- Não disse? - disse ela enquanto olhava para Lilian.
Creio que poderia pensar em se casar de novo.
- Ora, ora.
Estou velho demais para casar-me de novo.
- Nunca é tarde.
- Eu também acho - concordou Lilian.
Milton meneou a cabeça para os lados, de maneira negativa.
Mudaram o assunto e Marilda falou de como fora bem recebida e como ela e Lilian tinham sido bem tratadas por Valentina.
Milton pendeu a cabeça para cima e para baixo.
- Dona Valentina é mulher fascinante.
Nunca ouvi comentários maledicentes a seu respeito.
Sempre foi ligada às artes.
Depois da Revolução, é admirada pelo seu papel de destaque na frente desse batalhão de mulheres que nos ajudaram durante o conflito.
Eu fico muito feliz de trabalhar com o irmão dela e mais feliz em ver que você vai trabalhar com uma das mulheres mais admiráveis desta cidade.
- Eu também me sinto lisonjeada, papai.
E ela teve empatia imediata com Lilian.
- E quem não tem? - o revelou.
Lilian é um doce de menina.
Eu a considero minha neta.
- Obrigada, seu Milton.
Também gosto muito do senhor.
Lilian achegou-se, abraçou-o e o beijou no rosto.
Ele emocionou-se.
Em seguida, ela disse:
- Posso lhe fazer uma pergunta?
- Pode.
- Quando o senhor foi até minha casa, ela estava vazia?
- Completamente vazia.
Não havia nada. Nenhum móvel.
Sua madrasta havia sumido.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 7:56 pm

- Ela não é minha madrasta.
Dinorá nunca foi nada minha.
- Onde será que ela está?
- Espero que bem longe - tornou Lilian, rosto contraído.
De facto, Dinorá estava bem longe.
Longe, amedrontada, nervosa e perturbada.
Completamente perturbada.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 7:56 pm

CAPÍTULO 39

Depois da pequena confusão causada pela indiscrição e consequente demissão de Inês, o ambiente do escritório era calmo e sereno.
Os funcionários produziam mais e se sentiam bem melhor no ambiente de trabalho.
Também pudera.
As energias insalubres que se desprendiam da mente negativa de Inês perturbavam todos à sua volta.
Uma semana depois contrataram nova secretária.
Meire era mulher bonita.
Do tipo mignon, corpo bem-feito e cabelos curtos presos em coque.
Maquiava-se e vestia-se com apuro e descrição.
Simpática, fala mansa e conversa agradável, era exímia taquigrafa e mostrara que viera para ficar.
Paulo Renato simpatizara bastante com ela e Marcos também.
Meire havia estudado com Maria, mãe de Carmela, e não se casara.
Cuidou dos pais e depois que eles faleceram, ela preferiu continuar sozinha.
Não se importava nem um pouco em ser chamada por parentes de "solteirona".
Não estava nem aí para os comentários dos outros.
Estava com quarenta anos e sempre trabalhara, desde os quinze.
Tinha acabado de concluir um curso sobre rotinas de escritório e também estudara dactilografia e taquigrafia, técnica que Inês desconhecia.
Quantas e quantas vezes, no meio de uma reunião, tinha de interromper o raciocínio de Paulo Renato, pois não conseguia anotar os recados na mesma velocidade com que ele lhe ditava.
Uma das estagiárias, Nanci, fascinada com a rapidez com que ela anotava recados e actas de reunião, perguntou-lhe como ela aprendera tão bem a anotar ao mesmo tempo em que escutava seu interlocutor.
Meire sorriu simpática.
- Um dos mais usados sistemas taquigráficos é o de Samuel Taylor, grande entusiasta da taquigrafia inglesa, que usou a circunferência como base para criação dos seus signos.
Se quiser, posso lhe emprestar o livro que usei A Arte Tachygraphica, do professor J. Clemente Ferraz.
- Eu adoraria - respondeu Nanci.
Você é culta e inteligente.
Não sei muita coisa de taquigrafia.
- Posso lhe dar umas dicas.
O Dr. Marcos gosta muito do seu trabalho e caso se esforce e aprenda a arte da taquigrafia, tenho certeza de que será promovida.
Nanci suspirou.
- Você é muito bacana.
Bem diferente da Inês.
- Eu não a conheci, não tenho condições de fazer qualquer comentário que seja.
O que importa é que você quer progredir no trabalho e eu gosto de ajudar quem se interessa e se dedica.
- Obrigada, de coração.
Nanci saiu e Paulo Renato apareceu na porta, solicitando os serviços de Meire.
Ela levantou-se rapidamente e chocou-se contra Milton, que passava cabisbaixo e não a viu.
A jovem desequilibrou-se e quase foi ao chão.
- Desculpe-me, eu me levantei rápido demais.
O senhor se machucou?
- Não. E a senhorita?
- Está tudo bem.
- Prazer, meu nome é Milton, sou assistente do Dr. Marcos.
- Meu nome é Meire - ela estendeu a mão e sorriu.
Espero não lhe causar outros esbarrões assim.
Milton sorriu e, enquanto ela entrava na sala do advogado, seus olhos brilhavam, e foi a primeira vez, em muitos anos, que ele sentiu seu coração pulsar de alegria.
Depois de pedir para que ela anotasse alguns deveres para o dia seguinte, Paulo Renato a dispensou.
- Estou muito contente com seu trabalho, Meire.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 7:57 pm

