UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 21, 2016 8:47 pm

CAPÍTULO 5

Carmela terminou de servir a canja para Clara.
Em seguida, a menina nem quis tomar banho, adormeceu.
Carmela beijou-lhe a testa, ainda quente, e foi ajudar Lilian a passar as roupas.
- Como está a Clara?
- Parece melhor.
Tomou todo o prato de sopa e dormiu.
- Ela está trabalhando muito.
- Deixe-me ajudá-las.
- Não é justo.
- Eu tenho tempo livre.
Não custa nada.
- Não estou falando de você, Carmela.
Estou afirmando que isso não é justo.
- O que não é justo?
- A gente ter de fazer isso.
Vou fazer treze anos e olhe a vida que levo.
- Muitas coisas boas podem acontecer querida.
Não desanime.
- Eu estou cansada.
- Calma. Confie nas forças inteligentes que regem a vida.
- Difícil entender você, Carmela.
- Por quê?
- É mais fácil falar.
Você tem um pai e uma mãe que a amam.
Está terminando o colégio.
Logo vai ingressar num curso superior ou encontrar um homem bom e casar.
O que eu posso esperar?
Lavando e passando roupa dia após dia, com essa mulher no nosso pé?
- Livre-se de Dinorá.
- Como assim? Matando-a?
Carmela pendeu a cabeça para os lados.
- Não foi o que disse.
Você precisa arrumar forças para se afastar.
Mudar de vida.
- Como?
- Dinorá não é sua mãe.
Ela não é amorosa e carinhosa.
Você não gosta dela.
Por que então só reclama?
Faça algo para mudar.
- Eu sou nova para mudar.
- Não é. Quantas na sua idade têm a mesma vida que você e Clara?
Mamãe faz trabalho voluntário ao Instituto de Menores do Tatuapé.
Tem um monte assim - ela juntou os dedos - de meninos e meninas que estão órfãos, mas estão procurando estudar, trabalhar, ter uma profissão e seguir a vida felizes.
- Eu não sou feliz.
- Lilian, você é perfeita. Tem saúde.
- E daí?
- Se quiser mesmo ir embora desta casa, eu a ajudo.
Falo com mamãe e papai.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 21, 2016 8:47 pm

- E vou depois ser encaminhada para o Instituto de Menores ou mesmo para o Asilo de Meninas da Santa Casa? Nunca.
- O que você quer, então?
Lilian desconversou.
- Não tem que ajudar sua mãe?
- Só logo mais à noite.
Já disse que tenho à tarde todinha para ficar aqui com você.
Vou ajudá-la a passar essas roupas.
- Essa encomenda segue amanhã cedo para o Dr. Paulo Renato.
- Aquele advogado que mora no casarão na Alameda Glete, perto do colégio?
- O próprio. A lavadeira foi embora e enquanto outra não vem, vamos fazendo esse serviço.
Ainda bem, ele e a irmã dão um bom dinheiro para lavarmos e passarmos suas roupas.
- Ele é bem bonito, esse doutor.
- Concordo com você.
Ele se parece com aquele actor...
Como é mesmo o nome daquele actor que morreu jovem há alguns anos?
- Qual?
- Aquele do cartaz do cine Bijou-Palace, Carmela.
- Ah, o Rodolfo Valentino?
- Esse mesmo. Bonitão, ele.
- Mas o Dr. Paulo Renato usa óculos.
- Por trás dos óculos lembra o Rodolfo Valentino.
Eu o vi de relance duas vezes quando fui fazer uma entrega de roupas.
- Você tem razão, Lilian.
Assisti aos filmes O Sheik e O Filho do Sheik algumas vezes.
Definitivamente ele é sósia do actor italiano.
Se quiser saber, eu também o acho bem apanhado.
Já o vi na rua. É solteiro, mora com a irmã.
Família paulistana tradicional e muito rica.
Se não me engano os pais morreram num acidente de trem, lá no estrangeiro.
- Eu simpatizo com d. Valentina.
Nunca conversamos, mas ela parece ser boa pessoa.
- Ela é um amor.
Mamãe sempre fala bem dela.
Dona Valentina organizou um batalhão de mulheres para trabalhar em prol dos soldados.
É uma dama benquista na nossa sociedade.
Eu a admiro bastante.
Lilian dobrou a camisa e pegou outra para passar.
- Dona Valentina sempre pede para a criada me dar gorjeta e barra de chocolate quando entrego as roupas.
- Tenho o hábito de saltar dois pontos antes de chegar à escola, só para passar em frente ao casarão, nos Campos Elíseos.
O jardim é tão lindo!
O perfume das rosas misturadas com jasmim é inebriante.
- Vou entregar essas roupas amanhã ou depois.
Se quiser, pode me acompanhar.
- Você já entrou no casarão, Lilian?
- Só fui até os fundos entregar as roupas para uma das criadas.
- Uma casa daquelas deve ter alguns empregados.
- Pelo que percebi tem uma cozinheira, uma arrumadeira, uma copeira e o motorista!
Eu adoraria morar num casarão daqueles e ser servida assim por tantos criados.
- Eu gostaria de morar por aqui mesmo.
- Aqui? Neste bairro?
- Qual o problema?
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 21, 2016 8:48 pm

- Eu gostaria de sair da Lapa.
Aqui é longe de tudo.
Parece o fim do mundo.
Carmela riu do exagero da amiga.
- Tem bonde que nos leva até o centro da cidade, Lilian.
Tem o parque aqui perto.
Eu gosto muito da região.
Se eu me casar um dia, gostaria de morar aqui mesmo.
Nesta rua ou mesmo numa casa como a sua.
- Você sonha pobre.
- Não. As ruas aqui são arborizadas, nossas casas têm jardim na frente.
A sua casa é até maior que a minha.
Aqui são três quartos.
A minha só tem dois.
- Outro dia falei para a Dinorá que a casa é grande, que poderíamos alugar uma menor, contudo, ela insiste em ficar porque o quintal é grande e podemos corar as roupas no gramado.
- De facto, o quintal é bem grande.
Depois de fazer o serviço, o que acha de pegar jabuticabas?
- Não gosto de jabuticaba - respondeu Lilian.
- Eu sei fazer um doce de jabuticaba que você vai amar!
Lilian riu.
Foram alternando a conversa agradável com roupas e mais roupas para passar.
Carmela tinha jeito rápido e próprio de passar as roupas.
Aprendera com sua mãe.
Quando o ferro começava a ficar morno, ela assoprava os buraquinhos laterais, de maneira que o carvão voltava a ficar todinho em brasa, facilitando o deslizamento da chapa quente sobre as roupas.
Foram trocando ideias sobre vários assuntos, até que Carmela perguntou:
- Você gosta de alguém, Lilian?
- Como assim?
- Sente atracção por alguém?
Lilian corou.
- Eu? Imagine.
As regras vieram faz pouco tempo.
Não penso muito nisso.
Quer dizer, outro dia vi a foto do Richard Arlen na revista Scena Muda.
Senti um calor subir pelo corpo.
Pensei estar doente.
“Até tomei uma colher de sopa de Regulador Xavier” 3.
Carmela riu com gosto.
- Você já é uma mocinha.
O calor foi à emoção que a foto despertou em seu corpo, nos seus hormónios.
É normal acontecer.
Dá-se o nome de atracção.
- Mesmo?
- Sim. Daqui a pouco aparece um rapaz e você se apaixona.
É assim que funciona.
Você se apaixona, namora casa e pronto, tem uma vida feliz.
- Quem lhe disse isso?
- Mamãe conversa determinados assuntos de meninas comigo.
- Não acha cedo para esses assuntos?
É muito jovem.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 21, 2016 8:48 pm

