UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 04, 2016 8:38 pm

- Não senhor.
Tudo em ordem.
Foi só a mulher falar e Selma aproximou-se da pia.
Mirou os olhos injectados de fúria sobre o cano.
Paulo Renato virou as costas e ouviu um estrondo.
- O que foi isso?
A criada, assustada, abriu a portinha embaixo da pia.
- Vixe, doutor!
O sifão estourou.
- Esta casa está caindo aos pedaços - vociferou ele.
Toda semana tem algum problema hidráulico ou eléctrico.
Onde está o motorista?
- Foi fazer compras e ainda não voltou.
- Diabos!
Ele arregaçou as mangas e foi tratar de arrumar o sifão.
Demorou muito e quando consultou o relógio, era tarde demais.
- Amanhã eu vou.
- Ah, ah, ah - gargalhou Selma.
Vai uma ova!
Você não vai encontrar aquela mulher, nem que eu tenha de estourar todos os canos desta casa.
Ela aproximou-se e sussurrou em seus ouvidos:
- Eu sou a única que habita esta casa.
A única. Mulher aqui só se for empregada e bem feiinha.
Paulo Renato sentiu um frio percorrer lhe a espinha.
Sentia-se cansado, pois de vez em quando Selma até conseguia absorver dele um punhado de energias vitais, importantes para que ela, como espírito, pudesse permanecer transitando pela dimensão terrena.
Ele subiu as escadas e foi ao banheiro.
Despiu-se e entrou sob o duche.
Sentada sobre o vaso sanitário, de pernas cruzadas, Selma se comprazia.
- Está um pouco flácido e está envelhecendo.
Mas o conjunto está bom.
Ainda lembra o Rodolfo Valentino, embora ninguém mais se lembre desse actor.
Paulo Renato terminou o banho, enxugou-se e vestiu pijama e robe.
Desceu para o jantar.
Ela sentou-se ao seu lado.
- Eu estava pensando, querido, que talvez pudéssemos mudar a cor das paredes.
Não gosto muito desse tom que aquela mulher escolheu.
A criada apareceu e perguntou:
- Doutor Paulo Renato?
- Sim.
- Dona Valentina está ao telefone.
Quer saber se pode vir visitá-lo.
- Hoje?
- Ela disse que gostaria muito de vir até aqui, caso o senhor não se importe.
Ele consultou o relógio no canto da sala de jantar.
- É tarde. Mesmo assim, diga que eu a espero.
- Sim, senhor.
A criada saiu e Selma bramiu:
- Como pode?
Vai deixar aquela lambisgóia entrar nesta casa?
Valentina não pode entrar.
Paulo Renato não registou nada.
Estava absorto, terminando seu prato de sopa.
Uma onda de medo percorreu o perispírito de Selma.
Não adiantava estourar outro cano ou fazer alguma lâmpada rebentar.
Não tinha jeito.
Ela tinha de tentar manter o equilíbrio e esperar pela visitante indesejada.
Vamos ver quem é a mais forte - disse para entre ranger de dentes.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 04, 2016 8:38 pm

