O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 8:35 pm

O que importa é o amor
Marcelo Cezar

Pelo espírito Marco Aurélio

Marcelo Cezar
Minhas histórias mostram espiritualidade de maneira natural, enfatizando em cada um de nós os verdadeiros valores do espírito, para que possamos viver melhor connosco e com as pessoas ao nosso redor.

Nascido e criado na cidade de São Paulo, Marcelo Cezar começou a psicografar ainda adolescente, quando estudava os livros de Allan Kardec no curso de médiuns que frequentava, no Centro de Desenvolvimento Espiritual Os Caminheiros, fundado pelo casal Aldo Luíz e Zibia Gasparetto, no bairro do Ipiranga.
Seu primeiro romance, ditado pelo espírito Marco Aurélio ao longo de mais de dez anos durante as sessões de psicografia, foi publicado pela primeira vez no fim da década de 1990.
Anos depois, ao mudar de residência, Marcelo encontrou outras anotações que faziam parte do original.
Sob orientação de seu mentor, juntou os escritos e relançou A vida sempre vence em uma versão revista e ampliada.
Actualmente, com mais de um milhão de livros vendidos, Marcelo Cezar é um dos principais escritores do país, cujos romances enfatizam a espiritualidade de maneira didáctica e tocante, proporcionando ao leitor entendimentos para uma vida melhor.
Todos os seus livros são ditados

Meu amigo MARCO AURÉLIO Em sua última encarnação, foi investigador de polícia, nascido e criado na cidade do Rio de Janeiro, em fins do século xix.
Meses antes de desencarnar, ajudou a polícia de São Paulo nas investigações e na solução do famoso crime da mala, ocorrido em 1928.


Marco Aurélio me acompanha desde que iniciei meus estudos no Espiritismo, há mais de trinta anos.
Numa noite de sessão mediúnica no centro, ele me revelou que nossos laços de amizade se perdem no tempo, desde a Roma Antiga.
Logo depois desse encontro, ele passou a me ditar com regularidade, ao longo desses anos, várias histórias.
Hoje elas perfazem catorze livros editados, incluindo este que agora vem a público, e mais dois ainda inéditos.
Marco Aurélio é ligado a um grupo que trabalha no desenvolvimento do ser humano.
Portanto, ao ler as histórias por ele ditadas, você tem a possibilidade de se conscientizar do seu grau de responsabilidade diante da vida e accionar a chave interior para viver melhor consigo e com os outros, tornando o nosso planeta um lugar bem mais interessante e prazeroso de se viver.
Eu aprendo muito com o Marco Aurélio.
Ele me esclarece sobre a ética espiritual, me dá conselhos valiosos sobre questões do dia a dia, me ajuda a viver em paz.
Eu o considero um pai, um amigo.
Embora ele não goste, considero-o um ser iluminado, cujas energias me fazem, sempre que possível, manter o equilíbrio e jamais me deixam perder o humor e a alegria pela vida.

Obrigado, meu amigo!
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 8:36 pm

Prólogo

Paloma saltou do táxi e correu sem olhar para trás.
Mesmo com enorme vontade de virar o rosto para verificar se estava sendo seguida, continuou olhando para baixo e para a frente a fim de não tropeçar.
Estava aturdida, desesperada.
- Meu Deus! Ajude-me! - balbuciou, enquanto as pernas aceleravam os passos.
Lena, amiga querida, tinha sido clara e sempre lhe alertara que Javier era um homem mau.
Todavia, Paloma achava que isso era futrica, inveja, dor de cotovelo; afinal de contas, Javier era um espanhol de quase dois metros de altura, forte, rosto quadrado, e exalava masculinidade.
Não passava despercebido.
As mulheres suspiravam por ele.
A última namorada, ao ser abandonada, tentara o suicídio, tamanho fascínio que Javier exercia sobre as mulheres.
Entretanto, o espanhol de olhos negros e profundos só tinha interesse em Paloma.
No fundo, ela até sentia orgulho.
"Eu e Javier formamos um lindo casal.
Somos admirados e muito invejados", dizia sempre, com o rosto altivo, cheio de satisfação.
Enquanto corria, começava a acreditar que Lena sempre esteve certa, porquanto a acolhera e fora solidária desde seus primeiros dias em Barcelona.
Jamais deveria suspeitar que Lena pudesse ter um dedinho de inveja dela.
- Lena viu há muito tempo o que eu só vejo agora - sibilou, enquanto dobrava uma ruela, esbaforida e com medo.
Muito medo.
Não podia mais levar aquela vida.
Tinha de dar novo rumo à sua jornada.
Sua irmã, por quem Paloma nutria confiança e afeição especial, tinha sido categórica e afirmara sem rodeios que Javier não prestava.
Mas fazer o quê?
- Ninguém manda no coração - rebatia ela, numa tentativa pífia de desculpar-se por amar um homem sem escrúpulos, sem moral, abjecto.
- Será que a velha cigana tinha razão? - emendou na sequência, lembrando-se de uma consulta, tempos atrás.
Ela pensava, sussurrava, respirava e corria. Muito.
Fazia tudo ao mesmo tempo, tentando apagar a cena que a aterrorizara minutos antes e procurando impedir que sua mente a trouxesse de volta.
- Aquilo não é verdade.
O que vi não pode ser verdade! - asseverou com veemência.
A vasta cabeleira balançava freneticamente para os lados.
Paloma parou por um instante.
Ofegante, encostou o corpo contra a parede e passou as costas da mão sobre a testa, procurando afastar as gotas de suor que escorriam sobre o rosto avermelhado.
- Estou cansada.
Não sei se vou conseguir fugir de Barcelona.
Por mais que eu ame esta cidade, tenho amor maior à vida. Se ficar, morro.
Arfante, ela recobrou as forças e seguiu a passos largos.
Cortou Las Ramblas1 feito um foguete, esbarrando nas pessoas, queria chegar o quanto antes à casa de Lena.
- Lena vai me escutar e vai me dar uma luz.
Paloma meteu a mão no bolso de trás da calça e pegou um molho de chaves.
As mãos estavam trémulas, e ela levou algum tempo até acertar a chave na fechadura e abrir o enorme e pesado portão de madeira.
Assim que entrou, subiu os degraus de dois em dois e colou o dedo na campainha.
Uma voz lá de dentro fez-se ouvir:
- Já vai.
Aporta abriu-se e Paloma avançou num salto.
Abraçou Lena com força, e as lágrimas começaram a correr, misturando-se ao suor.
- Oh, Lena! Preciso tanto de você...
- O que foi? - perguntava a amiga, enquanto tentava acalmá-la, passando as mãos delicadamente sobre as costas de Paloma.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 8:36 pm

- Preciso ir embora.
Voltar para o Brasil. Imediatamente.
- Como voltar?
Assim, sem mais nem menos?
- Sim - Paloma balançou a cabeça, nervosa.
- Javier vai junto? - indagou ressabiada.
Os olhos de Paloma pareciam querer saltar das órbitas.
- De modo algum!
Eu preciso fugir... dele!
Lena fechou a porta, passou o trinco e foi até a cozinha.
Apanhou um copo de água com açúcar e trouxe-o para a amiga.
- Beba - ordenou, enquanto puxava Paloma para o sofá e se sentava ao lado dela.
O que aconteceu?
- Não sei se posso dizer...
- Se não puder falar, não posso ajudá-la.
Mas estou sentindo uma energia muito ruim.
Lena tinha muita sensibilidade.
Percebia que o campo emocional de Paloma estava em desequilíbrio.
A moça respondeu de chofre:
- É algo que me chocou profundamente.
- Paloma, sou sua amiga.
E, por ser mais velha e tê-la incentivado a vir morar em Barcelona, sinto-me responsável por você. Seus pais confiam em mim.
- Sei disso.
Se não fosse você ao meu lado aqui, não sei se aguentaria viver fora do meu país por tanto tempo.
- Eu lhe avisei que Javier era encrenca pura.
- Eu não tenho sensibilidade - reconheceu.
Lena riu.
- Não é preciso sensibilidade para perceber que Javier é um homem mau, sem escrúpulos.
Está na cara, nos olhos, nas atitudes dele...
Lena suspirou e prosseguiu:
- Entende agora que nunca tive inveja de vocês?
Percebe que sempre só quis abrir os seus olhos?
Paloma lembrou-se de algumas cenas em que Lena aparecia pedindo, com jeito, que tivesse não um, mas os dois pés atrás com Javier.
- Agora eu entendo - respondeu resignada.
Eu conheci Javier de maneira torpe, nosso envolvimento foi mais pela química, pela pele.
Foi puro desejo.
- Desejo que você precisa aprender a frear.
- O que fazer?
Deixar de sentir prazer?
- Não se trata disso.
Você precisa monitorar seus desejos.
O desejo não pode ser maior do que a nossa vontade de poder decidir sobre as coisas.
O desejo incontrolável nos arrasta para um mundo de vícios e a perda de contacto com nossa essência.
Paloma fazia sim com a cabeça.
No entanto, estava deveras aturdida para absorver o comentário. Um tanto mais calma, prosseguiu:
- De um tempo para cá, comecei a notar mudanças no comportamento dele.
- Ele anda metido com gente da pesada.
- É. Eu sei.
- Se sabe, o que a deixou tão desorientada?
Paloma respirou fundo e sussurrou no ouvido de Lena.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 8:36 pm