- Jovem, mas quase mulher.
Tive um ou outro flerte, mas nada sério.
Acredito que a vida vai me trazer um companheiro que vai me amar, me respeitar e me dar um monte de filhos.
- Eu não quero marido tão cedo.
- Não pensa em se casar, Lilian?
- Pensar assim, eu nunca parei para pensar.
Como disse, é assunto que ainda não me despertou o interesse.
Eu me preocupo muito com a Clarinha.
Ela só tem a mim.
Estou guardando o dinheiro das gorjetas e, assim que tiver o suficiente, vamos embora daqui.
Eu e Clara.
Você está certa, eu preciso mudar.
Não posso esperar nada da Dinorá.
- Eu gostaria que fôssemos vizinhas para sempre.
- Mas o que esperar de Dinorá?
Ela não se importa connosco.
Você tem toda razão, Carmela.
Não adianta reclamar, embora seja difícil de aceitar.
Assim que aparecer um homem, no mínimo interessante, ela vai embora.
- Você e Clara não têm rezado para que isso aconteça?
- Sim. Rezamos todas as noites para que Deus nos arrume uma vida melhor.
- Logo vocês vão conseguir.
Eu sinto isso.
- Mas no fundo tenho medo.
- Medo de quê?
- Somos ainda muito novas.
Eu gostaria muito que Dinorá só sumisse de nossa vida, mas ainda dependemos dela.
Não temos idade para sair e nos atirarmos no mundo.
Quem sabe quando eu tiver a sua idade, uns quinze, dezasseis anos...
Vou procurar um bom emprego, depois voltarei a estudar.
Vou ter uma boa vida, você vai ver.
- Claro que sim.
Eu quero terminar o colégio no ano que vem ingressar talvez na Escola de Sociologia ou encontrar um trabalho que me realize e arrumar um bom partido.
Sonho ser mãe e dona de casa.
Sinto que tenho facilidade para lidar com as prendas do lar e o trabalho ao mesmo tempo.
- E quer ter um monte de filhos?
Impossível.
- Gosto de crianças.
Cuidar de casa e dos filhos e conciliar o trabalho é algo tranquilo para mim.
Só falta aparecer o amor da minha vida.
- Será que vamos realizar nossos sonhos?
- Vamos aguardar.
Rezar para que possamos ter clareza na mente e realizar nossas vontades.
Clara chamou lá do quarto.
Lilian e Carmela largaram os ferros de passar e subiram rápidas.
Chegaram e Lilian abaixou-se e passou a mão sobre a testa dela.
O estado de saúde de sua irmãzinha era grave.
A menina ardia em febre e gritava:
- Paul não... Por quê?
Oh, não atire... Não...
- Ela está sonhando - disse Carmela.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 21, 2016 8:48 pm

- Sim, mas é estranho.
- O que é estranho?
- Porque é um sonho ruim que me persegue desde os sete anos de idade.
Clara não poderia ter o mesmo pesadelo que eu.
- Ora, por quê?
- Porque o pesadelo é meu.
- Conte-me sobre ele.
Lilian contou em rápidas palavras.
Carmela mordiscou os lábios, pensativa.
- Clara também estava neste sonho.
- Como?
- Vocês duas viveram isso.
- Impossível.
- Numa outra vida, quero dizer - ajuntou Carmela.
- Será?
- Sim.
Lilian não entendia do assunto e estava muito preocupada com o estado de saúde de sua irmã.
- Ela não está nada bem.
Precisamos levá-la ao hospital.
- Eu sei como fazer.
Vou procurar ajuda.
Vou chamar mamãe.
Fique aqui.
- Mas...
- Nada disso, Lilian.
Fique ao lado de sua irmã.
Eu vou atrás de ajuda.
Carmela falou, rodou nos calcanhares e saiu.
Correu até sua casa e explicou à mãe o que estava acontecendo.
Maria foi até a padaria perto de sua casa.
Conversou com seu Manoel e ele se ofereceu para levar a menina enferma ao hospital.

3 Regulador Xavier: Famoso preparado à base de extractos vegetais, de plantas medicinais, desenvolvido em São Paulo pelo farmacêutico João Gomes Xavier, indicado para tratar dos distúrbios da menstruação.
Registado no órgão de saúde desde 1930
(Nota da Revisora.)
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 8:15 pm

CAPÍTULO 6

Clara deu entrada na Santa Casa e foi prontamente atendida, embora o prédio estivesse lotado de pacientes.
- Você não pode atravessar esta porta - indicou a enfermeira, com gesto firme, porém simpático.
- É minha irmã.
Ela não pode ficar sozinha.
- Não se preocupe.
Vamos cuidar bem dela.
- É tudo o que peço enfermeira.
- Trouxe algum documento?
- Saí correndo nem me lembrei do documento.
- Preciso da certidão de nascimento.
- Posso trazer mais tarde?
- Pode trazer assim que puder.
O hospital está lotado porquanto ainda estamos tratando de enfermos da Revolução.
Não estamos preenchendo as fichas como é de praxe.
gora volte para casa e avise sua mãe que sua irmãzinha vai ficar boa.
Carmela abraçou-se à Lilian.
- Ela vai ficar boa.
Você verá. Vamos confiar.
Lilian estava pálida, cansada.
- Ela disse para eu avisar nossa mãe...
- Foi maneira de se expressar.
- Eu só tenho a Clara.
Se ela for embora... - e desatou a chorar.
- Chi! Calma, amiga.
Carmela disse enquanto alisava seus cabelos:
- Ela vai ficar boa.
É uma questão de dias.
Aqui Clarinha vai receber tratamento adequado.
Não podia ficar em casa.
Concorda que fizemos o melhor?
- Tem razão.
- E Dinorá? - perguntou Maria.
- Saiu cedo de casa e não voltou até agora.
- Não podemos deixá-la sozinha em casa.
- Eu me viro. Sempre me virei.
Maria meneou a cabeça para os lados.
- Não. Eu me responsabilizo por você até Dinorá aparecer.
Quer dormir com Carmela?
- Na casa de vocês?
- Sim.
- Adoraria d. Maria.
Eu não quero ficar sozinha na minha casa.
- Por certo.
Passamos na sua casa, pegamos uma muda de roupa e...
- Eu tenho de entregar as roupas.
Os clientes... Sabe como é.
Eu preciso receber.
- Eles compreenderão o atraso.
Um ou dois dias não vão atrapalhar a vida de seus clientes.
Eu deixo Carmela continuar ajudando você, se for o caso.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 8:15 pm

- Obrigada, d. Maria.
- Vamos - disse Carmela.
O seu Manoel nos aguarda lá fora.
Lilian assentiu com a cabeça.
Enlaçou o braço na cintura da amiga e ambas saíram do hospital.
Contornaram o jardim e Manoel estava no outro lado da calçada.
Entraram num carro Ford modelo T - conhecido popularmente como Ford bigode - e seguiram para casa em silêncio.
Chegando a sua casa, Lilian encontrou tudo às escuras.
Dinorá ainda não havia chegado.
Escreveu um bilhete explicando o ocorrido.
Pegou uma muda de roupa.
- Ela vai ficar brava comigo, d. Maria.
- Não vai. Conversarei com ela amanhã cedo, explicando que era impossível deixá-la aqui sozinha.
- Obrigada.
- Agora vamos - tornou Carmela.
Elas apagaram as luzes, saíram do sobrado e atravessaram a rua.
Lilian foi muito bem recebida na casa de Maria.
Aproveitou que na casa da amiga tinha chuveiro eléctrico e tomou um banho quente e revigorante.
Vestiu a camisola e, embora sem fome, procurou alimentar-se.
Ela não podia ficar doente.
Precisava estar bem para cuidar de sua irmãzinha, assim que retornasse do hospital.
Lilian terminou o jantar e em seguida foi para o quarto.
Demorou em conciliar o sono.
Mas, quando ele veio, ela dormiu feito um anjinho.
No dia seguinte, ao chegar a casa na companhia das vizinhas, Lilian encontrou uma Dinorá mal-humorada e irritada, sentada na poltrona da sala e tamborilando nervosamente as compridas unhas vermelhas sobre a mesinha ao lado.
- Fiquei preocupada - falou enquanto balançava o bilhete.
Lilian percebeu o tom falso na boca dela, contudo não queria discutir.
- Estava cansada e precisava dormir.
Você não sabe o quanto fiquei preocupada.
Clara não estava nada bem.
E d. Maria não quis que eu ficasse sozinha.
- Foi isso mesmo - tornou Maria.
Corremos até a Santa Casa e ao voltarmos eu não ia deixar sua enteada aqui sozinha.
Depois da guerra, a cidade está cheia de bêbados e tarados.
- Fez bem, d. Maria - Dinorá percebeu o ar reprovador da vizinha.
Tenho certeza de que minha enteada passou agradável noite na companhia de Carmela, não é mesmo?
Lilian assentiu com a cabeça.
- Agora, voltemos ao trabalho.
Os clientes não querem saber dos nossos problemas.
Pagam e esperam por um serviço bem feito.
Maria protestou.
- Eu não concordo com isso.
Faz dessas pobres meninas suas escravas.
Dinorá levantou-se de um salto e aproximou-se da mulher com olhar furioso.
- A vida é minha e as enteadas também.
- Acontece que isso não é justo.
- Quem decide o que é justo ou não nesta casa sou eu! - bramiu Dinorá.
Nunca me meti na sua vida.
- Sim, mas...
- Nem, mas, nem meio, mas.
Quer fazer o favor de se retirar daqui, imediatamente?
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 8:15 pm