- Obrigada, doutor.
Gosto muito deste lugar.
Fiz amizade com quase todos e adoro meu trabalho.
- Conto com sua eficiência e descrição.
- Sim, doutor.
Ela levantou-se e perguntou:
- Precisa de mais alguma coisa?
- Pode ir.
Antes, por favor, entregue este relatório ao Milton e, depois passe na sala de Marcos e diga a ele que precisamos conversar.
- Ah, sim.
Ele sorriu.
- Até amanhã.
- Boa tarde, Dr. Paulo Renato.
Meire saiu e foi até a sala em que Milton ficava quando voltava da rua.
Ela parou diante da mesa dele e esticou os papéis.
- Doutor Paulo Renato mandou lhe entregar.
Milton levantou os olhos e sorriu.
Seus lábios se entreabriram e Meire pôde notar os dentes brancos e bem distribuídos.
- Obrigado. Vai embora?
- Estou de saída.
Vou apanhar minha bolsa e descer.
- Importa-se se eu acompanhá-la até o ponto de bonde?
- Será um prazer.
- Pode ir pegar sua bolsa.
Eu a espero.
Meire sorriu feliz e sentiu brando calor invadir-lhe o peito.
Em seguida, passou pela sala de Marcos e pediu para que ele fosse até a sala de Paulo Renato.
Depois, ela e Milton desceram pelo elevador.
Quando ganharam a rua, ele a convidou para um refresco no salão de chá da Casa Alemã.
Meire concordou com gosto.
Marcos terminou o trabalho do dia, trancou as gavetas e desligou a luz de sua sala.
Passou pelo corredor, bateu na porta de Paulo Renato e entrou.
- Meire disse que quer falar comigo?
Algum assunto urgente?
- Precisamos conversar sobre seu futuro.
- Meu futuro?
- Sim. Vai se casar, não?
- Vou.
- Está decidido?
Tem certeza de que é com essa moça que quer contrair matrimónio?
- Sem dúvida! Amo Carmela.
Ela é a mulher de minha vida.
Paulo Renato riu-se.
- Está apaixonado mesmo.
Caidinho, eu diria.
- Estou de quatro por essa pequena.
- Quem casa quer casa.
- Belo ditado.
Estou me esforçando.
Já programei tudo.
Vou alugar uma bela casa, de preferência aquela em que Carmela sonha viver.
Depois de alguns anos comprarei essa mesma casa, a fim de satisfazer o desejo de minha amada.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 7:57 pm

Paulo Renato o interrompeu.
- Você diz a casa da Lapa?
- É. Aquela casa cuja inquilina fugiu.
Ele meneou a cabeça para cima e para baixo.
Abriu a gaveta de sua escrivaninha e pegou uns papéis.
Entregou-os a Marcos.
- O que é isso?
- Um contrato de compra e venda de imóveis.
Como bom advogado, fiz tudo certinho, dentro da lei.
O tabelião espera a sua assinatura no fim da última página - Paulo Renato apontou - para registar a escritura no cartório.
Marcos leu e não entendeu.
- É um contrato de compra e venda de uma casa - ele começou a ler - sita à rua... - Marcos abriu e fechou a boca, pálido.
Você passou a casa para meu nome?
É isso?
- Presente de casamento.
Não tive tempo de colocar uma fita vermelha.
Desculpe-me.
- Está me dando a casa da Lapa?
- Presente de casamento.
Os olhos de Marcos marejaram.
Paulo Renato levantou-se da cadeira, aproximou-se e o abraçou com enorme carinho.
- Conversei com Valentina e queríamos lhe dar um bom presente.
Pensamos, pensamos e decidimos pela casa da Lapa.
Temos tantos imóveis e, ao saber que Carmela gosta muito daquela casa, Valentina não titubeou, exigiu que fizéssemos o contrato e déssemos a casa para vocês.
- Eu não tenho palavras para expressar meu contentamento e minha gratidão.
- Não precisa.
Gosto muito de você.
Marcos abraçou-o novamente, voz embargada.
- Obrigado, Paulo Renato.
De coração.
- Espero que vocês sejam muito felizes em seu ninho de amor.
- Seremos, pode acreditar.
- E encha aquele quintal de crianças!
- Conte comigo - disse Marcos, rindo e chorando ao mesmo tempo.
Paulo Renato lhe deu a chave da casa.
- Pode fazer surpresa para sua noiva.
Use o dinheiro que tem guardado para fazer uma boa reforma no imóvel.
Até amanhã.
Eles se despediram e Marcos foi directo do escritório para a casa de Carmela.
Em vez do bonde, tomou um táxi para chegar mais rápido.
Chegou ofegante.
- O que aconteceu? - a indagou.
Você sempre me liga antes de vir.
Por que veio de táxi?
- Surpresa!
- Hum - ela sorriu - adoro surpresas.
Marcos pegou em sua mão e foi puxando Carmela para a rua.
- Venha.
- Aonde vamos?
- Pertinho.
Eles atravessaram a rua e Marcos tirou a chave do bolso.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 7:57 pm

Pousou delicadamente o objecto na mão da amada.
- Bem-vinda à nossa casa.
- Como assim?
- Presente de casamento do Dr. Paulo Renato e de d. Valentina.
Carmela arregalou os olhos.
- Esta casa?
Eles nos deram esta casa? - perguntou de modo enfático.
- Paulo Renato soube que você adora esta casa.
Queria nos dar um bom presente e passou a casa para o meu nome.
Agora você vai ter de se casar comigo, de qualquer jeito.
Ela abriu largo sorriso e as lágrimas escorriam pelo canto dos olhos.
Abraçou Marcos com força.
- Meu amor, que presente.
Estou tão feliz.
- Eu também.
Vamos entrar na nossa casa?
- Vamos.
- Um minuto.
- O que foi?
Marcos a pegou pelos braços da maneira como um noivo costuma erguer e carregar a noiva para o leito de amor, na noite de núpcias.
- É assim que você vai entrar na nossa casa.
Carmela deixou-se conduzir.
Entraram na casa e Marcos a colocou no chão.
Percorreram os ambientes e Carmela olhava tudo fascinada.
Vislumbrava as reformas que iria fazer a cor das paredes, os móveis, os quartos das crianças, tudo.
Chegaram ao quarto do casal.
A emoção era forte demais.
Sem trocar uma palavra, os jovens apaixonados abraçaram-se e beijaram-se com volúpia.
Em instantes, estavam deitados sobre o chão do quarto, entregando-se ao amor puro e sincero que brotava de seus corações.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 7:57 pm

