Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 10:23 am

— Veja se não ficou nada nosso por aí.
Feche as malas.
Vamos comer e sair em seguida.
— Pode adiantar para onde vamos?
— Para um lugar seguro.
Lá, ficaremos mais tempo e melhor instalados.
Vamos ter de conversar com as crianças para treiná-las a assumir outra identidade e participarmos do dia a dia com a comunidade.
— Isso não será perigoso?
— Conto com sua criatividade para fazer com que os dois entrem nessa situação como se fosse uma brincadeira.
Vamos activar a imaginação das crianças para que assumam a identidade de outros personagens.
— Isso não vai confundi-las?
— Não, se for feito do jeito certo.
A única maneira de ficarmos protegidos é nos integrando como se fôssemos uma família e levando uma vida normal.
Você pode ser a mãe deles; eu posso ser a tia, que também é professora.
Vamos programar isso e pôr em prática assim que chegarmos ao lugar adequado.
Milena pensou um pouco e depois perguntou:
— Você tem ideia de quando dona Estela poderá vir para ficar com os filhos?
Elaine fixou-a séria:
— Isso eu não sei.
Não depende de mim.
Será quando ela puder escapar do pai.
— Você é do serviço secreto.
Não poderia ajudá-la nisso?
Fazer com que fosse libertada?
Estela tem dois filhos para criar.
Há leis que a protegem.
— O poder que o pai dela tem reside nas ameaças que faz às pessoas.
É um homem prepotente, que não vacila em acabar com alguém que o está incomodando.
É temido e inescrupuloso.
Enfrentá-lo seria uma loucura.
O melhor é agir com inteligência e procurar ser mais esperto do que ele.
Pegá-lo de surpresa.
Por enquanto, isso ainda não ocorreu.
O jantar já está sendo servido. Vamos.
— Antes de irmos, eu gostaria de mandar notícias para minha família.
— Não se preocupe.
Como lhe disse antes, nós estamos mandando notícias suas regularmente.
Está tudo bem.
— Meu pai é muito ligado a mim, Elaine.
Nunca houve segredos entre nós.
Se eu não me comunicar directamente, ele vai notar que não sou eu quem escreve.
Sei como ele é.
— Você vai escrever falando do seu curso na universidade, dizendo que está muito bem, e nós vamos fazer essa carta chegar às mãos dele.
Eu quero ler antes de enviá-la.
E a resposta chegará até você. Está bem?
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 10:23 am

Milena concordou.
Sentia saudades dos pais e pensava também em Reinaldo.
O que ele estaria pensando por ela não lhe mandar notícias?
Prometera escrever, mas, nas atuais circunstâncias, seria impossível.
A situação era perigosa, e ela não queria envolvê-lo.
Naquele momento, Milena arrependeu-se mais uma vez de haver aceitado aquele encargo.
Era tarde demais para voltar atrás.
Reinaldo tocou a campainha da casa de Milena, e Nena foi abrir a porta:
— Doutor Reinaldo!
— Gerson está em casa?
— Sim. Entre por favor.
Gerson aproximou-se e abraçou-o dizendo:
— Que bom vê-lo!
Joana juntou-se a eles e, depois dos cumprimentos, convidou:
— Vamos nos sentar na sala e conversar.
Depois de acomodados, Joana perguntou:
— Tem tido notícias de Milena?
Recebeu alguma carta?
— Infelizmente, não.
Vim aqui para saber como ela está.
Joana trocou um olhar com Gerson e, em seguida, respondeu:
— Não sei o que está acontecendo.
A situação está um pouco confusa.
— Como assim?
Gerson interveio:
— Joana acha que as cartas que temos recebido não foram escritas por ela.
— A letra é praticamente idêntica à dela.
Não sei se outra pessoa escreveria do mesmo jeito — tornou Joana.
— Não creio.
Milena, mesmo estudando muito, teria arranjado tempo para mandar ainda que fossem algumas linhas.
Ela mandou-lhe notícias, Reinaldo?
— Prometeu-me mandar assim que chegasse, mas, até o momento, não chegou nada.
Vim aqui para saber como ela está.
— Estou preocupado.
Nos últimos dias, tenho pensado muito no que aconteceu.
Foi o doutor Gilberto quem convenceu Milena a fazer esse curso, dizendo que ela levaria um ou dois meses para concluí-lo e que teria todas as despesas pagas.
Eu não deveria tê-la deixado aceitar.
Sinto que tem alguma coisa mal explicada — Gerson comentou.
— Nesse caso, vamos falar com esse doutor Gilberto para saber o que está acontecendo.
Vocês têm certeza mesmo de que essas cartas não foram escritas por Milena?
— Tenho. Milena é amorosa, mas se expressa com naturalidade.
Já essas cartas têm frases superficiais e mais intelectualizadas, o que ela não escreveria, principalmente quando se dirige a nós, que somos pessoas simples — explicou Gerson.
Foi a vez de Joana opinar:
— Cada carta que chega, em vez de me alegrar, acaba por me deixar mais preocupada.
Não sei explicar-lhe, mas sinto isso.
— Gostaria de ver essas cartas — pediu Reinaldo.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 10:23 am

Gerson foi buscá-las e entregou-as ao médico.
Enquanto ele lia, os pais da moça esperavam ansiosos.
— E então, o que acha?
— Se vocês sentem que não foi ela quem escreveu, vamos tirar isso a limpo.
Precisamos ver o doutor Gilberto.
Ele terá de dar todas as informações sobre essa viagem.
— Eu tinha pensado em fazer isso, mas sou uma pessoa simples.
Não conheço as leis, e ele poderia me enrolar.
Mas indo com você, Reinaldo, a situação muda.
Vamos lá o quanto antes.
— Vou me arrumar, também quero ir! — exclamou Joana.
— Vocês têm o telefone desse advogado? — indagou Reinaldo.
Gerson tirou um cartão do bolso e entregou-o ao médico, que disse:
— É um pouco tarde.
Vou ligar para saber se ele ainda está no escritório.
O telefone tocou várias vezes, mas ninguém atendeu.
— Já foram embora, ninguém atendeu.
Joana, que já havia se arrumado para sair, disse nervosa:
— E agora?
— Não se preocupe.
Amanhã cedo, eu ligarei para o escritório e, se ele estiver lá, virei buscá-los.
Ele terá de nos esclarecer essa história.
— Eu não devia ter deixado Milena fazer essa viagem!
— Calma, Gerson!
Amanhã, iremos ver esse doutor Gilberto, e tudo será esclarecido.
— Você vai ligar logo cedo? — perguntou Joana a Reinaldo.
— Vou. Se ele estiver lá, virei buscá-los.
Vocês estão preocupados, porque é a primeira vez que Milena viaja para tão longe.
Esses cursos livres são intensivos, e é muito provável que ela tenha estado muito ocupada com os estudos.
— Isso ela sempre fez.
É estudiosa, esforçada — comentou Joana.
— É, isso é — tornou Gerson e continuou:
— Mas você vai ligar logo cedo, não vai?
Reinaldo sorriu:
— Está com muitas saudades, é isso!
Os olhos de Gerson brilhavam emotivos, quando ele respondeu:
— Milena é a luz de minha vida!
Ao que Reinaldo aduziu:
— Ela tem um brilho raro e uma luz especial.
Os três ficaram em silêncio durante alguns segundos, e depois Reinaldo tornou:
— Eu também estou sentindo saudades.
Por isso vim até aqui.
Mas amanhã, voltarei para irmos buscar o endereço dela.
Eu quero escrever para ela também.
— Eu escrevi para essa universidade, mas penso que ela não recebeu minha carta.
— Por que diz isso?
— Porque a última carta de Milena chegou ontem, e ela não comentou nada sobre o que eu escrevi.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 10:23 am

