Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

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Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 10:30 am

Ela Confiou na Vida
Zibia Gasparetto

Pelo Espírito Lucius

ZIBIA GASPARETTO & LUCIUS

Zibia Gasparetto e suas obras contribuem para o fortalecimento da literatura espiritualista no mercado editorial e para a popularização do espiritualismo.
Seus romances nos permitem entender a importância do amor, o valor do perdão e a força que trazemos em nossa alma.
Seu primeiro trabalho como escritora foi o livro O amor venceu, ditado por seu mentor e companheiro Lucius.
A amizade entre os dois vai além da literatura:
para Zibia, ele tem sido um verdadeiro mestre.
Quando Lucius se aproxima, o pensamento da autora torna-se claro, lúcido, e ela se sente muito serena.
Com ele, a escritora aprendeu a observar os factos do dia a dia com os olhos da alma.
Aos 89 anos, Zibia já publicou mais de quarenta obras, entre romances, crónicas e livros de pensamentos, trilhando um caminho de fé, perseverança e compromisso com a espiritualidade.
Suas mensagens são compartilhadas por milhares de pessoas.
As coisas boas só ocorrem quando estamos conectados com o bem.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 10:30 am

Prólogo

Madrugada.
Na colónia Campos da Paz, um grupo de espíritos deixava um dos prédios, volitando rumo à crosta terrestre.
Na frente, uma jovem de rara beleza, rosto suave, cabelos castanhos, seguia de braços dados com Josias e Lauro.
Atrás, estavam duas mulheres, concentradas, mentalizando energias de luz sobre os três.
Pouco depois, iluminados pelos primeiros raios de luz que prenunciavam o novo dia, eles desceram em uma favela do Rio de Janeiro, pairando sobre um barraco por alguns instantes.
Os cinco uniram as mãos em prece, e Josias pediu emocionado:
— Senhor, estamos aqui, cheios de coragem e de amor, dispostos a fazer o melhor para realizar todos os projectos que acariciamos há tanto tempo.
Ajude nossa boa vontade, inspirando-nos.
Fortaleça Milena em sua trajectória terrestre, permita que possamos apoiá-la nos momentos de dificuldade e abençoe-nos com sua paz.
Josias abraçou Milena, que permanecera de cabeça baixa, e sentiu o quanto ela estava angustiada.
— Calma, querida.
Pense que estaremos ao seu lado em todos os momentos!
Milena estremeceu, levantou a cabeça e fixou-o assustada:
— Estou com medo, muito medo!
Eu pensei que estivesse preparada, pronta para voltar, mas estava enganada.
Sinto que ainda não está na hora de eu reencarnar.
Quero regressar para Campos da Paz!
Enquanto Milena soluçava aflita, os quatro abraçaram-na com carinho.
Depois, Lauro alisou os cabelos da jovem dizendo:
— Coragem, filha!
Está tudo certo.
Você está reagindo ao magnetismo pesado deste local.
Acalme seu coração.
— Vou esquecer o passado e tudo que aprendi.
Preciso de mais tempo, aprender mais, ficar mais forte.
— Você vai esquecer parte das lembranças.
O passado continuará vivendo em seu subconsciente e sua intuição é suficientemente forte para auxiliá-la em todos os momentos.
O importante é não dar importância às interferências negativas, que fazem parte da atmosfera da Terra e podem impressionar sua mente.
Lembre-se de que seu espírito tem a luz divina dentro de si e anseia pela manifestação do bem.
Agindo de acordo com o que sente no coração, você terá condições de realizar tudo o que deseja — esclareceu Josias e continuou:
— Coragem.
Lembre-se de que você é um espírito eterno, criado à semelhança de Deus.
Ele colocou dentro de você tudo de que precisa para desenvolver e fazer brilhar sua luz! Confie!
Milena levantou a cabeça com altivez e em seus olhos havia um novo brilho, quando ela respondeu:
— Tem razão.
Desculpem minha fraqueza.
Vamos em frente! Estou pronta.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 10:30 am

— Graças a Deus! — disseram os quatro ao mesmo tempo.
Nesse momento, um raio de luz amarela e brilhante desceu do alto sobre eles, e os cinco penetraram no barraco através do telhado.
Na cama, um casal estava deitado.
Ele, negro, forte, de uns trinta anos, estava adormecido; ela, branca, franzina, aparentando vinte e poucos anos, revirava-se na cama respirando com dificuldade.
O grupo postou-se ao redor do casal.
Milena ficou atrás da cabeceira, estendeu as mãos sobre eles enquanto os demais faziam o mesmo.
Josias aproximou-se da mulher que dormia, colocou a mão direita sobre o peito e a esquerda sobre a testa dela e, aos poucos, sua respiração foi se normalizando.
O rapaz acordou, olhou-a preocupado e perguntou:
— Você está bem?
— Eu não estava, mas melhorei.
Amanhã vou passar no médico.
Vamos ver se ele me atende.
O homem colocou a mão sobre a barriga da mulher:
— Se eu estivesse trabalhando, teria dinheiro para pagar um médico particular.
Quero que nosso filho venha com saúde.
— Ontem conversei com dona Lurdes.
Ela me disse que meu caso precisa de médico.
— Como ela pode saber?
Não é estudada nem nada.
— Mas ela tem cinco filhos, entende disso.
Enquanto eles conversavam, dois espíritos doavam-lhes energias, passando as mãos pelos pontos magnéticos do corpo do casal durante certo tempo, e, no final, estenderam as mãos sobre a testa de cada um, irradiando-lhes pensamentos bons.
— Sabe, Joana... — disse ele de repente e continuou:
— Hoje vou sair para procurar emprego.
Estou sentindo que uma coisa boa vai acontecer.
A mulher abanou a cabeça negativamente:
— Não sei não.
Você tem procurado tanto!
Vida de pobre é assim... tudo é difícil!
— Eu não vou desistir.
Estou disposto a pegar qualquer coisa.
— Ontem, eu fui ao centro da dona Áurea e ela me deu a cesta do mês.
Veio também algumas roupinhas de nené.
Ela mesma fez os sapatinhos de lã. Uma beleza!
— Ainda há gente boa neste mundo.
Não podemos desanimar.
Vai dar tudo certo.
Nossa vida vai melhorar.
Ela pensou um pouco e tornou:
— Gostaria de acreditar nisso.
Se pelo menos eu me sentisse melhor, poderia ir à casa da dona Vera para passar roupa, ganhar algum dinheiro.
— Nada disso.
Seu estado pode piorar. Enquanto não passar pelo médico, não vai trabalhar.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 10:30 am

