O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 8:05 pm

- Não, não vai.
Eu preciso falar com Juliana.
- Não adianta, Bruna.
Ela não quer falar com você.
- Mas eu preciso!
- Hoje não - tornou Isabel. - Conheço minha filha.
Ela está com a cabeça quente.
Vamos esperar a poeira assentar.
Depois, com calma, vocês conversam.
Voltaram às mesas, mas, Bruna mal provou a comida.
- O que eu posso fazer para ajudar? - quis saber Caíque, condoído.
- Quero que me leve até Juliana.
Não vou sossegar enquanto não conversarmos.
- Está bem. Mas vamos esperar a festa acabar.
- Porquê?
- Eu... - Caíque estava sem jeito - gostaria de lhe falar.
- Sobre?
Caíque piscou um olho.
- Sobre nós.
Bruna esboçou um sorriso.
Sentiu um friozinho na barriga.
Respirou fundo e decidiu que iria conversar com Juliana na manhã seguinte, com a cabeça mais fria.
Sim, ela sabia que se aproximara de Juliana por sugestão de Eduarda.
Todavia, ela acabou se afeiçoando à nova amiga e iria lutar para manter e, quem sabe, fortalecer essa amizade.
De qualquer maneira.
Por ora, Bruna deixou-se levar pela agradável conversa de Caíque.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 8:05 pm

- 27 -

Teresa embicou o carro na guia, bem próximo do portão.
- Tem certeza de que quer ficar sozinha?
- Sim, dona Teresa.
- Melhor eu ficar com você - sugeriu Erik.
- Não. Não quero atrapalhar o resto da noite.
- Como atrapalhar? De forma alguma.
Eu vou ficar com você aqui até seus pais voltarem.
- Eu acho uma óptima ideia - considerou Teresa.
- Não quero dar trabalho.
- Não está dando.
Meu filho quer ficar com você até seus pais chegarem.
Acho de bom-tom.
- Por favor - insistiu Erik.
- Está certo.
Teresa esperou os dois entrarem na casa.
Quando acenderam a luz da sala e fecharam a porta, ela acelerou e foi para casa.
Torcia para que o filho tomasse coragem e se declarasse para Juliana.
- Gosto dessa menina.
E gosto também dos pais dela.
Meu filho merece ser feliz.
Dentro de casa, Juliana jogou-se no sofá.
Tirou os sapatos, atirou-os num canto.
Erik sentou-se ao seu lado.
Pousou delicadamente as mãos sobre as dela, tentando transmitir apoio.
- E então, como se sente?
- Muito mal.
Nem que o vídeo fosse a público eu ficaria tão aborrecida.
A traição de Bruna é o que mais me dói.
- Ela se mostrou arrependida.
- Será?
- Pense, Juliana.
Se Bruna quisesse mesmo tripudiar sobre seus sentimentos, caçoar de você, ela não ficaria naquele estado catatónico.
- É - hesitou.
Bruna parecia constrangida.
- Sim. Eu percebi.
Dias atrás, tive uma conversa com ela.
Coisa rápida, no corredor do colégio.
Ela estava muito feliz por essa nova amizade.
Disse-me gostar sinceramente de você.
- Ela pode ter inventado... - sibilou, porquanto uma voz amiga dizia para acreditar e confiar em Bruna.
Por outro lado, a parte racional tentava abafar a voz amiga.
- Não creio - respondeu Erik.
Bruna mudou muito nestes últimos meses.
Os nossos colegas cochichavam que ela estava menos chata.
Perdeu até o apelido de chiclete, visto que não andava mais grudada nas saias de Eduarda.
Juliana sorriu timidamente.
- Mas a Eduarda estava com a fita que Bruna usou.
- Quer saber?
- O quê, Erik?
- Tenho a sensação de que, no começo, a Bruna pode até ter se aproximado de você por interesses escusos.
Até acredito que ficou sua amiga a mando de Eduarda.
Mas, ao longo do tempo, ela percebeu a pessoa inteligente, sensível e maravilhosa que você é.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 8:05 pm

Juliana enrubesceu.
- Falando assim, fico sem graça.
- Não é para ficar - Erik trouxe as mãos de Juliana de encontro aos lábios.
Beijou-as com delicadeza.
- Bruna viu em você o que eu tenho percebido desde o primeiro ano.
- Percebeu o quê?
- Que você é encantadora.
Juliana iria falar, mas Erik respirou fundo e foi mais rápido.
Aproximou o rosto e seus lábios se encontraram.
Foi o primeiro beijo de Juliana. Inesquecível.
Seu corpo tremia, o coração batia descompassado.
Quando os lábios se desgrudaram, ela arregalou os olhos:
- O que foi isso?!
- Eu gosto de você, Juliana.
- Mesmo?
- Sim.
- Não está brincando com meus sentimentos?
Ele a beijou novamente, com ardor.
Depois disse, meio encabulado:
- Isso é brincar com seus sentimentos?
Eu morro de desejo em tê-la nos meus braços.
- Sou gorda.
- E daí? Por acaso isso é empecilho para o nosso amor?
- Desde pequena sempre fui massacrada por ser considerada fora dos padrões.
Uma mulher com quadris largos e feições avantajadas é...
Ele a cortou com amabilidade na voz:
- É a coisa mais linda do mundo.
Eu nunca gostei de pele e osso. Adoro carne!
Juliana deu um tapinha no ombro dele.
- Olha como fala!
- Mas é verdade.
Não gosto dessas garotas esquálidas.
Nunca me atraíram.
Eu gosto de você, do seu jeito, do seu corpo, enfim, do jeito que você é.
E tem mais.
- Mais o quê?
- A sua pele tem um cheiro divino.
Creio que agora fica difícil eu esconder: estou apaixonado!
- Eu também devo confessar que gosto de você há um bom tempo.
- Por que nunca veio falar comigo?
Ela iria falar que escrevera uma carta declarando seu amor por ele, que havia lido e ensaiado mil vezes uma maneira de ler o conteúdo para Erik.
No entanto, fora pega de surpresa.
De facto, Juliana estava pasmada.
Sem saber o que dizer, repetiu a pergunta dele:
- Ora, por que nunca veio falar comigo?
- Medo.
- Medo?! Não posso acreditar.
- É. Tinha medo de ser rejeitado por você.
Juliana sentiu uma emoção sem igual.
Abraçou-se a Erik e beijaram-se apaixonadamente.
Isabel e Paulo dançavam animados.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 8:06 pm

Depois de uma sequência de músicas antigas, alegres e divertidas, sentaram-se à mesa.
Fernando estava com o semblante triste.
- Está cansado? - indagou Paulo.
- Um pouco.
- Está assim porque sua mãe não veio? - perguntou Isabel.
- Ainda bem que ela não veio.
Eu não ia gostar de vê-la aqui.
- Você nunca se referiu à sua mãe dessa maneira.
- Como?
- Está usando um tom muito agressivo, que não combina com seu jeito de ser, meu filho.
O que foi que aconteceu? - quis saber Paulo.
- Nada, tio.
- Como nada?
Você sempre foi alegre, sorridente.
Nunca vimos referir-se a Magnólia dessa forma.
Tudo bem que ela é a pessoa mais negativa que eu conheço, está ficando cada vez mais chata com o passar dos anos, mas ela tem um bom coração - ponderou Isabel.
- Bom coração?
Uma pessoa que só pensa no negativo vinte e quatro horas por dia, que só vê maldade e feiura em tudo não pode ter um bom coração - protestou Fernando.
- Tem. Eu sei que sua mãe é uma mulher com a visão negativa do mundo, mas no fundo ama você de verdade.
- Tia Gina demonstra mais amor por mim do que minha mãe.
- Gina foi uma bênção na vida de Magnólia - contrapôs Paulo.
Se conhecesse sua mãe antes de ela se relacionar com Gina, a acharia, de facto, detestável.
Isabel cutucou o marido.
- Também não é tanto assim, amor.
- Como não, querida?
Magnólia sempre teve essa característica de ver o mundo com olhos injectados de maldade.
Quando Gina apareceu, foi como se houvesse um sopro de renovação, como se a vida estivesse dando nova chance para Magnólia repensar seus valores e mudar sua postura negativa por uma mais positiva diante da vida.
- Ela nunca quis saber do espiritual.
- Eu me interesso, tia.
- Eu sei, querido. Você é diferente.
É um garoto que vale ouro.
Se tivéssemos um filho homem, eu gostaria que esse filho fosse você.
Fernando sorriu emocionado.
- Obrigado, tia.
A amizade de vocês me ajuda a manter o bom astral.
- Gostei do sorriso - emendou Paulo.
Agora trate de se divertir.
Paloma surgiu à mesa, suada, a maquilhagem borrada e os cabelos presos em coque.
- Gente, como estou me divertindo!
Pena que Juliana não está aqui connosco.
- Ela deve estar bem.
Erik é uma óptima companhia - disse Isabel.
- Também acho.
No fim das contas, a confusão de Eduarda juntou minha irmã e Erik.
Eduarda acabou por fazer uma boa acção, mesmo sem perceber.
- Eduarda até que tem bastante equilíbrio - observou Isabel.
Paloma arregalou os olhos:
- O que foi que disse?
Escutei direito?
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 8:06 pm

