O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 13, 2016 8:33 pm

- 23 -

Geralmente, aos domingos, Lena almoçava na casa de Isabel e Paulo, e passava o resto da tarde na companhia das meninas.
Tinha afeição especial por Paloma.
Em um desses domingos, enquanto tirava a mesa, Isabel observou:
- Você tem carinho especial por Paloma. Eu já notei.
- É. Como se fosse minha filha.
- Ou uma irmã.
- Não, Isabel.
Nutro por Paloma um sentimento maternal.
Eu gosto muito de Juliana, mas o sentimento por Paloma é diferente.
Há uma sintonia fina entre nós duas.
E, de mais a mais, eu também sinto necessidade de protegê-la.
- Paloma sabe se virar muito bem - considerou Isabel.
É uma menina avançada, liberal, muito dona de si.
- Nem tanto. É insegura em relação ao que vai em seu coração.
Por isso mete os pés pelas mãos.
Até o dia que der o braço a torcer e perder o medo de amar.
- Medo?
Lena não respondeu e prosseguiu:
- Juliana tem lá seus problemas com baixa auto-estima, mas, no fundo, é forte.
Assim que a maioridade chegar, ela vai deslanchar na vida, e você e Paulo vão se orgulhar muito dela.
- Eu já me orgulho.
Ela tem travado uma luta com a balança desde que nasceu.
Às vezes gostaria de colocá-la sob minhas asas e protegê-la para sempre.
Mas sei que a vida não funciona desta forma.
- Não funciona mesmo.
Mas insisto em dizer: não se preocupe com Juliana.
Ela é mais ajuizada que Paloma.
- Acha mesmo? - Isabel falava enquanto começava a lavar a louça.
Paulo apareceu na soleira.
- Querem ajuda?
- Não, meu querido - Isabel falou e beijou-o nos lábios.
Eu e Lena estamos aqui numa boa conversa.
Vá descansar um pouco.
Aproveite para um cochilo.
Ele assentiu e saiu.
Juliana apareceu em seguida e pediu a sobremesa.
- Daqui a pouco - disse Isabel.
- Faz uma hora que você diz daqui a pouco.
Estou cansada de esperar.
Estou com vontade de comer logo esse pudim de leite.
- Tenha calma - interveio Lena.
Logo que terminarmos a louça, serviremos o doce.
Já vou passar o café.
- Quero só o doce.
Dispenso o café.
Lena aproximou-se e falou firme:
- Precisa deixar de se sentir vítima das situações do dia a dia.
Você pode estar em um corpo adolescente, mas seu espírito tem muita idade e tem bastante lucidez.
Aprenda a lidar com seus impulsos e sua ansiedade.
Ainda terá muita coisa boa para viver.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 13, 2016 8:33 pm

- Por que está falando assim comigo?
- Porque você se deixa levar pela emoção do momento.
Não para, não se interessa em reflectir e sentir.
Será que está mesmo com vontade de comer o pudim?
Agora? Não seria mais prazeroso aguardar para logo mais, quando poderemos sentar todas juntas?
- Não tenho o que fazer.
Passei por todos os canais da tevê.
Não tem nada que preste.
Não gosto de programa de calouros.
- Vá ler - replicou Isabel.
Você sempre gostou de ler.
- Ou vá escrever uma carta - observou Lena.
- Uma carta? O que é?
Estamos no século 19?
Juliana riu.
- Você pode escrever a carta a caneta ou por meio do computador.
- E vou escrever o quê?
- Coloque nela tudo o que sente pelo neto do estrangeiro.
- Neto do estrangeiro? - Juliana não entendeu.
- Estou falando de Erik, o moço da escola.
Juliana sentiu as faces arderem.
O rubor apareceu imediatamente.
- Não sei do que está falando - desconversou.
- Do rapaz por quem nutre sentimentos genuínos de amor.
- Ora, Lena. De onde tirou essa ideia...
Lena a cortou com amabilidade.
- Você gosta desse rapaz.
Ele também gosta de você.
Escreva uma carta e declare-se.
- Ora...
- Ora, nada. Aproveite.
Vocês ainda terão uma bela vida juntos, obviamente, se você der o primeiro passo.
Vá e escreva.
Juliana respirou fundo e girou nos calcanhares.
Subiu até o quarto e ligou o computador.
Paloma se preparava para sair.
- O que vai fazer? - perguntou Paloma, enquanto terminava de secar os cabelos.
- Escrever uma carta.
- Para quem?
- Lena sugeriu que eu colocasse tudo o que sinto por
Erik em uma carta.
- Óptima ideia.
- Mas ele deveria vir até mim.
- Ele não veio.
Pode ser que seja reservado.
- Ou não goste de mim.
Afinal, tudo pode ser fantasia da minha cabeça.
- Não é, Juliana. Imagine.
Erik gosta de você.
- Será?
- Por que alimentar a dúvida?
Melhor escrever e entregar a carta a ele.
Semana que vem será nosso baile de formatura.
Depois sabe lá deus quando você terá nova oportunidade de reencontrá-lo.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 13, 2016 8:34 pm

- Sinto medo.
- Medo de quê?
De ser rejeitada?
- Hum, hum.
Paloma desligou o secador.
Sentou-se na beirada da cama, próximo de Juliana.
Tomou-lhe as mãos.
- Irmã querida, por que alimenta tanto esse sentimento de rejeição?
Você é bonita, inteligente e tem óptimo senso de humor.
Por que se deixa levar pelas convenções do mundo?
- Não sei. Fico com medo de ouvir um não.
- Na sua cabeça esse não já existe.
Você já sabe qual é a sensação.
Por que não arrisca escutar um sim?
Deixe de ser boba e vá atrás da sua felicidade.
Não é você quem diz que Erik é o homem da sua vida?
- Sim.
- Pois então. Vá atrás dele.
- Você e Lena têm razão.
E também conseguem me ajudar a restaurar a paz.
Não sei o que seria de mim sem vocês.
- Amamos você.
Paloma a beijou na fronte.
Levantou-se.
- Vai sair com o Caíque?
- Não. Conheci um amigo dele que está no segundo ano de engenharia.
Acredita? Tem vinte anos!
- Olha lá o que vai fazer.
- Deixe comigo, maninha.
Sei me virar.
Despediram-se e, enquanto Juliana se concentrava para transformar em palavras o que sentia por Erik, Paloma desceu.
Passou pela sala, beijou o pai e foi até a cozinha.
- Oi, meninas!
- Filha, você vai sair?
- Sim. Marquei de ir ao cinema.
Até as oito estou de volta.
Ela beijou Isabel e abraçou Lena.
- Pena que você só possa vir aqui aos domingos.
Por mim, veria você todos os dias.
- Eu sei - Lena a beijou na bochecha.
Mas estou quase acabando meu curso.
Logo a gente vai poder se ver mais.
- Qual nada.
Você vai se formar e vai embora para a Espanha.
- Você pode me visitar!
- É verdade. Será o máximo ter uma amiga morando no exterior.
Na Espanha! É muito chique.
Lena sorriu e depois disse, séria:
- Escute mais seu coração.
Não se envolva emocionalmente por impulso.
Ainda poderá se meter em grande enrascada.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 13, 2016 8:34 pm

