Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 04, 2016 10:51 am

— É melhor examiná-lo para ter certeza de que não se machucou.
Vendo o olhar desconfiado de Milena, o rapaz tirou um cartão do bolso e deu-o a ela dizendo:
— Meu nome é Reinaldo Lopes. Sou médico.
Flávia, a vendedora, que os observava, interveio:
— Se precisar examiná-la, posso levá-los ao provador.
Acanhada, Milena tornou:
— Não é preciso. Não foi nada.
Vou ver se a chuva parou. Preciso ir embora.
Mas, ao dar um passo, Milena sentiu uma dor no tornozelo.
Reinaldo meneou a cabeça dizendo:
— Acho melhor cuidar disso antes que o quadro se complique.
— Venha, vou levá-los ao provador.
— Apoie-se e vamos ver isso.
Milena segurou o braço de Reinaldo, acomodou-se na cadeira do provador, enquanto a balconista trazia uma banqueta para que ela esticasse a perna.
Depois do exame, o médico considerou:
— Não é nada grave.
Vou receitar uma pomada para passar no local, e você terá de descansar a perna, pelo menos por vinte e quatro horas.
— Eu não posso. Preciso trabalhar!
— Se não fizer isso, pode complicar a situação e terá de ficar muito mais tempo em casa.
Você trabalha com o quê?
— Em um escritório de advocacia.
— Vou dar-lhe um atestado para que repouse por pelo menos dois dias e posso levá-la até sua casa também.
Milena fixou-o pensativa e depois considerou:
— Obrigada, doutor, por seu interesse, mas Flávia pode chamar um táxi para que eu possa ir para casa.
Já lhe dei muito trabalho.
— Nada disso. Meu carro está em um estacionamento perto daqui.
A chuva já deve ter passado.
Não gosto de deixar as coisas pela metade.
Vou buscar o carro, passaremos na farmácia para comprar a pomada, e a deixarei em casa em seguida.
Milena ia retrucar, mas ele não lhe deu tempo e decidiu:
— O médico tem sempre razão!
Eu mando e você obedece.
Vou buscar o carro, e você, Flávia, não a deixe levantar-se.
Reinaldo saiu, e a balconista sorriu, comentando maliciosa:
— Você é uma moça de sorte!
Cair logo nos braços de um médico bonito como esse e interessado como ficou em você...
Isso ainda pode dar namoro!
— Você está fantasiando.
Estou mais preocupada com meu chefe, que vai ficar aflito por eu não poder trabalhar por dois dias.
Hoje, eu ainda tinha muitas coisas para fazer.
Ele não vai gostar de saber o que aconteceu.
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Ave sem Ninho

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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 04, 2016 10:51 am

Pouco depois, Reinaldo parou o carro diante da loja e entrou para buscá-la.
No tornozelo de Milena aparecera uma pequena mancha roxa, e o médico massageou o local e enfaixou-o com cuidado.
A jovem apoiou-se nos braços de Reinaldo e Flávia, e o médico pedia a ela que mantivesse o pé machucado erguido.
Na loja, as pessoas olhavam a cena curiosas, enquanto Milena desejava ir embora o quanto antes dali.
Vendo-a chegar em casa de carro, com um estranho e de tornozelo enfaixado, Joana correu assustada:
— Milena! O que aconteceu?
Reinaldo apressou-se em responder:
- Nada de mais.
Ela torceu o tornozelo, mas já foi medicada.
Está tudo bem. Acho melhor ela não pôr o pé no chão.
Vou carregá-la para dentro.
Sem cerimónia, Reinaldo pegou Milena no colo e levou-a para dentro da casa, ajeitando-a delicadamente no sofá.
Notando a preocupação de Joana, o médico tirou um cartão do bolso e entregou--o a ela dizendo:
— Meu nome é Reinaldo Lopes, sou médico.
Veio uma pancada de chuva forte, eu entrei numa loja para esperar passar o temporal e ir buscar o carro no estacionamento.
Sua filha fez o mesmo.
O chão estava molhado, ela escorregou e torceu o tornozelo.
Eu prestei socorro para que isso não ficasse pior.
Ela vai descansar uns dois dias e tudo ficará bem.
— Ela vai ficar bem mesmo? — quis saber Joana, receosa.
— Se fizer o que eu disse, ficará bem.
— Obrigada, doutor!
Ela precisa de mais alguma coisa?
— Sim. Ficar com a perna esticada e não colocar o pé no chão nesses dois dias.
— Está bem. Cuidarei dela.
— Agora preciso ir, mas quero acompanhar o caso.
Vou dar um atestado à sua filha e anotar o número do seu telefone.
Joana apressou-se a anotar o número para entregá-lo a Reinaldo, enquanto ele segurava a mão de Milena, recomendando:
— Não esqueça: faça o que recomendei.
Os olhos de Reinaldo fixavam-na e havia neles certa emoção, que fora sentida por Milena.
Os olhos do médico brilhavam, quando ela apertou a mão que ele lhe estendia:
— Obrigada, doutor, por tudo que fez por mim.
Ele sorriu e, sem desviar os olhos da moça, comentou:
— Eu ainda penso que você deveria ficar com aqueles brincos.
Ficaram muito bem em você!
Reinaldo afastou-se, e Joana acompanhou--o até a porta:
— Obrigada mais uma vez.
— Ela vai ficar bem.
O médico se foi, e Joana aproximou-se de Milena sem conter a curiosidade:
— Que brincos são esses de que o doutor falou há pouco?
— A loja era muito fina e havia bijuterias que pareciam jóias.
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Ave sem Ninho

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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 04, 2016 10:51 am

A balconista, vendo meu interesse, mostrou-me algumas peças.
Havia um par de brincos lindíssimo e eu os experimentei, mas não quis comprá-los.
Eram muito caros para mim.
— Se gostou deles, deveria tê-los comprado.
— É que no momento eu tenho outras prioridades, mãe.
Estou juntando dinheiro para comprar um carro.
Joana fixou-a assustada:
— Por que isso agora?
Dirigir nesta cidade é muito perigoso.
Não quero ver você dirigindo um carro por aí, no meio desse trânsito.
— Eu preciso.
Vou conseguir trabalhar com mais facilidade e me cansar menos.
— Seu pai não vai gostar disso.
Ele sempre reclama das coisas erradas que vê quando está dirigindo.
— Vou me matricular na auto-escola e só vou dirigir quando estiver bem preparada.
— Continuo achando perigoso.
Milena pegou o telefone na mesinha do lado e ligou para doutor Gilberto, para contar-lhe o que acontecera a ela.
Ele ouviu tudo e perguntou ansioso:
— Será que vai precisar de dois dias para melhorar? Tem certeza?
— Foi o médico quem determinou, doutor.
— Um médico que você encontrou por acaso.
Estou pensando em mandar meu médico para examiná-la e ver se é isso mesmo.
— O senhor pensa que estou exagerando?
— Não, Milena.
Sei que você não faria isso, mas ele pode ter se enganado. Está doendo muito?
— Quando mantenho a perna esticada, sinto que o local machucado fica só dolorido, mas experimentei pôr o pé no chão e dói mesmo.
Doutor Gilberto ficou em silêncio durante alguns segundos e depois decidiu:
— Está bem. Vou mandar o Gino buscar os documentos.
Você faz muita falta.
Veja se melhora logo!
— O médico disse que em dois dias ficarei boa para trabalhar.
— Está certo. Cuide-se.
Pouco depois, Nena aproximou-se trazendo uma bandeja com lanche, que ela colocou sobre a mesinha.
Depois, sentou-se na poltrona ao lado de Milena e disse sorrindo:
— De onde apareceu aquele homem lindo, que a trouxe no colo até o sofá?
Como o conheceu?
— Não fique fantasiando coisas, Nena.
Ele, como eu, se abrigou da chuva e, quando escorreguei, ele me ajudou. Foi só isso!
— Sei... E você se machucou mesmo ou esse tombo foi de caso pensado?
Mesmo de longe, eu vi como os olhos dele brilhavam quando se fixavam em você.
— Você anda vendo muitas novelas.
Nosso contacto acabou aí.
— Será? Não creio.
Joana aproximou-se, e Nena disse séria:
— Vou segurar a bandeja para você.
— Só vou tomar o suco.
Não estou com fome.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 04, 2016 10:51 am

