UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 8:39 pm

CAPÍTULO 16

Lilian despertou no meio de um armazém, no meio de um monte de palha e sacas de café.
Estava num depósito, num pequeno galpão afastado no cais do porto.
Ela acordou assustada, tentou levantar-se, mas não conseguiu.
Sua cabeça latejava vertiginosamente.
Ela deitou-se novamente.
Permanecendo deitada, a cabeça doía menos.
Em instantes, lembrou-se de tudo.
Mas de tudo o quê?
Em sua memória vinham cenas desconexas.
O pai aparecia e dizia que tudo ficaria bem. O pai?
- Mas meu pai morreu! - disse para si, numa voz fraca e cansada.
Depois veio a cena em que ela folheava uma revista.
Ia para a cama. Um sono profundo.
Um cheiro forte penetrando-lhe as narinas.
Barulho de automóvel.
Risadas. E mais nada.
A boca estava seca e a alguns metros a jovem avistou uma jarra d'água.
Seu corpo foi engatinhando e deslizando até o local.
Ela apanhou e cheirou.
Não sentiu nada. Era água.
Lilian sorveu todo o conteúdo da jarra.
Limpou os beiços com as costas das mãos e sentiu fome.
- Onde estou?
Ela tacteou o chão, observou melhor o local.
Mordiscou os lábios e ficou a pensar.
- Como vim para aqui?
Que lugar é este?
Enquanto ela tentava concatenar os pensamentos, um homem de ceroulas encardidas entrou no armazém.
Olhou para ela e sorriu.
Um sorriso ordinário.
- Acordou pequena?
- Quem é você?
- Um presente...
Embora tivesse cerca de trinta anos de idade, era bem alto e corpulento.
Na verdade era um estivador que trabalhava no cais do porto.
Edmundo lhe pedira para deixar Lilian ali por alguns dias até que a ex-madrasta desse o aviso de que a menina pudesse ser liberada.
Edmundo não quis saber das advertências de Dinorá, achava-a meio sentimentaloide.
Ele não tinha nada a ver com a menina e estava pouco se importando com o que poderia lhe acontecer.
Ele bem sabia que Zezão, o estivador, era um homem sem escrúpulos, sem moral e, acima de tudo, pervertido.
- Dane-se o que ele vai fazer com ela.
Cumpri com o prometido - disse para si, dando de ombros, enquanto voltava para a cidade.
Lilian sentiu o medo tomar conta de seu corpo.
Estava muito cansada e ainda atordoada para escapar daquele brutamontes.
Ela foi acuando o corpo num canto, atrás de uma saca de café.
- Não adianta se esconder.
- Hã?
- Eu vou pegá-la.
- Por favor - ela implorou.
Não me faça mal.
- Eu não vou lhe fazer mal.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 8:39 pm

- Por que está se aproximando?
- Você faz perguntas demais!
- Por que está tirando a roupa...
- Preciso responder?
Não demorou um minuto e o homem tampou a sua boca e num piscar de olhos estava em cima dela.
Arrancou-lhe as vestes com fúria, abriu-lhe as pernas e deitou-se sobre ela, sem dó nem piedade.
Lilian soltou um grito desesperador.
- Calma pequena.
Na primeira vez é assim, depois você vai se acostumar e pedir mais.
As lágrimas escorriam aos borbotões e inundavam seu rostinho contraído e assustado.
A dor era imensa e, enquanto aquele ser abominável cavalgava sobre seu corpo com fúria e volúpia, ela não teve muito que pensar.
Lilian chorava baixinho e era inútil tentar livrar-se daquele ser repugnante.
Num dado momento, ela lembrou-se de Carmela e das borboletas.
Pensou em borboletas.
Encheu a cabeça de borboletas.
Tentou levar sua mente distante daquele local imundo, tentou desviar sua mente daquela cena sórdida.
Contudo, a dor era tamanha e Lilian não resistiu.
Enquanto o estivador aproveitava-se daquele corpinho frágil, ela perdeu os sentidos.
Desmaiou.
Carmela havia terminado de lavar a louça do café.
Estava se sentindo bem, embora uma onda de preocupação teimasse em pairar sobre sua cabeça e perturbar-lhe a ordem.
Imediatamente, a imagem de Lilian surgiu em sua tela mental.
A sensação não foi das mais agradáveis.
Carmela ligou o rádio e sintonizou num programa de músicas.
Deixou-se entreter por uma canção muito em voga naquele tempo.
Tentou cantarolar a música de Carmen Miranda, mas a inquietude persistia.
Aquela sensação estranha continuou oprimindo o seu peito.
Ela desligou o rádio e foi para a sala.
Cerrou as cortinas e sentou-se confortavelmente numa poltrona.
Respirou e soltou o ar lentamente.
Nuri aproximou-se e a tranquilizou.
- Está tudo bem.
Carmela sentiu a presença amiga e sorriu.
Repetiu:
- Está tudo bem.
Em seguida, fez o exercício que aprendera nos livros.
- Eu só fico comigo, com a minha energia.
Carmela repetiu algumas vezes a mesma frase.
Depois prosseguiu mais calma e serena:
- O que é bom é meu; o que não é bom, não me pertence.
Quero que o que não me faz bem se apresente, tome forma.
Num instante, a imagem de Lilian apareceu em sua frente.
- Por que você está ligada em mim?
Em alguns instantes, veio a resposta.
A imagem de Lilian lhe aparecia em franco desespero:
- Não estou bem.
Ajude-me. Ajude-me.
Mesmo não sabendo onde Lilian se encontrava, Carmela podia fazer suas vibrações chegarem até a amiga.
Fechou os olhos, pediu ajuda aos amigos espirituais e, com a ajuda de Nuri, produziu na mente um elo poderoso de luz violeta que saía de seu peito e chegava até a sua amiga.
Foi nesse momento que Lilian perdeu os sentidos e desmaiou.
Nuri sorriu satisfeita.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 8:39 pm

- Obrigada por enviar suas energias até Lilian.
Nós agradecemos pela sua ajuda tão necessária.
Em seguida, Carmela sentiu um brando calor invadir-lhe o peito.
A sensação desagradável desaparecera e ela sentiu-se melhor.
Embora uma ténue sensação de desconforto tentasse apoderar-se de seu espírito, Carmela recusava ter contacto com essa sensação.
- Estou bem e essa sensação desagradável não me pertence.
Estou aqui para ajudar e não para tomar as dores de ninguém.
Cada um é responsável por si.
Eu desejo o melhor para mim e para todos ao meu redor.
Em especial a você, Lilian.
Eu a amo. Sinta meu amor chegar até você e tranquilizá-la.
Tudo está bem.
Nuri agradeceu e desapareceu no ar.
Carmela abriu os olhos.
Levantou-se e, quando abria novamente as cortinas da sala, Maria entrou correndo, ar desesperado:
- Filha, o rapaz da funerária me trouxe a certidão de óbito.
Carmela limpou as mãos no pano de prato e foi até a soleira.
Olhou o documento.
- Estranho.
- O que é estranho?
- Estava havia pouco com uma sensação esquisita e senti que Lilian não está bem.
Mandei-lhe energias positivas.
Não senti que Clara esteja mal.
- Você é mais apegada à Lilian.
Faz sentido pensar mais nela.
- Não. Tenho certeza de que há algo de estranho aqui.
Eu não sinto dor, não sinto nada.
Meu coração diz que Clara está bem.
- Deve ter sido levada para um bom lugar.
Os amigos espirituais devem tê-la ajudado a fazer a passagem para o outro lado.
- Pode ser.
Eu enviei minhas vibrações de amor para Clara ontem à noite, em minhas orações.
Não importa se está viva ou morta.
O importante é que seu espírito receba as minhas bênçãos benfazejas.
- Por que diz isso, filha?
- Não sei.
Essa "morte" de Clara é algo que não se encaixa aqui na minha cabeça e quando penso no assunto o meu peito não aperta.
Contudo, sei que a vida está fazendo o melhor por ela.
Disso eu sei. Quanto a Lilian...
- Ela deve ter ido embora com Dinorá.
- Lilian está sozinha.
Não está bem.
- Como sabe?
- Eu sinto mãe.
- Ela vai morrer?
- Um dia ela vai morrer, com certeza - Carmela sorriu e prosseguiu:
- Sem dramas, d. Maria.
- Por certo, filha.
- Creio que ela não esteja bem, mais nada.
Sinto que em breve vamos nos reencontrar.
- É, pode ser...
- Mãe, não acha estranho que Clara tenha morrido e Dinorá não tenha nos comunicado?
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 8:39 pm