— Você disse que recebeu uma carta dela, que deve ter sido escrita por outra pessoa.
— Milena nunca faria uma carta daquela! — comentou Joana meneando a cabeça negativamente.
Ela escrevia de modo diferente.
Reinaldo ficou pensativo durante alguns segundos.
Milena prometera escrever-lhe e não o fizera, e os pais dela afirmavam que a carta que receberam não havia sido escrita pela moça.
Ele sentia que Gerson e Joana estavam realmente preocupados com a filha e que, embora fossem pessoas simples, eram muito ligados a ela.
Estaria mesmo acontecendo alguma coisa com Milena?
Esse pensamento começou a incomodá-lo, então Reinaldo decidiu despedir-se dos dois, prometendo-lhes que, no dia seguinte, os levaria para conversar com o doutor Gilberto.
Reinaldo ligou logo cedo para o escritório e soube que, às dez da manhã, o doutor Gilberto chegaria para trabalhar.
Em seguida, o médico apressou-se a telefonar para avisar aos pais de Milena que iria buscá-los em meia hora.
Faltavam dez minutos para as dez, quando o doutor Gilberto entrou no escritório e encontrou os três na sala de espera.
Cumprimentou-os formalmente, entrou em sua sala, chamou a secretária e perguntou:
— O que essas pessoas estão fazendo aqui?
— São os pais da Milena.
O doutor não se lembra deles?
Querem conversar com o senhor.
O advogado os reconhecera e sabia sobre o que queriam conversar, mas não podia falar no assunto abertamente.
Pensou um pouco e decidiu recebê-los.
Os três entraram, e, depois dos cumprimentos, Gerson pediu ao doutor Gilberto o endereço de onde Milena estava.
— Eu sei que ela está fazendo um curso livre em uma universidade na Filadélfia, portanto, escrevam para lá.
— Eu escrevi, mas acho que ela não recebeu minha carta.
Além disso, a carta que recebi de Milena foi escrita por outra pessoa.
Eu quero saber onde minha filha está!
Essa história está muito mal contada.
— Vai ver que eia estava ocupada e pediu para que outra pessoa fizesse isso.
Eu só sei que ela foi uma das escolhidas para fazer esse curso, que vai alavancar sua carreira.
Reinaldo olhou firme nos olhos do advogado e comentou:
— Pelo que sei, o senhor insistiu muito para que ela aceitasse essa viagem. Por quê?
— Nem tanto.
É uma jovem muito estudiosa, e esse curso fará com que a carreira dela deslanche.
— Não creio que um curso livre de um ou dois meses tenha tanta força quanto o doutor diz...
Doutor Gilberto fixou-os dizendo:
— Tenho dois clientes de um caso muito importante, que estão me esperando na sala ao lado.
Preciso atendê-los com urgência.
Vocês têm o endereço da universidade, que aliás consta nas cartas que Milena enviou.
Peço que entrem em contacto directo com ela.
Esse caso não é comigo e eu preciso trabalhar.
Por favor, queiram se retirar.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 10:24 am

Reinaldo fixou-o firme e respondeu:
— Este assunto ainda não está claro.
Vou investigar e, se as suspeitas dos pais de Milena se confirmarem, o senhor vai ter que nos dar respostas convincentes e verdadeiras.
Nós queremos ter um contacto directo com ela, e o doutor foi a pessoa quem a convenceu a fazer esse curso.
— Meus clientes estão me esperando.
Não posso demorar mais.
Se essa moça não quer dar notícias, não tenho nada com isso. Passem muito bem!
Doutor Gilberto abriu a porta para que saíssem.
Gerson ia protestar, mas Reinaldo disse sério:
— Nós vamos sair agora daqui, mas o senhor nos deve explicações.
Voltaremos mais tarde.
É bom que já tenha as informações que queremos.
Caso contrário, vamos procurar a polícia.
— Isso é um absurdo!
Se ela não está na universidade, deve estar se divertindo com novos amigos e não quer ser encontrada.
Eu fiz um favor a ela!
Nosso escritório pagou-lhe o curso, mas não sou responsável pelas atitudes dessa moça.
Onde já se viu?
Os três saíram, e doutor Gilberto fez sinal para o casal que o estava esperando para que entrasse.
Reinaldo disse baixinho:
— Vamos conversar em outro lugar.
Os três deixaram o prédio.
Gerson estava nervoso e Joana preocupada.
Uma vez no carro, Reinaldo falou sério:
— Há um jeito de eu descobrir o que está acontecendo.
Gerson questionou:
— Como?
— Eu poderia até ligar para a universidade, mas, diante de nossa aflição, prefiro ir até lá.
Quero ver se Milena está, de facto, estudando.
— O senhor tem seu trabalho no hospital.
Faria isso por nós?
— Sim. Se tudo estiver bem, como penso que esteja, logo estarei de volta.
Vou comprar a passagem para viajar o quanto antes.
E, assim que chegar lá, ligarei para dar-lhes notícias.
Os olhos de Joana brilhavam emocionados, quando ela disse:
— Eu gostei de você desde o momento em que o vi.
Deus o abençoe e o conduza até onde Milena está.
Agora, estou mais calma.
Nós vamos ficar aqui, rezando para que tudo dê certo.
O médico levou-os de volta para casa e, na despedida, prometeu:
— Assim que comprar a passagem, telefono-lhes avisando.
— Quero saber o dia e a hora do embarque, porque vou mandar uma lembrança para ela.
Reinaldo conseguiu comprar uma passagem para aquela noite mesmo.
No hospital, deixou um colega encarregado dos casos mais sérios que ele tratava e avisou aos pais de Milena a hora do voo, apressando-se para conseguir chegar ao aeroporto um pouco antes.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 10:24 am

O casal já estava lá esperando-o e entregou-lhe um pequeno pacote.
— Dentro, há uma carta e uma lembrança.
Diga a ela que estamos com muitas saudades — disse Gerson.
Joana completou:
— Queremos que ela volte logo.
Nossa casa ficou muito triste sem ela.
Não vejo a hora de tê-la em casa novamente.
O voo foi anunciado nos alto-falantes.
Reinaldo abraçou Gerson e Joana, prometendo-lhes dar notícias assim que estivesse com Milena.
O avião levantou voo, e Reinaldo sentiu um aperto no peito e foi tomado por uma sensação desagradável.
Esforçou-se para mudar o pensamento, imaginando que logo estaria com Milena, comemorando o encontro, feliz e em paz.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 10:24 am

Capítulo 11

Já havia amanhecido, quando Milena, Elaine e as crianças deixaram a capital.
Depois de viajarem algumas horas, entraram em uma pequena cidade do interior da Filadélfia e o carro que os conduzia parou diante de uma casa muito bonita.
Embora o estilo das edificações naquela região fosse semelhante, cada uma tinha algo diferente e, apesar de o jardim de todas as casas começar na porta principal e se estender até a calçada da rua, não havia muros.
A primavera estava no início, e as árvores, que enfeitavam a rua, estavam começando a florir, com suas cores variadas e alegres.
O bom gosto de cada morador fizera desses jardins um ambiente agradável.
Depois de o motorista abrir a porta da garagem, Elaine comentou:
— Vamos descer do carro dentro da garagem.
As crianças, que já haviam acordado, estavam ansiosas para descer, mas Milena não deixou.
Depois de o veículo ser estacionado, Elaine desceu e abriu a porta de comunicação entre a garagem e o interior da casa e convidou-os a entrar.
As crianças gostaram do lugar e queriam sair para brincar no jardim, mas Elaine não deixou e foi taxativa:
— Nós vamos ficar aqui até a mãe de vocês chegar.
Terão muito tempo para conhecer tudo, mas, agora, precisam descansar da viagem.
Depois vamos conversar e decidir o que vamos fazer.
Enquanto Milena cuidava das crianças, Elaine examinava a despensa e fazia uma lista de compras.
Depois, despachou o motorista para buscar os itens de que precisavam.
Ernesto tomou banho primeiro, e Cláudia não queria esperar, mas Milena conseguiu entretê-la, prometendo-lhe que encheria a banheira para que a menina brincasse.
Como havia espaço, resolveu entrar junto com ela.
As duas se divertiram muito com a espuma, até que Milena tirou a tampa do ralo e abriu a torneira para que toda a espuma saísse.
Ernesto esperava-as do lado de fora do banheiro e reclamou;
— Por que demoraram tanto?
Estou com fome!
— Eu também — disse Cláudia.
— Vamos ver quanto vão demorar para se vestir.
Pelo que vi na cozinha, vamos ter um lanche e tanto!
Estou morrendo de fome! — Ernesto reclamou.
— Nós também. Não vamos demorar! — prometeu Milena.
Pouco depois, quando Milena e as crianças desceram, encontraram a mesa posta e o lanche já servido.
Elaine, ocupada com a organização das coisas, ainda não tinha tomado banho nem trocado de roupa.
Ela lavou as mãos e sentou-se para comer com Milena e as crianças.
Ernesto aproximou-se de Elaine, dizendo alegre:
— Você deve estar com muita fome, como nós.
Ainda bem que não tomou banho!
Elaine riu, e Milena notou que ela parecia estar diferente.
Teria visto bem?
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 10:24 am