- Eu?! Enrascada?
Imagine, Lena!
Eu sei me virar muito bem.
- Não confie tanto nisso.
Eu gosto muito de você e não quero vê-la sofrer.
- Eu nunca vou sofrer.
Ou entrar em apuros. Pode acreditar.
Paloma a beijou, apanhou a bolsa sobre a mesinha da sala e saiu.
Lena moveu a cabeça para os lados.
- Eu me preocupo com Paloma.
- Não deveria.
Ela sabe se virar.
É uma menina esperta.
- Não sei. Algo me diz que ela...
- Que ela? - Isabel interessou-se.
- Nada. Vou arrumar a mesa para servir a sobremesa.
Lena desconversou e Isabel permaneceu calada.
Mas sentiu algo estranho, o peito oprimido.
Passou a mão pelo ar como a empurrar aquela sensação desagradável para longe.
Erik acabou de treinar e correu para o vestiário.
Tomou banho, vestiu uma bermuda e uma camiseta, calçou as sandálias e ajeitou a mochila nas costas.
Foi até o restaurante do clube.
Avistou sua mãe sentada num canto, conversando com outra mulher.
A conversa parecia estar animada.
Ele se aproximou e Teresa levantou-se.
- Olá, meu filho - cumprimentou.
Conhece a Glória?
Ele estendeu a mão e Glória sorriu.
- Como vai? Sou a mãe de Eduarda.
Ele esboçou um "ah" e sentou-se.
Glória percebeu o muxoxo e Teresa tentou quebrar o gelo.
- Eduarda nos convidou para sentarmos juntos na noite do baile.
- Foi ideia minha - disse Glória.
Teresa viu a cara do filho e desconversou:
- Erik está nadando bastante.
Vai participar do campeonato estadual.
É um bom nadador.
- Poderá competir pelo mundo - opinou Glória.
- Não sou de competir.
Participo de algumas maratonas por gosto, mais para praticar e manter a forma.
- Nos dias de hoje, um atleta com patrocínio pode ganhar muito dinheiro.
- Patrocínio? Não me interessa.
- Erik decidiu estudar medicina.
Quer ser obstetra - emendou Teresa.
- Bela profissão - admirou-se Glória.
Trazer crianças ao mundo é um acto nobre.
- Eu gosto - ele completou, seco.
- Mas para que se esforçar tanto se vai receber uma gorda herança?
- Gorda herança? - espantou-se Teresa.
Que gorda herança?
Glória remexeu-se na cadeira e forçou o sorriso:
- O clube inteiro não comenta outra coisa - falou baixinho.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 13, 2016 8:34 pm

- Posso saber do que se trata? - perguntou Erik, já não simpatizando com Glória.
- Dizem que seu avô deixou uma grande fortuna para você.
Glória queria certificar-se de que a herança de Erik era tão grande ou maior do que escutara.
Erik começou a rir.
- O que foi?
Eu disse algo inapropriado? - perguntou Glória, surpresa com a reacção.
- Não é nada - comentou Teresa, também rindo.
É que inventaram essa lenda de que Erik teria uma fortuna para receber.
- E não tem?
- Ora, Glória, uma casa no valor de cem mil dólares não é propriamente uma fortuna, é?
Ela deu um sorriso amarelo.
- É. Cem mil dólares não é lá tanta coisa.
- Pois é - rebateu Erik.
Essa é a fortuna que eu vou receber quando completar vinte e cinco anos.
Glória continuou forçando o sorriso.
Consultou o relógio e fingiu:
- Meu Deus!
Esqueci que tenho uma drenagem linfática daqui a quinze minutos.
Preciso me preparar.
Ela se levantou rápido e acenou para mãe e filho.
Colocou os óculos escuros, apanhou a bolsa e saiu.
- Nós nos vemos no baile - ajuntou Teresa.
Assim que Glória afastou-se da mesa, Erik meneou a cabeça:
- Mãe! Você é impossível.
- Eu?! - Teresa riu.
Conheço essas caçadoras de dotes.
- Glória não é propriamente uma caçadora de dotes.
Acho que já passou da idade, mesmo com tamanha beleza.
- Não falo dela, mas da filha dela.
A Eduarda.
- O que tem?
- Antes de você chegar, Glória não falava outra coisa a não ser elencar os atributos da filha maravilhosa.
Fiquei aliviada quando o vi se aproximar da mesa.
- E adorou contar lorota para ela, não?
Eu vi seus olhos brilhando de contentamento.
- Eu quero esse tipo de gente longe de nós.
Seu pai morreu e eu preciso assegurar que você tenha um futuro tranquilo.
- Vou ter. Vou me formar médico e terei uma vida digna.
- E - ela baixou o tom de voz - uma poupança de cinco milhões de euros para emergências.
Ele riu e ela continuou:
- Não quero nenhuma embusteira na sua cola.
Isso eu não vou permitir, jamais.
- Tem razão, mãe. Agora entendi.
A Glória vai espalhar para todo mundo que eu sou um pé-rapado.
- Que o mundo tenha essa ideia a seu respeito! Siga seu sonho.
Forme-se e crie a instituição que sempre desejou, sem burocracia, sem depender dos governos.
Construa parcerias e ajude mulheres carentes a ter seus filhos, ajude outras a ter noção do que seja controle de natalidade.
Faça a sua parte e ajude a construir um mundo melhor.
- Obrigado pelo apoio, mãe.
- Eu sempre vou apoiá-lo, meu filho.
Em tudo que precisar.
- Mas quanto a Eduarda...
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 13, 2016 8:34 pm

- Pode ter certeza de que Eduarda não vai mais importuná-lo.
- Será? Esqueceu-se do baile?
Estaremos todos juntos.
- Pode apostar que ela vai ligar para você hoje à noite inventando que uns parentes apareceram de última hora e ela precisa de mais lugares na mesa.
Quer apostar quanto?
- Eu, apostar com você?
Nunca! Sua intuição é afiadíssima.
Os dois riram.
O garção aproximou-se e fizeram os pedidos.
Enquanto Erik bebericava um copo de suco, Teresa perguntou:
- E como vai a paquera com aquela garota da sua classe?
- Que garota? - ele desconversou.
- A que sofre por ser gordinha.
- Juliana, mãe. E ela não é gorda.
Tem formas diferentes das estabelecidas pela sociedade.
É linda como as telas dos mestres da pintura.
Teresa sorriu.
- Você gosta mesmo dela, não?
- Gosto.
- Não acha que está na hora de se declarar?
- Você sabe, mãe. Sou tímido.
- Se os seus sentimentos são verdadeiros, eles devem ser mais fortes que sua timidez.
Vença-a e declare seu amor a essa menina.
Não perca tempo. Na vida, o que importa é o amor.
- Tem razão, mãe.
Eu vou tomar coragem e vou conversar com ela no dia do baile.
- Isso mesmo. Tem o meu apoio.
A comida chegou e os pratos foram servidos.
Entre uma garfada e outra, mãe e filho riam e trocavam confidências.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 13, 2016 8:34 pm

- 24 -

Glória trocou o horário da drenagem para mais tarde.
Precisava encontrar Eduarda de qualquer maneira.
As palavras de Teresa ainda ecoavam em sua mente:
"Ora, Glória, uma casa no valor de cem mil dólares não é propriamente uma fortuna, é?".
- Não pode ser!
A Mirtes é a maior fofoqueira que existe na face do planeta e me jurou de pés juntos que esse menino espinhudo iria receber milhões de euros.
Mas ouvi o contrário. E directo da fonte.
Ah, a Mirtes me paga!
Glória jogou o carro nas mãos do manobrista do prédio e subiu pelo elevador batendo o salto.
Entrou na cobertura e foi até o quarto de Eduarda.
A menina estava deitada, assistindo a um filme na tevê.
- Pare agora! - sentenciou Glória.
- O filme está quase acabando, mãe.
Depois a gente conversa.
- Precisamos conversar agora, neste momento.
Eduarda levantou-se de má vontade.
- O que foi?
- Esqueça o sueco espinhudo.
- Hã?
- Esqueça o menino da escola, aquele sueco.
De uma vez por todas.
- O Erik?
- Esse mesmo.
- Como, mãe? Você me obrigou a convidá-lo.
Ele e a mãe vão estar connosco no baile.
- Sim, eu sei.
Mas houve mudança definitiva de planos.
Eduarda abaixou o som da televisão.
Mexeu a cabeça para os lados.
- O que aconteceu?
Conseguiu descobrir quantos milhões de euros?
- Que milhões de euros que nada!
Acabei de vir do clube. Não lhe disse para aguardar?
Eu bem que estava desconfiada de que tudo era mentira.
Joguei um verde sobre a Teresa para confirmar os boatos de Mirtes.
- E daí?
- E daí, minha filha?
E daí que o sueco vai herdar uma casinha de cem mil dólares.
Cem mil dólares, Eduarda!
Está me escutando? - Glória alteou a voz.
Deve ser um iglu.
- Cem mil dólares não é nada.
- Isso mesmo. É nada de nada.
Minha filha - Glória sacudia a cabeça para os lados -, estávamos apostando em cavalo morto.
- Mas não vai ter como mudarmos a mesa do baile.
Está em cima da hora.
- Não. De maneira alguma.
Você vai ligar hoje à noite e vai... vai... - Glória pensou e deu um gritinho:
- Vai ligar para o sueco e dizer que seus tios de Bauru fazem questão de vir ao baile.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 13, 2016 8:35 pm

