UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 8:28 pm

- Bobagem. Mentira.
Lilian enlouqueceu.
Procurou Paul para reatarem, mas nada.
Ele estava irredutível. Iria se casar em breve.
O pai de Claire iria acertar algumas pendências em relação ao matrimónio e logo estariam casados e com a situação financeira de sua família restaurada.
A dor foi imensa.
Ela não queria voltar para Toulouse, mesmo sob insistência da irmã que tanto lhe queria bem.
Lilian não queria mais viver naquela casa cheia de cómodos e infestada de gente pobre.
- Natalie, você pode me ajudar?
- De que forma?
- O que podemos fazer para que esse casamento não aconteça?
- Não sei.
- Claire e Paul não podem se casar.
- Bom, a única maneira que vejo é...
- O que seria?
Vamos, diga - indagou Lilian, nervosa.
- Se Claire estivesse morta, o caminho estaria livre para você.
- Matar? Eu nunca matei um bicho.
Como posso matar uma pessoa?
Natalie deu de ombros.
Na verdade, ela é que estava se consumindo de ódio pelo casamento do primo.
Finalmente ele iria se casar e os sonhos dela de separar-se e se tornar a madame Dubreil estavam por não se concretizar.
A constatação de que Paul tornara-se definitivamente parte do seu passado, foi quando descobriu que Lilian estava grávida.
- Não pode ser!
Você está grávida de Paul? - indagou Natalie, furiosa.
- Eu só me relacionei com ele.
- Tem certeza?
- Absoluta.
- E agora?
- Vou ter esse filho.
Vamos ver se ele volta para mim.
Claro que volta...
Essa criança não estava nos planos de Natalie.
Precisava dar um sumiço em Lilian.
Numa noite, Natalie encontrou-se às escondidas com Dinah.
- Precisamos fazer algo.
Essa criança não pode nascer.
- Dê um chá abortivo para ela.
- Lilian é esperta.
Disse-me que vai retornar para a casa dos pais, que ela detesta, mas vai apostar nesse nascimento, pois a estúpida da irmã vai ajudá-la.
Depois vai voltar, com a criança nos braços e procurar Paul.
- Esperta essa garota.
Mais esperta que você.
Natalie perdeu o controle.
- Essa fedelha não pode ter esse filho!
E esse casamento com Claire não pode acontecer.
- O que quer que eu faça? Que a mate?
- Não deixa de ser má ideia.
- Não sou assassina.
Natalie bramiu, descontrolada:
- Posso conseguir... - baixou o tom de voz - um bom dinheiro após meu novo casamento.
Se me casar com Paul, farei de você minha protegida.
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Ave sem Ninho

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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 8:28 pm

- Não posso me arriscar.
- Você é uma fraca.
- Não sou fraca, mas podemos fazer com que Lilian cometa o crime.
- Ela é boba.
- Tem razão.
Ela é uma tola apaixonada.
Creio que se Paul pudesse escolher, teria Lilian como esposa.
Natalie sentiu novamente aquele ódio no peito.
- Não fale um absurdo desses!
- Mas é verdade.
Sabemos que Paul, lá no fundo, ama Lilian.
Ele até gosta de Claire, entretanto, o dinheiro está falando mais alto.
E, cá entre nós, Lilian não pisa nem em formiga.
- Já sei o que podemos fazer para afastar Lilian...
Uma ideia horrível passou pela mente de Natalie.
Ela contou o plano sórdido.
Com a ajuda de um amigo, poderiam colocar Lilian num sanatório.
Como os loucos eram tratados de maneira pavorosa, em pouco tempo a moça estaria em total desequilíbrio.
A criança, ao nascer, seria entregue para adopção.
- Ela não tem familiares por perto.
Damos bastante vinho para ela e, quando acordar, estará no sanatório, presa.
- E de que vai adiantar?
Paul vai se casar mesmo assim - ajuntou Dinah.
- Você não quer se vingar dele?
Ele também a abandonou.
- Sim, mas o que fazer? Eu o traí.
Não tenho controle sobre o sexo.
E, de mais a mais, ninguém manda no coração.
- Você também é muito boba, Dinah.
Prefere vê-lo feliz ao lado de outra, depois de ter espezinhado em seu coraçãozinho?
Dinah mordiscou os lábios.
Estava insegura.
Não sabia se acreditava em si ou nas duras palavras de Natalie.
Algumas sombras escuras aproximaram-se dela e sussurraram em sua mente para que aceitasse participar do plano diabólico.
Por fim, depois de dar ouvidos a Natalie e aos espíritos menos esclarecidos ali presentes, Dinah resolveu optar por se vingar.
- Farei o que me pedir.
Natalie sorriu de maneira mórbida.
Tudo sairia como ela planejara.
Se não podia ter Paul, ele também não teria ninguém.
Não teria Lilian, não teria Claire.
E não teria Dinah.
Estava decidida.
Se tudo seguisse conforme seus intentos, o caminho estaria livre para Paul e ela.
Somente ela.
Na semana seguinte, Dinah deitou-se com um sentinela e mais dois atendentes do sanatório.
Dessa forma, Natalie conseguiu que Lilian fosse trancafiada numa cela.
Agora, precisava pensar em afastar Claire e depois pensaria no que fazer com Dinah.
- Essa é a que me dá menos trabalho.
É muito boba e insegura disse para si, enquanto saboreava as imagens de um lindo futuro ao lado de Paul.
Natalie havia subornado um dos empregados do sanatório.
Conseguira vender umas jóias de família e dera-lhe dinheiro para que deixasse Lilian escapar.
Na primeira tentativa, Lilian desequilibrou-se ao escalar o muro, caiu de altura considerável e perdeu a criança.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 8:29 pm

Na segunda tentativa, meses depois, ela saiu sorrateiramente do sanatório.
Caminhou bastante até chegar à cidade, pois ele ficava num local afastado.
Daí encontrou Dinah no caminho.
Dinah sábia que as faculdades mentais de Lilian haviam sido afectadas, muito mais depois de ela ter perdido o bebé.
Aproveitou-se da situação e, conforme o combinado com Natalie, falou o que tinha de dizer:
- Paul e Natalie estão juntos.
Para ser mais exacta, estão se amando.
- Impossível!
Ele prometeu ficar comigo.
- Veja por si mesma. Neste momento...
E daí seguiu-se tudo como no início desta história.
Lilian correu até a casa de Paul, pegou a pistola, saiu em disparada na direcção da estalagem.
Ao chegar, deparou-se com Paul e Claire.
Dinah havia mentido, conforme solicitado por Natalie.
- Por que quer que eu minta para ela e diga que você está com Paul?
- Porque assim ela vai se descontrolar.
Ela acabou de perder o filho e ficou trancafiada num sanatório.
Está no limite de suas forças.
Lilian chegou a ponto de cometer, literalmente, uma loucura.
E eu vou ajudá-la, só isso.
- Quer que eu atice a moça, provoque-a para ir até a estalagem?
- Faça isso.
O resto deixe comigo.
Lilian chegou ao quarto e ao notar que Paul estava com Claire, por instantes fraquejou.
Não tinha coragem de atirar no homem que amava, tampouco na moça que mal conhecia.
Definitivamente ela não era uma assassina.
Ela chegou a apontar a arma para os dois, mas não atirou.
Voltando um pouco a cena, Natalie estava escondida num outro quarto, que alugara para esse fim.
Ao ouvir os gritos dos três, precisava ser rápida e aproveitar a oportunidade.
Munida de um revólver, ela entrou feito um tufão no quarto e atirou no casal.
Primeiro em Claire, depois em Paul.
Lilian mal conseguia tirar os olhos daqueles corpos caídos e sem vida.
Com a garganta seca, voz entre-cortada, perguntou, aterrorizada e pressentindo o que estava prestes a lhe acontecer:
- O que você fez? Por quê?
- Porque eles merecem morrer.
Se Paul não vai ficar comigo, não vai ficar com mais ninguém.
Em seguida, Natalie mirou e atirou no peito de Lilian.
Um tiro fatal.
Imediatamente, de maneira fria e num gesto calculado, colocou a arma na mão de Lilian.
Pegou a pistola da outra e saiu do aposento, entrando no quarto ao lado.
Quando o gerente da estalagem subiu, encontrou os três corpos caídos no chão.
Paul, Claire e Lilian tiveram morte instantânea.
O caso foi notícia, pois envolvia a morte de gente da nobreza.
o entanto, como todo escândalo, teve os dias contados, porquanto em 1774, com a morte de Luís XV, seu neto Luís Augusto foi coroado rei, com o título de Luís XVI.
O povo interessou-se mais pelos escândalos de sua esposa Maria Antonieta e esse triste episódio caiu no esquecimento do público.
Mas não caiu no esquecimento de Dinah.
Ao saber dos assassinatos, ela não acreditou na versão que se tornou oficial aos olhos dos homens: de que Lilian, enciumada, matara Paul e Claire e depois se matara.
O comissário de polícia encarregado em investigar o caso só ficou intrigado com um brinco encontrado no chão, perto dos corpos.
- É um entra-e-sai nesta estalagem que deve ser de outra hóspede - justificou o gerente.
Todavia, Dinah sabia da verdade.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 8:29 pm