Maria puxou Carmela pelo braço.
- Eu vou dar queixa na polícia.
- Faça isso e verá a confusão que vai arrumar.
Maria pendeu a cabeça para os lados.
- Vamos embora daqui.
Que Deus tenha misericórdia dessas meninas.
Lilian fechou a porta, e quando se virou foi surpreendida com violento tapa no rosto.
- Ai! Como se atreve?
- Isso é para você aprender a não me desafiar na frente dos outros.
Lilian levou a mão até o rosto avermelhado.
Ardia muito, mas ela não iria derrubar uma lágrima, não por causa dessa mulher.
- Eu não a desafiei.
Estava preocupada com Clara.
Tive de tomar uma atitude.
Se fosse esperar por você...
Dinorá levantou a mão e ameaçou dar novo tapa.
Lilian saiu em disparada para o quintal.
- Ah, essas meninas...
Como vou me livrar das duas?
Tenho menos de uma semana...
Dois dias depois, Manoel bateu na porta.
- Vim avisá-la que o hospital ligou lá na padaria.
Como tem muitos feridos por lá, as doenças estão se espalhando.
Pediram para ir buscar a Clarinha, pois ela está melhor e tem condições de se recuperar em casa.
- Obrigada - respondeu Dinorá, esboçando sorriso sinistro.
Assim que o padeiro fechou o portãozinho de ferro e deu as costas, ela entrou na sala e sorriu feliz.
- Já sei o que vou fazer.
Vou me livrar de uma...
Hoje mesmo; a outra fica para amanhã, no mais tardar, depois de amanhã.
Vou unir o útil ao agradável.
Vou me livrar delas e de Adolf e não vou perder a chance de partir com Bartolomeu para a capital federal.
Não vou!
Dinorá arrumou-se com elegância.
Aproveitou que as roupas de Valentina, a cliente rica, ainda estavam em sua casa e procurou por um vestido bonito.
Achou um conjunto importado de passeio, feito de crepe azul com parte superior em georgette branca.
Foi até o armário do quarto e pegou um chapéu cloche.
Colocou um pouco de pó no rosto, rouge, depois foi até a cozinha e apanhou uma garrafa de vinho.
Retirou a rolha e acendeu um fósforo.
Escureceu a rolha, esperou amornar e passou o pedaço de cortiça sobre os olhos, dando um ar glamoroso à sua figura altiva e bem apanhada.
Lembrou-se da conversa que tivera com um cliente barra-pesada horas antes.
Ele era repugnante, mas iria ajudá-la a se livrar das meninas.
Dinorá fez um esgar de incredulidade.
O homem era mesmo nojento, mas fazer o quê?
Precisava se esforçar um pouquinho mais para livrar-se daqueles dois estorvos.
- Bartolomeu nem vai saber dessa escapadela.
Eu prometi não me deitar mais com homem algum, porém é minha felicidade que está em jogo.
Ela sorriu para sua imagem reflectida no espelho da penteadeira.
Em seguida, apanhou a bolsa e o documento de Clara.
- Hoje eu me livro de você - disse para si.
Abriu a porta de tela da cozinha e avisou Lilian:
- Vou ao hospital levar o documento de sua irmã.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 8:15 pm

- Quero ir junto.
- Hospital não é lugar para criança.
A não ser que esteja doente.
- Não sou criança.
- Não vou me exasperar com você, sua mal-educada.
Quer que eu deixe sua irmã jogada no hospital, como uma indigente?
Se eu não levar esse documento, como vão saber quem ela é?
Estou aqui perdendo o meu tempo para fazer algo por alguém que nem é do meu sangue e ainda tenho de ouvir os seus impropérios?
- Desculpe-me, Dinorá, estou nervosa e apreensiva.
Clara é tudo o que tenho na vida.
Sem ela, não sei o que fazer.
- Sem dramas.
Nada vai acontecer à sua irmãzinha.
Se ligarem do hospital para buscá-la, é porque está viva, oras!
- Isso é verdade...
- Adiante o serviço porque amanhã quero entregar todas essas roupas.
- Por falar em roupa, eu acho que conheço esse vestido...
Dinorá nem terminou de escutar.
Virou o corpo esguio, atravessou a cozinha e a sala e saiu, batendo a porta com força.
Lilian fez sentida prece.
- Por favor, Senhor, afaste essa mulher de nossa vida.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 8:15 pm

CAPÍTULO 7

Paulo Renato estava sentado confortavelmente na poltrona.
Numa mão segurava seu cachimbo; na outra, o jornal.
Uma das criadas aproximou-se com a bandeja de chá e biscoitos.
Era um ritual que ele cumpria com rigor, todas as noites, antes de se deitar.
Ele levantou a cabeça e agradeceu.
A empregada sorriu, assentiu com a cabeça e saiu.
Logo Valentina apareceu na soleira da porta do escritório.
- Você se incomoda de tomarmos chá juntos?
- É um prazer tomar chá com você, minha irmã.
Venha, junte-se a mim.
- Não queria atrapalhar a sua concentração.
Sei que segue à risca os seus horários.
Ela consultou o relógio.
- É hora do chá.
- Estava finalizando a leitura do jornal da noite.
Os assuntos de sempre.
Valentina aproximou-se do irmão e sentou-se à sua frente.
Apanhou uma xícara de chá e serviu-o.
Depois, serviu a si mesma, de maneira elegante.
- Hoje trabalhamos bastante na oficina.
- Percebi. Chegou tarde.
- A produção está aumentando a olhos vistos.
- Tudo está bem.
- Tudo está bem - ela repeliu.
Pensei que jamais poderia ficar bem, após tantos acontecimentos desagradáveis.
Mas hoje posso dizer-lhe com toda a certeza do mundo: sou feliz!
- Se não fosse à morte de Auguste sua vida seria completamente diferente.
- Seria, meu irmão.
Contudo, se eu me casasse com Auguste, não voltaria mais para nosso país e jamais faria parte do comité patrocinador da Semana de 22.
Sinto que a minha contribuição às artes valeu mais a pena do que um casamento convencional.
- Não se sente ofendida de ser chamada de modernista?
- Imagine!
É uma honra para eu estar incluída no mesmo grupo que Eugenia Moreira, Elsie Lessa, Anita Malfatti, Patrícia Galvão...
- Cuidado, pois a sociedade é hipócrita e faz comentários jocosos nas suas costas.
Ela deu de ombros.
- Estou pouco me importando com os comentários maledicentes das pessoas.
Enquanto elas criticam, eu realizo.
Sou uma incentivadora das artes.
Quero contribuir nesta vida para que as pessoas, de todas as classes, apreciem uma obra de arte e se sensibilizem.
Quero que suas almas sejam tocadas pelo belo.
Ainda sonho com um museu em nosso país.
São pouquíssimos os que têm condições de viajar ao exterior para apreciar a beleza produzida pelos artistas.
- Continue, pois, comprando obras de arte e patrocinando seus amiguinhos artistas.
- Você acredita que uso mal a minha parte da herança comprando obras de arte.
É o seu ponto de vista.
Não quero e não vou discutir.
- Desculpe-me.
Não quero também me intrometer em sua vida.
Sempre foi dona do seu nariz.
Paulo Renato levantou-se e se sentou ao lado de Valentina abraçando-a com ternura.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 8:16 pm