Estava clareando, quando ele se levantou e ela fez menção de erguer-se.
— Fique deitada.
Eu vou fazer o café e esquentar o pão.
— Desse jeito, até parece que estou doente.
Eu só estou grávida.
— Você já sofreu um aborto e, desta vez, eu não quero que isso aconteça.
Deixe que eu faço o café.
Aproveite, porque é só agora!
Quando eu souber que está bem, vou abusar.
Joana sorriu e respondeu:
— Pare com isso, Gerson.
Não quero lembrar essas coisas.
Ele acendeu o fogo e, enquanto a água fervia, lavou o rosto e vestiu-se.
Depois, coou o café, esquentou o pão, colocou café nas duas canecas, entregou uma para ela, que, recostada no travesseiro, apanhou a bebida quente e se sentou, por fim, na beira da cama.
Entre um gole e outro de café, ela comentou:
— Até que você fez um café gostoso.
— Não vá se acostumar! É só enquanto estiver de repouso.
Joana riu e perguntou:
— Você me disse que vai procurar emprego, mas tem dinheiro para a condução?
— Não, mas eu me viro.
Tenho boas pernas.
Joana suspirou triste e depois disse:
— Não quero que dê conversa para o Nicola.
Não gosto dele.
Acho que anda metido com gente perigosa.
Ele vive atrás de você.
O que tanto ele quer?
— Não sei, Joana.
Ele é cheio de conversa difícil, se julga muito inteligente, não trabalha, de vez em quando descola grana, não se sabe de onde, mas eu também não confio nele.
Não quero me meter em confusão.
Meu pai sempre me ensinou que o melhor negócio ainda é o trabalho.
— Ainda bem.
Ele era tão bom!
Pena ter morrido tão moço.
Não sei por que gente boa morre cedo.
Já nos maus, que vivem atentando os outros... nada pega neles.
Vivem bem.
— Não acredito nisso.
A maldade tem volta e um dia a casa cai.
Bem, eu já vou.
Aproveite para descansar — Gerson beijou a esposa com carinho e saiu descendo o morro.
Uma das mulheres do grupo de espíritos acompanhou-o, enquanto no barraco Josias e Lauro se despediam de Milena.
— Nós precisamos ir, mas estaremos unidos.
Se precisar de qualquer coisa, é só nos chamar — disse Josias abraçando Milena.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 10:30 am

— Dalva ficará com você.
Não se preocupe com nada.
Tudo está sob controle.
Estamos juntos — tornou Lauro.
Eles se foram, e Milena desabafou com Dalva:
— A energia daqui ainda está pesada.
— É que os dois estão preocupados, com medo do futuro.
A ligação magnética entre você e eles já começou.
Joana está menos confiante do que Gerson, e você está sentindo o magnetismo dela.
— Às vezes, sinto vontade de deixar este lugar, sair correndo e voltar para Campos da Paz.
Dalva alisou os cabelos de Milena com carinho e disse:
— Aos poucos, você vai se adaptar.
— O tempo vai custar a passar.
— Nem tanto.
Quando a ligação se consolidar, você não precisará ficar aqui até o momento do nascimento.
Ficará no astral, preparando-se, e só voltará aqui no momento do nascimento.
— Quando você diz isso, eu fico arrepiada.
Não é nada fácil nascer.
Dalva sorriu e respondeu:
— Na Terra, todos têm medo da morte, mas nascer é mais difícil do que morrer.
O melhor é saber que todas essas experiências são necessárias para a conquista do progresso.
É preciso olhar a inteligência da vida e saber que tudo que ela faz é certo.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 10:31 am

Capítulo 1

Gerson entrou em casa eufórico, carregando alguns pacotes.
Joana levantou-se alegre, enquanto ele colocava os embrulhos na mesa.
Ela disse sorrindo:
— Pelo jeito você recebeu!
— Recebi sim! E foi mais do que eu esperava.
Comprei tudo que faltava e agora nosso filho já pode chegar.
Não deu para muita coisa, mas pelo menos ele terá o que vestir.
Joana quis abrir um dos pacotes, mas Gerson pediu:
— Deixe que eu faço.
Sente-se, que eu lhe mostrarei.
Ela obedeceu, e Gerson abriu o embrulho onde havia algumas roupinhas para bebé e colocou-as no colo da esposa que, encantada, alisava as peças.
— São lindas! Ainda bem que você conseguiu.
Dona Áurea disse que estava preparando um enxoval para me dar, mas ainda não veio.
Eu não posso ir até lá para saber se já chegou.
O médico do posto disse que a criança está para nascer por esses dias e até já me deu a carta para a internação.
— Comprei o que o dinheiro deu.
Tive de reservar uma parte para a despesa da quinzena.
Só vou receber de novo daqui a duas semanas.
— O que importa é que, quando nascer, o bebé já terá o que vestir.
E o outro pacote, o que é?
— Vou lhe mostrar.
É pano para fazer as fraldas.
Gerson abriu o pacote, colocou o pano no colo da esposa, que o abriu e observou:
— Veja, é fácil fazer.
É só cortar onde está marcado e pronto.
Dona Ana disse que vai fazer as bainhas.
Se eu tivesse uma máquina de costura, eu mesma faria.
— Você não pode operar uma máquina agora.
Mesmo que tivesse uma, não a deixaria na sua mão.
Quero que nosso filho venha na hora certa e com saúde.
Vai ser um meninão!
Nos domingos, quero sair com ele, me divertir.
Joana ficou calada durante alguns segundos e depois disse:
— Você fica aí falando que vai ser menino, mas... e se vier uma menina?
A gente não sabe ainda.
Gerson olhou assustado e respondeu:
— Não diga isso nem por brincadeira!
— Nós temos de aceitar o que Deus nos mandar.
Quem escolhe é Ele!
— Mas Ele não vai fazer isso comigo.
Filha mulher só dá trabalho.
Como nós vamos tomar conta dela?
Já um menino é mais fácil.
Você pode soltar para a vida.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 10:31 am

Joana pensou um pouco e depois sentenciou:
— Tanto um como outro podem dar trabalho se não tiverem juízo.
É preciso saber educar um filho.
— É, mas eu prefiro menino.
— Minha mãe sempre dizia que um filho sempre traz boa sorte, se você souber lhe dar valor. Não importa o sexo da criança.
- Sabe que ela tinha razão?
Foi depois que você ficou grávida que eu arranjei emprego com carteira assinada.
Eu nunca tinha conseguido isso.
— Veio em boa hora, ainda mais que eu tive de parar com as faxinas.
A noite já havia descido sobre aquela faixa da Terra, e o casal continuava conversando, quando um grupo de espíritos, envolvido em uma luz amarelada muito clara, entrou pelo telhado do barraco.
Josias e Lauro, um de cada lado, seguravam a alça de um cesto almofadado, envolvido por uma luz de tom azul-claro, onde havia um bebé adormecido.
Maria os acompanhava.
Dalva, que estava no barraco, apressou-se em recebê-los.
— E então, está na hora?
— Sim — respondeu Josias.
— Ela está bem?
— Está.
Uma faixa de luz veio do alto em direcção à cabeceira da cama, sobre a qual Josias e Lauro colocaram o cesto.
Depois, Dalva postou-se na frente de Joana, enquanto Maria se posicionava atrás da gestante.
Juntos, os espíritos levantaram as mãos e começaram a orar e de suas mãos saíam luzes coloridas que caíam sobre Joana.
Ela, então, começou a bocejar, e Gerson comentou:
— Já está com sono?
— Estou. Vou me deitar.
— Está bem.
Eu também estou cansado.
Vou dormir.
O casal se deitou e logo adormeceu.
O espírito de Gerson deixou o corpo e saiu do barraco rapidamente.
— É melhor que ele não esteja aqui — comentou Josias.
O espírito de Joana saiu do corpo e ficou ao lado, sentindo-se exausto e temeroso.
Lauro aproximou-se, concentrou-se e ouviu os pensamentos de Joana:
— Não aguento mais. Estou sem ar.
A dor nas costas não me deixa dormir.
E se meu filho nascer doente?
Será que vai ser perfeito?
Estou com medo.
E se eu morrer como a mulher do João?
Meu Deus, por que eu fui inventar de ter um filho?
— Precisamos acalmá-la. Está confusa.
Tem medo de que a criança não nasça perfeita — Lauro comentou.
— Vou ajudá-la.
Você a apoia, enquanto eu mostro o bebé a ela — sugeriu Josias.
Enquanto Lauro colocava a mão na nuca de Joana, Josias foi até o cesto e tomou o bebé nos braços com carinho.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 10:31 am