Soubera do brinco achado entre os corpos e sabia que o conhecia de algum lugar.
Não demorou muito para se recordar de que o brinco em questão era de Natalie.
Numa tarde, ao saber que Natalie não se encontrava em casa, Dinah entrou, vasculhou seus armários e encontrou o brinco que completava o par.
- O que faz em minha casa? - indagou Natalie, nervosa.
Dinah sorriu e mostrou o brinco.
- Acharam o outro no quarto, na tarde do crime...
- Não, eu...
- Não precisa me explicar nada, querida.
Somos amigas, esqueceu-se?
Foi dessa forma que Dinah ganhou algumas jóias e outros favores de Natalie.
Porém, cansada de ser extorquida, um dia Natalie resolveu colocar um fim na chantagem e acabar de vez por todas com essa história.
Convidou Dinah para um passeio dominical nos jardins do rei.
Por dois anos Natalie fez esse jogo de amiga fiel.
Dizia a Dinah que o passado estava enterrado e que não guardava mágoas ou rancores.
- Mesmo depois de eu chantagear você?
- Claro. Entendo que você ficou agastada com toda aquela situação.
Agora somos você e eu no mundo.
- O que quer dizer?
- De que adianta os homens se temos uma à outra?
Podemos ser felizes juntas.
- Será?
Natalie a seduziu e tornaram-se amantes.
Por pouco tempo.
Numa tarde linda de verão, foram refrescar-se à beira de um riacho.
Natalie aproveitou que estavam sós e, num momento em que Dinah estava distraída, ela pulou sobre ela e a afogou.
- Idiota! Achou mesmo que eu gostava de mulher?
Ainda continuo casada...
Entre gargalhadas, deixou que o corpo da outra, sem vida, seguisse o curso do rio.
O corpo de Dinah nunca fora encontrado.
A história de Natalie também terminou de forma trágica.
Alguns anos depois, por ter ligações com a corte, ela foi uma das inúmeras pessoas que perderam a vida na guilhotina, no auge da Revolução Francesa.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 8:29 pm

CAPÍTULO 44

Lilian abriu e arregalou os olhos.
Havia se lembrado com tanta nitidez do passado recente que até sua aparência perispiritual estava mesclada com a Lilian de outrora.
- Meu Deus!
Que horror! - disse ela, numa voz entristecida.
- De facto - tornou Nuri - os acontecimentos naquela vida terminaram de maneira muito triste.
- Agora me lembro bem.
Logo depois de ser baleada e morta fui acolhida por minha madrinha.
- É verdade. Marguerite, em espírito, ajudou-a muito e tinha carinho especial por você.
Em vida, tencionava levá-la para morar com ela em Lyon, mas adoeceu e faleceu.
Você ficou muito triste e também irritada com a vida.
- Nunca aceitei a morte dela.
- E de que adiantou não aceitar?
O facto estava consumado.
Marguerite havia morrido e nada mudaria essa situação.
Mas você deixou-se levar pelo mar da ilusão, da descrença e em seguida atirou-se nos braços de Paul.
Ele foi sincero.
- É. Não tenho rancores em relação a ele.
Entretanto, fiquei muito magoada com Dinah e Natalie.
Entrei no jogo das duas.
Acreditei em suas mentiras, dei mais valor às besteiras que elas me falaram.
Deixei de escutar a voz do meu coração.
- Exactamente. Entregou o seu poder nas mãos dos outros.
Acreditou na maldade do mundo, ma maledicência das pessoas, que sempre existiu e que vai perdurar ainda por muito tempo.
As pessoas encarnadas no planeta, quando se sentem ameaçadas, lançam mão de tudo, principalmente da maldade, para se defender.
- Demorei para perdoar a todos.
Ao rever vidas passadas, percebi que também havia aprontado com Natalie.
Mas Dinah foi mais difícil de perdoar.
- Por esse motivo a vida as uniu novamente.
Era você e Claire.
- Como? Quer dizer...
- Sim, minha querida.
Dinorá e Clara são Dinah e Claire no passado.
O espírito de Dinah, arrependido, culpou-se por ter ajudado a causar a morte de vocês.
- Mas ela não me matou.
Quem me matou foi Natalie.
- Contudo, o remorso corroeu seu espírito, por anos a fio.
Veja Lilian, o que interessa para a espiritualidade é quem levou a bala, e não quem apertou o gatilho.
Quem apertou foi ferramenta da vida para movimentar os intrincados mecanismos cármicos que regem a evolução do espírito.
Ou seja, para a vida, não existe desperdício.
Tudo é bênção e lição.
Você foi atingida, teve a vida ceifada e aqui na outra dimensão pôde, ao lado do espírito bondoso de Marguerite, reavaliar seus condicionamentos e desfazer-se de muitas amebas, de muitas estruturas mentais que não lhe serviam para mais nada, e que na verdade, atrapalhavam sobremaneira o seu caminho evolutivo.
- Fiquei bastante impressionada com o que Fábio disse no sarau filosófico.
Quando repeti para mim mesma que a vida era “dura e triste”, lembrei-me de alguns fatos anteriores àquele fim trágico.
Parecia que, se eu continuasse a pensar do mesmo jeito, a história iria se repetir.
- Sem sombra de dúvidas.
Note que, se você muda a sua maneira de pensar, duas coisas vão acontecer: ou as pessoas ao seu redor vão modificar-se ou então vão se afastar de sua vida.
Foi o que ocorreu com Dinorá.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 8:29 pm

Por meio do livre-arbítrio, ela livrou-se de você e de Clara.
Poderia ter ficado com as duas, ter dado carinho, apoio e dessa forma atenuaria os remorsos que seu espírito carrega ao longo de muitos anos.
- Onde ela está?
- Vive em outra cidade na Terra, mas está atormentada por outros desatinos.
O que importa é que a sua ligação com Dinorá ou Dinah não existe mais.
Nem com Clara.
Lilian lembrou-se da irmãzinha com afecto.
- Eu nem a conhecia.
Nós nos vimos uma única vez naquele cómodo barato, na estalagem.
Em seguida morremos.
- Clara é espírito lúcido e muito inteligente.
O pouco tempo que ficaram juntas serviu para você afeiçoar-se a ela, nada mais.
No astral, depois de desencarnadas, por algum tempo você a odiou pelo facto de ela ser, digamos, a preferida de Paul.
- Depois percebi que ele não a amava.
Quis ficar com ela por conta do dote.
Ele nutria sentimento verdadeiro por mim - seus olhos marejaram e ela perguntou:
- Onde anda Clara? Está aqui?
- Não. Está tendo outras experiências, vivendo outra vida.
Logo vou trazê-la para cá a fim de termos uma boa conversa.
Ela é uma criança, mas seu espírito é bastante lúcido.
Vamos conversar sobre o futuro.
Nuri não tinha intenção em revelar sobre a nova identidade de Clara.
Mudou o foco da conversa:
- Você agora precisa se preparar porque chegou o momento de reencontrar Paul.
Lilian sentiu um frémito de emoção.
- Ele está reencarnado?
Paul está vivendo na Terra?
- Está. Natalie continua a assediá-lo, mas, se deixarem o passado para trás e deixarem brotar o amor sincero que está represado há muitas vidas, creio que desta vez poderão ficar juntos.
- Eu e Paul?
Juntos, de verdade?
- Tudo pode acontecer.
Lilian sorriu.
Era impressionante como tudo ficava mais claro fora do corpo físico.
- Oh! Camille é Carmela, certo? - Nuri assentiu.
E bem que eu desconfiava conhecer Valentina de algum lugar.
Ela é minha madrinha Marguerite, certo?
Nuri pendeu a cabeça para cima e para baixo, em sinal afirmativo.
- Sim. Valentina gosta muito de você.
Tudo o que ela não pôde lhe fazer na vida passada vai tentar fazer nesta.
Aproveite porque está vivendo com um espírito bondoso, tido em alta conta aqui nas esferas superiores e que nutre afeição sincera por você.
- Gosto muito de Valentina.
- Ela é mulher excepcional.
Além de ser a ternura em forma de mulher, vai contribuir sobremaneira para disseminar a cultura e as artes no país.
Valentina faz parte de um grupo de espíritos artistas que reencarnam somente com o intuito de levar um pouco de beleza ao mundo terreno.
- Fico feliz.
Até o estupro ficou para trás.
- Aureliano apareceu a você certo dia e lhe falou sobre um passado distante seu.
Está lembrada?
- Estou. Parece que meu espírito atraiu aquela experiência ruim para poder me libertar de vez dos padrões de pensamentos negativos.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 8:30 pm

