UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 8:10 pm

- Mas vamos ter de dividi-lo.
- Mesmo assim.
- Promete que vou mesmo ter muito dinheiro nas mãos?
- A metade que você vai receber, caso assine os documentos, é bastante alta.
Uma soma vultosa.
- Tenho medo de me desfazer das terras, sair de vez lá de Leme e vir para cá.
Esta cidade é muito agitada e perigosa.
- Você está sempre em Paris.
Qual a diferença?
Ela fez força para não soltar um gritinho de indignação.
Selma odiava o Brasil.
Onde já se viu, comparar Paris com a província que era São Paulo?
Ela engoliu a resposta na ponta da língua.
Não queria discutir com o primo.
Fingiu um sorriso amarelo.
O rapaz sabia que Selma estava atrapalhando a venda da fazenda para ficar perto dele.
Sentia isso. Estava prestes a doar a sua metade para ela, a fim de se livrar da prima.
- Temos de voltar ao escritório.
- Por quê?
- Preciso avisar Valentina para cancelar o jantar.
- Eu gostaria de jantar com vocês, mas sua irmã não vai gostar de me ver por lá.
Paulo Renato nada disse.
Foram até o escritório, ele ligou para casa e pediu para Benta avisar a irmã para suspender o jantar e que chegaria mais tarde.
Ganharam a rua e foram caminhando, braços dados.
Selma sugeriu que fossem comer num restaurante bem frequentado ali perto.
Paulo Renato preferia estar na companhia de Marcos, apresentá-lo à irmã, conversar, falar dos planos do escritório, mas achava deselegante dizer "não" à prima.
Não ficava bem..

6 No Brasil, o Horário de Verão foi adoptado pela primeira vez em 1º de outubro de 1931, com duração de cinco meses, abrangendo todo o território nacional.
Até 1967 a mudança no horário ocorreu nove vezes.
Desde 1985, no entanto, a medida vem sendo adoptada sem interrupções, com diferença apenas nos Estados atingidos e no período de duração
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 8:10 pm

CAPÍTULO 10

Marcos meteu as mãos nos bolsos da calça e foi caminhando distraidamente pela rua, assobiando uma canção popular muito em voga na época.
Olhava as vitrinas das lojas, as pessoas andando apressadas de um lado para o outro.
De repente ficou extasiado com uma figura feminina.
Marcos sorriu para si e ficou observando a certa distância a garota, cujos olhos estavam hipnotizados por um vestido verde-noite.
Suas mãos pareciam querer atravessar a vitrina.
Marcos a fitou por longo instante.
Depois de alguns minutos, aproximou-se.
- Gosta de vestidos?
Ela nem virou o rosto para trás.
Respondeu, sem tirar seus olhos do manequim:
- Adoro. Esse, em particular, é um amor.
Muito bem costurado. O caimento é perfeito!
- Quanto você acha que custa uma roupa dessas?
- Sei lá, creio que cerca de quinhentos mil réis7.
Marcos assobiou em alto tom.
- Tudo isso?!
- Por um vestido desses? Claro que não!
Ela por fim virou-se e sorriu.
- Se vista mal e vão reparar no vestido.
Se vista bem e vão reparar na mulher.
- Nunca havia pensado nisso. Boa resposta.
- Resposta de Coco Chanel, essa sim, uma mulher de extremo bom gosto!
- Você tem um nome?
- Pois claro. Carmela.
Prazer - ela estendeu a mão, num gesto jovial e simpático.
Ele a cumprimentou.
- Prazer, meu nome é Marcos.
- Oi, Marcos.
Também gosta de vitrinas?
- Sim. O centro da cidade tem muitas lojas bonitas e luxuosas.
- Concordo. Onde moro não temos lojas assim tão bonitas.
- Desculpe a intromissão, mas quantos anos tem Carmela?
- Dezasseis.
- Não é tarde para uma moça de a sua idade estar andando sozinha?
- Eu sei me virar.
E, de mais a mais, ainda é dia.
Vai demorar a escurecer.
Estamos no horário de verão.
- Tem razão. Mesmo assim...
- Estou ajudando uma amiga a entregar roupas para as clientes.
- Lavadeira?
- Ela é. E a irmã também.
São tão novinhas e fazem esse trabalho pesado.
- Você também trabalha?
- Não. Estou terminando a escola clássica.
- E depois vai continuar a estudar?
- Penso que sim, talvez.
Gosto de estudar, de ter conhecimento, de trabalhar.
Sinto-me uma pessoa activa.
Não gosto de ficar parada.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 8:10 pm

- E o que mais?
Carmela respondeu com um sorriso cativante e apaixonante.
- Eu quero me casar.
- Casar?!
- É. Embora as moças de minha idade queiram somente namorar e aproveitar a vida, e outras tantas queiram só fazer curso superior, eu quero me casar.
- E por que pensa também em estudar, se o seu desejo é se casar?
- Porque adoro o conhecimento, mas tenha certeza de que apesar do curso superior, quero um casamento duradouro e feliz.
- Não diga! - Marcos estava estupefacto.
- Digo sim.
Sabe, eu acredito na vida, nesta força pulsante que rege o planeta.
Não percebe essa força inteligente que nos acompanha e nos sustenta?
- Sim...
Carmela pegou em sua mão e quase foi arrastando o rapaz pela calçada.
- Venha comigo.
Marcos assentiu com a cabeça e deixou-se conduzir.
Ela o levou até o viaduto do Chá, na direcção do vale do Anhangabaú e debruçou-se sobre a murada. Ele a imitou.
- Olhe esse parque, essa vista toda, o sol se pondo.
Isso só pode ser fruto de uma inteligência superior.
Olhe para tanta beleza. Veja lá embaixo as hortênsias, os jacarandazinhos, os ipês...
Feche os olhos e sinta o cheiro do jasmim.
O rapaz fechou os olhos e respirou fundo.
Um odor agradável de jasmim penetrou em suas narinas. Ele sorriu.
- Você tem razão.
A vida é bela.
- É linda!
Por tudo isso agradeço todos os dias por esta vida. Sou feliz.
- Difícil encontrar alguma pequena que tenha assunto consistente, interessante.
Pelo jeito, você é boa de conversa.
- Sou sim.
Adoro conversar, estudar, conhecer pessoas, trocar informações.
Minha mãe recebeu educação espírita quando pequena.
Ela me ensinou muitas coisas acerca dos valores do espírito e da continuidade da vida.
- Interessante ouvir isso.
Meu avô era espírita.
- Mesmo?
- Sim. Tenho uns livros que ele me deu antes de morrer.
- Antes de desencarnar, você quis dizer?
- É. - Marcos riu.
Você tem razão.
Carmela consultou o relógio.
- Está tarde. Preciso ir.
- Posso acompanhá-la até sua casa?
- De maneira alguma.
- Por que não?
- Eu pego o bonde logo ali - apontou.
Não precisa.
- Gostei de conhecê-la.
Quando poderemos nos ver de novo?
Carmela deu de ombros.
- Amanhã eu devo entregar mais roupas por essa área da cidade.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 8:11 pm

- Queria conversar mais com você.
Aceita ir a uma confeitaria?
- Podemos tomar um chá no salão do Mappin8, o que acha?
- Combinado. Até amanhã nesta mesma hora.
- Tchau.
Carmela fez um gesto gracioso com as mãos e apressou o passo.
Subiu no bonde, deu umas moedas ao cobrador e sentou-se num dos bancos.
Voltou-se para trás e fez novo aceno para Marcos.
Ele repetiu o gesto até o bonde contornar o Teatro Municipal e desaparecer na curva.
- Meu Deus, essa menina é um sonho! - exclamou para si.