— Coma o lanche também.
Eu fiz com muito carinho.
Milena experimentou o lanche que Nena preparara e acabou comendo tudo.
Estava mesmo muito bom.
Joana ligou para Gerson para contar-lhe o que acontecera com Milena, e ele chegou pouco depois.
Foi ter com a filha e fê-la contar tudo de novo, só ficando sossegado quando ela garantiu que a dor havia passado.
— Você precisa relaxar, trocar de roupa e se deitar.
Vou levá-la para o quarto.
Gerson pegou Milena no colo e subiu as escadas, enquanto Joana os acompanhava.
Depois de deitá-la na cama, ele saiu, deixando a esposa ajudar a filha a mudar de roupa.
Joana ainda colocou dois travesseiros para apoiá-la na cama, para que a jovem ficasse melhor acomodada.
Como Milena sempre foi uma pessoa muito activa, a ideia de ficar dois dias parada, sem fazer nada, não era muito fácil para ela.
A jovem, então, pediu para a mãe entregar-lhe um romance policial que estava na estante, para ver se conseguia passar melhor o tempo.
Milena havia ganhado o livro de uma professora na época da faculdade, mas, envolvida pelo trabalho, ainda não o lera.
Depois que Joana lhe entregou o livro, a jovem acomodou-se o melhor que pôde e iniciou a leitura.
Tratava-se de um crime misterioso, bem engendrado, que a interessou desde o início.
Ela gostava de estudar os casos e descobrir o que levava as pessoas ao desequilíbrio emocional, a ponto de agredir e matar uma pessoa.
Estudando as circunstâncias de cada caso, Milena acreditava que fosse possível fazer a pessoa entender melhor o momento que estava passando e mudar o ponto de vista.
O emocional age sempre conforme as crenças que a pessoa tem.
A forma como ela vê as coisas é o que provoca a reacção.
Se ela for calma e preferir resolver dentro do possível, tudo se resolverá melhor.
Porém, nesse processo, quando há o exagero das razões, muitas pessoas podem chegar aos extremos e provocar uma tragédia.
A verdade é sempre mais simples e o melhor sempre será o entendimento.
Milena sentia que o diálogo, o esclarecimento, a verdade, mesmo nos momentos mais difíceis e dolorosos, quando bem direccionados, podem evitar a violência e resolver as questões com mais discernimento e justiça.
A jovem não acreditava na justiça que era praticada nos tribunais, onde o dinheiro dava o tom e a verdade ficava de lado.
Doutor Gilberto gostava de conversar com Milena sobre esse assunto.
Ele reconhecia que, no mundo, era muito difícil fazer justiça social, porquanto, apesar das leis terem sido elaboradas para isso, havia uma série de interesses envolvidos da própria sociedade, na qual cada um se defende como pode, ou como dá.
As diferenças sociais, os graus de evolução de cada um, dificultam o entendimento.
Às vezes, para Milena, doutor Gilberto assumia o papel de advogado do diabo, complicando as soluções dos casos que ela arquitectava, só para perceber até onde ela chegaria em seus conceitos.
Depois de anos exercendo essa profissão, ele perdera o encantamento dos primeiros tempos.
Era honesto e criterioso em seus princípios, mas há muito deixara de acreditar no ser humano.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 04, 2016 10:51 am

Em muitos momentos, depois das conversas que mantinha com Milena, sentia certa tristeza ao pensar que o sonho dela, muito bonito, nunca seria realizado.
Mas, apesar disso, trocar ideias com a jovem sempre o deixava bem.
Nena aproximou-se trazendo uma bandeja, que fora colocada sobre a mesinha, e exclamou:
— Hora do jantar!
Sua mãe fez uma comidinha especial!
Você deve estar com fome!
Milena fixou-a:
— Nossa, já?
O livro está muito bom e nem vi o tempo passar.
— Não baixe sua perna.
Fique com ela estendida.
Deixe que eu ajeito tudo. Está doendo?
— Está só dolorida.
Nena colocou uma banqueta da altura da cama para Milena se sentar e estender a perna:
— Vou segurar a bandeja.
— Não precisa. Coloque aqui, está óptimo.
Nena sentou-se do lado de Milena, enquanto a jovem comia.
— Você está com fome!
Está comendo tudo.
— Está uma delícia.
Joana aproximou-se sorrindo:
— Gostou das panquecas?
— Adorei.
Pouco depois, Nena levou a bandeja, e Joana sentou-se ao lado da filha, querendo saber como ela se sentia.
— Estou bem, mãe.
O problema é que terei de ficar dois dias aqui.
— Dois dias passam depressa.
Você vai fazer tudo que o médico mandou.
Gerson aproximou-se, querendo saber como a filha se sentia.
Depois de conversarem um pouco, ele e a esposa desceram, percebendo que a filha precisava descansar.
Milena levantou os travesseiros, sentou-se com as pernas estendidas na cama e continuou a leitura.
Uma hora depois, Nena entregou-lhe o telefone:
— É o doutor ao telefone.
Está querendo falar com você.
Milena apressou-se a atendê-lo.
— Aqui é o Reinaldo.
Quero saber como você está.
— Estou bem, doutor.
Obrigada por ter ligado.
Será que amanhã cedo eu já poderei levantar?
— Não. Eu disse dois dias, não foi?
— Foi. Mas estou tão bem!
Pensei que amanhã eu poderia...
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 04, 2016 10:52 am

Reinaldo ficou em silêncio durante alguns segundos e depois disse:
— Amanhã cedo, darei uma passada aí para examiná-la.
Vamos ver como reagiu.
— É uma coisa tão simples, já está melhor...
— Amanhã, veremos. Não saia da
á pelas nove da manhã, chegarei aí.
— Obrigada,
Estarei esperando-o.
Depois de um boa-noite, Reinaldo desligou, e Milena ficou pensativa.
Notara uma nuance de emoção na voz do médico. Estaria imaginando demais?
Ao lembrar-se do olhar de Reinaldo quando a segurou na loja, Milena sorriu alegre.
Havia admiração em seus olhos.
Ao pensar que ele iria visitá-la no outro dia, sentiu um enorme prazer.
Na manhã seguinte, ao acordar, Milena olhou o relógio, que marcava ainda seis horas.
A jovem suspirou, pensando que o tempo ia demorar a passar.
Tentando relaxar, pensou:
“Não tenho motivo para criar expectativas.
Ele vai vir aqui como médico.
Só isso. Não quero me frustrar”.
A partir daí, Milena procurou encarar aquela visita com naturalidade.
Ela sentia que estava melhor e era muito provável que Reinaldo desse o caso como encerrado, se despedisse e tudo acabasse assim.
Mas, apesar disso, Milena levantou-se apoiando o corpo na bengala que o pai lhe trouxera e foi ao banheiro, para lavar o rosto e arrumar-se o melhor que podia.
Depois, deitou novamente e ficou de olho no relógio.
Às oito horas, Joana foi vê-la:
— Como você está? A dor já passou?
— Estou melhor.
Só quando levantei para ir ao banheiro doeu um pouco.
Mas doeu menos do que ontem.
— Você parece bem.
Vou mandar trazer seu café da manhã.
Nena trouxe a bandeja com tudo de que ela gostava e comentou:
— Está quase na hora do doutor chegar.
Quer que eu a ajude a se arrumar?
— Não. Eu mesma já dei um jeito.
Estou cansada de ficar aqui, sem poder me levantar.
— Perguntei por perguntar, pois já havia notado que você caprichou na arrumação.
— De onde tirou essa ideia, Nena?
Só quero poder me levantar e voltar ao trabalho.
Nena fixou-a apertando os olhos, que brilhavam com certa malícia:
— Sei...
Milena não respondeu.
Tratou logo de tomar o café com leite e comer o pão com manteiga.
— Pode levar a bandeja.
— Você não quer que eu dê um jeito nos seus cabelos?
— Não. Estou bem.
Nena se foi, e Milena pegou o livro na mesa de cabeceira, tirou o marcador e procurou ler, mas seu pensamento estava mais concentrado no relógio do que no livro.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 04, 2016 10:52 am