- Que tios de Bauru?
Eu não tenho tios.
- Filha! Estamos criando uma historinha.
Vamos inventar, nem que eu tenha de contratar um casal para se passar por tios, com sotaque do interior e tudo.
Teresa e Erik não vão mais se sentar à nossa mesa.
- Está bem. Eu ligo.
- Fiquei sabendo que o filho do Lindomar Gouveia está solteiro.
- Deus me livre, mãe.
Quer me empurrar para o Rubens?
Ele já foi casado três vezes.
- Mas é podre de rico.
Só se envolveu com mulheres mais velhas.
Você é linda e jovem.
Precisa aproveitar enquanto pode.
- Você tem dinheiro.
Papai deposita uma quantia astronómica na sua conta.
- Disse bem: minha conta. Eu me dei bem.
Você precisa seguir o mesmo caminho.
O dinheiro do seu pai é bem generoso, mas não mantém o nosso padrão no longo prazo.
Eduarda deu de ombros.
- Então, está bem.
Depois me passa a ficha completa do Rubens.
- Agora pode deixar o espinhudo ficar com a gorda.
- Eles se merecem mesmo.
- E nem precisa mais aprontar com a menina. Foco, filhinha. Foco na família Gouveia.
Eduarda a cortou:
- Imagine! Erik pode se casar com a orca, se quiser.
Mas eu preciso deixar Juliana com saudades de mim.
Essa brincadeira eu levarei até o dia do baile.
- Você é impossível, filha!
Pena não ser tão maravilhosa como eu.
Mas fazer o quê?
Não nascem duas Glórias iguais e maravilhosas. Só uma.
Eduarda não respondeu.
Os olhos embaciaram e ela abaixou o rosto, desiludida e triste.
Muito triste.
Naquela noite, conforme o previsto por Teresa, Eduarda ligou para Erik, fez uma voz chorosa e disse que um casal de tios do interior, padrinhos dela, ligou na última hora e fazia questão de estar no baile.
- Não podem ir só à colação de grau?
Acho que a colação é mais importante, não?
- Hello-o! Erik, são meus padrinhos!
A gente se forma no colegial uma vez só na vida.
Puxa! Seja compreensivo.
- E vou me sentar aonde?
As mesas já estão tomadas.
- Sinto muito.
Ela falou e desligou.
Em seguida, Eduarda ligou para Bruna.
Contou sobre a merreca que Erik iria herdar, e que ele e Juliana estavam livres para ficar juntos.
E concluiu:
- Afinal, eles se merecem.
O porco-espinho e a baleia.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 13, 2016 8:35 pm

Eduarda riu, Bruna não.
- Hello-o! Não gostou da piada?
- Estou cansada.
Estou estudando muito para o vestibular.
- Faça como eu.
Vá para uma faculdade que não precise de vestibular.
- Quero entrar em uma universidade pública.
Não quero mais ser um peso para os meus pais.
Do outro lado da linha, Eduarda deu de ombros.
- Quarta-feira, passarei na sua casa para pegar a câmara.
- Tudo bem. Tem certeza de que é isso que quer fazer?
- É. Tenho. Por quê?
Está amarelando, fofa?
- Não. Mas será que tem necessidade?
Você não está mais interessada no Erik.
Deixe ele e Juliana em paz.
- E perder o momento Carrie, a estranha? Nunca.
Eu quero me divertir. Só isso.
Na verdade, Eduarda precisava extravasar o sentimento de baixa auto-estima que sua mãe lhe despejava de hora em hora.
Caso contrário, enlouqueceria.
- Tripudiando sobre o sentimento dos outros? - perguntou Bruna, sentida.
- Ultimamente você tem estado muito chata.
Cansei de conversar com você.
Até quarta-feira. Tchau.
Eduarda falou e desligou o telefone.
Bruna mordiscou os lábios, apreensiva.
- Não acho legal o que Eduarda tenciona fazer.
Ouviu-se uma voz logo atrás:
- Falando sozinha?
- Oi, Marcos.
O irmão de Bruna entrou no quarto e sentou-se na beirada da cama.
- O que se passa?
- Eu fiz um trabalho sujo.
- Trabalho sujo? Você?
- É.
- Não acredito.
- É verdade, Marcos.
Tudo começou como uma brincadeira... de mau gosto, diga-se de passagem.
Mas daí eu me afeiçoei à Juliana.
- A sua amiga gorda?
- Não fale assim dela.
- Mas ela é gorda.
É uma maneira de me referir à pessoa.
A gente costuma dizer: atrás do careca, ao lado do baixinho, na frente do grandão...
- Formas nada elegantes.
- Você ficou amiga da menina. De verdade.
- Sim. Aprendi em poucas semanas que ela, sim, é uma amiga de verdade.
A Eduarda não é minha amiga.
- Mas é gostosa.
- Marcos! Que modos!
- Ih! Qual é?
A Eduarda é o maior mulherão.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 13, 2016 8:35 pm

Eu daria tudo para passar um tempo com ela.
Mas ela não me dá trela.
Eu sou bem-apessoado, mas ela curte homens com muita grana no bolso.
E grana, definitivamente, a gente não tem.
- Ela pediu para eu fazer uma coisa... - Bruna hesitou.
Não sei se posso ir adiante.
- Do que se trata?
- Nada.
- Como nada?
Não confia no seu irmão?
- Oh, Marcos, eu gravei algumas cenas da Juliana - revelou, aturdida.
- Cenas, como cenas?
- Momentos de intimidade.
Eu a filmei no banho, trocando de roupa, fazendo careta... coisas de meninas.
Ela nem desconfia que eu fazia isso só para deleite da Eduarda.
Uma vingança boba.
- E agora você desistiu.
- Sim. Aprendi o verdadeiro valor da amizade.
Não quero magoar a Juliana.
Não posso fazer para ela o que não gostaria que fizessem para mim.
- Então não entregue o filme. Apague.
- É. Tem razão.
Mas é uma filmadora antiga, não sei como proceder.
- Conheço esses aparelhos.
Se quiser, eu apago para você.
- Faria isso?
Eu não quero mais saber de machucar ninguém.
Vou entrar em uma boa faculdade, formar-me e ter uma vida digna.
Não quero mais tripudiar sobre os sentimentos de ninguém.
- Está certa.
Onde guardou a câmara?
- Ali no armário - apontou.
- Vá se distrair.
Deixe que eu apago isso para você.
- Eu apago. Tem situações comprometedoras.
- Eu não sou de bisbilhotar.
Rebobino a fita e apago tudo.
- E quanto a Eduarda?
- Eu falo com ela. Pode deixar.
- Obrigada. Não me sinto confortável em confrontá-la.
Bruna beijou o irmão e saiu do quarto.
Marcos apanhou a câmara e ligou.
Divertiu-se com as imagens.
Em seguida, procurou uma fita semelhante e a encontrou nos pertences do outro irmão, que sempre comprava fitas de vídeo para gravar programas da tevê.
Estava lacrada. Marcos sorriu, matreiro.
Pegou a outra fita e introduziu no aparelho.
- Pronto. Maninha vai achar que fiz uma boa acção.
Ele riu, saiu do quarto e desceu.
Pegou o telefone e ligou para Eduarda.
- Quem fala?
- Marcos, irmão de Bruna.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 8:24 pm