7 A fim de o leitor entender melhor essas cifras, seria algo em torno de R$ 3.500,00.
Mais detalhes, consultar: SILVA, António Pereira da.
Como actualizar valores monetários no tempo.
Teresina: Jus Navigandi, ano 8, n2 446, 26 set. 2004. Acesso em: 8 de março de 2009
(N.A.)
8 Mappin: tradicional loja de departamentos foi ponto de encontro da elite paulistana na primeira metade do século passado.
Fundada em fins do século dezoito na cidade de Sheffield, na Inglaterra, foi trazida para o Brasil pelos irmãos Walter e Hebert Mappin, em 1913.
Actuou em São Paulo durante 86 anos, e foi uma das pioneiras do comércio varejista.
Encerrou suas actividades em 1999
(N.R.)
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 8:11 pm

CAPÍTULO 11

Lilian consultou o relógio pendurado na parede da sala.
Dinorá estava demorando demais da conta.
Será que havia acontecido algo à sua irmã?
Será que o estado de saúde de Clara havia piorado?
- Será, meu Deus?
Torço para que minha irmã esteja melhor.
Ela sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo.
Aliás, desde que Dinorá saíra horas atrás, tivera nítida sensação esquisita na região do peito.
Não sabia precisar, mas passara a tarde sentindo enjoos e calafrios.
Ela procurou rezar, mas não adiantou.
As orações de Lilian eram mecânicas e sem entusiasmo.
A sensação esquisita a acompanhou por toda a tarde.
Passava das oito quando Dinorá virou a maçaneta e abriu a porta.
- Boa noite, querida.
- Por que demorou tanto?
- Tive um dia agitado, oras.
- Cadé minha irmã?
Dinorá virou para trancar a porta. Disfarçou na voz.
- Está bem. Os médicos dizem que ela vai receber alta só amanhã.
- Amanhã?
- É.
- Posso ir com você buscá-la?
- Pode sim.
Lilian desconfiou.
- Não se importa de eu deixar de corar roupa para ir ao hospital?
- Já disse que não me importo.
Lilian franziu o cenho. Dinorá estava sendo muito boazinha.
- Por que está usando a roupa de d. Valentina?
- Eu...
- Bem que eu desconfiei quando você saiu.
Eu tinha a certeza de que conhecia esse vestido.
Você não tem gosto suficiente para ter um.
Dinorá engoliu em seco.
Não queria discutir.
Mais algumas horas e ela iria se livrar também desse estorvo.
Precisava ser paciente.
Sentou-se perto da menina.
- Eu precisei pedir dinheiro no banco - mentiu.
Não tenho roupas bonitas.
Eu queria impressionar o gerente, só isso.
Eu mesma vou lavar esse vestido e passar.
Não é justo que você faça esse serviço.
A garota pensou estar sonhando.
Beliscou o próprio braço.
Dinorá estava tão diferente...
- O que os médicos disseram?
- Sua irmã estava debilitada.
Tomou soro e agora está bem.
Acho que tem trabalhado muito.
Não é justo que ela faça esse tipo de serviço.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 8:11 pm

- Eu também acho.
- A partir de amanhã vocês não vão mais pegar no pesado.
- Está falando sério?
- E por que não falaria?
Ao ver sua irmãzinha no leito do hospital, senti que estava na hora de parar de abusar de ambas.
- Eu quero o melhor para vocês duas - disse, numa voz em que tentava imprimir sentimento fraternal.
Lilian arregalou os olhos.
Aquela à sua frente não era Dinorá.
Não podia ser.
Será que Deus havia escutado as suas preces?
Ela sorriu e tornou:
- Estou com fome.
- Vou esquentar o resto de ontem.
- Carmela foi entregar umas roupas lá na cidade.
- Sua amiga nos tem ajudado bastante. Boa moça.
- Ela me convidou para dormir lá.
- Como assim?
- Você se importa se eu for dormir lá na casa dela?
- Esta noite?
- Hum, hum.
Claro que Dinorá se importava, e como!
Lilian precisava ficar em casa.
Fazia parte do plano.
Se ela fosse dormir na casa de Carmela, teria de adiar em mais um dia a sua partida.
Dinorá desejava entorpecer Lilian e Edmundo se encarregaria de pegá-la na madrugada e levá-la para a cidade de Santos.
Deixaria a menina sob os cuidados de uns conhecidos lá pelo cais.
Levaria dias até que Lilian retornasse a São Paulo.
Dessa forma, Dinorá poderia arrumar as suas coisas e sumir com Bartolomeu, sem deixar vestígios.
O aluguer da casa estava atrasado e ela não se importava com isso, pois o contrato estava no nome de Aureliano e ela não corria o risco de ser cobrada.
Mas o cobrador de aluguer poderia aparecer e ela queria evitar esse encontro.
Era vital que ela sumisse antes dos sete dias.
Adolf era cumpridor de sua palavra.
Se ela não sumisse, ele apareceria e cumpriria com o que escrevera no bilhete.
A imagem de seu próprio corpo boiando na praia lhe causou calafrios.
Portanto, era imprescindível que Lilian estivesse dentro de casa naquela noite.
Dinorá teve de pensar rápido.
- Eu vou comprar umas fazendas amanhã.
Quero reformar o quarto de vocês.
Trocar as cortinas, fazer uma colcha nova para cada cama.
O que me diz?
- Boa ideia. As nossas colchas estão tão puídas!
- Agora que somos três mulheres, precisamos dar um toque bem feminino na casa.
- Tem razão. Esta casa está muito feia.
Mal cuidada, precisando de reparos.
- Vou conversar com o responsável.
Vou pedir abatimento no aluguer e faremos as reformas.
Decidi que teremos chuveiro eléctrico novamente.
Ah, amanhã vou contratar uma lavadeira para passar as roupas.
Não é justo que você faça tudo sozinha e não quero mais que importune a pobre da Carmela.
Ela tem feito muito por todas nós.
Dinorá levantou-se e passou delicadamente a mão pelo rosto de Lilian.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 8:11 pm

- Vou aquecer a água para um refrescante banho e depois vamos esquentar o jantar.
Lilian deu de ombros.
O comportamento de Dinorá era exemplar.
Parecia outra mulher.
Doce, compreensiva, voz pausada.
O que será que a teria mudado?
- Será que ao ver minha irmãzinha no hospital ela sensibilizou-se? - perguntou para si.
Ela foi até o quarto apanhar sua tina e preparar-se para tomar banho.
Procurou não pensar em nada, embora aquela sensação opressiva no peito tivesse aumentado sobremaneira.
- Amanhã eu vou rever minha irmã.
Tudo vai mudar. Tudo vai melhorar.
Carmela chegou em casa.
Beijou o pai e a mãe.
- Chegou tarde.
Até agora na rua, filha?
- Desculpe pai, mas fui fazer uma entrega no ateliê de madame Souza, na Rua Marconi.
O trânsito estava pesado.
O bonde ficou parado bastante tempo na Avenida São João.
E tem mais. Não moramos no centro da cidade.
Moramos na Lapa.
- Tem razão.
Eu fiquei meia hora parado na Avenida Água Branca.
Um movimento muito intenso de veículos.
- Está vendo, mãe? - ela dirigiu-se e a abraçou por trás.
Foi o trânsito, mais nada.
Maria a olhou de soslaio.
- Não gosto quando você vai sozinha para a cidade.
A Revolução mal acabou e tem muito mendigo nas ruas.
Tenho medo de algum tarado querer se aproveitar.
- Sei me defender.
- Mas...
- Nada de mas, mãe.
Eu sou protegida por Deus.
Acredito piamente nessa verdade.
Nada de mal me acontece, porque estou sempre ligada às fontes superiores de inteligência.
- Essa menina está estudando os livros de seu pai, Maria?
- Está, Cornélio.
Sim, ela pegou no sótão toda a colecção de livros espíritas, considerados proibidos.
- Livros que falam sobre o crescimento do ser humano não deveriam ser proibidos, mas distribuídos, mãe.
- Minha menina está entendendo tudo? - perguntou Cornélio.
- Estou pai.
Tenho compreendido muita coisa.
E creio que tenho tanto interesse em aprender que os amigos espirituais vêm me buscar quando me deito para me levar a palestras e cursos no mundo astral.
Eu acordo tão bem, tão disposta e tão mais bem informada...
- Eu estava sem tempo para estudar, quer dizer, estava deixando minha mente afastar-me dos estudos - afirmou ele, ar desolado.
- Sinto falta de nossas leituras, papai.
- Quando nos sentávamos uma vez por semana para discutir e reflectir sobre as questões da vida, não éramos influenciados pelas energias negativas que nos rondam - tornou Maria, ar sério.
- Você tem razão, meu bem - concordou Cornélio.
Eu tenho me deixado levar pelas ideias do mundo, pela negatividade que ainda paira sobre esta cidade.
- Depois da Revolução, muitas pessoas ficaram tristes e desiludidas.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 8:12 pm