Embora tivessem uma visão da vida completamente diferente, eles tinham sincera afeição um pelo outro.
Valentina ainda conservava os traços de uma mulher que fora muito bonita em sua juventude.
Nascida em berço rico, fora educada na Europa, numa escola francesa - algo comum naquela época - e apaixonara-se por um lindo jovem, também de óptima família, chamado Auguste.
O romance de ambos fora interrompido por conta da guerra mundial que eclodiu no continente europeu em 1914.
Eles ainda ficaram juntos por mais dois anos.
Auguste foi chamado para lutar no front e a família de Valentina, receosa de que algo grave acontecesse a ela, obrigaram-na a tomar um vapor e regressar imediatamente ao Brasil.
Um ano depois de seu regresso a jovem recebera uma carta dos pais de Auguste informando-a de que seu amado havia sido morto em combate.
Foi uma tristeza só.
Valentina deixou de se alimentar e foi definhando.
Paulo Renato, alguns anos mais novo que ela, um moçoilo naqueles tempos, sofria em silêncio e fez de tudo para alegrar a irmã que ele tanto amava.
Valentina travou amizade com famosa dama da sociedade da época.
Essa dama enviuvara havia pouco tempo e assim ela superou a tristeza e saudade, por meio do interesse em estudar obras de arte e comprá-las.
Valentina contratou um professor estrangeiro e teve aulas de história da arte.
Sua alma foi tocada por tanta beleza que ela voltou a sorrir para a vida.
Ela entrou em êxtase ao ver a vida por meio da arte, ao entender melhor a vida por meio da criação do homem unido a valores estéticos como beleza, harmonia e equilíbrio, produzindo como síntese as suas emoções, sua história, seus sentimentos e sua cultura.
A Grande Guerra trouxe sopro de renovação em todas as áreas.
No Brasil, um grupo de artistas tencionava criar uma arte genuinamente brasileira.
Foi logo em seguida que surgiu a ideia de incentivar o movimento e de participar da Semana de Arte.
Daí, ela não parou mais de mexer com arte. Incentivava artistas, viajava ao exterior para adquirir obras, telas, esculturas.
Ela patrocinou muita gente, criou uma rica rede de amigos influentes entre intelectuais, políticos, artistas, e era mulher benquista na sociedade.
Havia um pequeno grupo de damas da alta-roda que faziam comentários maledicentes.
Valentina não dava à mínima.
Tinha personalidade forte.
Depois que os pais morreram num acidente de trem durante viagem a caminho do Oriente, Valentina resolveu ir mais além.
Por meio de uma amiga foi convidada a participar de um grupo que se reunia para trocar ideias acerca da vida.
Levavam livros de filósofos, de pensadores, de espiritismo e desde então sua vida nunca mais fora a mesma.
Tendo a crença na imortalidade da alma e na reencarnação, Valentina interessou-se pelos estudos da vida, em especial por temas mediúnicos e, durante uma sessão, o espírito de Auguste deu comunicação e a informou que estava muito bem e que o real propósito de Valentina era o de colocar as classes menos favorecidas em contacto com a arte.
Ela chorou muito naquela noite.
Chorou de alegria.
Seu coração ficara aliviado em saber que Auguste estava vivendo bem, numa outra dimensão.
Ter conhecimento e, acima de tudo, ter a certeza da continuidade da vida após a morte do corpo físico foram factores importantes para a sua mudança de comportamento e atitudes melhores.
Valentina não se preocupava com casamento.
Ocupava seu tempo incentivando e patrocinando artistas, comprando obras de arte, cuidando da grande casa que morava com o irmão e, na Revolução, coordenara um grupo de voluntárias para a confecção de joelheiras e outras peças de roupas para os soldados.
Gostara tanto desse trabalho que, tão logo terminara a guerra, montou uma oficina de costura na Rua Marconi, meca dos ateliês de moda naqueles tempos.
As grandes costureiras e modistas trabalhavam nesta rua e nas imediações da Barão de Itapetininga.
Determinada, comprou um sobradão e montou uma espécie de oficina-escola.
Meninas pobres, e de preferência órfãs, eram convidadas a estudar e aprender os ofícios da costura.
Aprendiam uma profissão digna e tinham reais condições de sustentar a si mesmas.
As menos favorecidas socialmente podiam sonhar com uma profissão digna e ajudar suas famílias.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 8:16 pm

Outrossim, as órfãs tinham condições de arrumar empregos em fábricas de tecidos ou mesmo trabalhar num dos vários ateliês espalhados pela cidade.
Valentina era contra a mendicância e acreditava na promoção do ser humano como caminho para uma sociedade mais justa e menos desigual.
A oficina cresceu e agora contava com doze meninas, três assistentes e uma secretaria.
Valentina estava feliz.
Ela respirou fundo e sorriu para o irmão:
- Em vez de me casar eu sensibilizei meu espírito pela arte, aprendi a trabalhar ocupar meu tempo.
Tornei-me pessoa realmente útil e de valor.
Mudei muito com a morte de Auguste, com o contacto com as artes e mudei mais ainda com essa guerra estúpida.
- Não foi estúpida.
Lutamos por uma causa.
Pela legitimidade da Constituição de 1891 - afirmou ele, voz irritada.
- Uma grande bobagem.
Eu não sou a favor de guerras ou revoluções.
Elas só trazem dor e sofrimento.
Sei que ainda vivemos num estágio em que precisamos aprender - ainda - pela dor, daí a necessidade da guerra.
O dia em que soubermos viver e nos relacionar tão-somente pela inteligência e pelo sentimento puro de fraternidade, não mais precisaremos de lutas e vidas ceifadas em campos de batalha.
- Concordo com você, mas vivemos num mundo onde a guerra é necessária.
Valentina deu de ombros.
- Eu não compactuo com isso.
Quero saber de viver bem, de crescer, construir, ajudar, melhorar.
Desejo fazer coisas boas para mim e para o próximo.
- Tenho orgulho de você.
Eles beijaram-se no rosto.
Valentina tinha enorme carinho pelo irmão.
Paulo Renato tinha muito medo de expressar seus sentimentos.
Era demasiadamente comportado e educado. Jamais falara um "não" a uma mulher em toda a vida.
Era difícil escorregar das garras das pretendentes.
E Valentina fazia o possível para alertá-lo quando o assunto era mulher.
De facto, ela tinha de tomar bastante cuidado.
Paulo Renato tornara-se homem muito bonito.
Tinha volumosos cabelos castanho escuros penteados para trás; seus óculos lhe conteriam um ar sério e sensual ao mesmo tempo.
Os dentes eram perfeitamente enfileirados, seu sorriso era encantador.
O queixo quadrado dava-lhe o ar viril.
Ele praticava regatas no rio Tietê e tinha um corpo atlético e bem apanhado.
Mulheres solteiras e até mesmo as casadas suspiravam por ele.
Contudo, ele não sentia capacidade em amar.
Nunca se apaixonara nesta vida e sentia que isso era algo que existia somente nas fitas americanas exibidas nos cinematógrafos.
O amor era algo que fazia parte dos livros, dos romances de Machado de Assis, José de Alencar, Eça de Queirós...
Não, o amor de verdade não existia.
Ele acreditava que as mulheres eram susceptíveis a esse tipo de sentimento, mas os homens não.
Cá entre nós, Paulo Renato tinha a nítida impressão de que o amor machucava e doía.
De acordo com sua visão de vida, sua irmã sofrera muito por amor.
Também desejava não sofrer.
Se esse sentimento fosse tão bom assim, então não sentiríamos dor, ele filosofava.
Dessa forma, ele se atirou nos livros, estudou muito, formou-se brilhante advogado e tinha gosto em dar aulas na faculdade de Direito.
Com a morte dos pais, deixou um pouco de lado as aulas e passou a gerenciar os negócios da família.
Valentina convidava o irmão para participar do grupo de estudos filosóficos na casa de uma amiga.
Lá, todas as terças-feiras, um grupo de homens e mulheres da alta sociedade, mais políticos, artistas e intelectuais reuniam-se após o jantar para discutir, compreender e aceitar as verdades da vida.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 8:16 pm