- Sim. Glória é uma pessoa que só pensa em si.
Não nasceu para ter filhos.
Estudei com ela na escola.
Foi uma menina detestável, sem amigos.
Usava a beleza e o corpo para seduzir os rapazes.
Nunca se interessou por uma amizade verdadeira.
E pensa que não vi como tratou Eduarda aqui no baile?
De maneira fria, distante.
Eduarda deve ser uma menina muito solitária.
- E tem mais - acrescentou Paulo.
O pai dela, Octaviano, saiu fugido do país.
Está na mira da Polícia Federal.
Essa menina não teve valores, não teve afecto.
É extremamente carente.
Paloma ficou pensativa.
Nunca havia olhado Eduarda sob esse prisma.
Fernando, alheio a tudo, não conseguia tirar os olhos de Paloma.
- Está se divertindo? - perguntou ele.
- A roda estava mais animada.
Caíque e Bruna acabaram de sair.
Paulo consultou o relógio.
- Está na hora de irmos embora.
Isabel concordou.
Paloma protestou.
- Mais meia hora, papai.
Só mais meia hora.
Paulo mexeu a cabeça para cima e para baixo.
- Está bem.
Mais meia hora.
Paloma beijou o pai no rosto e puxou Fernando, arrastando-o até o centro da pista.
- Vamos sacudir esse corpo.
Fernando, meio sem graça, começou a se movimentar.
Por ora, esqueceu-se de Magnólia e de seus problemas.
Por fim, a música agitada parou e uma melodia romântica encheu o ambiente.
- Ah, o baile está chegando ao fim - Paloma disse com voz triste.
- É. Quando começam a tocar música lenta, é sinal para que as pessoas comecem a se preparar para ir embora.
- Uma pena.
Queria que esta festa não acabasse nunca.
Paloma falou e, inocentemente, abraçou-se a Fernando.
- Dança essa comigo?
Ele se aproximou e seus corpos se tocaram.
Fernando sentiu um calor acima do normal.
O coração disparou e a boca ficou seca.
Ele enlaçou Paloma e fechou os olhos.
Desejava que aquele momento ficasse congelado.
Para sempre.
Na festa, Bruna sondou:
- Caíque, você sente alguma coisa por Paloma?
- Não. Foi só curtição.
- Nem um sentimento, nada?
- Não. Por que pergunta?
- Por nada.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 8:06 pm

- Ei, você sente alguma coisa por mim?
- Você não é de se jogar fora.
É um moço bonito, inteligente.
Mas o que posso esperar de um garoto que mal saiu das fraldas e é filhinho de papai?
- Assim me ofende.
Eu sou do bem. Já fiz dezoito anos, tenho carro.
- Vai prestar vestibular para quê?
Caíque coçou a cabeça.
- Não pensei nisso ainda.
Estava mais preocupado em passar de ano e pegar o diploma.
Acho que vou tirar um ano de férias, ver o que gosto mesmo de fazer.
Depois decido o que vou prestar.
- Está vendo - ela riu.
Você não leva a vida a sério.
- Claro que levo. A vida é curta.
De que adianta ser stressado?
Eu não quero decidir meu futuro agora.
Pode ser que o que eu estude hoje não me realize daqui a dez, vinte anos.
- Precisa ter um começo.
- Você vai prestar vestibular para quê?
- Direito.
- Tem que estudar muito.
- Não tenho medo do estudo.
Eu gosto de ler muito e tenho gosto por leis.
Um primo do meu pai é advogado e eu me sinto muito bem quando vou ao escritório dele.
É como se eu já conhecesse esse universo.
- Das leis?
- É. Sinto familiaridade com assuntos jurídicos.
- Posso lhe perguntar uma coisa?
- Pode.
- Você ficou surpresa ao ver Eduarda com a fita na mão ou foi cena ensaiada?
Bruna fechou o cenho.
- Imagine! Eu fiz teatro no começo.
Fingi brigar com Eduarda para ter um motivo e me aproximar de Juliana.
Depois, a amizade brotou de forma sincera.
Juliana é uma pessoa formidável.
- Ela é muito legal.
- E Eduarda não é amiga de ninguém.
Só pensa nos próprios interesses.
É ela e o mundo dela. Sempre.
- Acha que Juliana vai entender?
- Não sei.
Eu adoraria que ela me escutasse.
Depois que eu contar tudo, poderá tirar as conclusões que quiser.
Tenho que dizer o quanto ela é importante para mim.
Juliana é como uma irmã.
- Legal. Se falar com todo esse sentimento e com essa covinha que se forma na ponta do queixo, Juliana não vai resistir.
- Bobo! - ela deu um tapinha em Caíque.
Ficaram sem assunto e fitando um ao outro.
- E agora? - perguntou ela.
Caíque a beijou.
Foi rápido o suficiente para Bruna não sentir absolutamente nada.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 8:06 pm

Caíque percebeu.
- Não gostou do meu beijo.
- Não foi isso.
Acho que não nascemos um para o outro.
- A Paloma gosta dos meus beijos - Caíque pareceu chateado e quis provocar.
Afinal, nunca fora recusado por garota alguma.
Era o bonitão da sala, tinha um carro desportivo, último tipo, praticava desportos e era assediado pelas meninas do colégio.
Estava interessado em Bruna, mas a recusa dela abalou sua estrutura de auto-suficiência.
- Cada um é um.
Acho você um cara super legal.
Podemos ser bons amigos.
Ele consultou o relógio e, impaciente, perguntou:
- Está quase amanhecendo.
Quer ir até a casa da Juliana?
- Não. Melhor ir para a minha casa, descansar.
No fim da tarde, depois de boas horas de sono, eu ligarei.
- Se quiser, poderei levá-la.
- Não precisa.
- Posso, ao menos, levar você para casa?
Bruna fez sim com a cabeça.
Caíque sentiu uma pontada de tristeza.
"Ela não me deu bola.
Mas uma hora não vai resistir.
Com o tempo, vou mostrar a ela que eu sou um cara que vale a pena.
Nenhuma menina me rejeitou.
Não vai ser agora que vou ter que engolir esse desaforo", pensou.
Entraram no carro e, mal saíram do estacionamento, Caíque pisou fundo no acelerador.
- Vai mais devagar, Caíque.
- Fique sossegada.
Posso não ter o melhor beijo do mundo, mas sou o melhor motorista do mundo.
Bruna certificou-se de que o cinto de segurança estava preso e sem folga.
- Coloque o cinto, Caíque.
- Bobagem. Atrapalha.
Me incomoda.
Ela meneou a cabeça negativamente.
- Por que correr tanto?
- Porque de madrugada é bem melhor.
As ruas estão mais desertas.
Eu me sinto como se estivesse correndo em um autódromo.
- Não estamos em Mónaco e você precisa respeitar o limite de velocidade.
Vamos mais devagar?
Caíque sorriu matreiro.
Ligou o som, aumentou o volume.
Estava gostando de ver Bruna temerosa.
- Sou um bom piloto.
Caíque falou e Bruna deu um grito:
- Pare agora!
O sinal fechou...
Eduarda saiu da festa soltando fogo pelas ventas.
Entrou no carro e, depois do sermão de Glória, não queria ir para casa.
- Preciso me acalmar.
Pode me deixar em um barzinho?
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 8:06 pm