- Não tinha pensado nisso.
- Pois eu pensei, oras.
Onde ela está?
- Bom...
- Cadé Lilian?
E por que aquele homem levou todos os moveis?
- Não sei.
É tudo muito esquisito.
Acha que a Dinorá...
- Nem pense nisso, mãe.
Eu não acho nada.
Só estou desconfiada de que há algo por trás dessa morte da Clara e desse sumiço de Lilian.
- Tem um senhor lá na frente da casa delas.
- Tem? O que deseja?
- Disse que veio receber os alugueis atrasados.
Não se conforma que Dinorá tenha ido embora sem dar satisfações.
- As vizinhas vão matar o pobre homem com tanta pergunta. Coitado.
Carmela sorriu.
Voltou à cozinha a fim de ajeitar as louças no armário.
Tirou o avental, dobrou-o e o entregou para a mãe.
- Vou ver o que está acontecendo.
Ela saiu de casa, atravessou a rua e foi até o outro lado, em frente à casa das meninas.
As vizinhas estavam quase o matando com tantas perguntas.
Ele tentava desenvencilhar-se.
Foi acudido por Carmela.
Ela empurrou a mulherada e foi puxando-o até a outra esquina.
Trouxe-o para dentro de seu jardim.
Fechou o portão com o trinco.
- Pronto, aqui o senhor está seguro - tornou Maria.
- Obrigado. Pensei que fosse ser devorado por aquele bando de histéricas.
- Aqui neste bairro nem sempre temos casos tão interessantes - ajuntou Carmela.
- Puxa, eu só vim cobrar o aluguer.
- Mesmo?
- Os alugueis, aliás.
Nem sabia que o dono havia morrido.
A família podia ter-me avisado.
- O senhor não percebeu nada de errado?
- Tivemos muitos problemas por conta da Revolução.
Muitos partiram, quiseram acertar os valores.
Eu corri aqui e ali.
Deixei os inquilinos que pagam em dia por último.
Seu Aureliano era homem correcto, pagava-me sempre em dia.
- A mulher dele não procurou o senhor?
- Não. As vizinhas me falaram dela, mas o que fazer?
Achei muito estranho o atraso dos pagamentos, pois o inquilino pagava sempre em dia.
Depois veio a Revolução, confusão... - ele coçou a cabeça e prosseguiu - o aluguer estava no nome do seu Aureliano Lobato.
Não tenho como procurar essa tal de Dinorá.
O senhor mostrou lhe os recibos.
Carmela meneou a cabeça para os lados.
- Dinorá não tinha cara de quem pudesse arcar com todo esse atraso.
- Acho que é um caso perdido.
- Eu também sinto o mesmo.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 8:40 pm

- Uma pena.
- O senhor é o proprietário?
- Não. Antes fosse.
Gosto deste bairro.
Os sobrados são bem ajeitados, ajardinados.
Tem duas linhas de bondes, um luxo!
- E tem um parque aqui perto - ajuntou Carmela.
- Infelizmente não posso pagar um aluguer desses.
Eu trabalho para o escritório Bulhões e Carvalho Advogados.
- No famoso escritório de advogados?
Na esquina da Praça do Patriarca com a Rua Libero Badaró?
- Esse mesmo.
Sou auxiliar de um dos advogados, cobro os alugueis.
Eu conheço o Dr. Paulo Renato desde que ele era assim pequeno - ele fez um gesto com a mão, colocando-a abaixo do quadril.
- Seu patrão vai ter de engolir o prejuízo.
- Pelo que ouvi das vizinhas, a mulher sumiu e uma das enteadas morreu.
É muita tristeza.
Maria e Carmela se entreolharam e nada disseram.
Ele continuou:
- Não tenho como cobrar.
Nem uma pista.
- É, parece que Dinorá desapareceu do mapa.
- Tem alguma pista?
- Não tenho.
- Que maçada! - ele suspirou.
- Calma. O senhor não vai ter como cobrar.
Façamos o seguinte: entre e tome um café.
- Adoro café.
- Eu sou óptima em preparar um café bem gostoso.
Senhor?
- Milton.
Maria convidou-o a entrar na casa.
Ele a acompanhou e sentou-se à mesa da cozinha.
Enquanto isso, Carmela pegava os apetrechos para fazer o café.
Apresentou-se:
- O meu nome é Carmela.
- Carmela, que bela!
- Obrigada.
- Não é um nome usual.
- Mas gosto dele. É diferente.
Milton sentou-se na cadeira, tirou o chapéu.
Depois, pegou um lenço e passou pela testa suada.
- Não sei o que vou dizer ao Dr. Marcos.
- Por quê? - perguntou Carmela enquanto esquentava a água e dispunha as xicrinhas sobre a mesa.
- Eu nunca recebi um calote sequer.
Nem depois da Revolução.
Esse é o primeiro.
- Sempre existe uma primeira vez - respondeu ela, largo sorriso.
- Você conhecia o vizinho que morava na casa?
Ou sua família?
- Era amiga das filhas.
Lilian e Clara, que tinha um lindo sorriso.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 8:40 pm

- Por que tinha?
Ah, essa foi a que morreu...
Carmela deixou suas suspeitas de lado.
Não convinha falar de suas dúvidas àquele senhor.
Ela o encarou nos olhos e disse:
- Clarinha ficou doente na semana passada e nós a levamos ao hospital.
Ela morreu dois dias depois.
- Que triste.
- Também acho.
- O pai foi morto na Revolução?
- Sim. Aureliano morreu no fim de setembro, pouco antes de a Revolução acabar.
- E a mulher dele?
Por que sumiu assim?
Maria começou a coar o café.
O cheiro apetitoso invadiu as narinas de todos.
Milton fechou os olhos e sorriu.
- Como é bom esse cheiro de café feitinho na hora!
Elas sorriram.
Maria pegou o bule e o levou à mesa.
Serviu Milton, depois a filha e por fim serviu-se.
Carmela sentou-se ao lado do homem.
- Aureliano não era casado com Dinorá.
- Que disparate! Uma vergonha.
- Ele era viúvo.
Tinha duas filhas pequenas para criar.
- Ah, bom...
- Dinorá pode ser óptima pessoa, mas como mãe não passou no teste.
Deixou muito a desejar.
Creio que depois que Clara morreu, ela partiu com Lilian.
É o que parece.
- Eu nem sei como vou fazer para contar essa mirabolante história ao meu chefe.
- É fácil.
- Você não conhece meu patrão.
- Eu ajudo o senhor.
- Como?
- Eu me arrumo e o acompanho até o escritório.
Conto tudo o que sei.
E o senhor não passa por incompetente ou mentiroso.
- Jura?
Faria isso por mim?
- Acha que perderia a chance de dar uma voltinha na cidade, acompanhada de um homem com aparência de actor de cinema?
- Ora, o que é isso.
Deixe de bobagens - ele disse, envaidecido.
Milton era bonitão.
Tinha cerca de cinquenta anos e estava bem conservado.
Carmela continuou:
- Vai ser um prazer.
- Não tenho como agradecer.
Você é um brinco de menina.
Maria riu.
- Hoje em dia usamos a expressão "um amor".
Essa menina é um amor.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 8:40 pm