Às nove horas, Reinaldo ainda não havia chegado, e Milena, decepcionada, pensou que ele não viria.
Irritada, a moça queria levantar de uma vez, mas não o fez.
Eram nove e meia da manhã, quando Joana acompanhou o médico até o quarto.
Reinaldo aproximou-se de Milena e segurou a mão dela:
— Bom dia!
— Bom dia — respondeu ela, de maneira a ocultar a ansiedade.
Cheguei a pensar que o doutor não viesse mais!
— Gosto de ser pontual, mas não foi possível chegar antes.
Vamos ver como está o machucado.
Reinaldo levantou a coberta e tirou a faixa do tornozelo de Milena.
A mancha roxa havia aumentado, e ela exclamou assustada:
— Será que piorou?
— Não. É natural a lesão ficar mais evidente algumas horas depois.
O médico a examinou com cuidado e depois concluiu sorridente:
— Já está bem melhor.
— Nesse caso, eu já posso me levantar?
— Eu disse que ia precisar de dois dias.
Hoje, você ainda terá de ficar em repouso.
Amanhã cedo, poderá se levantar e voltar à vida normal.
Joana, que observava a conversa, aproveitou para perguntar:
— Ela é muito activa, anda muito no trabalho.
Ela poderá trabalhar normalmente?
— Sim. Apenas deve tomar certo cuidado para não forçar a perna nem carregar peso.
— Sou muito grata ao senhor pelo cuidado que teve com Milena.
Aceitaria um café e um pedaço de bolo que é minha
u ficaria muito honrada.
— Com prazer.
Joana desceu, e Reinaldo fixou Milena dizendo:
— Tenho a sensação de ter estado aqui outras vezes.
Parece que estou retomando alguma coisa que havia perdido. Não dá para explicar.
— Não precisa. Eu também estou sentindo a mesma coisa.
Nena subiu com a bandeja, e Joana fez questão de servir o café e o bolo ao médico, enquanto Nena servia o lanche para Milena.
O ambiente estava leve e Milena sentiu que alguma coisa estava indo para o lugar em que deveria estar.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 04, 2016 10:52 am

Capítulo 8

A tarde estava morrendo, quando Milena chegou ao escritório depois de um dia de trabalho.
A moça foi directo à sala do doutor Gilberto, que a esperava ansioso.
Assim que ela entrou, ele perguntou:
— E então, o juiz deu a sentença?
— Sim. Consegui uma cópia.
A resolução entrará em vigor amanhã.
Doutor Gilberto pegou a pasta, abriu, leu, sorriu satisfeito e comentou:
— Finalmente! O juiz não deu a pena máxima e ele pegou só dez anos, mas espero que cumpra pelo menos uns sete ou oito anos.
O advogado ficou em silêncio durante alguns segundos, depois continuou:
— Depois do trabalho que esse caso nos deu, precisamos comemorar.
Chame o Mário e o Carlos.
Vou abrir um vinho.
Os dois entraram, e a copeira trouxe as taças.
Enquanto abria a garrafa, doutor Gilberto comentou satisfeito:
— Arnaldo Mendonça pegou dez anos.
— Foi pouco por ter tirado uma vida — tornou Mário.
— Eu até esperava mais, depois que li sua peça de acusação, disse Carlos.
Os olhos de doutor Gilberto brilharam.
Ele serviu o vinho, depois entregou uma das taças para Milena, dizendo alegre:
— As damas em primeiro lugar.
Milena segurou a taça, enquanto os três, rindo e comentando certos detalhes do caso, tomavam o vinho.
Segurando a taça, Milena fingia beber.
Assim que notou que os advogados estavam distraídos comentando os detalhes do caso, ela foi ao toalete e derramou a bebida na pia.
Para ela, a prisão de Arnaldo não era motivo de comemoração. Uma mulher leviana, um marido traído — e agora preso —, um casal de filhos sofrendo com a situação.
Como se tratava de uma família tradicional, o caso teve muita repercussão.
Doutor Augusto Borges, muito rico, orgulhoso, fez tudo para encobrir o deslize da filha.
Contratou o doutor Gilberto, pagou-o regiamente para que ele transformasse Estela em uma vítima do marido e jogasse sobre Arnaldo Mendonça toda a culpa dessa tragédia.
Em particular, Augusto Borges repreendeu Estela, ameaçou e internou seus dois netos e exigiu-lhe que, depois do que ela fizera, mantivesse um comportamento exemplar, pois, caso contrário, a internaria em um sanatório, a deserdaria e lutaria pela guarda definitiva das crianças.
Observando os três advogados comemorando e comentando detalhes picantes do caso, Milena sentiu o estômago enjoado.
A moça não via a hora de ir para casa.
Aproveitando uma pausa dos três advogados, aproximou-se de doutor Gilberto:
— Doutor, amanhã, vou pôr tudo em ordem.
Posso ir embora agora?
— Pode. Mas chegue cedo.
Milena concordou e saiu apressada.
Não estava se sentindo bem.
Queria sair dali e esquecer tudo.
Quando o elevador a deixou no térreo, Milena respirou fundo, disposta a se afastar o quanto antes dali.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 04, 2016 10:52 am

Mas, ao pisar na calçada, encontrou o doutor Reinaldo:
— O senhor aqui?
O médico fixou-a sério:
— Senti vontade de vê-la. Fiz mal?
— É um prazer encontrá-lo.
Estou precisando sair da faixa vibratória do escritório.
O dia não foi fácil.
— Conheço um lugar muito agradável, com comida e música boas.
Quer jantar comigo?
Milena passou a mão nos cabelos, num gesto muito seu, pensou um pouco e disse:
— Só preciso avisar minha mãe.
Os olhos de Reinaldo brilharam quando disse:
— É fácil. Ligaremos do restaurante.
Meu carro está no estacionamento. Vamos.
Reinaldo segurou delicadamente o braço de Milena e caminharam juntos.
Uma vez no carro, sentados lado a lado, ele comentou:
— Bom você ter vindo.
Temos muito o que conversar.
O restaurante, situado no Leblon, era acolhedor e lá havia uma música suave no ar.
Após Milena ligar para sua casa, acomodaram-se.
Um rapaz aproximou-se trazendo o cardápio.
Milena estava emocionada por estar ali com Reinaldo.
O mal-estar passara, mas ela estava sem fome.
A moça escolheu um prato leve.
Enquanto esperavam, Reinaldo segurou a mão de Milena, tirou do bolso um pequeno pacote caprichado e entregou-o a ela:
— É para você.
— O que é?
— Abra.
As mãos de Milena tremiam enquanto ela abria o pacote.
Quando se deparou com os brincos de que tanto gostara, a moça não conteve uma exclamação:
— Você comprou esses brincos!
— Não resisti. Ficaram lindos em você!
— Não sei o que dizer...
— Experimente-os.
Milena pediu licença e foi ao toalete.
Sentia-se emocionada e suas mãos tremiam.
O coração da jovem batia mais forte e ela respirou fundo, buscando acalmar-se.
Milena colocou os brincos e seus olhos brilharam de prazer.
Ela adorou o que viu.
Seu rosto estava corado, quando ela voltou à mesa.
Fixando-a, Reinaldo não se conteve:
— Eles foram feitos para você.
Os olhos de Milena brilharam e seus lábios abriram-se em um doce sorriso.
— São lindos!
Reinaldo colocou a mão sobre a da moça e, olhos nos olhos, disse:
— A alegria que senti ao conhecê-la precisava ser comemorada.
Eu não poderia deixar passar.
Quando a vi naquela loja, experimentando esses brincos, pareceu-me que eu estava revendo uma cena conhecida, uma cena que eu já vivera anteriormente.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 04, 2016 10:53 am