Discutiam todos os tipos de assunto.
Chamavam a terça-feira de "sarau filosófico".
Paulo Renato foi duas vezes, mas não quis prosseguir.
Não se sentia estimulado a estudar, discutir ou compreender os mistérios da vida.
Esses assuntos não lhe despertavam o menor interesse.
Valentina não queria forçar o irmão.
Deixava-o à vontade.
Quem sabe um dia ele despertaria por vontade própria?
Isso seria uma questão de tempo e de livre escolha.
Havia uma prima que dava em cima dele, de maneira atrevida.
Valentina não gostava de Selma.
Ela era um tipo nada agradável.
Mulher perigosa e inescrupulosa, Valentina fazia de tudo para ficar longe dela.
Havia uma fazenda que pertencera aos pais de ambos.
O pai de Paulo Renato havia sido irmão da mãe de Selma, já falecida.
Ele e Valentina queriam vender a fazenda, pois esse era o único elo que os prendia à prima.
Selma, por sua vez, criava todo e qualquer empecilho para não vender a sua parte.
Era uma maneira de ficar próxima ao primo.
Selma apaixonara-se por Paulo Renato desde sempre.
Acreditava que um dia iriam se casar.
Mas voltando à Valentina...
A Revolução, no fim das contas, mudou para melhor a vida dela.
Dizem que, às vezes, algo ruim ou desagradável muda nossa vida para melhor, mesmo que naquele momento triste a gente não consiga enxergar tal melhora.
As mulheres paulistas tiveram papel significativo na Revolução Constitucionalista.
Fizeram campanhas para doação de ouro; formaram frentes de trabalho em hospitais.
Centenas de mulheres trabalharam na Cruz Vermelha e na Cruz Verde; criaram a Casa dos Soldados, que alimentava os combatentes.
Formaram oficinas de costura, onde se fabricou mais de meio milhão de peças de roupas e artefactos aos soldados.
As mulheres paulistas foram notáveis nesses meses de guerra.
Valentina foi destaque dentre as mais de oito mil que participaram dessas frentes de trabalho.
Animada com o resultado do trabalho feito, ela deu prosseguimento à manutenção da oficina de costura.
Trabalhava de segunda a sexta.
Na parte da manhã as meninas tomavam café e estudavam.
Depois almoçavam, descansavam meia hora e iam para as máquinas de costura.
Era a parte prática.
Às cinco da tarde voltavam para as instituições ou para suas casas.
Valentina desprendeu-se dos braços do irmão.
- Estou muito contente com esse novo trabalho.
Penso até em ensinar um pouquinho de arte a elas.
Descobri uma nova maneira de doar meu amor.
- As meninas!
- Esse é o meu jeito de fazer caridade.
- Estou de acordo.
Ajudar o ser humano a progredir, dando-lhe condições para desenvolver seus potenciais, isso sim é oferecer dignidade ao indivíduo.
Não compartilho a ideia de dar assim, de mão beijada, como uma mendigação sem fim.
É uma forma de não despertar os verdadeiros valores do espírito.
- Falando em espírito? - ela perguntou e riu.
- Maneira de dizer.
Falei dos potenciais, da essência de cada um de nós.
- Dá no mesmo, Paulo Renato.
Ele pigarreou e mudou de assunto.
- Tenho tanto trabalho no escritório que mal tenho tempo de ir até a oficina, ali pertinho.
Como andam as coisas por lá?
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 8:16 pm

Valentina suspirou contente.
- Estamos com doze meninas.
- Você e as meninas.
Por acaso algum rostinho se parece com o do sonho?
Ela meneou a cabeça para os lados.
Paulo Renato se referia ao sonho recorrente dela, desde adolescente.
Ela sempre sonhava com um quarto de hotel, corpos ensanguentados caídos no chão.
Ela olhava os corpos e entrava em pânico quando via um deles.
Valentina acordava e gritava:
"Minha pequena está morta!"
Quem era?
Por que sonhava com aquela moça?
Por anos Valentina tentou descobrir do que - e de quem - se tratava.
Nas reuniões semanais, descobrira que se tratava de cenas de vidas passadas.
No entanto, ela não conhecia ninguém com aquela fisionomia.
Ela moveu os pensamentos fazendo gesto vago com as mãos.
- Quem sabe agora, com tantas meninas sob meus cuidados, eu não a reencontre?
- Fantasioso demais.
Acha que essa menina está...
Como é mesmo que você diz?
Ah, reencarnada, é isso?
- É - ela sorriu.
Não vou discursar sobre reencarnação agora.
Tenho muito trabalho - e mudando de assunto, prosseguiu:
Logo a casa vai ficar pequena.
Elas aprendem o trabalho, têm uma profissão decente e podem ajudar as suas famílias ou seguir carreira e tornar-se mulheres independentes.
Ela passou os dedos sobre os cabelos lisos dele, alinhados e penteados para trás.
- Você um dia vai se apaixonar e casar.
Eu torço para que isso aconteça.
- Não acredito no amor.
- Porque ainda não o conheceu.
- Seremos dois solteirões presos neste casarão - tornou ele, fazendo voz assustadora.
Valentina riu-se.
- Nada disso. A casa do Morumbi está quase pronta.
Quero mudar-me para lá.
- Naquele fim de mundo?
Que só tem chácaras?
- Sim. É como se eu estivesse morando no interior, mas dentro da cidade.
- Por que devemos nos separar?
- Chegou a hora de eu viver a minha vida, Paulo Renato.
Arrumar a casa do meu jeito, enchê-la de obras de arte, cuidar das minhas coisas.
- Você faz isso tudo aqui.
Eu não interfiro.
- Mas tem seu jeito próprio de ser.
Têm seus horários, suas manias.
- Não fica bem uma mulher solteira morar sozinha.
- Quem disse isso?
- É feio. A sociedade não gosta.
Valentina sacudiu os ombros de maneira jovial.
- Não me interessa o que a sociedade diga.
Assim que a casa do Morumbi estiver pronta, eu me mudarei para lá.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 8:17 pm

- Você é quem sabe.
Tomaram mais um pouco de chá e Paulo Renato disse, voz baixa:
- Hoje cedo chegou carta de Selma.
- Outra? - ela perguntou admirada.
- Sim. Ela quer passar uns dias aqui connosco.
- Eu não a quero por aqui.
- Vou responder e informá-la de que estamos sobrecarregados de trabalho.
- Não precisa mentir.
- Não sei dizer "não".
- Diga a ela que pode nos visitar, mas não costumo hospedar ninguém.
De que adianta mentir?
Eu não devo nada à nossa priminha.
- Fico sem jeito.
Um mínimo de educação e...
Valentina o cortou séria.
- Educação é uma coisa, desrespeitar-me é outra.
Está vendo por que quero ter o meu próprio espaço?
- Mas amo você.
- Amamo-nos, contudo temos maneiras bem diferentes de encarar os factos.
Eu não tolero certas coisas.
Selma não é bem-vinda.
Você precisa ser mais dono de si, Paulo Renato.
- Eu sei, mas não fica bem.
- Ainda pode pagar caro por não se colocar em primeiro lugar.
Selma é pessoa intrometida e vil.
Não gosto dela.
Não quero a energia perturbadora dela aqui nesta casa.
- Bom, também não quero confusão.
Se ela ligar, você atende ou manda a Benta atender.
Não quero ser rude.
- Não vou atrapalhar a vida de minha criada predilecta.
Benta não tem nada a ver com isso.
Deixe comigo. Eu sei lidar com Selma.
- Você é muito dura com ela.
- É o seu ponto de vista.
Estou me defendendo dos pensamentos tóxicos dela.
Paulo Renato não queria estender o assunto.
Sabia que Valentina não mudaria de ideia.
- Agora vou me retirar e descansar.
Ele a beijou no rosto e sorriu:
- Tenho muito trabalho pela frente.
Amanhã tentarei chegar mais cedo em casa.
Pode mandar preparar um jantar especial, só para nós dois.
- Vou pedir para preparar aquela carne assada que tanto gosta.
- Desse jeito vou virar um leitão, bem gordo!
- Qual nada!
Depois você se atira nas águas do Tietê e dá as suas remadas.
Os dois se abraçaram e se despediram mais uma vez.
Paulo Renato subiu para o quarto.
Valentina pegou uma revista de moda e começou a folhear.
O sono custava a chegar.
Um espírito em forma de mulher sorriu e, antes de partir, espalhou energias, as mais positivas, por todo o ambiente.
Beijou o rosto de Valentina, que ela registou como agradável sensação.
- Fiquem em paz, meus queridos.
Amamos muito vocês.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 8:17 pm