A amiga levou a mão à boca para abafar o susto e balançou a cabeça negativamente:
- Sabia que ele era da pesada, mas não pensei que chegasse a tanto - tornou Lena, espantada. - Tem certeza?
- Posso ficar cega se estiver mentindo!
Eu vi com os meus próprios olhos!
Nunca vou me esquecer de cena tão cruel.
As duas abraçaram-se. Lena perguntou:
- Javier viu você?
- Não. Acho que não.
- Acha?!
A situação não permite que você "ache" alguma coisa, Paloma.
Ou Javier a viu, ou não.
Disso você precisa ter certeza.
- Só tenho certeza do que meus olhos registaram.
A porta estava entreaberta e vi quando ele apertou o gatilho e... - a voz era entrecortada por soluços - não consegui ver mais nada.
Sustei! - ela levou as mãos ao rosto, num gesto típico de desespero.
- Conhece quem estava lá com ele?
- Eu o vi caído de bruços.
Parecia ser homem.
- Tinha mais alguém com Javier?
- Não me lembro.
Como lhe disse, assim que abri a porta, vi Javier... - Paloma fechou e abriu os olhos.
Não sei como consegui, mas dei um passo para trás e me controlei para não gritar.
Saí pé ante pé.
Ao ganhar a rua, peguei um táxi e pedi ao motorista para sair de lá o mais rápido possível.
Passei o tempo todo olhando para trás para me certificar de que o motorista não estava sendo seguido.
Saltei e atropelei não sei quantos nas Ramblas.
Lena afirmou, convicta:
- Você precisa ir embora. Já.
Paloma abraçou-a com força.
- Era isso que meu coração dizia, mas eu precisava escutar você para ter certeza.
- Precisa arrumar-se.
Passagem e dinheiro, eu consigo sem problemas.
Ramón é comissário de bordo.
Tenho meus contactos.
- Sim.
- E seu passaporte?
Está aqui, certo?
- Não. Está no quarto... - hesitou - lá do nosso apartamento.
- O que seu passaporte está fazendo na casa de Javier?
- Foi bobeira minha.
Ontem fui a uma casa de câmbio para trocar dinheiro e deixei a bolsa no apartamento dele.
Eu saí com uns trocados, mais nada.
- Como pegá-lo sem Javier saber que esteve lá?
Ai, Paloma, não estou gostando dessa situação. Não acha melhor eu ir até lá?
- Não quero que se meta em encrencas.
Você é uma boa amiga.
E me preocupo com Eduarda.
- O que tem ela?
- Depois lhe conto.
Não posso sair do país sem falar com ela.
Lena fez um muxoxo.
- O que foi?
Também não confia em Eduarda?
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 8:36 pm

- O pai dela tem ligações com Javier.
- Eduarda não tem nada a ver com isso.
Mudou muito.
É uma boa amiga.
- Em todo caso, você não pode ir até o apartamento.
De jeito nenhum e...
De repente, a campainha tocou ao mesmo tempo que batiam na porta.
- Abra, Lena! É Paco.
Paloma desesperou-se.
- É o homem de confiança do Javier.
Esse capanga sabe que eu estou aqui. E agora?
- Calma - Lena tentou tranquilizá-la.
- Paco vai nos matar!
- Vamos, Lena, abra! - gritava a voz.
As batidas ficaram mais intensas e, segundos depois, Lena abriu os olhos injectados de fúria à sua frente eram tão assustadores que Lena sentiu enjoo e as pernas ficaram bambas.
Escondida embaixo da cama, Paloma pedia a Deus que a tirasse de lá.
O mais rápido possível.

1 - Série de pequenas ruas que se juntam.
Las Ramblas de Barcelona, na Espanha, têm ao todo pouco mais de mil metros e liga a Praça da Catalunha ao antigo porto de Barcelona.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 8:37 pm

- 1 -

Muitos anos antes.

Isabel e Paulo cresceram querendo viver um ao lado do outro, para sempre, até mesmo depois que a morte os separasse, acreditando naturalmente nesta possibilidade.
Namoraram desde crianças, e as famílias de ambos aprovavam a relação.
Parecia que os dois tinham saído daqueles contos de fadas, ou mesmo daqueles filmes antigos e açucarados com os quais naturalmente exalamos sincero e merecido suspiro de felicidade no fim.
No colégio, quando havia quermesse, Isabel sempre era a noiva, e Paulo, o noivo.
No baile de quinze anos, depois de dançar a valsa com o pai, Isabel dançou a segunda valsa com Paulo.
E essa sintonia perfeita prosseguiu; quando completaram vinte anos de idade, numa bela noite estrelada, casaram-se.
Eles representavam o modelo ideal, perfeito, de casal feliz.
Os amigos e familiares sentiam até uma ponta de inveja, tamanha afinidade entre os dois.
Afinal, numa época em que se separar parecia algo moderno e natural, os dois passavam longe desse pensamento.
Nunca discutiram.
Jamais tiveram uma rusga, uma briga, um desentendimento que fosse.
Eram extremamente companheiros.
Além do amor, o respeito e a admiração eram recíprocos, na mesma medida.
Um dava força ao outro.
Em tudo.
Diziam com firmeza e naturalidade:
- Nascemos um para o outro.
- O que vale mais nessa relação? - perguntavam sempre aos dois, na tentativa de encontrarem uma fórmula de amor eterno.
- O nosso amor - respondiam.
Isabel sempre frisava:
- O que importa é só o amor, porque, com amor, todos os problemas se tornam pequenos, todas as rusgas se tornam pequeninas, além do mais, o amor não permite espaço ao desentendimento.
Onde há desentendimento e falta de respeito, inexiste o amor - era a resposta clara, objectiva e sempre ali, na ponta da língua, dita de maneira suave e verdadeira.
Era, sem sombra de dúvidas, um casal excepcional, fora dos padrões.
Magnólia era amiga de Isabel desde os tempos de infância, quando estudavam no Colégio São José, na Rua da Glória, no bairro da Liberdade, em São Paulo.
Tratava-se de um colégio só para moças, que era uma referência na formação de normalistas, ou seja, professoras, carreira geralmente comum que muitas meninas seguiam no início dos anos 1970, em vez de cursarem o científico.
Magnólia era naturalmente uma pessoa negativa.
Crescera assim, porquanto era de sua natureza olhar a vida sempre pelo lado ruim.
Obviamente, não tinha lá muitos amigos.
Mas ela não era má pessoa.
Muito pelo contrário.
Magnólia tinha carácter e boa índole.
O único defeito de Magnólia, se assim podemos pontuar, é que ela desconfiava sobremaneira das pessoas.
Tinha um modo negativo de encarar a vida e o mundo, o que a infelicitava profundamente.
Acreditava que por trás de toda boa intenção havia uma outra, bem pior.
O detalhe inconfessável:
Magnólia era apaixonada por Isabel.
E acreditava que um dia, talvez, a amiga lhe desse atenção e pudessem viver uma linda história de amor.
Isso era viagem da cabeça de Magnólia.
Isabel não era preconceituosa; contudo, amava Paulo.
Só tinha olhos para ele.
E para mais ninguém.
Fosse homem ou fosse mulher.
Magnólia começou a perceber que seria impossível ter Isabel para si.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 8:37 pm