- Eu sei mãe - respondeu Carmela.
Contudo, muitas pessoas arregaçaram as mangas e estão trabalhando e desejando de verdade uma vida melhor.
Vejamos e sintamos somente as belezas que a vida nos oferta.
Vamos olhar somente para o lado bom das coisas.
Cornélio interveio:
- O paulista percebeu que de nada adianta pegar em armas.
O trabalho, a compreensão, o amor, tudo é ferramenta para melhorar sem sofrer.
Temos de pensar na unicidade deste país, unidos por laços de amor e jamais de ódio.
Assim é que iremos caminhar em direcção à nossa verdadeira identidade, num país mais justo e próspero.
- Não consigo enxergar a maldade porque só acredito no bem.
E, por acreditar tão-somente no bem, as portas do meu coração estão terminantemente fechadas para o mal - completou Carmela.
- Estava aqui pensando com meus botões...
Podemos voltar a estudar e reflectir, nós três, como fazíamos antes da Revolução.
- Creio ser perfeito, Cornélio.
- Eu adoraria - disse Maria, num jeito animado.
- Eu também, papai.
- Que tal começarmos hoje? - o sugeriu.
- Mais tarde eu gostaria de dar um pulinho na casa de Lilian para ver se ela virá dormir aqui.
Também quero informações sobre Clara, se ela vai receber alta do hospital...
- Creio que você vai fazer um trabalho melhor se enviar vibrações de amor às meninas e à madrasta delas.
Não podemos interferir em suas vidas.
Não somos salvadores de ninguém.
O nosso papel é querer bem a todas as três.
- Filha - tornou Maria, com delicadeza na voz - eu me exasperei com Dinorá ontem e não me senti nada bem depois.
Ela tem razão, eu não tenho que me meter na educação que ela dá às meninas ou na maneira como as educa.
Percebo que quando não concordamos com algo, isso não tem valor para a vida.
Somente vai nos trazer aborrecimentos e preocupações desnecessárias.
- É que olhando por esse ângulo, parece que não nos importamos com a vida que Lilian e Clara levam.
- Cada um é um, minha filha.
O nosso papel é estender a mão, caso precisem, bem como enviar-lhes, como disse, energias de amor.
- Não podemos nos meter no que faz parte do programa evolutivo delas - afirmou Cornélio.
Por essa razão, sinto que você não deve ir até lá.
Aquela casa está com energias perturbadoras ao redor.
Por mais que você tente se proteger, por que vai se meter onde não é chamada?
Ore e vibre por suas amigas.
Isso sim é uma maneira saudável e positiva de ajudá-las.
- Certamente que sim, paizinho.
Sinto que devemos ficar em casa e estudar.
O que acha - perguntou encarando a mãe - de fazermos nossas leituras edificantes depois do jantar?
Vamos escolher um dia da semana para nossos estudos?
- Perfeito.
- Eu também concordo - respondeu Maria.
Carmela abraçou e beijou os pais.
- Vocês são os melhores pais do mundo!
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 8:12 pm

CAPÍTULO 12

Depois de servir o jantar, Dinorá colocou duas revistas femininas no colo de Lilian.
- Nesse exemplar de A Cigarra você vai encontrar duas fotos e óptima matéria sobre decoração de quartos de meninas.
- Puxa quanta coisa bonita...
Gostaria de encher as paredes de quadros.
- Gosta de pintura, não é mesmo?
Seu pai me disse que desde pequena você tem inclinação para as artes.
- Gosto mesmo.
- Vou arrumar uma maneira de vocês duas voltarem a estudar.
Você lê tão bem, acho mesmo um desperdício ficarem sem escola.
- Estamos no início do ano.
Dá tempo de matricular nós duas.
- Vou providenciar isso o mais rápido possível.
- Obrigada, Dinorá.
Lilian falou e voltou sua atenção às revistas, esquecendo-se de que havia combinado de dormir na casa de Carmela.
Meia hora depois, começou a bocejar.
Não percebera que Dinorá misturara sonífero à comida.
- Estou com muito sono.
Vou me deitar.
Dinorá assentiu com a cabeça.
- Boa noite, querida, durma bem.
Lilian levantou-se e foi para o banheiro.
Escovou os dentes, fez bochecho e entrou no quarto.
Deitou-se, apagou o abajur e, em seguida, adormeceu profundamente.
Dinorá sentiu o peito oprimido.
- Eu não gosto delas, mas também não desgosto.
Não gostaria que nada de ruim lhes acontecesse, mas o que fazer?
Eu não posso levá-las na porta de uma instituição para menores...
Eu sou responsável por ambas.
Preciso seguir minha vida, quero ter nova chance ao lado de Bartolomeu.
Infelizmente, as duas são um estorvo.
E essa atitude minha vai afastá-las de caírem nas garras de Adolf.
Eu prefiro que elas sejam separadas a sofrerem nas mãos daquele homem sem escrúpulos.
Um espírito em forma de mulher, jovem, aparentando cerca de vinte e cinco anos, cabelos compridos e dourados, aproximou-se e sussurrou em seu ouvido:
- Dinorá, você pode fazer diferente.
Tem livre-arbítrio.
Escolha pelo coração.
Deixe sua mente negativa e perniciosa longe disso.
Não escolha por meio dela.
Não coloque deliberadamente pedras em seu caminho.
Assuma as meninas e leve-as com você.
Antes de reencarnar você decidiu por livre e espontânea vontade reencontrá-las e ampará-las.
Não desperdice mais uma vida...
Ela acusou o recebimento de tais pensamentos.
Seus olhos marejaram.
Disse para si:
Eu não lhes desejo mal, todavia, preciso cuidar de mim.
Elas não são minhas filhas, não fui eu quem as tive.
Se Aureliano estivesse vivo...
Dinorá falava na tentativa de aquietar sua mente perturbada.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 23, 2016 8:12 pm