CAPÍTULO 40

Os dias correram céleres e Valentina ficou bastante satisfeita com os serviços prestados por Marilda.
Ela era organizada, eficiente, tomava decisões acertadas sem fazê-la perder tempo.
Marilda e Benta se deram muito bem, e, diante de sua eficiência e dedicação, Valentina a promoveu ao cargo de governanta.
- Mas é um cargo de muita responsabilidade.
- Você mostrou que é capaz de gerenciar esta casa.
Não preciso esperar mais tempo.
Vou contratar outra funcionária para fazer seu serviço, que é muito puxado.
- Eu gostaria de continuar fazendo o que faço.
- Não terá tempo para faxina, por exemplo.
Eu quero que administre a casa.
- Administrar?
- Sim. Quero que se ocupe principalmente com o planeamento, controle, organização e supervisão da equipe que vou formar.
Embora eu tenha profunda ligação afectiva com a Benta, preciso de alguém para lidar com Argemiro, Elias e outros criados que virão para cuidar com carinho desta grande casa.
E seu salário será bem melhor, de acordo com suas novas atribuições.
Marilda quis falar, mas Valentina a interrompeu:
- Uma governanta deve dormir dentro da casa.
A partir de hoje você dorme no quarto ao lado do meu.
- Dona Valentina, estou muito feliz.
Obrigada pela confiança.
Marilda apertou a mão da patroa e num gesto instintivo a abraçou.
Valentina retribuiu o abraço.
- Só tem uma coisa, d. Valentina.
- O que é?
- A Lilian.
Não gostaria que ela dormisse sozinha na casa dos fundos.
Ela tem tido pesadelos horríveis ultimamente.
- Eu jamais separaria vocês duas.
Claro que ela vem para dentro da casa.
E, já que você tocou no assunto, eu quero conversar melhor sobre Lilian.
- Pois não.
Valentina apontou para o escritório e ambas dirigiram-se para lá.
Ela sentou-se na frente da escrivaninha e Marilda sentou-se na poltroninha ao lado.
- Tenho observado nesses dias que Lilian é uma menina linda e cativante, embora um pouco entristecida.
- Ela passou por maus bocados.
É difícil lidar com acontecimentos ruins nessa idade.
- Gostaria de conversar com ela.
Importa-se se eu reservar um quarto só para ela?
- Só para ela?
- Sim. Penso em transformá-la numa dama de companhia.
Ela gosta de artes e, se eu ajudá-la em sua educação, creio que vai se tornar mulher elegante e culta.
- É maravilhoso o que me diz.
Eu quero o melhor para Lilian.
Desejo de coração que ela tenha tudo de bom que a vida possa lhe ofertar.
Conversaram mais um pouco e Valentina pediu para Marilda chamar Lilian para uma conversa.
Ela assentiu com a cabeça e saiu do escritório.
Atravessou a casa, saiu pela porta da cozinha e encontrou Lilian sentada na cama, folheando uma revista de cinema, como de costume.
- O que está fazendo, minha querida?
- Lendo A Scena Muda.
Dona Valentina tem vários exemplares.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 7:57 pm

- Gosta de cinema, não?
Os olhos de Lilian brilharam emocionados.
- Adoro. Amo as actrizes, os actores.
Sei de cor um monte de nomes.
- Pode se tornar uma actriz.
- Não. Não penso em ser actriz.
Nesses últimos tempos tenho pensado no que gostaria de fazer, estudar...
Pensei, pensei e cheguei a uma conclusão.
- Posso saber qual?
- Eu gosto de pintura, de arte.
Se pensasse numa profissão, talvez fosse pintora.
Gosto do cinema porque ele me transporta para outro mundo, o dos sonhos, das princesas, dos mocinhos, das histórias de amor.
E, cá entre nós, esses astros e estrelas são glamorosos.
Um dia ainda serei uma mulher assim - ela pegou a revista e mostrou uma foto para Marilda.
- Quem é essa?
- Claudette Colbert, no set de Cleópatra.
Uma das actrizes mais elegantes do cinema.
- Quem sabe, quando crescer, você será como ela?
- Quem sabe?
- A d. Valentina quer conversar com você.
Pediu que vá até o escritório.
Lilian alegrou-se.
- Será que ela vai me dar mais revistas de cinema?
- Pode ser.
- Você está com os olhos tão brilhantes.
Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu. Mas primeiro vá conversar com d. Valentina.
Depois você volta e aí eu lhe conto as novidades.
- Está certo.
Lilian levantou-se, colocou a revista sobre uma mesinha e sentou-se diante da penteadeira.
Pegou a escova e alisou os cabelos, que estavam bem compridos.
Marilda ajudou-a a fazer uma trança e a colocar uma fita combinado com os tons do vestido.
Lilian saiu e Marilda suspirou feliz.
Olhou para o alto e fez sentida prece.
Em seguida, saiu do quarto e foi para o meio do jardim, tinha vontade de gritar, mas resolveu girar o corpo por entre as alamedas de hortênsias e rosas.
Aspirou o perfume das flores e foi dançando, dançando até que esbarrou em Argemiro.
Marilda abriu os olhos e sorriu.
- Desculpe.
- Não tem de quê.
Eu a estava observando à distância.
Você dança como uma dama.
É leve como uma pluma.
Argemiro falou e a pegou na cintura.
Marilda sentiu um calor sem igual.
- Sou leve?
- Leve e linda. - O jardineiro a fitou nos olhos e aproximou-se a tal ponto que ela pôde sentir seu hálito quente e perfumado.
Eu gosto de você, Marilda. De verdade.
Ela fechou os olhos e seus lábios se encontraram.
Logo, Argemiro apalpava seus seios e a beijava com volúpia e desejo.
- Eu a amo.
Eu a amo, Marilda.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 7:58 pm