CAPÍTULO 49

Arlete segurava a mão de Dorival.
O homem, em idade avançada, tinha pegado uma forte gripe e tentava se recuperar.
Havia terminado de tomar um caldo quente e um rapaz bonito e atencioso apareceu na soleira da varanda.
- Vamos tomar um pouco mais de xarope?
- Chega, Luisinho.
Estou bem.
O filho sorriu e começou a cantarolar uma musiquinha bem popular em referência ao medicamento, cuja letra era anunciada em cartazes espalhados pelos bondes:
- "Veja ilustre passageiro, que tipo belo e faceiro..."
- Ah, não!
Vou me entupir de tanto tomar esse xarope.
- Seu pai está bem melhor.
- Mesmo?
- Filho, você se preocupa demais connosco.
Precisa pensar em suas coisas.
A viagem, por exemplo.
Quando vai arrumar as malas?
- Mãe, eu viajo na semana que vem.
- Mas viaja para o estrangeiro.
A Inglaterra não fica a cem quilómetros de Poços de Caldas.
Precisa levar bastante roupa de frio, agasalho e...
Luisinho a cortou, com simpatia e largo sorriso.
De maneira alguma, vou levar o essencial, esqueceu-se de que minha noiva já levou muitas roupas minhas?
- De facto, Dirce levou algumas malas.
Todavia, preocupe-se com sua viagem.
Eu cuido do seu pai.
Dorival sorriu:
- Arlete desempenha muito bem esse papel.
Pode ter certeza.
Ouviram uma voz feminina vinda de dentro:
- O jantar está servido.
Luisinho passou a língua pelos lábios.
- Hum... O que será que a maninha preparou desta vez?
Lenita meneou a cabeça para os lados.
- Não vou contar. É especial.
Peguei a receita com a directora do colégio.
- Você é a professorinha mais linda de Poços de Caldas.
Ela bateu de leve no ombro do irmão.
- Não passa de um sedutor barato.
Vou contar para a Dirce.
Abraçaram-se com carinho.
Lenita havia se transformado numa moça muito bonita.
Os cabelos eram naturalmente cacheados e escorregavam pelos ombros.
Tinha estatura mediana, o corpo bem-feito e lábios carnudos e bem vermelhos.
Os olhos eram vivos e expressivos.
A menina crescera amante dos livros e decidira pelo magistério.
Era professora num colégio da cidade.
Era amada e querida pelos alunos e outros colegas de trabalho.
Lenita tinha o dom natural de ensinar e exercia a profissão com dedicação, amor e carinho.
Ela afastou-se de Luisinho e sorriu.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 04, 2016 8:38 pm

- Vai partir em breve.
O que farei sem você por aqui, meu grande companheiro?
- Não posso perder essa bolsa de estudos.
E essa especialização veio a calhar.
- Pretende mesmo casar-se com Dirce em Londres?
Ele assentiu com a cabeça.
- Comprei as alianças.
Vou lhe mostrar.
O rapaz saiu e foi até o quarto.
Voltou em seguida e mostrou a caixinha de veludo azul-marinho.
- Olhe.
Lenita abriu a caixa e seus olhos brilharam emocionados.
- São lindas! Que amor.
- Dirce não sabe da novidade, pensa que vamos nos casar só quando voltarmos para cá.
Quer dizer, para Belo Horizonte.
Fico preocupado com papai e mamãe.
Ele está bem velhinho e ela também não é mais uma mocinha.
- Eu estarei sempre aqui ao lado deles.
- Precisa pensar na sua vida.
Está na hora de arrumar um moço e casar.
- Moço eu já tenho.
Só falta casar.
Luisinho a encarou com olhos maliciosos.
- Recebeu nova carta de António?
- Recebi. Ele chega logo mais, no último trem.
- Mas papai e...
- Chi! - ela colocou o dedo nos lábios dele.
António quer fazer uma surpresa.
Conseguiu nova transferência e vem para cá.
Vamos nos casar e viver aqui, cuidando de papai e mamãe.
- Mas não é justo.
Você precisa ter uma vida só sua, seus filhos, por exemplo.
- Eles vão crescer muito bem nesta casa.
Nós crescemos aqui e fomos felizes.
Por que meus filhos também não serão?
E papai e mamãe vão me ajudar a criá-los.
Não tenciono abandonar a escola.
Quero continuar a trabalhar.
- Essa cabecinha pensou em tudo.
Vocês, mulheres!
- Vocês só vão para frente porque nós estamos atrás.
Ainda vamos dominar o mundo!
Luisinho começou a fazer cócegas na irmã e um começou a correr atrás do outro pela sala.
Arlete meneou a cabeça para os lados.
- Esses dois... parecem crianças - disse para si, enquanto esboçava bonito sorriso.
Arlete estava contente e feliz, demasiadamente feliz.
Apertou a mão do companheiro e ficaram contemplando na varanda o lindo pôr-do-sol, cujo brilho alaranjado tingia o imenso céu de Poços de Caldas.
Na reunião daquela terça-feira, após os estudos de praxe, Fábio teve forte intuição.
Era Nuri que havia se aproximado dele.
- Vá até a casa de Paulo Renato.
Chegou a hora de levarmos Selma para tratamento.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 04, 2016 8:39 pm