- Oi, fofo. O que foi?
- Bruna quer apagar as gravações.
- Nunca! Nem morta.
- Ela me pediu encarecidamente que apagasse todo o conteúdo gravado.
- Obviamente, você não apagou!
- Não. De forma alguma.
- Ainda bem. Quanto quer pela fita?
- Você.
- Não entendi, Marcos.
- Quero você, gostosa.
Você vai se deitar comigo. Só uma vez.
- Que garantia tenho de que você vai me entregar a fita gravada?
- Confie em mim.
Eu não sou rico, mas sou homem de palavra.
E tenho uma boa pegada.
Eduarda estremeceu do outro lado da linha.
- Está certo. Na quarta-feira...
Marcos a cortou com docilidade.
- Nada. Você vai sair comigo agora.
Estou excitado.
- Agora não.
Eu tenho compromisso.
- Desmarque, ou então não vai ter vingançazinha na noite do baile.
Passo na sua casa daqui a uma hora.
- Na minha casa não.
- Não vamos fazer nada na sua casa.
Você vai me levar a um motel chique, cinco estrelas.
Nunca tive grana para entrar em um.
Pego você na esquina.
Eduarda bufou e consentiu. O que fazer?
Marcos estava com o curinga da canastra nas mãos.
Não podia deixar de tripudiar, pela última vez, sobre Juliana e tirar um pouco do sentimento ruim que Glória despejava sobre seus ombros.
Desligou o telefone e suspirou, contrafeita.
- Marcos é um pobretão, mas é bonito.
O que fazer? Paciência.
Vou ter de andar num carro velho.
O que não faço por uma vingança!
Ela tomou um banho demorado, perfumou-se e colocou um vestido florido.
Apanhou a bolsa e desceu até a portaria.
Ao sair e dobrar a esquina, avistou Marcos parado dentro do carro.
Acelerou o passo, entrou e pediu a fita.
- Depois.
- Não. Você vai colocar a fita na câmara para eu saber se não está blefando.
- Está certo.
Ele meteu a mão no bolso da calça e pegou a fita.
Introduziu na câmara e, quando as cenas surgiram, ela riu.
Riu muito.
- O filme devia se chamar A orca em acção - ela disse e gargalhou.
Marcos tirou a fita da câmara e a colocou novamente dentro do bolso da calça.
- Como vê, estou com o seu objecto de desejo. Agora vamos ao nosso trato.
- Como queira.
O rapaz acelerou e seguiram até a marginal do Tietê.
Marcos indicara um motel famoso, cuja propaganda ele vira em uma revista erótica, algo como "lugar de sacanagem não é só no Congresso".
- Hoje eu terei uma das melhores noites da minha vida - sussurrou entre dentes, feliz da vida.
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Ave sem Ninho

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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 8:24 pm

- 25 -

Magnólia levantou mal-humorada naquela manhã.
Havia tido pesadelos a noite inteira.
Desceu para o café.
Gina cumprimentou-a:
- Bom dia!
Magnólia resmungou:
- Só se for para você.
Tive uma noite péssima.
- Caiu da cama?
- Antes tivesse caído.
Não acabei de dizer que tive uma noite péssima?
- Pesadelos? Não notei.
- Você dorme a sono solto.
Se eu tiver um derrame, morro.
Porque se for esperá-la acordar...
- Acabei de passar o café. Sente-se.
Magnólia bufou e sentou-se à mesa.
Apanhou um pedaço de pão e passou manteiga de qualquer jeito.
Serviu-se de café com leite.
- Não sei explicar.
Primeiro sonhei com tio Fabiano.
- Faz tempo que você não sonha com ele.
Tenho certeza de que está bem.
- Se está bem, eu não sei.
Os mortos não costumam falar comigo - disse, num tom irónico.
Gina colocou um bolo de laranja sobre a mesa.
Ajeitou-o sobre uma boieira de porcelana.
- Sei. Os mortos não falam com você.
E que mais?
- Depois eu queria falar com ele, mas umas figuras estranhas e bizarras me impediam de chegar até ele.
- Devem ser suas formas-pensamento negativas - interveio Lena, que acabava de entrar na cozinha.
- A senhorita não foi chamada para participar da conversa! - protestou Magnólia.
- Que falta de educação!
Está ficando velha e mal-educada - replicou Gina.
- Eu não me incomodo - tornou Lena, alegre.
Conheço Magnólia e não levo suas rabugices para o lado pessoal.
- Não sou rabugenta.
Sou uma pessoa céptica, descrente de tudo.
- Por quê? - perguntou Lena, sempre solícita e interessada, ignorando que todos os dias Magnólia falava a mesma coisa.
- Não está atrasada para a faculdade? - questionou Magnólia, mastigando o pedaço de pão com manteiga.
- Você acordou cedo demais.
Estou no meu horário ainda - respondeu Lena, consultando o relógio.
- Voltando às formas...
- Formas-pensamento - completou Lena.
São os pensamentos que você produz e ficam à sua volta.
Tudo o que você pensa cria forma, seja pensamento positivo ou negativo.
Você carrega muitas formas-pensamento negativas.
Precisa mudar sua maneira de enxergar a vida.
- Fala isso todo dia.
- Porque você faz a mesma reclamação todos os dias.
A resposta é sempre a mesma, querida.
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Ave sem Ninho

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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 8:24 pm

- Sente-se, Lena.
A Custódia fez esse bolo de laranja especialmente para você.
- Custódia nunca fez um bolo para mim, acredita? - disse Magnólia, irritada.
E olha que eu pago o salário dela.
Ingrata, isso sim.
Lena sorriu e cortou um pedaço do bolo.
Serviu-se de café com leite.
- Hum! Está delicioso.
Custódia cozinha muito bem.
- Como mudar? - Magnólia alteou a voz, dramática.
Eu tive uma vida muito dura.
Sofri com a falta dos meus pais, com as minhas escolhas afectivas.
Engravidei e tive de criar um filho sozinha.
- Eu sempre estive do seu lado - observou Gina.
- Mas não conta.
Quem sofreu na hora de dar à luz fui eu.
Quem teve de enfrentar a ira de tio Fabiano fui eu.
Você chegou depois.
- Tudo o que aconteceu na sua vida foi para o seu melhor - acrescentou Lena.
- Essa é boa!
Não posso imaginar como uma vida triste e sem graça poderia promover o meu melhor.
- Simples, Magnólia.
Você sempre foi um espírito rebelde e impulsivo.
Sempre quis tudo do seu jeito, à sua maneira.
Por vidas a fio teve dificuldades de escutar e aceitar um não como resposta.
Sempre foi adepta da violência, do olho por olho, de devolver na mesma moeda.
- É assim que sobrevivemos nesta selva chamada Terra - retorquiu Magnólia.
Para mim "dente por dente, olho por olho" faz todo o sentido.
Quem mata deve morrer.
Estou farta de assistir aos programas na tevê que mostram tanta desgraça, violência e crueldade.
Se Deus existisse, de facto, nada disso aconteceria.
- Engana-se, Magnólia. Deus é bom e justo.
Se permite a dor e o sofrimento em nossa vida, é porque ajudam a abrir nossos olhos para perceber certas coisas, sensibilizar nossa alma, amadurecer nosso espírito.
- E eu já a avisei para deixar de assistir a esses programas.
Eles só fazem mal - lembrou Gina.
- E o que quer que eu faça?
Arranque os fios da antena?
- Não. Assista a outros programas que alimentem seu espírito, que lhe dêem prazer.
Ou leia um livro.
- Não gosto.
- Não esquente, Lena.
Estamos juntas há muitos anos.
Estou acostumada com esse baixo astral.
- Você merece um prémio, Gina! - gracejou Lena.
- Vão brincando, vão tripudiando - condenou Magnólia.
Quero ver vocês estarem inteiras como eu e suportar tantas obrigações.
- Por acaso gostaria de ter uma vida diferente? - perguntou Lena.
- Diferente como?
- Diferente, Magnólia.
Se pudesse escolher agora, voltar à sua juventude, o que escolheria?
- Ah, eu não teria gosto por mulheres e jamais teria um filho.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 8:24 pm