- Eu também o amo.
Abraçaram-se sentindo enorme prazer nos toques e sensações.
Marilda sentiu a mão forte e grande de Argemiro tocar-lhe com desejo.
- Vamos para o meu quarto.
Não aguento mais.
Eu preciso tê-la.
Marilda assentiu.
Correram até o quarto de Argemiro.
Despiram-se com tremenda rapidez e logo ambos estavam trocando carícias e amando-se a valer.
Marilda estava feliz.
Acabara de ser promovida.
E encontrara, de uma vez por todas, o homem de sua vida.
Lilian entrou na cozinha e Benta foi logo dizendo:
- Quer um copo de leite, menina bonita?
- Agora não. A d. Valentina quer conversar comigo.
Depois eu tomo um gole de leite morno.
Mas tem de ser com mel.
- Especial. Com mel.
Vá e volte logo.
- Está bem.
A menina deixou a cozinha e atravessou o corredor.
Entrou no escritório.
Valentina ajeitava alguns papéis sobre a mesa.
- Oi, d. Valentina.
- Lilian, como está?
- Estou bem.
Hoje cedo ajudei Benta a fazer o almoço.
Amanhã prometo fazer mais actividades.
Não vou ficar parada.
- Eu não quero que continue ajudando Benta.
- Não? Por quê?
Fiz algo de errado?
- De maneira alguma.
Estou pensando em matricular você num bom colégio para meninas ou contratar professores.
Quero que se dedique aos estudos.
- Adoro estudar.
- Gosta de estudar e ler revistas de cinema.
Isso eu sei.
- Ah, gosto mesmo! - declarou Lilian, rindo.
Valentina levantou-se e sentou-se perto da menina.
Olhou-a bem no fundo dos olhos.
- Marilda me contou que tem tido pesadelos.
Esta casa lhe causa algum estranhamento?
- De maneira alguma.
Adoro esta casa.
Mas esses sonhos ruins são antigos.
Eu já tinha esses pesadelos antes de vir para cá.
Valentina interessou-se.
- Que tipo de pesadelo?
Importa-se em me contar?
- É o mesmo sonho, sempre.
Embora seja mulher feita, sei que sou eu.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 7:58 pm

Uso roupas antigas e de repente entro num quarto de hotel.
As cenas me dão medo, ouço, tiros, gritos e...
Lilian levou as mãos ao rosto.
Começou a tremer.
Valentina achegou-se a ela e abraçou-a, com carinho.
- Chi! Não fique assim, minha pequena - falou enquanto acariciava-lhe as tranças.
- Não gostaria mais de ter esses pesadelos.
- Podemos investigar.
- Carmela me disse que são cenas de vidas passadas.
- Acredita mesmo nisso, Lilian?
- Depois de tudo o que me aconteceu, só a reencarnação pode explicar tamanhos infortúnios na vida.
Por quê?
Não gosta que eu acredite?
- Absolutamente.
Eu também acredito.
E, se quer saber, eu também tenho um sonho recorrente...
Valentina afastou-se e levou a mão à boca.
Assustou-se.
- Não pode ser! Não pode ser!
- O que não pode ser d. Valentina?
- Lilian - ela olhou bem nos olhos da menina - consegue se lembrar de mais detalhes, visto que o pesadelo é recorrente?
- Hum, deixe-me pensar - Lilian levantou a cabeça e fitou o tecto, procurando dar largas à imaginação.
Bom, eu me lembre que pergunto por Natalie e Dinah ri da minha angústia.
Estou procurando um homem, acho.
- Tem certeza de que é Dinah?
- Disso eu tenho certeza.
Ela zomba e ri de mim.
Acho até que ela se parece com a Dinorá, à mulher que se juntou com meu pai.
- Querida, se eu lhe contar uma coisa, promete que guarda segredo? Jura?
A menina juntou os indicadores em cruz e os beijou:
- Juro. Pode confiar em mim.
Não conto nem à Carmela.
Valentina contou-lhe sobre os sonhos que também tivera no passado.
O sonho era muito parecido com o de Lilian.
De repente, num clarão, Valentina reviu a cena e lembrou-se de tudo como se tivesse acabado de acontecer.
- Lilian, eu tenho certeza de que o que sonha é uma cena do seu passado, quer dizer, do nosso passado.
- Acha mesmo possível?
- Certeza.
Vou reunir meus amigos hoje à noite para nosso sarau filosófico.
Você gostaria de participar?
- Gostaria.
- Fábio, que faz parte da reunião, é dentista, excelente profissional e estudioso do comportamento humano, pode nos ajudar.
Estudou no exterior e tem grande bagagem de conhecimento, além de também ser estudioso dos fenómenos mediúnicos.
- O que é isso?
- São coisas que nos acontecem por influência do mundo espiritual. Entende?
- Um pouco. A Carmela já me explicou sobre isso.
Ela afirma que vivemos rodeados de espíritos e que podemos sofrer influências boas e ruins, como também podemos influenciá-los.
- Óptimo que pense dessa forma.
Você é uma mocinha e precisa estudar e aprender a lidar com o invisível.
Se não enxergamos, precisamos ter conhecimento para lidar com ele de outras maneiras.
A conversação fluiu agradável.
Valentina sentia agradável sensação no peito.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 7:58 pm

Tinha a nítida certeza de que conhecia Lilian de outras vidas.
Iria certificar-se desse pressentimento logo mais à noite.
Ela comunicou a menina sobre a nova função de Marilda e que a partir do dia seguinte teria um quarto só para ela.
Valentina explicou-lhe o que era uma dama de companhia e Lilian escutava com atenção.
Seus olhinhos brilhavam e piscavam alegres.
Passava das seis da tarde quando Valentina levantou-se e sugeriu que Lilian fosse tomar um lanche leve e preparar-se para a reunião logo mais às oito da noite.
A menina passou na cozinha e Benta lhe serviu leite morninho com mel e alguns biscoitos.
Depois, foi até o quarto dos criados, no fundo do terreno.
Entrou e encontrou Marilda, de banho tomado e sorrindo placidamente.
- Sei por que está rindo dessa maneira.
Marilda fechou o cenho.
- Sabe? Como? - indagou apreensiva.
Será que escutara algo?
- Dona Valentina me disse que você vai ser governanta e que eu vou ser sua dama de companhia.
Marilda suspirou aliviada.
- Pois é. Olha que notícia boa!
- Mas você está muito feliz, Marilda.
- Estou mesmo.
- Vou me arrumar porque fui convidada para participar da reunião mais tarde.
- Está bem, minha querida.
Lilian tirou o laço e desfez as tranças.
Foi ao banheiro e enquanto se banhava, Marilda, estendida na cama, relembrava os momentos de prazer que vivera havia pouco com Argemiro.
Estava feliz. Estava muito feliz!
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 7:58 pm