- Feliz a senhora.
- Carmela é óptima filha.
A jovem sorriu.
- Obrigada. Diga-me, seu Milton, o que vai fazer com a casa?
- Vou fechá-la e passar o cadeado no portão.
Talvez a alugaremos novamente. Muito embora eu ache que a casa está meio velha. Precisa de uma boa reforma.
- Mas é uma boa casa - disse Carmela.
Eu gosto muito dela.
- É bem espaçosa.
- Algumas reformas, um chuveiro eléctrico, uma tinta nova nas paredes.
Eu adoraria morar lá.
- Já tem compromisso sério?
- Não. Mas o dia que tiver, vou querer morar ali - apontou na direcção da casa.
- Essa menina sempre gostou daquela casa - ajuntou Maria.
- E por que não gostaria mãe?
É maior que esta que moramos.
Têm três quartos, duas salas.
O quintal é enorme e há a possibilidade de construir uma edícula nos fundos.
O jardim grande na frente da casa e as árvores frutíferas do quintal são apaixonantes.
- Essa garota tem razão - ponderou Milton.
Uma casa desse tamanho é muito cara em bairros mais próximos do centro da cidade.
- Eu adoro morar aqui.
Onde o senhor mora?
- Eu moro no bairro do Cambuci.
- No outro extremo da cidade - disse Carmela.
- Mas fica pertinho do centro da cidade.
- O senhor é bom de conversa, mas eu preciso me arrumar.
- Pelo jeito vou passar o dia aqui.
Meninas demoram a se arrumar.
- Eu sou rápida.
Alguns minutos e estarei pronta.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 8:40 pm

CAPÍTULO 17

Clara acordou no finzinho da tarde daquele dia cansativo.
Desmemoriada...
Tudo acontecera tão rápido que sua cabecinha não conseguia concatenar os pensamentos.
Lembrou-se vagamente de Lilian, muito vagamente.
Às vezes chorava pela irmã.
Arlete e Dorival fizeram de tudo para que a menina aceitasse a nova família.
Clara choramingou por dois dias.
No terceiro, contando com a paciência, carinho e amor com que Arlete a tratava, Clarinha foi melhorando e aceitando essa nova realidade.
Como os últimos acontecimentos foram marcados por episódios tristes, o subconsciente da menina foi apagando o passado.
Ela recuperou-se totalmente depois de alguns dias e sua testa carregava pequenina cicatriz quando Luisinho apareceu com uma linda boneca de louça.
Clara exultou de felicidade.
Um mês depois, ela estava atendendo pelo novo nome: Lenita.
E daqui em diante, na nossa história, Clara assume seu novo nome: Lenita.
Arlete redecorou o quarto que antes pertencera à sua filha Ana.
Comprou tecidos novos com motivos florais.
Dorival e Luisinho pintaram o quarto em tom de rosa bebé.
Os móveis foram trocados.
Dorival soube de uma família que ia se mudar e estava vendendo os móveis de sala e quarto.
Ele e Arlete foram dar uma espiadinha e ficaram fascinados com o jogo de quarto de solteiro que estava à venda.
Tratava-se de duas camas de solteiro, duas mesinhas de cabeceira, um armário de duas portas, uma penteadeira com banqueta, uma escrivaninha com cadeira e estante.
A família praticamente deu o conjunto, pois tinham apreço por Dorival e Arlete.
- Espero que esses móveis lhes sirvam tão bem como nos serviu até agora.
Que Deus os abençoe - disse a dona, quando Dorival foi pegar os móveis com uma caminhonete emprestada de um vizinho.
O quarto de Lenita ficou lindo.
Os móveis eram de madeira escura e contrastavam com a delicadeza da cor das paredes e das cortinas.
Ainda Dorival comprou-lhe mais duas bonecas.
- Tudo isso é para mim? - perguntou a menina, extasiada.
- Sim, querida. É para você.
- E o quarto é só meu?
- Este é o seu quarto.
Seu e de suas bonecas.
- Obrigada, mãe.
Arlete paralisou. Teria escutado direito?
- O que foi que disse Lenita?
- Obrigada, mãe.
Não é assim que se agradece quando ganhamos um presente?
- Sim...
Arlete não conteve as lágrimas de pura emoção.
Abaixou-se e abraçou Lenita com ternura e amor próprios de uma mãe.
Beijou-a várias vezes no rosto.
- Amo você, minha filha,
- Promete que nunca vai me abandonar?
- Claro! Aqui é seu lar.
Somos a sua família.
Eu, papai Dorival, seu irmão Luisinho.
Em breve vai conhecer António, Francisco e José.
- Quem são eles?
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 8:40 pm

- Seus irmãos mais velhos.
Eles moram longe daqui.
Francisco e José são casados e têm filhos.
Alguns da sua idade.
Você vai adorar seus primos e primas.
- Oba! Eu vou ter um monte de amiguinhos?
- Claro que vai.
- Estou feliz.
- Nós também, querida.
Nós também.
Luisinho chegou a casa e trazia um pacotinho sobre o braço.
- O que é isso? - perguntou Arlete.
- Juntei uns trocados e comprei uns metros de tecido.
Quero que Lenita fique linda.
- Meu filho, você estava juntando dinheiro para comprar mais um peão...
- Sei mãe.
Mas agora que tenho mais uma irmãzinha, preciso tomar conta dela.
- Eu gosto de você - disse a menina.
- Eu também, Lenita.
Luisinho mostrou o tecido para a irmãzinha e ela exultou de felicidade.
Era um tecido estampado, bem colorido, com flores miúdas.
- Mamãe vai fazer-lhe um lindo vestido.
Quero que esteja bem bonita para quando formos à cidade tomar sorvete.
- Adoro sorvete!
Agora é hora de preparar o seu banho, pois em seguida o papai vai chegar e quero todos limpos e asseados para o jantar.
- Está bem - respondeu Lenita.
- Eu vou primeiro porque sou mais rápido.
Vocês mulheres demoram demais.
Luisinho pousou delicado beijo na bochecha da irmãzinha e foi tomar seu banho.
Arlete abraçou-se à menina mais uma vez.
Estava sentindo-se a mulher mais feliz do mundo.
Fechou os olhos emocionada.
- Obrigada, meu Deus!
Eu vou cuidar dela como se tivesse saído de mim.
Vou amá-la com todas as minhas forças.
Obrigada, obrigada...
O jantar correu agradável.
Dorival contava pequenos casos engraçados que aconteciam aos montes no trajecto de suas viagens.
Luisinho ria à beça e Lenita deixava-se contagiar por toda aquela alegria esfuziante.
A menina havia inclusive mudado sua aparência naquele pouco tempo em contacto com sua nova família.
Os cabelos estavam mais compridos e bem tratados.
Lenita engordara um pouquinho e sua tez tornara-se rosada e saudável.
Carregava sempre um sorriso nos lábios.
Foi pouco antes de a família preparar-se para dormir que escutaram as batidas no portãozinho e em seguida a batida forte na porta da sala.
Dorival desceu e, ao abrir, foi tomado de grande surpresa.
- António?
- Oi, pai, posso entrar?
Dorival percebeu os olhos inchados do filho de tanto chorar.
Algo grave havia acontecido.
Ele o abraçou; Arlete estava logo atrás.
- Filho! O que faz aqui?
António abraçou a mãe e começou a chorar.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 8:41 pm