Nesse momento, a criança abriu os olhos e, vendo-o, sorriu.
Josias colocou o bebé diante do espírito de Joana e, ligando-se a ela, disse:
— Veja, Joana, esta é Milena, sua filha!
Ela é linda e saudável.
Joana, espírito, viu Josias segurando o bebé, que, de olhos abertos, a fitava e sorria.
— É uma menina — gritou Joana.
E é muito linda!
A emoção foi tamanha que ela mergulhou no corpo e acordou, tendo ainda nítida aquela visão.
Gerson acordou assustado e perguntou:
— O que foi, mulher?
Está se sentindo bem?
— Agora estou.
Nós vamos ter uma menina e ela vai ter saúde!
O nome dela é Milena.
Deus seja louvado!
— Como você pode saber disso?
— Eu a vi. É linda e saudável!
Graças a Deus!
— Foi só um sonho! — Gerson duvidou.
— Não foi! Ela está aqui e se chama Milena.
Joana afirmou isso com tanta segurança que Gerson, embora não acreditasse muito no que ouvira, respondeu para confortá-la:
— Está certo.
Se for menina se chamará Milena.
Feliz, Joana suspirou, passou o braço sobre o marido e adormeceu novamente.
Uma hora depois, acordou sentindo uma cólica forte e sacudiu o marido dizendo:
— Acorda, Gerson!
Estou com muita dor!
Ele pulou da cama:
— O que está sentindo? Será que chegou a hora?
Joana sentou-se com a mão na barriga e disse aflita:
— Corra! Vá chamar dona Lurdes!
- Eu vou avisar o João.
Nós vamos para o hospital!
Gerson correu para acordar o amigo, que lhe prometera levá-los ao hospital quando chegasse a hora do nascimento.
João apareceu em seguida e precisou ajudar Gerson a carregar Joana até o carro, uma vez que ela não aguentava andar.
Acomodaram-se no carro, e Gerson, vendo que o dia já estava começando a clarear, olhou para o rosto crispado de dor de Joana e disse preocupado:
— Que Deus nos ajude e tudo corra bem!
— Vai correr sim, Gerson.
Deus é grande! — respondeu João.
Eles não podiam ver, mas o grupo de amigos espirituais, que acompanhara Milena desde o início, estava ao lado deles, com a fisionomia calma e certos de que tudo correria bem.
O parto foi normal.
A menina chorou forte, mostrando que viera ao mundo com saúde e disposta a viver.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 10:32 am

Joana chorou comovida quando uma enfermeira colocou a filha em seus braços, dizendo:
— Veja, mãe, que filha linda você tem!
— O nome dela é Milena! — foi tudo o que Joana conseguiu dizer engasgada pela emoção.
— É um nome lindo!
Vou cuidar dela agora.
Mais tarde a levarei à enfermaria para você.
Uma onda de alegria envolveu o coração de Joana.
Enquanto o médico terminava o atendimento, ela, comovida e em silêncio, murmurou uma sentida prece de agradecimento a Deus por lhe ter dado uma filha.
Mais tarde, quando Gerson foi vê-la na enfermaria, a primeira coisa que Joana lhe disse foi:
— Eu não disse que era uma menina?
Ela vai se chamar Milena.
Apesar de se sentir um pouco desapontado por não ganhar o tão esperado menino, Gerson respondeu:
— Está bem. Será Milena.
Veio menina, mas eu não desisto.
Logo vamos ter outro e será um menino.
— Vire essa boca pra lá!
Eu não quero mais filhos, pode esquecer.
— Um é pouco. Eu quero um menino.
— Quem tem de aguentar o peso da barriga e as dores do parto sou eu!
Acho que chega. Está de bom tamanho.
Gerson riu com gosto e depois comentou:
— Com o tempo, você esquece.
Se fosse assim, nenhuma mulher teria outros filhos.
O horário de visita acabou, e Gerson deixou a enfermaria para ir até o berçário ver a filha.
Assim que ele se aproximou do vidro, a enfermeira segurou Milena e levantou-a para que o pai a visse.
A menina dormia tranquila, e ele se comoveu pensando que aquele pedacinho de gente era sua filha.
Depois, examinando-lhe os traços, tentou ver com quem ela se parecia.
Mas a pele morena clara, o rosto redondo e os traços delicados indicavam que ela não se parecia com ninguém.
João aproximou-se dizendo:
— Eu sabia que você estava aqui babando, como todo pai de primeira viagem.
Quando estiver no quarto filho, como eu, estará acostumado.
— Ela é linda!
João balançou a cabeça sorrindo:
— Isso é coisa de pai!
Todo recém-nascido é igual, Gerson!
Só quando cresce fica com cara de gente.
— Que nada! Ela tem traços delicados como os de Joana e a pele mais clara do que a minha.
João riu com gosto e comentou:
- Claro que ela não tem a sua cara! Você é muito feio!
Gerson levantou o rosto com altivez e respondeu:
— Mas muitas mulheres me fazem pensar o contrário!
Estão sempre dando em cima de mim!
Já você, mesmo sendo mais claro que eu, não tem vez com elas.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 10:32 am

— Deixe de conversa e vamos comemorar!
Você não vai pagar uma cerveja para o seu amigo aqui?
— Vou sim. Estou aliviado. Deu tudo certo.
— Agora é que tudo vai começar.
Você vai ver que seu sono acabou!
E quando crescem, ficam ainda piores.
Filho só serve para dar trabalho e tirar a gente do sério.
— Deixe disso. Você fala de barriga cheia.
Seus filhos são óptimos.
João sorriu satisfeito.
Nada o agradava mais do que ouvir elogios direccionados a seus filhos.
Três dias depois, Gerson foi buscar a mulher e a filha na maternidade.
Ao ver Joana feliz, com a filha nos braços enrolada em uma manta cor de rosa, emocionou-se e tentou dissimular.
Não queria parecer mole.
Joana descobriu o rostinho da menina e disse sorrindo:
— Veja como ela é linda!
Nesse momento, Milena abriu os olhos e fixou-os no pai.
Gerson não se conteve:
— Ela está me conhecendo!
Sabe que sou o pai dela!
Joana riu e comentou:
— Não seja bobo.
É cedo para ela saber disso.
Milena estava com a mãozinha fechada, e Gerson tentou examiná-la, quando foi surpreendido pela bebé, que segurou um dos dedos do pai com força.
Ele comentou:
— Viu? Ela sabe quem sou eu!
Joana riu, balançou a cabeça e perguntou:
— O João veio com você?
— Veio. Está no carro nos esperando.
— Ele tem nos ajudado muito.
Temos de agradecer.
— Eu sempre disse que ele um dia seria nosso compadre.
Vamos dar Milena para ele baptizar.
— É, vamos ver.
Meia hora depois, eles estavam subindo o morro parando aqui e ali, para receber os cumprimentos de alguns amigos que queriam ver a menina.
Joana afastava a fralda que colocara sobre o rostinho da filha a fim de protegê-la e sorria orgulhosa ao ouvir os elogios.
Ao entrar em casa, notou que tudo estava arrumado.
Havia um caldeirão sobre o fogão, garrafa térmica e pão sobre a mesa.
Joana colocou o bebé na cama e destampou o caldeirão no qual havia uma canja.
Gerson aproximou-se:
— Foi a Zefa. Ela veio com o João, trouxe uma sacola e disse que ia deixar tudo pronto, porque você precisa descansar e se alimentar bem.
Ela vem mais tarde para nos ajudar.
— Que bom. Ela vai me ensinar como cuidar da menina.
É tão pequena... tenho medo.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 10:32 am