Milena fixou-o séria e comentou:
— Eu também senti isso.
— Parece loucura, mas, desde que nos encontramos, não consigo parar de pensar em você.
Estou sendo sincero.
Isso nunca me aconteceu antes.
Milena respondeu com voz suave:
— Nós nos conhecemos de outras vidas.
— Como pode ser isso?
— Estou falando de reencarnação.
— Você acredita que isso seja possível?
— Tenho certeza disso.
Desde pequena, converso com alguns amigos que vivem em outras dimensões do universo.
Você é um médico e nunca percebeu essa realidade?
— No hospital, já ouvi alguns comentários de pessoas que se referiam a casos de quase morte.
Algumas pessoas, quando saem do coma, contam terem ido para outro lugar fora da Terra, onde receberam conselhos, ou ajuda das pessoas.
Mas isso pode ter sido apenas um sonho, uma alucinação, ou mesmo a vontade de que isso acontecesse de facto.
— Essa experiência é verdadeira.
Quem passou por isso nunca mais esquece.
A pessoa muda, passa a valorizar mais as coisas, sente-se protegida e se esforça para ser uma pessoa melhor.
A morte é apenas uma viagem para outra dimensão do universo.
Observe os resultados e perceberá a verdade.
Reinaldo não respondeu logo.
Ficou pensativo, com os olhos perdidos em algo indefinido.
Depois, considerou:
— Se isso fosse verdade, seria maravilhoso!
— A vida é muito mais do que parece, mas só revela seus segredos a quem tem interesse em aprender.
Neste momento, sua alma está sentindo que nós nos conhecemos antes desta vida.
Você, tendo reencarnado, esqueceu o passado, mas sua alma sabe e está mostrando-lhe a verdade.
Não dá para duvidar.
— Tem razão. Tenho alguns amigos espiritualistas, que sempre procuram me introduzir em seus estudos, mas eu sempre fugi do assunto.
Fico inseguro quando alguém me fala sobre certos fenómenos.
— Nesse caso, mudemos de assunto.
— Não. Desta vez foi diferente.
Eu senti que já a conhecia.
Foi uma sensação forte, uma emoção que não dá para ignorar.
Nunca passei por isso antes.
Agora, preciso saber mais, descobrir o que está por trás dessa sensação.
— Há bons livros sobre o assunto, vivências que lhe darão conhecimento de como as coisas são.
Os fenómenos de mediunidade sempre aconteceram no mundo e continuam acontecendo nos nossos dias.
A certeza da imortalidade, a grandeza da vida, a bênção que é reencarnar neste planeta, tudo isso nos dá muita alegria de viver e vontade de fazer coisas boas e melhorar a cada dia.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 10:37 am

O garçom trouxe a comida, e Milena comentou alegre:
— Hoje é um dia feliz!
Eu, você, juntos aqui, neste lugar lindo, acolhedor...
E ainda ganhei o par de brincos mais lindo do mundo!
Não é para comemorar?
— É! Vou pedir um vinho para comemorar este dia feliz.
Quando o vinho chegou à mesa, Reinaldo levantou a taça e, olhos nos olhos, ele disse com certa emoção:
— Esta é a primeira comemoração de muitas outras que faremos.
Ao nosso encontro!
Tocaram as taças.
Enquanto comiam, a conversa fluía agradável sobre assuntos leves.
Cada um falava de suas preferências, seus sonhos, e do que faziam em seus momentos de lazer.
O tempo passou rápido.
Milena olhou o relógio e exclamou assustada:
— É tarde, são quase onze horas!
Não vi o tempo passar!
É melhor irmos embora.
— Já? É cedo.
— Não costumo chegar em casa tão tarde.
É melhor irmos.
— Está tão bom aqui...
Por que não telefona para casa e diz que eu a levarei de volta?
Eles ficarão tranquilos e poderemos ficar um pouco mais aqui.
— É melhor irmos. Não quero abusar.
— Está bem. Não quero que seus pais se aborreçam.
Pouco depois, dentro do carro, ele não se conteve e abraçou-a.
Seus lábios se uniram diversas vezes e, esquecidos de tudo, Reinaldo e Milena perderam a noção do tempo.
A certa altura, ela disse assustada:
— Passa da meia-noite! Precisamos ir.
— Por mim, eu passaria a noite inteira aqui com você.
Esta noite é mágica.
Não sente o mesmo que eu?
— É um momento especial.
Eu gostaria que esta noite nunca acabasse.
— Vamos ficar um pouco mais...
— É tarde. É melhor irmos embora.
Não quero aborrecer meus pais.
Reinaldo abraçou-a novamente, beijaram-se diversas vezes, até que ela pediu:
— É hora de ir. Vamos embora.
O tom firme de Milena fê-lo perceber que ela falava sério.
Reinaldo ligou o carro e levou-a para casa.
A luz da sala estava acesa e a jovem desceu logo.
Reinaldo acompanhou-a até o portão.
Milena estendeu-lhe a mão, beijaram-se levemente na face, e ela entrou.
Embora as luzes da sala estivessem acesas, não havia ninguém por perto.
Milena foi para o quarto rapidamente.
Seu rosto estava corado e seu coração batia forte.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 10:37 am

Emoções novas e inesperadas, um misto de alegria e de prazer, fizeram-na desejar ficar sozinha, para poder analisar melhor seus sentimentos.
A moça estendeu-se na cama pensando em tudo que acontecera.
Tirou os brincos e sentiu novamente os momentos de emoção que vivera ao lado de Reinaldo.
Não tinha dúvida de que já tinham se conhecido antes e mantido um relacionamento forte, que, apesar do tempo decorrido e de não se recordarem dos detalhes, sobrevivera.
O que lhes reservaria o futuro?
Ao lado de Reinaldo, ela sentira-se confiante e apoiada.
Discreta por natureza, não tinha o hábito de fazer confidências e falar de seus sentimentos.
Mesmo com os pais, que a jovem amava e respeitava, Milena não o fazia por questão de princípios.
Todavia, ela se posicionara de forma diversa com Reinaldo.
Fora fácil discorrer sobre espiritualidade, apesar de ele parecer não estar muito informado sobre o assunto.
Milena abrira sua alma com alegria e falara de suas vivências com os espíritos, viajantes de outras dimensões do universo.
Com naturalidade, dividira com ele sua certeza da eternidade.
Sentia que, embora ele houvesse se esquecido do passado temporariamente, suas almas se reencontraram naquela noite e se reconheceram.
Milena sentiu uma onda de alegria e um sentimento profundo de prazer.
Sorriu feliz, virou para o lado e logo adormeceu.
O dia seguinte amanheceu chuvoso.
O relógio marcava seis horas, e Milena pulou da cama apressada.
Doutor Gilberto pedira urgência, e ela precisaria estar no escritório antes das oito.
Na mesa do café, encontrou o pai, que, ao vê-la, a beijou delicadamente na face:
— Bom dia! Já se levantou?
— Preciso estar no escritório mais cedo.
— Tome seu café com calma. Doutor Gilberto está abusando. Você trabalha fora do horário.
— Não importa, pai. Preciso praticar muito e melhorar meus conhecimentos. Pretendo subir na minha profissão.
— Gostou de jantar com o médico?
— Foi uma noite muito agradável.
A expressão no rosto de Milena estava descontraída e havia um brilho alegre em seus olhos.
Gerson observou-a pensativo, mas não comentou.
Depois do café, Milena beijou-o na face, e ele recomendou:
— Tenha um bom-dia e bom trabalho.
— Obrigada.
Para chegar ao escritório, Milena levou mais tempo do que o usual.
Assim que chegou ao trabalho, notou algo diferente.
Os três advogados falavam baixo e, ao vê-la, doutor Gilberto recomendou:
— Feche a porta e sente-se.
— Não é melhor deixá-la fora disso? — indagou Mário.
— Não. Vamos precisar dela.
Fixando-a, doutor Gilberto continuou:
— O que vou contar-lhe deve morrer aqui, Milena.
Não poderá contar a ninguém, nem para sua família.
É segredo de justiça.
Doutor Carlos interveio:
— Se você abrir o bico, seja para quem for, estará correndo risco de morte.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 10:37 am