- A Isabel me deixou mãe... - balbuciou, entre lágrimas e soluços.
- Como assim?
- Fez as malas e partiu.
Disse-me que não suportava mais viver ao meu lado.
Não sabia o que fazer, mãe.
Peguei o último trem que saiu de Belo Horizonte na madrugada e decidi vir para cá.
Preciso do amor de vocês. Estou sem chão.
Arlete o abraçou forte e em seguida todos entraram.
António jogou o corpo sobre uma poltrona.
Estava cansado e emocionalmente bem fragilizado.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 8:41 pm

CAPÍTULO 18

Era quase noite e o armazém tomava ares de lugar mal-assombrado.
Lilian teve pesadelos os mais diversos nos dias que se seguiram.
Tacteou o chão e uma luz se formou à sua frente, iluminando o pequeno galpão.
Pensou ter acordado e, ao olhar para o lado viu a figura de seu falecido pai.
- Pai?
- Oi, filha.
Aureliano, em espírito, apresentou-se à filha de maneira que ela pudesse reconhecê-lo de imediato.
Plasmou em seu perispírito a farda que utilizava na Força Pública para que Lilian não tivesse dúvidas.
Num segundo ele apresentava-se à filha uniformizado com quepe azul, túnica com duas ordens de botões, cinto preto, cassetete, luvas e polainas brancas.
Não se esqueceu do distintivo no peito.
Estava muito elegante.
Lilian sorriu.
Esquecera-se de que o pai fora alto, porquanto naqueles tempos, um oficial tinha de ter, pelo menos, 1,80 m de altura.
Aureliano tinha um pouquinho mais.
- Agora acredita que sou eu?
- Mas como?
Você morreu!
- Meu corpo físico morreu.
Meu espírito continua vivo.
- Por que foi para a Revolução?
Por que nos deixou órfãs?
- Fazia parte do nosso plano reencarnatório.
Obviamente contamos com o livre arbítrio para lazer nossas próprias escolhas, contudo, o seu espírito e o de Clara queriam passar por essas experiências.
- Eu nunca pedi para ser órfã, tampouco para ser estuprada - disse ela, numa voz furiosa e sentida.
Aureliano achegou-se à filha e sorriu.
- Você não tem consciência de suas vidas passadas, minha querida.
- Vidas passadas?
- Sim.
- Pensei que tivesse só essa.
- Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar.
Tal é a lei.
- Que lindo pai!
- Essa frase está escrita numa pedra, sobre o túmulo do Codificador do Espiritismo, Allan Kardec.
Tal inscrição sintetiza a concepção evolucionista da Doutrina Espírita.
- É muito sofrimento.
- Experienciamos o que nosso espírito necessita para desprender-se das garras da ilusão e caminhar em direcção à sua verdadeira evolução.
- Eu não precisava passar por isso...
Lilian sentiu uma lágrima quente escorrer pelo canto do olho.
Aureliano abraçou-a com carinho.
- Eu não posso lhe contar sobre sua última vida passada.
Mas entenda que tudo está certo.
Somos pólos de pura energia; por essa razão, atraímos situações em nossa vida de acordo com nossos padrões de pensamentos.
Você traz muita tristeza em seu coraçãozinho por conta do passado.
É hora de libertar-se dele.
- Como?
Sendo violentada? - inquiriu voz indignada.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 8:41 pm

- Filha, você foi muito irresponsável no passado.
Chegou a vender o corpo de sua própria filha para dar se bem na vida.
Você só está colhendo o que plantou, não importando se as sementes foram plantadas agora, dez, cem ou mil anos atrás.
Lilian sentiu um aperto no peito.
Num instante sua mente a levou a esta vida a que Aureliano se referia, e ela se viu com outro rosto, outro corpo, roupas usadas nos tempos medievais.
Ela tinha sido mulher muito bonita e queria subir na vida a qualquer preço.
Deu a filha de dez anos como presente a um fidalgo, caso conseguisse contrair matrimónio com um nobre.
- Eu fiz isso, pai? Fiz?
Aureliano assentiu com a cabeça.
- Todos neste planeta já fizemos coisas terríveis.
Faz parte do nosso processo de evolução.
Quanto mais conscientes de nossas escolhas, quanto mais inteligência e lucidez alcançarmos, melhor para o nosso crescimento espiritual.
- Mas tenho medo.
- De quê?
- Aquele homem vai voltar a qualquer momento.
- Eu não posso defendê-la.
Só posso vibrar amor.
- O que faço paizinho?
- Eu e outros amigos espirituais estamos tentando demover o homem de atacá-la novamente.
É o que podemos fazer.
- Ele vai obedecê-los?
- Fizemos o possível...
Lilian abraçou-se ao pai.
- Não quero mais voltar para casa.
Tenho medo de Dinorá.
- Você vai voltar para casa, mas sem a presença dela.
Dependendo da maneira como você for viver daqui para frente, ela não vai mais atrapalhar o seu caminho.
- Onde esta Clara?
- Está bem. Muito bem.
O coração de Lilian alegrou-se.
- Eu a amo muito.
- Ela sabe filha.
Quer dizer, o espírito dela sabe disso.
Você e Clara não tinham ligações de vidas passadas.
Em última existência terrena, você tentou matá-la.
- Jamais faria isso à minha própria irmã! - respondeu ela, voz entrecortada pela indignação.
- Não faria isso hoje porque está esquecida desse facto e porque entre vocês brotou o genuíno sentimento de amor.
Não há mais necessidade de vocês estarem juntas.
Você tem uma programação nesta encarnação.
Clara tem outro caminho a seguir.
- Se você me diz que ela está bem, meu coração fica mais sereno.
- Acredite em mim.
Ela está muito bem.
- Papai, quero mudar para melhor.
- Então pare dever-se como vítima do mundo.
- Eu?! Vítima?
- Sim. Acredita que é uma pobre coitada.
Reclama do mundo, das pessoas, de sua condição de órfã.
Isso é muito desagradável.
As pessoas não gostam de quem vive reclamando.
Só atrai para si experiências desagradáveis, pois pensamentos ruins atraem situações ruins.
Simples assim.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 8:41 pm

- Às vezes quero mudar, mas eu mesma sinto pena de mim.
- Pois não sinta mais!
- Como?
- Lute para mudar e melhorar.
Você pode. Aceite que é feliz e segura.
Tudo está bem em seu mundo.
Lilian repetiu para si:
- Sou feliz e segura.
Tudo está bem no meu mundo.
- Gostei. É assim que se deve proceder.
Viu como até seu corpo está melhor?
Ela olhou para si e notou que seu perispírito estava com uma coloração mais luminosa, mais brilhante.
- É só mudar o pensamento que tudo muda?
- Sim. Nada tão complexo.
Disciplinar a mente na direcção do bem é a nossa única tarefa nesta vida.
Não acreditar na maldade do mundo, pois dessa forma as portas de seu espírito estarão fechadas para ela.
Ligue-se no bem. Só no bem.
A garota respirou fundo.
- Só no bem.
- Agora tenho de ir.
Preciso seguir meu caminho e não poderei vê-la por um bom tempo.
- Nunca mais vamos nos ver?
Aureliano sorriu.
- Nunca mais é tempo demais.
Digamos que vamos nos reencontrar quando essa sua viagem pelo planeta chegar ao fim.
Lembre-se que eu a amo muito e sempre estarei lhe enviando o meu amor, não importa onde eu esteja.
- Eu o amo, papai.
- Também a amo muito, filha querida.
Aureliano falou e beijou-a no rosto.
- Fique em paz!
Em seguida, seu espírito sumiu e o armazém voltou a ficar escuro.
Já era noite.
Lilian mexeu o corpo, virou para o lado e sentiu o corpo alquebrado.
Abriu e fechou os olhos algumas vezes.
Estava tão cansada e debilitada que mal conseguia manter-se sentada.
Tentou lembrar-se dos últimos dias.
Dias de tormenta.
Dias de ira, de ódio, de dor e de revolta.
Imediatamente lembrou-se do sonho, do pai, das palavras de estímulo.
Disse para si:
- Tudo está bem no meu mundo.
Uma lágrima escapou pelo canto do olho.
Seu coraçãozinho tão apertado nos últimos dias recebeu um sopro de ternura e amor.
Mas logo voltava à realidade.
Havia quanto tempo estava naquele galpão sujo?
Havia quanto tempo aquele homem nojento deitava-se sobre seu corpo fraco e dolorido machucando-a sem dó nem piedade?
Ela não sabia precisar.
Sentiu sede e fome.
Seu estômago parecia não receber alimento havia um bom tempo.
Remexeu-se e com grande esforço conseguiu sentar-se.
Estava coberta com um lençol puído e encardido.
Lilian coçou os olhos com as costas das mãos.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 8:42 pm