Quanto mais presenciava as trocas de carinho e juras de amor entre Isabel e Paulo, mais tinha a certeza de que ficaria sozinha, que jamais teria a sorte da amiga e encontrar um amor.
Com medo de ser rejeitada, Magnólia não dava abertura para que outra garota pudesse tocar seu coração.
- Se não posso ter Isabel, então não terei mais ninguém - dizia para si.
A vida é mesmo ruim e difícil.
Não sei como ainda consigo viver - reclamava.
Queixas à parte, Magnólia era uma moça bonita.
Com pavor de que as pessoas descobrissem suas tendências - como ela frisava -, deu trela para Jonas, rapazote que morava nas redondezas e andava com uma turminha barra-pesada, sempre metida com pequenos furtos e arruaças.
O moleque era naturalmente rejeitado pelas meninas da redondeza pela fama de marginal.
Porém, ele acreditou que Magnólia estivesse gostando dele.
Foi uma época em que Jonas até considerou largar a vida fácil, de vagabundagem.
Pensou que, com o namoro, viria a vontade de trabalhar com carteira assinada e, quem sabe, até voltar a estudar.
Jonas tinha jeito para consertar veículos e começou a vislumbrar ser dono de uma oficina mecânica, com o nome de Magnólia na fachada.
Os amigos caçoavam:
- Essa garota é estranha - dizia um.
- Magnólia não é chegada em rapazes - confessava outro.
- Vocês estão é morrendo de inveja - replicava Jonas.
Só porque uma menina decente deu trela para um de nós, estão enciumados.
Pura dor de cotovelo!
Quando Jonas a beijou pela primeira vez, Magnólia não sentiu nada.
Nem um frémito de emoção.
"Achei que fosse sentir a emoção de um beijo, como as actrizes demonstram nos filmes do cinema", pensava, triste e desiludida.
Em contrapartida, Jonas sentiu o coração pular, as pernas falsearem, fogos de artifício espocarem no céu.
"Achei a mulher da minha vida", pensou, entre suspiros e sonhos.
Isabel desconfiava que Magnólia nutrisse por ela muito mais que um sentimento de amizade.
Conversara com Paulo a respeito e acharam melhor não questionar a amiga.
Preferiram manter atitude e comportamento reservados que não ferissem os brios de Magnólia.
- Um dia ela vai esbarrar numa boa mulher, que seja íntegra e a valorize, e vai se apaixonar.
- Será, Paulo?
Magnólia é tão maria vai com as outras, tão negativa, tem medo de tudo.
Eu me preocupo com ela.
Veja esse namoro com o Jonas.
Tem cabimento se envolver com uma criatura como ele?
- Cada um atrai o que merece - argumentou ele.
- Você, às vezes, é duro demais, meu amor.
- Não, Isabel. Sou realista.
Magnólia tem uma maneira dramática de encarar a vida.
Para ela tudo vai piorar.
Se algo bom acontece, ela logo diz que felicidade não pode durar.
Ela tem um comportamento que atrai pessoas que pensam como ela.
Mas em relação ao Jonas... - ele parou de falar, criando um suspense.
- Diga logo, meu amor.
O que você sabe que eu não sei?
- Jonas está amarrado em Magnólia.
- Jura?
- Hum, hum.
Apaixonado.
Dizem até que ele pensa em largar essa turma da pesada e trabalhar.
Acredita?
Isabel levou a mão ao peito.
- Meu Deus!
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 8:37 pm

- O que foi, meu amor?
- Não sei.
Uma sensação muito ruim.
- Acha que Jonas pode machucar Magnólia?
- Não. O contrário.
- Não entendi - Paulo estava confuso.
- Magnólia está namorando o Jonas porque tem medo de ser falada, xingada.
Ela está usando o rapaz para se defender dos comentários maledicentes da sociedade.
Imagine o dia em que ele descobrir que ela não sente atracção por homens.
- É embaraçoso.
Ela pode magoá-lo profundamente.
- Preciso ter uma conversa séria com ela.
- Isso, meu amor.
Converse com Magnólia.
Você tem sensibilidade suficiente para tocar nesse assunto tão íntimo.
- É verdade - concordou Isabel.
E, além do mais, Magnólia é minha amiga.
- Você é um anjo na vida dela.
Anjos não se deixam contaminar pelo pensamento negativo de seus protegidos.
Isabel o beijou com emoção.
- Obrigada por me entender e apoiar.
- É para isso que serve um companheiro, certo?
- Sim. Mas esse namoro dela com o Jonas não me desce.
Não gosto de ver os dois juntos.
Sinto arrepios, uma coisa estranha.
- Percebe as energias negativas do rapaz.
- Sim. E tem mais:
Jonas pode estar apaixonado, mas tem olhos maus.
- Olhos maus?
Nunca ouvi isso antes - ele riu.
- É quando a pessoa é dissimulada e olha para você fingindo amabilidade, além de, geralmente, evitar ser encarada.
Felizmente, ou infelizmente, minha intuição percebe quando alguém não é sincero.
Jonas exala maldade.
Se ele se sentir traído por Magnólia, não sei o que será da vida dela.
- Não exagere. É amor.
- Amor é o que sinto por você, e você por mim.
Se Magnólia gosta de meninas, por que foi se envolver justo com a criatura mais delinquente do bairro?
- Porque ela deve estar se sentindo insegura, com medo de que os outros a julguem por ser, digamos, diferente.
- Ela tem o meu apoio.
- E o meu também.
O que podemos fazer? - indagou Paulo.
- Como você disse, tenho jeito com Magnólia.
Vou procurá-la.
- Converse com ela.
Vá com jeitinho.
Você é a única pessoa que Magnólia escuta com atenção.
- Tem razão.
É o que vou fazer.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 8:37 pm

- 2 -

No dia seguinte, Paulo chegou do trabalho, arrumou a mochila.
Não queria, de forma alguma, que Magnólia se sentisse constrangida com sua presença.
- Vou nadar um pouco, colocar a conversa em dia com os amigos - avisou ele.
Depois que terminar a conversa, ligue para a secretaria do clube.
- Pode levar horas, meu amor.
- Não tem problema.
Magnólia precisa de nossa atenção.
Você é amiga dela.
- Não sei o que seria da minha vida sem você.
- E não sei o que seria da minha - respondeu ele, beijando-a com amor.
Depois Paulo saiu, entrou no carro e deu partida.
Isabel ligou para a casa de Magnólia, convidando-a para um chá.
- A essa hora? - estranhou Magnólia.
- Paulo saiu.
Gostaria de conversar com você, assunto de meninas. Pode ser?
- Vou me arrumar e logo estarei aí. Um beijo.
Elas moravam a algumas quadras de distância.
Em quinze minutos Magnólia estava sentada no sofá, bebericando uma xícara de chá de cidreira e beliscando docinhos.
Isabel conversou com Magnólia e expôs sua preocupação.
Magnólia deu de ombros.
- Não vai durar muito.
Fique tranquila.
Isabel a abraçou e Magnólia sentiu uma onda de prazer.
Afastou-se da amiga e controlou a emoção.
Pigarreou e justificou:
- Não é nada sério.
- Mas Jonas pode estar pensando que é sério.
Paulo contou que ouviu lá no bar.
- O que ele escutou no bar?
- Jonas está pensando em trabalhar com carteira assinada e até quer voltar a estudar.
- Não me diga!
- Tudo porque está apaixonado e quer formar uma família com você.
Magnólia tremeu.
- Apaixonado?!
- É.
- Nunca dei chance para ele se apaixonar.
- Como não?
Estão sempre juntos, andando de mãos dadas pelo bairro.
Parece que você adora passear com ele.
Já os vi dando amassos no portão.
Não sei como seu tio Fabiano não a pegou no flagra e lhe deu um pito.
Magnólia desconversou.
- Sou uma moça como outra qualquer.
Só você e Paulo podem se apaixonar?
- Não é isso.
- Só porque Jonas anda com uma turma barra-pesada?
Você o julga!
- Não. Não é julgamento.
Só gostaria que você percebesse que está enchendo a cabeça dele de ideias, deixando Jonas se envolver e fazer planos.
- E daí? - Magnólia questionou com desdém.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 8:38 pm