- O mundo está infestado por estruturas mentais - amebas - negativas.
Precisamos de um sopro de novas ideias, de novos conceitos.
Logo, muitos espíritos vão reencarnar com o propósito de quebrar os condicionamentos enraizados no mundo e trazer novas maneiras inteligentes de agir e pensar.
- Quero contribuir de maneira positiva.
- Pois faça a sua parte.
Liberte-se do passado e se ligue na força do bem.
Só o bem é real e verdadeiro.
Você precisa voltar para seu corpo físico.
Logo vai despertar e não vai se lembrar de tudo o que conversamos, somente do essencial.
- Voltarei a vê-la?
- Algumas vezes, mas por ora, ficará sozinha.
Terá muitas coisas boas para fazer nesta vida.
A garota sorriu.
- Obrigada por tudo.
- Não se esqueça - Nuri disse antes de ajudá-la a se encaixar no corpo - Ligue-se na força do bem...
Lilian despertou na manhã seguinte com aquelas palavras na mente: força do bem.
Ela espreguiçou-se, levantou-se e abriu a janela.
Estava amanhecendo e o Sol estava lá, forte e vigoroso.
Não havia uma nuvem no céu.
Ela sorriu para os pássaros que cantarolavam, pulando de galho em galho.
Rodou nos calcanhares, foi até o banheiro, fez a toalete, vestiu-se com apuro e desceu para o café.
- Onde está Valentina?
Ainda não acordou?
Também, fomos dormir tão tarde...
Passava das duas da manhã.
Benta meneou a cabeça para os lados, sorridente como sempre.
- Ela acordou bem cedo, arrumou-se com elegância, como de costume, e saiu com Elias.
Foi até a cidade para comprar passagens.
- Passagens?
- Sim, vocês vão viajar.
- Ah...
Lilian deu de ombros e serviu-se de café e leite.
Em seguida, pegou um pãozinho, passou manteiga e depositou sobre o pratinho ao lado.
Marilda apareceu com lindo sorriso nos lábios.
- Bom dia - disse ela, cheia de entusiasmo.
- Bom dia.
Você está tão bonita!
- Acha? - Marilda perguntou e rodopiou na copa.
Estou tão feliz, Lilian.
Eu e Argemiro estamos nos entendendo.
- Fico feliz. Ele é bem melhor do que aquele crápula do Jaime que vivia à sua custa, em Santos.
- Tem razão. Argemiro é diferente.
É homem bom, companheiro.
Ele me pediu em casamento.
- Jura?
Marilda mostrou o anel na mão direita.
- Olha só!
Ele me deu o anel que fora de sua mãe.
Estamos noivos.
Não vejo a hora de contar ao papai.
Lilian levantou-se e abraçou a amiga.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 8:30 pm

- Você vai se casar.
E vai ser muito feliz, eu sinto isso.
- Está diferente, Lilian.
- Diferente, eu?
- Sim. Sua postura, seu jeito.
Parece mais adulta.
Seus olhos brilham de maneira diferente.
- Não sei. Talvez tenha sido a noite agradável que tive ou o sonho agradável com aquela mulher linda.
Acho que sonhei com minha mãe.
- Que maravilha.
Pelo menos não teve pesadelo.
- Creio que nunca mais vou ter aquele pesadelo.
Faz parte do passado.
Estavam conversando alegremente quando Benta as interrompeu:
- O Dr. Paulo Renato está lá na sala e deseja muito falar com d. Valentina.
- Hum... o irmão dela - disse Marilda.
- Estou curiosa em conhecê-lo - ajuntou Lilian.
- A cara dele é de poucos amigos - disse Benta.
- Benta, você pode conduzi-lo até a biblioteca?
Aquele lugar promove a calma e o bem-estar.
Leve-o até lá e em seguida vou conversar com ele.
A criada assentiu e foi até a sala.
Conduziu Paulo Renato até a biblioteca.
- A menina Lilian vem conversar com você.
- Eu quero é conversar com Valentina.
Fui até o ateliê de costura e me disseram que ela não iria trabalhar hoje.
Vim correndo para cá.
- Algo grave?
- Não, mas você é de casa, Benta - ele estava com a voz rápida e entrecortada, andava muito nervoso - conheço você há anos e sinto-me seguro para falar.
Selma não arreda pé de casa.
- Coloque-a para fora.
- Não posso.
- O que aconteceu?
- Sinto calafrios só de pensar em enfrentá-la.
- Reaja. Você é forte e precisa, mais do que nunca, ficar do seu lado.
- É, creio que tem razão.
- O senhor é dono daquele casarão em Campos Elíseos.
- Sei disso, mas estou muito envergonhado.
Cometi um desatino.
Benta percebeu que ele havia entrado numa fria.
- Melhor ficar aqui e se acalmar.
Dona Valentina não vai demorar.
Vou fazer um chá com conhaque para acalmá-lo.
- Obrigado.
Ela saiu e foi directo para a cozinha.
Marilda foi para seus novos afazeres, que eram muitos.
Lilian, sorridente, foi caminhando até a biblioteca.
Ao entrar e ver Paulo Renato com os cotovelos apoiados na mesa, segurando o rosto e fitando o chão, ela sentiu aquele mesmo frémito de emoção.
O coração estremeceu.
Imediatamente o rosto dele transformou-se no de Paul.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 8:30 pm

A menina abriu e fechou os olhos.
Só podia ser ilusão de óptica.
Balançou a cabeça e espremeu os olhos.
O rosto voltara a ser o de Paulo Renato.
Contudo, Lilian tinha a certeza de conhecê-lo de algum lugar.
- Olá - disse ela, de maneira jovial e alegre.
Paulo Renato levantou a cabeça e por instantes seus olhos viram outra pessoa.
Ele viu, como um flash, a Lilian do passado.
Passou a mão pelo rosto.
- Quem é você?
- Sou Lilian. Moro aqui.
- Mesmo? E o que você faz? - perguntou ele, com largo sorriso nos lábios.
Por um instante Paulo Renato se esqueceu do real motivo que o trouxera até a casa da irmã.
Valentina entrou.
Enquanto falava, tirava as luvas.
- Lilian é minha dama de companhia.
- E de onde surgiu essa moça tão bonita?
- Uma longa história.
Depois eu lhe conto.
Valentina olhou para Lilian.
A menina entendeu a mensagem e disse num gracejo:
- Vou deixá-los a sós.
Lilian saiu e fechou a porta da biblioteca.
Sentiu o coração bater mais rápido.
Algo lhe dizia que sua vida estava mudando para melhor e ela seria feliz muito feliz.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 8:30 pm