CAPÍTULO 8

A recepção do hospital estava uma confusão só.
Dinorá aproximou-se e os homens, casados ou solteiros, foram abrindo caminho.
Seu perfume inebriava os marmanjões.
Ela sorriu para eles fazendo beicinho e mordiscando sensualmente os lábios, mantendo os fartos seios empinados.
Aproximou-se de uma atendente.
- Uma priminha minha está internada aqui.
- Não temos como verificar pelo nome, senhora.
- Não?
- Essa é a razão da confusão.
Alguns pacientes serão transferidos, outros já morreram.
Ainda preciso organizar a fila de transfusão de sangue.
Estamos procurando fazer tudo com cautela e tentando manter um mínimo de disciplina para não acontecerem mais erros.
- Erros? Como assim? - Dinorá se interessou.
- Trocas de nomes têm sido comuns aqui no hospital.
Pedimos encarecidamente que as famílias apareçam e nos ajudem a identificar os doentes e os mortos.
E, se aconteceram trocas de facto, pedimos as mais sinceras desculpas, mas depois da Revolução...
Dinorá teve vontade de mandá-la calar a boca.
Não queria conversar ou escutar as lamúrias da enfermeira.
Contudo, não podia ser indelicada.
Ela precisava ser agradável o suficiente para ganhar a confiança e simpatia da enfermeira.
- Minha prima é uma garotinha de cinco anos.
A enfermeira a olhou dos pés à cabeça.
Acreditou que Dinorá fosse mulher de sociedade.
Estava tão bem vestida e tão perfumada...
Não tinha problema que ela fosse sozinha lá para dentro.
- A senhora siga por aquela porta - apontou.
Lá ficam as crianças.
É uma ala infantil improvisada.
Serão removidas desta ala em breve.
Dinorá fez que sim com a cabeça e saiu.
Atravessou um largo corredor abarrotado de pacientes deitados em macas e, ao chegar ao fim, avistou a ala infantil, repleta de crianças de várias idades.
Havia cerca de vinte e logo Dinorá avistou dentre os vários rostinhos, o de Clara.
A menina estava com os olhos semicerrados, adormecida.
Dinorá chegou de mansinho e passou levemente os dedos sobre seu bracinho.
- Clara. Clarinha.
A menina virou o rostinho e abriu e fechou os olhos.
- Hã...
- Como vai querida?
Ela abriu novamente os olhinhos e espremeu.
Sorriu ao avistar um rosto conhecido.
- Estou com medo.
Não quero mais ficar aqui.
- Eu vim buscá-la.
- Mesmo?
- Vamos voltar para casa.
- Que bom. Eu me sinto tão melhor.
Posso me arrumar agora mesmo?
- Pode.
O médico e a enfermeira caminharam ao seu encontro e Dinorá sentiu um calafrio.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 8:17 pm

Iam estragar seus planos.
De repente um grito foi ouvido mais à frente.
Era uma garotinha que se contorcia de dor.
O médico e a enfermeira desviaram imediatamente do caminho e Dinorá suspirou aliviada.
Pegou o vestidinho de Clara, postado numa cadeira ao lado da cama.
Ajudou a menina a tirar o aventalzinho e colocar o vestido, cheio de botões.
Enquanto Clara se arrumava, Dinorá olhou ao redor.
Crianças de várias idades lotavam aquela ala.
O médico e a enfermeira saíram.
Ela perpassou o olhar pelo ambiente e avistou uma mulher, cujo semblante carregava ar de tristeza e perplexidade.
Dinorá não pensou duas vezes.
Apressou o passo e aproximou-se.
Percebeu que a mulher não estava nada bem.
Ao contrário, estava extremamente abalada.
- É parenta?
- Não.
- Por que está assim? - perguntou numa voz de fingida consternação.
- Eu trabalho no asilo de meninas.
Essa garotinha era uma das internas.
- Pobrezinha.
- Não resistiu a essa onda de febre.
Sempre foi muito fraquinha.
- Ela morreu?
A moça pendeu a cabeça para cima e para baixo.
- Há meia hora. Coitadinha.
Não temos como lhe dar um enterro digno.
O asilo para meninas enfrenta uma crise séria.
- Ela era do asilo de meninas?
- Sim. Seus pais morreram há alguns anos e a pobre criatura não tinha parentes.
Uma pena.
O pouco que temos vai para alimentar as crianças.
Não temos condições de providenciar enterro e...
Dinorá sorriu.
Aquela situação era-lhe bastante favorável.
Tudo estava a seu favor.
- Eu posso fazer o enterro.
- Como?!
- Seria um enorme prazer para mim.
- Verdade?
- Claro. Eu tenho posses.
A moça a olhou de cima a baixo.
Dinorá tinha jeito de ser rica.
- Sou irmã caçula do prefeito Teodoro Augusto Ramos - completou Dinorá, mentindo com enorme propriedade.
- Dá para notar que vem de família nobre.
- Sou amiga e voluntária deste hospital.
É só me entregar o documento da menina que eu providencio o enterro da pobrezinha.
- Obrigada, dona...
- Laura - mentiu Dinorá.
Laura Ramos.
- Que as bênçãos do Senhor caiam sobre a senhora e sua família.
- Assim seja, minha querida. Assim seja.
A mulher apontou para uma carteirinha presa ao pé da cama.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 8:17 pm

- Ali está a certidão de Lenita.
Dinorá olhou o documento e sorriu feliz.
- Pode ir.
- Tenho receio que...
Dinorá procurou manter o sorriso e o mesmo tom de voz.
- Não se preocupe, de maneira alguma.
Vá cuidar de suas meninas.
Deixe que eu trato de tudo.
Vá e avise as freiras que está tudo bem, que uma alma caridosa da família do prefeito vai ajudá-las nas despesas de enterro.
- Conheço muitas damas da sociedade paulistana que ajudam e frequentam a instituição, mas não me recordo de seu rosto.
- Eu não gosto de aparecer.
- Bom, já que é irmã do prefeito, eu gostaria de pedir uma ajuda para a nossa instituição.
- Você não sabe?
- O quê? - indagou a moça, curiosa.
- O prefeito vai liberar recursos para a sua instituição.
São contos e mais contos de réis.
Trata-se de muito, mas muito dinheiro.
- Jura mesmo?
- Palavra. Pode acreditar.
Soube disso num jantar que mamãe fez no domingo.
- Mas que eu saiba, a mãe do prefeito é falecida...
Dinorá nem esperou que a moça terminasse de falar.
Antes de começar a desconfiar de si ou de ser desmascarada, ela abriu a bolsa e pegou umas notas de dinheiro.
Sentiu uma dor no coração, porque o dinheiro era para comprar cremes.
Mas era por uma excelente causa.
Colocou-as na mão da moça.
- Vá com Deus, minha filha.
A moça sorriu feliz, olhou para a pobrezinha sobre o leito, fez o sinal da cruz e partiu.
Dinorá esboçou leve sorriso.
Ela pegou a certidão da menina morta e guardou em sua bolsa.
Imediatamente, prendeu a certidão de Clara na prancheta presa à cama.
Isso era fácil de fazer, pois o documento de certidão vinha colado dentro de um caderninho de capa dura.
Voltou até Clara.
- Terminou de abotoar seu vestidinho?
- Hum, hum.
- Está pronta?
- Estou.
- Sua irmã a espera.
- Estou com saudades.
- Precisamos ir rápido.
Clara assentiu com a cabeça.
Deu a mãozinha para Dinorá e, no meio da confusão do hospital, caminharam tranquilamente até a saída sem serem percebidas.
Dinorá dobrou o quarteirão do hospital e caminhou até a parada do bonde.
Logo apareceu um.
Ela fez sinal e subiram.
Durante o trajecto, Clara indagou:
- Esse bonde vai nos levar para casa?
- Não, minha querida.
Preciso comprar uns tecidos para fazer novas cortinas.
- Tecidos? Cortinas?
- É. Resolvi que vou redecorar seu quarto.
Você e Lilian vão ter um novo e bonito quarto.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 8:17 pm

O outro quarto vai ser meu e o terceiro vai virar quarto de bonecas.
- Jura? Quarto de bonecas?
- Palavra.
A menina sorriu.
- Obrigada, Dinorá.
Você está sendo muito boa comigo.
- Não há de quê, querida.
Meia hora depois elas saltaram num local bem deserto.
- Aqui não tem loja.
- É uma amiga minha que comprou fazendas, panos demais.
Ela vai me vender por um preço bem mais baixo.
Agora me dê à mão, por favor.
Clara estendeu-lhe a mão e caminharam cerca de quatro quadras.
Chegaram diante de uma casa bem deteriorada, mal conservada e com aspecto horrível.
A menina sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo.
- É aqui - afirmou Dinorá.
Antes que Clara abrisse a boca, Dinorá bateu palmas.
Uma mulher de aspecto tão horrível quanto a casa apareceu no corredor lateral.
- Ah, você aqui de novo. O que quer?
- O Edmundo ainda está aí?
- Você bem sabe que está, Dinorá.
Por que essa pergunta besta?
- Nada. Queria me certificar.
- Entre. Lá no quarto.
Dinorá pegou no braço de Clara e a conduziu com delicadeza para o interior da casa.
Entraram na sala.
Dinorá abriu um sorriso e pediu para Clara sentar-se numa cadeira.
- Vou lá dentro e já volto. Um minutinho.
Clara fez que sim com a cabeça.
A mulher de aspecto horripilante trouxe-lhe umas balas.
- Gosta de doces?
- Gosto, mas acabei de sair do hospital.
- E daí?
- Não sei se devo...
- Imagine, pegue e bote na boca.
São deliciosas.
Clara pegou um punhadinho e comeu uma jujuba.
Depois comeu outra.
Ao introduzir a terceira na boca, uma mão forte segurando um pano embebido em éter cobriu todo o rosto da menina.
Não demorou muito para que o corpinho pendesse para frente, depois para trás e caísse sobre si, completamente sem sentidos.
Dinorá entrou na sala e perguntou a Edmundo:
- Quanto tempo ela vai ficar desacordada?
- Um bom par de horas. Ela está fraca.
Acho que só vai acordar amanhã.
Se acordar antes, dou mais uma dose.
Edmundo era um homem de meia-idade, careca, bem gordo, estatura baixa.
O seu aspecto era repugnante, sujo, pois não era amigo da higiene.
Tinha a pele engordurada e amarelada.
Os tufos de pelos se esparramavam desordenadamente pelas orelhas e narinas.
Um horror. Mas Dinorá estava decidida a ir adiante.
Não podia esmorecer naquele momento.
Mesmo querendo se livrar da menina, Dinorá sentiu aperto violento no peito.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 22, 2016 8:18 pm