Custe o que custar. Confie.
Assim que terminaram de estudar um livro espiritualista muito em voga, ele cutucou Valentina levemente nos braços.
- Os espíritos querem que eu vá até a casa de Paulo Renato.
- Mesmo?
Fábio baixou o tom de voz, discreto:
- O espírito de sua prima está preso à casa.
- Eu tinha certeza de que Selma, mesmo morta, iria continuar dando trabalho.
É por esse motivo que desde que voltei não consigo rever meu irmão.
- Ela não quer o encontro.
Sabe que você pode percebê-la e tentar afastá-la de lá.
- Mas aquela casa nunca lhe pertenceu.
Nem quando era viva, imagine agora, depois de morta!
- Faz anos que Selma habita aquela casa.
Seu espírito adaptou se à nova realidade e se não fizermos alguma coisa, creio que ela nunca mais sairá de lá.
- O que os espíritos sugeriram?
- De irmos até lá depois do sarau.
- Conte comigo.
Manterei o equilíbrio emocional para podermos somar forças e tirarmos aquela doida de lá.
- Vamos serenar e confiar.
Passava das onze e meia da noite quando a campainha tocou.
Selma andava de um lado para outro da sala, impaciente.
- Eles não vão me pegar.
Daqui não saio, de jeito nenhum.
A criada atendeu e os fez entrar.
Valentina imediatamente sentiu o peso do ambiente e Fábio percebeu a presença de Selma.
Ele tinha facilidade em perceber e se comunicar com os espíritos.
Valentina deu longo abraço no irmão.
- Está ficando com os cabelos grisalhos.
Embora com aparência bem cansada, continua lindo como sempre.
Acho que se Rodolfo Valentino estivesse vivo, teria essa aparência.
- Obrigado. Você está radiante e linda.
Os anos só lhe fizeram bem.
- Temos muito o que conversar, mas antes eu e Fábio precisamos dar uma palavrinha.
Paulo Renato cumprimentou Fábio e os três dirigiram-se ao escritório.
Selma fungou de raiva e atravessou as paredes.
Não queria perder nada da conversa.
Fábio, em poucas palavras, explicou sobre o motivo que os levou ao casarão.
Depois de escutar o relato dele e de Valentina, ele custou a acreditar.
- Sou um homem académico.
Não posso acreditar nessas coisas!
- Eu também sou - aquiesceu Fábio.
Sou dentista e também lecciono na USP, mas a realidade espiritual independe de nossa formação, educação ou profissão.
É algo verdadeiro e que está aí ao nosso redor.
- Selma morreu há mais de quinze anos.
Eu providenciei o enterro.
Ela está enterrada no mausoléu da nossa família, no cemitério da Consolação.
Podem ir lá e ver a lápide.
Tem até foto.
Fábio pendeu a cabeça para os lados.
- Sei que você a enterrou, meu amigo.
Mas o que está enterrado no cemitério é o corpo de carne de Selma.
Seu espírito continua vivo.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 04, 2016 8:39 pm