Depois de comerem, Milena levou as crianças para o quarto, colocou-as na cama e sentou--se dizendo:
— É hora de descansar.
— Conta uma história de fadas? — pediu Cláudia.
Ernesto fez uma careta de enfado, virou para o lado, fechou os olhos e, vencido pelo cansaço, logo adormeceu.
Já Cláudia, sentindo o calor e a maciez das cobertas, aconchegou-se satisfeita e, embora tivesse se esforçado para manter os olhos abertos, pegou rapidamente no sono.
Leitora inveterada, Milena tinha notado na sala uma estante cheia de livros e foi até lá para escolher um.
Enquanto a moça observava encantada as obras que lhe pareceram interessantes, Elaine aproximou-se dizendo:
— Milena, sente-se.
Vamos conversar.
Precisamos programar nossa estadia aqui, pois temos novas ordens.
Agora tudo vai mudar.
Milena acomodou-se no sofá ao lado de Elaine e perguntou:
— O que vai acontecer?
— Teremos que criar novos personagens.
Vamos ser uma família normal.
Você será a mãe das crianças.
Eu, uma tia que vai dar aulas e cuidar da organização da casa.
— Você acha que isso vai funcionar?
— Acho. Crianças adoram o faz de conta.
Faremos isso parecer uma brincadeira.
Eles vão adorar, e, dessa forma, ficaremos em paz até que dona Estela possa vir nos buscar.
Milena ficou em silêncio durante alguns segundos e em seguida comentou:
— As crianças conseguiram escapar do doutor Augusto, mas é óbvio que ele deve ter colocado pessoas para nos procurar e levá-las de volta.
Deveríamos ir para um esconderijo distante, onde ninguém pudesse nos encontrar.
Elaine meneou a cabeça negativamente:
— Isso é exactamente o que ele deve estar pensando, mas nós precisamos ludibriá-lo.
Se formarmos uma família comum aqui, ele nunca nos encontrará.
Mas, para que você fique mais calma, saiba que temos pessoas nossas infiltradas no pessoal dele.
Se houver alguma possibilidade de doutor Augusto descobrir o que estamos fazendo, seremos avisados a tempo de irmos para outro lugar.
Agora, vou tomar um banho para que possamos descansar.
Quando acordarmos, voltaremos ao assunto.
— Se vamos levar uma vida normal aqui, preciso ligar para minha família.
Eles devem estar preocupados comigo e podem atrapalhar todo o plano de vocês.
Meus pais são muito ligados a mim e certamente já perceberam que não fui eu quem escreveu as cartas que receberam.
Sei o que estou dizendo.
Elaine pensou um pouco e depois disse:
— Desta vez, você escreverá uma carta de próprio punho, conforme o combinado.
Temos uma pessoa que vai expedi-la da universidade para sua casa.
É o que dá para fazer.
— Vou escrever hoje mesmo, pois, assim, eles ficarão em paz.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 10:24 am

No canto da sala, havia uma pequena escrivaninha, onde Milena encontrou o que precisava para escrever a carta para os pais.
Ela gostaria de contar-lhes onde estava, falar da alegria das crianças esperando a mãe chegar e das saudades que estava de casa e de Reinaldo.
No entanto, Milena teve de contentar-se apenas em falar das saudades que sentia e do quanto os amava.
Como não tinha ideia de quando voltaria, não mencionou nada.
Sabia que os pais esperavam mais detalhes, mas foi o que pôde dizer sem comprometer o plano.
Elaine havia lhe dito que o doutor Augusto Borges era muito desconfiado e ardiloso; quando queria alguma coisa, colocava seus capangas para investigar e descobrir a vida de todos os envolvidos.
Milena entregou a carta a Elaine, que a leu e encarregou-se de enviá-la para a pessoa que a expediria a partir do correio da Filadélfia, comprometendo-se a mandar a resposta, se houvesse.
Feito isso, a moça sentiu-se mais calma.
No dia seguinte, Elaine sentou-se na sala com todos e disse sorrindo:
— Enquanto esperamos dona Estela, nós vamos brincar de teatro.
Vocês gostariam de ser artistas?
— Como no cinema? — indagou Ernesto.
— Sim. Dessa forma, o tempo vai passar mais depressa.
Vamos escolher os personagens.
O que vocês querem ser?
— Eu quero ser a princesa — tornou Cláudia.
Ernesto pensou um pouco e disse:
— Pois eu prefiro ser um espadachim.
Milena observava em silêncio as crianças, e Elaine continuou:
— Para chegar ao que vocês querem ser será preciso treinar muito.
Vamos começar com algo mais simples.
Vamos ser uma família.
Milena será a mãe e vocês os filhos.
Cláudia fixou Milena, sorriu e perguntou:
— Você quer ser minha mãe, até minha mãe de verdade chegar?
Os olhos da garotinha brilhavam, e Milena abraçou-a dizendo alegre:
— Quero sim! Vou adorar ter uma filha linda e inteligente como você!
Ernesto abaixou a cabeça e não disse nada.
Ainda abraçada a Cláudia, Milena aproximou-se do menino, passou um dos braços em volta dele e continuou:
— E você é um menino forte e corajoso.
É o homem da casa, que nos irá proteger.
Vocês são os filhos que eu sonho um dia ter.
Elaine interveio:
— E eu vou ser a tia e também professora de vocês.
Nós vamos estudar juntos!
— Estava bom demais para ser verdade! — exclamou Ernesto, fazendo cara de enfado.
Milena exclamou alegre:
— Eu adoro estudar, aprender como as coisas são.
É o melhor da vida!
— Eu não acho — tornou Ernesto.
É cansativo e chato.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 10:25 am

— Pelo visto, você nunca teve bons professores.
Já eu, adorei meus mestres desde o primeiro ano na escola.
Eles me ensinavam contando histórias sobre como as coisas são feitas, sobre como a natureza trabalha, os passarinhos vivem e fazem suas casas.
A vida é maravilhosa, mas é preciso saber olhar e procurar as coisas que nos deixam alegres e felizes.
Elaine, que observava a cena em silêncio, sorriu e tornou:
— É isso que nós vamos fazer de hoje em diante.
Eu conheço cada história linda!
Mas, agora, vamos começar a treinar, pois nosso teatro vai começar.
Primeiro vamos dar nomes aos nossos personagens:
— Você, Cláudia, será a Maria.
Ernesto será o António e Milena, a Marta.
— E você? — perguntou Cláudia.
— Eu serei Júlia.
A partir deste momento, já somos outras pessoas.
Tudo bem?
Milena disse séria:
— Está na hora de programar os estudos.
A tia Júlia pode cuidar disso a partir de agora, enquanto preparo nosso almoço.
— Enquanto Júlia faz isso, nós vamos brincar de nos esconder — disse Ernesto.
— Vocês dois vão me ajudar na cozinha.
Cláudia exclamou:
— Oba! Quero fazer comidinha para minha filha!
— Eu não vou, não sei cozinhar — declarou Ernesto.
Elaine interveio:
— Dona Marta, para preparar as aulas, preciso avaliar o que meus sobrinhos sabem.
— Tem razão, Júlia.
Nesse caso, eles ficam com você.
— Maria e António, vamos nos sentar na saleta para começar.
— Já? — reclamou Ernesto.
— Sim. Agora, só vamos conversar.
Amanhã cedo, iremos comprar o material necessário para começarmos os estudos.
Os olhos de Cláudia brilharam:
— Vamos comprar lápis de cor?
Adoro desenhar.
— Isso e muito mais.
Enquanto Elaine ia para a saleta com as crianças, Milena foi para a cozinha disposta a encarar o papel de mãe.
Aceitando esse encargo, ela passara a assumir o lugar da mãe verdadeira, Estela, que lhe confiara seus filhos, até que pudesse buscá-los.
Estava clareando, quando Reinaldo instalou-se em um hotel na Filadélfia.
Estava ansioso para ver Milena, mas, como era ainda muito cedo, resolveu descansar um pouco antes de ir à universidade.
Ele acomodou-se e logo adormeceu.
Sonhou que estava em um lugar cheio de neblina e uma sensação desagradável o envolveu.
Reinaldo, então, resolveu sair dali o quanto antes, quando ouviu uma voz de mulher gritar:
— Estou presa!
Me ajude, pelo amor de Deus!
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 10:25 am