- Agora?
- É, mãe. Estou me sentindo só.
Glória não entendeu as entrelinhas e fez um muxoxo.
- Passe-me o endereço.
Eduarda deu o endereço, entristecida, e meia hora depois estavam em frente a um barzinho badalado na Vila Madalena.
Ela desceu do carro e Glória advertiu:
- Melhora essa cara.
Homem não gosta de mulher com cara amarrada.
- Estou triste.
Não gostei do que fiz à Juliana.
- O que você fez?
Eu não vi você fazer nada.
E, além do mais, você não pode querer amizade com uma menina gorda.
Pode arranhar e baixar a sua popularidade.
Eduarda não quis falar.
Sua mãe jamais iria entendê-la.
Glória não tinha amigas, não gostava de ouvir as lamentações do próximo.
Como poderia perceber o que ia no coração triste de Eduarda?
- Aqui tem - Glória abriu a bolsa e tirou algumas notas - dinheiro para você tomar um suco e pegar um táxi na volta.
- Eu me viro. Tchau.
Glória acelerou.
Eduarda entrou no bar e, naturalmente, chamou a atenção.
Ela não passava despercebida.
Logo um rapaz, aparentando uns trinta anos de idade, veio até ela e sorriu.
- Gostar de cachaça?
Ela achou graça do sotaque.
Perguntou:
- Gostar. E você, é de onde?
O gringo estava já meio alto com os litros de caipirinha que havia tomado.
- Eu ser inglês. Do Londres. Conhece?
- Ainda não - Eduarda riu.
- Rir de quê? - o gringo já falava meio enrolado.
- Nada, não.
O seu jeito de falar é engraçado.
Ele era engraçado e era bonito.
Tinha os traços bem masculinos, o aspecto era bem viril.
Eduarda bebeu uma caipirinha.
Depois outra.
Beijaram-se, abraçaram-se, beijaram-se de novo e assim foi até quase o raiar do dia.
O rapaz pagou a conta e convidou:
- Quer conhecer meu hotel?
- Danadinho.
- Eu gostar de você.
- Onde está hospedado?
Quando o gringo, cujo nome de baptismo era Christopher, disse que estava hospedado em um dos hotéis mais refinados e caros da cidade, os olhos de Eduarda rodaram nas órbitas e brilharam.
- Então, vamos?
- Claro - disse ela.
- Pegar meu carro.
- Não. Você bebeu muito.
Vamos tomar um táxi.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 8:07 pm

- Eu estar sóbrio. Vamos.
Ela o acompanhou um tanto preocupada.
No entanto, ao entrar no carro último tipo, com cheirinho de carro novo, mudou de ideia.
- Melhor que táxi - ela suspirou.
Christopher deu partida e ligou o som.
A música encheu o interior do veículo e ele dirigia com uma mão no volante e com a outra, livre, porquanto o carro tinha câmbio automático, deslizava sobre as coxas de Eduarda.
- Vai devagar - ela sugeriu.
- Você muito linda. Você gostosa.
- Fala quase nada de português, mas já aprendeu a falar gostosa.
O rapaz riu.
- É. Eu aprender rápido.
Pararam no sinal e Eduarda percebeu que, mesmo alto pela quantidade excessiva de cachaça, Christopher dirigia devagar, mas fazia leve zigue-zague.
Ela apertou o cinto de segurança dela e, por instinto, puxou o de Christopher, passando displicentemente as mãos pelo peito dele.
- Hum, eu gostar de você roçar.
- Engraçadinho.
Estou protegendo a sua vida.
O sinal abriu, Christopher acelerou e só se ouviu um estrondo.
Vidros quebrados, lataria amassada, gritos e morte.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 8:07 pm

- 28 -

Dez anos se passaram, como um piscar de olhos.
Magnólia acordou e, impaciente, como vinha acontecendo ultimamente, desceu para o café.
Sentou-se à mesa irritada.
- O que foi desta vez? - perguntou Gina.
- Pesadelos.
Agora que estou ficando velha, só tenho pesadelos!
A vida é muito ingrata.
Aliás, viver para quê?
- Viver para ser feliz.
Este é o meu lema.
- Não sei como consegue ter tanta animação logo cedo.
Eu mal saí da cama, tive uma noite péssima de sono.
Queria mesmo era voltar à cama.
- Como vem fazendo nos últimos meses - provocou Gina.
Por que foge?
Magnólia fez um gesto vago com a mão.
- Não fujo de nada.
Não tenho vontade de viver.
- Uma pena.
Eu gosto tanto de você! - Gina falava com emoção.
Eu a amo de verdade.
São muitos anos ao seu lado, dia após dia.
Nunca reclamei de suas lamúrias, de sua negatividade.
Torço para que chegue o dia em que acorde e enxergue, de facto, a beleza da vida.
- Eu não consigo enxergar nada que não seja feio.
- Porque se deixa levar por crenças negativas, erradas, aprendidas ao longo de encarnações, que só a fizeram sofrer.
Veja, querida - Gina aproximou-se e sentou-se à mesa, próximo da companheira -, a vida quer que você reaja.
Entre em contacto com seu coração, imagine o que gostaria de fazer.
- Não consigo.
A vida tem sido muito dura.
Sei que tenho você ao meu lado e agradeço a Deus todos os dias, do contrário não mais estaria aqui.
- Não fale dessa maneira.
- É verdade, Gina.
Acho que, se eu estivesse sozinha, já teria adoecido e morrido.
O que mais me dói e me rasga por dentro é não ter notícias do meu filho.
- Você sabe que Fernando está muito bem.
- Sei do meu filho por você!
É o cúmulo. Eu sou a mãe!
Fui eu que o trouxe ao mundo.
Esta indiferença tem me matado a cada dia que passa.
- Entendo que Fernando tenha sido duro com você.
Mas o que ele poderia fazer?
Você disse em alto e bom som que, se pudesse escolher, jamais engravidaria.
- Eu me referi às condições pelas quais engravidei.
Daquele pulha, daquele maldito.
- Tem de tomar coragem e contar a Fernando toda a verdade.
- Nunca! Uma mulher lésbica, estuprada por um bandido?
Quer que meu filho se afunde nas drogas?
- Fernando é homem feito - Gina foi até o corredor e voltou, trazendo uma foto.
Veja como ele está lindo.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 8:07 pm