- Difícil acreditar.
O rapaz fechou os olhos e se concentrou.
Em seguida falou, ainda de olhos fechados:
- Selma está aqui no escritório.
- Onde? - indagou Paulo Renato, assustado.
- Está parada na porta e recusa-se a ir embora.
- Isso é mentira.
- Está usando uma camisola, ou o que restou de uma.
O tecido está bem puído e parece ser verde-claro.
Paulo Renato levou a mão à boca.
- Selma morreu com essa camisola!
Só o médico que fez o atestado de óbito a viu assim.
Depois, fez a gentileza de trocar sua roupa e colocar nela um vestido.
Não pode ser...
- Pode. Quando morremos, nosso espírito liberta-se do corpo físico.
Quem tem conhecimento espiritual consegue administrar melhor a morte, porquanto sai do corpo com a consciência da eternidade e vai para as cidades astrais em que vivia antes de reencarnar, em vez de ficar vagando nesta dimensão.
- Eu nunca ouvi nada a respeito.
- Não ouviu porque não quis - protestou Valentina.
Há quantos anos comecei a fazer as reuniões das terças-feiras?
Há anos. Você chegou a ir e depois de umas duas reuniões nunca mais apareceu.
- É verdade.
Mas nunca vi nada, nunca percebi nada.
Como acreditar no invisível sem ter provas?
- Acredita que estamos sozinhos neste Universo imenso? - indagou Fábio.
Tem a pretensão e arrogância de achar que somos os únicos seres inteligentes que habitam este vasto mundo?
- Para mim, quando morremos tudo se acaba.
- E de que adiantou você nascer em berço de ouro e ter condições de estudar, ter uma profissão e uma boa vida?
- Sorte? - arriscou Paulo Renato.
- Sorte?! Então o rapaz que nasceu pobre e vive com dificuldades, com um pai acamado, é azarado?
Pronto? Está tudo devidamente explicado?
Faz sentido achar que Deus brinca connosco tirando um papelzinho e dizendo:
"Este vai nascer com sorte, aquele outro vai nascer com azar"?
- Nunca pensei dessa forma.
Nunca quis pensar sobre morte.
Acho o assunto bizarro.
- No entanto, todos vamos morrer um dia.
A morte deveria ser encarada como algo natural.
A sociedade finge que ela não existe e, quando acontece, perturba e transtorna.
Claro que perder um ente querido é muito triste, mas fechar os olhos e negar a existência da continuidade da vida, isso para mim é pura burrice.
Paulo Renato arregalou os olhos.
Fábio falava com modulação de voz alterada.
- Você está ficando velho antes do tempo.
Suas energias estão sendo sugadas por Selma.
Amanhã outro espírito virá habitar esta casa.
Está na hora de tomar posse de si e ser responsável pela maneira como pensa e acredita na vida.
Essa mudança de atitudes e pensamentos é vital para que você tenha ainda - ele frisou - uma boa e longa vida.
- O que devo fazer? Rezar?
- Não vai adiantar, por ora.
Você não é homem de fé.
- Eu vou fechar os olhos e fazer uma prece - interveio Valentina.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 04, 2016 8:39 pm

- Faça isso - replicou Fábio, enquanto consultava o relógio.
É meia-noite.
Os espíritos chegaram e vão levar Selma.
Fiquemos em oração.
Pensemos em coisas boas, no bem.
- Difícil pensar em alguma coisa boa numa situação dessas.
- Faça um esforço.
Pense na sua infância, em coisas boas que viveu.
Pense em seu pai, por exemplo - tornou Fábio, intuído pelos amigos espirituais.
Paulo Renato fechou os olhos e sentiu um calor apossar-se de seu peito.
Imediatamente, lembrou-se de todas as fases de sua vida, sempre ao lado do pai.
Renato fora um pai rígido, como era costume na época, porém doce e atencioso.
Paulo Renato orgulhava-se de dizer aos amigos que carregava o nome do pai.
Enquanto permanecia de olhos fechados, a imagem de Renato veio forte em sua mente.
Os espíritos começaram a fazer a limpeza do ambiente.
Um grupo foi para o andar de cima e outro permaneceu no andar de baixo.
Dois guardiões postaram-se na frente do imóvel, evitando que outros espíritos entrassem na casa.
Formaram uma barreira energética ao redor do casarão.
Nuri aproximou-se de Selma, acuada e tremendo de medo.
- Por que têm tantos como eu aqui?
O que eles querem?
- Viemos buscá-la.
- Eu não saio daqui.
Esta é minha casa.
- Não é. Nem esta casa nem este mundo lhe pertencem mais.
Você morreu e precisa partir.
- Não vou deixar Paulo Renato. - Selma mirou uma das lâmpadas do escritório e esta queimou.
- De nada vai adiantar queimar lâmpadas ou estourar canos.
Estamos de olho em você há um bom tempo.
Agora chegou o momento de partir.
- Vocês não podem fazer isso.
- Como não?
Há quantos anos estamos enviando mensageiros de luz para levá-la para tratamento adequado?
Eu mesma vim conversar com você várias vezes.
Sempre na paz.
- Eu não preciso de tratamento.
Estou cansada dessa sua cara de boa samaritana.
E, além do mais, estou muito bem onde estou.
- Não está.
E agora preciso dar um basta.
- Não têm o direito.
Vocês não são bonzinhos e compreensivos?
Por que querem usar de violência comigo?
- Você não tem mais o direito de permanecer nesta casa.
Seu momento de atrapalhar a vida de Paulo Renato acabou.
- Ele é meu! - bramiu.
Ninguém jamais vai se aproximar dele.
- Isso não importa.
Não temos muito que conversar, por ora.
Você precisa e vai sair agora.
Civilizadamente ou à força.
- Quero ver.
Estou aqui há quinze anos e...
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 04, 2016 8:39 pm