— Ela é pequena, mas é muito forte!
Viu como segurou meu dedo?
Não precisa ter medo.
— Milena precisa tomar banho todos os dias, e a enfermeira me ensinou como se faz.
Mas eu não sei se vou me lembrar de tudo e conseguir fazer as coisas direito.
— Vou esquentar o leite para você tomar.
Tem pão fresquinho também.
Estava quente quando comprei.
— Eu tomei café no hospital, mas acho que vou tomar de novo.
Esse pão está com uma cara...
— Vou lhe fazer companhia.
Estou de folga hoje.
Gerson esquentou o leite, e o casal sentou-se para comer.
— Ainda não deu para comprar o berço — comentou Joana.
Na semana que vem, vou voltar a trabalhar na casa da dona Vera.
— Nada disso. Você está de resguardo.
Depois, tem de cuidar da Milena. Vou comprar o berço quando receber o pagamento na semana que vem. Você agora tem de ficar em casa.
— Dona Áurea me disse que estava para ganhar um berço e que, quando ele chegasse, ia me dar.
Mas eu não sei quando isso vai acontecer.
— Eu queria muito comprar um novinho pra ela — Gerson comentou.
— É, eu também.
Mas se não precisarmos comprar o berço, talvez possamos comprar um carrinho.
— Eu encostei duas cadeiras no canto da parede e aproximei a cama.
Assim, ela não vai cair.
Joana foi ver o arranjo e concordou:
— Ficou macia.
— São as suas almofadas.
Deu certinho.
Milena começou a chorar, e Joana pegou-a nos braços e começou a balançá-la lentamente.
Vendo que a menininha procurava algo com a boca aberta, disse:
— Ela deve estar com fome.
Joana acomodou-se e ofereceu o seio, mais volumoso do que de costume, à filha.
Milena, então, começou a sugá-lo, enquanto Gerson contemplava a cena emocionado.
Ele nunca imaginara que aquela criança tão pequena pudesse provocar-lhe tantas emoções.
Sentia-se forte, motivado a trabalhar, progredir na vida, ter tudo do bom e do melhor, para que Milena pudesse ser feliz.
Gerson sentou-se na cama ao lado da esposa e da filha e ficou observando-as.
Depois de alguns minutos, disse sério:
— Estou pensando em arranjar um trabalho extra.
Joana fixou-o admirada:
— Você trabalha o dia inteiro.
Não tem tempo para isso.
— Ah! Estive olhando o povo que vende coisas na rua e pensei em trabalhar nas horas de folga.
— Para isso, você precisa ter dinheiro para comprar as mercadorias para vender.
— Não quero vender mercadorias.
Estive observando, Joana...
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 10:32 am

O que mais vende é comida, principalmente na praia.
Eles conseguem vender tudo o que oferecem.
— Praia funciona de dia, Gerson, e você trabalha o dia inteiro.
— Posso começar nos fins de semana.
Joana riu e perguntou:
— Você não sabe cozinhar.
O que pensa em vender?
— Sanduíches. Qualquer um sabe fazer sanduíches.
Acho que posso fazer isso.
— Mesmo assim, você precisa ter um capital para começar o negócio.
E as sanduíches têm que ser saborosos e terem boa apresentação.
Você não pode sair por aí com qualquer coisa.
Gerson levantou a cabeça e disse firme:
— Eu sei disso.
Quero fazer uma coisa gostosa e com muita limpeza. Amanhã é sábado.
Estarei de folga, então vou dar uma volta por aí.
Quero observar os melhores vendedores e aprender como eles trabalham.
Joana ficou pensativa durante alguns minutos e depois considerou:
— Sabe que é uma boa ideia?
Eu posso ajudá-lo, e nós, juntos, poderemos melhorar de vida.
No dia seguinte, Gerson foi circular pela praia para observar os vendedores.
Uma mulher de meia-idade circulava pela areia, oferecendo salgadinhos que levava em uma cesta de vime com alça, forrada com panos de prato muito alvos.
Ele a seguiu e notou que, em menos de uma hora, ela vendera tudo.
Gerson aproximou-se da mulher e disse:
— Que salgadinhos a senhora tem aí?
Ela olhou-o, sorriu e respondeu:
— Agora nada. Acabaram.
— Que pena. Disseram que os seus são os melhores.
— Eu capricho mesmo.
Mas amanhã estarei de volta às dez da manhã. Apareça.
A vendedora se foi, e Gerson circulou pela praia mais um pouco.
Depois, passou na padaria, perguntou alguns preços e foi para casa pensando no que faria.
Assim que chegou, contou a Joana tudo que observara e finalizou:
— Na próxima semana, receberei o pagamento e comprarei algumas coisas para começar a fazer algumas sanduíches.
Além disso, vou precisar de uma cesta, panos de prato e guardanapos de papel.
— Você acha que isso vai dar certo?
— Acho. Só não sei se o dinheiro vai dar para tudo.
— Temos que guardar para as despesas.
- O que me animou foi que todos pagam os lanches na hora, com dinheiro vivo.
Vou gastar, mas também receberei em seguida.
E o lucro das vendas vai dar para dobrar a quantidade de sanduíches.
Vou comprar tudo de primeira, de qualidade.
As pessoas gostam do que é bom.
Não vou economizar. Quero fazer freguesia.
— Eu quero ajudá-lo.
Que sanduíches você vai fazer?
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 10:32 am

— Estou pensando.
Por enquanto, dois tipos só.
Sanduíches simples, mas gostosas.
Gerson sentou-se na beira da cama e comentou:
— Minha mãe fazia cada sanduíche gostoso!
— Ela foi cozinheira de dona Julieta durante muitos anos.
Até hoje, quando encontro dona Julieta na rua, ela pergunta por você e diz que, depois que dona Maria morreu, nunca mais encontrou outra cozinheira igual.
Gerson ficou pensativo durante alguns instantes e depois comentou:
— Se ela estivesse viva, nos ajudaria.
Sinto muito a falta dela.
— Dona Julieta me contou que, outro dia, sonhou com sua mãe.
Ela lhe pedia que nos ajudasse.
Foi por causa disso que dona Julieta nos deu aquelas roupinhas para Milena.
Você acha que foi mesmo a alma de dona Maria que fez esse pedido?
— Não sei. Por que está dizendo isso?
— Porque dona Áurea disse no centro que a alma de sua mãe estava perto de mim.
Eu fiquei com medo, mas depois pensei...
Dona Maria era muito boa e gostava muito de mim.
Ela não iria me fazer mal.
— Claro que não.
Minha mãe sempre foi muito boa.
Na próxima semana, vou receber o pagamento e preparar tudo.
Se tudo der certo, no fim de semana que vem, vou começar a trabalhar na praia.
— Tomara que dê tudo certo.
Milena começou a chorar, e Joana apressou-se a pegá-la no colo, enquanto Gerson apanhava um pedaço de papel e fazia contas para saber quanto dinheiro ia ter para começar o negócio.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 10:33 am