- E daí que você não o ama.
- Como pode afirmar isso?
Isabel teve vontade louca de dizer, mas foi prudente.
- Eu e Paulo nos preocupamos com você.
- Eu sei me virar.
- Não sabe, Magnólia.
Você namora Jonas só para dar satisfação à sociedade, para que os vizinhos não a perturbem, para que seu tio não a amole, com medo de... - Isabel não terminou.
Magnólia levou o dedo à boca de Isabel, aturdida.
- Não diga mais nada.
- Não adianta me calar.
Eu só quero o seu bem.
A lágrima desceu rápido.
O corpo de Magnólia começou a tremer.
- Você sabe o que sinto, não?
- Sim.
Magnólia deu um longo suspiro dolorido e deixou as lágrimas correrem livremente.
Isabel abraçou-a e deixou que chorasse.
Enquanto isso, esclareceu:
- Não acho errado.
Magnólia arregalou os olhos e estancou o choro.
- Não?
- Não. Quando o assunto é sentimento, não existe o certo ou o errado.
Existe o bom senso.
- Obrigada por me aceitar.
Isabel apertou-a de encontro ao peito.
Magnólia sentiu um carinho tão genuíno pela amiga que o frémito de emoção foi substituído por uma quietude interior que serenou seu coração.
- Tenho medo de ser falada - admitiu, enquanto se recompunha no sofá.
- E daí? Você é uma mulher livre.
Está com vinte anos de idade. Jonas é mais velho e não concluiu os estudos.
- Além de ter entrado na Febem e saído de lá inúmeras vezes.
- Não fale nesse tom de julgamento.
Podemos imaginar a vida que teve.
O pai sempre batendo na mãe, as brigas, a polícia...
Jonas cresceu em um lar desestruturado.
- Ele não tem mais jeito, né?
- Não é isso. Tem jeito para tudo.
Jonas pode se transformar.
Aliás, ele está se transformando.
O namoro fez com que ele repensasse a vida, mudasse a maneira de ser.
Você tem feito bem a ele.
O que me preocupa é saber se esse namoro tem data certa para acabar. Tem?
- Eu posso levar essa mentira adiante - clareou Magnólia.
- Como assim? Não entendi.
- Eu posso namorar, depois casar.
Posso começar uma família, ter um filho e depois peço a separação.
Nunca vão falar mal de mim.
- Está só pensando no que o mundo vai dizer?
É isso? Estou abismada com a sua falta de consideração.
- O mundo é assim, Isabel.
Quem sabe se safar leva a melhor.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 8:38 pm

- Você não pode estar falando sério.
- Tenho tudo arquitectado - apontou para a cabeça.
- Não pode usar os outros para satisfazer seus caprichos.
- Quem disse que não posso?
- Não é correcto. Nem ético.
- Crianças são assassinadas todos os dias.
Bandidos matam sem pestanejar.
As guerras espocam pelo mundo inteiro, a todo instante.
Isso tudo não é correcto.
- Você perdeu o juízo, perdeu o bom senso.
Você pode magoar profundamente o Jonas.
- Ele que se dane!
Cada um que saiba lidar com seus sentimentos.
Isabel respirou fundo e ponderou:
- Querida, eu adoro você.
É minha melhor amiga.
- Eu sei.
- Pode contar comigo e com Paulo.
Estamos ao seu lado para o que der e vier.
Mas veja bem: abusar do sentimento dos outros, usar alguém para satisfazer seus desejos e caprichos, e depois jogar na lata do lixo, não é uma atitude adequada.
Sabe que a vida responde às nossas atitudes.
- De novo com esse papo! - exclamou, nervosa.
- Quantas vezes forem necessárias! - Isabel apanhou a mão de Magnólia e declarou, com carinho:
- Eu quero que você seja feliz.
Não importa se com homem ou mulher, mas feliz.
- Nunca vai me condenar?
- Jamais. Quem ama não condena.
E na verdadeira amizade não há espaço para cobranças.
Um amigo pode não concordar, mas nunca vai condenar.
Não estrague sua vida e a vida de Jonas por conta de um capricho, só para que a sociedade a veja com outros olhos.
- Não sei como agir.
Eu gosto de mulher, mas não me sinto um sapatão.
Não consigo me ver de camisa comprida, calça jeans, botinas e cabelinhos curtos.
- Há tipos e tipos.
Existem lésbicas masculinizadas e femininas, altas e baixas, gordas e magras.
As duas riram.
- Tem razão.
Eu sou muito feminina.
Gosto dos meus cabelos longos, de vestido, de batom.
- Relacionar-se com outra mulher não vai fazer você mudar esse comportamento.
Muito pelo contrário.
- Por quê?
- Porque, quando assumimos o que somos, quando estamos do nosso lado, a nossa aura se expande, o nosso peito se abre e nos tornamos mais belas e verdadeiras.
E estamos no mundo para trocar experiências.
- Bela experiência a minha!
- Talvez seu espírito necessite de auto-apoio, precise aprender de uma vez por todas que quem não rejeita a vida e não se rejeita nunca será rejeitado.
Magnólia abraçou Isabel com força.
- As suas palavras tocaram meu coração - Magnólia reflectiu por instantes e concluiu:
- Eu vou terminar o namoro com Jonas.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 8:38 pm

- Isso - incentivou Isabel.
Termine com ele, numa boa, antes que ele se machuque profundamente.
Prepare-se para receber um amor verdadeiro.
Só vai levar desta vida as lembranças, sejam boas ou ruins.
Faça o possível para ter um número cada vez maior de doces recordações.
Assuma--se por inteiro.
Seja você mesma.
Deixe sua alma ser maior que sua mente.
- É difícil, Isabel.
Eu tento, mas tenho medo do mundo.
Se eu pudesse contar com o apoio dos meus pais ou de minha irmã, mas... infelizmente...
- Infelizmente seus pais morreram há muitos anos e sua irmã foi morar com parentes distantes que a acolheram em Belo Horizonte.
Nunca mais se viram e duvido que voltem a se ver.
Você veio viver com seu tio Fabiano, que a recebeu com carinho.
- Grande coisa! - resmungou Magnólia.
Velho sovina.
- Um velho sovina que lhe deu casa, comida, pagou seus estudos.
Tio Fabiano não tinha obrigação nenhuma de cuidar de você.
- Ele é muito duro comigo.
- É o jeito dele.
Compreenda que seu tio foi criado sob padrões rígidos de comportamento.
Ele age de acordo com os valores que absorveu.
Precisa entendê-lo.
E não se esqueça de que ele se comprometeu a lhe pagar uma faculdade, caso não ingresse em uma universidade pública.
- Sei que não vou passar no vestibular.
Chutei todas as questões da primeira fase.
- Então procure um curso pago, como eu.
Há boas faculdades particulares.
- Quer saber?
Não tenho vontade de estudar nada.
- Precisa gostar de alguma coisa.
Com tantas possibilidades neste mundo, e você não tem gosto de estudar nadica de nada?
Não posso crer.
- Pensei em educação artística.
Mas não dá dinheiro...
- Magnólia, minha querida, você precisa pensar em algo que lhe dê prazer.
Quando estudamos ou nos formamos em uma profissão pela qual temos gosto, o dinheiro vem com o tempo, naturalmente.
- Queria ser rica.
- Mas ainda não é.
Precisa estudar, trabalhar, ter uma profissão.
- É tão difícil...
- Mas não é impossível.
Casei-me e, assim que nos formamos normalistas, entrei na faculdade.
Logo terminarei a faculdade e quero engravidar.
A vida segue. Você precisa abrir os caminhos para a vida ajudá-la, em todos os sentidos.
De nada adianta namorar um rapaz de que não gosta somente para agradar o mundo e querer ser independente sem procurar emprego ou estudar.
- Hum - Magnólia suspirou.
Percebeu a sinceridade na voz de Isabel e perguntou, timidamente:
- Então, o melhor seria eu dar um passo à frente e procurar emprego?
- O trabalho, além de ser um meio de vida, é ferramenta indispensável que lhe permite descobrir as leis da natureza.
É por meio do trabalho que você desenvolve a criatividade, aprende a relacionar-se com os valores de uma forma geral e com as pessoas.
Ninguém alcança a sabedoria sem ter valorizado o trabalho.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 8:38 pm