Tão logo o espírito amigo se afastara, entidades que se alimentavam de seus pensamentos tóxicos começaram a bombardeá-la com as mais disparatadas ideias:
Elas vão arruinar a sua vicia!
Você precisa deixá-las e seguir sua vida.
Pensa que nessa idade vai ser fácil encontrar outro Bartolomeu?
Adolf vai matá-la!
Não desperdice a chance de ir para o Rio.
Lá você vai encontrar a vida de luxo que sempre sonhou.
Se ficar com essas meninas, vai se transformar numa mulher pobre, e pior, sem brilho e sem atractivos.
- Elas não são suas filhas! - gritou uma entidade completamente em fúria.
Na verdade, esse espírito, em particular, acompanhava Dinorá havia um bom tempo.
Alimentava-se de seus pensamentos negativos e, mais ainda, da energia que dela emanava quando se deixava seduzir por qualquer homem.
Dinorá tentou não sucumbir, mas estava difícil.
Por um lado, seu coração se enternecia pelas meninas.
E se elas fossem maltratadas?
E se não aguentassem viver sozinhas?
Por outro, sua mente registava toda a perturbação e influência desses espíritos zombeteiros.
Ela afastou os pensamentos com as mãos, mas os espíritos continuaram rondando-a e falando, falando, falando...
Nuri, o espírito vindo das esferas superiores, nada mais pôde fazer.
Deu a volta, atravessou a parede do quarto e encontrou Lilian dormindo placidamente.
Aproximou-se.
- Minha pequena, seu espírito vai passar por situações nada agradáveis.
Mas por pouco tempo.
Confie e pense em mim, nas borboletas de Carmela, em Deus...
Estaremos sempre ao seu lado.
Fique com o meu amor.
Nuri a beijou e partiu.
O relógio da sala apontava quatro da manhã.
Dinorá parecia um zumbi.
Andava de um lado para o outro do cómodo, em penumbra, e de vez em quando ia até a cozinha, abria a torneira e passava água fria no rosto para espantar o sono.
Um barulhinho de pedrinhas jogadas no vidro da janela a fez correr até a porta.
- Edmundo?
- Sim - respondeu ele, baixinho.
Dinorá virou a chave e puxou o trinco.
- Tire os sapatos.
- Por que diabos devo tirar os sapatos?
- Fale baixo!
- Oras, não deu para a menina o sonífero que lhe arrumei?
- Claro que sim, mas não quero correr nenhum risco.
Nada de barulho - disse ela, num sussurro.
Não podemos falhar.
Edmundo tirou os sapatos e os deixou no degrauzinho da entrada.
Fez um muxoxo e entrou.
Carregava uma sacola na mão.
- O que tem aí?
- Éter e pano.
- Onde está o carro?
- Logo ali na frente.
Aluguei e vou pagar com o dinheiro da venda dos móveis desta casa.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 24, 2016 8:43 pm

- Já disse que os móveis são seus.
Pode vendê-los e ficar com o dinheiro.
- Sim e...
Dinorá estava apreensiva.
Cortou-o:
- Não podemos perder tempo.
Logo o leiteiro vai aparecer.
Outros infelizes vão sair para trabalhar.
- Não me apresse.
É coisa rápida. Conte comigo.
Edmundo entrou e perguntou pelo quarto.
Ela apontou para a escada e ele foi tacteando os móveis.
Subiu e chegou ao quarto de Lilian.
A porta estava entreaberta.
Ele a empurrou levemente, fez um pequeno rangido.
A menina dormia profundamente na cama, estava com o rosto para cima.
- Excelente! - pensou Edmundo.
Ele aproximou-se e tirou o pano da sacola, embebeu no líquido e botou sobre as narinas e bocas de Lilian.
A menina nem mesmo se debateu.
Lilian não saberia distinguir entre o sono profundo causado pelo sonífero e a absorção do éter.
Inconsciente, em poucos minutos estava deitada no banco de trás do carro.
- Depressa.
- O meu pagamento...
- Quando terminarmos tudo.
- Não vai me deixar para trás.
- De maneira alguma, mas precisamos seguir o plano.
- Sim, mas...
- É tudo o que tem na casa também é seu.
- Mesmo?
- Repito: pode vender todos os móveis.
- Fala como se tivesse muita coisa de valor.
- O suficiente para você ganhar um bom dinheiro, pagar pelo aluguer deste carro e passar o mês.
Não está bom assim?
- Você está certa.
Amanhã encosto a caminhonete aqui.
Vou levar tudo.
- Pegue o que quiser.
Tudo o que preciso está nesta mala.
Agora vamos.
Pegue a estrada do Caminho do Mar.
Bartolomeu me espera em Santos.
- Vai voltar à vida antiga? - perguntou ele, num riso malicioso.
- Não. Conseguimos duas passagens com um amigo dele que trabalha num vapor que segue para a Europa.
Antes vai atracar no Rio.
Vamos descer lá.
- Deixo você e depois largo a menina.
- Não é para largar em qualquer lugar.
- Não se preocupe.
Ela vai ficar num armazém, lá no cais.
Você não disse alguns dias?
- Vamos deixar nos fundos do Parque Balneário Hotel.
- Está louca?
É um hotel muito chique.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 24, 2016 8:43 pm

- Sim, e daí, Edmundo?
- Como vou jogar essa menina lá?
Não, prefiro o armazém.
O Zezão é meu velho conhecido e vai tomar conta dela direitinho.
- Não gosto desse tom.
Não quero que nada de mal aconteça a Lilian.
- Ei, escute aqui - Edmundo freou o carro e a encarou com rancor - ou você me deixa fazer as coisas do meu jeito, ou então eu conto para o seu namoradinho sobre a existência dessa pequena - apontou para o banco de trás.
Dinorá empalideceu.
- Não faria isso!
E o nosso trato?
- Cale a boca.
Pare de se preocupar.
Não gosto de mulher chata.
- Desculpe.
- Vou fazer o que me pede e fica aí me amolando?
- Calma. Você tem razão.
Não sei por que fui tomada por tanto sentimentalismo idiota.
- Melhor assim.
Dinorá olhou para o banco de trás e uma raiva surda brotou de seu peito.
O ódio era tanto que ao olhar para Lilian ela via outro rosto, de outra mulher, de outros tempos...
Ela espantou a imagem com os dedos das mãos.
Respirou fundo, virou o rosto para frente, ergueu o queixo e ordenou:
- Agora toca essa geringonça.
O tempo urge.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 24, 2016 8:43 pm

CAPÍTULO 13

Paulo Renato estava lendo as notícias do jornal enquanto terminava seu desjejum.
Valentina entrou na copa.
- Bom dia.
Desculpe-me o atraso, mas fiquei folheando revistas de moda e depois emendei com a leitura agradável de um livro.
Fui até tarde da noite.
Ele sorriu.
- Mais um livro de mistério?
- Os Crespi, ao retornarem de viagem à Inglaterra, trouxeram-me dois livros de Agatha Christie.
Uma pena seus livros não serem traduzidos para o nosso idioma, muito embora soube por intermédio de uma amiga que em breve serão traduzidos para o português.
- São tão bons assim?
- Gosto de romance policial.
Ela escreve muito bem e, por mais que eu tente, não consigo descobrir o assassino.
Paulo Renato abriu largo sorriso.
- Desse jeito vai se tornar um detective de primeira.
- Longe disso - respondeu ela enquanto servia-se de café e uma generosa fatia de bolo.
Creio que li todos os clássicos e também reli toda a minha colecção de Machado de Assis.
Foi numa festa lá no Clube Harmonia que soube dessa escritora.
Ela faz muito sucesso na Europa e nos Estados Unidos.
- Você deveria fazer uma viagem.
- Nós dois poderíamos...
Um brilho emotivo formou-se nos olhos de Valentina.
- Sente-se preparada para voltar?
- Para a Europa? Não sinto vontade.
As boas ideias têm-se formado nos Estados Unidos.
- Deseja conhecer a América?
Prefiro à velha e glamorosa Europa.
- Prefiro o novo.
Mais à frente quero viajar até Los Angeles, na Califórnia.
Tenho trocado cartas com Ester.
Ela mudou-se há pouco para lá.
Diz que o lugar é magnífico, além de ficar próximo aos estúdios de Hollywood.
- Sou mais conservador. Prefiro a Europa.
Valentina fez uma mesura com os ombros.
Tomou um gole de café e, ao colocar delicadamente a xícara sobre o pires, tornou:
- Você fica com a Europa e eu fico com a América.
Estamos combinados?
Paulo Renato sorriu.
- Gostaria de ser assim como você.
- Assim como?
- Determinada, decidida, forte.
Você não se deixa levar na conversa.
É franca e tem opinião.
Não liga para o que as pessoas dizem a seu respeito.
E ainda diz "não" com desenvoltura!
Valentina riu-se.
- Adoro dizer "não".
O contrário de você.
- Fui criado assim. Não fica bem.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 24, 2016 8:44 pm