Aflito, Reinaldo olhou em volta e, de repente, viu um quarto escuro, onde havia uma mulher bonita, sentada com as pernas amarradas em uma poltrona, com o rosto atormentado e lavado por lágrimas.
— Estou presa!
Me ajude, pelo amor de Deus!
Meus filhos correm perigo! São tão pequenos.
Não têm culpa dos erros que cometi!
Tenha piedade de mim!
Preciso de sua ajuda, não me abandone!
Eles precisam de mim.
A cena foi tão real que Reinaldo exclamou aflito:
— Não sei onde você está!
O que posso fazer?
A cena desapareceu, e Reinaldo acordou sentindo o coração descompassado.
“Foi apenas um sonho”, pensou.
Tentando acalmar-se, Reinaldo levantou-se, tomou um copo de água e sentou-se na cama, buscando relaxar.
Resolveu tomar um banho e deixou a água corrente lavar seu corpo por alguns minutos, enquanto pensava:
“Foi só um pesadelo. Já acabou”.
Enquanto se vestia, Reinaldo tentou se esquecer do sonho que tivera e desceu para o café.
Mas a cena que vira não lhe saía do pensamento e, a cada vez que se recordava dela, ele sentia um aperto no peito, como se uma desgraça fosse acontecer.
Passando a mão pela testa, Reinaldo disse para si:
— É ridículo ficar assim por causa de um sonho.
Logo mais, estarei abraçando Milena na universidade e verei que está tudo bem.
Reinaldo sorriu, desceu para o café e, depois de se alimentar, saiu para tomou um táxi na porta do hotel.
Uma vez no campus, informou-se sobre qual dos prédios abrigava a directoria da instituição.
A manhã estava fresca, mas agradável.
O sol tentava aparecer entre algumas nuvens, sem muito sucesso.
Ao entrar no hall do prédio, Reinaldo olhou em volta para situar-se.
Algumas pessoas esperavam para ser atendidas em um canto da sala, enquanto uma atendente conversava com uma delas.
Quando a pessoa agradeceu e saiu, Reinaldo aproximou-se da mulher, que o fixou:
— Posso ajudá-lo?
— Sim. Aqui está meu cartão.
Cheguei ontem do Brasil e gostaria de fazer uma visita a uma estudante brasileira, que está fazendo um curso de especialização aqui.
Sou amigo da família e trago para ela uma lembrança dos pais.
— Qual é o curso que ela faz?
— É formada em Direito e veio fazer um curso de especialização.
A atendente pensou um pouco e depois disse:
— Nós temos vários cursos de especialização aqui.
Um rapaz irá conduzi-lo à directoria dessa área.
A mulher chamou um jovem e pediu que Reinaldo o acompanhasse até a directoria.
Pouco depois, o médico estava em uma sala diante de um homem de meia-idade, sentado atrás de uma mesa, que se levantou para recebê-lo.
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Ave sem Ninho

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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 10:25 am

Ao passar os olhos pelo cartão, disse:
— Sou Mark.
Em que posso ajudá-lo?
Depois de Reinaldo explicar a razão de sua visita, Mark informou que as brasileiras que estavam estudando na universidade eram monitoradas por uma senhora que morara no Brasil durante anos e que fora contratada para auxiliá-las na adaptação e nas pequenas coisas do dia a dia, principalmente nos cursos de curta duração.
— Ela ministra as aulas? — perguntou Reinaldo.
— Não. Ela cuida dos problemas pessoais e das dificuldades de adaptação das alunas.
É uma mulher experiente, e as moças a adoram.
Sinto que ela poderá levá-lo até essa aluna.
Reinaldo agradeceu Mark pela informação, e um jovem o levou ao encontro de Donna.
Ela morava na ala das estrangeiras e contava com algumas pessoas que a auxiliavam.
Donna recebeu-o com um sorriso de boas-vindas e conduziu-o a uma sala de sua moradia.
Simples, alegre, de meia-idade, ela pediu a Reinaldo que se sentasse ao lado dela no sofá e que falasse.
Seja pela indisposição que sentira ao acordar, pelo pesadelo, pelas dificuldades de localizar Milena, Reinaldo sentiu-se aconchegado ao fixar os olhos de Donna e notar o sorriso amigo com o qual fora recebido.
Na esperança de poder abraçar Milena em seguida, contou-lhe, até com alguns detalhes, o motivo que o levara até lá.
Donna ouviu-o em silêncio e seus olhos, meio fechados, sugeriam que ela estava prestando muita atenção ao que ele dizia.
Reinaldo finalizou:
— Sei que a senhora conhece todas as brasileiras que fazem os cursos e estou ansioso para saber onde poderei encontrar Milena, para poder abraçá-la e entregar-lhe o pacote que seus pais lhe enviaram.
Donna pensou um pouco, meneou a cabeça e disse séria:
— Milena?
Você disse que ela veio estudar aqui há uns dois meses?
— Sim.
— Essa moça nunca esteve aqui nesse tempo.
Não conheci nenhuma Milena.
— Tem certeza disso?
— Eu nunca me engano.
Essa moça nunca esteve aqui.
É tão recente. Se fosse verdade, eu saberia.
— Pense bem.
A senhora pode ter se esquecido...
— Não eu! Olho, registo e não esqueço mais.
Tenho uma memória especial.
É melhor o doutor procurar a moça em outras instituições de ensino.
Vai ver que lhe deram o nome trocado.
Aqui, ela nunca esteve.
Reinaldo lembrou-se do pesadelo e sentiu novamente um aperto no peito.
O que estaria acontecendo com Milena?
Notando o desapontamento de Reinaldo, Donna ofereceu-lhe uma xícara de café, na tentativa de auxiliá-lo.
Pouco depois, ele se despediu, ainda sentindo a opressão no peito.
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Ave sem Ninho

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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 10:25 am

Reinaldo voltou ao hotel, sem saber o que fazer.
Deveria procurar em outras universidades?
Ele ficara de telefonar para os pais de Milena, mas estava sem coragem, pois Gerson e Joana já estavam inquietos por causa das cartas.
O pior era que ele não tinha ideia de onde deveria procurar a moça.
Depois de pensar muito sobre o que fazer, Reinaldo resolveu ligar para o doutor Gilberto no Brasil.
Se Milena não estava na Filadélfia, mas em outra cidade ou instituição, ele deveria saber.
O médico ligou em seguida, mas ninguém o atendeu.
Então, ele resolveu tentar mais tarde.
Reinaldo saiu para conhecer um pouco a cidade, passar o tempo, distrair-se, esforçando-se para livrar-se daquela sensação ruim.
Aos poucos, foi sentindo-se melhor.
Era mais de duas horas da tarde, quando voltou ao hotel e ligou para o doutor Gilberto.
Ele atendeu e, depois dos cumprimentos, Reinaldo explicou-lhe:
— Estou no campus da universidade na Filadélfia, mas Milena não está fazendo nenhum curso aqui.
Tem alguma coisa errada.
Foi o senhor quem indicou esse curso a ela.
Preciso saber onde ela está.
— Eu indiquei o curso a Milena nessa instituição, porque o escritório já enviou alguns de nossos advogados para lá.
Ela disse que gostaria de ir.
Mas foi só. Não sei de mais nada.
— Sei que Milena só aceitou por causa de sua insistência.
Foi o senhor quem lhe entregou todos os documentos e o dinheiro para financiar a viagem.
É o senhor quem está pagando as despesas dela?
— De forma alguma.
O próprio escritório adianta o dinheiro, que deverá ser devolvido depois de certo tempo, quando Milena estiver actuando na área em que se especializou.
Eu só a auxiliei a tirar a documentação. Mais nada.
— Os pais de Milena receberam cartas assinadas por ela, mas insistem em dizer que ela nunca as escreveu.
— As garotas de hoje não são confiáveis.
Vai ver que ela está apenas se divertindo e não quer ser encontrada.
— Essa história está mal contada.
Se não me disser a verdade, irei directo à embaixada brasileira e seu nome será citado.
O advogado não respondeu, mas continuava do outro lado da linha.
Reinaldo esperou durante alguns segundos e depois tornou:
— Fale, doutor Gilberto.
É melhor se abrir.
— No momento, não sei o endereço certo, mas tentarei consegui-lo para você.
Deixe o telefone do seu hotel, e eu entrarei em contacto assim que souber.
Reinaldo passou o número e considerou:
— Se não me ligar até a noite, tomarei algumas providências.
— Não tome nenhuma providência sem falar comigo, para não prejudicar de fato essa moça.
— Por que está me dizendo isso?
— O senhor está preocupado por nada.
Está tudo em paz.
Calma. Está tudo bem.
Depois que desligou, Reinaldo sentou-se pensativo.
Quanto mais revia os acontecimentos, mais sentia que havia alguma coisa errada.
Como fazer para descobrir a verdade?
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 10:25 am