- É tudo tão difícil.
- Não desanime.
Você sempre foi boa aluna nas aulas de educação artística e nas aulas de bordado.
Por que não pensa em melhorar suas habilidades e investir num negócio próprio?
- Negócio próprio? - Magnólia riu com desdém.
- Eu não tenho dinheiro nem para sair de casa e me bancar, imagine montar um negócio.
- Antes de realizar, precisamos criar as situações que desejamos aqui na mente - apontou para a cabeça.
Se você visualizar, ou seja, imaginar constantemente coisas boas, só poderá atrair coisas boas.
- Não acredito em visualização criativa.
- Não tem ideia do poder de nossa mente - contrapôs Isabel.
A nossa imaginação pode transformar nossa vida.
Para melhor ou para pior.
- Humpf! - Magnólia pronunciou algo ininteligível e olhou para a mesa de centro.
Viu o livro.
Perguntou, de maneira irónica:
- Toda a mágica de uma vida feliz está contida aí?
- apontou.
- Sim - Isabel apanhou o livro e o entregou para Magnólia.
Ela pegou o livro e leu em voz alta:
- Visualização criativa, de Shakti Gawain.
- Você vai adorá-lo.
Leve para casa e leia.
Nem que seja só para dar uma olhada nas primeiras linhas.
Sei que vai lhe fazer bem.
- Está certo. Vou levar.
Conversaram bastante naquela noite.
Magnólia falou sobre suas preferências, sobre sentir atracção por mulheres, desde que menstruara, e de se sentir culpada e envergonhada ao mesmo tempo.
Abriu o coração para Isabel e saiu, tarde da noite, um pouco mais aliviada.
Quando chegou em casa, dirigiu-se ao quarto, trocou--se e vestiu a camisola.
Apagou a luz e deixou o abajur aceso.
Deitou-se e abriu o livro.
Magnólia não gostava de ler.
A leitura lhe causava sono.
Bocejou, fechou e colocou o livros obre o criado-mudo, desligou o abajur e adormeceu.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 8:38 pm

- 3 -

Nos dias que seguiram, Magnólia não leu o livro, não procurou uma faculdade particular,, tampouco foi atrás de emprego.
O desânimo apoderou-se dela.
Só estava certa de uma coisa:
esquecer o namoro com Jonas.
Também pudera.
Depois de participar de um assalto, fugir com um carro e atropelar duas pessoas, Jonas havia sido preso em flagrante e detido.
- Fico feliz que tenha esquecido o Jonas - afirmou Isabel.
- Nem precisei terminar o namoro. Ele foi preso.
- Mas pode estar ainda pensando em você - tornou Isabel.
Melhor ir até a detenção e falar com ele.
- Está louca? - exasperou-se Magnólia.
Eu jamais vou botar os pés na cadeia.
Jonas vai me esquecer.
- Quem se apaixona não esquece.
- Problema dele.
- Não. Se você terminar e ele não aceitar, você vai ter ajuda da vida para que ele não a amole, porque foi verdadeira.
Contudo, se não se expressar, não for verdadeira, então o problema será seu e correrá o risco de Jonas atormentá-la.
- Ele é cão que late muito.
E cão que late não morde.
Isabel meneou a cabeça, maneira negativa.
- Em todo caso, se quiser, eu acompanho você até a cadeia.
- Não há necessidade - desconversou.
Sabe, o livro que me emprestou ajudou bastante - mentiu.
- Você não leu uma linha.
- Imagine!
- Não me venha com conversa fiada, Magnólia.
Eu a conheço muito bem - riu humorada.
Mas não faz mal.
Posso saber que cara é essa?
- Meu tio cobrou uma posição.
- Sobre?
- Faculdade, Isabel. Não me decidi.
Fiquei remoendo esse término de namoro.
Não tive tempo de pensar - mentiu de novo.
- Seja franca - incentivou Isabel.
A sinceridade funciona como um escudo, protegendo-nos das energias perniciosas que nos rondam.
- Tio Fabiano não vai compreender.
- Daí é outra história.
Abra seu coração, diga que ainda não sabe o que fazer, mas que vai se esforçar e, no máximo, começará um curso superior no próximo ano.
- Titio é muito firme.
Tenho medo.
- Ora, Magnólia.
Você precisa ter paciência.
Seu tio é firme, mas não é um carrasco.
Ele lhe quer muito bem.
- Agora botou na cabeça que ou eu entro na faculdade, ou vou à cata de trabalho.
- Seu Fabiano não disse nada diferente do que já conversamos.
- Não é a vida que eu gostaria de ter.
- Acha que está reencarnada para quê? - a indagação de Isabel era seguida de leve indignação.
- Para viver e sofrer.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 05, 2016 8:39 pm

Isabel revirou os olhos, inconformada.
- Vivemos numa época em que o sofrimento ainda faz parte do burilamento do nosso espírito.
Muitos de nós ainda precisam sofrer para crescer.
Outros olham o sofrimento sob um prisma menos pesado, e tem até quem não acredite no sofrimento em si.
- Não concordo.
- Então mude.
Pare de reclamar.
- Eu queria o sucesso.
- Sucesso sem esforço pessoal não existe.
Faça a sua parte, e o universo fará o resto.
- E o universo tem lá tempo para mim, Isabel?
- Tem - respondeu com paciência.
Tem tempo para todos nós.
As forças universais trabalham pelo bem de todos que aqui estão reencarnados.
Você é forte.
- Sou nada.
- É forte. Nasceu com o propósito de bancar-se.
Você voltou nesta nova experiência para não dar ouvidos aos comentários do mundo.
Precisa estar ao seu lado sem hesitar.
Ser sua amiga, sempre.
- Gostaria de ser uma mulher normal.
- E é. Quem disse que não?
Magnólia levantou-se da cadeira e apanhou um copo.
Foi até o filtro e encheu-o de água.
Bebeu e mudou o assunto.
- Paulo já deu entrada nos papéis para o financiamento da casa?
- Já - tornou Isabel, alegre, com enorme sorriso.
- Não têm medo de assumirem prestações por tantos anos?
Não acham arriscado?
- Não.
Somos jovens, saudáveis, com uma vida pela frente.
- E se um dos dois morrer?
- Você pode me provocar, porque não entro mais nessas suas ideias negativas.
Por precaução, fizemos um seguro de vida que cobre o valor da dívida, para o caso de um dos dois morrer.
Pensamos em tudo.
- Tenho medo de fazer prestação.
De repente, amanhã não dá para pagar.
É preferível não ter a perder tudo de uma vez.
Isabel ignorou o comentário negativo e prosseguiu:
- Para mim e para Paulo, a prestação da casa própria serve como antecipação de nossa prosperidade.
Não estamos fazendo dívidas por futilidades, mas para ter a nossa casa - frisou -, onde vamos criar nossos filhos.
- Aqui neste bairro?
- Sim. Aqui neste bairro.
Eu e Paulo adoramos a Mooca.
E é nela que vamos continuar a viver.
- Queria ser assim como você - suspirou.
Infelizmente, a negatividade insiste em ser minha companheira.
O que fazer?
- Mude seu jeito de encarar a vida.
Abra a mente para outras verdades, leia, estude, conviva com pessoas positivas, que vivam com alegria no coração.
Por que não procura tratar seu tio de outra forma?
- E existe outra maneira de me relacionar com tio Fabiano?
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 8:35 pm