Selma nem terminou de falar.
Nuri fez sinal com os dedos e um guardião com mais de dois metros de altura, vestido elegantemente num terno preto, abraçou-a por trás, segurando-a com força.
Disse num tom sério:
- Vamos embora.
Sob protestos e gritos Selma foi arrancada da casa.
O guardião partiu com ela rumo a um posto de tratamento perto da Terra.
Chegaram próximo a um grande portão de ferro preto, ricamente trabalhado.
Ele acenou com a cabeça e disse algumas palavras numa língua desconhecida.
Os portões abriram e podia-se ver um grande prédio todo envidraçado e brilhante, com muitos andares.
O guardião conduziu Selma até a recepção.
- Cuidem desta aqui.
- É a tal que estava presa no casarão? - perguntou a recepcionista.
- A própria.
A moça sorriu simpática e, com o dedo indicador, tocou delicadamente uma tela de cristal à sua frente.
- Vejamos... Selma.
Aqui está a sua ficha.
Última encarnação, 1904, a...
Selma a cortou ríspida.
- Não precisa contar a minha vida, ora!
- Era só para me certificar.
- Cuide dela e não a deixe sair - disse ele, enquanto se preparava para voltar.
- E se ela der trabalho?
- Tratamento de choque.
- Como ousa, seu patife? - Selma estava indignada.
Ele aproximou-se dela e seus olhos, avermelhados como fogo, intimidaram-na.
- Comporte-se, pequena.
Você não está mais na Terra.
Ele falou, rodou nos calcanhares e saiu.
Em poucos instantes, estava na porta do casarão de Paulo Renato.
- Tudo sob controlo, chefe - disse um simpático espírito que fazia guarda no portão da residência.
No interior da casa, o ambiente estava calmo e limpo.
O ar não estava mais carregado.
O espírito de Renato aproximou-se do filho e o abraçou.
- Paulo Renato, abra os olhos para a realidade espiritual.
Você tem tanta coisa boa para fazer neste mundo.
Deixe as ilusões de lado e liberte-se para uma vida verdadeiramente feliz.
Eu o amo muito.
Por um instante Paulo Renato sentiu o abraço e até o cheiro da loção após barba que o pai usava.
- Você sentiu, Valentina?
- Senti. Papai está aqui.
- Como pode ser uma coisa dessas?
Estou sentindo o cheiro da água de colónia!
As lágrimas corriam insopitáveis.
Ele abraçou-se à irmã.
- Ajude-me, Valentina.
Por favor, ajude-me!
Cansei de ser um homem rígido e com medo de expressar meus sentimentos.
Ajude-me a ser feliz.
Ela o abraçou com carinho.
- Acredite e confie, meu irmão.
Tudo vai mudar. Para melhor.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 04, 2016 8:40 pm