Capítulo 12

Estava escurecendo quando Reinaldo tornou a ligar para o doutor Gilberto, mas ninguém atendeu.
Ele fora embora do escritório sem lhe dizer nada.
Quanto mais o tempo passava, mais Reinaldo sentia que havia alguma coisa estranha naquela viagem repentina de Milena.
Os pais da moça eram pessoas simples, de boa fé, e poderiam estar sendo ludibriados pelo advogado.
Que interesse ele teria nessa história?
Por que tanto mistério em relação ao paradeiro de Milena?
Reinaldo ficara de dar notícias aos pais da moça, assim que chegasse à Filadélfia, mas, diante dos factos, preferiu não ligar.
O melhor seria procurá-la melhor para não tumultuar os acontecimentos.
No dia seguinte, Reinaldo acordou cedo, disposto a procurar Milena em outras universidades.
Ele buscou o equivalente ao conselho de educação na Filadélfia, pediu informações sobre os vários cursos de especialização oferecidos nas universidades da cidade e começou a busca.
Não encontrou o nome de Milena registado em nenhum lugar.
Mais tarde, no hotel, a preocupação voltou a incomodá-lo.
Teve uma noite de sono pesado.
Reinaldo acordou sentindo-se um pouco cansado.
Tomou o café da manhã no hotel e foi novamente procurar Donna, que voltou a afirmar que Milena nunca estivera em nenhuma instituição de ensino superior daquela cidade.
Se ela tivesse estado lá, com certeza saberia.
Desalentado, Reinaldo voltou ao hotel, sem saber o que fazer.
O médico sentia vontade de procurar a embaixada ou a polícia internacional, mas, diante do que doutor Gilberto afirmara, Milena poderia estar estudando em outro lugar, e ele acabaria atrapalhando suas aulas.
Reinaldo, então, lembrou-se da frase do advogado:
“Não tome nenhuma providência sem falar comigo para não prejudicar de facto essa moça.
Está tudo bem. Calma”.
Que mistério havia por trás dessa viagem de Milena?
Certamente, não fora uma viagem comum.
Acontecera de repente.
Ele estivera com a moça na noite anterior à sua viagem, e ela não mencionara nada sobre isso.
Na noite seguinte, Milena já embarcava para a Filadélfia.
Depois, havia as cartas que os pais diziam não terem sido escritas por ela.
As coisas não estavam claras.
Ao lembrar-se de Milena, Reinaldo sentiu um aperto no peito e lembrou-se do pesadelo que tivera com aquela mulher pedindo-lhe socorro, amarrada a uma cadeira em um lugar escuro.
Ao pensar nisso, Reinaldo passou a mão pela testa, numa tentativa de tirar aquele sonho da cabeça e ordenou para si mesmo:
— Preciso me acalmar.
O amor que sinto por Milena está fazendo com que eu exagere os factos.
O que está acontecendo é apenas um desencontro.
Logo mais, tudo será esclarecido.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 10:26 am

O telefone tocou, e Reinaldo atendeu.
Era o doutor Gilberto.
Depois dos cumprimentos, ele tornou:
— É melhor o doutor voltar para o Brasil.
Milena não está nessa cidade.
— Isso eu já sei.
Quero saber onde ela está.
— Dou-lhe minha palavra que ela está muito bem, mas não posso dar-lhe o endereço.
Precisamos conversar.
Venha o quanto antes, e tudo ficará esclarecido.
Estou esperando-o.
Doutor Gilberto desligou o telefone, e Reinaldo sentou-se pensativo.
Em seguida, decidiu tornar a ligar para o escritório do advogado, mas ninguém atendeu.
O médico respirou fundo e sentiu que não havia mais nada para fazer ali.
Naquela noite mesmo, embarcou de volta para o Brasil.
Amanhecia, quando Reinaldo chegou ao Rio e foi directo ao seu apartamento.
Estava ansioso para ir ao encontro do advogado, por isso ligou várias vezes para o escritório, mas, novamente, ninguém atendia.
Era muito cedo, então ele decidiu tomar um banho e descansar um pouco.
Estava exausto, mas não via a hora de esclarecer aquele assunto.
Apesar do cansaço, Reinaldo não conseguia relaxar, então voltou a ligar para o escritório, mas soube que só abriria depois das dez.
Decidiu então ir directo para lá e, cinco minutos antes de a recepcionista abrir a porta, o médico já estava esperando.
Quando ela finalmente abriu o escritório, Reinaldo entrou e pediu-lhe que avisasse ao doutor Gilberto que ele já se encontrava à sua espera.
Meia hora depois, o advogado chegou e, depois dos cumprimentos, levou-o à sua sala, dizendo sério:
— O assunto é sigiloso.
Seria melhor que o doutor ficasse fora disso.
Eu preferia não falar sobre o assunto, mas, diante de sua insistência, é melhor que saiba do que se trata.
- Eu senti que a história estava mal contada. Fale.
— Antes, o doutor vai me prometer que guardará sigilo sobre o que vou contar-lhe.
O caso envolve pessoas conhecidas.
O assunto é grave, e eu preferia que o doutor esquecesse tudo isso e não se envolvesse.
— Milena foi envolvida, e eu não vou me omitir.
— Prometa que guardará segredo.
Espero que cumpra, para a protecção de todos os envolvidos, inclusive para sua protecção.
— Tem minha palavra.
Eu cumpro o que prometo.
— Muito bem.
O caso está relacionado a doutor Augusto Borges e sua família.
Sua filha única, Estela, traiu o marido, e, ele, por sua vez, matou o amante dela.
Eu fui contratado para fazer a defesa do marido de Estela.
Com os atenuantes, ele pegou dez anos de prisão e talvez cumpra metade da pena.
Doutor Gilberto fez uma pausa, e Reinaldo pediu:
— Continue...
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 11:58 am

— O doutor Augusto Borges, homem rico, orgulhoso de sua estirpe, me contratou e ordenou que eu, durante a defesa, invertesse os factos, apresentando o marido da filha como um homem perverso e fazendo dela apenas uma vítima de suas maldades.
No começo, eu não quis aceitar, mas, diante da quantia que ele me ofereceu, fiquei tentado.
Se recusasse, certamente outro aceitaria a proposta, e eu perderia a chance de ganhar esse dinheiro.
Conduzi o caso de tal forma que a maioria das pessoas ficou do lado de Estela.
Você sabe que a questão da honra de um homem é valorizada na justiça e seria fácil defendê-lo, mas o povo é piedoso demais.
Bastou colocá-la como vítima, e Arnaldo foi condenado a dez anos de prisão, quando poderia ter saído livre.
As pessoas esqueceram-se de que fora a traição de Estela que provocara o crime.
A vida é assim.
O que se pode fazer?
Reinaldo fixou-o sério e não encontrou palavras para responder.
O advogado encarou-o e continuou:
— Sei que essa atitude não me enobrece, mas, se eu não assumisse o caso, outro faria.
— Pois eu prefiro me abster de julgamentos.
Não teria temperamento para lidar com essas situações.
Mas o que isso tem a ver com Milena?
— Então, acontece que o doutor Augusto determinou como eu conduziria a defesa do genro, não para poupar a filha, mas para afastar a vergonha do erro que ela cometera.
— Não foi para poupá-la?
— Não. No início, acreditei que fosse para poupá-la.
Depois, ficou claro que o doutor Augusto queria castigá-la e, por isso, afastou os dois filhos pequenos do convívio da mãe, mandando-os para um colégio interno.
Ao descobrir que Estela conseguiu resgatá-los, doutor Augusto a prendeu em uma de suas fazendas, da qual a filha não consegue sair.
Está sendo vigiada dia e noite.
— É uma violência.
Que idade eles têm?
— Ernesto tem oito anos e Cláudia tem cinco.
Pouco tempo depois, fui procurado por uma mulher da fazenda, que me entregou uma carta de Estela, na qual pedia minha ajuda.
Ela soube que o pai planeava levar seus filhos para um lugar distante, dizendo que Estela nunca mais os veria.
Esse seria o castigo pela vergonha que ela o fizera passar.
Se eu a ajudasse a capturar as crianças e auxiliasse a fugir, para reunir-se mais tarde com os filhos, ela me daria uma quantia muito maior que a oferecida por doutor Augusto para conduzir o caso.
— E você aceitou!
— Confesso que senti medo de aceitar.
Sabia com quem estava lidando.
Tê-lo como inimigo, desafiá-lo, não seria fácil.
Augusto Borges é muito poderoso e vive rodeado de seguranças e capangas.
Eu sou apenas um advogado, que foi envolvido nessa história.
Mas, depois de muito pensar, decidi aceitar.
Não foi apenas pelo dinheiro que ganharia, mas um pouco pelo prazer de derrotar esse homem, que usa as pessoas de maneira vil e sem nenhum pudor.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 11:58 am