— Nesse caso, eu vou embora.
É melhor procurarem outra pessoa.
Doutor Gilberto olhou nos olhos da moça, quando disse:
— Ele está exagerando.
É só não comentar o assunto fora daqui e tudo estará bem.
Nós confiamos em você e precisamos de sua ajuda.
— Eu gosto de tudo às claras, doutor.
Não quero fazer nada escondido.
— Não se trata de fazer nada errado. Ao contrário.
Você vai auxiliar uma mãe desesperada a cuidar de seus filhos.
Doutor Augusto Borges quer castigar a filha e privá-la da companhia de seus dois filhos.
Em dois dias, ele irá interná-los em um colégio fora do país, para que a mãe não possa ter contacto com eles.
Dona Estela está desesperada e nos pediu ajuda.
Mas, para isso, precisamos de alguém de confiança para acompanhar esses meninos e ficar com eles até que a mãe possa ir encontrá-los.
Milena pensou um pouco e respondeu:
— Eu gostaria muito de ajudar, mas meus pais não permitirão que eu viaje para longe.
Nunca saí de casa.
— Será por pouco tempo.
Até que dona Estela possa ir ter com eles.
E você será muito bem recompensada por isso.
— Estou começando minha carreira.
Tenho projectos para o futuro.
— Mais uma razão para aceitar nossa oferta.
Você vai e fica com eles, só pelo tempo da mãe poder ir encontrá-los.
Será como uma viagem de férias.
Logo você estará de volta e com dinheiro suficiente para montar seu próprio escritório.
Nós a ajudaremos até a fazer isso.
Só não poderá contar a verdade à sua família.
— Eu nunca menti para minha família, doutor.
— Uma mentirinha inocente não vai prejudicá-la em nada.
Você dirá a seus pais que ganhou uma bolsa de estudos em outro país e ficará fora por pouco tempo.
Milena, você será muito bem recompensada.
Além disso, estará auxiliando uma mãe desesperada.
— Ficarei fora por quanto tempo?
— Por um ou dois meses.
O tempo para dona Estela conseguir ir buscá-los.
— Eu não tenho experiência para lidar com crianças.
Ainda mais sozinha.
— Você terá ajuda de algumas pessoas no local.
Estamos preparando tudo.
Dona Estela sonha poder ficar livre das garras do pai e cuidar dos filhos.
Ela lhe será eternamente grata.
— Posso pensar um pouco?
— Temos pressa.
Precisamos de sua resposta já.
Não dá para esperar.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 10:37 am

Dona Estela está desesperada.
Ela sabe que, em dois dias, doutor Borges vai mandar os meninos para fora do país.
Nós teremos de agir antes dele.
— Nunca saí de casa sozinha.
Meus pais não vão concordar com essa viagem.
— Se for preciso, eu os convencerei.
Eles querem o seu bem e vão gostar de saber que você vai fazer um curso fora do país, que irá ajudá-la a melhorar seu currículo.
Será por pouco tempo.
Logo, você estará de volta.
É muito vantajoso para quem está começando na profissão.
Não pode perder essa oportunidade, Milena.
Vendo que a moça continuava em dúvida, ele continuou:
— Dona Estela está tão desesperada que nós tememos que tudo isso acabe em tragédia.
Só nós poderemos evitar que isso aconteça.
Está em suas mãos.
Milena passou as mãos nos cabelos e não respondeu de imediato.
— Aceite — pediu o doutor Mário.
É uma mãe desesperada.
— Ontem ela chorou muito por causa disso.
Fiquei penalizado — tornou doutor Carlos.
Milena respirou fundo e decidiu:
— Está bem.
Se for por pouco tempo, concordo.
— Vamos marcar um encontro com dona Estela, que já tomou algumas providências.
Vocês deverão embarcar esta noite.
— Como assim?
Nem falei nada em casa.
— Dona Estela já tem tudo preparado.
Não se esqueça de que vocês vão fugir e por isso é preciso cuidado.
Mantenha sigilo em relação a isso.
Vamos até sua casa para dar a notícia a seus pais.
— O que vão dizer a eles?
— Que você ganhou uma bolsa para fazer um curso de especialização de algumas semanas em uma universidade americana.
O inglês já é sua segunda língua e você não terá dificuldade para trazer um certificado que dará mais força à sua carreira.
— Vai dar tempo de fazer tudo isso em tão pouco tempo?
Doutor Gilberto sorriu alegre quando respondeu:
— Você vai gostar tanto de estar lá, que sentirá pena de voltar.
Agora vamos nos encontrar com dona Estela para combinar tudo.
Depois, falaremos com seus pais.
Prepare-se, porque vocês viajarão esta noite.
Não se esqueça de que ninguém pode saber a verdade, para que tudo saia conforme combinamos.
A partir daquele momento, tudo mudou para Milena.
Doutor Gilberto a levou de volta para casa e convenceu Gerson de que era um privilégio para ela ter ganhado aquela bolsa para estudar nos Estados Unidos.
Milena viajaria e estudaria com todas as despesas pagas.
Voltaria dentro de um ou dois meses, com o certificado do curso.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 10:38 am

Eles não precisavam se preocupar com nada.
Ela precisava apressar-se, porque quem não chegasse na data combinada da primeira aula, perderia o curso.
Alegando que precisavam tratar dos documentos necessários, inclusive do passaporte e visto, que estava sendo providenciado pelo consulado, eles se despediram.
Apenas avisaram que o embarque de Milena seria naquela mesma noite e que Gerson e Joana poderiam ir ao aeroporto para se despedirem da filha.
Depois que Gilberto se despediu dos pais dela, Milena indagou:
— E agora, para onde vamos?
— Falar com dona Estela.
Ela quer conversar com você e já está nos esperando.
Doutor Gilberto havia dado folga ao motorista e estava dirigindo o próprio carro.
De repente, ele parou diante de um restaurante e disse bem-disposto:
— Nosso encontro ficou marcado para as duas horas.
Temos tempo para almoçar.
— Perdi a fome com a história dessa viagem inesperada.
— Você vai passar a noite viajando e, apesar do serviço de bordo, acredito que precisa se alimentar.
A comida aqui é deliciosa.
Você vai gostar.
O lugar era elegante e estava lotado.
— Sempre que posso, venho comer aqui.
Milena notou que, quando entraram no restaurante, o gerente se aproximou para recebê-los e apressou-se a acomodá-los em um local discreto e agradável.
Vendo que Milena não decidia o que iria comer, doutor Gilberto fez o pedido para ambos, e ela acabou almoçando muito bem.
Depois do almoço, foram ao encontro de dona Estela, em um local distante, localizado fora da cidade.
Pararam diante de uma casa de campo, pequena, mas muito graciosa.
O portão foi aberto.
Doutor Gilberto entrou com o carro, deu a volta pela lateral e parou nos fundos.
Ao descerem do carro, doutor Gilberto tirou a chave do bolso e abriu a porta da cozinha.
Quando entraram na casa, notaram que Estela estava na sala.
Vendo-os, ela levantou-se imediatamente.
Depois dos cumprimentos, ele apresentou a jovem para Estela:
— Esta é Milena.
Estela fixou-a e seus olhos brilharam, como se quisessem penetrar fundo nas energias d dela.
Doutor Gilberto disse sério:
— Nesta moça a senhora pode confiar.
Estela suspirou e abraçou-a dizendo:
— Não a conheço ainda, mas pretendo confiar-lhe todo o meu tesouro.
Quero sentir sua alma.
Milena sentiu toda a angústia de Estela e respondeu emocionada:
— Conheço sua história e estou aqui para ajudá-la no que a senhora precisar.
— Entenda... Meus filhos não são culpados e não podem pagar pelos erros que cometi.
— Não estou aqui para julgá-la, mas só para auxiliá-la no que puder.
— Meu pai quer mandá-los para longe de mim, interná-los num colégio em um país distante.
Eu errei, mas amo meus filhos e pretendo educá-los com amor.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 10:38 am

Quero ensinar-lhes tudo que puder, dedicar o resto de minha vida para que eles consigam realizar seus sonhos e se tornem pessoas de bem e sejam felizes.
— Pode contar comigo.
O que deseja que eu faça?
— Esta noite, vou confiar-lhe tudo o que tenho de mais precioso.
Você vai sair do país, levando meus filhos para a Filadélfia, nos Estados Unidos, onde temos tudo preparado para recebê-los.
— A senhora não irá connosco?
— Não posso.
Estou sendo vigiada o tempo todo pelos homens de meu pai.
Para poder estar aqui agora, precisei da ajuda de uma enfermeira, que está fingindo me vigiar enquanto outra pessoa está deitada em meu lugar.
— Irei sozinha com eles?
— Uma pessoa vai acompanhá-la durante a viagem, e sentará ao seu lado.
Lá chegando, tenho outra pessoa de confiança que vai ajudá-la até eu poder chegar.
Os olhos de Estela brilhavam, quando ela abraçou Milena dizendo emocionada:
— Você não sabe todo o bem que está me fazendo.
Terá em mim uma amiga pelo resto da vida.
— Vou cuidar deles com muito amor.
— Obrigada. Deus a abençoe.
Abraçaram-se em despedida.
Doutor Gilberto esforçava-se para dominar a emoção que sentia naquele momento.
Pouco depois, ele levou Milena para casa e combinou o horário que iriam se encontrar no aeroporto.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 10:38 am