- Sabe o que não fica bem?
Esse seu jeito demasiadamente polido com os outros.
Por que tem de tratar os outros melhor do que trata a si mesmo?
- Por uma questão de educação.
Os outros em primeiro lugar.
Valentina meneou a cabeça para os lados.
- De forma alguma.
Discutimos esse assunto semana passada no nosso sarau filosófico.
Fomos educados, condicionados a fazer primeiro para os outros e depois para nós mesmos.
É um erro. Precisamos nos colocar em primeiro lugar.
- É egoísmo.
- Engana-se, meu irmão.
Colocar-se em primeiro lugar é posicionar-se a favor de si próprio, é tomar posse de si, ficar do seu lado.
Egoísmo é querer que os outros façam as coisas para nós, do nosso jeito.
Percebe a diferença?
- Se eu faço para os outros, é natural que exija que os outros façam as coisas para mim.
- Mais um engano.
Temos de acabar com essa mania de agradar o mundo para sermos recompensados.
Dê um pouco mais de atenção ao que sente e não precisará mais que o mundo se curve para fazer e preencher suas necessidades.
Paulo Renato coçou o queixo.
Valentina estava cada vez mais radiante mais dona de si, mais exuberante e bonita, ao passo que ele sentia enorme dificuldade em reformular seu padrão de crenças e posturas.
- Esses encontros têm feito muito bem a você.
- A porta está aberta.
Quando quiser ir, é só me avisar.
Ele mudou rapidamente de assunto.
- Percebo que o ateliê de costura também lhe tem feito muito bem.
Valentina esboçou sorriso encantador.
- Essas meninas são as filhas que não tive.
- Não teve porque não quis.
Ainda há tempo.
- Eu?!
- Sim.
- Adoraria ter uma filha.
Mas... - ela fez uma negativa com a cabeça.
Já passou. Estou com trinta e cinco anos.
Não penso no matrimónio ou em filhos.
Entretanto, você pode me dar sobrinhos!
- Do jeito que ando envolvido com trabalho...
Meu coração está fechado.
Eu me apaixonei por uma moça anos atrás, você bem sabe.
Depois que ela se foi com outro, não quis mais investir nesse barco furado.
- Nem por Selma? - provocou ela, num tom de brincadeira.
Paulo Renato dobrou o jornal e o pousou ao lado da mesa.
Bebericou seu café.
- Recorda-se que na outra semana não trouxe o Marcos para jantar?
Deixou recado com Benta e...
Ele a interrompeu.
- Sim, iria trazer o Marcos para jantar, contudo, a nossa querida prima apareceu assim - ele fez um estalo com os dedos.
Valentina meneou a cabeça para cima e para baixo.
- Agora entendo por que de uma hora para outra você abriu mão de sua carne assada.
Ele a olhou de soslaio.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 24, 2016 8:44 pm

- Não consegui falar "não" para ela.
- Pior para você.
Diga-me, a Selma foi até o escritório?
Eu não sabia que ela estava na cidade.
- Nem eu. Pensei que estivesse fazendo alguma viagem.
Ela odeia tanto este país.
Diz que somos todos índios vestidos de terno e gravata.
Valentina riu-se.
- Selma tem maneira peculiar de ver a vida.
Ela é bonita, atraente, mesmo com aquela voz estridente, mas poderia estar bem casada, feliz.
Lembra-se de quando o sobrinho do conde Penteado a pediu em casamento?
- Pois é. E ela não aceitou.
- Sabe que ela tem verdadeira paixão por você, não?
- Ora, o que é isso?
Ela não nutre sentimentos de amor por mim.
- De amor, não. De paixão, sim.
- Impossível.
- Vocês, homens, são todos iguais.
- Por que diz isso?
- Porque não percebe o quanto são facilmente manipulados.
Selma sempre tentou aproximar-se de você com segundas intenções.
- Embora às vezes ela passe dos limites, acaba se tornando boa companhia.
- Boa companhia?
A Selma?
- Naquela noite jantamos e ela foi educada, esforçou-se em ser simpática, procurou não usar muito seus termos franceses.
- Ela ainda insiste nesse tom pedante de falar coisas como jeunesse dorée?
Ambos riram.
Ele continuou:
- Eu a apresentei ao Marcos e ele lhe disse que não era de bom tom usar esses termos.
Sei que não é bonito, mas ri por dentro.
- Na cara dela, sem rodeios?
- Sem rodeios.
- Gosto desse menino.
Pena ele não ter vindo para jantar.
Vou mandar fazer um belo almoço num domingo qualquer.
- Marcos vai adorar.
- Então nossa priminha não mudou nada.
Os ares do campo nada de bem lhe fizeram.
- Não. Continua a mesma Selma, contudo eu a notei mais simpática.
- Você está cego, meu irmão.
- Sei me defender.
Valentina deu de ombros.
De nada adiantava discutir e querer abrir os olhos do irmão.
Paulo Renato não pensava como ela, não enxergava a vida como ela.
De que adiantava forçar o irmão a ver o mundo com outros olhos?
Isso era lição de cada um e ela, pelo carinho que nutria por ele, rogava para que ele não precisasse passar por maus bocados para perceber a verdade e romper com os véus da ilusão que teimavam em atrapalhar a sua visão.
Ela aprendera um exercício fantástico no último encontro de estudos.
Consistia em escutar o outro e não tomar partido, não dar opinião, não tornar o assunto pessoal e particular.
Estava adquirindo habilidade prática para ser impessoal, aprendendo a não misturar suas emoções, ideias e sentimentos com os dos outros.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 24, 2016 8:44 pm

Enquanto escutava o problema do outro, calmamente repetia para si, inúmeras vezes:
Não tenho nada com isso.
Fico somente com a minha energia.
Naquele momento, Paulo Renato tornou-se somente uma boca falante.
Nada do que ele dizia era registado.
Valentina não queria se meter na vida do irmão.
Eram adultos e cada um era dono de si.
Ela perguntou polidamente:
- Falaram sobre a venda da fazenda?
- Por certo.
Ela veio me procurar por achar que estamos pedindo um valor muito baixo.
- Baixo? Ela é louca?
- Foi o que achei.
Sinto que Selma não quer, em hipótese alguma, vender a sua parte da fazenda.
- É uma maneira de estar próxima de você.
- Será?
- Eu repito. E vou repetir sempre.
Eu não gosto dessa prima.
Minha intuição feminina diz que ela aparenta ser algo que não é.
- Ela nos trata bem.
- Mas por dentro tem pensamentos mesquinhos e negativos.
Selma é uma pessoa que se deixou levar pelas ilusões do mundo.
Ela vê maldade em tudo.
- Disse-me que está hospedada na casa de uma conhecida, já que você a impede de ficar aqui em casa.
- Aqui ela não fica de jeito nenhum.
- Coitada Valentina.
Somos a única família dela.
Não acho justo Selma ficar hospedada na casa de estranhos.
O que nossos amigos vão dizer a respeito?
Essa conhecida exerce influência sobre a elite paulistana.
Imagine falar mal de nós?
- Pois que falem!
Não sei e não me interessa a opinião dos outros.
Sinto meu instinto.
Na nossa casa Selma não põe os pés.
Está vendo porque quero minha própria casa?
- Isso não é motivo para nos separarmos!
- Para mim é.
Um lar é local sagrado, onde ficamos em paz e reciclamos nossas energias.
Eu preciso viver num ambiente harmonioso.
- Assim você me ofende.
Parece que odeia morar comigo.
- Não odeio, mas não quero mais.
Mudei meu jeito, meus pensamentos.
Quero nova vida.
- Vai deixar essa casa toda para mim?
E os móveis importados, os quadros, os objectos que papai e mamãe trouxeram das viagens ao exterior?
- Não me importo.
Vou levar apenas as obras de arte.
Sabe o quanto aprecio a arte.
- Eu não quero ficar aqui sozinho.
Mas também não quero me desfazer desta casa.
Eu nasci aqui e passei toda a minha vida neste casarão.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 24, 2016 8:44 pm