CAPÍTULO 45

Valentina sentou-se ao lado do irmão.
Logo Benta entrou na biblioteca.
Trazia uma bandeja com bule e uma xícara.
- Preparei um chá com conhaque.
Precisa se acalmar.
Paulo Renato pegou o líquido fumegante, assoprou e bebericou.
- Obrigado, Benta.
Agora, por favor, deixe-me a sós com Valentina.
Ela assentiu e saiu.
- O que o traz aqui?
- É Selma.
Valentina deu de ombros.
- Ainda? Por que se deixa levar por essa mulher?
Toque ela para fora de sua casa.
- Não posso.
- Por quê?
Paulo Renato suspirou, triste.
- Dormi com ela.
Valentina levou a mão à testa.
- Ai, essa não!
Paulo Renato, como pôde ser tão leviano?
- Não sei o que me deu.
Fui tomado por um torpor, não me lembro direito.
Deixei-me seduzir e aconteceu.
- Ela engravidou?
- Não sei. Parece que não, mas disse que quer casar.
Se eu não me casar com ela, vai abrir a boca e fazer escândalo.
Disse-me que vai aos jornais.
Será o fim da credibilidade de meu escritório.
Bulhões e Carvalho Advogados terá sua imagem arranhada por uma doidivanas.
- Eu falei e você não me escutou.
Deixou que ela entrasse em casa, que se transformasse na rainha do lar.
Faltou pulso.
Precisa aprender a ser mais firme.
- Ajude-me, Valentina.
- Eu?! O que poderia fazer?
Ir até lá e arrancar Selma à força?
Não se deixe chantagear.
Coloque-se em primeiro lugar.
Não entregue mais o seu poder nas mãos das pessoas.
Vá até lá e coloque-a para fora de sua casa.
- Ela vai aos jornais.
Disse-me que vai pedir directamente ao Assis Chateaubriand uma matéria na revista O Cruzeiro, contando tudo.
Vai acabar com nossa reputação.
Estou perdido.
- Pois deixe que vá e que conte!
Assuma responsabilidade pelos seus actos.
Seja um homem de verdade, e não um covarde.
As pessoas vão criar alvoroço, mas depois surge novo escândalo e tudo passa.
Em breve as páginas da revista, se é que ela vai fazer isso mesmo, vão estar embrulhando cachos de banana no mercado.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 03, 2016 7:59 pm

Não vale a pena ficar nas mãos de uma sirigaita feito
Nem sei como ela é de nossa família.
Paulo Renato levantou-se de um salto.
- Você tem razão.
Selma há de se ver comigo.
Prefiro o escárnio passageiro da sociedade do que suas ameaças.
Cansei-me de ser manipulado. Agora chega!
Falou, rodou nos calcanhares e saiu, decidido.
Valentina sorriu.
- Agora ele mudou.
Que bom! - ela sorriu para si e em seguida foi até a copa.
Lilian ajudava Benta a arrumar a mesa para o almoço.
- Querida, importa-se de vir comigo até a biblioteca?
- Pois não.
A menina terminou de ajeitar os pratos e dirigiu-se a pequena sala.
- Fui comprar passagens hoje cedo.
- Benta me falou. Vamos viajar?
- Sim. Vamos para os Estados Unidos.
- Conhecer a terra dos astros de cinema?
- Essa mesma.
- Adoraria ver os astros de perto.
Mas, diga-me, eu posso viajar?
- Quanto a isso fique sossegada.
Eu já havia pensado na possibilidade de uma viagem ao exterior e Marcos entrou na justiça para que eu seja sua tutora.
Você não tem parentes vivos e o processo se torna mais fácil.
Sou dama da sociedade e o juiz vai expedir documentação que me dá a tutela.
- O que é isso?
- De acordo com o Código Civil, são os poderes e deveres confiados a alguém - no caso o tutor ou tutora - para que defenda, preserve, proteja e zele por uma criança ou menor de idade, que por conseguinte perdeu os pais, como ocorreu no seu caso.
Preocupado mais com a preservação do património do órfão rico, o Código Civil disciplinou a matéria, dedicando apenas um deles aos menores abandonados ou sem parentes vivos.
- Eu não tenho nada, nenhum património.
- Por isso tudo fica mais fácil.
Vamos embarcar no Natal.
- Eu não vou estudar no ano que vem?
- Vou contratar professores para você.
Vai aprender o necessário para se tornar uma mulher culta e refinada.
Nada mais de escolas tradicionais.
Lilian vibrou de felicidade.
- Eu vou para a América!
- Vai, sim.
- Posso ligar para Carmela e contar a novidade?
Valentina sorriu feliz.
- Por certo. Vá, minha querida.
Lilian levantou-se e correu até o hall onde estava o telefone, discou para a casa da amiga e contou-lhe as novidades.
- Fico feliz que você viaje para o exterior.
No entanto, estou triste porque não vai poder ir ao meu casamento.
Marcamos para o comecinho do ano que vem.
- Por que não pede ao Marcos uma viagem de lua-de-mel até os Estados Unidos?
Assim poderemos passar mais tempo juntas.
O que acha?
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 03, 2016 7:59 pm

- Sua ideia é brilhante, Lilian.
Papai estava mesmo querendo me dar um bom presente.
Vou pedir as passagens como presente de casamento.
- Faça isso.
- Agora preciso ir.
Estou reformando minha futura casa.
Estou com mestre-de-obras, pedreiros e pó até o último fio de cabelo.
- Está certo.
Mas, promete uma coisa?
- Claro. O que é?
- Você vai se despedir de mim no cais do porto?
- Não precisa nem pedir.
Claro que eu, Marcos, papai e mamãe estaremos lá para dar nosso adeus.
Tenho certeza de que essa viagem vai lhe fazer tremendo bem.
Conversaram um pouquinho mais e desligaram.
Em seguida, Lilian correu para levar a notícia a Marilda.
A felicidade reinava na casa de Valentina.
O mesmo não acontecia na casa de Paulo Renato.
Ele chegou em casa feito um vendaval, passou por Jurema e quase a derrubou no chão.
Subiu as escadas a passos firmes e entrou no quarto de Selma.
- O que faz aqui?
Entra sem bater?
Perdeu os modos depois que se deitou comigo?
Ele aproximou-se e, com olhos injectados de fúria, sacudiu-a pelos braços.
- Escute aqui, sua doida.
Eu não a quero mais em minha casa.
Selma gargalhou.
- Pode tirar seu cavalo da chuva. Eu fico.
- Não fica. A casa é minha.
- Esqueceu-se de que me desflorou?
Vou levar a noticia aos jornais.
Marquei, inclusive, uma reuniãozinha com o Chatô.
- Sua vadia! - Paulo Renato se descontrolou e virou um tapa na cara dela.
Pode ir onde quiser.
Não tenho mais medo de você!
Empurrou-a para frente, rodou nos calcanhares e saiu, batendo a porta com tremenda força.
Selma estava estupefacta.
Nunca vira o primo agir daquela maneira.
Saiu correndo atrás e pedindo:
- Por favor, entenda.
Eu quero me casar com você.
Serei uma boa esposa. Eu o amo.
Paulo Renato descia as escadas e nem olhava para trás.
- Saia de minha casa, sua louca!
Eu vou embora agora.
Vou para o escritório.
Quando voltar, logo mais à noite, não quero ver rastro seu nesta casa.
Se ainda estiver aqui, irei ao distrito policial e a arranco à força.
Ou então vou até a casa do governador, na outra quadra.
Eu é que farei um escândalo.
Saiu e bateu a porta com tremenda força.
Jurema torcia as mãos, nervosamente no avental.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 03, 2016 8:00 pm

- O que deu no patrão?
Está de ovo virado?
- Se está ou não de mau humor, eu não sei - disse Selma entredentes - mas nunca vi Paulo Renato falar comigo neste tom agressivo.
Estou estupefacta.
- Ele está bem nervoso.
- Aposto que aí tem dedo daquela enxerida da Valentina.
Só pode ser.
- Não sei, não...
Doutor Paulo Renato anda muito estranho.
Selma colocou as mãos no quadril.
- Escute aqui!
O que acontece que seus feitiços não dão certo?
Jurema pendeu a cabeça para os lados.
- Imagine, d. Selma.
Claro que meus trabalhos funcionam.
A senhora me deu a cueca e conseguiu deitar-se com ele.
- Só isso?
- E afastei aquela tonta da Inês.
Ela foi atropelada e nunca mais vai sair da cama.
Dá certo o que faço.
- Isso foi meses atrás.
Eu penei para lhe dar a cueca e ganhei uma única noite de amor?
Que amarração mais chinfrim é essa Jurema?
Eu quero mais, muito mais.
Quero o Paulo Renato comendo aqui na minha mão. - apontou.
Quero ele subjugado, dominado.
Exijo que ele tenha olhos só para mim.
E você trate de arrumar logo isso.
- Posso tentar, d. Selma.
- Tentar?! Está louca - bramiu.
- Preciso comprar muito material.
Uma amarração como essa sai muito caro.
- Dane-se o valor.
Desde que dê resultado...
- Posso ver o que fazer.
- Rápido, pois não posso perder tempo.
Ou Paulo Renato se casa comigo ou...
- Ou?
- Ou se casa comigo! - exclamou, nervosa.
Essa é a única alternativa, entende?
Estou desesperada, Jurema.
- Calma, senhora.
Vou lhe fazer um chá de cidreira.
- Chá não vai resolver meu problema.
Você vai fazer essa amarração para mim, contudo vai demandar tempo.
Paulo Renato vai chegar logo mais à noite e me arrancar desta casa.
Ele é advogado, amigo do governador.
É muito influente e sabe das coisas.
- Isso é verdade, d. Selma.
Mas eu só posso fazer esse tipo de trabalho na semana de lua cheia.
Só na semana que vem é que vou ter condições de fazer o que a senhora deseja.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 03, 2016 8:00 pm