Olhou mais uma vez ao redor.
Entre o monte de palha e sacas de café, havia uma mesinha com uma jarra de água e um copo.
Ela engatinhou e chegou até o pequeno móvel.
Sorveu o líquido com vontade e logo seu estômago roncou.
Não demorou muito e uma moça entrou no armazém.
Lilian atirou-se num canto, feito um bicho acuado.
Estava tão abalada com o que lhe ocorrera nos últimos dias que qualquer barulho a amedrontava.
Ouvir passos fazia seu coração querer saltar pela boca.
A moça aproximou-se, passos lentos e sorriu para ela.
- Oi.
- Quem é você?
- Eu sou a Marilda.
Lilian não respondeu.
- Trouxe um pouco de comida para você.
- Quem mandou?
Como sabe de mim? Como...
Ela a interrompeu com amabilidade na voz.
- Minha querida, não precisa ficar desconfiada de mim.
Eu sou uma boa pessoa.
- Não existem pessoas boas.
Se existisse...
Lilian não terminou a frase.
O pranto sentido era entrecortado por soluços.
Marilda aproximou-se e passou a mão em seu braço.
Delicadamente puxou-a e a fez se sentar.
- Sinto muito pelo que lhe aconteceu.
No entanto, estou aqui para ajudá-la.
Eu trabalho no hotel lá na cidade e, para engrossar o orçamento, faço limpeza em alguns galpões aqui no cais.
- Onde estou?
- Num armazém, no porto de Santos.
- Santos?!
- É.
- Como vim parar aqui?
- Não faço a mínima ideia.
- Por que esta aqui?
- Está desconfiada...
- Estou.
- Imagino o que tenham feito com você.
Sinto muito.
Eu estava limpando um galpão aqui próximo e escutei uma conversa entre estivadores.
Falavam de uma menina que estava abandonada num dos galpões.
Lilian abaixou a cabeça e voltou a chorar.
Logo abriu o maior berreiro, um choro descontrolado e muito sentido.
Marilda entristeceu-se.
Se ao menos tivesse chegado alguns dias antes, mas como saberia?
Aquela região era infestada de prostitutas.
Até ela mesma já havia sido confundida com uma profissional do sexo.
Prometera ao companheiro que deixaria esse serviço no cais.
Mas o que fazer?
Eles precisavam de dinheiro e essas horas extras de trabalho eram maneira digna de conseguir melhorar o orçamento, afinal, seu "marido" torrava tudo o que ganhava nas roletas dos casinos.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 25, 2016 8:42 pm

- Custo a crer no que lhe aconteceu.
Quanta barbaridade...
Ela não terminou de falar.
Lilian fez gesto afirmativo com a cabeça e disse:
- Ele me estuprou aquele desgraçado.
- Você é uma criança!
Não posso crer.
- Ele me machucou...
Lilian voltou a chorar.
Marilda sensibilizou-se e a abraçou.
- Sinto muito pelo que lhe aconteceu.
- Olhe o que aconteceu comigo.
Marilda viu o estrago.
Lilian estava bastante machucada.
- Eu vou levá-la daqui.
Vamos imediatamente para o hospital.
- Quero ir para casa.
- Não pode ir nessas condições.
Você foi muito maltratada.
- Mas preciso voltar.
- Onde você mora?
- Em São Paulo.
No bairro da Lapa.
- Quando você receber alta do hospital poderá ficar em minha casa.
É um lar humilde, mas vai gostar.
- Leve-me daqui, por favor.
Estou com medo.
Marilda tirou seu casaco e o colocou sobre o corpo molestado e cheio de hematomas da menina.
- Quer ir agora?
- Estou com fome. Muita fome.
- Sempre trago comigo algumas sobras de comida do hotel.
Mas é coisa boa.
- Não está com fome?
Você me arruma um prato de comida?
- Estou bem.
Você é quem precisa se alimentar.
Lilian nem terminou de ouvir.
Eram dois pratos virados um sobre o outro, amarrados com pano.
Ela desfez o nó, tirou o prato que se encontrava em cima.
Marilda entregou-lhe garfo e faca.
Lilian comeu com gosto.
- Calma garota.
Coma devagar...
Em poucos minutos havia limpado o prato.
- Se tivesse mais, eu comeria tudo de novo.
- Depois que sair do hospital vou lhe preparar mais comida.
Tenho mão boa para a cozinha.
- Obrigada, Marilda.
- Não há de quê.
- Podemos ir agora?
- Sim. É tarde, mas você não pode ficar neste lugar.
Tenho medo de que o tarado apareça.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 8:22 pm

Uma voz grave se fez ouvir na porta do armazém.
- Medo de quem?
As duas viraram os rostos numa sincronia perfeita.
Ficaram pálidas.
Lilian sentiu leve enjoo e quase regurgitou.
Marilda levantou-se e ficou na frente da menina.
- Não tem vergonha, não?
- Vergonha de quê?
- Como pôde fazer uma coisa dessas, seu monstro?
- Não fiz nada.
- Abusou de mim!
Covarde! - gritou Lilian, atrás de Marilda.
A risada forte ecoou pelo armazém.
- Ah, ah, ah! Eu só me diverti.
E agora tenho duas para me saciar.
Uma mais velha e uma mais nova!
- Se tocar um dedo na menina eu pulo no seu pescoço.
Zezão meneou a cabeça para os lados.
Sorriu e avançou.
Por mais que Marilda quisesse, ele era bem maior.
Deu um tabefe na cara dela tão forte que a moça rodou sobre o próprio corpo e caiu desfalecida no chão.
Ele aproximou-se de Lilian.
Seus olhos brilhavam e ele passava a língua entre os lábios.
- Agora é a sua vez, pequena.
Vem aqui brincar com o papai, vem.
Lilian sentiu novamente o terror apoderar-se de seu corpo.
Ela não tinha como fugir.
E também não queria entregar-se àquele monstro disfarçado de gente.
Tudo foi rápido demais.
Marilda tentava recobrar-se da bordoada.
Enquanto Zezão se aproximava, Lilian olhou para os lados.
Fixou o olhar no brilho reluzente da faca, ali ao lado.
Foi um gesto puramente instintivo.
Ela pegou a faca e pulou sobre Zezão.
Cravou a lâmina na barriga dele.
- Morra desgraçado!
Morra e queime no inferno, seu porco sujo!
Lilian sentiu uma força sem igual.
Zezão tombou ali na frente.
Logo uma poça de sangue espalhou-se em volta daquele corpo grandalhão.
Lilian puxou Marilda pelo braço.
- Vamos acorde!
- Hã...
- Marilda, pelo amor de Deus, acorde.
- O que foi?
- Eu o matei.
- O que disse? - Marilda arregalou os olhos e acordou de vez.
Olhou para o lado e quando viu a poça de sangue chegando próximo de seus pés soltou um grito abalado.
- O que aconteceu?
- Ele a esbofeteou e depois ameaçou estuprar-me de novo.
Eu tive de me defender.
Cravei a faca em sua barriga.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 8:23 pm