EPÍLOGO

Dois anos depois de todos esses acontecimentos, nascia o primeiro filho de Lenita e António.
O menino veio ao mundo com pouco mais de quatro quilos.
Um bebezão lindo, gordinho, com bochechas salientes.
Dorival vivia grudado no menino.
A casa de Arlete era uma felicidade só.
Receberam notícias de Luisinho e o rapaz e Dirce, agora casados, viriam para o Natal.
Passariam duas semanas em Poços de Caldas e iriam partir para a Inglaterra por mais dois anos.
António era a alegria em forma de pessoa.
- Você me faz muito feliz - disse enquanto alisava o rosto da esposa, deitada no leito e recuperando-se do parto.
Lenita sorriu.
- Eu o amo, António. Sempre o amei.
- Quando a vi pela primeira vez, senti algo inexplicável.
Fiquei até com vergonha, porque não conseguia vê-la como uma irmãzinha.
- Deve ser porque seu espírito lembrou-se de mim.
Nosso amor deve ser antigo.
- Pode ser. Outro dia tive um sonho.
Amávamo-nos, mas sua família não permitia nossa união.
Eu era pobre e eles queriam que você se casasse com um moço rico.
Eu usava roupas antigas e você também.
Vivíamos na Europa. Sonho estranho.
- Você deve ter tido contacto com nosso passado.
- Será? Não entendo muito dessas coisas do invisível.
Acredito, mas não entendo.
- Eu posso lhe ensinar, meu amor.
António a beijou delicadamente nos lábios.
- Descanse, querida. Vou ver nosso filho.
Lenita pendeu a cabeça para cima e para baixo.
Em seguida adormeceu, esboçando leve sorriso.
Numa linda manhã de verão, Valentina e Lilian passeavam pelo calçadão da praia de Copacabana.
Haviam recebido o convite de uma dama da sociedade carioca para um chá beneficente realizado anualmente, cujo dinheiro das obras leiloadas seria doado a instituições de um modo geral.
Aproveitariam também para conhecer o Museu de Arte Moderna da cidade, recentemente inaugurado.
Valentina colaborou para esse evento doando uma tela e algumas esculturas.
Fazia muito tempo que ela não ia à capital federal e foi com gosto que aceitou o convite da amiga e aproveitou a oportunidade para mostrar a cidade maravilhosa para Lilian.
Valentina estendera o convite a Paulo Renato.
Depois que o espírito de Selma fora afastado de seu convívio, ele mudara para melhor.
Passou a frequentar o sarau das terças-feiras e a apreciar o selecto grupo de amigos de sua irmã, formado por políticos, intelectuais, académicos e artistas de variadas áreas da cultura, como pintura, música e cinema.
Paulo Renato dedicou-se com afinco aos estudos mediúnicos e compreendia e aceitava com naturalidade o mundo invisível, Lilian tornara-se sua companheira inseparável.
Ela o ajudara a remodelar o guarda-roupas, a trocar de carro.
O palacete que ele havia construído anos atrás estava vago e Lilian convencera-o a deixar a antiga casa da Alameda Glete e mudar-se para o elegante bairro do Jardim Europa.
A decoração, de excelente gosto por sinal, ficou a cargo dela.
Tornaram-se muito amigos.
Valentina acreditou que o contacto com o mar e a linda paisagem carioca iriam fazer tremendo bem ao irmão.
Aproveitando que a universidade estava em recesso por conta das férias, ela pediu que Lilian insistisse para que ele as acompanhasse, afinal eram apenas alguns dias.
Ele aceitou o convite, desde que pudessem fazer programas onde Lilian estivesse presente.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 04, 2016 8:40 pm

Hospedaram-se no Copacabana Palace.
Ficaram em quartos separados, mas lado a lado, no mesmo andar, de frente para o imenso e lindo mar de Copacabana.
Conforme caminhavam e apreciavam a bela paisagem, além de sentirem o clima de renovação e liberalidade adequados à modernidade que o bairro exalava, Valentina comentou:
- Paulo Renato está muito diferente.
Até remoçou.
- De fato, ele mudou seu guarda-roupa e trocou os ternos escuros por roupas mais claras e mais leves.
Mudou para melhor.
- Não é só isso.
Noto que os olhos dele brilham quando ouve seu nome ou quando a vê.
Lilian corou.
- Percebi. Às vezes, em nossas reuniões, eu noto, de esguelha, que ele me observa.
Depois de tudo o que aconteceu, e sem a interferência daquele espírito, ele está mais consciente e dono de si.
- Não é só isso.
Paulo Renato está gostando de você.
- Eu também gosto muito dele.
- Por que não se declara?
- Eu?! Não - ela riu-se.
Tudo tem seu tempo.
Não quero estragar nossa linda amizade.
Não vou dar o passo maior que a perna.
Deixemos a vida seguir seu curso.
Eu estou aberta para me relacionar com ele.
Sinto que, no momento que estiver pronto, ele vai se declarar.
- Espero. Além de tê-la como filha querida, adoraria que fosse minha cunhada.
- Vamos esperar.
Caminharam mais algumas quadras e se depararam com uma das organizadoras do chá.
Cumprimentaram-se efusivamente.
Dolores as convidou para visitarem uma das instituições.
- Meu marido é médico e trabalha no instituto.
Se quiserem, podemos dar uma passadinha lá à tarde.
- Receio não termos tempo de nos arrumar para o chá beneficente, no Golden Room do hotel - tornou Lilian, enquanto segurava o chapéu de abas largas, de maneira elegante.
- Dá tempo para tudo.
Depois do evento, vamos, num pequeno grupo, à boate do Hotel Vogue.
- Onde se apresenta o melhor jazz do Rio! - disse Valentina.
- Está por dentro das novidades - ajuntou Dolores.
- Ouvimos falar muitas coisas boas sobre o Rio.
Os americanos têm muita curiosidade sobre esta linda cidade.
Não se esqueça de que Carmen Miranda faz muito sucesso lá - tornou Valentina, ajeitando delicadamente o lenço sobre os cabelos e fazendo delicado nó sob o queixo.
- Adoraria ir à boate logo mais à noite - tornou Lilian.
Aprecio muito o jazz.
Depois da conversa, elas voltaram ao hotel e arrumaram-se para irem até a instituição.
Lilian vestiu um costume de fustão, na cor azul-claro, estilo Mao - gola alta.
Uma discreta boina e luvas brancas davam certo requinte ao conjunto.
- Está linda! - disse Valentina.
Ela sorriu e foram com Dolores até a instituição, não muito longe dali, na Praia Vermelha.
O motorista parou e elas desceram. Ernesto, o marido de Dolores, esperava-as na entrada.
Cumprimentaram-se e ele foi mostrando e falando sobre o instituto.
- O hospital daqui passou a receber todos os doentes mentais indigentes, o que acabou por produzir uma segunda crise em decorrência da super-população de internos.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 04, 2016 8:40 pm