- Não posso sair daqui.
Se eu sair hoje, não volto nunca mais.
Você precisa me ajudar, Jurema.
- Eu?! - indagou, de maneira aturdida.
Não sei o que fazer.
- Sei lá, faça oração para um de seus guias espirituais.
Eles não têm poder?
- Não é assim que funciona.
Selma andava de um lado para o outro da sala, nervosa.
O motorista apareceu para saber se as malas estavam prontas.
Quase que o coitado foi atingido por cinzeiros, vasos e outros objectos voadores.
Selma estava fora de si.
Sentia-se acuada e aflita.
- Ele vai me botar para fora de casa.
Sei disso. Eu sinto.
E agora, o que fazer?
Como me manter nesta casa?
Ela andava para lá e para cá.
Jurema correu até a cozinha e preparou um chá de cidreira.
Trouxe a xícara fumegante numa bandejinha.
- Tome, d. Selma. Acalme-se.
De nada vai adiantar ficar assim nervosa.
É uma mulher inteligente e astuta.
Vai encontrar uma maneira de permanecer nesta casa.
- Como?!
- Tome o chá.
Selma pegou a xícara e entornou levemente o líquido quente boca adentro.
Devolveu a xícara à mesinha, fechou os olhos e deixou o corpo cair sobre o sofá.
Tirou os sapatos.
- Jurema, dê-me uma luz.
A criada pensou, pensou e de repente sorriu.
- Já sei!
- O que é? - indagou Selma, aflita e curiosa.
Vamos, diga-me o que é, criatura!
- Bom, lembra-se de como a senhora entrou e ficou nesta casa?
Não torceu o pé depois que tropeçou na escada?
- Sim. Mas o que uma coisa tem a ver com a outra?
- Dona Selma, finja um novo tombo!
orça novamente o pé.
Garanto que o Dr. Paulo Renato, ao constatar que seu tornozelo está luxado, vai sentir leve remorso e vamos ganhar mais uns dias.
Só até semana que vem, quando eu tiver como fazer novo feitiço em plena lua cheia.
Selma levantou-se de um salto, os lábios abertos num enorme sorriso.
Ela aproximou-se e abraçou Jurema.
Beijou-a numa das faces.
A criada mal podia acreditar numa demonstração de afecto desse tipo.
- Você é um génio!
Sabia que seus guias iriam ajudar-me a encontrar uma óptima solução.
- Quando ele se aproximar com o carro, a senhora cai uns dois degraus até o chão.
Eu corro para chamá-lo e o resto do teatro fica por sua conta.
- Perfeito. Vou me banhar, trocar de roupa e colocar um lindo penhoar que comprei semana passada.
Ficarei linda e perfumada para a ocasião.
A tarde correu e, quando as estrelas despontavam no céu, Selma já de banho tomado, perfumada e trajando linda camisola de cetim em tons de verde-claro, levantava-se a cada barulho ou ronco de automóvel.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 03, 2016 8:00 pm

Ouviu o motor do carro de Paulo Renato.
Como de costume, ele entrou com o veículo na garagem, na lateral da casa e estacionou nos fundos.
- Corra, Jurema!
Faça cara de pânico e diga que tropecei.
- Sim, senhora.
Jurema saiu pela cozinha e quase se jogou na frente do veículo.
Paulo Renato freou bruscamente e fez cara de poucos amigos.
Meteu a cabeça para fora da janela do carro:
- Está louca?
Quer se matar?
- Desculpe, doutor, mas d. Selma caiu da escada...
Enquanto isso, Selma subiu um, dois, três degraus.
- Aqui está bom.
Não, aqui está melhor.
Indecisa e insegura, foi subindo, subindo, até alcançar o último degrau da escadaria de mármore.
Ao ver a distância entre este último degrau e o chão, preferiu correr um risco maior.
- Vou rolar escada abaixo.
Deste ponto.
Nem hesitou.
Ela inclinou o corpo para frente e deixou-se cair.
Rolou as escadas e bateu com a nuca na quina do último degrau.
Paulo Renato veio bufando e gritando com Jurema:
- Se for mais uma das armadilhas de Selma, eu juro que boto as duas para fora de casa. Eu juro!
Ele entrou pela cozinha e passou pelo corredor, apertando o passo.
Ao aproximar-se do vestíbulo, viu o corpo caído e um filete de sangue escorrendo pelo canto da boca de Selma.
Paulo Renato apavorou-se.
Jurema estava logo atrás e riu por dentro.
Disse para si:
- Dona Selma é danada!
Enganou ele direitinho.
Ele aproximou-se do corpo virado no chão e mediu a pulsação.
Olhou atónito para Jurema:
- Meu Deus! Ela está morta!
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 03, 2016 8:00 pm

CAPÍTULO 46

Um mês depois, a morte de Selma ainda gerava burburinho, afinal, não era toda hora que uma conhecida dama de sociedade morria acidentalmente ao cair da escadaria de casa.
Paulo Renato estava consternado.
Sentiu-se culpado com a situação.
Valentina tentava acalmá-lo.
- Não foi culpa sua.
Ela deve ter tropeçado na calda do penhoar e rolou escada abaixo.
Foi um acidente, foi fatal. Paciência.
- Eu estava descontrolado, Valentina.
Pensei que Selma estava aprontando mais uma para ficar na casa.
Confesso que não esperava por um desfecho tão trágico.
- Selma fez suas próprias escolhas.
Ela foi a única dona de seu destino.
Poderia ter feito outras escolhas e talvez estivesse viva.
- Não me perdoo.
- Não pense assim.
A dor e a culpa só trazem aborrecimentos para nós.
Mude sua forma de agir e pensar.
- Impossível.
Não consigo olhar para a escada.
- Você está impressionado.
- Às vezes parece que vejo Selma subindo as escadas.
Valentina sentiu um arrepio desagradável.
- Vamos rezar pela alma dela.
- Vou à igreja acender uma vela.
- Faça isso, mas, por favor, não se sinta responsável pela morte dela.
Selma foi a única responsável pelo fim trágico de sua própria vida.
Paulo Renato afundou as mãos sobre o rosto.
De facto, ele estava bastante mexido com toda a tragédia.
Valentina sugeriu:
- Por que não vem viajar comigo e Lilian?
- Viajar?
- Sim. Partimos depois de amanhã.
Noite de Natal.
Eu prometi a ela que este seria bem diferente do anterior.
Afinal, no Natal passado ela havia acabado de perder o pai.
- Não posso.
Marcos vai se casar mês que vem.
Eu lhe dei dois meses de licença.
Não posso largar o escritório nas mãos dos funcionários.
- Converse com os outros directores.
Peça ajuda ao seu Milton.
- A universidade vai ser criada em breve.
Com o tempo, vou deixando o trabalho no escritório nas mãos de Marcos e vou me dedicar novamente e tão-somente às aulas.
- Passe um mês connosco, ao menos.
- Não. Não posso sair.
Você vai. Aproveite bastante.
E, na volta, traga-me alguns discos de jazz.
- Comprarei com gosto e mandarei por intermédio de Marcos e Carmela.
Não se esqueceu de que eles vão passar parte da lua-de-mel nos Estados Unidos, não é?
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 03, 2016 8:01 pm