Marilda fez um esgar de incredulidade.
- Nossa Senhora!
É, acho que está morto.
- Leve-me para a polícia.
Quero contar tudo, tintim por tintim.
- Você tem razão.
Não tem nada a temer.
- O que faremos?
- Fique aqui.
- Não! Eu não quero ficar ao lado desse porco imundo.
- Querida, ele não vai mais fazer mal algum - Marilda disse e bateu no braço de Zezão.
Nada. Ela o beliscou e também o corpo permaneceu inerte.
- Aguarde que vou atrás da polícia.
Lilian fez que sim com a cabeça.
Marilda saiu e a menina sentou-se e abraçou as pernas.
Não queria ver aquele homem, aquela poça de sangue.
Ela jamais tivera a intenção de matar alguém.
Foi defesa. Ela não tinha escapatória.
A garota chorou.
Sentiu saudades de sua mãe, de seu pai, de sua irmãzinha querida...
O espírito de Aureliano aproximou-se e afagou-lhe os cabelos em desalinho.
- Não se torture minha filha.
Você fez o melhor que pôde.
Defendeu-se da melhor maneira.
A menina sentiu uma leve brisa tocar-lhe a face.
Esboçou sorriso tímido e escutou um gemido.
Imediatamente, lembrou-se de Aureliano.
- Pai, é você?
Ela levantou-se de um salto e sentiu uma mão pesada agarrada ao seu calcanhar.
Olhou para trás e custou a acreditar no que via.
Zezão a olhava com olhos injectados de fúria.
- Maldita fedelha! - vociferou.
Pensa que vai se livrar de mim?
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 8:23 pm

CAPÍTULO 19

Carmela vestiu-se com esmero.
Fez rapidamente o toucador e apanhou no armário um vestido em lã avermelhada, guarnecido de pespontos.
Os botões de madrepérola conferiam charme especial ao conjunto.
Ela olhou-se no espelho e gostou do que viu.
Jogou pó-de-arroz, um pouquinho de rouge e passou batom.
Parecia mais mulher que menina.
Ela espargiu suave perfume sobre si e depois apanhou as luvas brancas, o chapéu e a bolsinha.
Apareceu na cozinha e Milton assobiou.
- Como está bonita!
Parece que vamos a uma festa.
Maria meneou a cabeça para os lados.
- Essa menina adora vestir-se bem.
Tem bom gosto.
- Eu gosto de me vestir bem - tornou ela, ajeitando o chapéu e inclinando-o levemente para o lado.
Sou uma mulher que gosta de estar sempre bem-arrumada.
- Não sei como não tem namorado - falou Milton, coçando o queixo.
- Sinceramente não me importo com isso.
Tudo tem a hora certa para acontecer.
Ele consultou o relógio no bolso do colete.
- Está mais do que na hora.
Vamos pequena?
Carmela afirmou com a cabeça.
Beijou a mãe e logo estavam no estribo do bonde.
A garota era naturalmente simpática e não foi difícil para que Milton começasse a falar de si e de sua vida.
Era viúvo, tivera uma filha.
Conhecia a família dos Bulhões e Carvalho havia anos.
Trabalhara como funcionário da Câmara e aposentara-se com renda razoável.
Activo e bem-disposto fora contratado por Marcos para realizar a cobrança dos alugueis.
Era um bom trabalho.
Milton acordava cedo, metia o paletó, o chapéu e era adepto do pincenez, espécie de óculos sem haste que se fixa ao nariz por meio de uma mola.
Milton não era fã das coisas modernas.
Achava óculos algo estranho de se usar.
Saía de casa bem cedinho, no Cambuci.
Pegava o bonde no largo e fazia a cobrança dos inquilinos espalhados pela cidade.
A quantidade de imóveis alugados que Paulo Renato possuía era muito grande.
Deveria se reportar a Marcos, advogado responsável pelo departamento de alugueis.
Milton e Marcos se davam muito bem.
- Conte-me mais sobre sua vida, seu Milton.
Ele sorriu.
Era um homem solitário e sentiu grande prazer em abrir-se com Carmela.
Sentiu-se à vontade para falar de si próprio.
Milton casara-se cedo e tivera uma filha.
Era uma família feliz, contudo a esposa contraíra gripe espanhola e falecera em decorrência da doença.
A filha conhecera um rapaz, apaixonara-se e engravidara.
O escândalo fora algo muito difícil de Milton assimilar.
Perdera a mulher e, logo em seguida, a única filha engravidava de um malandro.
Eram coisas demais para sua mente tão arraigada a velhos conceitos sociais.
Carmela escutava com atenção.
- Imagino que lhe foi difícil tanta mudança em tão pouco tempo.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 8:24 pm

- E como! Eu briguei com minha filha.
Expulsei-a de casa.
- Por quê?
- Precisa perguntar isso? É evidente.
Ela foi deflorada por um marginal.
O desgraçado foi embora, sumiu.
- O que aconteceu depois?
- Recebi uma carta alguns anos atrás.
Ela foi viver em Santos.
Teve algumas complicações e perdeu a criança.
Arrumou emprego de arrumadeira no hotel Parque Balneário.
- Imagino o quanto ela deve ter sofrido.
Contava com a sua ajuda e apoio.
- Mas ela...
Carmela o cortou.
- Mas ela o quê?
Apaixonou-se, da mesma maneira como o senhor se apaixonou por sua esposa.
- É diferente.
- Não é.
- Minha mulher era pura quando se casou comigo.
- E que importância isso tem?
- Como?! Toda a importância do mundo!
Uma mulher deve se casar virgem. Essa é a lei.
- Que lei?
Milton coçou a cabeça.
- Ora, a lei dos homens.
É assim que é.
- Estamos conseguindo grandes avanços.
Viu como foi importante o papel da mulher paulista na Revolução?
- É verdade. Mas você é uma feminista.
Por acaso é fã de Perla Lutz ?
Carmela sorriu.
- Gosto muito dela.
Tem feito muito pela igualdade entre os sexos.
E luta pelo voto feminino.
Não acha que, se somos boas mães e esposas, por que não podemos participar da vida política do país?
- É que política sempre foi assunto de homem.
- E o que me diz da rainha Vitória da Inglaterra?
Foram mais de sessenta anos de governo.
Durante seu reinado a Inglaterra cresceu vertiginosamente, em vários aspectos.
Actualmente é uma potência.
- Falando assim, você me confunde.
É muito nova e muito esperta.
Ela sorriu.
- O senhor nunca parou para se perguntar quem criou ou por que sempre houve diferenças entre homens e mulheres?
Nunca se perguntou quem criou esse duro fardo que a mulher carrega até hoje?
- E que, bem...
- Por que razão o homem pode relacionar-se antes de se casar e a mulher não pode?
- Você faz muitas perguntas e está me deixando confuso.
- Não podemos julgar as pessoas pelos seus desejos.
Uma pessoa é medida pelo seu carácter, pelo seu coração puro.
Creio que o senhor é um homem assim, de bom coração.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 8:24 pm