Magnólia deixou uma lágrima escorrer.
- Está um homem feito.
Meu Deus! Estou ficando velha.
- Estamos, querida.
Magnólia estremeceu.
- O que foi?
- Meu filho está lindo, mas é a cara do pai.
Como pode ser parecido com aquele monstro?
Que genética é esta que não me deixa esquecer aquele maldito?
- Quantas vezes eu já lhe pedi para deixar o rancor de lado?
- Impossível. Quero que Jonas apodreça.
- As nossas ligações com as pessoas se dão por meio de sintonia energética.
Pense no bem e atrairá pessoas ligadas também no bem.
Pense no negativo ou tenha raiva de alguém para criar esta mesma sintonia.
Os laços que nos unem ao longo de várias encarnações podem ser construídos pelo amor ou pelo rancor.
Quanto mais puder se livrar dos laços de rancor e mágoa e aumentar os de amor, melhor.
- Como deixar de pensar naquele infeliz?
Olhe para esta foto!
Não dá para negar que Fernando é a cara daquele marginal nojento.
E, de mais a mais, tenho certeza de que já morreu.
- Reze, então, pela alma de Jonas.
- Não consigo, Gina.
O que pede é demais para mim.
- Você não quer. É diferente.
Quando decidir parar de dar murro em ponta de faca, reconhecer seus limites e ver que a vida faz tudo para que melhoremos, talvez perdoe o Jonas, vivo ou morto.
- Perdoá-lo? Nunca.
Foi um tremendo cafajeste.
- Que lhe deu o maior tesouro de sua vida.
Nova lágrima escorreu pelo canto do olho de Magnólia.
- Eu amo Fernando mais que tudo nesta vida.
Você sabe.
- Então converse com ele.
Abra seu coração.
Conte tudo, desabafe. Ele vai entender.
- Foi um grande mal-entendido.
- E por que não desfez o mal-entendido até hoje?
Por que não conversou com seu filho?
- Porque ele não me deu chance.
Você bem sabe o quanto tentei.
Mas não. Ele foi embora, abandonou-me.
- Deixe de ser dramática.
Fernando foi embora de casa porque entrou em uma boa universidade pública no interior.
Formou-se em administração de empresas com louvor.
- E nunca quis voltar para cá.
- Conseguiu um bom emprego em uma usina no interior de Goiás.
E aproveitou para afastar-se de Paloma.
Magnólia espremeu os olhos.
- Essa menina me dá raiva.
- Não entre nisso.
- Como não?
Ela fez mal ao meu filho.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 8:07 pm

- Da mesma forma que você não conversou direito com Fernando, ele também não conversou com Paloma.
Não conversou, não abriu o coração.
- Até um cego veria o quanto ele sempre gostou dela.
Mas a gostosinha do pedaço preferiu ignorá-lo, quis conhecer o mundo e se mandou para a Espanha.
Ela e a outra ingrata da Lena.
- Elas seguiram seus sonhos.
Lena sempre nos disse que se formaria e iria fazer mestrado em Barcelona.
Trabalha em restauração, fez nome.
É competente e requisitada.
Paloma sempre foi mais solta, aventureira.
- E estraçalhou o coração do meu filho.
- Paloma mal sabe que Fernando a ama.
- Tudo culpa de Isabel e do Paulo.
Sempre criaram a menina com mão solta.
Sorte de ela não ter engravidado, ainda - salientou.
- Não fale assim, minha querida.
Paloma é uma boa moça.
Se quer saber, ela e Fernando têm chance de se unirem.
Magnólia gargalhou, nervosa.
- Imagine!
Meu filho metido em uma usina sabe deus onde e Paloma solta em Barcelona.
A chance de os dois se encontrarem é ínfima, por que não dizer impossível?
- A vida faz mágica para que o melhor nos alcance.
Se o destino dos dois é estar juntos, tenho certeza de que a vida não deixará de articular a favor de ambos.
- Eu não gostaria que meu filho se envolvesse com Paloma.
Ela não é mulher para Fernando.
- Bom, você sempre vai manter seu ponto de vista.
Eu a respeito, mas não concordo.
Vamos encerrar nossa conversa por aqui.
Preciso fazer a lista de supermercado para a Custódia.
Deseja alguma coisa?
- Um punhado de paz e serenidade.
Ela pode me comprar?
- Não, Magnólia.
Essa compra só você poderá realizar.
Pense no bem, deixe de dar força ao mal.
- Um dia vou tentar. Hoje não.
Gina deu de ombros.
- Está bem.
Hoje à tarde vamos fazer o Evangelho no Lar.
Quer participar?
- Não. Não acredito em nada que não veja.
- Apesar de não acreditar, vou vibrar positivamente por você.
Como sempre.
Magnólia nada disse.
Apanhou a foto do filho e a beijou.
Pegou a térmica sobre a mesa e despejou o café na xícara.
Em seguida apanhou um pãozinho e passou manteiga.
Bebeu e comeu em silêncio.
Depois ajeitou o penhoar e subiu para o quarto, com a foto nas mãos.
A cada dia que passava, nos últimos anos, apesar dos esforços dos amigos Isabel e Paulo, e da companheira Gina, em querer que se interessasse por questões do mundo espiritual e melhorasse o teor de seus pensamentos, Magnólia insistia em permanecer na negatividade.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 8:07 pm

Não fazia questão de ter contacto com a única irmã, Begónia.
Não tinha amizade com o filho e deixara de visitar o casal de amigos.
Sentia-se triste e só.
Adelaide, de vez em quando, aproximava-se para lhe dar um passe reconfortante.
Contudo, havia momentos em que o teor dos pensamentos de Magnólia era tão tóxico, tão pesado, que Adelaide e, algumas vezes, Fabiano nada podiam fazer.
Magnólia entrou no quarto, desceu a persiana e deitou-se.
Fechou os olhos e pediu para que a vida parasse.
- Estou cansada de viver.
Eu não presto para nada - resmungou para si.
Nasci torta, gostando de mulheres.
Fui violentada e tive um filho que não me ama.
Tenho uma vida sem graça e não sei por que vivo.
Tanta gente que quer viver e morre doente, e eu aqui, firme e forte.
Ela se virou, tomou um calmante e logo adormeceu.
Adelaide aproximou-se para dar um passe no perispírito da filha; a aura de Magnólia estava intoxicada por vibrações pesadas, miasmas e algumas formas-pensamento que, de tão cristalizadas, tomavam a forma de larvas astrais.
As luzes emanadas por Adelaide surtiram algum efeito.
Sabia que seriam temporárias, pois, assim que Magnólia acordasse, sua mente passaria a produzir novos pensamentos tóxicos.
Beijou o perispírito adormecido da filha e dirigiu-se à colónia astral onde residia.
Caminhou por entre as alamedas floridas e verdejantes.
Encontrou Fabiano preparando-se para o curso.
- A aula ainda não começou?
- Não, querida - respondeu ele, agora mais jovem, aparentando pouco mais de quarenta anos de idade.
- Tarsila nunca se atrasa para os encontros.
Ela preza muito o horário. É pontual.
- Sei. Houve um desastre de avião com muitos desencarnes.
Havia um parente querido de Tarsila no voo.
Muitos outros amigos foram convocados em carácter de urgência para receber os recém-desencarnados e consolar, dentro do possível, suas famílias.
- Ah!
- Por que está com essa cara?
- Que cara? - indagou Adelaide, tentando ocultar o que ia no coração.
- Eu a conheço há alguns séculos - brincou Fabiano.
- E aprendi a ler pensamentos.
Está aflita com nossa filha.
Adelaide deixou-se cair em uma poltrona, exausta.
- Sim. Você tem toda razão.
Estou preocupada.
- De que adianta preocupar-se?
O que tiver de ser será.
- Ela vai sofrer. De novo.
- Mas é escolha do espírito.
Aprendemos pelo amor ou pela dor.
Magnólia ainda precisa aprender pela dor.
Só assim seu espírito vai crescer.
- Gostaria que fosse de maneira menos traumática.
-Tudo acontece para o nosso melhor.
Aliás, esse é o tema da aula de hoje.
Por que não se junta a nós?
- Sabe que é uma boa ideia? - admitiu Adelaide.
- Estou mesmo precisando me libertar das energias do mundo terreno.
Não posso ser tão pessoal.
- Isso mesmo, minha querida.
Vamos vibrar amor para nossa filha.
Magnólia precisa e vai precisar muito do nosso amor. Venha.
Adelaide assentiu.
Levantou-se e deu as mãos para Fabiano.
Fecharam os olhos e fizeram bonita prece em favor de Magnólia.
Em seguida, Fabiano aplicou um passe em Adelaide e o cansaço foi embora; foram, de mãos dadas, caminhando por entre as alamedas até o ginásio onde Tarsila daria o curso.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 8:08 pm