Capítulo 2

Fazia alguns meses que Gerson havia começado a vender lanches na praia e, a cada dia, sua freguesia aumentava.
Joana o auxiliava, e o dinheiro obtido com as vendas começou a se multiplicar.
O casal o guardava em uma velha bolsa de couro que Joana ganhara e a colocava embaixo do colchão.
Uma manhã, João foi visitá-los e surpreendeu-os contando o dinheiro diante da bolsa aberta.
Então, disse admirado:
— Vejo que estão ganhando dinheiro!
— Estou até pensando em sair do emprego para ter mais tempo para trabalhar na praia.
— Cuidado! Você não pode deixar todo esse dinheiro em casa!
É muito perigoso — recomendou João.
— Nós o escondemos debaixo do colchão.
Ninguém vê — esclareceu Joana.
— Estão facilitando.
A malandragem anda solta.
Amanhã, você vai abrir uma conta no banco para depositar o dinheiro!
Gerson pensou um pouco e respondeu:
— Às vezes, sinto medo.
Nunca entrei em um banco e não sei como abrir uma conta.
Depois, como vou tirar o dinheiro para fazer as compras?
— Não se preocupe.
Você vai poder usar cartão e cheque para fazer compras.
Por ora, separe o dinheiro que vai precisar durante uma semana e deposite o restante no banco.
É mais seguro.
Pensativo, Gerson coçou a cabeça, e João reforçou:
— Você agora é um comerciante.
Um homem de negócios.
O banco existe para proteger seu dinheiro.
— Quanto o banco vai me cobrar para fazer isso?
— Pequenas taxas.
Mas vale a pena.
Você vai poder dormir sossegado.
E, mais adiante, poderá até aplicar algum dinheiro e ganhar uma boa quantia com isso.
— Você acha mesmo que eles vão abrir uma conta pra mim?
— Acho. Você é um trabalhador honesto, sabe ler e escrever, seus documentos estão em ordem.
Eles vão até ficar honrados em fazer isso.
— Está bem. Amanhã cedo, vamos ver isso de perto.
Não foi difícil para Gerson abrir a conta e depositar o dinheiro no banco.
Satisfeito, ele deixou a agência ao lado do amigo, com um comprovante de depósito no bolso, sentindo-se orgulhoso do próprio progresso.
Mais tarde, chegou alegre em casa e exibiu os documentos para Joana, que sorriu entusiasmada:
— Eu sabia que você ia fazer tudo certo.
O compadre sabe lidar com essas coisas.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 01, 2016 10:33 am

— Agora eu estou aprendendo e garanto que sei fazer contas muito bem.
Ninguém vai mais me passar a perna.
— Isso merece uma comemoração — disse João.
Mais tarde, vou trazer uma carne para a Zefa temperar.
Vou pedir a ela para preparar uma boa salada de batatas, e vamos fazer um churrasco.
— A Joana vai fazer uma deliciosa limonada, bem gelada.
Quando João se foi, Joana fixou o marido e tornou:
— Que história é essa de você dizer que vai deixar o emprego?
— Eu fiz as contas e cheguei à conclusão de que posso ganhar muito mais se me dedicar só ao nosso negócio.
Posso economizar e comprar até um carrinho, bonito, moderno, com guarda-sol e tudo.
— Creio que ainda é cedo para pensar em sair do emprego, Gerson.
O que vai fazer no inverno, quando a praia ficar vazia?
Você está vendendo bem porque no verão a praia fica cheia.
Assim que o tempo esfriar, ninguém mais vai para lá.
— Puxa! Não tinha pensado nisso!
Gerson ficou em silêncio por alguns segundos e depois disse:
— Mas, se eu já tiver o carrinho, posso vender cachorro-quente ou outra sanduíche quentinho nas escolas.
Ninguém vai deixar de ir à escola por causa do frio.
Joana riu com gosto:
— Você pensa em tudo!
Mas um carrinho desses é caro.
Vai levar um tempo para podermos comprá-lo.
E você ainda vai ter de tirar a licença na prefeitura para poder trabalhar.
— Não importa.
Vou me informar sobre isso, tentar saber quanto custa e tudo mais.
Estou certo de que vamos conseguir.
Joana olhou-o embevecida.
Quando Gerson dizia uma coisa, sabia que ele iria em frente.
Ela abraçou-o, dizendo com carinho:
— Você é um homem inteligente e trabalhador.
Sei que vai conseguir tudo o que quiser!
Os olhos de Gerson brilharam quando respondeu:
— Nossa Milena vai crescer, estudar e ter tudo que nós não pudemos ter.
Você vai ver!
Joana tinha razão em confiar no marido.
Depois de informar-se sobre tudo de que precisava para realizar seus objectivos, Gerson conseguiu aumentar as vendas nos meses seguintes.
Joana o ajudava com alegria e disposição, e o dinheiro no banco foi aumentando.
Quando Gerson conseguiu juntar a quantia para dar a entrada na compra do carrinho e manter uma reserva para as primeiras despesas, ele finalmente conquistou o que queria.
Comprou o carrinho e levou-o para casa satisfeito.
— Veja, Joana, como é lindo!
Tem tudo de que precisamos e até lugar para guardar as coisas.
É mais bonito do que aquele que estava lá.
Gerson desejava deixar o emprego, mas Joana não concordou com o marido:
— É melhor esperar os dois meses que faltam para suas férias.
Enquanto isso, você pode começar a trabalhar nos fins de semana.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 10:07 am

Até lá, vamos poder fazer as contas e planear tudo.
É mais garantido.
— Estou ansioso para começar logo!
Tenho certeza de que vai dar tudo certo.
— Pode começar a praticar neste fim de semana.
— Vai ficar muito apertado guardar o carrinho aqui, mas não tem outro jeito.
— Por enquanto, daremos um jeito.
A Zefa tem um quartinho bem pequeno, que ela alugava para o Zé.
Ele voltou para Minas e o quartinho está vazio.
Vamos falar com ela e alugar o cómodo.
Lá, nosso carrinho estará seguro.
Gerson pensou um pouco e respondeu:
— Eu preferia guardá-lo aqui em casa.
— Vamos alugar o quartinho e guardar lá parte de nossas coisas.
Também acho melhor o carrinho ficar aqui.
— Sabe, Joana, vou trabalhar muito e, quando der, vamos alugar uma casinha, mesmo que seja pequena, para deixarmos a favela.
Vai ser muito bom ter endereço certo, poder ter uma vida mais confortável.
Os olhos de Joana marejaram e ela tentou dissimular a emoção. Gerson continuou:
— Nós temos muitos amigos aqui.
Há muita gente boa, mas estou pensando em Milena.
Eu gostaria de dar a ela uma vida melhor.
— Eu também. Desde que ela nasceu, nossa vida mudou.
Nossa filha nos trouxe sorte.
Quando a pego no colo e ela me olha com aqueles olhinhos brilhantes, como se quisesse falar comigo, sinto um calor no peito... uma alegria que não tem explicação.
— É o amor, Joana.
Eu também sinto.
Foi esse amor que me deu coragem para trabalhar mais e mudar nossa vida para melhor.
Gerson e Joana não podiam ver, mas Josias e Maria estavam ao lado deles, envolvendo-os com carinho.
Sempre que podiam, eles compareciam lá para protegê-los, revezando-se com Lauro e Dalva.
Conforme haviam prometido a Milena, os dois acompanhavam a família, oferecendo-lhe energias de amor e paz.
O carrinho de cachorro-quente de Gerson foi um sucesso.
Além disso, ele fazia outras sanduíches para vender e colocava-os na pequena vitrine lateral.
Foi assim que ele conseguiu fazer freguesia.
Depois de deixar o emprego, Gerson vendia suas sanduíches não só na praia, como também na porta de uma faculdade.
Logo conquistou a preferência dos estudantes com sua simpatia, pela qualidade de seus produtos e pelas condições de higiene do carrinho, mantidas sempre impecáveis.
Gerson sentia-se orgulhoso quando até alguns professores consumiam suas sanduíches.
Joana sentia-se feliz com o sucesso do marido e o auxiliava a manter tudo em ordem.
O tempo foi passando e Milena cresceu saudável e alegre.
Aos três anos de idade, ela já falava tudo e sua linguagem fazia a alegria dos pais.
Uma tarde, enquanto Joana estava entretida passando a ferro uma camisa do marido e ouvindo o rádio, Milena, sentada no chão, brincava com algumas panelinhas.
Joana, então, ouviu a voz da filha, que ria e conversava animada com alguém.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 10:07 am