Alguns anos atrás se iniciou a transferência de pacientes para o hospital do Engenho de Dentro.
Hoje temos alguns pacientes aqui, em observação, principalmente aqueles que apresentam quadros de alta complexidade, em geral os de natureza psicótica.
Valentina e Lilian escutavam tudo com interesse.
Caminharam pelo instituto e Lilian sentiu-se atraída para um corredor estreito e comprido.
Enquanto Valentina caminhava com Ernesto e Dolores pelos pavilhões, Lilian desviou e seguiu pelo corredor.
Foi andando e deparou com alguns doentes.
Sorriu para um, acenou para outro.
Notou uma mulher de cabelos embranquecidos em total desalinho.
Andava de um lado para o outro, de maneira agitada, e uma simpática e paciente enfermeira tentava acalmá-la.
- Ele já foi embora.
- Não foi. Ele está aqui.
Disse que vai me matar.
Disse que vai me matar.
- Veja - apontava a enfermeira -, não há ninguém aqui.
- Ele vai me matar. Adolf vai me matar.
A mulher desenvencilhou-se dos braços da enfermeira e correu até Lilian.
- Ajude-me, por favor.
Lilian tentou sorrir, mas, quando seus olhos se fixaram nos da doente, ela de imediato a reconheceu: era Dinorá.
Muito magra e envelhecida, mas era Dinorá.
Ela tinha certeza.
Ela segurou-se em Lilian e, enquanto pedia desesperadamente que ela a ajudasse, a enfermeira aproximou-se.
- Desculpe-me.
Dinorá não está nada bem.
- Você disse Dinorá?
A enfermeira tirou uma ficha do bolso do jaleco.
Olhou para o nome e certificou-se.
- Dinorá Oliveira da Costa.
Lilian sentiu o ar lhe faltar.
- A senhora está bem?
- Estou. Um pouco tonta, mas estou - ela procurou se recompor e indagou:
- Há quanto tempo ela é paciente do hospital?
Dinorá acalmou-se e começou a conversar baixinho, enquanto balançava o corpo para frente e para trás; a baba escorria pelo canto dos lábios, os olhos estavam petrificados e sem vida.
- Vejamos. Ela veio para cá há quinze anos.
Foi trazida por um vizinho.
O marido morreu de ataque cardíaco e logo depois ela passou a ver esse homem que a persegue.
Não localizamos parentes vivos...
Lilian meneou a cabeça para os lados várias vezes.
Mal podia acreditar no que via.
Chegara a imaginar reencontrar Dinorá e todos os impropérios estavam ensaiados havia anos, na ponta da língua.
No entanto, o que fazer agora?
O que dizer? Ela aproximou-se de Dinorá.
- Lembra-se de mim?
- Hã?
- Eu sou a Lilian. Lembra-se de mim?
- Não. Ele vai me matar e me arrastar até Paquetá...
Lilian passou a mão sobre seus cabelos desgrenhados.
- Fique em paz. Fique com Deus.
Falou, rodou nos calcanhares e saiu, cabisbaixa e desejando, do fundo do coração, que Dinorá pudesse um dia, encontrar paz e equilíbrio ao seu espírito tão perturbado.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 04, 2016 8:40 pm