- 29 -

Fernando acordou bem-disposto.
Fazia três anos que aceitara o emprego na usina de cana.
Ele era um gerente competente, elogiado pelos superiores e colaboradores.
Sentia falta de casa, do agito da cidade grande, dos poucos amigos que deixara.
Também sentia saudades de Gina, embora falassem ao telefone uma vez por semana, inteirando-se das novidades e sem nunca perguntar pela mãe.
Era muito duro para Fernando não ter contacto com ela.
Amava muito Magnólia, mas ficara magoado tanto pela frase infeliz que ela dissera como pela falta de diálogo entre ambos.
Fazia dez anos que não trocava um "oi" com ela.
E ficara amuado ao saber que Paloma mudara-se para a Espanha.
- Ela nunca vai saber que a amo - declarava sempre.
Este dia era especial.
Fernando acordou sem pensar na mãe, na cidade ou no antigo amor.
Receberia a visita de Alessandro, um grande amigo da faculdade.
Alessandro era um rapaz nem feio nem bonito, mas tinha um carisma fora do comum.
Filho de comerciantes, trazia nas veias o tino para negócios.
Era simpático, alegre, divertido e tinha uma cabeça espiritualista.
Os rapazes se encontraram no fim do expediente.
Fernando deu-lhe um abraço afectuoso.
Alessandro era dois anos mais velho e Fernando via nele um irmão em quem podia confiar alguns de seus segredos mais íntimos.
Alessandro, por exemplo, sabia da relação afectiva entre Magnólia e Gina, e jamais fizera um comentário julgamentos o que fosse.
Era um bom ouvinte e estava sempre dando óptimos conselhos a Fernando.
Mas Fernando recusava-se a abrir o coração e falar de seus sentimentos em relação a Paloma.
Alessandro sabia qual era o limite do amigo e o respeitava, deixando Fernando muito à vontade.
Depois do abraço, sentaram-se à mesa do boteco e pediram dois chopes e uma porção de bolinhos de bacalhau.
- Não estamos no Rio de Janeiro, mas confesso que você vai comer um dos melhores bolinhos já servidos - disse Fernando, passando a língua pelos lábios, antegozando o prazer de abocanhar aqueles bolinhos tão bem-feitos.
Os chopes chegaram, e os rapazes fizeram um brinde:
- À nossa saúde e felicidade - brindaram.
- Meu amigo, quanto tempo vai ficar?
- Vim só para te ver - respondeu Alessandro.
- Vai embora amanhã?
- Vou. Preciso.
Estou com mil ideias na cabeça.
- E quais são?
Alessandro ia responder, mas o cozinheiro, um baiano alto e moreno, trouxe os bolinhos.
- Fiz especialmente para você - disse para Fernando, em um sotaque inconfundível.
- Peixão, conheça meu amigo Alessandro.
O baiano cumprimentou Alessandro:
- E ai, meu rei?
Sorriram.
Alessandro perguntou:
- Há quanto tempo trabalha neste bar, Peixão?
- Oxe! Faz dois anos.
- Está satisfeito?
- Nada me falta.
Tenho um quartinho nos fundos do bar, não pago aluguer.
Ganho para me manter.
- Gostaria de ganhar mais?
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 8:08 pm

- E como!
Mas aqui, nesta cidade pequena, as chances de progresso não são lá tão promissoras para um cozinheiro feito eu.
No fundo, não vejo a hora de tomar um chá de se pique.
Alessandro não entendeu.
Fernando interveio:
- Já me acostumei com as expressões.
Peixão não vê a hora de ir embora.
Alessandro prosseguiu:
- Que bom!
E qual é o seu sonho?
Os olhos de Peixão brilharam emotivos.
- Meu sonho é ter meu próprio negócio, lavar a jega!
Fernando adiantou-se na tradução:
- Lavar a égua. Se dar bem.
Peixão continuou:
- Eu tenho uma mão boa para cozinhar.
Aprendi com meu avô, que aprendeu com o pai dele, que aprendeu com os escravos.
Sei fazer de tudo, de cabeça.
- E a comida desse baiano... - suspirou Fernando - você não tem ideia da maravilha que é.
- Gostei de conhecê-lo - Alessandro apertou a mão de Peixão e mordeu um pedaço do bolinho de bacalhau, sequinho e crocante.
- Hum, olha, eu sou capaz de fazer o mesmo que a Ana Maria Braga!
Me deu vontade de ir para debaixo da mesa e murmurar de felicidade.
Os três riram.
Peixão considerou:
- Vou fazer uma moqueca que vai deixá-lo abestado.
- Não precisa se incomodar.
Os bolinhos já estão de bom tamanho.
- Não. Quero que conheça a comida de Peixão - apontou para si.
As receitas dos meus bolinhos são divinas.
Tem bolinho de feijoada, de carne-seca, de aipim com carne moída, de siri, de camarão...
O rapaz se afastou, falante e sorridente.
Fernando indagou:
- Por que tanta pergunta ao homem?
Acaso está apaixonado?
Alessandro deu uma piscada.
- Não estou apaixonado por ele.
Se fosse uma sereia no lugar de um peixão...
- O que tem na mente?
Eu o conheço bem, Alessandro.
- Pois é. Lembra-se de nossa conversa pouco antes de nos formarmos na faculdade?
- Sobre nossos sonhos?
- É.
- Isso faz muitos anos.
- Cinco anos para ser exacto.
Não é tanto tempo para um sonho sumir da memória.
- Eu me recordo do nosso porre e de que queríamos ter um bar para poder beber e não ter de pagar a conta.
Alessandro sorriu, matreiro.
- Um bom sonho a gente nunca esquece.
- Não vá me dizer que...
- Estou com vontade abrir um barzinho em São Paulo.
- Já há milhares de bares lá. Mais um?
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 9:06 pm

- Eu não penso assim - salientou Alessandro.
Não vamos abrir um bar, mas o bar - corrigiu.
- Não estou entendendo.
- Eu tinha uma tia.
Lembra-se daquela velhinha que morava na Vila Madalena?
- Lembro. As incorporadoras querendo comprar a casa da velha e ela lá, firme, deixando os prédios crescerem ao lado e nada de ceder.
- Isso mesmo.
O terreno é grande, tem vinte metros de frente por quarenta de fundo.
A casa é toda em estilo português, daquelas que construíam aos montes em São Paulo na metade do século passado.
Está bem detonada.
- Mas o que tem...
Alessandro sorriu.
Repetiu a pergunta:
- Mas o que tem isso a ver?
Ora, tia Lucinda morreu e deixou a casa para mim.
- Não acredito.
- Sério. Já acertei a papelada com os advogados, passei a escritura e tudo.
- Então vai vendê-la.
- Não. Você se engana.
Eu vou transformar o casarão no nosso bar.
- Nosso?
- É, Fernando. Nosso. Meu e seu.
E acho que vou dar uma participação para o Peixão.
- Você deve estar maluco!
- Porquê?
- Arriscar-se em um negócio assim, do nada?
Você mal conhece o Peixão.
- O suficiente para sentir que nós três vamos fazer muito sucesso.
- Meu emprego aqui está bom.
- Médio. Você até ganha bem, mas está afastado dos seus.
Sei que adoraria voltar para São Paulo.
- É verdade.
Mas ainda não fiz um pé-de-meia suficiente para pedir demissão.
Não me sinto seguro.
- E os imóveis que tem no seu nome, não contam?
Fernando fechou o cenho.
- Aquilo não me pertence.
- Como não?
Seu tio deixou alguns imóveis em seu nome.
- Não quero.
- Nada de bancar o menino turrão - observou Alessandro.
Você já deveria ter perdoado sua mãe há muito tempo.
- Difícil perdoar alguém cujo maior desejo foi não engravidar.
- Já sei essa história de trás para a frente.
Você escutou parte da conversa.
Sua tia Gina disse para você relevar e abrir-se com sua mãe.
- Não quero. Ela não me ama.
Esconde a identidade do meu pai.
- Faz isso para defender você.
- Acha mesmo?
- Sim. Um dia, quando estiver pronto, todas as respostas virão de mão beijada.
Agora, deixe de ser um garoto mimado.
A vida sempre faz o melhor para nós.
Olhe pelo lado positivo da vida: sua mãe o trouxe ao mundo, criou-o com amor e afecto.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 9:06 pm