Fernando entrou na cozinha naquele instante.
Ficou parado, sem acção.
Lena levantou-se da mesa e o abraçou:
- Bom dia, querido, como vai?
Gina fez o mesmo.
Levantou-se e o cumprimentou de maneira efusiva, procurando ocultar o constrangimento.
- Dormiu bem, querido?
Ele não respondeu.
Aproximou-se de Magnólia e a encarou:
- Quer dizer que sua vida seria melhor se eu não tivesse nascido?
- Não é bem assim... - ela tentou se justificar.
- Eu sou um fardo em sua vida, certo?
- Não!
- Quem é meu pai?
- Que pergunta mais disparatada!
- Se me odeia tanto assim, se nunca quis me ter, ao menos me dê uma pista de quem foi meu pai.
De repente ele pode me aceitar.
- Não! Jamais vou revelar a identidade do seu pai.
- De que tem medo?
- De nada, filho.
Sente-se. Tome seu café.
Fernando estava com o rosto avermelhado, coberto de indignação.
Era a primeira vez que Gina e Lena o viam nesse estado.
- Sua mãe falou por falar - amenizou Lena.
- Sei. Eu sou um fardo na sua vida, não?
- Não é bem assim.
- Está bem.
Vou prestar vestibular em uma universidade pública no interior, bem longe daqui, e não vou mais depender de você.
Nunca mais.
Não quero continuar sendo o peso que a atormenta.
- Não foi isso que quis dizer, filho.
- Como não? Eu ouvi.
Você disse que, se pudesse voltar no tempo, jamais teria um filho.
E você deve odiar meu pai.
Toda vez que me olha, lembra-se dele, não é?
Magnólia não teve tempo de responder.
Fernando girou nos calcanhares, apanhou a mochila e saiu.
Gina a repreendeu com o olhar.
- O que foi? - tentou justificar-se Magnólia.
Eu não tenho culpa.
Não falei por mal.
- Mas feriu seu filho - disparou Gina.
Você não tem sentimentos.
É mesquinha, só fala porcarias e pensa porcarias.
Não sei como a estou aturando até agora. Quer saber?
- O quê? - a voz de Magnólia era quase inaudível.
- Cansei de suas lamúrias.
Se Fernando for para o interior, eu vou apoiá-lo.
Seria o momento ideal para Magnólia reflectir e pedir desculpas.
Mas não. Ela usou de toda sua agressividade e negatividade:
- Pois bem.
Quero ver como ele vai se sustentar sem o meu dinheiro - enfatizou.
Vai voltar correndo para casa em menos de uma semana.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 8:25 pm

- Você passou dos limites.
- Olha quem fala!
Não se esqueça de que também banco você.
Gina meneou a cabeça negativamente.
- Eu nunca precisei do seu dinheiro.
Recebo o aluguer do meu apartamento e tenho umas economias no banco.
Também tenho dois braços e duas pernas, além de uma cabeça que pensa, de maneira positiva, diga-se de passagem.
Eu sempre trabalhei.
Nunca tive medo do trabalho, coisa que você nunca fez na vida - e, virando-se para Lena:
- Desculpe-me. Eu me excedi.
Vou me arrumar e sair um pouco.
O ar desta casa está muito carregado.
Gina bufou e deixou uma lágrima escapar pelo canto do olho.
- Eu não disse nada de mais - tentou justificar-se Magnólia.
Eu crio um filho, dou casa, comida e carinho, e olha como ele me trata.
Não mereço.
Lena levantou-se e apanhou sua bolsa e os livros da faculdade.
- Cada um escolhe o caminho que deseja seguir.
Quem prefere a dor, o sofrimento, a revolta ou a mágoa, não reage, por isso torna-se vulnerável à energia doentia de espíritos com os quais se afiniza.
Deu para perceber qual caminho você escolheu.
Tenha um óptimo dia.
Lena falou e saiu.
Magnólia ficou sentada à mesa, terminando seu café.
- Eles não me entendem.
Não sabem o que é ter uma vida triste. Eu sei...
Fernando chegou à escola.
O ano lectivo havia terminado e ele aproveitava o tempo para dar aulas de reforço de matemática para alunos em recuperação da sua série e das anteriores.
Ganhava algum dinheiro e colocava na poupança.
- Vou pegar o pouco que tenho e me mudar daqui.
Nunca mais vou depender da minha mãe. Nunca mais.
Ele estava muito triste.
Arrasado, para dizer a verdade.
Ouvir a mãe dizer que, se pudesse voltar no tempo, jamais teria um filho atingira-o em cheio o coração.
E ainda havia o mistério sobre o pai.
Ele cresceu sem se interessar, porquanto Magnólia não conversava sobre isso.
Ele era feliz assim.
Mas, se ela não queria revelar a identidade do pai, boa coisa o homem não era.
Deve ter magoado muito sua mãe para ela evitar contacto.
Tudo isso ia e voltava na sua cabeça.
Fernando adorava Magnólia e nunca supôs que ela o visse como um peso.
- Mas o peso vai embora, logo - disse baixinho, enquanto dobrava o corredor.
Ele estava de cabeça baixa e esbarrou em Paloma, que tinha ido até lá para doar os livros escolares para a biblioteca.
No esbarrão, os livros que ela segurava caíram no chão.
- Desculpe, Paloma.
Não a vi.
- Tudo bem - ela respondeu.
Fernando permaneceu quieto e a ajudou a pegar os livros.
- Pronto. Aqui estão.
- Está preparado para a noite do baile? - ela perguntou animada.
Faltam poucos dias!
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 8:25 pm

- Não sei se vou - foi a resposta seca.
Fernando falou e saiu, deixando-a ali parada.
Foi a primeira vez que Paloma sentiu algo diferente, que a incomodou.
- Por que será que me tratou assim? - questionou.
Juliana chegou acompanhada de Bruna.
- Que cara é essa, minha irmã?
- Nada.
- Como nada?
Eu a conheço muito bem.
Está chateada.
- Acabei de cruzar, ou melhor, de dar um encontrão com o Fernando.
- Eu não o vi.
- Ele foi tão seco comigo.
Aconteceu alguma coisa.
- Você perguntou a ele o porquê?
- Não deu tempo.
Fernando sempre me tratou muito bem, com deferência até demais.
Não gostei dessa maneira fria com que me tratou.
- Interessante - Juliana desconfiou.
Será que Fernando significa mais do que um amigo-irmão para você?
- Hã? - Paloma desconversou.
Deixe-me em paz.
Não quero falar sobre isso.
A biblioteca vai fechar.
Preciso correr e entregar os livros.
Quando se afastou, Juliana comentou:
- Paloma gosta de Fernando e ainda não descobriu.
- Você acha? - quis saber Bruna.
- Sim. Eu já desconfiava que Fernando gostava da minha irmã.
Mas nunca havia notado um traço de interesse dela por ele. Hoje notei.
- Eu acho o Fernando uma óptima pessoa.
- Eu também, Bruna.
Gosto muito dele.
Bruna estava aliviada, pois acreditava que a fita da câmara fora apagada.
Nutria sentimento verdadeiro de amizade por Juliana e não queria que essa amizade sofresse qualquer tipo de abalo.
- Sabe, Juliana, eu aprendi nestes poucos meses a valorizar nossa amizade e devo admitir que você é uma boa amiga.
- Obrigada. Eu também gosto muito de você.
Tenho certeza de que nossa amizade vai atravessar gerações - Juliana disse rindo.
- Tomara. Nunca desejei que algo ruim pudesse lhe acontecer.
- Por que está falando assim?
Dessa maneira, fico assustada.
- Não foi nada - Bruna abraçou-a com força.
Eu gosto de você, Juliana.
Desculpe alguma coisa.
- Desculpar o quê?
Você é uma das melhores coisas que me aconteceram!
Sou muito feliz em tê-la como amiga.
Abraçaram-se novamente e entabularam conversa sobre os vestidos que usariam na noite do baile.
Juliana estava feliz. Bruna tentava ficar.
Um sentimento estranho persistia em cutucar seu peito.
"Bobagem", pensou ela, desviando a sensação com um gesto de mão.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 8:25 pm