- E você, volta quando?
- Daqui a um ano.
No fim do ano que vem estarei de volta.
Deixarei a casa do Morumbi aos cuidados de Marilda e Argemiro.
- E Benta?
- Virá comigo.
Aonde vou, Benta vem atrás.
Paulo Renato sorriu como havia muito não sorria.
- E o ateliê de costura?
- Conversei com Carmela e ela adorou a ideia de conduzir a oficina.
- Ela adora estudar e trabalhar.
- Carmela adora estar activa.
Não importa se com trabalho ou estudo.
Ela é competente e responsável.
Tem gosto pela costura e vai matricular-se num curso de modista, a fim de aperfeiçoar o seu dom.
Quer trabalhar e ganhar seu próprio dinheiro.
Disse que planeia ter muitos filhos e mesmo com o óptimo salário de Marcos, quer ser independente e ajudar nas despesas da casa.
A oficina de costura vai crescer muito mais em suas mãos.
Ela tem tino para os negócios.
- Carmela é boa moça.
- Ela e Lilian são feito unha e carne.
Têm sincera afeição uma pela outra.
- Você é competente, minha irmã.
- Sei que sou, mas Carmela tem jeito para esse tipo de negócio.
Quero me dedicar mais às artes, descobrir novos talentos, novos artistas.
Tenho a intenção de comprar mais telas e outras obras de arte.
- Está ficando viciada nisso.
- Não. Desejo ter um grande acervo.
Depois vou doar ou mesmo criar um museu, como me sugeriu a Tarsila.
- Nunca é tarde.
Ainda não temos um museu brasileiro de arte.
- Quem sabe um dia? - disse ela, sorriso maroto.
Paulo Renato estava com o semblante menos triste e carregado.
- Tem certeza de que quer ser a tutora dessa menina?
Não tem medo da responsabilidade?
Ou mesmo de ela se transformar numa moça intratável?
- Não acredito nisso.
Eu e Lilian temos forte vínculo afectivo.
Tenho a certeza de que nos conhecemos há muitas vidas.
Ela vai se transformar numa mulher muito bonita e culta.
Tem uma queda pela pintura e artes em geral.
- Ela é muito bonita.
Pena que seja tão novinha.
- Quando voltarmos, ela estará com quinze anos.
É uma boa idade para namorar.
- O que está insinuando?
Valentina sorriu.
- Nada. Não estou insinuando nada.
- Eu tenho trinta anos de idade.
Sou muito velho para Lilian.
- Não há limite de idade quando se trata de amor.
- Você é uma romântica inveterada.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 03, 2016 8:01 pm

- Sempre serei.
- Quer me ver casado.
- Eu quero.
Ainda vou vê-lo casado e com filhos.
- Vá sonhando...
Continuaram entabulando conversação.
Valentina acertou outros detalhes como manutenção da casa e pagamento dos empregados enquanto estivesse no exterior.
Jantou com o irmão e Paulo Renato ficou de levá-las até o porto de Santos.
O dia da viagem foi muito emocionante.
No carro de Paulo Renato foram Valentina, Lilian e Benta.
Elias, o motorista, transportou os baús de viagem num veículo à parte.
Carmela e Marcos, Marilda e Argemiro, Meire e Milton, Maria e Cornélio, estavam todos lá para dar o adeus.
Depois de uma despedida esfuziante, elas entraram e logo apareceram no convés.
As mulheres balançavam seus lencinhos brancos e secavam uma ou outra lágrima furtiva.
Os passageiros acenavam lá do alto e os amigos e familiares, em terra, acenavam com mãos agitadas, chapéus jogados para o alto e expressões carinhosas:
- Façam boa viagem!
- Voltem logo!
- Vão com Deus...
Lilian abraçou-se a Valentina e chorou, chorou bastante.
- Chi! Calma, pequena.
Está tudo bem.
- Eu sei. Estou emocionada. Estou feliz.
Valentina a beijou na fronte e também não segurou as lágrimas.
Também se encontrava emocionada e muito feliz.
Nuri estava com elas no convés.
Beijou Benta na testa e em seguida abraçou-se a Lilian e Valentina.
Sussurrou em seus ouvidos:
- Vocês são e serão cada dia mais felizes.
Podem acreditar.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 03, 2016 8:01 pm

CAPÍTULO 47

A viagem seguiu tranquila e o vapor SS Uruguai atracou no porto de Los Angeles quarenta dias depois, no início de fevereiro do ano de 1934.
Valentina havia conversado com uma grande amiga que tinha se mudado para lá anos antes.
Ester lhe conseguira uma espectacular mansão, no bairro de Bel-Air, onde moravam os grandes artistas das fitas de cinema.
A princípio, Lilian ficava de boca aberta e mal podia acreditar no que via.
Saía para uma caminhada na calçada perto de casa e deparava com as actrizes Joan Crawford e Norma Shearer ou Mary Astor e Mirna Loy.
No dia seguinte era um "oi" que recebia de Greta Garbo ou de Marlene Dietrich.
O dia em que a menina sentiu o coração quase saltar pela boca foi quando Richard Arlen, seu ídolo, abriu-lhe enorme sorriso enquanto corria em companhia de seu cachorro.
Aos poucos, Lilian foi se acostumando com as celebridades do cinema americano.
Almoçava na casa de Carmen Miranda, quando esta se mudou para lá, jantava na casa de Claudette Colbert ou de Barbara Stanwyck.
Era assediada por Errol Flynn.
Discutia roteiros com o casal Clark Gable e Carole Lombard...
E assim os anos foram passando...
O inglês dela atingiu um nível de perfeição sem igual.
Lilian aprendeu com facilidade e se expressava como uma autêntica americana.
Também estudou francês, italiano, espanhol e arranhava o alemão.
Amante das artes, teve aulas de história da arte com professores renomados, principalmente depois que muitos deles foram procurar asilo na América por conta da Segunda Guerra Mundial que devastara a Europa.
Em pouco tempo, Lilian sabia identificar qualquer obra que fosse, inclusive saber se a tela era verdadeira ou falsa.
Era um dom natural, algo que estava adormecido em seu espírito desde os tempos que reencarnara como incentivadora das artes na Itália, em plena Renascença.
Agora ela podia novamente extravasar esse dom e dedicar-se novamente às artes em geral.
Aquela garota triste e vítima do mundo havia morrido.
Nascia em Lilian uma nova mulher, impregnada de ternura, que se deixava levar pelo amor divino.
Valentina continuou com seu sarau filosófico em terras americanas.
Montou um grupo com amigos brasileiros e americanos.
Em pouco tempo, sua bela e espaçosa residência, em Crescent Drive, recebia, todas as terças-feiras, um grupo de intelectuais, artistas, políticos e gente de várias áreas académicas.
Valentina era naturalmente bonita e elegante e foi por intermédio do amigo Jorginho Guinle* que ela conheceu um rico banqueiro americano.
Da simpatia ao casamento foram três meses e Valentina pôde finalmente viver seu conto de fadas, porquanto Edward era um verdadeiro cavalheiro, marido romântico e apaixonado.
Ele adoptou Lilian e a menina passou a ter o sobrenome dele e nacionalidade americana.
Infelizmente, dez anos depois, Edward sofreu ataque cardíaco fulminante e morreu.
Deixou para Valentina e Lilian uma herança de valores astronómicos, digamos, o suficiente para sustentar algumas gerações futuras.
Lilian tornou-se mecenas e descobriu artistas talentosos, em vários campos das artes.
Por conta da Segunda Grande Guerra, muitas obras de arte foram adquiridas por Valentina e Lilian por intermédio de marchands europeus, a preços módicos, porquanto as ofertas de obras de arte no mercado internacional tornaram-se bem atraentes.
Valentina aproveitou parte de sua imensa fortuna e adquiriu obras de Matisse, Picasso, Cézanne, Miró, Renoir e Van Gogh, entre outros.
O tempo correu de forma tão rápida, que num piscar de olhos passaram-se quinze anos...
Chegamos em 1949.
Em vez de navio, Valentina e Lilian decidiram por voltar de avião.
Foi um sufoco convencer Benta de que a aeronave não iria cair.
Depois de muita conversa, muitas escalas e muita reza, aterraram no aeroporto de Congonhas no começo de uma noite quente e agradável de verão.
Valentina continuava bonita e elegante como de costume.
Mais madura, seu semblante adquirira maior suavidade e serenidade.
Os cabelos penteados à moda e o vestido Dior deixavam-na bem mais jovem e atraente.
Lilian tornara-se uma figura linda, elegante e sorridente.
Tornara-se mulher alta, corpo esguio, seios fartos e cabelos que caíam na altura dos ombros.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 03, 2016 8:01 pm