- E quase me encheu de medo do mundo.
Se não fosse tia Gina, eu teria medo da própria sombra.
- Mas seu espírito já sabia que a negatividade é uma maneira de a sua mãe - enfatizou - enxergar a vida.
Não a sua. Magnólia é uma boa mãe.
Uma mulher perturbada pelos pensamentos ruins que cultiva, mas tem uma essência boa.
- Fala dessa forma porque não a conhece de facto.
Alessandro o cortou com amabilidade.
Bebeu do seu chope e estalou a língua no céu da boca.
- Tem razão.
Mas, se você for se deixar entristecer por todo e qualquer comentário negativo que façam a seu respeito, terá de viver como o menino da bolha de plástico4.
- Não precisa exagerar.
- Está dando muito poder ao negativo.
Precisa parar de se incomodar com a opinião dos outros.
Meu amigo, escute:
você precisa se fortalecer, sair do círculo vicioso de lamúrias em que se colocou.
Para isso, só há um caminho:
valorizar o bem.
- É?
- Sim. Observe como pensam os que vivem melhor.
Você vai notar que eles olham a vida de maneira optimista, têm fé no futuro, cultivam a espiritualidade.
- Não sei se sou espiritual.
Não frequento centro, templo, igreja...
- Faz bem frequentar um lugar destinado à oração, mas não é obrigatório, porquanto ser espiritual é viver no bem maior, não se impressionando com o mal em nenhum momento, visto que ele é fruto das ilusões do homem que vai, fatalmente, desaparecer.
A certeza de que existe uma força superior comandando o universo, trabalhando em favor de nossa felicidade, nos traz segurança, dá serenidade, bem-estar e garante a paz.
Fernando ficou pensativo.
As palavras do amigo mexiam com ele.
Alessandro prosseguiu, firme:
- Chega de se isolar do mundo, como tentou fazer vindo viver aqui.
Está na hora de dar um passo à frente.
Se você é mais lúcido que sua mãe, jogue o orgulho de lado e converse com ela, de uma vez por todas.
Olho no olho, coração com coração.
Seja sincero.
Ninguém resiste à sinceridade.
- Não sei.
Alessandro continuou:
- Sabemos como sua mãe engravidou.
Não é segredo que você foi gerado à força, contra a vontade.
Imagine o que passou e ainda passa pela cabeça dela.
Entendo sua mãe.
Se ela pudesse não ter tido contacto com o seu pai, ela poderia ter tido uma outra vida.
São questões de foro íntimo que não têm nada a ver com o amor que Magnólia sente por você.
- Gina demonstra ter mais afecto.
- Porque Gina é outra pessoa. É diferente.
- Minha mãe nunca mais conversou comigo depois daquele dia.
- Porque você não deu a ela a chance de se remediar.
Foi muito duro.
- Eu, duro?! - indignou-se Fernando.
- Sim. Duro.
Você cobra uma postura de sua mãe porque também falhou no mesmo ponto.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 9:07 pm

- Não entendi.
- Durante um porre na faculdade, você me disse que amava uma garota.
Fernando remexeu-se de maneira nervosa.
- E daí? O que isso tem a ver?
- Então vou ser bem claro:
será que um dia essa garota vai saber o quanto a ama?
Se é que já não se casou com outro.
Fernando fechou os olhos e respirou fundo.
Passou a mão no peito, oprimido.
- Não sei.
O semblante de Alessandro modificou-se:
- Negar o que sente é o mesmo que levar uma vida sem o mínimo de motivação.
É como passar pela vida sem viver, sem desfrutar da bênção de mais uma reencarnação, procurando se livrar de conceitos antigos que atravancam o crescimento do seu espírito.
Estamos no mundo para ser estimulados e motivados.
Viver na Terra é um prazer, é um grande privilégio, uma grande conquista.
- Já imaginei tantas formas de me aproximar.
- E os anos estão passando.
Está na hora de agir.
Pare de se torturar com o se.
- Se ela soubesse o quanto a amo!
- Ainda tem contacto com a garota?
- Não. Não tenho.
Alessandro conhecia Fernando como a palma da mão.
Achou melhor não dar continuidade àquele assunto.
E brincou:
- Sente-se seguro em voltar comigo para São Paulo?
Vamos ter nosso próprio negócio, montar nosso bar?
- Faz um tempo que penso em seguir outros rumos na carreira.
Desde quando você me deu aquele livro, não paro de pensar nas várias possibilidades de crescer e prosperar.
- Que mudou a minha vida, a sua vida e a de muitos.
E ainda vai mudar a vida de muita gente. Para melhor5.
- Qualquer pessoa, esteja onde estiver, seja qual for a sua ocupação, encontrará sempre uma oportunidade para ser mais útil, e portanto mais produtiva, se desenvolver a sua imaginação e fizer uso dela - disse Fernando, referindo-se a uma das máximas do pensador.

4 O menino da bolha de plástico é um filme americano de 1976, feito para a televisão, baseado na história real de um garoto com baixa imunidade que vive dentro de um contêiner de plástico.
Filme de estreia do actor John Travolta.

5 Alessandro se refere ao livro A lei do triunfo, publicado em 1928 por Napoleon Hill (1883-1970), um dos homens mais influentes na área de realização pessoal de todos os tempos.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 9:07 pm

- 30 -

A voz nos alto-falantes anunciava:
- Doutor Erik, sala cinco.
Doutor Erik, queira por gentileza dirigir-se à sala de número cinco.
Erik apertou o passo e a recepcionista sorriu:
- Doutor, a dona Elise já foi levada para a sala de parto.
- Estou a caminho.
- Doutor - um jovem aproximou-se -, o que faço com o exame da dona Miriam?
- Os resultados já chegaram?
- Sim.
- Leve-os para a minha sala.
Assim que terminar este parto, eu o chamarei.
- Sim, senhor.
Erik entrou na sala de cirurgia e, minutos depois, o choro de mais um recém-nascido ecoava pelo ambiente.
A enfermeira pegou o bebezinho e o levou até a mãe:
- Olhe seu filhinho, Elise.
A moça, olhos embaciados, beijou o bebezinho.
Erik sempre se emocionava com essas cenas.
Perdera a conta de quantas crianças trouxera ao mundo, porém, cada novo parto fazia seu espírito vibrar de contentamento.
- O milagre da vida.
Mais um espírito no mundo.
Que sua encarnação seja abençoada! - ele costumava sussurrar enquanto o recém-nascido era levado para os braços da mãe.
Uma das enfermeiras o cutucou de leve:
- O próximo parto está programado para as duas da tarde.
O senhor pode ir almoçar.
- Estou preocupado com a paciente.
O feto não está em uma boa posição.
- As últimas imagens revelaram uma pequena mudança na posição, doutor.
Creio que tudo vá correr bem.
Ele sorriu e saiu.
Limpou-se, trocou-se e foi para a sua sala.
Atendeu o assistente, conferiu os exames de dona Miriam.
- Está tudo bem, Joel.
Ligue e agende a consulta com dona Miriam.
- Sim, senhor.
- Mais alguma coisa?
- Não. Pode ir almoçar.
Deve estar louco de saudades de sua filha.
Joel sorriu e saiu.
Os olhos de Erik brilharam emocionados.
Deixou a sala em ordem, apagou a luz e foi para casa.
Tinha o hábito de, sempre que possível, almoçar com a família.
No trajecto, foi pensando nas diferenças sobre os diversos trabalhos que prestava.
Durante o dia, invariavelmente, realizava partos em um conceituado hospital particular, um dos mais caros da cidade.
Tudo ali era limpo, asseado, organizado, bem-arrumado.
Três vezes por semana, à tarde, realizava partos em um hospital localizado em um bairro pobre no extremo sul da cidade.
A precariedade e o atendimento de má qualidade eram patentes, mas Erik não se deixava vencer pelo desânimo.
Fazia a sua parte.
Realizava os partos com a mesma dedicação e alegria.
Infelizmente, muitas crianças ali nasciam prematuras e fracas, doentes, necessitando de cuidados.
Ele providenciava tudo que podia e, nos casos mais graves, encaminhava para a sua instituição.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 9:08 pm