- Sim. Seja amorosa.
Procure entendê-lo.
Magnólia fez sim com a cabeça e despediu-se.
- Amanhã eu passo aqui.
- Depois das sete.
Tenho reunião com fornecedores e não chegarei antes das sete.
- Está bem.
Magnólia saiu da casa de Isabel, dobrou a rua e, duas quadras antes de chegar à casa de seu tio, sentiu um braço puxando-a com força.
Ela se virou e arregalou os olhos:
- Jonas?
- Oi, gata. E aí?
- Você estava preso e... - as palavras saíam entrecortadas.
- Fugi. Para variar.
Ele a foi puxando com firmeza para perto de um carro.
- Entre.
Magnólia não gostou das feições do rapaz. Sentiu medo.
- Não posso.
Meu tio está me esperando.
- Entre - a voz de Jonas era forte e autoritária.
Quero levar um lero contigo.
Coisa rápida. O carro está ligado.
Ela assentiu e entrou.
- Que carro é este?
- Sei lá. Eu vi na rua, gostei, arrombei, fiz ligação directa e cá estamos - a risada dele era de um sarcasmo só.
Enquanto Jonas acendia um cigarro e acelerava, Magnólia sentia o coração bater descompassado.
- Para onde estamos indo?
- Para um drive-in.
- Hã?
- Drive-in, gata.
Tem um aqui pertinho.
Quero só trocar umas ideias.
Depois sumo no mundo.
- Está certo.
Ela concordou para não arrumar encrenca.
Jonas foi guiando com uma mão e com a outra fazia movimentos sobre as coxas dela.
Magnólia fechou os olhos.
"Estou com medo, muito medo", pensou.
Jonas dirigiu mais alguns quilómetros e entrou no drive-in.
Estacionou o carro e pediu duas bebidas.
- Vou tomar um refrigerante - pediu Magnólia.
- Tudo bem. Uma dose de uísque para mim e um refri para a donzela.
A atendente saiu e voltou em seguida.
Jonas deixou a janela do motorista abaixada até a metade, e a moça encaixou a bandeja com as bebidas e os copos.
Depois saiu e fechou a cortina.
Magnólia começou a suar.
- Não gosto de lugares escuros.
- Relaxa. Tem uma luzinha.
E, se quiser, acendo os faróis.
- Prefiro.
Ela falou, abriu a porta do carro e saiu.
Jonas apanhou as bebidas e, enquanto Magnólia tentava manter o equilíbrio, ele abriu o bolso da jaqueta e apanhou um papelote.
Abriu-o e despejou um pozinho na bebida dela.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 8:35 pm

Ela nada percebeu.
- Entre.
Precisamos conversar.
Magnólia respirou fundo mais uma vez e entrou.
Sentou-se com uma perna para dentro e outra para fora do carro.
Deixou a porta aberta.
- Está quente.
- O carro é bom, mas não tem ar-condicionado.
Fique tranquila.
A gente não vai demorar.
- Não?
- Não. É coisa rápida.
- Por que me trouxe aqui?
- Porque eu vou viajar por uns tempos.
O Aragão me arrumou uns trabalhos em Minas Gerais.
Preciso desaparecer por alguns meses.
Jonas falou e entregou o copo com refrigerante para Magnólia.
- Aproveita que está gelado.
Vai lhe fazer bem.
Magnólia apanhou o copo e sorveu o líquido de uma vez só.
- Me dá mais um pouco?
Ele sorriu e fez que sim.
Apanhou a garrafa e encheu o copo.
- Eu queria me despedir de você.
- Como assim?
- Soube à boca pequena - ele falou baixinho - que você não gosta de homens.
- Não entendi - Magnólia respondeu, mas a vista começou a ficar turva.
Ela nem teve tempo de concatenar as ideias.
Seu corpo foi amolecendo e cairia do carro se Jonas não a tivesse segurado pelos ombros.
Ele apanhou o copo das mãos dela e prosseguiu:
- Sei que é sapatão.
Estava comigo para disfarçar.
Brincou comigo, me fez passar por otário com meus camaradas.
Eu estava a fim de você.
De verdade - a voz dele era entrecortada por emoção misturada a muita raiva.
Estou aqui para não deixar barato.
Você vai ganhar um presentinho.
Magnólia não escutava mais nada.
Havia apagado por completo.
Jonas, delicadamente, desabotoou-lhe o vestido, desceu o banco do passageiro e abaixou as calças.
Deitou-se sobre Magnólia, beijou-a com sofreguidão e forçou.
- Nossa! Você é virgem.
Quer dizer, era.
Agora vai ficar com uma lembrança minha para sempre, sua ordinária.
Ele falava de maneira suave, sem agressão.
Beijou e amou Magnólia por quase uma hora.
Depois de terminar, vestiu-a, ajeitou o banco do passageiro e fechou a porta do passageiro.
Magnólia continuava desacordada.
Jonas encostou a cabeça no banco do carro e começou a chorar.
- Por que fez isso comigo?
Por que me usou?
Eu estava apaixonado.
Estava disposto a largar o crime para viver ao seu lado.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 8:35 pm

Ficou uns bons minutos rememorando as cenas de namoro, as andanças pelas ruas do bairro de mãos dadas, os amassos no portão.
- Você nunca sentiu nada por mim.
Não é justo - balbuciou entre soluços.
Você é a bandida da história. Não eu.
Depois ele se recompôs, enxugou as lágrimas, pagou a conta, deu partida e, quando estava se aproximando da casa, começou a cutucar Magnólia.
- Vai, acorda.
Magnólia balbuciou algo, balançou a cabeça e, aos poucos, seus olhos começaram a se abrir.
Ela sentia a vista turva, a cabeça pesada.
- Onde estou?
- Chegando em casa, gata.
- O que você me deu para beber?
- Guaraná - respondeu Jonas.
Acho que a marca não era das boas.
- Eu me lembro de que entramos no drive-in e depois de um tempo apaguei.
- Estava cansada.
Falou que queria cochilar um pouco.
- Eu disse isso?
- Sim.
Jonas desacelerou e encostou na calçada.
- Chegamos à casa do tio.
- Que horas são?
Ele consultou o relógio e respondeu:
- Onze e meia.
Magnólia levou a mão à cabeça.
- Onze e meia?
É hoje que meu tio me mata!
- Mata nada!
O velho deve estar dormindo.
Magnólia não respondeu.
Estava enjoada e, estranhamente, começava a sentir incómodo nas partes íntimas.
- Foi bom ter visto você, Magnólia. Infelizmente não vamos poder continuar nosso namoro.
Também não sei quando a gente vai se cruzar de novo.
Eu vou viajar e não sei quando volto.
Se é que volto.
Ele se aproximou e a beijou no rosto, de maneira sensual e controlada.
Na verdade, tinha vontade de beijá-la, abraçá-la e permanecer assim pela eternidade.
Infelizmente, considerou, ela o desprezava.
Magnólia sentiu novo enjoo e abriu a porta do carro. Desceu rápido.
- Obrigada, Jonas.
Até qualquer dia.
- Até, gata.
Ele sorriu, acendeu um cigarro e acelerou.
Quando o carro dobrou a rua, Magnólia encostou no portão.
- Ufa! Pensei que ele fosse me matar.
Abriu o portão e sentiu nova pontada nos genitais.
Passou a mão por baixo do vestido e horrorizou-se ao perceber que o sangue escorria por entre as pernas.
Foi então que ela percebeu o que, de facto, acontecera.
- Não pode ser!
Jonas não pode ter feito uma barbaridade dessas comigo.
Magnólia voltou à rua e correu até a esquina, na inútil tentativa de encontrar Jonas.
Retornou para casa desolada, sentindo-se a pior das criaturas.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 8:35 pm