Por onde passava chamava a atenção.
Era impressionante como se transformara numa linda mulher.
Ao descer da aeronave e caminhar até a saída do aeroporto, aspirou o ar da cidade.
- Meu Deus, quanto tempo!
- De facto - tornou Valentina - fomos para ficar apenas um ano fora.
- Quando Carmela e Marcos foram nos visitar, logo em seguida à nossa chegada, pensei que o ano demoraria a passar.
Mal posso crer que voltei ao Brasil quinze anos depois. E solteira.
- Solteira porque quis.
Teve até um Rockefeller que morria de amores por você.
- Namorei alguns homens, mas nunca senti amor, como nas fitas de cinema.
- Isso não existe - protestou Benta, depois de bater com os pés no chão e fazer o sinal da cruz.
Nunca mais ando numa geringonça dessas!
Caíram na risada.
Lilian meneou a cabeça para os lados.
- Valentina acredita no amor feito os filmes de cinema.
E viveu sua história.
Por que eu não posso viver a minha?
Sei que a vida a dois não é um mar de rosas, mas quando se ama, tudo se supera.
O amor vence tudo.
- Parece nome de filme - tornou Valentina, sorridente.
- Devíamos ter avisado ao Paulo Renato que chegaríamos hoje.
- Não queria atrapalhar a vida de ninguém - replicou Valentina.
- Decidimos voltar e vamos ficar de vez.
Teremos muito tempo para rever os parentes e amigos.
Temos pouca bagagem, visto que nossos pertences virão de navio.
Nada de alarde.
Nas últimas cartas que troquei com Paulo Renato deixei claro que voltaríamos em breve.
Também fiz questão de avisar Marilda para que deixasse a casa pronta para o nosso retorno.
- Marilda! - suspirou Lilian - minha amiga querida, meu anjo.
Estou com tanta saudade dela.
Quero beijar seus filhos.
Só os conheço por fotos.
- Chegaremos em casa logo mais.
Vamos tomar um táxi.
- Estou cansada - disse Benta.
- Pois eu estou óptima - retrucou Lilian.
Amanhã vou sair logo cedo.
Quero rever Carmela, Marcos.
Nossa, tanta gente!
Também quero sair e bater pernas por São Paulo.
As reportagens que vi em revistas é impressionante.
Esta cidade não tem mais nada a ver com aqueles tempos da Revolução.
Valentina olhou ao redor enquanto se dirigiam para o táxi.
- Está com cara de cidade grande.
E, de facto, não há um resquício sequer daqueles tempos.
Caminharam e, ao pegarem o táxi, Valentina acomodou-se no banco e falou:
- Espero que as obras cheguem a tempo para a exposição do Museu de Arte Moderna.
Lilian tirou um folheto da bolsa e leu:
- "Do Figurativismo ao Abstracionismo", esse é o nome da exposição de abertura do museu, na Rua Sete de Abril, no centro da cidade.
- Não vejo a hora de expor a tela do Jackson Pollock que compramos do próprio artista.
- Nem posso crer.
Quando fomos embora a cidade não tinha um museu sequer.
Agora temos dois.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 03, 2016 8:01 pm

Um criado por intermédio do Chatô e outro graças ao Ciccillo e sua adorável esposa.
Fico contente em saber que as pessoas, de todas as faixas etárias, poderão contemplar obras de arte.
- E poderá levar a sua ideia de dar aulas gratuitas de história da arte para quem não tem recursos.
- Desse projecto não abro mão.
É um sonho antigo.
Nada como a arte para sensibilizar o próximo - ajuntou Lilian.
- Repito: devemos isso ao Chateaubriand, ao Ciccillo e à Yolanda.
- E a nós, afinal, estamos trazendo muitas telas que ficarão aqui para sempre.
- Tem razão.
As três foram conversando amenidades e ficaram surpresas com o crescimento e prosperidade da cidade.
A capital paulista estava repleta de novas ruas, avenidas, pontes e viadutos.
Surgiram novos bairros, mais modernos, mais bonitos e mais elegantes.
A fina nata paulistana não mais se concentrava na Paulista, Higienópolis ou Campos Elíseos, esparramando-se também na direcção dos Jardins, Pacaembu e Morumbi.
O táxi chegou, parou no portão e elas desceram.
Benta pagou o motorista.
O rapaz ajudou a carregar as malas até o jardim.
Lilian observou que duas meninas brincavam no imenso terreno, ajardinado, florido e muito bem cuidado.
As crianças aproximaram-se.
- Olá - disse uma.
- Oi - tornou a outra.
Lilian abaixou-se e as cumprimentou.
- Eu sou a Lilian, amiga de sua mãe.
- Você é a tia estrangeira?
Ela riu-se.
- Sou, sim.
- Eu me chamo Letícia, tenho doze anos.
E esta é Laura.
- Completei dez anos no mês passado - ajuntou a linda garotinha.
Marilda apareceu no jardim e quase desmaiou ao revê-las.
Soltou um gritinho de contentamento:
- Desde que me avisaram da chegada, eu mal preguei os olhos.
Lilian correu ao seu encontro e a abraçou com carinho.
Não conseguiram segurar as lágrimas.
- Querida, quantos anos!
Como você cresceu.
- Eu lhe mandei muitas fotos - protestou Lilian.
- Mas ao vivo e em cores é bem diferente.
Mal posso crer.
Marilda a abraçou novamente e em seguida cumprimentou Valentina e Benta.
- Sejam bem-vindas.
Valentina perpassou o olhar ao redor.
Notou que as árvores estavam mais frondosas e que as espécies de flores aumentaram sobremaneira.
- Vejo que tomou conta da casa como se fosse sua.
Está mais bonita, bem conservada.
O jardim está mais florido e mais belo.
- Argemiro e eu cuidamos da casa com muito esmero, d. Valentina.
Queria inclusive agradecer pessoalmente por ter nos enviado dinheiro e permitir que reformássemos a casa dos empregados.
- Estão bem instalados?
- Eu, Argemiro e as crianças vivemos muito bem ali.
Tem espaço de sobra.
Às vezes até o Elias dorme lá com a gente, quando não sai para namorar - disse Marilda, baixando o tom de voz.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 03, 2016 8:02 pm

- Namorar faz bem - tornou Lilian.
- Entrem, por favor.
Vou chamar o Argemiro para levar as malas para os quartos.
- Onde está Elias?
- Estava meio cabreiro porque queria buscá-las.
Foi até o mercado comprar algumas mercadorias.
Elas subiram para um banho e troca de roupa depois da exaustiva viagem de volta, com várias escalas.
Contudo, Marilda estava tão feliz e as crianças faziam tantas perguntas sobre a vida nos Estados Unidos, que a conversa seguiu horas a fio.
Foram dormir quando a madrugada era alta.

* Jorge Eduardo Guinle, conhecido como Jorginho Guinle (1916-2004), foi uma das figuras mais carismáticas e benquistas que a elite brasileira produziu.
Playboy assumido e herdeiro milionário, residiu no hotel Copacabana Palace - fundado por seu tio, Octávio Guinle - até a sua morte.
Sua autobiografia recebeu o título que resume a sua trajectória: Um século de boa vida
(N.A.)
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 03, 2016 8:02 pm