Disse de repente:
- Por favor, não quero que ela morra.
- Eu sei.
- Quero somente que ela seja levada bem longe daqui, mais nada.
- Ei, o que foi?
Está com pena da pobrezinha?
- Não é isso - os sentimentos confundiam a cabeça de Dinorá - é que... que... ela é muito novinha.
- Sei...
- E eu não sou uma assassina!
Dinorá disse a última frase em total descontrole.
Sua voz saiu alteada, grave.
Edmundo aproximou-se.
- Pode deixar a menina aqui em paz.
- Só isso que desejo, Edmundo.
Leve-a para longe.
Ele pegou a menina no colo de maneira desajeitada e o corpinho escorregou.
Clara bateu com a cabeça no chão.
Dinorá deu um grito:
- Tome cuidado.
Ela não é uma boneca!
Não a maltrate! Por favor.
- Eu me desequilibrei.
A pobrezinha nem sentiu a batida na cabeça.
Em seguida, Edmundo abriu a boca.
Os dentes eram enegrecidos.
Seu hálito não era nada agradável.
- Trouxe a identidade?
Dinorá abriu a bolsa e a entregou para ele.
- É essa daí.
Creio que está tudo bem.
- Eu escrevi a cartinha.
- Deixe-me vê-la.
Edmundo rosnou algo indecifrável e saiu da sala.
Voltou em seguida com um papel escrito a tinteiro.
- Confira. Essa carta vai presa na certidão.
Dinorá leu e fez sinal afirmativo com a cabeça.
- É um rascunho.
Faça a carta com o nome que consta nesta certidão - apontou.
Edmundo coçou a cabeça.
Saiu e voltou com um bloco e caneta nas mãos.
Escreveu direitinho e mostrou a Dinorá.
- Satisfeita, agora?
- Sim. Bastante.
- Eu ainda não estou.
Você veio antes do prazo...
- Foi a oportunidade que eu esperava.
Não podia perdê-la.
Sabia que você seria compreensivo.
- Tão compreensivo que agora vamos lá para o quarto.
- Mas...
- Nada de, mas. Você prometeu me recompensar, certo?
- Sim, contudo eu posso voltar amanhã e lhe pagar.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 8:09 pm

Edmundo riu.
- Conheço rameiras feito você.
Vai sumir, desaparecer.
Eu quero meu pagamento - falou enquanto seus olhos cheios de volúpia miravam os fartos seios de Dinorá.
- Bom, podemos fazer mais tarde.
- Fiz a minha parte.
Agora quero que cumpra com a sua.
- Mas aqui do lado?
Eu me sinto sem graça.
- Não tem problema algum.
Vamos para os fundos.
Lá tem um quartinho.
A menina não vai ouvir um pio.
Poderá gritar e gemer à vontade, se quiser.
Dinorá assentiu com a cabeça.
Mordiscou os lábios.
- O que fazer? Não tenho escapatória.
Vou ter de me entregar a esse ser repugnante.
Mas é por uma causa justa - disse para si, tentando conter a ojeriza que sentia pelo homem.
Ela olhou pela última vez para o rosto adormecido da menina.
Aproximou-se e abaixou.
Passou os dedos sobre os cabelos em desalinho e sobre o galo que se formara na testa da menina.
Beijou-lhe a testa e sussurrou:
- Desculpe-me, Clara.
No entanto, preciso despistar Adolf e seguir minha vida.
Não posso ficar com você nem com Lilian.
Edmundo bramiu e ordenou:
- Chega de sentimentalismo!
Vamos para o quarto. Agora.
Dinorá levantou-se e, antes de desaparecer no corredor, disse de maneira sentida:
- Que Deus a ajude.
Em seguida, acompanhou Edmundo até o quarto nos fundos da casa.
Despiu-se mecanicamente, depois se deitou numa cama imunda, com lençóis engordurados e enegrecidos pela sujeira.
Edmundo desceu os suspensórios e abaixou as calças.
Dinorá deixou que o homem montasse sobre ela e a amasse quantas vezes quisesse até se saciar e praticamente adormecer sobre seu corpo suado e cansado.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 8:09 pm

CAPÍTULO 9

Já passava das seis da tarde e Paulo Renato continuava a trabalhar.
Seu escritório, um andar inteiro num prédio recém-construído, próximo ao viaduto do Chá, tinha linda vista para o Vale do Anhangabaú.
Um dos advogados que trabalhava com ele, aliás, o advogado por quem ele sentia enorme carinho e afeição, foi categórico:
- Não tem jeito, Dr. Paulo Renato.
- Tem jeito sim, Marcos.
Primeiro me chame pelo nome, Paulo Renato.
Doutor somente no fórum ou em reuniões formais.
Você actualmente é meu melhor funcionário.
Está comigo desde que se formou na faculdade de Direito.
E já se foram quatro anos.
- Doutor... Perdão, você tem razão.
Gosto muito de trabalhar em seu escritório.
Sabe que é um sonho de criança?
- Você nunca havia me dito isso antes.
- Pois é. Eu passava pela rua e via a placa em bronze escrita Bulhões e Carvalho - Advogados.
Daí eu dizia para mim mesmo:
ainda vou trabalhar nesse escritório.
Isso quando seu pai mantinha o escritório na Praça da Sé.
- Faz tempo. Mas enquanto aquela catedral não fica pronta, é impossível trabalhar naquela área.
A gente come poeira vinte e quatro horas por dia. Prefiro estar aqui de frente para esse vale lindo apontou pela janela.
- Depois da Revolução, muitas famílias ainda têm medo de voltar à capital.
Houve um grande abandono de casas.
Muitos querem ficar no interior e outros estão preferindo mudar de Estado.
- Ainda vão voltar.
Eu acredito na missão desta cidade: crescer e progredir.
Você verá.
- Concordo plenamente, mas alugar casas não está sendo, no momento, um bom investimento.
Seus pais lhe deixaram muitas casas para renda.
Eu o aconselho a vendê-las, pelo menos a maioria delas.
- E fazer o quê com o dinheiro?
Colocar no Citibank, ali na frente? - apontou para uma janela lateral.
- Não. A nova lei de condomínios acabou de ser aprovada.
Agora podemos construir prédios residenciais.
Eu sou a favor de pegarmos esse dinheiro, quer dizer, o resultado da venda desses imóveis e investir na construção de prédios residenciais.
Você e Valentina vão lucrar muito mais e tenho certeza de que vão aumentar bastante o património.
- Tem certeza?
- Confio no meu instinto.
Pode apostar.
- Contudo, vai dar muito trabalho para administrar esses apartamentos.
- Eu me encarrego disso.
O seu Milton tem se revelado excelente assistente.
Conte connosco.
- Confio em você, Marcos.
- Obrigado.
- Não quero me preocupar com essas coisas.
Estou plenamente envolvido com as nossas causas e com a criação da universidade.
Aos poucos quero me distanciar do escritório e voltar a me dedicar somente às aulas.
- Por isso vou tomando a dianteira e cuidando de tudo, com a ajuda de Milton.
Deixe comigo.
A secretária apareceu na porta.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 8:09 pm