Ainda estava meio zonza pelo efeito da droga.
Entrou em casa e, ao passar pelo corredor, viu o tio.
Fabiano estava sentado numa poltrona, cachimbo no canto dos lábios.
Vestia um robe sobre o pijama e batia o chinelo sobre o assoalho.
- Onde estava?
- Fui à casa da Isabel.
- E ficou lá até agora?
- Sim.
- Mentira.
Vi você saindo de um carro último tipo.
Quem era?
- Não era nada, tio.
- Magnólia, não minta para mim.
Não sou seu pai, mas sou seu tio.
Eu cuido e sou responsável por você.
Magnólia não tinha condições de discutir.
Estava cansada e, pior, as dores estavam aumentando.
Com medo de que ele percebesse, simplesmente respondeu:
- Está coberto de razão, titio.
Eu saí com um amigo.
Mas prometo que nunca mais vou encontrá-lo.
Nunca mais.
Fabiano estranhou a resposta.
Conhecia a sobrinha e sabia que Magnólia iria tentar contra-argumentar.
Todavia, ela foi educada.
"Ela não está bem", pensou.
- Desculpe-me, mas hoje não vou beijar sua mão.
Boa noite, titio.
- Boa noite.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 8:36 pm

- 4 -

Magnólia subiu as escadas e trancou-se no banheiro.
Tirou a roupa e constatou o sangue no ventre a escorrer pelas pernas.
- Ele abusou de mim! - exclamou, numa voz quase inaudível, carregada de tristeza.
Fui violentada...
Abriu o registo do chuveiro e, quando a água estava morna, entrou e deixou-se ficar.
- Não quero pensar - ela murmurou, depois de mais de meia hora sob a água morna.
Saiu do banho acabrunhada.
Enxugou-se devagar, passou uma pomada, vestiu a camisola e tomou uma aspirina.
Foi para seu quarto.
Deitou-se na cama e, ao encostar a cabeça no travesseiro, chorou.
Chorou muito. Só quando estava amanhecendo, Magnólia finalmente adormeceu.
Desde aquela fatídica noite, Magnólia mudara completamente sua maneira de ser.
Não discutia com Fabiano, acatava-lhe todas as ordens.
Decidiu trabalhar na farmácia perto de casa.
- Magnólia está bem diferente - Isabel comentou no café da manhã.
- Tenho notado o mesmo - concordou Paulo.
- Antes ela vinha directo para cá, passava quase todas as noites ao seu lado, conversavam bastante.
- Ela se abriu comigo, confia em mim.
E em você.
Contudo, tem evitado vir a nossa casa.
- Será que está com vergonha?
- De quê, meu amor?
- Não sei.
De repente ela ainda sente vergonha de gostar de meninas.
- Não creio.
Magnólia mudou da noite para o dia.
Parou de frequentar nossa casa e, coisa rara, arrumou emprego na farmácia da esquina.
- Vai ver ela passou a acatar suas sugestões.
Não há pessoa no mundo que resista aos seus encantos.
Isabel sorriu e beijaram-se.
- Aí tem. Eu conheço minha amiga como a palma da minha mão.
Quando Magnólia se retrai dessa forma, é porque não está bem.
- Converse com ela.
- Fui até a farmácia, mas me informaram que ontem foi folga dela.
Não quero atrapalhá-la no serviço. Não é certo.
- Vá até a casa dela.
Converse com seu Fabiano.
Ele é durão, mas sempre nutriu enorme simpatia por você.
- É verdade.
Seu Fabiano sempre foi muito amável comigo.
- As pessoas nos tratam como nos tratamos.
Magnólia sempre teve comportamento de vítima, sempre se sentiu a criatura mais desafortunada do mundo.
Acha que seu Fabiano não percebe o teor das energias dela?
Claro que sente, meu amor.
- Também acho.
Fabiano é um bom homem.
Eu vou até a casa dele dia desses.
Isabel tirou os pratos da mesa e lavou a louça.
Paulo enxugou e, enquanto Isabel se arrumava para o trabalho, ele deixava a cozinha em ordem.
Instantes depois, ela desceu e ele a beijou nos lábios.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 8:36 pm

- Não resisto a tanta beleza.
- Sou tão feliz por ter você! - ela suspirou.
Paulo a beijou novamente e depois beijou a barriga dela.
- E esse bebezinho?
Será tão lindo quanto a mãe ou tão simpático quanto o pai?
Isabel passou a mão sobre o ventre e respondeu:
- Este bebezinho será lindo e muito amado.
Eu queria tanto contar para Magnólia que estou grávida!
- Insisto. Quando voltar do trabalho, dê uma passadinha na casa de seu Fabiano.
Converse com ele.
- Só se você fizer o jantar.
Ele riu e fez sim com a cabeça.
- Claro. Por vocês - ele apontou para a barriga dela - eu faço tudo. Sempre.
Beijaram-se mais uma vez e saíram de casa de mãos dadas.
Passava das oito quando Isabel tocou a campainha na casa de Fabiano.
Ele mesmo atendeu.
Estava com o traje nocturno habitual: robe, pijama e o indefectível cachimbo no canto dos lábios.
O aroma adocicado misturava-se ao delicado perfume do jasmineiro plantado no centro do jardim florido e bem cuidado.
- Olá, seu Fabiano, como está?
- Muito bem, obrigado.
Se veio conversar com Magnólia, ela não está.
Hoje ela sai do serviço às nove.
- Não tem problema.
Queria conversar com o senhor.
Fabiano surpreendeu-se.
- Comigo?
- Sim. Está ocupado?
Fabiano era homem metódico, cheio de regras e de uma disciplina muito rígida.
Quando os badalos do relógio soavam às oito em ponto, ele tomava seu chá inglês e lia o trecho de um livro ou um periódico.
Era culto, estava sempre bem informado.
Era um homem que, sem dúvida, fora muito bonito quando moço.
Ainda possuía traços de alguma beleza, mas a pele envelhecera bastante, as rugas eram muitas e o cenho era bem franzido.
Os óculos de armação pesada e aro preto conferiam-lhe ar autoritário.
Fabiano a convidou para entrar.
Passaram pelo jardim de inverno e foram até uma saleta finamente decorada.
Os móveis eram de época.
Parecia que Isabel tinha sido transportada para o início do século.
- Não gosta da decoração? - ele indagou, enquanto sentava-se em uma poltrona de couro e indicava outra para ela se sentar.
- Aprecio, mas não é a que me atrai. Sou mais contemporânea.
Ele bateu com a mão sobre a mesinha ao lado.
- São móveis feitos pelo pessoal do Liceu de Artes e Ofícios há mais de cinquenta anos. São únicos.
- O senhor tem extremo bom gosto.
- Obrigado.
Fabiano tocou uma sineta e a empregada apareceu.
- O que vai querer, Isabel? - perguntou ele.
- Uma água.
- Uma água e meu chá, por favor.
- Sim, senhor.
A empregada saiu e Fabiano suspirou.
- Queria tanto que Magnólia fosse refinada!
Mas ela não tem modos.
Não se parece em nada com a mãe...
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Ave sem Ninho

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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 8:36 pm