CAPÍTULO 41

O carrilhão do hall deu oito badaladas.
Todos os convidados haviam chegado.
Geralmente eles se reuniam numa saleta contígua à sala de estar, antes de irem para o salão.
Era uma sala decorada com simplicidade, porém com muito bom gosto.
Havia uma grande estante de livros variados.
Algumas poltronas, cadeiras e canapés faziam um círculo no ambiente, cuja luz fraca convidava a todos para a meditação e o contacto interior.
Era um local propício para a retirada de energias densas e restauração das mesmas.
Os convidados chegavam, vindos do trabalho ou de suas casas e ficavam ali por alguns minutos.
Meditavam, desligavam-se dos assuntos do dia, das pessoas com as quais se envolviam, ou seja, empurravam todo contacto com o mundo externo para fora de suas mentes e, relaxados e sem ligações mentais com o "mundo externo", tiravam os sapatos e caminhavam por linda alameda de azuleias e jasmins que conduzia o convidado até o salão cultural, um anexo construído do lado de fora da casa.
Era todo envidraçado e rodeado de alamedas floridas.
Valentina entrou na saleta acompanhada de Lilian.
- A vida é dura e triste - suspirou Lilian, enquanto sentavam-se numa poltrona.
- Feche os olhos - ordenou Valentina, de maneira doce, porém com modulação de voz alterada, mais firme.
Lilian assentiu e cerrou as pálpebras. Valentina respirou fundo.
- Podemos escolher entre o amor ou o medo, não importa a hora.
A qualquer momento, eu posso escolher ficar ao lado do medo, e desta forma receber energias perturbadoras que vão me acompanhar e atrapalhar minha vida.
Posso, por outro lado, escolher ficar no amor e receber bênçãos e luzes, acreditando que essa energia poderosa pode me abraçar e cuidar de mim, protegendo-me das energias ruins e me inspirando a decidir o melhor para mim.
Se você acredita que a vida é dura e triste, então a sua vida será permeada de muito sacrifício e muita tristeza.
Vai ter uma vida regada de acontecimentos desagradáveis, um atrás do outro, porque assim você acredita.
Os olhos de Lilian, embora fechados, não conseguiam controlar as lágrimas.
Valentina prosseguiu olhos também fechados.
- Você se vê como vítima do mundo.
Acredita que é infeliz e desamparada pela vida.
Culpa o mundo pela falta dos pais, culpa Deus por ter sido molestada, está se tornando pessoa amarga e fadada ao infortúnio.
Seu espírito está preso ao corpo de uma mocinha aparentemente frágil e desprotegida.
Não pode se esquecer, Lilian, de que você viveu muitas vidas, e que a sua vida agora é o resultado das experiências vividas ao longo dessas encarnações passadas.
Está na hora de parar de se castigar.
Chegou o momento de deixar de se iludir pelo mundo e tomar posse de si.
Precisa aprender que, ao escolher ficar ao lado do amor, estará ao lado do Sol.
O Sol é poderoso, ilumina, aquece e conforta.
Às vezes, ele é encoberto por nuvens, contudo continua ali em seu lugar.
Quando as nuvens se desvanecem, ele ressurge forte e vigoroso.
As nuvens são passageiras, assim como tudo o que acontece em nossa vida.
Chega de ficar presa ao passado.
Em última existência você se deixou corroer pelo ciúme doentio e deixou-se levar pela opinião dos outros.
Não acreditou em si e não quis escutar a voz amiga de sua consciência que a alertara para os perigos de se deixar levar pela maledicência do mundo.
Deus não a puniu.
A vida não a puniu.
Não se esqueça de que colhemos o resultado do que acreditamos ser verdade.
Se acredita que o mal vence, ele vencerá.
Se acredita tão somente no bem, ele vencerá.
Lilian abriu os olhos e enxugou as lágrimas com as costas das mãos.
Fungou um pouquinho e Valentina pegou um lencinho sobre a mesinha lateral e o entregou à menina.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 7:58 pm