- Você é resistente a mudanças.
- Não sou.
- É metódico e não aprecia o novo.
- Uma vida planejada torna tudo mais fácil.
- Uma vida planejada pode ser útil para nos manter na ordem e disciplina, jamais para nos prender e obrigar a caminhar por uma estrada repta.
Não sabemos o que vai nos acontecer daqui à uma hora, como pode ter a vida tão esquematizada assim?
- É o meu jeito.
- Assim a vida perde o gosto de aventura.
Tudo fica monótono e sem graça.
E, se algo não acontece como imaginamos, a frustração nos paralisa.
Prefiro viver mais solta.
Paulo Renato não queria estender o assunto.
Valentina pensava de maneira bem diferente da sua.
Ele não queria dar mais ouvidos a ela.
Procurou mudar radicalmente o rumo da conversa.
- Selma quer jantar connosco qualquer noite dessas.
- Nada de jantar. Um chazinho até pode ser.
Mas hospedar-se aqui, não.
- Ela vai enviar um mensageiro mais tarde convidando-a para um chá no salão do Mappin.
- Terei de recusar.
Estou com muito trabalho.
Daqui a pouco vou pedir para o motorista tirar o carro e me levar até a oficina de costura.
Fui convidada para organizar uma exposição para a Tarsila.
Ela acabou de pintar a tela Operários, que, de certa forma, dá início à pintura social no Brasil
- Como assim, pintura social?
- O quadro pintado recentemente por ela representa o grande número, bem como a variedade racial das pessoas vindas de todas as partes do Brasil para trabalhar nas fábricas, que começam a proliferar no nosso país.
Paulo Renato sorriu.
Os olhos de Valentina brilhavam quando o assunto era ligado às artes.
Eles se levantaram e caminharam ao vestíbulo.
Paulo ajeitou o colete, a gravata e pegou o paletó.
- Marcos me disse que precisamos vender algumas propriedades e investir em apartamentos residenciais.
- Ideia interessante.
- Quero depois conversar mais sobre isso.
Vou marcar dia desses para ele vir aqui.
- Ele sim, você pode convidar quantas vezes quiser. A Selma, não.
- Estamos para vencer uma acção contra a Companhia City.
Vamos ganhar um terreno no Jardim Europa.
- Óptima localização.
Excelente bairro.
Se o terreno vier de mão beijada, creio que o melhor será construir um palacete.
- Não gostaria de me desfazer desta casa.
Afinal, nascemos e fomos criados aqui nos Campos Elíseos.
- Bom, em breve vou mudar para o Morumbi.
Você fica aqui ou então se muda para os jardins.
Quem sabe casado?
- Nem morto.
- Com a Selma!
- Nem duas vezes morto!
Os dois riram a valer. Ele levantou-se e beijou a irmã na testa.
- Adoro você. Agora preciso ir.
O trabalho me espera.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 24, 2016 8:45 pm

Paulo Renato falou, apanhou seu chapéu de feltro e foi à garagem.
Logo o ronco do motor de seu carro foi sumindo pela rua.
Valentina esboçou um sorriso e dirigiu-se à cozinha.
Deu ordem às criadas.
Depois chamou Benta, sua criada de confiança.
- Se um mensageiro aparecer, devolva a missiva dizendo que eu não poderei comparecer.
- Por certo.
- Se Selma ligar, anote o recado.
- Mas se ela aparecer...
- Não quero que entre.
- E se insistir?
- Não vai insistir, Benta.
Ela me conhece.
Não vai atrever-se a entrar se eu não estiver.
- Sim, senhora.
Benta era uma mulata alta, forte e muito simpática.
Trabalhava para Valentina havia mais de dez anos.
Embora houvesse pequena distância por conta da relação patrão-empregado, Valentina tratava Benta com carinho e respeito.
Ela nutria pela patroa um carinho sem igual.
Afeiçoara-se mais a ela do que a Paulo Renato.
Ele era metódico e chato.
Valentina era firme, porém doce e amiga.
Benta tivera problemas no passado, fora mãe solteira e ninguém queria lhe dar serviço.
Valentina foi à única que a acolheu em sua casa.
Deu-lhe serviço e garantiu que quando a criança nascesse ela poderia cuidar de seu rebento e continuar trabalhando na mansão.
A gravidez correu de mal a pior e Benta perdeu o bebé no sexto mês de gestação.
Ela chorou muito nos braços de Valentina, mas foi aí que a amizade entre ambas transcendeu a relação entre patroa e empregada.
Benta recuperou-se da perda do bebé e também gostava de escutar Valentina e suas ideias "diferentes" acerca da vida.
Além de cuidar da casa e gerenciar a actividade dos outros criados, tinha carinho muito grande pela patroa.
Ela olhou para Valentina e sorriu.
- Gosto muito dela e farei o possível para Selma não entrar nesta casa.
Enquanto Benta falava para si mesma, Valentina atravessou o corredor.
Subiu e arrumou-se.
Desceu, apanhou seu chapéu com arranjos delicados na lateral, a sua bolsa, o par de luvas, e chamou o motorista.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 24, 2016 8:45 pm

CAPÍTULO 14

No dia seguinte ao desaparecimento das meninas, os vizinhos já começaram a desconfiar de algo estranho.
Um homem de aspecto nada simpático encostou uma caminhonete na porta da casa de Dinorá e, com a ajuda de dois rapazes, em pouco mais de uma hora todos os móveis estavam no interior da caçamba.
Uma vizinha aproximou-se e perguntou:
- Onde estão as meninas?
- Que meninas?
- E Dinorá? - perguntou outra.
Edmundo coçou a cabeça.
- Sei lá, dona.
Eu sou o homem da mudança.
- Para onde está levando?
- Não é da sua conta.
Ele falou, cuspiu no chão.
Entrou na caminhonete e sumiu na curva.
- Sujeitinho mais desaforado - disse uma.
- Quase cuspiu nos meus sapatos - disse a outra, fazendo cara de nojo.
Maria achegou-se a elas.
- O que foi?
Todas começaram a falar ao mesmo
Maria sentiu até uma tontura, mas conteve-se e fez sinal com as mãos.
- Uma de cada vez, por favor.
- Esse fulano quase cuspiu nos meus pés.
Mal-educado e porco. Sem modos.
- Disse que veio buscar a mudança - ajuntou a outra.
- Mudança?
Não estou sabendo de nada...
Um rapaz dobrou a esquina e foi bater no portão.
Maria o informou:
- Não tem ninguém aí.
- Como assim?
- Parece que se mudaram.
- Eu vim do hospital.
Maria pensou imediatamente em Clara.
- A menina recebeu alta?
- Alta? Não sei.
Não trabalho no hospital, mas presto serviços para a instituição.
Trouxe a nota para cobrar o sepultamento.
As duas mulheres levaram a mão ao peito.
Seguraram-se nos braços de Maria.
- Sepultamento?!
- É o que diz aqui.
- De quem?
O rapazote olhou para o papel.
- Clara Lobato.
As mulheres começaram a gritar histéricas.
O rapaz finalizou:
- Pelo que consta, morava aqui.
Maria chegou até ele e pegou o papel.
Levou a mão à boca.
- Santo Deus!
Clarinha morreu!
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 24, 2016 8:45 pm