Ele falou e fechou os olhos.
Um tímido sorriso formou-se no canto de seu lábio.
Isabel não percebeu e acrescentou:
- Magnólia tem um jeito próprio de ser.
- Entretanto, insisto que deveria estudar.
Hoje vocês, mulheres, precisam estudar, trabalhar, ser independentes.
- Não é contra a mulher no trabalho?
- Eu? Imagine!
Papai morreu durante a epidemia daquela gripe.
- A espanhola.
- Você sabe das coisas - ele riu bem-humorado.
- Essa mesma.
Matou até um presidente da República!
- Disso eu sei - tornou Isabel, sorridente.
Rodrigues Alves foi eleito presidente por duas vezes.
Contraiu a gripe espanhola e não tomou posse na Presidência em 1918, morrendo dois meses depois.
O vice-presidente, Delfim Moreira, assumiu a Presidência.
- Estou abismado com tanto conhecimento!
- Estudei em um bom colégio.
Tive óptimas professoras.
- Magnólia também.
Ela é tão desligada que nem deve saber qual é o nome do actual presidente.
Eles riram e Fabiano prosseguiu:
- Eu tinha acabado de nascer e mamãe tinha mais três filhos.
Se ela não tomasse conta dos negócios, não sei se teria tido a vida que tive.
- Onde estão seus irmãos?
- Morreram todos.
Eu era o caçula.
O pai de Magnólia era dois anos mais velho que eu.
- Ele se casou tarde, eu sei.
- É. Mariano tinha passado dos quarenta.
Foi um espanto quando anunciou o enlace.
- E o senhor...
Fabiano cortou-a com amabilidade.
- Você veio falar comigo.
Qual é o assunto?
Isabel remexeu-se na cadeira e sorriu desconcertada.
A empregada entrou na saleta e deixou a bandeja sobre a mesinha de centro.
Serviu Isabel e em seguida entregou a xícara fumegante para Fabiano.
As mãos tremeram um pouco e o líquido escorreu no pires.
Fabiano fuzilou a moça com o olhar.
- Obrigado.
Pode se retirar e ir para seus aposentos.
Boa noite.
- Sim, senhor.
A empregada saiu e Fabiano suspirou.
- Uma pena!
Não há mais empregados como antigamente.
Acredita que essa moça está aqui há um ano e ainda não consegue me servir o chá da maneira como gosto?
- Com o tempo ela aprende.
- Por certo.
Então, você veio me procurar...
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Ave sem Ninho

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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 8:37 pm

- Sim - Isabel bebericou sua água e prosseguiu:
- Tenho notado Magnólia muito estranha ultimamente.
- Estranha como?
- Faz dias que ela não vai mais à minha casa.
Quando ligo para cá, a empregada diz que ela está dormindo.
Sinto que ela tem me evitado.
- Vocês tiveram alguma discussão?
- De maneira alguma, seu Fabiano.
Eu e sua sobrinha somos unha e carne.
Sempre fomos muito amigas.
É que, de uma hora para outra, ela desapareceu.
Fabiano lembrou-se da noite que Magnólia havia chegado tarde em casa.
Dissimulou:
- Consegue precisar quando Magnólia deixou de ir à sua casa?
- Pouco mais de um mês.
- Bom, ao menos ela está trabalhando.
Quem sabe logo vai se decidir e entrar em uma faculdade?
Já me dou por satisfeito de ela não estar se encontrando mais com aquele marginal.
- O senhor soube do envolvimento dela com o Jonas?
- interrogou espantada.
- Eu tenho empregada. Empregada conta tudo.
- Pensei que Magnólia...
- Tivesse conversado comigo?
Nunca. Mesmo dentro de minha rigidez, eu a sondei. Infelizmente, ela nunca se abriu comigo.
- Porque tem medo, seu Fabiano.
- Medo de quê?
- Do senhor.
Fabiano franziu a testa.
- Não entendo.
Quando os pais morreram, eu quis ficar com as duas meninas.
Begónia preferiu morar com uma tia em Belo Horizonte.
Eu ofereci o melhor, dei todo o conforto para Magnólia.
Paguei seus estudos.
Estou reformando a edícula nos fundos para que ela tenha mais privacidade.
Acabei de...
Ele se calou abruptamente e sorveu um pouco do chá.
- Acabou de quê, seu Fabiano? - Isabel estava curiosa.
Fabiano baixou o tom de voz:
- Comprei um apartamento na planta, aqui perto.
- Que notícia boa!
- Mas não quero que ela saiba.
Primeiro, Magnólia tem de aprender a dar valor às coisas.
Ela acha que tudo cai do céu.
Precisa fazer por merecer.
Vou morrer logo.
Preciso que ela fique amparada.
- O senhor tem bens.
- Algumas casas e uma fazenda.
Tenho também uma boa poupança.
É o mínimo que posso fazer para que no futuro nada falte à minha sobrinha.
Fabiano interrompeu novamente a fala e ingeriu um pouco mais do chá.
Isabel esperou que ele retomasse o assunto, porém ele permaneceu calado.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 8:37 pm

- O senhor é como um pai para ela.
- Tento ser, dentro do possível.
- Bom - Isabel consultou õ relógio -, acredito que Magnólia esteja bastante envolvida com o trabalho e...
Ouviram barulho na porta da frente.
Magnólia entrou na saleta e arregalou os olhos.
- O que faz aqui?
Aconteceu alguma coisa?
- Estava com saudades - Isabel levantou-se e a cumprimentou.
- Por que sumiu? Faz semanas.
- Muito trabalho - disfarçou.
Ela se aproximou e cumprimentou Fabiano.
- Bênção, tio.
- Deus te abençoe, menina.
- Não custa dar uma passadinha em casa - emendou Isabel.
- Você, Paulo e o titio não ficavam no meu pé insistindo para eu trabalhar ou estudar?
Pois bem. Ao menos estou trabalhando.
- E vai ganhar um cantinho só seu.
- Ah! - era o tom de desagrado de Magnólia.
Titio lhe contou que vou morar nos fundos, né?
Vou dividir parede com a empregada.
- Não é bem assim - protestou Fabiano.
- Como não? - rebateu Magnólia, com rancor.
- Seu tio quer que tenha privacidade.
Está reformando a edícula.
É um bom espaço.
Lembro que costumávamos brincar ali.
- Para brincar servia.
Não para morar.
- É por pouco tempo - Fabiano salientou e piscou para Isabel.
- Tudo vai se ajeitar, amiga.
Confie na vida.
- Confiar? - Magnólia desdenhou.
Não se pode confiar em ninguém.
As pessoas não prestam.
O mundo é horrível - retrucou e subiu as escadas num pulo.
- Desculpe-me, Isabel.
Mais tarde vou conversar com Magnólia.
Ela não pode ter atitudes grosseiras.
Não disse que ela não tem modos?
- O senhor se importa se eu subir?
- Acha que vai adiantar?
- Sim. Eu conheço Magnólia.
Ela vai se abrir comigo.
- Sinta-se à vontade - Fabiano fez um sinal com a mão e Isabel subiu.
Ele voltou para a poltrona e continuou a tomar seu chá.
O passado veio com força.
- Tudo seria diferente se eu...
Ele não terminou a frase.
Deixou uma lágrima escapar pelo canto do olho.
Apanhou um exemplar de Selecções e tentou concentrar-se na leitura.
Isabel bateu na porta e entrou.
- Magnólia, você não está bem.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 8:37 pm

- Não. Não estou.
Isabel aproximou-se e acomodou-se na cama, ao lado da amiga.
- O que foi?
- Nada, não.
- Você está vermelha.
Parece que está queimando.
Está com febre?
- Não. Estou com ódio.
- De quem?
- Não quero discorrer sobre assuntos desagradáveis.
- Eu e Paulo estamos preocupados.
Por que sumiu?
- Estou trabalhando.
- Não é desculpa.
Poderia sair do trabalho e dar um oizinho para mim.
- Não estava acostumada com esta rotina.
Estou cansada.
Isabel passou delicadamente a mão sobre o ombro da amiga.
- Magnólia, preciso lhe contar uma novidade.
- Foi promovida?
- Ainda não.
Mas em breve serei, tenho certeza.
- Compraram outra casa e vão se mudar?
- Também não.
- Então não tem novidades - redarguiu, num tom seco.
- Eu a conheço.
É como se fosse uma irmã querida.
Você não está bem.
- Estou óptima - desconversou.
Conte a novidade.
Isabel estufou o peito e anunciou com satisfação:
- Estou grávida!
- Como?!
- Grávida.
Estou esperando um filho.
Descobri faz alguns dias, queria lhe contar e...
Magnólia nada disse.
Começou a chorar e logo o pranto corria solto.
Seu corpo sacolejava de quando em vez, entrecortado por soluços.
- O que foi?
Por que ficou desse jeito?
- Nada - Magnólia conseguiu balbuciar.
- Eu lhe trago uma notícia incrível e você se acaba em prantos?
Não entendi.
- Parabéns.
- Dessa forma?
De jeito nenhum.
Magnólia levantou-se e foi até o banheiro.
Assoou o nariz, lavou o rosto e voltou ao quarto.
Encostou a porta.
Isabel estava em pé.
Magnólia a abraçou com força.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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