Capítulo 9

Quando Milena chegou ao aeroporto acompanhada pelos pais, doutor Gilberto já os esperava.
O advogado entregou a ela o passaporte com uma pasta de couro, dizendo:
— Dentro deste envelope, estão todos os documentos e dinheiro suficiente para cobrir todas as suas despesas e tem o número do meu telefone.
Se precisar de alguma coisa, ligue-me.
Reinaldo chegou, abraçou Milena, cumprimentou os pais dela e foi apresentado ao doutor Gilberto.
Depois, o médico fixou os olhos de Milena:
— Ontem, você não comentou comigo que iria viajar.
— É... Nem eu sabia.
Doutor Gilberto interveio:
— Milena é muito esforçada e deseja fazer carreira.
Nosso escritório fez de tudo para que ela pudesse aproveitar esse curso, que, embora seja de pouco tempo, lhe dará mais traquejo e será óptimo para seu currículo.
É que a resposta só chegou ontem à noite e as aulas começam depois de amanhã.
Gerson quis saber do doutor Gilberto quais seriam as vantagens que Milena teria, por fazer esse curso.
Enquanto eles conversavam, Reinaldo segurou a mão da moça e disse baixinho:
— Vou sentir saudades!
Quanto tempo você vai ficar fora do país?
— Um ou dois meses, mais ou menos.
Foi o que me disseram.
— Eu estava sonhando em repetir nosso passeio de ontem.
Vou ficar contando os dias, sonhando com o momento em que estará de volta.
— Será por pouco tempo, logo estarei de volta.
O último sinal para embarque fez Milena se despedir de todos, e Reinaldo não se conteve:
abraçou-a e trocaram um longo beijo.
Depois, rosto corado pela emoção, Milena entregou a passagem e o passaporte para os agentes federais e dirigiu-se para o embarque.
Quando entrou no avião, Milena procurou seu lugar e logo notou que, do lado de sua poltrona, estava sentada uma mulher, magra, de fisionomia fechada, que tentava acomodar um casal de crianças, que insistia em perguntar para onde estavam indo, enquanto ela os mandava ficar quietos e em paz.
Depois de se acomodar na poltrona, Milena tentou conversar com a mulher, mas ela cortou o assunto e não mostrou nenhuma disposição a manter qualquer diálogo.
Milena comoveu-se, pensando no destino daquelas crianças, que tinham de enfrentar tão cedo aquela situação de insegurança.
E decidiu entrar no caso do seu jeito.
Esperou o avião decolar e, quando o voo estava calmo, a moça sorriu para as duas crianças.
A menina tirou o cinto e aproximou-se dela.
— Como é seu nome?
— Cláudia, e o seu?
— Milena.
Nesse momento, o menino também foi ter com ela.
A mulher fixou-os e disse com voz firme:
— É melhor vocês se sentarem.
Não podem ficar andando pelo avião.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 10:38 am

Milena interveio:
— Pode deixar que eu cuido deles.
— É melhor mesmo.
Milena levantou-se e depois se sentou na ponta da fileira.
As duas crianças, então, posicionaram-se uma em cada lado da jovem.
— E você como se chama?
— Eu sou o Ernesto.
Já tenho oito anos e estou aqui para tomar conta de minha irmã.
— Eu tenho cinco anos — tornou a menina sinalizando com os dedos.
Ernesto fixou Milena e comentou:
— Estamos sendo levados de um lado para o outro, durante a noite, e ninguém nos diz nada.
Estou com medo.
Você sabe para onde estão nos levando?
— Sei. Sua mãe me pediu para tomar conta de vocês, e nós vamos ficar juntos durante algum tempo.
Cláudia pediu com voz triste:
— Eu quero minha mãe...
Ernesto disse nervoso:
— Ela não quer mais a gente.
Meu avô falou que ela não gosta de nós e nunca mais vamos vê-la!
Milena baixou a voz, quando disse:
— Isso não é verdade.
Sua mãe ama muito vocês.
Pediu-me para tomar conta de vocês até que ela possa ir buscá-los.
Ela os ama muito.
Ernesto segurou a mão de Milena e disse ansioso:
— É verdade isso ou você está me enganando?
— Pode confiar em mim.
Ela quer muito ficar com vocês.
Mas, por ora, ela não pode vir.
Enquanto isso, vocês ficarão comigo até que ela possa nos encontrar.
Quando sua mãe chegar, vocês ficarão juntos para sempre.
Pode acreditar!
Ernesto suspirou aliviado e comentou:
— Que bom! Sinto muitas saudades dela.
— Eu também! — tomou Cláudia.
Mamãe sabe contar história de fadas!
Você sabe contar também?
— Sei e vou contar uma muito linda!
Milena segurou as mãos de Cláudia e começou a contar:
— Era uma vez uma menina...
O tempo foi passando.
Enquanto a mulher que acompanhava as crianças dormia profundamente, Milena, comovida, além de contar histórias, cuidava dos dois, levando-os ao toalete e alimentando-os.
Mais tarde, quando os dois adormeceram, Milena continuou segurando as mãos dos dois irmãos, sentindo amor por aquelas crianças, cujo destino, naquele momento, estava em suas mãos.
Emocionada, ela prometeu a si mesma que faria tudo para que aquelas crianças pudessem viver ao lado da mãe, usufruindo do seu carinho e da sua protecção para sempre.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 10:39 am

Quando desembarcaram no aeroporto e passaram pela imigração, já havia uma pessoa segurando um cartaz com o nome de Elaine, que logo se apresentou.
Um carro já os esperava do lado de fora para levá-los dali.
Amanhecera frio e o céu, cinzento, prenunciava que o inverno estava chegando ao fim.
O motorista ajudou a acompanhante das crianças a acomodar as malas, e ela sentou-se no banco do passageiro, ao lado dele.
Durante todo o tempo em que estiveram viajando, a mulher havia trocado poucas palavras com Milena, que não se sentia muito à vontade ao lado dela.
A jovem apenas sabia que ela se chamava Elaine Rocha, tinha quarenta e dois anos, havia sido babá em uma creche durante dez anos e que fora contratada pelo doutor Gilberto para cuidar das crianças.
Milena notou que Elaine mantinha uma atitude séria, mas estava muito atenta ao que se passava em volta dela.
Parecia mais uma vigilante do que uma babá.
Diante da situação inusitada que estavam vivendo, Milena deduziu que o doutor Gilberto a tinha colocado ali exactamente para garantir o sucesso da viagem.
Assim que Milena e as crianças acomodaram-se no banco de trás do veículo, Ernesto abriu um sorriso e perguntou:
— Nós vamos para a casa de minha mãe agora?
— Não. Nós vamos para um lugar primeiro e esperaremos sua mãe chegar.
Cláudia reclamou chorosa:
— Eu quero minha mãe!
— Calma. Ela vai chegar.
Só não sei o dia ainda.
Foi a vez de Ernesto perguntar:
— Vai ser logo?
— Só sei que ela está com muita pressa de vir, mas as coisas só acontecem na hora certa — Milena tentou acalmá-lo.
Os dois calaram-se, enquanto Milena observava que o carro estava deixando estradas mais movimentadas.
Depois de meia hora de viagem, pegaram uma estrada vicinal e, pouco depois, pararam diante de uma casa de campo, rodeada de muros altos e cercada de árvores.
Elaine desceu, tirou um molho de chaves da bolsa e abriu o portão.
O carro entrou na propriedade e parou diante das escadas da varanda.
O motorista auxiliou-a com a bagagem, enquanto as crianças desciam do automóvel com Milena, que admirava o belo jardim.
Elaine olhou em volta, depois abriu a porta da sala e disse:
— Eu vou entrar.
Esperem-me aqui.
Ansiosas, as crianças queriam percorrer a casa, mas Milena as segurou:
— Calma. Vamos esperar a Elaine.
Milena sentia que Elaine estava garantindo a segurança do grupo.
Enquanto a mulher percorria todos os aposentos, inclusive os quartos do primeiro andar, Milena distraía as crianças, chamando-lhes a atenção para os objectos de arte e para a beleza do mobiliário.
A um sinal de Elaine, Milena subiu as escadas com as crianças.
A mulher, então, conduziu-os a uma sala pequena, mas confortável, cuja porta a ligava a uma suíte.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 10:39 am