CAPÍTULO 48

Os dias que se seguiram foram de muita emoção e agitação.
Lilian, no dia imediato à chegada, foi até a casa de Carmela.
As amigas abraçaram-se e choraram muito.
De felicidade, obviamente.
Nem parecia que aquele sobradão tinha sido o mesmo onde Lilian vivera por alguns anos, muito tempo atrás.
A casa havia sido totalmente reformada e parecia outra residência, bem mais ampla, bem mais bonita.
O entorno crescera bastante e a Lapa tornara-se agradável bairro da classe média.
Lilian ficou maravilhada com os cinco filhos de Carmela. Marcos, Eduardo, Paulo Octávio, Maria Helena e Maria Clara.
Ao ver a caçula, Lilian sentiu um frémito de emoção.
- Ela lembra a Clarinha.
- É falante e adora me ajudar na confecção.
Lilian aproximou-se e estendeu a mão.
- Quantos anos você tem, querida?
- Seis. Vou completar sete logo.
- O que quer de presente?
Maria Clara olhou para ela, sorriu e em seguida encarou Carmela.
- Posso pedir qualquer coisa?
- Claro, filha.
Lilian é como se fosse da família.
Pode chamá-la de tia.
A menina encostou o dedo no queixo e pensou.
- Quero tecido.
- Tecido?!
- É. Preciso de roupas novas para minhas bonecas.
Importa-se de me dar de presente alguns tecidos?
Carmela interveio:
- Ela adora costurar.
Dos cinco filhos, já sei quem vai dar continuidade aos negócios.
Elas riram.
Em seguida, as crianças foram brincar.
As amigas sentaram-se numa poltrona e Lilian pousou delicadamente suas mãos nas de Carmela.
- Como dá conta de tantos filhos?
- Eu e Marcos adoramos.
Sempre foi o nosso desejo ter uma família bem grande.
As crianças são obedientes, óptimas, uns amores.
Seu Milton e Meire nos ajudam bastante.
Depois que se casaram, mudaram a duas quadras de casa.
- Tenho saudades do seu Milton.
Você sempre teve certa afinidade com ele.
- Muita. Após a morte dos tios do Marcos, seu Milton ficou muito próximo.
Eu diria que ele, na verdade, vê Marcos como um filho.
Sempre que pode seu Milton visita Marilda, Argemiro e suas netas, mas considera meus filhos seus netos também e os cinco o chamam de vó Milton.
E Meire também é um doce de criatura.
Os dois estão aposentados e têm tempo livre para ajudar uma mãe com cinco crianças e que trabalha fora!
- Quem diria que ele iria se casar depois de tantos anos!
- O amor não tem idade, ora.
Você vai conhecer melhor a Meire e entender o porquê de ele tê-la como esposa.
- Seus filhos são lindos!
Estou encantada.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 03, 2016 8:02 pm

Já sabem o que querem estudar?
Pelo menos os mais velhos?
Marcos e Eduardo querem ser advogados.
Paulo Octávio e Maria Helena, professores.
E Maria Clara nem preciso dizer...
Lilian abriu sorriso lindo, que mostrava seus dentes alvos e enfileirados.
- Você disse que queria ter muitos filhos e morar nesta casa.
Conseguiu tudo o que queria.
- Consegui.
E vou conseguir muito mais.
A vida é muito boa para mim, querida.
- Carmela, gostaria de agradecer por tudo o que fez por mim.
- Eu?!
- Sim.
- Não fiz nada.
- Suas palavras de encorajamento, seu estímulo, seu apoio.
Passei por momentos muito difíceis, muito ruins, mas tornei-me uma mulher alegre, feliz e que se ama incondicionalmente.
- Dá para notar.
Sua aura está brilhante.
- Estudei e compreendi muitas coisas.
Aprendi a me colocar em primeiro lugar e ter uma mente mais saudável e consequentemente mais positiva.
- Você se tornou uma borboleta, de verdade.
Lilian sorriu.
- Lembro-me até hoje da história das borboletas que você me contou.
Tudo faz sentido agora.
Eu passei anos, talvez até vidas presa num casulo.
Agora saí e me libertei.
Eu sou, sim, uma borboleta.
- Uma linda borboleta.
E, por acaso essa borboleta - apontou - não está comprometida ou interessada em alguém?
- Não. Você sabe de toda minha vida, escrevemos centenas de cartas uma para a outra.
Eu tive alguns namoros, mas não me apaixonei, não aconteceu.
- Será que seu amor está em terras brasileiras?
- Quem sabe? - Lilian deu de ombros.
É um assunto que não me aguça tanto.
Estou mais interessada na exposição do museu, em redescobrir a cidade, ir ao teatro.
- Eu e Marcos vamos muito ao teatro.
As peças são maravilhosas e creio que não deixamos nada a desejar aos outros países.
- Li comentários bem positivos a respeito.
- Vamos marcar de assistir a uma peça na semana que vem?
- Sim. Adoraria.
Eu nunca assisti a uma peça de teatro no Brasil.
- Óptimo. Vamos assistir Da Necessidade de Ser Polígamo.
- De que se trata?
- É uma deliciosa crítica aos costumes da burguesia.
A peça está em cartaz no Teatro Brasileiro de Comédia - TBC - com a Margareth Moura e Silveira Sampaio, aliás, autor da peça.
- Quem é ele?
- Silveira Sampaio é um versátil artista carioca.
A peça é muito engraçada.
Vamos nos divertir para valer.
- Estamos combinadas.
Pode pedir para Marcos comprar os ingressos.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 03, 2016 8:02 pm

Carmela consultou o relógio.
- Preciso voltar para a confecção.
- Transformou uma oficina de costura numa grande fábrica.
- Com dedicação e empenho, cheguei lá.
Confesso que Valentina havia feito muito.
Quando peguei a oficina na Rua Marconi, ela só precisou de um empurrãozinho.
O resto aconteceu por si só.
Mamãe e papai, depois que ele se aposentou, ajudam-me bastante.
Por falar neles, estão esperando por você.
Vamos atravessar a rua e revê-los?
- Estou morrendo de saudades de d. Maria e seu Cornélio.
Valentina reviu amigos queridos, ofereceu jantares, deu entrevistas para programas de rádio, revistas e jornais, porquanto era tratada como celebridade.
Ao saberem de sua chegada, os amigos exigiram que ela retomasse os saraus filosóficos, o que ela acatou com grande prazer.
Por duas vezes quis ir à casa do irmão, mas uma força estranha a impedia de chegar ao casarão dos Campos Elíseos.
As actividades das terças-feiras começariam em duas semanas.
Até lá, Valentina iria checar melhor o que de fato era essa estranha sensação que se apoderava e oprimia seu peito.
Na casa de Paulo Renato quase tudo seguia seu curso normal.
Quase tudo, porque se alguém que lá entrasse, tivesse um mínimo de sensibilidade, perceberia certo peso no ambiente.
Uma pessoa com clara capacidade de vidência podia enxergar um espírito que não arredava pé do sobradão.
Jurema havia feito reza, defumação, tudo o que estava ao seu alcance.
Chegou um ponto em que, assustada e com medo das investidas do espírito, pediu demissão e foi-se embora.
Paulo Renato contratava nova criada e alguns dias depois ela mesma pedia demissão.
A rotatividade de criados não parava mais no casarão.
Era um entra-e-sai dos diabos, desde aquela fatídica noite, muitos anos atrás...
Quando caiu da escada e desencarnou, Selma percebeu sair do corpo, como se fosse empurrada.
Olhou ao redor e não acreditou.
Passava a mão nos objectos, tentava sentar-se no sofá, queria tomar um copo d'água, mas em vão.
Seu espírito não conseguia atingir as coisas do plano físico, da matéria.
Do grito horrorizado a ver seu próprio corpo sem vida no chão até os dias de hoje havia se passado muito tempo.
Selma aprendeu a dominar a matéria e, o mais interessante, aprendeu a escutar a mente das pessoas.
Não foi difícil afastar uma ou outra sirigaita - nas palavras dela - que tentava se aproximar de Paulo Renato com o propósito do matrimónio.
No devido tempo lembrou-se de sua última existência como Natalie.
Fechou o cerco ao lado de Paulo Renato.
Tentou perceber se Lilian ou Dinah estavam reencarnadas e próximas.
Não as viu por perto e tranquilizou-se.
Paulo Renato entrou em casa.
Havia chegado de leccionar na faculdade.
Era professor da USP e estava morrendo de saudades de Valentina.
Queria ir ver a irmã, mas sempre acontecia alguma coisa que o impedia.
- Se depender de mim, você nunca mais vai ver a maluca da Valentina - dizia ela, enquanto lixava as unhas, postada ao lado da porta de entrada.
Sim, Selma aprendera a plasmar objectos com o poder da mente perispiritual.
Daí ela estar com uma "lixa" de unhas.
- Vou tomar um banho e ver minha irmã - tornou ele.
Selma captou seus pensamentos e meneou a cabeça para os lados.
- Nã-na-ni-na-não!
Daqui você não sai hoje.
Estamos com vazamento na pia da cozinha.
Paulo Renato absorveu o pensamento de Selma e foi até a cozinha.
Perguntou à nova criada:
- Algum problema aqui?
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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