— E então, o que aconteceu?
— Tenho alguns amigos pessoais e conto com duas pessoas simples e inteligentes, que fazem parte de minha família.
Nós nos reunimos e elaboramos um plano para descobrir onde as crianças estavam internadas.
Quando descobrimos, por fim, o local, nós as tiramos de lá e as escondemos.
— Vocês conseguiram fazer isso?
— Sim. Eu tinha uma colega de faculdade, mulher inteligente, forte, determinada, que se especializara nos Estados Unidos e ingressara no serviço secreto americano.
Confio nela.
Pedi-lhe ajuda, e ela assumiu o caso e tomou conta das crianças.
E é aí que entrou a Milena.
— Milena?!
— Milena é uma moça inteligente, que admiro, respeito, e na qual também confio.
Ela está tomando conta das crianças com Elaine, minha amiga, que é do serviço secreto americano.
— Mas, onde ela está agora?
— Em uma cidade nos Estados Unidos.
Eu estou lhe contando tudo isso, porque você se intrometeu no assunto.
Pensei melhor e achei que deveria contar-lhe a verdade, mas é bom que saiba do risco que seria passar isso para outras pessoas.
Espero que guarde sigilo absoluto sobre o que conversamos.
Reinaldo ficou em silêncio durante alguns segundos e depois, sério, tornou:
— Diante de tudo o que ouvi, vou fazer-lhe uma proposta:
quero ingressar no seu grupo e colaborar para que as crianças possam viver com a mãe, para que Milena volte para casa e se case comigo.
O advogado meneou a cabeça, falando com certa malícia:
— Um homem apaixonado não teme o perigo!
— Meu amor por Milena está além desta vida.
Vem de outros tempos.
É com ela que quero ficar.
Além disso, ajudar essa mãe a libertar-se desse pai malvado e a ficar com os filhos é uma causa justa.
Doutor Gilberto pensou um pouco e depois comentou:
— Como sei que não adiantaria pedir-lhe para não se envolver no caso, vamos ver o que posso fazer.
— Primeiro, preciso vê-la, falar com o grupo, colocar-me à disposição.
— Para isso, terei de consultá-los, pois preciso saber se vão aceitar ou não sua colaboração.
Todo cuidado é pouco.
Não podemos arriscar-nos.
Prometo que vou falar com eles hoje mesmo.
Você pode ir para casa e voltar amanhã para saber o que consegui.
— Nada disso.
Você vai entrar em contacto com eles já.
Eu preciso falar com Milena, saber se está bem.
— Eu afirmo que ela está óptima.
Você não tem com que se preocupar.
— Não sairei daqui antes dessa ligação, doutor Gilberto. Por favor.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 11:58 am

Gilberto passou a mãos pelos cabelos, pensou um pouco e, em seguida, tornou:
— Está bem.
Vou tentar, mas a ligação pode demorar.
Reinaldo sentou-se e fixou-o sério:
— Estou esperando...
Doutor Gilberto pegou o telefone, ligou e, pouco depois, Elaine atendeu:
— Doutor, alguma novidade?
— Vocês estão bem?
— Sim. Tudo na paz.
Em poucas palavras, o advogado contou o que estava acontecendo e finalizou:
— Ele está aqui e quer falar com Milena.
— Isso não estava previsto.
Tem certeza de que ele é confiável?
— Eu não ponho a mão no fogo por ninguém, mas ele me parece uma pessoa séria.
Trata-se do doutor Reinaldo.
Ele é médico e namorado de Milena.
— Diga que ela está bem e que logo estará em casa.
É melhor ele não se envolver nisso.
— Eu tentei convencê-lo de que Milena está bem e que seria melhor ele ir para casa e esperar, mas não adiantou.
O rapaz é perspicaz, percebeu que havia perigo e ameaçou dar queixa à polícia para encontrá-la.
Achei melhor contar-lhe a verdade, e ele ofereceu-se para colaborar connosco.
— É uma pessoa sem experiência.
Prefiro que ele desista disso.
Gilberto tapou o bocal do telefone e dirigiu-se a Reinaldo:
— Elaine disse que está tudo bem e que é melhor você ir esperá-la em casa.
Logo tudo será resolvido, e Milena estará de volta.
Reinaldo tirou o telefone da mão de doutor Gilberto e disse com voz firme:
— É Reinaldo.
Quero conversar com Milena.
Elaine tentou dissuadi-lo, mas, ante a insistência do médico, entregou o aparelho a Milena dizendo:
— É o doutor Reinaldo.
Diga só que está bem, que logo estará de volta ao Brasil e desligue em seguida.
As mãos de Milena tremiam, quando ela segurou o telefone:
— Reinaldo!
— Milena! Que saudade!
Você está bem?
— Sim. Aqui está tudo calmo.
— Você tem ideia de quanto tempo ainda ficará aí?
— Não sei.
Estamos esperando que dona Estela chegue para buscar as crianças, então poderei voltar para casa.
— Essa senhora está presa pelo pai em uma de suas fazendas.
Eu quero fazer parte do grupo e ajudar essa mãe a se libertar e a ficar com os filhos.
Quero conversar com essa senhora...
— Elaine — interferiu Gilberto.
— Sim.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 11:59 am

Milena passou o telefone para Elaine, e Reinaldo continuou:
— Dona Elaine, quero ajudá-los a libertar dona Estela.
Se a senhora me disser onde ela está presa, tentarei libertá-la.
— O senhor não tem experiência, e ela está sendo vigiada pelos homens de confiança do doutor Augusto, que não hesitarão em atirar em você.
Não seja louco, não cometa essa imprudência.
— As pessoas que trabalham com você devem estar por lá, pelo menos para esperar o momento certo de libertá-la.
Peço-lhe apenas, dona Elaine, que me introduza nesse grupo e eu prometo que farei tudo que você mandar.
Sou calmo, sei que posso colaborar.
O que não quero é ficar de braços cruzados diante de tanta maldade.
Depois, Milena está correndo risco e tudo farei para que ela saia dessa situação em segurança.
Elaine não respondeu logo, e Reinaldo ouvia a respiração dela do outro lado e esperou.
Por fim, ela cedeu:
— Está bem. Você venceu.
Quero falar com o Gilberto.
Reinaldo passou o telefone para o advogado, que disse logo:
— Elaine, fale.
Ela determinou que doutor Gilberto encaminhasse Reinaldo para um encontro com Zito, que daria ao médico todas as instruções necessárias, e pediu para falar novamente com Reinaldo:
— Ainda penso que seria melhor o doutor ficar fora disso, mas sinto que será inútil insistir.
O senhor não vai desistir.
— Não mesmo.
— Nesse caso, procure essa pessoa e obedeça suas instruções.
Qualquer passo em falso, e o senhor poderá pôr tudo a perder.
Isto nunca me aconteceu antes:
envolver uma pessoa inexperiente em um processo como esse é uma temeridade.
Tenha cuidado.
Não converse com ninguém.
Jamais mencione qualquer coisa sobre o assunto.
— Não se preocupe.
Sou responsável e sei o que estou assumindo.
Fique em paz. Vai dar tudo certo.
— Espero!
— Quero falar novamente com Milena.
Sem dizer nada, Elaine passou o telefone para Milena, que falou com o coração batendo forte:
— Alô!
— Não vejo a hora de poder abraçá-la e dizer-lhe o quanto a amo!
Estou com muitas saudades!
Tenho pensado em seus pais.
Eles estavam preocupados por terem recebido cartas, que não foram escritas por você.
Não fui vê-los, porque não sabia onde você estava e tive receio de preocupá-los ainda mais.
— Está tudo bem.
Eu escrevi uma carta que chegou às mãos deles.
Também estou com saudades de você.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 11:59 am