Sim. Ao completar vinte e cinco anos, Erik recebeu a fortuna do avô e usou boa parte do dinheiro para fundar uma instituição voltada ao atendimento de crianças doentes, com má-formação genética.
Geralmente eram crianças rejeitadas pelas mães, ou cujas mães morriam ao dar à luz.
- Mais um espírito em tristes condições que acaba de reencarnar.
Qual é o motivo de ter nascido desta forma?
O que há por trás das engrenagens que movem o destino dos homens? - sussurrava enquanto vibrava positivamente para aqueles pequeninos seres que chegavam ao mundo já comprometidos física, emocional e, por que não, espiritualmente.
- A vida tem lá suas leis.
Muitas vezes eu não entendo, mas confesso que tudo segue perfeito aos olhos de Deus.
O que eu puder fazer para ajudar e melhorar estas vidas, farei - disse, enquanto dirigia.
Embicou o carro na portaria do condomínio para onde acabara de se mudar com Juliana e sua filhinha de três anos, Sofia.
Erik sorriu, cumprimentou os guardas, passou pela cancela e estacionou na garagem de casa.
A babá apareceu com a pequena no colo.
Sofia abriu largo sorriso:
- Papaizinho!
Ele saiu do carro e pegou a menina.
Estreitou-a contra o peito e beijou-a várias vezes.
- Olá, meu amor. Como está?
- Bem.
- E mamãe?
- No quarto.
- Hum, sua pele está com sabor de...
- Chocolate - interveio Nena, a babá.
E precisamos nos arrumar para o almoço.
- Não quero.
- Precisa.
Sua mãe quer vê-la bem-arrumada.
Venha com a Nena.
Sofia desgrudou-se do pai e abraçou-se à babá.
Erik entrou e tropeçou em uma boneca.
Abaixou-se, pegou o brinquedo e olhou ao redor da sala, feliz.
Ele terminou o segundo grau, na sequência passou no vestibular e entrou na faculdade de medicina.
Engatou namoro com Juliana.
Ela, por sua vez, prestou assistência social e passou.
Concluído o curso e depois do tempo de residência, Erik e Juliana casaram-se, em uma cerimónia simples, mas tocante e muito bonita, no salão do clube que frequentavam.
No ano seguinte, Juliana deu à luz Sofia.
Seis meses depois, engravidou novamente, teve complicações durante a gestação e precisou de uma cirurgia de emergência.
Juliana perdeu o bebé e, por conta da forte hemorragia, perdeu a capacidade de gerar filhos.
Isso a entristeceu sobre-maneira.
Erik procurava mostrar a Juliana que a vida havia lhes presenteado com uma filha linda e saudável e lhes confiara muitos outros filhos que não eram de sangue, porquanto Juliana trabalhava e cuidava das crianças da instituição como se fossem suas.
Quando ocorriam as poucas, diga-se de passagem, adopções, Juliana chorava e se emocionava.
Ela continuava gordinha, um pouquinho mais do que o habitual.
Mas seus exames de saúde estavam todos em ordem, e o amor de Erik abriu caminho natural e sólido para que Juliana parasse de se comparar às outras mulheres e aprendesse a aceitar-se incondicionalmente.
Cheia de jovialidade e vestida de uma auto-estima inabalável, Juliana transformara-se em uma mulher adorável e de extrema simpatia.
Ela desceu as escadas, apressada.
Sorriu ao ver Erik divagando.
- Um pudim de chocolate pelo seu pensamento! - ela falou e beijou-o nos lábios.
- Oi, meu amor.
Estava aqui pensando na nossa vida.
Como somos abençoados.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 9:08 pm

- É. Formamos uma família feliz.
Pena que esta família não será aumentada...
- Querida!
- Sim, sei que temos muitos outros "filhos".
Eu só queria entender melhor o porquê de não poder gerar mais um.
Sempre sonhamos com um casal.
- A gente adopta.
- Tenho pensado muito sobre isso.
Sabe que até sonhei com um menininho dia desses?
- É? - Erik se interessou.
- Era tão bonitinho.
- Então era filho meu!
Eles riram.
- É um sonho recorrente.
Mas não bate com nenhum rostinho das crianças do instituto.
- Vai ver ele ainda não chegou.
- É. Pode ser.
Mas algo me diz que não vai demorar muito.
- Se sua irmã continuar doidinha do jeito que é... - considerou Erik.
- Também já pensei na possibilidade de Paloma aparecer grávida de não sei quem.
- Ela vem para as festas de fim de ano?
- Não confirmou.
Conversamos ontem pelo computador.
Achei-a meio abatida.
- Conversou com Lena?
- Sim. Lena diz que esse novo namorado da Paloma não é boa pessoa.
Está preocupada.
- Lena tem um sexto sentido bem aguçado.
Se ela afirma que o sujeito não é lá essas coisas, melhor Paloma considerar.
- Mas vai fazer minha irmã entender!
Ela acha que Lena está a fim do namorado dela.
- Lena é tão meiga, tão doce.
Jamais agiria de maneira venal.
- Eu sei.
Contudo, Paloma nunca se acertou afectivamente.
É muito insegura.
- Engraçada a vida, não?
- Porquê?
- Porque Paloma é o tipo de mulher que a maioria dos homens deseja.
Tem um corpo escultural, é loura, tem feições delicadas, é muito atraente.
No entanto, está sempre metida com tipos ordinários.
E você, considerada um tipo que não se enquadra no modelo social, é amada, tem um marido apaixonado e uma filha linda.
Juliana o beijou nos lábios.
- Devo tudo a você.
- Não. Você deve tudo à sua maneira positiva de encarar a vida.
Posso tê-la ajudado a melhorar, mas o mérito é todo seu.
Escolheu não ligar mais para a estética ridícula que a sociedade tenta impor, deixou de cobrar-se, parou de atormentar-se para ter um corpo que não combina com o seu espírito.
Você é única.
É do jeitinho que é, e eu amo cada pedacinho desse corpo!
Ele a abraçou e a rodopiou pela sala.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 9:08 pm