Ele enterneceu-se.
Abaixou a cabeça e agradeceu.
Carmela prosseguiu:
- Seu Milton, o senhor ama a sua filha.
Eu não tenho dúvidas quanto a isso.
O perdão é algo divino.
- Eu já a perdoei. Aqui no coração.
- Mas não perdoou a si mesmo.
Isso sim é o verdadeiro perdão.
O senhor errou, deixou-se levar pelas convenções sociais e abandonou sua filha no momento em que ela mais precisava de seu suporte, de seu amor.
Ele sentiu o peito fechar-se.
- Sua filha se casou?
- Como? Depois do que aconteceu?
Que homem ia querer se casar com ela?
- Olhe o preconceito!
Acaso acredita que no mundo todos os homens são iguais?
- Não, mas...
- Diga-me, o senhor amava sua esposa de verdade?
- Com todas as minhas forças.
- Estou supondo, imaginando...
Vamos supor que sua esposa tivesse passado pelo mesmo "problema" que sua filha.
O senhor deixaria de amá-la por conta desse detalhe?
Milton mordeu o lábio inferior.
Exalou profundo suspiro.
- Por mais que tenha uma cabeça machista, eu era louco por Jandira.
Confesso que meu amor era maior que tudo.
- Por que a sua filha também não pode encontrar alguém que a ame sem levar em conta se ela é ou não é mais virgem?
- Bom, pode ser...
- Quanto anos ela tem hoje?
Ele contou nos dedos.
- Minha filha engravidou quando tinha dezoito anos.
Faz uns doze ou treze anos que tudo aconteceu...
Hoje ela deve estar com trinta, trinta e um anos.
- Ela é uma mulher jovem.
Pode encontrar alguém e ser feliz.
- Amo a minha filha.
Ela é a única pessoa que tenho no mundo.
- Escreva para ela.
- Não faço ideia de onde mora.
- Ela trabalha no Parque Balneário, certo?
- Sim.
- Escreva para ela e mande a carta para o hotel.
Tenho certeza de que ela vai ler e gostar muito.
- Tenho medo de que ela não me aceite de volta.
- Bobagem.
Não se deixe levar pela maldade de nossa mente condicionada pelos padrões do mundo.
A mente se alimenta de coisas negativas.
O amor que sente por sua filha é mais forte que tudo, mais forte que a maldade.
Dê força ao bem, aos bons sentimentos e logo terá uma grata surpresa.
- Acredita?
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 8:24 pm

- Eu acredito, sim.
E o senhor? - ela perguntou num gracejo.
Continuaram conversando sobre outros assuntos interessantes até chegarem à Praça do Patriarca.
Saltaram do bonde ali perto e dirigiram-se ao elegante edifício recém-construído.
Era menor que o prédio Martinelli, até então considerado o maior arranha-céu da cidade.
Contudo, esse prédio onde ficava o escritório de Paulo Renato era menor, porém bem mais imponente.
Entraram no prédio, tomaram o elevador.
Ao chegarem ao andar, Milton cumprimentou Inês.
Carmela lhe estendeu a mão e não gostou do que sentiu.
Os pelos de seu braço se eriçaram.
Ela respirou fundo e não se perturbou com a energia esquisita.
Em seguida, foram para a pequena copa.
Milton estava ávido por um copo d'água.
Inês a olhou de cima a baixo.
Carmela fixou seus olhos no dela.
- Algum problema?
Inês estava acostumada a encarar as pessoas e fazer com que elas se sentissem envergonhadas e acanhadas.
Carmela sustentou o olhar.
Isso nunca havia lhe acontecido antes.
Inês sentiu um baque no peito. Ficou sem graça.
- Não, problema nenhum.
É que estava aqui observando seu vestido.
Por acaso os botões são de madrepérola?
- São sim.
- Ah, muito bonitos.
Veio procurar pelo Dr. Paulo Renato?
- Não, vim acompanhar o seu Milton.
Com licença.
Enquanto Carmela se afastava e se dirigia à copa, Inês pegou o telefone e discou.
Ela precisava informar Selma de que uma "nova" mulher aparecera por lá.
E era uma muito bonita e muito chique, portanto, uma grande ameaça.
Milton olhou Carmela de esguelha.
- Não gostou de Inês?
- Tsk-tsk. Não simpatizei com ela.
Senti ser uma pessoa falsa e mesquinha.
- Tem bola de cristal ou algo do género?
Você nunca a viu e sente o mesmo que eu!
Só que eu sou cobra criada e a conheço há anos.
- Questão de sensibilidade.
Eu percebo a energia das pessoas.
- Como assim?
- Eu sinto se as pessoas estão bem ou não, se são verdadeiras ou falsas.
- Uma bruxa!
- Uma estudiosa da vida.
Se vivo entre humanos, preciso aprender como lidar com eles.
- Carmela, confesso que você é uma menina muito diferente do convencional.
Ela riu-se.
- Eu também me acho diferente.
Ele serviu-se de água e lhe ofereceu um café, que ela aceitou com um gracejo.
- É uma garota que tem cabeça positiva.
Eu queria ter essa cabeça, mas depois da Revolução tem muita casa para alugar.
Fico com medo de não ter trabalho.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 8:25 pm

- Tenho uma cabeça positiva mesmo.
Não tenho medo de nada.
- Estranho ouvir isso.
Sempre temos medo de alguma coisa.
- Eu não me deixo levar pela maldade do mundo.
Estou sempre do meu lado, assumo e sou feliz comigo mesma.
Amo-me incondicionalmente.
Por que motivo deveria ter medo?
Eu vim ao mundo para ser feliz, não para ter medo.
Milton ia falar, mas Carmela continuou:
- Esta cidade é uma locomotiva que não para de crescer.
A Revolução acabou, passou.
Não acredito que vamos ter outra por muito tempo.
Em breve as pessoas vão retornar para a cidade, sem medo, com vontade de trabalhar, de crescer, de evoluir.
Os imigrantes não param de chegar.
Prédios começam a ser erguidos.
Na verdade, creio que o senhor vai ter muito mais trabalho do que imagina!
Eles riram.
A jovem virou-se contra a porta para colocar sua xícara na pia.
Marcos entrou e foi logo perguntando para Milton:
- Resolveu o problema do imóvel na Lapa?
- Não resolvi nada, Marcos.
- Como não?
- Posso lhe explicar.
Trouxe até uma testemunha, pois não quero passar por incompetente.
Carmela virou-se e Marcos arregalou os olhos amendoados e vivos.
- Você?!
Ela abriu sorriso encantador.
- Oi! Como vai, moço?
- Eu... eu... vou bem.
Mas o que faz aqui?
- Eu sou a testemunha ocular.
Vim aqui para declarar que a inquilina fugiu na calada da noite e deixou a casa a deriva.
Seu Milton não pôde fazer nada, e você também não poderá fazer.
O contrato estava no nome de Aureliano.
Ele morreu. Dinorá foi enrolando, enrolando e sumiu.
- Como vou receber o dinheiro atrasado?
- Vá a um centro espírita e cobre do espírito de Aureliano.
Milton não conteve o riso.
Marcos abriu e fechou a boca.
- Essa pequena é uma parada!
- Vocês se conhecem?
- Encontramo-nos outro dia aqui perto - disse Marcos, voz entristecida.
- Você ficou de aparecer no dia seguinte para tomar um refresco comigo e nem deu sinal.
Deu-me um bolo.
- Eu não compareci porque aconteceram muitas coisas.
- Um pedido de desculpas viria a calhar.
- Desculpar-me de quê?
Não pude comparecer e pronto.
Águas passadas, meu rapaz.
Agora que expliquei o ocorrido, está na hora de ir embora.
Marcos empalideceu.
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Ave sem Ninho