A lembrança daquela noite em que nos despedimos está sempre comigo.
— Logo estaremos juntos de novo e nunca mais nos separaremos.
Gilberto afastou-se um pouco para que o médico pudesse ter privacidade para conversar com Milena e só voltou a aproximar-se quando Reinaldo desligou.
— Você quer mesmo participar do grupo na fazenda?
— Sim. Estou ansioso para que tudo isso acabe.
Gilberto conversou com Zito e soube que Elaine já havia autorizado Reinaldo a integrar o grupo.
Quando Elaine comunicou a entrada de Reinaldo no grupo a Zito, ele não gostou da notícia e questionou:
— Isso não vai dar certo!
Ele não tem experiência e poderá pôr tudo a perder.
— Ele não vai desistir.
Pensei bem e achei melhor tê-lo por perto, mantê-lo sob vigilância e evitar que nos atrapalhe.
— É um risco desnecessário que vamos correr.
— Mantenha-o ocupado e fique de olho nele.
Você tem pessoas firmes, inteligentes, que saberão lidar com esse rapaz.
Zito ainda tentou argumentar, mas Elaine manteve-se firme, e, por fim, ele concordou.
Em seguida, ligou para Gilberto, dizendo que estava na cidade de Uberlândia, em Minas Gerais, e passou-lhe o número de seu telefone:
— Diga a ele para me ligar e mandarei buscá-lo.
Reinaldo interveio:
— Deixe-me falar com ele.
Gilberto passou-lhe o aparelho, Reinaldo identificou-se e continuou:
— Senti que você tem receio de me aceitar no grupo.
É bom que saiba que sou calmo, cuidadoso, bom observador e pretendo obedecer seus comandos e ajudá-lo no que puder.
Estou certo de que venceremos essa batalha.
— Espero que você seja mesmo tudo isso.
Saiba que não admitirei indisciplina.
Ainda está em tempo de desistir.
Nós somos capazes de resolver esse assunto sem a sua ajuda.
Pode acreditar.
O caso é sério, e não estamos brincando.
Não acha que seria mais sensato esperar o resultado do nosso esforço?
— Não. Eu quero participar.
Farei tudo para auxiliá-los.
Acredite em mim.
Amanhã mesmo, chegarei aí. Pode me esperar.
Depois de desligar o telefone, Gilberto ainda tentou demover Reinaldo de sua decisão, mas todos os seus argumentos foram inúteis.
Passava das quinze horas, quando o médico deixou o escritório do advogado.
Sentindo fome e cansaço, passou em um restaurante, comeu e foi para seu apartamento.
Reinaldo tomou um banho, vestiu um pijama leve, deitou-se na cama e sorriu, pensando que, em breve, estaria com Milena.
Logo adormeceu.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 11:59 am

Capítulo 13

Era madrugada quando Reinaldo acordou.
Estava escuro e ele acendeu o abajur.
O relógio marcava três horas.
O médico continuou deitado, pensando que o tempo ia demorar a passar.
Ele estava ansioso para que clareasse e pudesse ir juntar-se a Zito.
Pensou em Milena e ficou imaginando os momentos de amor que viveriam quando se encontrassem.
Reinaldo levantou-se da cama, arrumou suas coisas e deixou tudo pronto para viajar.
Depois, como estava sem sono, recostou-se no sofá e apanhou uma revista para passar o tempo e acalmar a ansiedade.
Seja pela penumbra, provocada pelo luar, que iluminava o quarto pelas frestas da janela, criando um ambiente suave e agradável, ou pelo cansaço, Reinaldo sentiu certa sonolência.
Seus olhos, então, se fecharam e ele viu um homem alto, moreno, de meia-idade, que tomou seu braço dizendo:
— Venha. Temos que conversar.
Reinaldo teve a sensação de conhecê-lo, mas não se recordava de onde.
Decidiu perguntar:
— Quem é você?
— Um amigo. Venha comigo.
— Para onde vamos?
— Ao lugar onde você terá de estar mais tarde.
Eles deixaram o quarto e atravessaram a janela.
As estrelas coloriam pedaços do céu, e eles levitaram.
Deslizando pelo espaço e olhando do alto as luzes da cidade, que ainda estavam acesas, Reinaldo foi tomado por uma sensação de prazer, que nunca experimentara antes.
À medida que se afastavam, a paisagem modificava-se.
Estavam no campo, onde havia um casarão no meio de um grande terreno, rodeado por árvores e pequenas casas um pouco mais adiante.
— Venha, vamos descer.
Antes que Reinaldo perguntasse, o homem esclareceu:
— Sou o Lauro. Estela está presa aqui, e você vai nos ajudar a libertá-la.
— Como poderei fazer isso?
— Desejo mostrar-lhe como as coisas funcionam entre os dois mundos.
Nós não temos como agir na matéria, e você também não se recorda de como fazer para lidar com o mundo astral.
Teremos de juntar nossos esforços e agir com inteligência e firmeza.
— Acha que conseguirei?
— Devo esclarecer-lhe que esta história começou há muito tempo e você fez parte dela.
Agora, a vida está lhe dando mais uma chance de completar o que antes não conseguiu realizar.
Você reencarnou, esqueceu o passado, mas voltou para tentar resolver as diferenças e seguir adiante.
— Milena também faz parte dessa história?
— Sim. Vocês estão tendo uma chance maravilhosa de resolver assuntos importantes, encontrar entendimento, perceber a verdade, libertar-se e construírem uma vida mais produtiva.
— Quando conheci Milena, senti que era um reencontro.
Que já a conhecia de algum lugar.
Senti que ela é a mulher da minha vida e é com ela que quero ficar.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 11:59 am

— O futuro dirá.
Lembre-se de que ninguém é de ninguém.
Cada um é um.
A principal missão do espírito é cuidar de si em primeiro lugar, se esforçar para aprender como as coisas são, progredir, conquistar e realizar o melhor, para ter o mérito de alcançar uma vida mais feliz.
— Juntos, teremos mais condições de fazer isso.
Não consigo ver a vida sem ela — Reinaldo tornou.
Havia um brilho de emoção nos olhos de Lauro, quando ele disse com suavidade:
— O amor compartilhado é uma bênção, mas é bom perceber que, mesmo amando um ao outro, o espírito é livre e só é feliz quando respeita a própria liberdade.
A vida tem muitos caminhos.
Você pode escolher e experimentar como quer viver.
Mas tudo muda, e as ligações amorosas vão se modificando conforme as necessidades de progresso de cada um.
Uma união poderá durar mais tempo se ambos souberem lidar com seus sentimentos, respeitarem a liberdade do parceiro, mas continuarem cuidando de si mesmos em primeiro lugar.
Ser auto-suficiente é um mérito do espírito evoluído.
— Pois eu quero viver com Milena pela eternidade.
Lauro não respondeu.
Fixou-o, sorriu levemente, depois mudou de assunto:
— Veja, três homens estão de guarda, dois estão conversando. Vamos ouvir o que dizem.
Reinaldo e Lauro aproximaram-se e ouviram que um deles dizia irritado:
— Eu não estou gostando dessa calmaria.
Quanto tempo ainda teremos de passar as noites aqui de vigília, sem que nada aconteça?
Eu queria estar dormindo na rede com a Maria.
Por que ele não acaba com ela?
— Ele nunca vai fazer isso.
Está furioso por causa das crianças.
Onde será que elas estão?
— Se eu pudesse, ajudaria dona Estela.
Se alguém me tirasse um filho, não sei o que faria.
Acho que matava.
— Cale a boca, João.
É melhor não ficar falando besteira por aí.
Já pensou se o chefe escuta?
Fica na sua, senão vamos pagar o pato.
Os dois se calaram, e Lauro comentou:
— Ouviu? Esse moço poderá nos auxiliar.
— Ele está com pena de Estela...
— Isso mesmo.
Lauro colocou a mão sobre a testa do moço e mentalizou as crianças, como se estivessem ali, na frente dele.
João remexeu-se inquieto, mas não disse nada.
Lauro abraçou-o dizendo:
— Pobre dona Estela.
Ela é mãe e adora os filhos.
Só deseja poder criá-los e fazer deles pessoas de bem.
O pai dela separou-a dos próprios filhos.
É um homem sem alma, muito malvado.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 12:00 pm