Sofia correu até eles:
- Me roda também, papaizinho?
Erik a pegou no colo e a girou pela sala.
Ele e Juliana formavam, efectivamente, uma família feliz.
Paloma cursara letras com ênfase em língua espanhola.
Metera-se com um namorado ciumento e bom de briga e, para deixar de ser perseguida por ele quando rompeu o namoro, decidiu passar uma temporada fora do país.
Matriculou-se em um curso de história da arte.
Lena já havia se formado e conseguira uma bolsa para o mestrado em restauração na Universidade de Barcelona.
Trabalhava com uma equipe responsável pela recuperação de monumentos.
Era feliz e namorava Ramón, um rapaz de boa índole, mas de vida instável.
Lena sabia que um dia aquela relação iria terminar.
Só não sabia quando nem como.
Ao saber que Paloma estava em apuros, fugindo do namorado briguento, Lena ofereceu-lhe estadia.
- Você pode vir para cá e trabalhar com tradução, ou dar aulas de português para estrangeiros.
Paloma aceitou o convite.
Fazia três anos que vivia em Barcelona e, naturalmente, não concluíra o curso de história da arte.
Contudo, encantara-se pela cidade.
Apaixonara-se pelos passeios realizados no centro da cidade.
Passava horas admirando construções belíssimas, como o Palácio da Vice-Rainha, o Mercado da Boqueria e o Grande Teatro do Liceu.
Quando passeava pelas Ramblas, caminhava até a Praça Real, uma praça com palmeiras, edifícios, bares, restaurantes e postes desenhados por Gaudí6.
Depois de abandonar o curso, conseguiu emprego em uma escola de idiomas, e o salário dava para ajudar Lena nas despesas do apartamento, localizado na Carrer de Lope de Vega, travessa da Avenida Diagonal.
Sobrava pouco para os passeios, mas o suficiente para frequentar bares e restaurantes.
Após tentativas fracassadas, Paloma apaixonou-se por Javier, um espanhol com dois metros de altura, cara de mau; entretanto, segundo confissões dela, atraente e cheio de apetite... por ela.
- É o homem que sonhei para mim! - suspirou.
- Não é homem para você - advertiu Lena.
- Imagine.
Um hombre de dois metros de altura por dois de largura, bonito e romântico?
Onde pensa que vou encontrar outro igual?
O mar não está para tanto peixe assim - rebateu.
- Não sinto coisa boa.
Você fala em Javier e me arrepio inteira.
- Porque ele é capaz de fazer uma mulher arrepiar-se - considerou Paloma.
- Arrepiar-se de medo, isso sim.
Querida - Lena procurava ser delicada -, não se meta em outra encrenca.
Desde que chegou a Barcelona, quantos homens já espezinharam seu coração?
- Agora é diferente.
- Diferente em quê?
- Nenhum homem chega aos pés de Javier.
O que tive até há pouco foram momentos.
- Momentos terríveis, diga-se de passagem.
- Está agourando meu namoro?
- Não é isso.
- Eu não gosto de Ramón.
Nunca disse um "a" sobre esse seu namorado chinfrim.
- Ramón é um bom companheiro, mas é uma história que não vai longe.
O homem que vou amar para valer não é daqui.
- De novo esse sonho?
- Sim. Eu sei que vou retornar ao Brasil e vou me apaixonar por outro homem.
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Ave sem Ninho

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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 9:08 pm

- Eu não entendo você, Lena.
Diz cada barbaridade!
Ramón não vai pedir sua mão?
Não vão juntar os trapinhos?
- Com esta crise económica?
Tivemos de adiar os planos.
E minha sensibilidade diz que nossa história vai sofrer uma ruptura.
Não vai demorar.
Dessa vez, quem sentiu um arrepio foi Paloma.
- Não gosto quando você fala assim.
- Eu sinto as energias ao redor.
Não vejo Ramón ao meu lado para sempre.
- Não estou gostando desta conversa.
- Escute, Paloma.
Eu gosto muito de você.
Desde que nos conhecemos, eu sempre lhe tive enorme e sincera afeição.
- Eu sei.
- Jamais falaria algo para perturbá-la.
Eu quero o seu bem.
- Então me deseje sorte ao lado de Javier.
- Não.
- Ele é rico.
- Já ouvi comentários de que é um homem metido com negócios escusos.
Paloma deu de ombros.
- E daí? Se ele pode me dar luxo e conforto, por que reclamar?
Não me importo como ele ganha dinheiro.
- Eu não estou acreditando em suas palavras - Lena estava estupefacta.
- Eu é que não acredito nas suas.
Está jogando um balde de água fria em cima do meu namoro.
E se, desta vez, eu for feliz?
- Não vai ser.
- Quer apostar? - Paloma esticou a mão.
- Não. Não quero apostar.
Só quero o seu bem.
Mais nada.
O celular tocou e Paloma atendeu.
- Sim. Daqui a pouco.
Certo, querida, tchau.
- Quem era?
- A Eduarda.
- Sabia que você estava diferente.
Você e Eduarda agora são unha e esmalte.
- É. Ela é minha amiga e não me censura por namorar Javier - provocou.
- Eduarda é que está enchendo a sua cabeça de caraminholas sobre dinheiro.
Você não era assim.
Nunca a vi namorar um homem por conta de dinheiro.
- Mas estou esbarrando nos trinta anos.
Nunca guardei nada e a profissão que tenho nunca vai me tornar rica.
- E para que quer ser rica?
Você é uma boa moça, foi educada por pais maravilhosos, recebeu uma boa base.
Por que se rebelar a essa altura da vida?
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Ave sem Ninho

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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 9:09 pm

- Maturidade.
Eu cresci e não sou mais aquela garota bonitinha, mas bobinha.
Paloma aproximou o rosto e beijou Lena.
- Não me espere para dormir.
Vou jantar com Eduarda e saber novidades da separação dela com o inglês.
Lena sentiu leve tontura.
- O que foi? - indagou Paloma, assustada.
Ficou pálida de repente.
- Eduarda...
- O que tem?
- Não sei. Mas vou rezar por ela.
- Ah, Lena.
Você é esquisita, mas eu a adoro!
Paloma despediu-se, apanhou a bolsa e saiu.
Lena sentou-se no sofá e apertava nervosamente as mãos.
Fechou os olhos e teve uma visão. Nada boa.
Fez uma sentida prece em favor de Eduarda.
- Meu Deus!
Proteja essa menina.

6 Antoni Placid Gaudí i Cornet (1852-1926) foi um arquitecto catalão, um dos símbolos da cidade de Barcelona e ícone do modernismo catalão, uma variante local do estilo art nouveau.
Dentre suas obras destacam-se: o templo da Sagrada Família, o Parque Giiell e a Casa Milà, entre outros.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 9:09 pm

- 31 -

Paloma atravessou a rua e fez sinal para o táxi.
Entrou no carro e deu o endereço da casa de chá.
Dez minutos depois estava sentada à frente de Eduarda.
- Está magra.
Fazendo dieta de novo? - indagou Paloma.
- Não. Depois da gravidez fiquei assim.
Em vez de engordar, emagreci.
- Podemos comer o mundo que não engordamos.
Diferentemente de Juliana.
- Como está sua Irmã?
- Bem. Muito bem.
Juliana leva a vida que sempre quis: tem um marido que ama, uma filha linda e é apaixonada pelo trabalho.
Só ficou chateada porque, depois que Sofia nasceu, engravidou de novo, teve complicações e não pode mais gerar filhos.
- Um dia ainda me acerto com sua irmã.
- Bobagem! - fez Paloma com as mãos.
Éramos adolescentes.
Juliana nem se lembra mais das gozações.
- Lembra, sim.
Essas brincadeiras de mau gosto na adolescência marcam a gente.
- Mas Juliana ama e é amada.
O amor é capaz de provocar mudanças significativas nas pessoas.
Tenho certeza de que minha irmã não guarda rancor de você.
- É - Eduarda fitou um ponto indefinido.
Eu me sentia insegura e achava que nunca estaria à altura de minha mãe.
Precisava descontar minha insegurança em alguém.
- Podia ter descontado em Bruna, ou em mim.
- Podia. Ocorre que Juliana sempre se mostrou frágil, sempre achou que valia menos.
Eu me sentia insegura de outra forma, por outros motivos e, por sintonia, acabei grudando no calcanhar dela.
Nunca foi pessoal.
- Por pouco você não criou uma situação extremamente constrangedora na noite do baile.
- Sei, Paloma.
Graças a Deus a fita não era compatível.
- Fale baixo - disse Paloma.
Não fale em fita. Isso revela nossa idade!
Coisa antiga.
As duas riram.
Eduarda prosseguiu:
- Há coisas das quais a gente não se arrepende.
Mas algumas mexem comigo.
Eu não me perdoaria se tivesse exposto sua irmã ao ridículo.
- Por que a brincadeira de mau gosto, então?
- Porque sua irmã era o antídoto do que minha mãe me obrigava a ser.
Imagine uma mãe linda, com o corpo perfeito, que vigia vinte e quatro horas por dia o que você come, quantas vezes foi à academia na semana, quantas massagens fez...
Minha mãe se preocupava mais com minhas faltas na academia do que com as faltas na escola.
- Glória sempre foi uma figura excêntrica.
- Excêntrica? Você não tem ideia.
A maluca não está lá para os lados do Himalaia à procura da fórmula eterna de rejuvenescimento?
- O que é isso?
Fórmula mágica? - riu Paloma.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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