- Doutor Paulo Renato, passei do meu horário.
Importa-se se eu for embora agora?
- Pode ir, Inês.
Eu e Marcos estamos de saída - ele consultou o relógio.
Puxa quase sete da noite.
Perdi a noção das horas.
Ainda não me acostumei ao horário de verão.
Pensei que fosse mais cedo6.
- O dia ainda está claro - tornou Marcos.
Inês sorriu e falou:
- O Dr. Porchat ligou e avisou que a reunião de amanhã está confirmada para as oito em ponto.
Se quiser eu posso chegar mais cedo e deixar a sala de reuniões em ordem, pois a faxineira já havia ido embora quando ele ligou.
- Está certo. Pode chegar mais cedo.
Agradeço a colaboração e dedicação.
Inês deu boa noite e um sorrisinho para Paulo Renato - que os dois notaram.
Eles se levantaram em seguida para ir embora.
- Inês o olha com certo interesse - redarguiu Marcos.
- Não misturo negócios com prazer.
Inês é moça bonita, entretanto, não quero dor de cabeça.
E ademais, ela é boa funcionária.
Chega cedo, vai embora tarde...
Marcos não quis argumentar.
Não simpatizava com Inês.
Achava que havia algo de sinistro por trás de tanta dedicação.
Ela era lenta para redigir as cartas e, se dependesse dele, ela estaria no olho da rua havia tempos.
Perguntou:
- Não pensa em se casar?
- É algo que nunca passou pela minha cabeça.
- Nunca? Nem uma única vez?
- Creio que uma vez, muitos anos atrás.
Eu era muito jovem e depois vi o quanto minha irmã sofreu por amor.
Não quero sofrer.
- Nem por uma linda mulher?
- Não. Preferi estudar, formar-me advogado, cuidar de minha irmã... mas me casar, assim, constituir família, nunca pensei.
Por que a pergunta?
Não me vai dizer que está enrabichado por alguma mocinha!
Marcos sorriu.
- No momento não tenho namorada.
Essas meninas andam muito oferecidas.
- São os novos tempos!
- Para mim, valores são valores. E ponto.
Valores nobres não envelhecem, nunca ficam velhos.
Penso e quero me casar e encher a casa de filhos.
Uns quatro ou cinco, pelo menos.
Paulo Renato soltou um assobio.
- Uau! Isso é que é vontade de ser pai.
- Venho de uma família pequena, único filho.
Fui criado pelos meus avós.
Hoje moro com dois tios, velhinhos e sem filhos.
É muito triste ficar velho e não ter filhos ou netos por perto.
A vida inteira senti falta de uma família grande.
- Não sei o que seria de minha vida sem Valentina.
Se eu fosse filho único talvez pensasse diferente.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 8:09 pm

- Pode ser.
- Tem compromisso para mais tarde?
- Não, por quê?
- Poderíamos jantar em casa.
Valentina ficou de mandar preparar uma deliciosa carne assada.
- Não quero atrapalhar.
- Não vai. Minha irmã vai adorar conhecê-lo.
- Óptima ideia.
- Vou ligar e avisar Valentina para colocar mais um prato à mesa.
- Vou ajeitar esses papéis na minha sala e podemos descer - finalizou Marcos.
Paulo Renato gostava bastante de Marcos.
Era um rapaz de vinte e cinco anos, muito simpático, competente, trabalhador.
Vindo de uma família classe média e sendo único filho, recebeu educação esmerada e, por conseguinte, fora admitido na faculdade de Direito do Largo São Francisco.
Foi brilhante aluno e Paulo Renato não tardou em convidá-lo para estagiar em seu escritório.
Estava muito contente com o desempenho e dedicação do Marcos e era bem atraente.
Olhos claros, as pestanas espessas e escuras conferiam-lhe ar másculo.
Tinha o porte atlético, adorava desportos e também acompanhava Paulo Renato em pescarias, nos fins-de-semana, ou actividades desportivas, porquanto naquela época, o Tietê não era poluído, e eram famosas as disputas de desportos náuticos no rio.
O rapaz despertava a atenção das moças, mas não era do tipo namorador.
Muito pelo contrário.
Não se sentia à vontade quando recebia aquele olhar de mulher oferecida.
Acreditava que as moças estavam ficando muito atrevidas e ele não gostava das modernas. Era conservador.
Fazia suposições de que não demoraria a encontrar um grande amor, e assim constituiria a sua tão sonhada família numerosa.
Eles saltaram do elevador, saíram do prédio e alcançaram a rua.
Caminhavam em direcção ao carro quando Paulo Renato foi apanhado por desagradável surpresa.
A prima Selma o esperava na calçada.
Vestia um tailleur bem cortado e bonito chapéu combinando com bolsa e sapatos, que era moda na época.
Ela era bonita, elegante e... Completamente repulsiva.
O que tinha de bonita tinha de desagradável, pedante.
Resumindo, era uma mulher chata, cuja voz estridente irritava o interlocutor.
- Fui até um coiffeur pour dames aqui perto, na Barão de Itapetininga, e resolvi dar uma passada aqui.
Ele a cumprimentou sem vontade, mais por mesura e educação.
- Como vai, prima?
- Bien. E você?
Paulo Renato havia se esquecido de que Selma era tão presunçosa.
Ela fazia questão de mostrar-se superior aos demais mortais.
Adorava misturar francês com português.
Achava isso muito chic, segundo ela própria.
- Esse é meu companheiro de trabalho, Dr. Marcos.
Ela estendeu a mão.
- Enchantée.
Marcos beijou-lhe a mão.
- Também estou encantado em conhecê-la, senhora.
- Você está ocupado, primo?
- Eu... - ele ficou sem jeito.
Marcos percebeu o embaraço do patrão.
Foi rápido.
- Oh! - bateu com a mão na testa.
Estou com um problema sério, esqueci-me de que tenho compromisso e estou atrasado.
Amanhã nos falamos.
Paulo Renato sorriu satisfeito.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 8:09 pm

Antes de ir embora, Marcos disparou:
- Ah, antes que me esqueça - ele aproximou-se de Selma e falou baixinho:
- faz um bom par de anos que não falamos mais coiffeur pour dames.
É um termo antigo e arrogante, do século passado.
O termo cabeleireiro fica bem mais moderno e jovial.
Selma mordeu os lábios com fúria e fuzilou-o com os olhos.
Paulo Renato riu por dentro, mas conteve-se.
Pigarreou.
- Jantaremos numa próxima oportunidade.
Até amanhã.
Marcos deu boa-noite, retirou-se e Selma agarrou-se no braço do primo.
- Sujeitinho atrevido esse rapaz.
- Óptimo funcionário.
- Eu o demitiria.
Achei três...
Quer dizer, bastante presunçoso, antipático.
- Eu gosto do Marcos.
Selma deu de ombros. Estava feliz.
Ela era mancomunada com Inês.
Sabia de todos os passos do primo por conta da dedicada secretária.
Selma lhe pagava uma boa soma em dinheiro, regiamente, todo mês, a fim de monitorar o primo; saber, por exemplo, se Paulo Renato estava saindo com alguém, se ele tinha pretendentes, quais as mulheres que ligavam no escritório e coisas do tipo.
Inês a informava de absolutamente tudo, detalhe por detalhe.
Não deixava escapar nada.
Por essa razão chegava cedo e ia embora tarde, pretextando trabalhos inexistentes.
Ela nem dactilografava direito.
Quando precisava redigir um contrato, entrava em desespero e levava horas.
Inês dactilografava como se estivesse "catando milho".
A secretária queria saber de ganhar dinheiro.
Fazia tudo por um punhado a mais na sua conta bancária.
Morava num bairro afastado, humilde.
O bonde nem chegava ali. Inês pegava condução, saltava do bonde e andava ainda cerca de trinta minutos
Morava no fim do mundo, como era costume dizer.
Estava aproveitando esse serviço extra que realizava para Selma a fim de ter condições de mudar-se para um bairro mais próximo do centro da cidade.
Inês era tão prestativa e dedicada à Selma que tinha a desagradável mania de encostar os ouvidos na porta para escutar as conversas do patrão.
Selma olhou para o primo.
Como ele era bonito!
- Lembra tanto o Rodolfo Valentino! - suspirou.
Ela precisava descobrir uma maneira de fazê-lo se interessar por ela.
Percebera, nos anos de convívio, que o primo tinha enorme dificuldade em dizer um "não".
Selma se aproveitava disso.
- Paulo Renato, estou cheia de dúvidas - fez beicinho.
- O que a aflige?
- Não acha que o que querem pagar pela fazenda é muito pouco?
- Pouco?
- Não entendo muito de valores, isso é assunto de homem.
- Tantos contos de réis e você acha pouco?
Se colocar o dinheiro no banco vai ter rendimento até a sua morte, mesmo que você viva mais de cem anos.
- Tem certeza?
- Selma, é muito dinheiro.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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