João respirou fundo e depois comentou:
— Estou pensando...
Onde será que essas crianças estão?
Será que o chefe acabou com elas?
Ele é perverso. Pode mesmo ter feito isso.
— Você não deveria se meter no que não é da sua conta.
João calou-se, e Lauro aproximou-se de António, colocando a mão na testa do homem, que, pouco depois, disse nervoso:
— Se aguente aí, que estou passando mal.
Não sei o que eu comi, mas estou com uma dor de barriga... não dá para esperar.
António saiu quase correndo.
O terceiro homem, que estava quieto, foi atrás dele, e Reinaldo perguntou:
— O que fez com eles?
— Afastei-os para que suas energias não atrapalhem João.
Amanhã, quando voltarmos aqui, ele estará pronto para nos ajudar.
— Não sei se poderei estar aqui amanhã.
Logo cedo, falarei com Zito e não sei o que ele vai determinar.
Prometi obedecer suas ordens.
— Zito está planejando uma acção no meio da noite para libertar dona Estela.
Você estará aqui com ele e com mais outros dois.
Eu virei junto.
— Espero que dê tudo certo!
— Há uma boa chance.
Vamos confiar e agir.
Lauro aproximou-se de João e abraçou-o dizendo:
— Você é um bom rapaz.
Não deveria estar aqui com essa arma nas mãos.
João sentiu vontade de ir embora, mas se conteve.
António e o outro ainda não tinham voltado.
Ele, então, começou a pensar em deixar a fazenda e procurar trabalho na vila ou em outro lugar qualquer.
O que ele queria mesmo era casar com Maria, trabalhar, tocar a vida e formar uma família.
Lauro continuou perto de João, falando:
— Você é um homem de fé.
Reze e peça a Deus que o ajude a realizar seu sonho:
casar com Maria, criar filhos, formar uma família.
Você está cansado de viver sozinho.
É hora de mudar sua vida.
Poder chegar em casa, depois de um dia de trabalho no campo, cuidando de seu pedacinho de terra, e encontrar Maria esperando-o com uma comidinha especial, que só ela sabe fazer.
Brincar com as crianças na rede, fazê-las dormir e, depois, ter Maria nos braços.
Essa é a vida que você quer!
Enquanto Lauro falava, João imaginava tudo isso.
Estava apaixonado e esse era seu maior sonho.
Sentiu vontade de largar tudo, de ir embora, mas não teve coragem, porque os outros dois não voltavam e ele tinha muito medo do patrão, que não admitia indisciplina.
Mas, naquele momento, decidiu que, no dia seguinte, começaria a procurar outro trabalho.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 12:02 pm

Reinaldo observava a cena admirado e comentou:
— Eu sempre imaginei que havia anjos auxiliando as pessoas no mundo, mas há pessoas como você que também fazem esse trabalho.
— Fazer o bem é sempre um prazer para nossa alma.
— As coisas no mundo nem sempre são fáceis.
Será que João vai conseguir?
— Ele está determinado.
Tudo é possível quando a pessoa crê.
Os outros dois homens estavam voltando.
Lauro segurou o braço de Reinaldo e continuou:
— Vamos embora.
Em poucos instantes, eles chegavam ao hotel, entrando no quarto de Reinaldo através da janela.
O médico fixou-o dizendo com voz suave:
— Eu nunca havia tido uma aventura como esta.
Minha vida vai mudar depois dessa experiência.
Obrigado por ter me levado.
Segurando a mão de Reinaldo, Lauro puxou-o para seu corpo adormecido e disse:
— Continue dormindo.
Procure relaxar, descanse, pois amanhã vamos nos encontrar com Zito.
Reinaldo acomodou-se no corpo, virou para o outro lado e continuou dormindo.
Passava das nove, quando Reinaldo acordou, olhou em volta e lembrou-se de ter saído do corpo durante a noite e ter volitado sobre a cidade adormecida.
Teria sonhado ou aquilo acontecera mesmo?
Reinaldo levantou-se da cama e foi em direcção a uma poltrona.
Sentou-se pensativo e lembrou--se da sensação agradável que levava no peito e do prazer que sentira ao viajar com naturalidade pelo espaço.
Pessoas, antes dele, haviam experimentado e relatado o que ele vivenciara, mas havia sempre certa dúvida em torno disso.
Agora, ele tinha a certeza de que acontecera de facto.
Além disso, havia a presença de um espírito, que não só conviveu com ele, como o conduzira nessa viagem.
Era um espírito bom, que auxiliava as pessoas, mas havia também aqueles que eram menos evoluídos e ainda permaneciam no mal.
Sentia que precisava reflectir sobre esse assunto.
Milena lhe falara que conversava com espíritos desde pequena e que eles eram do bem.
Reinaldo sentia que precisava estudar mais.
Quando tudo isso passasse e eles estivessem juntos, a moça o ajudaria a entender um pouco mais sobre o assunto.
Tivera provas que haviam mudado todos os seus conceitos sobre espiritualidade.
Estava na hora de situar-se e de colocar os pés no chão.
Reinaldo estava ansioso para seguir adiante e saber o que mais precisaria aprender.
Passava das duas da tarde, quando Reinaldo entrou na sala de Zito e se apresentou.
Magro, alto, moreno, de testa alta e olhos vivos e penetrantes, Zito, apesar de carregar alguns fios de cabelos brancos nas têmporas, tinha ares de menino.
Ambos, olhos nos olhos, tentaram se analisar rapidamente.
Zito convidou:
— Sente-se. Vamos conversar.
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 12:02 pm

Reinaldo sentou-se diante da mesa, e Zito continuou:
— Tem certeza de que quer mesmo juntar-se a nós?
— Tenho. É o que mais quero.
— Por quê?
— Para que essa história termine e eu possa levar Milena de volta pra casa.
— Lidar com esse assunto é para quem tem experiência.
Estamos lidando com pessoas perigosas e o risco é grande.
Ainda penso que seria melhor você não se envolver nisso.
— Já estou envolvido e só saio disso ao lado de Milena.
— Já vi que não vai desistir.
— Não mesmo.
— Saiba que está criando um problema inesperado, que eu preferia não ter.
Preciso estar muito atento e lúcido, para executar o que planeamos fazer.
Não vou poder ficar tomando conta de você. Portanto, saiba que está arriscando muito querendo ficar no grupo.
O amor por uma mulher não vale tudo isso.
— Ajudar uma mãe, que deseja ficar com os filhos para poder educá-los com amor, também é um bom motivo.
Sou movido pelas duas coisas.
Zito fixou-o, sorriu levemente e comentou:
— Está bem. Vou apresentá-lo aos companheiros, mas, desde já, aviso-lhe que, em vista de qualquer atitude fora do que queremos, você será afastado.
Onde está hospedado?
— Em um hotel na cidade próxima.
— Daqui a pouco, vamos nos reunir para repetir o plano e verificar todos os detalhes.
Você não precisa participar disso.
Eu ficarei mais tranquilo em saber que você está nos esperando no hotel.
— Eu posso ficar aqui desde já, me inteirar do plano e colaborar.
— Está bem. Você venceu.
Zito chamou um dos rapazes, apresentou-o a Reinaldo e disse:
— Este é o Nelson.
Ele vai colocá-lo a par do nosso plano nos mínimos detalhes.
Logo mais, à noite, nos reuniremos para rever os detalhes.
Então, vamos ver como você vai se posicionar.
Reinaldo apertou a mão que Zito lhe oferecia e o acompanhou até uma sala ao lado, onde havia algumas redes, uma mesa tosca, alguns bancos e artigos de pesca e de lavoura.
Nelson era um homem de meia-idade, moreno, forte, atarracado, cabelos grisalhos, olhos calmos, sério e atento.
Sobre a mesa da sala, havia uma pasta de onde ele tirou alguns papéis.
Em poucas palavras, Nelson explicou o plano que teriam de realizar e finalizou:
— É isso. Nós vamos estar atentos.
Planeamos as coisas, mas, na hora, tudo pode acontecer.
— Sei cuidar de mim. Não se preocupe.
— Vamos repetir os detalhes.
Você ficará de guarda do lado de fora da porta e, se notar qualquer ruído, só mexa no trinco duas vezes.
E o sinal que aconteceu algo fora do planeado.
Conforme for o caso, entre e feche a porta pelo lado de dentro.
Entendeu?
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Re: Série Lucius - Ela Confiou na Vida / Zibia Gasparetto

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