Nuri estava ao lado delas, inspirando Valentina com as belas palavras.
Aproximou-se de Lilian e sussurrou:
- Hoje à noite, ao se deitar, vou tirá-la do corpo físico e levá-la para um lindo lugar em outra dimensão.
Acredite esse pesadelo não vai mais se repetir.
Ela beijou a fronte da menina.
Em seguida, dois espíritos apareceram e começaram a fazer a limpeza energética do ambiente.
Em instantes a saleta tornava-se novamente ambiente tranquilo e sereno.
Valentina deu a mão para Lilian.
Levantaram-se e foram para o salão. Valentina apresentou a menina aos convidados.
Duas amigas de sociedade, Maria Helena e Renata, ficaram encantadas com tanta desenvoltura.
Lilian falava com propriedade, apontava para os quadros espalhados pela parede e discursava sobre as cores, tons, estilo e dizia com segurança o nome dos artistas e de suas obras.
Em seguida, todos se sentaram à vontade.
As luzes foram diminuindo e um dos rapazes levantou-se e começou a falar sobre o poder das amebas.
- Não vim falar sobre seres unicelulares, mas sobre formas-pensamentos que ficam presas ao nosso redor e nos influenciam sobremaneira - tornou Fábio, que além de bonito e rico, era inteligente e possuía sensibilidade fantástica.
Ele prosseguiu:
- Por incrível que pareça, nós todos temos muito medo de sermos nós mesmos.
Por esse motivo, criamos regras para sermos “aceites" no mundo.
Essas regras que criamos são estruturas da mente chamadas de amebas.
- Quer dizer que amebas nada mais são do que pensamentos ou crenças que aceitamos e acreditamos como verdadeiros? - indagou um dos presentes.
- Isso mesmo.
Como temos uma forte crença de que não somos pessoas boas, acreditamos que não seremos considerados no mundo, caso sejamos verdadeiros.
São as amebas que criam as situações que iremos experienciar em nossa vida.
Para entender melhor essas amebas, basta percebê-las como aquelas nossas vozes interiores, com as quais conversamos o dia todo.
Elas são fruto de nossa vontade e do nosso poder.
- Então podemos criá-las, recriá-las ou mesmo destruí-las?
- Sim. Podemos criar ou destruir essas estruturas mentais de acordo com a necessidade de nos defendermos do mundo.
Se você acredita num mundo duro e triste, essas amebas vão criar situações duras e tristes em sua vida, porque assim você acredita.
Você dá alimento a essas estruturas mentais quando acredita que o mundo é perigoso, por exemplo.
Do mesmo modo, se acreditar que a vida é boa e cheia de óptimas oportunidades de crescimento, essas estruturas vão ajudá-lo a experimentar situações as mais positivas possíveis.
Tudo é uma questão de escolha interior.
Precisamos rever nosso sistema de crenças, perceber quais nos fazem bem e quais nos perturbam.
Essas que nos perturbam precisam ser dissolvidas e trocadas por amebas positivas que nos ajudem a viver bem connosco e com o mundo ao nosso redor.
O estudo decorreu de forma agradável, como de costume.
No encerramento, todos se levantaram e deram as mãos, pedindo lucidez e clareza de ideias em suas vidas.
Depois, os convidados serviram-se de lanchinhos e refrescos.
Alguns artistas apareceram em seguida e o ambiente tornou-se alegre e festivo.
Um artista começou a desenhar o rosto de Valentina numa tela; outro pegou Lilian pelas mãos e a conduziu até o piano.
Sentaram-se e ele tocou uma música clássica.
Terminada a música, ele pediu que Lilian o ajudasse a tocar uma marchinha muito em voga na época.
Lilian foi dedilhando uma nota aqui e outra ali.
Notou que tinha facilidade em tocar as notas musicais, embora nunca tivesse tido aulas de piano.
A noite transcorreu alegre e passava das duas da manhã quando o último convidado despediu-se delas.
Lilian estava cansada, mas feliz.
- Vamos - disse Valentina, enquanto passava o braço pela cintura da menina - quero que tenha uma boa noite de sono e amanhã, quando eu voltar da oficina de costura, teremos uma conversa.
- Uma conversa?
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 7:59 pm

- Sim. Mas não se assuste.
Estive pensando... e quero lhe fazer uma proposta.
Uma boa proposta.
- Se é boa, eu aceito.
Pode adiantar?
- Não, senhorita.
Agora é hora de dormir.
Você deveria estar deitada há horas.
Hoje foi uma excepção.
- Adorei a noite.
O discurso do Fábio foi lindo.
Entendi alguma coisa.
Parece que ele estava falando tudo àquilo para mim.
Agora percebo como sou responsável por tudo o que me aconteceu.
- Todos nós fizemos de uma forma ou de outra, escolhas negativas no passado.
Isso não significa, em hipótese alguma, que somos maus ou mesmo que somos obrigados a ficar com elas.
Lembre-se do que Fábio disse, podemos criar ou destruir essas estruturas mentais, ou mesmo recriá-las.
Isto posto, temos a liberdade de escolher nos livrar dos velhos condicionamentos que nos perturbam e atravancam nosso caminho rumo à lucidez.
E, a partir de hoje, você vai dormir dentro da minha casa.
Lilian assentiu com a cabeça.
Entraram na casa e o silêncio reinava.
Todos os criados dormiam a sono solto.
Elas subiram a escada.
Despediram-se no corredor.
Lilian trocou-se e colocou sua camisola.
Deitou-se, fechou os olhos e em seguida adormeceu.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 7:59 pm

CAPÍTULO 42

António terminou de ajeitar as roupas na mala.
Perpassou os olhos pelo ambiente.
Não havia se esquecido de levar mais nada.
Suspirou triste e fechou a bagagem.
Desceu as escadas, colocou a mala próxima à porta de entrada e seguiu para a cozinha.
Arlete havia terminado de coar o café.
- Bom dia, filho.
- Bom dia, mãe.
- Acordou cedo, hoje.
Ainda tem mais alguns dias até ocupar seu posto, não é?
- Decidi antecipar.
Vou-me embora logo mais.
- Por quê?
- Preciso dar um rumo à minha vida.
A dor por ter me separado já passou.
Agora preciso e quero seguir em paz, sem estar preso ao passado.
Arlete colocou o café no bule.
Sentou-se à mesa, de frente para o filho.
- Você está triste.
Eu sinto isso.
António serviu-se de café com leite.
Pegou um pãozinho e passou manteiga.
Comeu a contragosto, de maneira mecânica.
- Estou confuso, mãe.
Uma lágrima escapou pelo canto do olho.
Arlete serviu-se de café e pegou uma fatia de bolo de fubá.
- Seu pai e irmãos ainda estão dormindo.
Podemos conversar um pouco.
- Não quero conversar.
- Está bem, mas de que adianta negar o facto de gostar de Lenita?
António arregalou os olhos.
- Como assim?
- Sou sua mãe, você foi gerado aqui dentro - apontou para a barriga.
Conheço a todos os meus filhos e até Lenita, que, embora não tenha saído de mim, conheço como a palma de minha mão.
Tem tido sentimentos diferentes por ela, não é?
- Estou encabulado e sinto vergonha.
Sou um homem de vinte e cinco anos de idade.
Como posso sentir algo diferente por uma menina de seis?
- Como se sente ao lado dela?
- É como se eu a conhecesse há muito tempo, mas como mulher e não como uma menininha.
Não sou um monstro e jamais faria qualquer barbaridade.
- Sei disso.
Você não é um tarado.
Gosta dela de outra forma.
Não é crime. Desde que você espere ela crescer e tornar-se mulher.
- Eu gostaria de esperar.
Quem sabe, daqui alguns anos, ela também perceba o mesmo?
O facto é que eu vou embora e ela vai ficar aqui, ao lado do Luisinho.
Ele gosta muito dela.
Tenho medo de...
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 8:27 pm