Olhando em volta, Joana notou que não havia ninguém na casa, mas Milena movimentava suas panelinhas e continuava falando.
Joana desligou o ferro, abaixou o volume do rádio, aproximou-se da filha e perguntou:
— Você está falando comigo?
— Não. Estou conversando com meu amigo.
Joana balançou a cabeça e pensou:
“Ela está fingindo”.
Nesse momento, Milena soltou uma gargalhada e disse:
— Você não sabe segurar a panela!
Deixe que eu faço.
— Quem não sabe segurar a panela?
— O Nico.
— Quem é o Nico?
— Meu amigo.
Ele qué pegá a panela, mas a mão dele atravessa o cabo!
Joana olhou-a um pouco assustada e disse:
— Você está me enganando.
Não tem ninguém aqui.
— Tem sim. Não tá vendo, mamãe?
Ele tá rindo.
— Não estou vendo não.
— Ele tá indo embora...
Quando Gerson chegou para jantar, Milena já estava dormindo.
Joana chamou o marido para conversar:
— Não tinha ninguém com ela!
Milena disse:
“A mão dele atravessa o cabo!”.
Só pode ser alma do outro mundo, Gerson!
— Que nada, mulher!
As crianças têm muita imaginação.
Milena fica muito sozinha aqui.
Você não quer que ela vá para a creche!
Lá, ela teria outras crianças para brincar.
— Nada disso.
Eu quero tomar conta dela.
Amanhã mesmo, vou levá-la para dona Áurea.
Se tiver alguma coisa, ela vai ver e vai me contar.
Gerson deu de ombros e respondeu:
— Faça como quiser.
Mas, nos dias que se seguiram, Joana esqueceu o assunto e só se lembrou dele quando, quase uma semana depois, o facto se repetiu.
Milena estava cantarolando uma música e, quando a mãe lhe perguntou que canção era aquela, ela lhe respondeu:
— É nova. Estou aprendendo.
O Nico está me ensinando.
Ele toca e eu canto.
Dessa vez, Joana decidiu que iria levar Milena à noite ao centro e falar com dona Áurea.
Naquela noite, Gerson terminaria o trabalho mais cedo e prometeu acompanhá-las.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 10:08 am

Dona Áurea era uma senhora muito respeitada na comunidade, porque, além do atendimento espiritual, ela mantinha um trabalho de promoção humana, prestando serviços e mantendo um bom número de voluntários sempre dispostos a auxiliar as pessoas.
Por esse motivo, seu centro estava constantemente lotado.
Uma atendente reconheceu Joana e foi abraçá-la.
— Eu gostaria de falar com dona Áurea.
— Ela está atendendo a uma pessoa, mas, assim que dona Áurea acabar o atendimento, vou encaminhá-la.
Crianças têm prioridade.
Joana agradeceu à atendente e, com Milena e Gerson, sentou-se para esperar.
Meia hora depois, a família foi conduzida à sala de dona Áurea, que se levantou para abraçá-los.
— Que bom vê-los!
Como Milena está grande e bonita!
— É sobre ela que quero falar com a senhora.
Joana piscou levemente para Áurea e continuou:
— Ela costuma brincar com um menino desconhecido, que não consegue segurar o cabo da panela dela.
Só ela vê esse menino.
Áurea passou a mão na cabecinha da garotinha com carinho e sorriu-lhe dizendo:
— Eu também estou vendo. É o Nico.
Um menino muito bom, alegre e com um grande coração.
Os olhos de Milena brilharam:
— Isso mesmo. Ele é meu amigo.
Eu gosto muito de brincá com ele!
Os pais da menina a olhavam admirados e receosos.
— Certamente, a senhora vai dizer a ele que é melhor que vá embora — tornou Joana preocupada.
— Não posso fazer isso e lhe explico o porquê.
O senhor Gerson não poderia levar Milena para conhecer a nossa livraria?
Ela pode escolher o livro de que mais gostar.
É um presente meu.
Enquanto isso, nós duas poderemos conversar.
Gerson obedeceu e levou Milena consigo.
Assim que se viu a sós com Áurea, Joana pediu:
— Por favor, dona Áurea, tire esse espírito do lado da Milena.
Eu morro de medo!
— Acalme-se, Joana.
Eu posso pedir a ele que se afaste, mas outros espíritos virão.
Milena é sensitiva.
Não há como impedir que ela os veja, converse e até interaja com eles.
— Meu Deus! Como pode ser isso?
— Não tenha medo, Joana.
A mediunidade é um bem e, no caso dela, no nível em que está, só lhe trará benefícios.
O que vocês precisam é estudar e aprender a lidar com o assunto.
— Mas eu fico muito nervosa quando Milena conversa com quem eu não vejo!
Me parece algo perigoso...
Ela é muito pequena, dona Áurea.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 10:08 am

— Para ela, é apenas uma brincadeira.
Não leve tão a sério.
Quando acontecer, não dê importância.
Creia: Milena está protegida.
— A senhora não pode fazer nada para impedir que isso aconteça?
Farei o que quiser.
Áurea fechou os olhos e ficou alguns segundos em silêncio.
Depois, fixou Joana e disse:
— Vou indicar um tratamento espiritual de renovação energética.
Vocês terão de vir aqui uma vez por semana, durante um mês, para receber assistência.
Depois, voltaremos a conversar para aferir os resultados.
— Gerson também?
— Sim.
— Ela vai ficar curada?
— Milena não está doente, Joana.
Ela vai apenas receber apoio e protecção.
Gostaria que você cooperasse durante o tratamento, confiando na ajuda de Deus e mantendo a calma.
Sua filha está muito bem.
Não há nada a temer. Eu lhe garanto.
— Está bem. Se a senhora diz, eu acredito.
Tem nos ajudado muito e sou-lhe muito grata.
— É importante que você e Gerson mantenham a fé em Deus e bons pensamentos.
Quando você não confia e sente medo, acredita que algo ruim vai acontecer.
Com isso, você anula o auxílio e ainda abre espaço para o mal entrar.
— Como eu posso fazer isso?
Às vezes, os pensamentos ruins aparecem do nada e me assustam.
Fico mal com isso, pois eles ficam martelando minha cabeça.
— Quando age assim, você os está alimentando.
Esse é o jeito de atrair aquilo que você teme.
Não dê força ao mal. É apenas um pensamento.
Nessa hora, pense em alguma coisa boa, faça alguma coisa gostosa, ouça música, cante, faça uma oração.
O importante é sair daquela sintonia ruim.
Não dê espaço para a maldade.
— Mas eu não dou.
Não gosto de prejudicar ninguém.
— Eu sei disso, Joana, mas saiba que há muitas pessoas maldosas à nossa volta.
Conforme você pensa, irradia à sua volta energias, e, quem estiver perto ou se lembrar de você, poderá senti-las.
Se deseja que Milena fique sempre bem, você e Gerson precisam conservar bons pensamentos.
Ficar no bem é a melhor protecção.
— Está bem. Eu entendi.
Farei tudo para que minha casa esteja sempre em paz.
Áurea entregou a Joana o papel de tratamento dizendo:
— Quando terminar as quatro semanas, volte para falar comigo.
Joana deixou a sala e foi até a pequena livraria procurar o marido.
Encontrou-o sentado com Milena no colo, segurando um livro e lendo-o para a filha com entusiasmo.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 10:08 am