— Você vai ficar aqui.
As crianças ficarão no quarto ao lado do seu.
Eu ficarei no apartamento que também é ligado ao quarto deles.
Assim, os meninos estarão acomodados entre o meu e o seu aposento.
A campainha tocou, e Milena se assustou.
Elaine comentou:
— Deve ser a pessoa responsável pelas compras e refeições.
— As crianças devem estar cansadas e com fome.
Precisam de um banho para relaxar.
Elaine tirou um molho de chaves do bolso e entregou-o a Milena:
— Essas são as chaves das malas das crianças.
Elaine desceu as escadas, e as crianças rodearam Milena, curiosas para ver o que havia nas malas.
— Vamos levar as duas malas para o quarto ao lado.
Ernesto prontificou-se a levar sua bagagem.
O garotinho puxou a alça da mala e foi andando.
Cláudia também queria levar a sua, mas a bagagem estava pesada.
Ela disse nervosa:
— Eu posso levar.
— Eu sei que pode, mas eu quero ajudá-la.
Vamos nós duas.
Ernesto quis arrumar sua gaveta, e Cláudia deu um grito de alegria quando Milena abriu sua mala e ela viu uma boneca.
— Ela veio! Eu estava com muitas saudades!
É a Vanda. Foi minha mãe quem me deu!
A menininha beijava a boneca e seus olhos brilhavam emocionados.
Milena sentou-se apreciando a cena.
Naquele momento, ela sentiu muito amor por aquelas crianças, que, em meio aos problemas dos adultos, estavam vivendo uma situação difícil e perigosa.
A moça não se conteve, fechou os olhos e pediu a Deus e a seus amigos espirituais que auxiliassem aquela mãe aflita, para que ela pudesse viver com seus filhos em paz.
Depois, Milena ajudou Cláudia a colocar suas roupas no armário e conduziu-a, em seguida, para o banho.
Enquanto ela auxiliava a menina a vestir um pijama, Ernesto tomava banho.
O garotinho não queria vestir roupa de dormir, mas Milena convenceu-o:
— Nós vamos tomar um lanche e dormir um pouco.
— Eu quero sair, dar uma volta, conhecer tudo.
— Antes, nós precisamos descansar.
Nós vamos ficar aqui até sua mãe chegar.
Teremos tempo para conhecer o que você quiser.
Ernesto reclamou um pouco, mas Milena convenceu-o a esperar.
Elaine mandou Hellen chamá-los para o lanche.
As duas crianças disseram que não estavam com fome, mas, diante dos sucos de frutas, dos pequenos sanduíches variados e de alguns doces delicados, não resistiram e comeram muito bem.
Em seguida, Milena levou-os para o quarto, fazendo-os se estenderem nas camas.
Já acomodados, a jovem sentou-se na poltrona ao lado e começou a ler uma história.
Pouco depois, eles estavam dormindo.
Milena, então, desceu as escadas.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 10:39 am

Elaine a esperava na sala:
— Sente-se. Precisamos conversar.
Milena acomodou-se, e a mulher continuou:
— Doutor Gilberto já lhe falou um pouco sobre a situação?
— Sim. Estamos em uma situação de risco.
Ele pediu-me sigilo e cuidado.
— Todo cuidado é pouco.
Ninguém, a não ser dona Estela, sabe onde estamos.
Nem doutor Gilberto tem nosso endereço.
O que foi que ele lhe disse sobre este caso?
— Além de me pedir sigilo, ele disse que ficaríamos em um lugar distante, mas com todo conforto, até que dona Estela pudesse vir ao nosso encontro, o que pode levar de um a dois meses.
— Ele também não sabia de tudo.
No momento, dona Estela está prisioneira em uma fazenda do pai, em Minas Gerais.
Soube ontem que ele ficou furioso quando descobriu que as crianças tinham escapado do colégio interno onde ele as mantinha prisioneiras.
— Nesse caso, não sabemos quando dona Estela virá!
— Eu sou do serviço secreto dos Estados Unidos e temos amigos cuidando do caso.
Você não pode entrar em contacto nem ligar para sua família, por enquanto.
- Eu preciso dar notícias a meus pais, ainda que seja para dizer que estou bem.
É a primeira vez que fico fora de casa, e eles são muito apegados a mim.
— Vou ver o que dá para fazer.
Só quero que você não faça nada sem falar comigo, pois pode pôr tudo a perder.
É bom que saiba que o doutor Augusto Borges é um homem perigoso, capaz de tudo.
É mau e tem pessoas que fazem tudo que ele manda.
Se ele descobrir onde estamos, não sairemos desta história com vida.
Milena empalideceu, arrependendo-se de ter se envolvido com aquela história.
Ainda assim, decidiu cooperar como pudesse e prometeu a Elaine que não faria nada sem que ela soubesse.
— Eu sabia que podia confiar em você.
Apesar da preocupação, os dias que se seguiram foram de calma e bem-estar.
As crianças gostavam de brincar no jardim, mas, antes de permitir que elas saíssem da casa, Milena checava se estava tudo bem.
Todos os dias, as crianças perguntavam quando a mãe chegaria de viagem.
Como Elaine e Milena não sabiam, respondiam aos irmãos com evasivas, sinalizando que logo ela estaria de volta.
Às vezes, Cláudia acordava durante a noite chorando muito e chamando a mãe.
Milena, penalizada, deitava-se ao lado da garotinha e abraçava-a, tentando confortá-la.
Outras vezes, Ernesto tinha pesadelos e acordava gritando que um homem muito feio, com um punhal na mão, estava ali para atacá-lo.
Milena o socorria dizendo com voz firme:
— Não tem ninguém aqui!
É apenas um sonho!
Vamos rezar!
Em seguida, ela orava, pedindo ajuda aos espíritos.
Assim, as crianças iam acalmando-se aos poucos.
Como isso estava se repetindo, Milena levou-os para dormir em sua cama, que era muito espaçosa.
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Ave sem Ninho

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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 10:39 am

Nessa noite, depois que as crianças pegaram no sono, Milena sentou-se ao lado da cama e viu quando o espírito de Marcos Vinícius se aproximou:
— Acalme seu coração, Milena.
Nós estamos juntos.
Confie na vida.
As coisas boas só ocorrem quando estamos ligados com o bem.
As pessoas têm seus caminhos, mas a vida é misericordiosa e sempre faz o melhor.
Não tema o futuro.
— Eles são tão pequenos, tão indefesos!
Chamam pela mãe e estão vivendo uma situação de risco, tendo de se esconder do próprio avô para sobreviverem.
Isso é muito doloroso!
— Procure olhar as coisas como elas são.
Eles estão protegidos, e você, com carinho, está lhes dando todo o apoio de que precisam.
Neste lugar, vocês estão em paz.
É uma casa bonita e confortável.
Enquanto precisarem estar aqui, aproveite para cultivar neles pensamentos de fé e de amor, para que possam aproveitar esses momentos de paz.
Apesar das circunstâncias desagradáveis, vocês estão protegidos e bem. Sinta isso.
Aprenda a tirar da vida sempre o melhor, o que for positivo, e poderá transformar completamente esta situação.
Acredite na força do espírito!
O bem maior está aqui neste momento.
Basta crer no poder divino, e todas as coisas irão para seus devidos lugares!
A fé move montanhas!
Lágrimas desciam pela face de Milena, quando ela respondeu:
— Obrigada, meu amigo!
Foi um momento de fraqueza, em que me deixei levar.
Vou me esforçar para manter a confiança e fazer tudo que puder para ficar bem.
— Ajudaria, se mentalizar Estela, muito alegre e feliz, chegando aqui para buscar os filhos.
— Tem razão.
É o que farei daqui para frente.
Marcos Vinícius colocou a mão sobre a cabeça de Milena, derramando sobre ela energias de luz e paz.
Ela sentiu-se aliviada e agradeceu a ajuda.
Em seguida, deitou-se e logo adormeceu.
Duas semanas transcorreram, e tudo continuava em paz, sem novidade.
Milena sentiu-se mais calma.
Afinal, ninguém sabia onde eles estavam.
A casa ficava fora da cidade, e Elaine não deixava mais as crianças saírem para o jardim.
Milena, criativa, inventava muitas brincadeiras para entretê-los.
E até Elaine, sempre tão discreta e séria, acabava sorrindo diante da alegria dos três.
Todas as tardes, após o almoço, Milena fazia as crianças descansarem um pouco, e eles, muitas vezes, acabavam pegando no sono.
Uma tarde, enquanto as crianças dormiam, Milena foi à sala onde havia uma estante com livros e um deles imediatamente chamou-lhe a atenção, não só pelo assunto como pelo autor da obra:
A História do Espiritualismo, de Arthur Conan Doyle.
A moça apanhou o livro, acomodou-se, começou a ler e esqueceu-se do tempo.
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Ave sem Ninho