No último dia de viagem, Lilian e Valentina estavam sentadas confortavelmente em espreguiçadeiras à beira da piscina do hotel, observando o sol que se punha, Valentina perguntou:
- Por que anda tão calada?
Desde que fomos ao instituto você está diferente.
- Foram os doentes - dissimulou.
- Não, há algo a mais aí.
- Não quero falar sobre isso, Valentina.
- Está certo. Você é quem decide.
Contudo, gostaria que abrisse um pouco os lábios e desse um sorriso.
Mandaram entregar isso para você.
Valentina pegou sua bolsa sobre a mesinha lateral e de lá tirou uma linda caixinha.
Lilian olhou para a caixa de veludo e perguntou:
- O que é?
- Abra ora.
Ela assentiu, pegou a caixinha e abriu.
Dentro, havia um lindo anel, cujo brilhante reluzia, envolvendo os olhos em contemplação.
Ela sorriu.
- Meu Deus! Que anel mais lindo.
- Eu sou somente a moça da entrega - disse Valentina, em tom de brincadeira.
O cavalheiro que mandou entregar a espera em sua suíte - apontou para cima e para o alto.
- Não vá me dizer...
- Paulo Renato está aflito e ansioso.
Está esperando. Vamos, menina, aproveite.
É nosso último dia no Rio de Janeiro.
Amanhã cedo voltaremos para casa.
Logo vai escurecer.
Lilian pendeu a cabeça para cima e para baixo.
- Tem razão.
Eu e Paulo Renato precisamos ter uma conversa séria.
- Boa sorte, minha querida.
Valentina a beijou no rosto, levantou-se e juntou-se a um grupo de amigos ilustres para tomar seu Martini seco.
Lilian subiu até a sua suíte.
Tomou um banho refrescante, arrumou-se com aprumo e espargiu suave perfume no colo e nos pulsos.
Respirou fundo, pegou a caixinha e caminhou até a suíte de Paulo Renato.
Bateu levemente na porta.
Ele abriu e antes de falar ela perguntou:
- Por que mandou o anel por intermédio de sua irmã?
- Queria me preparar para recebê-la.
Precisava de tempo para os preparativos.
Entre, por favor.
Lilian entrou e o ambiente estava divinamente decorado.
As pétalas de rosas vermelhas estavam esparramadas por todo o quarto.
Na cama havia mais algumas pétalas.
O balde com gelo e champanhe, o som de Ella Fitzgerald saindo da vitrola e a luz ténue dos abajures suscitavam ao romance.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 04, 2016 8:40 pm

- Vejo que não perdeu seu tempo.
- Enquanto Valentina entregava a jóia, eu terminava de arrumar o quarto para recebê-la.
Espero que goste - apontou para a caixinha de veludo, encabulado.
E que aceite o meu pedido de casamento.
Lilian aproximou-se e ele a tomou nos braços.
Ela sentiu seu hálito quente e perfumado.
- Aceito. Não via a hora de este momento chegar.
Quero ser sua esposa, sua mulher, sua companheira.
Quero ser sua.
Paulo Renato não esperou um segundo a mais.
Apertou-a ao encontro do peito e beijou-a com sofreguidão.
Lilian sentiu o coração bater descompassado e retribuiu o beijo.
- Oh, Lilian, eu a amo.
- Eu também o amo, Paulo Renato. Muito.
Não falaram mais nada, pois uma onda de paixão anulou todo e qualquer pensamento que não fosse a vontade de estarem juntos.
Ela ergueu os lábios e beijaram-se novamente, entregando-se ao amor que sentiam havia muitas vidas, represado por muito tempo.
Lilian sentiu que a força do bem existia realmente.
Ela estava cheia de emoção, de amor.
Estava, enfim, cheia de ternura e de vida...
Da janela da suíte as estrelas pareciam mais brilhantes e reluzentes, como os dedos de Deus apontados para o céu.

§.§.§- Ave sem Ninho
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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