No caminho de volta para casa, Joana queria relatar a conversa que tivera com Áurea, mas Milena queria que o pai contasse de novo a história do livrinho que ganhara.
— Eu já contei essa história duas vezes, filha!
Agora quero conversar com sua mãe!
— Eu quelo mais.
Onde foi que o coelho se escondeu?
O gato comeu ele?
— Não. O coelho foi mais esperto e fugiu.
— Pra onde ele foi?
— Para a casa onde a mãe dele estava.
Joana abanou a cabeça e decidiu:
— Continue contando a história.
Em casa, eu lhe conto a conversa.
Assim que chegaram, Joana preparou o leite que Milena gostava de tomar antes de dormir.
A garotinha ficou o tempo todo segurando o livrinho de história, folheando-o, olhando tudo com atenção, até que não resistiu ao sono e adormeceu.
— Não pensei que Milena gostasse tanto de histórias.
Você precisava ver o entusiasmo dela quando entramos na livraria.
Queria ver tudo!
Enquanto Joana arrumava a louça do jantar, que havia ficado para lavar, e Gerson a ajudava, os dois puderam finalmente conversar.
Ele quis saber tudo que Áurea dissera.
— Eu não entendi muito bem.
Dona Áurea disse que podia pedir a esse menino para que fosse embora, mas que outros viriam em seu lugar, porque Milena é sensitiva e não dá para mudar isso.
Ela disse também que ser médium é muito bom, só que eu tenho medo de ver minha filha lidando com pessoas que já morreram.
— Você disse isso pra ela?
— Disse. Então, ela passou um tratamento espiritual para nós três.
Vamos ver como isso vai ficar.
Gerson ficou em silêncio, pensativo.
Depois de alguns instantes, perguntou:
— Esse tratamento é tomar passes no centro?
— Isso mesmo. Nós três.
Dona Áurea me disse que, para ajudar nossa filha, vamos ter de pensar no bem, ter fé e rezar.
Você acha que isso vai dar certo?
— Eu tenho fé.
Afinal, dona Áurea é uma pessoa muito boa e já ajudou muita gente.
Vamos confiar e fazer o que ela disse.
Apesar do que está acontecendo, Milena está muito bem.
— É. Isso é verdade.
Temos que preparar alguma coisa para amanhã?
— Vamos fazer algumas sanduíches iguais ao que fizemos ontem.
Todos gostaram muito e acabaram logo.
Enquanto preparavam as sanduíches, Joana tornou:
— Milena adorou aquela história.
Quero que me conte, porque amanhã ela vai querer que eu leia de novo.
— Ah! Você vai ler e pronto.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 10:08 am

— Não. Além de ler, eu vi que você imitava o gato, o coelho e tudo.
Os olhinhos dela brilhavam.
Como é que faz isso?
Gerson deu uma sonora gargalhada e considerou:
— Preste atenção.
Você já viu como o gato faz quando vai pegar um passarinho?
É só copiar.
E já notou a rapidez com que um coelho foge quando é perseguido?
Joana começou a rir e comentou:
— Você devia ir trabalhar no circo.
Nunca vi ninguém contar uma história com tanto entusiasmo.
Até eu fiquei com vontade de ler a história toda.
— Está tudo pronto para amanhã.
Aumentei a quantidade de sanduíches.
Vamos ver se consigo vender tudo.
— Vai vender sim. Estou cansada.
Feche tudo e vamos dormir.
Amanhã, você vai acordar muito cedo.
Depois de deixarem tudo arrumado, os dois se prepararam para dormir.
Por fim, deitaram-se depois de olharem Milena, que dormia tranquila.
Gerson abraçou a esposa e disse satisfeito:
— Vamos agradecer a Deus por tudo que recebemos.
Milena nos trouxe alegria e paz.
Nós somos pessoas de bem.
Ninguém no mundo é mais feliz do que eu.
Joana suspirou e respondeu:
— É verdade. Eu também me sinto muito feliz por ter um marido como você!
Vamos rezar.
Em silêncio, ambos fizeram suas orações, depois viraram para o lado e, ainda abraçados, adormeceram.
Os espíritos de Josias e Dalva estavam um de cada lado da cama.
Com as mãos estendidas, oravam em pensamento, enquanto uma energia muito alva descia do alto derramando-se sobre eles.
— Você vai levá-los ao parque das águas esta noite? — perguntou Dalva.
— Ainda não. Eles estão bem, e, por enquanto, Áurea com seu grupo serão suficientes.
Tudo está bem. Nós já podemos ir.
Josias passou o braço no de Dalva e ambos se elevaram, deixando o barraco pelo telhado.
Em poucos segundos, seus vultos distanciaram-se rumo ao infinito.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 10:09 am

Capítulo 3

Joana acordou, olhou o relógio e levantou-se apressada.
Gerson saíra cedo para trabalhar e não a acordara.
Na véspera, fora dormir muito tarde preparando os doces e o bolo para a festa de Milena, que, no sábado, completaria dezassete anos.
Ela correu para acordar a filha, com receio de que a jovem perdesse a hora para o colégio.
Vendo-a entrar no quarto, Milena tornou:
— Mãe, você perdeu a hora, mas eu não.
— Você foi dormir na mesma hora que eu.
Hoje é dia de prova, e eu não queria que faltasse.
— Eu não consegui dormir muito bem.
Fiquei imaginando como será a festa, pois é a primeira que fazemos na casa nova.
Convidei alguns amigos da escola.
— Vai ser um sucesso.
A comadre Zefa também está fazendo aqueles doces de que você gosta.
Seu vestido ficou lindo!
O Bernardo vai trazer o violão, vamos cantar...
Os olhos de Milena brilharam de alegria, e Joana não se conteve:
— Você está muito linda.
Parece uma artista.
Milena havia se tornado uma morena de corpo bem-feito, de cabelos ondulados, olhos verdes, rosto oval, lábios carnudos e duas covinhas na face quando sorria.
A princípio, Joana orgulhava-se da beleza da filha, de sua inteligência e da facilidade com que a jovem lidava com as pessoas à sua volta.
Já Gerson, encantado com a filha, não escondia seu ciúme, zelando por ela de tal sorte que Joana por vezes reclamava:
— Deixe a menina, Gerson.
Ela tem mais juízo do que você.
Eu confio nela!
— Eu também confio nela!
Eu não confio nos outros!
Gerson estava sempre fazendo recomendações para que Milena tivesse cuidado, não conversasse com estranhos e, quando acontecia alguma coisa ruim nos jornais, ou na televisão, com alguma jovem, ele fazia questão de mostrar-lhe, com a intenção de protegê-la.
Joana não gostava que o marido agisse dessa forma.
Ela sentia que Milena era uma pessoa calma, que sabia portar-se, e que a filha não era como as outras mocinhas que ela conhecia.
Quando Gerson exagerava, Joana intervinha:
— Ela tem juízo!
Sabe o que quer.
Nunca nos deu motivo de preocupação.
Até as pessoas de mais idade gostam de conversar com nossa filha.
— Mas ela vive rodeada de muitas mocinhas sem juízo, que estão sempre falando de namorados.
— Sobre o que você gostaria que as mocinhas conversassem?
Elas sonham com o amor, querem se casar, como nós fizemos.
— Aí que mora o perigo, Joana.
Há muitos rapazes safados, que sempre estão em volta das meninas.
Minha mãe dizia sempre que elas gostam mais desses rapazes.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 10:09 am