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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 8:25 pm

- Não! Não vá.
- Quero dar uma volta ao redor da cidade.
Não é todo dia que venho até aqui.
Sabe que adoro passear.
- Vai olhar vitrinas?
- Pode apostar!
- Gostaria de almoçar comigo?
- Adoraria, mas trouxe somente o dinheiro da condução.
- Imagine! Estou convidando-a. Eu pago.
Ela mexeu os ombros de maneira graciosa e sorriu.
- Sendo assim, aceito.
Podemos fazer um lanche na Casa Alemã. Pode ser?
- Pode.
Carmela despediu-se de Milton.
- Foi um prazer conhecê-lo.
Quando quiser, apareça para tomar um café connosco.
É bem-vindo em nossa casa.
- Obrigado, pequena.
Ele a beijou no rosto e Carmela sussurrou em seu ouvido:
- Não deixe de escrever para sua filha.
Sinto que vocês têm muita coisa boa para viverem juntos.
Milton assentiu com um sorriso encabulado.
- Obrigado mais uma vez.
Que Deus a acompanhe.
Marcos pegou o chapéu e o paletó.
Arrumou-se e deu o braço para Carmela.
- Por favor, senhorita.
- Obrigada.
Na saída do escritório deram de cara com Selma.
- Paulo Renato não está no escritório.
- Eu sei. Vim trazer alguns papéis para ele assinar - mentiu.
É sua namorada?
- Uma amiga.
- Hã...
Selma afastou-se sem dizer mais nada.
Ficou intrigada.
Carmela era uma mulher muito bonita.
Vestia-se com graça e seu perfume tinha odor delicado.
Chegou na mesa de Inês.
- Era essa daí?
- Sim, senhora.
Liguei para o número que a senhora me deu tão logo ela chegou.
- Não vai me dar trabalho.
- Não sei, ela é tão bonita!
- Aquele almofadinha do Marcos está com as garras prontas para atacá-la.
Ela é linda, mas não é uma ameaça para mim.
Mesmo assim, bom trabalho.
Selma abriu a bolsa e tirou algumas notas de dinheiro.
- Tome.
- Obrigada.
- Fique de olho.
Qualquer mulher que pisar neste escritório, avise-me imediatamente.
- Sim, senhora.
Selma falou e saiu, batendo o salto.
Milton aproximou-se de Inês.
- Não sabia que era tão dedicada à Selma.
Inês nada disse.
Sua face ruborizou-se imediatamente.
Ela abaixou os olhos e voltou a executar seu serviço, fingindo dactilografar um documento.
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Ave sem Ninho

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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 8:25 pm

CAPÍTULO 20

Marcos e Carmela entraram no salão de chá da Casa Alemã.
Escolheram uma mesa e fizeram seus pedidos.
Enquanto Carmela tirava as luvas, falou contente:
- Adoro o centro da cidade.
Tão civilizado.
Lojas elegantes como a Casa Sloper e a Tecelagem Francesa...
Tanta coisa bonita.
- Gosta mesmo de passear, não?
- Adoro.
- Fiquei surpreso ao vê-la no escritório.
- Eu precisava fazer essa gentileza ao seu Milton.
- Ele é esforçado e sempre recebeu todos os atrasados.
Isso nunca aconteceu antes.
- É uma pena.
Eu era amiga das meninas.
Mas veja que situação mais triste:
Clara morreu e Lilian desapareceu.
- A mulher que morava na casa perdeu o marido na Revolução e a filha também morreu... e mudou-se à surdina...
É compreensível.
- Dinorá não era casada com Aureliano, ele era comissário da polícia.
E também não nutria amores pelas meninas.
Clara morreu, entretanto, Lilian não deve ter partido com Dinorá.
Ela teria me avisado.
- Como eu poderia ajudar você?
Quer ir à polícia?
- Eu não lenho nada, nem mesmo uma foto da minha amiga.
- Tenho amigos na polícia.
Se o pai dela era da polícia, tudo fica mais fácil.
Você ao menos sabe o nome completo dela?
- Sim. Lilian Lobato.
O pai se chamava Aureliano Lobato.
- Vou ver o que posso fazer.
Crê mesmo que ela está desaparecida?
Não foi embora com essa mulher?
- Duvido. Lilian não gostava de Dinorá.
E vice-versa. A única coisa que me intriga é ter sumido assim, sem se despedir de mim.
- Eu farei essa gentileza para você.
Os olhos de Carmela brilharam emocionados.
- Obrigada. Gosto muito de Lilian.
E sinto que ela não está bem.
- Como pode afirmar uma coisa dessas?
- Somos muito ligadas.
- Vou conversar com meus amigos da polícia hoje mesmo.
Vamos encontrar sua amiga.
Tenho certeza.
- Você é muito gentil.
Marcos sentiu um brando calor invadir-lhe o peito.
Procurou disfarçar.
- Está tão bonita!
- Gosto de me vestir bem.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 26, 2016 8:25 pm

- Imagino que o homem que se casar com você precisará de muito dinheiro para satisfazer seus desejos.
O garção aproximou-se e trouxe dois copos de suco e alguns petiscos.
Eles agradeceram e em seguida Carmela bebericou e estalou a língua no céu da boca.
- Hum, refrescante.
Pousou o copo na mesa e disse:
- Vestir-se bem não significa gastar tanto dinheiro.
Bom gosto e dinheiro são excelentes, mas não necessariamente precisam caminhar juntos.
E, além do mais, eu sei costurar.
Um vestido como este que estou usando sai bem mais barato que aquele de quinhentos mil que lhe mostrei na vitrina quando nos conhecemos.
Marcos estava encantado.
- Você tem irmãos?
- Não. Sou filha única.
E você?
- Também sou.
Sinto falta de um irmão.
- Temos algo em comum. - Ele sorriu.
- Temos mesmo.
Fale-me um pouco mais de você.
- Falar o quê?
- Ora, conte-me sobre seu temperamento, coisas de que gosta...
- Hum, pois bem.
Sou uma pessoa feliz.
- Só isso?
- Quer mais?
Sou feliz, tenho uma vida óptima, pais excelentes, sou saudável, moro num lugar que adoro, leio os livros que gosto.
Quer dizer, faço tudo o que gosto.
Sou uma pessoa simples na essência.
- Parece ter inúmeras qualidades.
- Como todo mundo.
Não listo as minhas, pois sei que as tenho.
As pessoas em geral têm qualidades fantásticas.
- Não é bem assim - ele deu um suspiro.
Existem muitas pessoas ruins no mundo.
- Eu prefiro enxergar de outra forma.
No mundo existem pessoas, de vários tamanhos, formas, idades, cores...
Elas não são nem boas, tampouco más.
São o que são.
Cabe a nós, com a mente saudável e livre de julgamentos, atrair pessoas agradáveis à nossa volta.
Eu só me relaciono com pessoas com as quais sinto afinidade.
- E quanto às pessoas ruins?
- Passam sem me machucar.
Eu não dou a mínima.
E o meu sexto sentido sempre afiado me faz ficar longe delas.
- Mas...
- O mal só pode entrar em você - apontou para o peito de Marcos - se você acreditar que ele existe ou carregar mágoas no coração.
Alguém de bem com a vida nunca vai atrair essas pessoas.
- Você fala como se nós fôssemos responsáveis pelas nossas relações com as pessoas.
- E somos!
Somos responsáveis por tudo o que nos cerca e tudo o que nos acontece.
E dessa forma que vamos aos tornando cada vez mais lúcidos rumo à evolução de nosso espírito.
Marcos estava estupefacto.
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Re: UM SOPRO DE TERNURA- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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