- 26 -

A sexta-feira chegou.
Dia do baile de formatura.
Fernando acordou tarde, escovou os dentes, trocou-se e desceu.
Desde dias atrás, quando escutara a infeliz frase de Magnólia, evitava conversar com ela.
Magnólia e Gina estavam na cozinha.
Ele beijou Gina na testa.
- Bom dia.
- Olá, querido.
Vai tomar café?
- Rápido - ele respondeu e apanhou a térmica.
Serviu-se de café e comeu uma torrada.
Tenho hora no cabeleireiro.
Conforme sua sugestão, vou cortar os cabelos, fazer as unhas das mãos, ficar apresentável para a festa.
- Não gosto desse tipo de evento - disse Magnólia.
Ele se manteve calado.
Gina indagou:
- E o terno?
- A Custódia passou e já o deitou sobre a cama.
A camisa e a gravata estão lá também.
Tio Paulo lustrou os sapatos.
Preciso passar lá logo mais para pegá-los.
- Eu adoraria ir, mas sua mãe... - Gina apontou - não gosta de ficar sozinha.
E, além do mais, é uma festa para a garotada.
Você vai estar com Isabel, Paulo e as meninas.
- É - ele assentiu, voz lacónica.
Fernando beijou Gina e saiu.
Magnólia disse com desdém:
- Ele nem fala comigo. Filho ingrato.
- Acho que aqui o melhor a dizer é: mãe ingrata.
- Só porque falei uma bobagem?
Serei sacrificada o resto da vida por conta de uma frase solta?
- Uma frase que jamais deveria ter dito.
- Você voltou a falar comigo.
- Porque a conheço faz séculos, Magnólia.
Fico nervosa na hora, mas depois reflicto e não deixo entrar o negativo em mim.
Eu sou uma pessoa da paz, desejo paz e equilíbrio a todos.
Sou uma mulher de fé.
- Fé! Fé em quê?
Em uma vida terrível?
- A fé recupera a harmonia e transforma acontecimentos desagradáveis em óptimo aprendizado, traduzidos em lições proveitosas de amadurecimento.
- Muito bonito o discurso.
Mas será que um dia mudarei meu jeito de ser?
- Depende única e exclusivamente de você.
A mudança precisa vir de dentro, tem de ser uma escolha consciente, de mudar para melhor.
- Pode ser.
Continuaram tomando café e, num determinado momento, Magnólia disse:
- Ele quis saber do pai.
- É natural. Um direito que ele tem.
- Não quero tocar no nome de Jonas.
Não quero que Fernando saiba o monstro que é o pai.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 8:25 pm

- Já disse e repito:
Fernando tem o direito de saber.
Conte tudo.
Magnólia desconversou.
Odiava lembrar-se de Jonas.
- Estou preocupada com Fernando.
- Preocupada com o quê?
- Sei lá. Ele foi ao cabeleireiro.
Não gosto disso.
- Por quê? Não a estou entendendo.
- Tenho medo de ele virar gay.
Gina revirou os olhos e meneou a cabeça.
- Jesus amado!
Primeiro, ninguém vira gay. Já nasce.
É uma escolha feita antes de reencarnar.
E segundo, qual o problema de ele ser gay?
Você também não é?
- É diferente, Gina.
Eu sou mulher.
- E daí?
- Seria um fardo muito pesado de carregar.
Já não suporto ter de lidar com a minha preferência afectiva, imagine ter um filho gay.
Seria a morte.
Gina respirou fundo e sentiu, naquele momento, uma presença espiritual amiga.
Adelaide estava ao seu lado.
Gina sorriu e falou, modulação de voz levemente modificada:
- Chegou o momento de olhar a vida pela óptica da eternidade, ou seja, viver na Terra, mas enxergando com os olhos do espírito.
Tudo é passageiro e transitório.
Enxergar a vida pelo espírito nos fortalece e nos ajuda a passar pelas adversidades e alcançar o equilíbrio, o bem-estar e ter condições de manter uma vida plena e feliz!
Não importa raça, cor, sexo, nada.
Porque, para o espírito, o que importa, sempre, é o amor.
Gina levantou-se e foi para a sala.
Apanhou um livro sobre reencarnação e mergulhou fundo na leitura.
Magnólia, por sua vez, ficou sentada na cozinha, mas sentiu algo diferente.
Uma emoção bateu forte e ela desatou a chorar.
Lembrou-se vagamente da mãe, do pai, da infância feliz.
Depois se lembrou de Fabiano e sentiu saudades.
Adelaide estava ao seu lado e lhe transmitia energias de bem-estar.
- Fique bem, minha querida.
Você precisa encher seu coração de alegria.
Mais nada.
- Ela está com os pensamentos conturbados - afirmou Fabiano.
- Antes de reencarnar, Magnólia estava bem pior.
- Mesmo?
- Sim. Você não se lembra porque voltou ao mundo terreno bem antes.
Ela passou por momentos muito ruins no astral inferior.
Seu espírito estava intoxicado de pensamentos negativos e contaminado por uma profunda baixa auto-estima.
A reencarnação veio como bênção da vida para amenizar e tentar dissipar essa carga de negatividade.
Magnólia só vai mudar quando passar a sentir imenso amor por si mesma.
- Será que isso vai acontecer?
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 8:26 pm

- Um dia, Fabiano. Um dia.
Agora, por favor, ajude-me a dar um passe nela.
Fabiano assentiu e ajudou Adelaide.
Deram um passe energizante em Magnólia e procuraram harmonizar os cómodos, deixando a casa com agradável sensação de bem-estar, livre, por ora, das energias negativas que o mental de Magnólia exalava constantemente.
Na sequência, Adelaide aproximou-se de Gina.
- Ela está bem - reconheceu Fabiano.
Não precisa de passe.
- Não. Gina é um espírito muito lúcido, que deliberadamente escolheu reencarnar para dar apoio a Magnólia.
Eu a estimo muito.
Contudo, preciso aproveitar que ela está debruçada sobre estudos espirituais e sugerir que faça regularmente o Evangelho no Lar.
- Ah, se as pessoas soubessem como uma prece, por mais singela que seja, uma única vez na semana... melhora o ambiente de casa!
- Melhora o ambiente e protege a casa e seus moradores do ataque de espíritos perturbados e de energias nocivas.
E ainda permite que espíritos amigos e familiares desencarnados, naturalmente em equilíbrio, aproximem-se e venham fazer uma visita, trazer uma sugestão, incutir um bom conselho, uma orientação que seja, para ajudar a solucionar um problema que às vezes aflige o encarnado.
- Como vai fazer a sugestão a Gina?
- Vou plantar a ideia do evangelho.
Depois, quando ela começar a se interessar, eu vou conversar com ela fora do corpo.
- Acredita que tudo isso vai ajudar nossa Magnólia?
- Vai. A vida sempre trabalha pelo nosso melhor!
No finzinho da tarde veio a chuva forte.
Uma tempestade de vinte minutos que amenizou o calor e trouxe uma suave brisa logo mais à noite.
Algumas estrelas despontavam no alto.
O clube estava decorado com capricho, pronto para receber os formandos e seus parentes.
Eles foram chegando a partir das oito da noite.
Logo começou a movimentação intensa de pessoas, a banda, as músicas, o bufê e todos se divertiam a valer.
Isabel e Paulo estavam contentes.
Fernando estava um tanto alheio.
- Algum problema, meu filho? - indagou Paulo.
- Não.
- Está triste porque sua mãe não veio? - perguntou Isabel.
Fernando meneou a cabeça de maneira negativa.
- Estou bem. Logo me animo; vou dançar e me divertir.
Paulo tocou de leve em seu ombro.
- Isso mesmo. Aproveite.
- Vai prestar administração?
- Vou, tia. Mas bem longe daqui.
- Não entendi.
- Quero estudar no interior, sair um pouco das asas da minha mãe e da minha tia.
- Mas...
Paulo a cortou com amabilidade:
- Meu amor, agora não vamos conversar esses assuntos.
Fernando esboçou um sorriso amarelo.
- Juliana decidiu prestar assistência social e Paloma optou por letras com ênfase na língua espanhola, não?
- É. Juliana decidiu-se faz tempo.
Mas não sei se Paloma fez a escolha certa.
- Não interessa a escolha delas, amor.
São jovens e têm a vida pela frente.
Amanhã, de repente, virão outros gostos, novas carreiras surgirão.
Não devemos nos preocupar com isso agora.
- Também acho, tia - concordou Fernando.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 8:27 pm