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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 10:39 am

Elaine entrou na sala, notou o interesse da jovem e comentou:
— É preciso paciência para ler um livro dessa grossura e ainda mais sobre religião.
Elaine nunca manifestava sua opinião, e Milena olhou-a surpreendida.
Sorrindo, ela respondeu:
— Este não é sobre religião, Elaine.
É um relato sobre algumas manifestações dos espíritos.
Algumas pessoas começaram a ouvir ruídos sem que soubessem de onde vinham e alguns curiosos se interessaram em descobrir o mistério contido nisso.
Por fim, perceberam que esses sons só aconteciam quando duas irmãs adolescentes estavam presentes.
Esse fenómeno chamou a atenção de alguns pesquisadores, que estudaram e descobriram que se tratava de seres de outra dimensão do universo, que já tinham vivido neste mundo.
Isso começou quando eles fizeram várias perguntas para esses seres e comprovaram que a vida continua depois da morte do corpo.
Souberam também que algumas pessoas têm sensibilidade para sentir a presença desses seres.
São os médiuns.
— Isso é loucura.
Gastaram tanto papel com essa ilusão?
Milena fixou-a e disse séria:
— Passe o tempo que passar, um dia você ainda vai se lembrar de mim, quando chegar sua hora de aprender como a vida funciona.
Elaine meneou a cabeça negativamente e não respondeu.
Pouco depois, as crianças chegaram.
Milena, então, teve que fechar o livro, porque Cláudia lhe pedira para contar uma história de fadas.
— Eu prefiro uma história de aventuras... — disse Ernesto.
— Cláudia pediu primeiro, Ernesto.
Vou contar uma história bem bonita de fadas.
Na estante, há alguns livros de aventuras.
Escolha qual você quer que eu leia depois de terminar esta história.
Ernesto escolheu um que atraiu sua atenção e mostrou-o a Milena, que sugeriu:
— Esse é muito bom.
Comece a ler e, quando não entender alguma coisa, eu o ajudarei.
Ernesto acomodou-se em uma poltrona e mergulhou na leitura com interesse.
Cláudia sentou-se no sofá ao lado de Milena, com os olhos
brilhantes, antegozando o prazer de ouvi-la contar a história.
— Era uma vez uma menina muito linda...
Enquanto Milena contava a história, Ernesto lia com muito interesse as aventuras de um menino, que viajava sentado nas costas de um dragão.
O ambiente era de calma e de paz, e ninguém poderia suspeitar o que aconteceria em seguida.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 10:40 am

Capítulo 10

Na casa, tudo era silêncio.
Todos dormiam. Milena, fora do corpo, sentiu uma energia agradável e viu o espírito de Marcos Vinícius se aproximar.
Ele abraçou-a dizendo:
— As coisas vão mudar.
Vocês terão de ir para outro lugar.
Aconteça o que acontecer, não tema.
Nós estamos juntos.
Confie em Deus e acredite que o mal não tem força para competir com o bem.
A justiça divina é mais forte do que tudo e age sempre de maneira certa.
Fique na paz.
Naquele momento, Elaine entrou no quarto de Milena e chamou-a:
— Milena, Milena, acorde! Vamos.
Ela abriu os olhos, ainda sonolenta, sem perceber onde estava.
— Acorde, depressa, vamos! — repetiu Elaine.
Desta vez, Milena abriu os olhos e perguntou:
— O que foi? O que aconteceu?
— Levante. Nós fomos descobertos, temos de sair daqui agora!
Vista-se rápido.
Acorde as crianças, enquanto eu arrumo tudo para irmos embora.
Depressa! Temos que sair daqui o quanto antes!
O tom com que Elaine disse essas palavras fez Milena reagir.
Ela levantou-se, vestiu-se e acordou as crianças.
A noite estava muito fria.
Milena separava rapidamente a roupa que as crianças iriam vestir, enquanto Ernesto tentava entender o que estava acontecendo.
— Depois eu explico.
Agora temos de sair daqui já.
Vista-se enquanto eu ajudo a Cláudia — Milena ordenou.
— Vamos encontrar mamãe? — indagou o menino.
— Não sei ainda. Temos de ir embora depressa.
Elaine aproximou-se trazendo duas malas:
— Coloque tudo que pertence a vocês três dentro dessas malas.
Não deixe nada que possa comprovar que estivemos aqui.
Enquanto fazia o que Elaine pedira, Milena lembrava-se das palavras de Marcos Vinícius e procurava manter a calma.
Após arrumar tudo, acomodar as malas, Milena e as crianças no carro, Elaine percorreu toda a casa para verificar se haviam deixado evidências de que estiveram ali.
Ela ainda encontrou um brinquedo de Cláudia no jardim e entregou-o ao motorista, que a auxiliou a vistoriar o que faltava.
Depois, entraram no carro.
Embora aquela fosse uma das muitas propriedades pertencentes à família de Estela, seu pai nunca poderia suspeitar que eles estivessem abrigados ali.
Hellen e outra mulher, que trabalhavam na casa, eram pessoas da confiança de Elaine e nada diriam.
O carro partiu e Milena, embora se esforçasse para ficar calma, não sabia para onde estavam indo.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 10:40 am

Amanhecia, quando eles chegaram à divisa da cidade e pararam diante de um hotel.
O prédio de três andares era simples, mas limpo, e o lugar era calmo.
— Vamos dormir um pouco e continuar antes do entardecer.
— Para onde vamos? — indagou Milena.
— Não sei ainda.
Estou esperando meus contactos.
— Estaremos seguros aqui?
— Acredito que sim.
Nós não deixamos nenhuma prova de nossa passagem por aquele local.
E as pessoas que nos receberam lá são de confiança.
— Eu ainda não pude falar com minha família, Elaine.
Eles devem estar preocupados com a falta de notícias.
— Não se preocupe.
Nós tivemos o cuidado de mandar-lhes algumas notícias em seu nome.
— Por que fez isso em meu lugar?
Eu poderia ter mandado notícias, como se estivesse fazendo o curso na universidade.
— Fizemos isso para nossa segurança.
Está tudo bem.
— Da próxima vez, eu quero ler a mensagem antes de mandar.
— A pessoa que está mandando notícias para sua família mora no local onde você está “estudando”.
Está tudo bem.
Pensativa, Milena calou-se.
Em certos momentos, a jovem arrependia-se de ter aceitado aquela incumbência.
A presença de Marcos Vinícius, que a avisaria se houvesse algum perigo, a confortava.
Nessas circunstâncias, o melhor seria confiar e fazer tudo que pudesse para cooperar.
Uma vez acomodados no hotel e depois de um banho, o grupo desceu para o restaurante.
Passava das sete e o café já começara a ser servido.
Apesar de o hotel ser simples, o café da manhã era farto e variado.
Todos se alimentaram muito bem, e Milena levou as crianças para dormir.
O quarto era grande e havia nele duas camas enormes de casal.
Milena deitou-se com as duas crianças em uma delas.
Na pequena sala contígua, Elaine conversava com seus contactos.
Pouco depois, acomodou-se na outra cama, e os quatro, cansados, logo adormeceram.
Elaine acordou e notou que já havia escurecido.
Passava das seis, e ela chamou Milena.
Estava na hora de continuar a viagem.
Ela já sabia para onde deveriam ir e queria aproveitar a noite para seguir até lá em segurança.
As crianças ainda dormiam tranquilas, e Milena aproveitou para se vestir e cuidar da bagagem.
Só chamou-os na hora de se arrumarem para viajar.
A noite estava fria, e ela agasalhou-os bem e esperou.
Pouco depois, Elaine entrou e avisou:
— O jantar está sendo servido.
Vamos comer e sair em seguida.
Sua bagagem está pronta, Milena?
— Sim. Só falta fechar as malas.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

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