As vizinhas torciam as mãos nervosamente no próprio avental.
Começou um alvoroço, uma gritaria sem fim.
Logo juntou um bando de vizinhas no meio da rua, gritando e gesticulando todas ao mesmo tempo.
O moço assustou-se com tanta mulher em cima dele.
Eram perguntas e mais perguntas.
- Eu sou funcionário da funerária.
Não sei de nada - ele tirou o chapéu e coçou a cabeça.
Uma vizinha entrou na casa.
Voltou pálida.
- Levaram tudo. A casa está vazia.
Nem um sinal, nem um bilhete. Nada.
- Vão comer meu couro.
Eu não posso levar calote.
- Quanto custou o sepultamento?
- Cem mil.
Maria e outra vizinha menos perturbada entreolharam-se.
- Nós vamos juntar o dinheiro e pagar.
- Fico no aguardo.
- Pode nos dar uma semana?
- Bom, é que...
- Meu filho, a causa está perdida.
A família sumiu.
Ou espera até a semana que vem ou então nada de receber.
Ele deu de ombros.
- Está certo. Vou tentar convencer meu chefe.
O rapaz afastou-se e logo depois Carmela chegou.
- Que confusão é essa na rua, mãe?
Maria abraçou-a aflita.
- Minha filha, a Clarinha morreu.
- Não pode ser mãe! - exclamou a menina.
Carmela abriu o portãozinho do sobrado e entrou.
Percorreu todos os cómodos da casa.
Era difícil acreditar que tudo estava vazio de um dia para o outro.
Meneando a cabeça para os lados, ela saiu, encostou a porta.
Não pode ser. Ontem eu fiz uma prece para as duas.
Eu não senti que Clara estivesse morta...
- Vamos orar pela sua alma, filha.
- Mas cadé a Lilian?
- Não sei. Um homem saiu a pouco daqui com toda a mudança.
Disse que a família se mudou.
- Para onde?
- Não faço ideia.
- E Dinorá?
- Não a vi. Nada.
Carmela abraçou-se à mãe novamente e deixou que as lágrimas dessem livre curso sobre suas faces.
Estava triste, mas algo dentro dela dizia que as meninas precisavam de oração, de vibração positiva.
A bem da verdade, Carmela deixava-se influenciar pela presença positiva de Nuri.
Como a jovem era dotada de extremo equilíbrio emocional, o espírito amigo podia aproximar-se e inspirar-lhe bons pensamentos.
Assim que captou os pensamentos de Nuri, ela disse, com firmeza:
- Vivas ou não, eu vou me ligar positivamente com o espírito de ambas.
- O que foi que disse?
- Vamos, mãe, voltemos para casa e vibremos por elas.
Não vamos entrar no medo, na dúvida e na maldade do mundo.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 24, 2016 8:45 pm

- Tem razão, filha.
Já tem gente demais pensando em ruindade.
Vamos nos afastar disso e vibrar no bem.
As duas foram se afastando enquanto as vizinhas falavam e deduziam as coisas mais sórdidas em relação às meninas e Dinorá.
Teve uma vizinha que jurou ter visto Meneghetti, famoso assaltante daqueles tempos, andando pelo telhado da casa delas.
- Eu juro que o vi.
- Mas ele foi preso, mulher - dizia outra.
- Era ele. Fugiu da prisão...
Depois que entraram em casa, Maria foi para a cozinha e preparou um chá de cidreira.
Colocou o bule e duas xícaras numa bandeja e levou para a sala.
Carmela estava de olhos fechados.
Sentiu o aroma do chá e abriu os olhos.
- Mãe, uma voz me diz que Clara está bem.
- Eu vi o nome dela no papel.
Foi sepultada hoje cedo.
- Muito estranho tudo isso.
- Mais estranho é a casa estar vazia.
- Dinorá foi embora, mãe.
Tenho certeza.
- E por que não trouxe Lilian para se despedir?
- Não sinto que Lilian esteja bem.
Algo aqui no meu peito diz que ela corre algum perigo.
- Impressão sua.
Ela deve estar triste porque a irmãzinha morreu.
Você deve ter captado esse sentimento.
- Pode ser.
Carmela pegou o chá.
Entregou uma xícara para a mãe e depois se serviu.
Bebericou um pouco do líquido fumegante.
- Vamos nos dar as mãos e fazer uma prece para as duas.
- Tem razão, mãe.
Vamos enviar vibrações positivas para as meninas, não importa onde estejam.
Maria levantou-se e cerrou as cortinas da sala.
Colocou um disco de música clássica na vitrola.
Em seguida, sentou-se próximo da filha.
Ela e Carmela deram-se as mãos.
Fecharam os olhos e fizeram sentida prece.
Bem acima das nuvens, Nuri sorriu e lhes enviou um beijo afectuoso, que se transformou em flocos dourados de luz.
Os floquinhos eram despejados do Alto sobre as duas, serenando suas mentes e tranquilizando seus corações.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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CAPÍTULO 15

O trem sacolejava bastante.
O caminho era bem sinuoso e o vento forte ajudava na instabilidade.
Entrou no túnel, e, como era ainda movido a carvão, a fumaceira invadiu seu interior, fazendo muita gente tossir e passar mal.
Clara começou a tossir e, assim que o trem passou atravessou o túnel, aos poucos o ar tornou-se novamente respirável.
Ela demorou a acordar.
Olhou ao redor e viu-se entre um punhado de malas.
- Onde estou? - balbuciou.
- Num trem.
- Trem? Como... como vim parar aqui?
- Não sei.
Mas nós dois viemos de graça - sorriu-lhe o homem.
Clara não escutou.
A quantidade de éter que a menina havia inalado era demasiada.
Ela ainda estava sob os efeitos do entorpecente.
Passou a mãozinha sobre o galo na testa.
Estava dolorido ainda.
Virou o rostinho de lado e novamente adormeceu.
O homem ao seu lado ajeitou seu corpinho.
Pegou seu casaco e a cobriu.
Virou para o outro lado e, mesmo com tanto chacoalho, também dormiu.
Duas horas depois o trem apitava e anunciava sua chegada em Poços de Caldas, cidade localizada no sopé da Serra de São Domingos, no Sul de Mina Gerais.
Parentes corriam na plataforma aguardando a chegada dos entes queridos.
A estação eslava em festa.
Um político conhecido viera neste trem e fora aclamado e saudado tão logo descera na plataforma.
Era como se fosse feriado.
Quase toda a cidade estava ali para homenagear o político.
Dorival, o maquinista do trem, pendeu a cabeça para os lados.
- Hoje ninguém faz mais nada nesta cidade.
- O senhor tem razão - concordou Luisinho, garoto que, além de ser filho de Dorival, era uma espécie de faz-tudo na estação.
O garoto trabalhava como carregador, bilheteiro, ajudante de operador; aproveitava as férias escolares para ficar mais tempo na estação e fazer outros serviços gerais.
Ganhava alguns trocados e colocava todas as gorjetas num cofrinho.
Luisinho não precisava trabalhar.
Seu pai ganhava salário razoável e seus irmãos enviavam dinheiro para cobrir o orçamento doméstico.
Contudo, Luisinho era muito activo e cheio de energia.
Não era de o seu feitio ficar parado, ele gostava de prestar os serviços na estação de trem.
- Filho - prosseguiu Dorival - todos já desceram e preciso que me ajude a soltar os vagões do fundo.
- Vou correndo, num pulo.
O garoto, como um serelepe menino de onze anos, correu a toda brida.
Foi até o fundo da estação, abriu a portinha do último vagão e tomou um susto.
Arregalou os olhos quando viu a menina ali, deitada.
Luisinho chegou perto e sentiu a respiração.
Tomou-lhe o pulso e a menina se virou para o outro lado.
Ele saiu em disparada e foi até o pai.
- Tem uma menina no vagão.
- Hã?
- Tem uma menina, pai - Luisinho falava e puxava Dorival pelo bolso do macacão.
Venha comigo.
- Outra que se escondeu para viajar de graça.
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Ave sem Ninho