- Nossas meninas estão lindas.
Isso é o que importa - Paulo suspirou, enquanto beijava a esposa nos lábios.
- Menos, pai - protestou Juliana, que chegava com um pratinho de salgadinhos.
- Ora, ora. Eu e sua mãe somos eternos namorados.
Qual é o problema de demonstrarmos o nosso amor?
- Deixe eles, mana - devolveu Paloma, logo atrás.
A noite é nossa!
- É - emendou Isabel.
A noite é de vocês!
Isabel falou e fez sinal com a cabeça para a frente.
As meninas olharam para trás e Erik aproximou-se.
Cumprimentou-as sem jeito.
Teresa vinha logo atrás.
- Boa noite - ela devolveu, com um sorriso cativante.
Paulo, Isabel e Fernando levantaram-se.
- Como vai?
- Estamos bem.
Quer dizer - Teresa riu -, estamos tentando estar bem.
- O que aconteceu? - quis saber Paulo.
- Nós fomos convidados para nos sentar à mesa ao lado de Glória e Eduarda.
No último momento fomos informados de que a mesa estaria ocupada e... não temos onde nos sentar.
- Não seja por isso - disse Isabel.
Nós temos dois lugares vagos, pois a mãe e a tia de Fernando não vieram à festa.
- Algum problema? - inquiriu Teresa.
- Não. Mamãe está indisposta.
Nada grave - respondeu Fernando, contrafeito.
- Eu nem vou me sentar - interveio Erik.
Quero dançar a noite toda - anunciou, enquanto fitava Juliana.
- Está certo - reflectiu Paulo.
Teresa, por favor, sente-se connosco.
- Obrigada. Meus pés estão pedindo para sentar.
Não gosto de salto alto.
- Nem eu - respondeu Isabel.
E logo a conversa entre elas e Paulo seguiu alegre e divertida.
Estavam muito à vontade e o bate-papo fluía agradável.
Às vezes, falavam um no ouvido do outro por conta do volume alto do som que vinha do palco.
Fernando levantou-se e foi dançar com um grupo de amigos.
Erik chamou Juliana para dançar.
- Não danço bem.
- Eu também não, Juliana.
Vamos tentar?
Ele estendeu a mão e ela sorriu.
Bruna chegou e juntou-se a eles.
Logo, Eduarda aproximou-se e cochichou no ouvido dela:
- Ontem à noite, assisti mais uma vez ao filme A malvada, com a Bette Davis.
Bruna estremeceu.
- E daí?
- Escutei uma frase da personagem da Bette que se encaixa perfeitamente à noite de hoje.
- Qual é?
- Apertem os cintos.
Vai ser uma noite trepidante!
Eduarda falou e gargalhou, de maneira forçada.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 8:27 pm

Saiu dançando entre os jovens.
Bruna sentiu um aperto no peito e a acompanhou com os olhos.
Eduarda chegou e sentou-se à mesa.
- Erik e a mãe vão notar que mentimos.
Nossa mesa está vazia.
Glória deu de ombros.
- Não tenho de dar satisfação a ninguém.
E você - apontou - vá retocar a maquilhagem.
Está horrível. Parece uma meretriz.
Eduarda levantou-se chorosa.
Engoliu o soluço e correu ao banheiro.
Olhou-se no espelho e achava-se linda.
Mas, se Glória dissera que estava horrível, então era melhor acatar e retocar a maquilhagem.
Saiu do banheiro desolada, os olhos tristes e sem expressão.
Glória não a elogiara e parecia estar fazendo enorme sacrifício para estar naquele baile.
Voltou à mesa, e Glória disparou, ar enfadonho:
- Eu poderia estar num spa, passando um fim de semana em um programa de desintoxicação, mas sou obrigada a estar no meio dessa gente classe média - resmungou, enquanto levantava o queixo.
- É meu baile, mãe.
Não sente orgulho de eu estar me formando?
Glória nem escutou.
Levantou-se e foi conversar com uma conhecida, em outra mesa.
Eduarda, sozinha na mesa, apoiou os cotovelos e ficou pensativa.
Olhava para as pessoas e todos estavam se divertindo.
Ela viu Juliana dançando com Erik e achou graça.
- A gorda até que dança bem - riu.
Com ar melancólico e triste por não receber carinho e apoio da mãe, espantou os pensamentos, levantou-se de um salto, foi até um dos rapazes que operavam a mesa de som e cochichou algo no ouvido dele.
Depois, abriu a bolsa e tirou um envelope.
Entregou-o ao moço.
Juliana cutucou Bruna.
- Ei, em que mundo está?
- Desculpe. O que foi?
- Parou de dançar de repente, por quê?
Vamos nos divertir. É noite de festa!
- Tem razão, é noite de festa.
Juliana, Erik, Bruna e Caíque formaram uma rodinha e dançavam animados.
Logo Fernando juntou-se a eles.
Erik perguntou se elas queriam beber alguma coisa:
- Refrigerante com bastante gelo - pediu Juliana.
- Eu também - disse Bruna.
- Tome conta dela para mim - pediu Erik, num sussurro.
- Pode deixar - respondeu Fernando.
Ficarei de olho! - garantiu, enquanto procurava Paloma com olhos perscrutadores.
Erik e Caíque saíram e foram até o bar.
O som estava mais abafado e dava para manter uma conversa em tom normal.
- É impressão minha ou você está mesmo a fim da Juliana? - perguntou Caíque, enquanto pedia as bebidas.
- Estou.
- Juliana não é a mulher da minha vida - eles riram - mas é uma boa moça.
Quando vai se declarar?
- Logo mais, depois do jantar.
- É por isso que sua mãe está sentada com os pais de Juliana? "
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Ave sem Ninho

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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 8:27 pm

- Não. Foi coincidência.
Sentaríamos com Eduarda; ela ligou de última hora e avisou que vinham uns parentes do interior.
- A mesa de Eduarda está vazia.
Erik deu de ombros.
- Tenho certeza de que mamãe vai desenvolver boa amizade com os pais de Juliana.
Já são conhecidos do clube.
Sempre se deram bem.
- Não tenha dúvida - apontou Caíque para a mesa.
Teresa, Isabel e Paulo conversavam e riam ao mesmo tempo.
Estavam alegres, e era nítida a sintonia entre os três.
Erik sorriu e perguntou:
- Desistiu da Paloma?
- Somos bons amigos.
Nunca quisemos namorar para valer.
- Notei há pouco que está com outros olhos para a Bruna.
Caíque abriu um lindo sorriso, demonstrando os dentes alvos e perfeitamente enfileirados.
- Ah, rapaz, eu não queria me apaixonar.
Achava que podia accionar um botão no coração e decidir gostar ou não de alguém.
O tempo foi passando e hoje eu percebo que gosto muito da Bruna.
Parece que, depois que ela se afastou de Eduarda, tornou-se outra pessoa.
Para melhor.
- Bruna escondia-se sobre as asas de Eduarda porque se julgava insegura - arriscou Erik.
Acho que agora ela está mais solta, é mais verdadeira.
E parece que está também a fim de você.
Por que não aproveita a ocasião e também se declara a ela?
- Será? Meu coração se alegra, mas não sei se ela é a mulher da minha vida.
- Também não exagera!
Você é muito jovem.
- Olha quem fala - replicou Caíque.
Pela sua cara, meu amigo, você não desgruda mais da gordinha.
Ops, desculpe.
- Não precisa se desculpar.
Juliana não possui as formas que mexem com a libido da maioria dos homens.
Melhor para mim.
Eu gosto dela desse jeito.
Ela é tão bonita para mim que as formas são detalhes.
E, de mais a mais, o que importa ao longo dos anos é a essência, é a companhia, o respeito, o carinho, a compreensão, o entendimento, o amor...
Eu vejo isso tudo em Juliana.
O corpo, mais dia menos dia, vai sofrer consequências naturais de desgaste.
O sentimento, ao contrário, vai crescer e se solidificar ao longo dos anos, fortalecendo o nosso elo de amor.
- Você é surpreendente, Erik.
Tão jovem e tão sábio.
- Jovem e apaixonado.
Prefiro assim.
Eles espalmaram as mãos no alto e pegaram as bebidas.
Chegaram até as meninas e, de repente, o som emudeceu.
Todos se voltaram para o palco e o dj anunciou:
- Hora do jantar.
Voltarei daqui a uma hora.
Uma música suave e orquestrada encheu o ambiente, as luzes se acenderam, e os convidados começaram a formar fila para servirem-se no bufê.
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Ave sem Ninho