— Chega de dizer isso na frente de Milena.
De tanto repetir, até parece que está sugerindo isso. Cruz-credo!
— Eu quero ver o malandro que vai iludir minha filha!
Não vai viver para contar a história.
Milena tomou café apressada, apanhou sua pasta, deu uma olhada no espelho e despediu-se da mãe.
— Estou indo.
Assim que terminar a aula, voltarei correndo para casa.
Quero ajudá-la a arrumar tudo, mãe.
— Vá com Deus, minha filha.
Depois que a jovem se foi, Joana sentou-se para tomar o café.
Nena aproximou-se:
— Dona Joana, seu Augusto da padaria mandou lhe dizer que amanhã vai trazer sua encomenda bem cedo.
— Vai dar tempo de fazermos as sanduíches.
Enquanto tomava o café, Joana pensava no quanto a vida da família havia mudado, depois que Milena nascera.
Nena, cujos pais haviam morrido em um acidente quando ela tinha catorze anos, ficara só no mundo.
Milena tinha oito anos quando ela e Gerson a acolheram.
Nena, agradecida, fazia o que podia para cooperar.
O negócio que iniciaram com dedicação, muito trabalho, com o capricho com que faziam tudo e a honestidade com que agiam e recebiam os clientes, havia se transformado em uma lanchonete, que contava já com alguns empregados.
Durante esse tempo, Nena mostrara-se tão eficiente, que eles decidiram dar-lhe um salário, o que a deixara radiante.
Aos vinte e três anos, ela tornara-se uma mulata forte, bonita, sorriso pronto, olhos grandes e cabelos soltos nos ombros.
Desde o começo, a jovem afeiçoara-se a Milena, por quem nutria grande admiração e a quem fazia de tudo para alegrar.
As duas conversavam muito e riam por qualquer coisa.
Durante os anos que se seguiram, trabalhando, economizando, pensando no futuro, Gerson e Joana compraram um espaçoso sobrado, deixando a pequena casinha que haviam alugado para trás, ao saírem da favela.
Em meio a lembranças, Joana suspirou satisfeita e continuou rememorando.
Tudo havia culminado na compra da casa própria, na qual estavam residindo há cerca de seis meses.
Era um sobrado antigo, na Tijuca, isolado de um lado, com garagem, sala de estar, sala de jantar, três quartos e um quintal, onde havia espaço para plantar e, encostadas no muro, mais duas salas que a família fizera de depósito para seus materiais de trabalho.
Gerson e Joana sempre comemoravam os aniversários da filha, mesmo nos primeiros tempos.
No barraco, nesse dia sempre havia bolo, refrigerante e doces.
E os filhos da Zefa sempre compareciam à festa com violão e alguns instrumentos simples de percussão para alegrar a comemoração.
Era a primeira festa na casa nova e, desta vez, Milena convidara alguns colegas da escola.
A jovem estava terminando o colegial e sempre fora boa aluna.
Devido à presença dos colegas na comemoração, era natural que ficasse ansiosa com o aniversário.
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Ave sem Ninho

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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 10:09 am

Joana, por sua vez, também ficava insegura em receber pessoas desconhecidas, pois, entre os amigos da filha, só Renata costumava visitá-los.
Apesar de manter amizade com várias alunas, Milena trouxera a jovem para sua intimidade, desde o tempo em que moravam na pequena casa da vila.
Joana divagava, pensando em seus tempos de colégio.
Ela não terminara o primário.
Por muitos anos, morou no subúrbio e precisou deixar a escola para ficar em casa cuidando dos dois irmãos pequenos, enquanto os pais saíam cedo para trabalhar em uma chácara.
Apesar de não ter conseguido estudar, Joana gostava de ler e, às vezes, quando ganhava algum dinheiro, ia a um sebo escolher um livro.
Assim que Joana se tornou uma mocinha, a mãe dela começou a sofrer de reumatismo e não pôde mais trabalhar, ficando em casa para cuidar dos meninos.
Joana, então, empregou-se como doméstica na casa de uma professora, onde havia uma biblioteca que, além de livros de estudo, contava com romances.
Ela logo se interessou pelas obras, e, para sua alegria, a patroa permitia que ela lesse aqueles livros.
Joana dormia no emprego e só ia para a casa dos pais uma vez por semana.
Assim, depois do serviço feito, deliciava-se com a leitura.
Ao recordar-se de todos esses factos, Joana, depois do café, foi para o quarto, ajoelhou-se e, como sempre fazia, conversou com Deus, agradecendo-Lhe por todas as coisas que a vida lhe dera e pedindo que Ele continuasse a proteger sua família e os abençoasse.
Depois, satisfeita, Joana foi para cozinha continuar os preparativos da festa com o auxílio de Nena.
No dia seguinte, pouco antes das sete horas, Renata tocou a campainha e Nena foi recebê-la.
Depois da troca dos beijinhos e sorrisos, Renata perguntou por Milena.
— Está no quarto se arrumando.
Você está linda!
Esse vestido verde combina com seus olhos.
Renata sorriu satisfeita.
Sabia que seus olhos verdes faziam sucesso onde quer que ela estivesse.
A jovem tinha cabelos castanhos e ondulados, que lhe caíam sobre os ombros, pele clara, rosto oval, corpo bem-feito, traços delicados e gostava de ser admirada.
A moça sorriu alegre e respondeu:
— Vou subir para falar com Milena.
Apressada, Renata passou pela copa, cumprimentou Joana com um sonoro beijo na face e depois disse:
— Vou ver Milena, mas volto logo para ajudar no que a senhora precisar.
— Não precisa. Está tudo pronto.
Hum! Você está cheirosa!
Renata sorriu alegre e subiu até o quarto da amiga.
Bateu na porta e foi entrando.
Milena estava diante do espelho, maquiando-se.
— Como você está linda! — disse Renata alegre.
Milena virou-se sorrindo:
— Você também!
Desta vez, você caprichou!
— Eu convidei meu primo Davi.
Você disse que eu poderia chamar alguém.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 02, 2016 10:09 am

— Davi? É aquele do retrato que eu vi na sua casa?
— É. Ele logo chegará.
— Eu convidei o Marcos.
Os olhos de Renata brilharam.
— Acha que ele virá?
Milena deu de ombros.
— Não sei...
Ele disse que teria o maior prazer em vir.
Só precisaria livrar-se de outro compromisso.
— Pode ter sido desculpa...
Marcos não é muito sociável, está sempre sozinho.
— Pode ser timidez.
Eu o convidei, porque sei que você se interessa por ele.
Quero que nesta festa todos se divirtam.
— Vamos ver como ele se porta.
É a primeira vez que temos essa chance.
Pouco depois, as duas desceram, e Milena pediu:
— Você me ajuda a receber os convidados?
Estou tensa.
— Você?! Nunca a vi perder a calma!
Há quem comente que você não tem nervos.
— De facto, gosto de viver em paz.
Evito assuntos desagradáveis.
— Sabia que isso nos tem poupado de alguns aborrecimentos?
Do jeito que as fofocas correm soltas no colégio, onde todo mundo fala mal uns dos outros...
Eu também não gosto de confusão.
A campainha tocou, e Nena foi abrir a porta.
Bernardo entrou sorridente, acompanhado de seus dois irmãos, que traziam os instrumentos.
Depois dos cumprimentos, Milena os levou à sala onde eles deveriam tocar.
Enquanto os rapazes arrumavam os instrumentos, a jovem perguntou:
— Por que Lídia não veio com vocês?
Bernardo sorriu, abanou a cabeça e respondeu:
— Ela virá com a mamãe.
Não deu para esperá-la.
Lídia demora demais, e nós queremos dar conta do recado.
Ensaiamos mais de duas semanas.
Gerson aproximou-se deles satisfeito.
Seus olhos brilhavam de alegria ao admirar a animação das duas mocinhas e a alegria dos meninos.
Comovido, sentou-se em um canto observando tudo.
Sentia-se gratificado por ter conseguido melhorar de vida.
Aquela noite era especial para ele.
Significava muito mais do que uma festa de aniversário.
Por isso, deixara a lanchonete com seu funcionário de confiança e fora para casa aproveitar a festa.
Nena aproximou-se de Joana na copa, sorriu e disse:
— Seu Gerson está que é só alegria!
Dá vontade de botá um babador nele!
— Eu também preciso de um.
Milena é a moça mais linda que eu já vi — Joana observou.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

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