- Medo de ela crescer e apaixonar-se pelo seu irmão?
- É. Na verdade, eu preciso esquecer tudo isso, mãe.
Quero ir embora, cuidar da minha vida.
Quem sabe eu não vá encontrar em Campinas uma moça de bem e ser feliz?
Lenita é uma garotinha linda e encantadora.
Talvez eu tenha misturado as emoções.
Quem sabe não vou casar e ter uma filha?
Arlete sorriu e não respondeu.
Havia notado os olhos do filho sobre Lenita.
Não eram olhos de desejo ou de volúpia, mas olhos de puro amor.
António sorria diferente quando estava perto da menina.
Percebia que ele ficava mais alegre, conversava mais.
Chegara a conversar com Dorival sobre o assunto, ao que ele respondeu:
- Bobagens!
Quando António põe os olhos em Lenita lembra-se de que poderia ter uma filha.
Arlete não deu prosseguimento.
Sabia que António, muito correcto e responsável, iria embora o quanto antes.
Todavia, algo dentro dela dizia que essa história não havia terminado.
- Prometo que vou escrever, mãe.
Vou escrever todos os meses.
Um dia, quem sabe, eu volto...
Eles se abraçaram e se despediram, emocionados.
- António vai voltar - disse para si quando ele dobrou o portãozinho de madeira e partiu rumo à estação de trem.
Ele um dia vai voltar.
- Falando sozinha, mãe?
- Lenita, acordada?
Ainda é cedo.
- Senti o cheirinho de café e desci.
Estou com fome.
- Vamos.
Vou lhe servir café com leite.
Entraram e sentaram-se à mesa.
- António foi embora, né?
- Foi.
- Ele vai voltar daqui a muitos anos.
- Por que diz isso?
- Tive um sonho esta noite.
Arlete sorriu.
Serviu a xícara de café com leite e cortou generoso pedaço de bolo de fubá.
- Conte para mim, filha.
Lenita primeiro mordeu o pedaço de bolo e em seguida sorveu o líquido morninho.
- Estava num quarto e havia sangue e pessoas mortas.
Arlete levou a mão à boca.
- Credo, filha.
Que sonho ruim. Foi um pesadelo.
Lenita abriu largo sorriso.
- Não, mãe. Não foi pesadelo.
Deixe eu lhe contar.
Eu estava nesse quarto sujo e eu era uma das pessoas mortas.
Aí uma mulher bonita, bem bonita por sinal, apareceu e me levou.
Tinha uma moça que também havia sido morta.
Nós duas fomos para uma colónia e descobrimos que fomos assassinadas.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 8:27 pm

Fiquei triste, mas em seguida um moço bonito apareceu e disse que ia cuidar de mim.
Ele era a cara do António.
- Do António, seu irmão?
- Hum, hum.
Ele tinha sido meu noivo no passado.
Disse-me que ia cuidar de mim, nessa colónia, só que ele precisava renascer antes de mim.
Havia feito planos com você e papai e precisava reencarnar.
Declarou que iríamos nos reencontrar, casar e ter filhos.
- Sonhou tudo isso?
- Sonhei. Sei que era eu no sonho, mas com outro corpo e outro nome.
Mas fiquei tão feliz quando reencontrei o António.
Pode acreditar mamãe, ele vai voltar um dia e vamos nos casar.
- Você é uma menininha.
Como pode pensar num assunto de gente grande?
- Por que sei que isso vai acontecer, ora.
Lenita falou, pegou outra fatia de bolo e passou manteiga.
Comeu a fatia com gosto, enquanto Arlete, estupefacta, tentava entender o sonho da filha e os sentimentos de António, que naquele momento, já estava na estrada, bem longe de casa.
Quando adormeceu, o perispírito de Lilian desprendeu-se do corpo físico e ela foi despertada por Nuri.
Ao abrir os olhos, em outra dimensão, teve uma grata surpresa.
- Mamãe! Você voltou!
Nuri a abraçou com carinho.
- Não voltei, meu amor.
Vivo numa outra dimensão.
- Você morreu tão nova!
- Eu quis voltar ao planeta por pouco tempo.
Reencarnei para trazer você e Clara ao mundo.
Eu quis dar a vida às duas.
- Minha mãe linda.
Lilian abraçou-se a ela novamente.
Nuri era um espírito de muita luminosidade e muita firmeza, ou seja, tinha equilíbrio entre luz e sombra.
Havia retornado ao planeta como Rosa, em última existência, para gerar as meninas.
Cumprido o seu intento, Nuri regressou ao mundo espiritual e logo readquiriu a forma de uma existência passada.
- Você está diferente.
Mais bonita, mais bem tratada.
- Aqui nesta dimensão podemos ter a forma que desejarmos.
Eu prefiro ficar com essa aparência de quando vivíamos na França.
Lilian fechou o cenho.
Entristeceu-se.
- Não gosto de me lembrar dessa época.
Foi lá que tive a maior decepção de minha vida.
Aprendi que não podemos confiar nas pessoas e que o mundo é muito vil.
Eu não merecia passar pelo que passei.
- Passamos pelo que precisamos passar, de acordo com nossas crenças.
Você acreditou no mal e deu força a ele.
Se tivesse escutado a voz de sua consciência, sua vida seria completamente diferente.
- Eu amava Paul.
Por que tive de morrer tão jovem?
Até hoje pensam que eu matei os dois e em seguida me matei.
Você sabe que é mentira...
Uma lágrima escorreu pelo canto de seu olho.
Nuri colocou a cabeça da garota em seu peito.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 8:27 pm

Enquanto alisava seus cabelos, falou, com voz doce:
- Lilian, está na hora de perdoar a si mesma pelos erros do passado.
- É difícil.
Ainda fica tudo confuso na minha mente.
- Vou ajudá-la.
Nuri afastou-se e pousou a mão na testa de Lilian.
A menina fechou os olhos e num instante toda outra vida se descortinou a sua frente.
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Ave sem Ninho

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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 8:28 pm