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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 24, 2016 8:46 pm

- Sei não. Acho essa menina muito nova.
Dorival deixou-se levar.
Ao entrar no vagão e avistar a menina ali deitada, sentiu um aperto no peito.
Era comum crianças serem colocadas nos vagões de carga.
Algumas vezes as famílias faziam isso, pois os pais eram pobres e não tinham como sustentá-las.
Outras vezes, as próprias crianças fugiam de casa.
Dorival tirou o boné.
- Será que essa garotinha fugiu de casa?
- Ela é muito pequena para fugir, não acha pai?
Dorival aproximou-se e abaixou.
Pôs a mão na testa da pequena.
Ela estava febril.
O maquinista percebeu uma pequena sacola ao lado dela.
Virou-a de ponta cabeça e seu conteúdo veio ao chão.
Havia uma muda de roupas, um envelope fechado e a certidão de nascimento.
- Será que ela foi largada pelos pais?
- Não sei - respondeu Dorival.
- Mas aqui ela não pode ficar.
- Vai levá-la para casa?
- Vou. Ajude-me, filho.
Luisinho assentiu com a cabeça e ajudou a levantar o corpinho frágil de Clara.
Dorival a colocou nos braços e foram caminhando até a casa dele, não muito distante da estação.
Andaram alguns minutos e logo Luisinho avistou sua casa.
- Estamos chegando, pai.
Era uma casinha bem graciosa, cuidada com capricho e muito esmero.
Tratava-se de uma construção de tijolos, parecida com um chalé suíço.
Em todas as janelas havia jardineiras com flores diversas, colorida, e perfumadas.
A cerquinha branca, de madeira, que ladeava a casa, e o lago com marrecos, lembravam aquelas gravuras de casas de campo europeias que encontramos em calendários.
Ao se aproximarem da casinha, uma mulher madura, porém vistosa e com sorriso encantador, correu ao encontro deles.
Beijou Dorival nos lábios e perguntou preocupada:
- Uai, bem. Quem é?
- Encontrei-a sozinha no vagão de cargas.
- Foi esquecida?
- Não, foi abandonada.
Arlete instintivamente colocou a mão sobre a testa da menina adormecida.
- Ela está ardendo em febre.
Não está bem.
- Precisamos chamar um médico.
- A cidade toda está em festa com a chegada do político.
Ninguém vai nos atender agora.
Vamos, eu coloquei cinco filhos no mundo.
Tenho larga experiência maternal.
Dorival sorriu para a esposa.
Arlete era mulher formidável.
Nascida numa família rica fora criada nas melhores escolas para meninas que Belo Horizonte podia oferecer.
Na adolescência, os pais perderam tudo e ela não hesitou, tampouco cruzou os braços.
Pelo contrário, arregaçou-os e foi trabalhar.
Arrumou um emprego de dama de companhia para uma senhora de família nobre e, quando a senhora morreu, deixou-lhe um lote de terras mais o chalé espaçoso que a família usava para as férias de inverno.
Arlete mudou-se para lá com os pais.
Em seguida, seus pais morreram e ela apaixonou-se por Dorival.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 24, 2016 8:46 pm

Casaram e tiveram cinco filhos.
Com esforço e dedicação criaram muito bem os quatro.
Anos depois, os três mais velhos, já adultos e bem instruídos, casaram-se e foram morar espalhados pelo país, sendo que os dois mais velhos tinham filhos próximos à idade de Luisinho.
A menina tinha morrido de gripe espanhola e, mesmo com duas netas, Arlete sentia muita saudade de sua filhinha.
Somente António não tinha filhos, pois sua esposa tinha problemas para engravidar.
Arlete e Dorival contavam no momento com seis netos.
Reuniam-se nas festas de fim de ano e trocavam correspondências todos os meses.
Luisinho viera ao mundo quando as crianças já estavam crescidas.
Era o xodó da casa.
Dorival entrou na casa e subiu as escadas.
Entrou no quarto que antes fora de sua filha e delicadamente deitou a menina sobre a caminha.
Clara abriu e fechou os olhos.
Arlete aproximou-se e a cobriu com uma manta.
- Vou fazer uma canja bem quentinha.
- Perto dela havia essa sacola e dentro o documento de identidade.
Arlete o pegou e leu em voz alta.
- Lenita Chiarelli.
Descendência italiana.
- Quando virei à sacola de cabeça para baixo, vieram o documento, essas roupinhas - Dorival apontou - e também esse envelope.
Arlete o pegou, abriu e sentou-se numa cadeira próxima à cama.

“Eu me chamo Lenita Chiarelli e tenho cinco anos de idade.
Minha mãe morreu quando eu era um bebezinho e meu pai morreu meses atrás na Revolução Constitucionalista.
Eu não tenho parentes vivos e não quero ser deixada numa instituição para menores.
Por favor, quem ler esse bilhete, que tenha piedade e cuide bem de mim.”


Arlete não conteve a emoção.
Levou a cartinha ao peito.
- Meu querido, essa garotinha é órfã!
- O que faremos?
- Bom...
- Vamos conversar com o vigário e ver se alguma família...
Dorival não terminou de falar.
O semblante de sua esposa dizia tudo.
Arlete deu largo suspiro e sentou-se na beirada da cama, tamanha emoção.
Ele abaixou-se e pegou em suas mãos trémulas.
- Eu também senti o mesmo, querida.
- Sentiu?
- Sim. No caminho para cá, fiquei pensando que esta poderia ser... - a sua voz embargou - vamos cuidar de Lenita.
Como se fosse nossa filhinha.
Arlete enlaçou os braços no pescoço do marido.
- Obrigada, querido - ela limpou os olhos marejados com as costas das mãos - nunca esmoreci, nem mesmo quando nossa Ana partiu.
Eu entendi que ela precisava passar um período curto aqui neste planeta.
Não senti nem remorso, tampouco raiva.
A vida nos presenteou e tivemos a felicidade de tê-la connosco por sete anos.
Tocamos nossa vida, contudo eu adoraria criar essa menina. Entende?
- Sim.
- É como se a vida estivesse nos presenteando de novo.
Dorival também estava emocionado.
- Por certo, minha querida.
Vamos cuidar dela com o mesmo amor que demos aos nossos cinco filhos.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 24, 2016 8:46 pm

Luisinho enxugou a lágrima que escorria pelo canto de seu olho.
- Vou ser um óptimo irmão.
Sempre senti falta de um irmãozinho ou irmãzinha.
Vou adorar poder brincar com Lenita.
Arlete abraçou o filho com ternura.
- Tenho muito orgulho de você, Luisinho.
Em vez de ficar com ciúmes, está feliz.
- Mas é claro, mãe.
Estou feliz porque você e papai estão felizes!
Os três abraçaram-se comovidos enquanto Clara dormia placidamente sobre a caminha que outrora fora de Ana.
O espírito de Nuri espalhou energias em forma de pétalas de rosas coloridas, que se esparramaram por toda a casa, mantendo-a iluminada, protegida e cheia de amor e paz.
Nuri aproximou-se e beijou a fronte da menina.
- Estou feliz, Clara.
Sei que vai sentir falta de Lilian, mas a vida neste planeta é muito curta.
Lá na frente vocês voltarão a se reencontrar no mundo astral, que é, de facto, o nosso verdadeiro mundo.
Em breve você vai se esquecer de Lilian e Dinorá, porquanto esta família vai enchê-la de amor e carinho e o passado vai desaparecer por completo de sua mente.
Agradeça a Deus por esta nova chance.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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