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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 8:27 pm

Tudo ia bem até que, em determinado momento, uma música antiga começou a tocar:
Sou rebelde, na voz da cantora Lilian.
"Eu sou rebelde porque o mundo quis assim, porque nunca me trataram com amor, e as pessoas se fecharam para mim..."
O telão sobre o palco foi ligado, mas nenhuma imagem apareceu.
As pessoas começaram a rir, outras a cochichar e algumas até a vaiar.
Ninguém estava entendendo por que a música instrumental havia sido interrompida.
Acreditaram que estaria para começar uma sessão de flashback.
Isabel e Paulo se divertiam.
- Meu Deus!
Quantas vezes dançamos essa música nos bailinhos de garagem? - perguntou Isabel.
- Muitas vezes, meu amor.
- Confesso que eu também dancei ao som desta música - devolveu Teresa, num gracejo.
Paulo estendeu a mão para a esposa e foram ao centro do salão.
Um senhor na mesa atrás deles convidou Teresa para dançar.
E assim, sucessivamente, todos deixaram os talheres sobre os pratos e dançaram.
Animados e felizes.
O que era para ser motivo de piada transformou-se em saudosismo para os antigos e pura diversão para a garotada.
A um canto do salão, Eduarda contava nos dedos os segundos para a intimidade de Juliana jorrar na tela para todos os convidados.
- A orca vai morrer de vergonha.
A imagem do telão continuou branca e nada.
A música chegou ao fim e o dj voltou a tocar música instrumental, adequada para o jantar.
Eduarda bateu com o salto agulha até o palco, nervosa.
Chamou o dj e vociferou algumas palavras.
Alguns escutaram um grito.
Outros, mais próximos, ouviram palavrões inenarráveis.
O dj tentava acalmá-la.
- A sua fita está gravada no sistema Betamax.
O meu video-cassete só lê fitas em vhs.
- Idiota. Mil vezes idiota!
Devolva-me o dinheiro.
- De forma alguma.
Você me pagou para tocar essa música do tempo dos meus pais, que por sinal alegrou a galera.
E me pagou para accionar o videocassete.
Eu fiz as duas coisas.
Portanto, não devolvo.
A fita eu devolvo. Toma.
Ela gritou, esperneou e arrancou a fita da mão do rapaz.
Girou nos calcanhares e foi até a mesa de Juliana.
- Olá - disse, trincando os dentes de raiva.
Bruna levantou os olhos.
- Oi.
- Como estão íntimas!
A dona Redonda e a comadre...
- O que você quer? - indagou Bruna.
Nesta mesa não há lugar para você.
- Olha, quem diria!
Minha ex-melhor amiga mostrando as garras afiadas.
- Não temos nada o que conversar.
- Ah, não?
- Não - interveio Juliana.
Depois do baile, nunca mais nos veremos.
Isso, para mim, é um alívio.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 8:28 pm

- E acha que Bruna é sua amiga do peito?
É amiga de verdade?
- Ao menos ela não é falsa, tampouco tripudia sobre meus sentimentos.
Eduarda espremeu os olhos.
- Sei. Bruna é sua amiga? - enfatizou.
Tem certeza? Hello-o!
- Sim. Por quê?
O que está insinuando?
- Eu? Nada.
Bruna sentiu medo.
- Melhor você se retirar, Eduarda.
- É - ponderou Erik.
Não queremos encrenca.
- Pois bem.
Não querem encrenca, certo?
Mas eu tenho aqui um presentinho para você, Juliana.
Eduarda abriu a bolsa e pegou a fita de vídeo.
- O que é isso? - interpelou Juliana, sem saber.
- Isso é o que eu queria passar no telão, mas não funcionou.
Pegue e assista.
- O quê? - Juliana estava impaciente.
Bruna sentiu o estômago embrulhar.
- Eduarda, por favor...
O que pensa fazer?
- Nada, amiguinha.
Eu só quero mostrar para Juliana que você não é tão amiga assim.
Ela falou e jogou a fita sobre o colo de Juliana.
- Não estou entendendo.
- Não está porque seu raciocínio é, naturalmente, mais lento, assim como seu metabolismo.
A gordura a impede de ser mais inteligente e perceber o óbvio.
Bruna estava se passando por amiga só para filmá-la e depois me entregar a fita com você e suas intimidades ridículas:
Juliana tomando banho, Juliana tirando a roupa, Juliana blá-blá-blá...
Vocês todos me dão nojo! - vociferou.
Bruna fulminou Eduarda com os olhos.
Eduarda mexeu os ombros:
- Pode me repudiar.
Eu não podia deixar de alertar a orca.
Você não presta, Bruna.
Tenham todos uma boa noite.
Eduarda passou pela mãe e fez sinal.
Glória deu graças a Deus.
Não via a hora de sair daquele ambiente.
- Música cafona, não?
O que você estava aprontando?
- Nada, mãe.
- Queria chamar minha atenção?
- Não... quer dizer... - Eduarda engasgou.
Glória meneou a cabeça, maneira negativa.
- Vamos logo.
Ainda bem que segundo grau só se faz uma vez na vida.
Deus é mais!
Elas saíram.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 8:28 pm

Dentro do salão, todos na mesa voltaram os olhos para Bruna.
Ela tentou se explicar.
- Juliana, deixe-me contar como tudo começou...
Juliana a cortou, chorosa:
- Eu não posso acreditar que todas aquelas intimidades que registamos foram entregues para Eduarda.
Você estava fazendo jogo duplo?
Traindo-me pelas costas?
- Não. De forma alguma - a voz de Bruna também era chorosa.
No começo eu até gravei pensando em entregar a fita para Eduarda, mas depois que conheci você melhor, desisti.
- Desistiu? Como desistiu, se eu estou nesta fita - apontou, irritada.
- Eu pedi para meu irmão apagar e...
- Chega, Bruna.
Eu não quero ouvir mais uma palavra.
Erik e Caíque não emitiam som.
- Por favor, Juliana, deixe-me contar toda a história.
- Não tem história.
Quero ir embora.
- É nossa festa de despedida.
É o nosso baile.
- Que você fez questão de estragar.
- Não. Por favor, Juliana, não vá - suplicou Bruna.
- Erik, pode me levar para casa?
- Eu não dirijo, mas vou chamar minha mãe.
Paloma chegou e perguntou:
- O que houve?
Eu vi Eduarda saindo da mesa feito um furacão.
- Depois te conto - rebateu Juliana.
Quero ir embora.
- Agora?! A festa vai esquentar.
Agora, não. Por favor, irmã.
- Fique, Paloma. Aproveite.
Eu quero ir para casa.
Isabel e Paulo chegaram.
Teresa vinha logo atrás.
- O que aconteceu? - indagou Isabel.
- Nada, mãe.
Não estou me sentindo bem.
Erik cochichou no ouvido da mãe.
- Eu vou levá-la para casa - apaziguou Teresa.
Fiquem com Paloma e aproveitem.
Paulo iria falar, mas Juliana fez uma negativa com a cabeça.
- Quero ir para casa, por favor.
Depois conversamos, papai.
Isabel abriu a bolsa e apanhou a chave de casa.
Entregou-a para Juliana, que olhou para Bruna com decepção e dor.
Nada disse. Com olhos embaciados, Juliana saiu acompanhada de Teresa e Erik.
Bruna levou as mãos ao rosto e desatou a chorar.
- O que está acontecendo? - perguntou Paloma, espantada.
- Eu fiz algo terrível contra sua irmã.
Mas me arrependi.
Ela não deixou que eu me explicasse - lastimou Bruna.
- Não fique assim - consolou-a Caíque.
Amanhã tudo vai se resolver.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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