CAPÍTULO 43

Por volta de 1770, a França era bem diferente do que viria a ser alguns anos depois, com a Revolução Francesa.
Foi uma época onde o reinado viu a prosperidade da aristocracia e da opulenta burguesia, apesar de o país estar à beira da bancarrota.
Apesar de tradicionalmente ser conhecido como homem voltado ao prazer e aos caprichos, Luís XV fez destacar o reino no plano intelectual e das artes.
A jovem Lilian não estava interessada nos assuntos do rei, de suas amantes ou da corte em geral.
Estava apaixonada e ia ser feliz.
Filha de um artesão, ela conhecera um nobre.
Paul era um rapaz muito bonito e muito galante.
Estava noivo de Claire, contudo ao conhecer Lilian, apaixonara-se verdadeiramente.
Mas os casamentos naqueles tempos eram baseados em acordos e nunca nos sentimentos dos nubentes.
Paul gostava do dinheiro que iria ganhar casando-se com Claire.
Por mais que amasse Lilian, eles não podiam se unir, não pelas vias do matrimónio.
Eles se encontravam uma vez por semana e Lilian entregava-se a ele.
Amavam-se e Paul era sincero.
- Sabe que não tenciono casar-me com você.
Não posso.
- Fuja. Podemos ir para outro país.
Juntos poderemos vencer e até ganhar dinheiro, termos uma posição.
Afinal, você é um nobre.
- De forma alguma.
Eu não tenho onde cair morto.
Minha família está falida.
O casamento com Claire vai beneficiar a muitos.
- E quanto ao nosso amor?
- Você poderá ser minha amante.
Eu não posso viver sem você.
- Sei disso.
Eu também não.
- Tenho uma ideia melhor.
Por que não a apresento a Claire?
Vocês podem ficar amigas.
Desse jeito, posso levá-la à cidade e hospedá-la em minha casa, assim que casarmos.
Não despertará suspeitas e, quando Claire não estiver em casa, poderemos nos amar.
Um brilho emotivo perpassou os olhos de Lilian.
- Ir para a capital e sair desse lugar nojento é tudo o que mais quero.
- Não sei como você consegue viver dessa maneira.
Disso Paul tinha razão.
Lilian morava num subúrbio de Toulouse, numa casa de três andares com dezasseis famílias.
Sim, dezasseis!
Uma família em cada quarto.
Lilian estava cansada dessa vida tosca e aceitou partir com o amado, mesmo sob os protestos da irmã Camille.
A princípio ela ficou hospedada na casa de uma prima de Paul.
Natalie era uma mulher bonita.
O que tinha de bonita, tinha de rancorosa.
Era apaixonada pelo primo, mas eles não podiam se casar.
O dote que a família de Claire oferecia pelo casamento era muito mais valioso do que o pequeno dote que o pai de Natalie poderia oferecer.
Natalie dissimulava a contrariedade.
Desde pequena sonhava em se casar com o primo.
Paul nunca lhe dera trela.
Era galanteador saía com várias mulheres, mas nunca Natalie despertara nele qualquer interesse.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 8:28 pm

Ela havia se casado anos antes e não se dava bem com o esposo.
Viviam sob o mesmo teto, mas cada um levava sua própria vida.
Quando ele apareceu com Lilian e pediu que a prima a acolhesse por algum tempo até que o casamento fosse consumado, Natalie viu a chance de melar o matrimónio e reavivar o sonho de casar-se com Paul.
Ela fingiu ser simpática e aproximou-se de Lilian.
Ficaram amigas e, aos poucos, Natalie foi destilando seu veneno, falando sobre a vida de amante.
- Se ele a ama de verdade, por que vai ser sempre a outra?
- Não tenho dote.
Meu pai é artesão e não temos nada a oferecer.
Desde que Paul continue me amando, não me importo.
- E se ele amanhã se cansar de você?
Vai viver de quê?
- Não, ele nunca vai me deixar.
- Tenho uma amiga que sofreu muito nas mãos de Paul.
- Mesmo? Como assim?
- Ele prometeu mundos e fundos para Dinah.
Ela acreditou e deixou de se casar com outro nobre para viver com Paul.
Ele desistiu no último instante.
Dinah perdeu o noivo, a reputação e hoje vive amargurada e triste.
- Mas ele me ama.
- Se tem tanta certeza disso...
Natalie foi plantando na cabeça de Lilian as sementes de discórdia, de desconfiança, dia após dia.
Trouxe Dinah para o convívio delas e, à primeira impressão, Lilian não gostou dela.
Havia algo de estranho, de sinistro naquela mulher.
O que ocorrera, de facto, é que Paul havia se interessado por Dinah, muito tempo atrás.
Ela não conseguia ser-lhe fiel e o traía a torto e a direito.
Paul um dia descobriu as escapadelas e a deixou.
Dinah arrependera-se, porém era tarde demais.
Paul havia conhecido Lilian e apaixonara-se de verdade pela moça.
Mas o tempo foi passando e Lilian viu-se cada vez mais influenciada pelos pensamentos tóxicos de Dinah e Natalie.
Nesta diluía da história, ela não queria mais que ele se casasse com Claire.
Acreditara em todas as barbaridades que Natalie e Dinah lhe contaram, e estava decidida: não queria mais ser a outra.
Diante disso, ela deu um ultimato ao amado.
Ou ele se casava com ela, ou Claire iria saber de seus encontros amorosos.
Paul a amava, contudo não gostou de ser pressionado.
Se o casamento fosse desfeito, sua família perderia absolutamente tudo.
Ele não podia, de forma alguma, ser chantageado.
Resolveu contar tudo a Claire, pois não queria viver sob chantagem, de forma alguma.
Claire foi muito compreensiva.
Mulher inteligente e prática, percebeu que enquanto o casamento não se consumasse, ela poderia perder o noivo.
Se eles se amavam e se iriam casar - acreditava ela -, por que então ela não se entregava a ele?
Dessa forma, o interesse por Lilian iria se acabar como que por encanto.
Ela não pensou duas vezes.
Deitou-se com Paul, uma, duas, várias vezes.
E, de facto, o interesse dele por Lilian foi diminuindo.
Afinal, agora Claire dava-lhe todo o que precisava.
Lilian começava a ser descartada.
Natalie foi categórica:
- Eu lhe falei.
Ele fez com você o mesmo que fez com Dinah.
Entre lágrimas, Lilian meneava a cabeça para os lados, completamente desiludida.
- Ele não pode fazer isso comigo, ele me ama.
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