O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 9:09 pm

- Você só pode estar brincando comigo.
- Negativo. Minha mãe acessou a internet e descobriu um grupo de malucos que faz uma dieta para lá de esquisita e se recusa a envelhecer.
Dizem que há um local, na subida de uma cordilheira, onde as pessoas tomam um chá de uma árvore cujas folhas só nascem nesse monte.
Dizem que as folhas são milagrosas.
- Algo como Shangrilá7?
- Mais ou menos.
Só espero que, ao descer o monte, mamãe não envelheça tão rápido como os habitantes de Shangrilá.
- Ela sabe do nascimento de seu filho?
- Não. Quando engravidei, liguei para ela, pedindo socorro.
Nunca pretendi engravidar.
Mas ela, para variar, foi estúpida e disse que quem havia aberto as pernas tinha sido eu e por isso mesmo eu deveria me virar.
Paloma moveu a cabeça para os lados.
- Bom, ao menos seu Octaviano pôde ajudá-la.
Se eu soubesse, também estaria ao seu lado.
- Fiquei insegura.
Papai, mesmo distante, ajudou-me no que foi preciso.
- E Christopher?
Já assinaram a separação?
- Já. Temos mais uma reunião semana que vem, só para deixar claro que eu não vou ter direito a nada.
Eu fico livre e com a guarda definitiva do meu filho, e ele fica com todo o dinheiro dele.
- Podia ao menos receber uma pensão.
- Hello-o! Não dá, Paloma. Homem traído não perdoa.
Christopher cresceu na Inglaterra, teve uma educação liberal.
Mas eu meti um chifrão nele.
O que fazer?
- Como foi que ele descobriu que o filho não era dele?
Eduarda riu-se.
- Nunca conversamos sobre filhos.
Christopher vinha de um casamento com dois rebentos.
Eu achava que estava tudo bem.
- Mas ele a idolatrava.
Você salvou a vida dele.
- Salvei. Naquela fatídica noite, apertei o meu cinto e puxei o cinto do banco dele, protegendo-o.
Foi isso que salvou nossas vidas.
Depois disso ele achou que me devia a vida, me pediu em casamento, viemos para a Europa e o resto é história.
Eu só não podia imaginar duas coisas:
que o segurança dele era um gato, e que Christopher havia feito vasectomia.
Paloma meneou a cabeça.
- Você ficou numa sinuca de bico.
Entre a cruz e a espada.
- Nem deu para mentir.
Quando apareci grávida, ele riu, disse que eu podia ter a criança, que daria o sobrenome a ela e me daria a guarda definitiva, e que nossa separação seria discreta, sem alarde.
Afina], Christopher tem ligação com a família real.
- Só você, Eduarda.
E ainda teve a coragem de ter o bebé.
- Sim. Posso ser meio doidinha, não ser boa em geografia - ambas riram -, mas eu dou valor à vida.
- E o segurança?
Sabe que é pai?
- Não. Christopher o despediu, mandou-o para a Irlanda, sei lá.
Achou que era melhor assim, para evitar escândalo ou, lá na frente, uma chantagem.
- E agora?
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 9:09 pm

- Papai me disse que o melhor é eu ir embora de Barcelona.
Quando Dante estiver mais crescidinho, vou voltar para o Brasil.
- Cansou da Europa?
- Não sei se cansei.
Eu desejo que meu filho cresça no Brasil.
- Você me surpreende a cada encontro.
Não se parece em nada com aquela garota mimada que infernizava a vida dos colegas na escola.
- Ainda bem que tenho a chance de mudar.
Depois do acidente, quando vi a morte assim na minha frente, revi muita coisa.
- O homem que dirigia o outro carro morreu.
- Pois é. Embora Christopher tivesse bebido, o outro motorista foi quem provocou o acidente.
O outro, pior do que bêbado, estava drogado.
Ele morreu e podia ter nos matado.
Christopher desmaiou, eu fiquei em estado de choque.
Havia muita droga espalhada no carro do outro rapaz, e a família do moço morto é conhecida e não queria que saísse nada na imprensa.
O caso foi encerrado de maneira rápida, ou seja, abafaram o caso.
- Lembro-me o quanto você ficou abalada.
- Depois daquela noite, tudo mudou.
Meus conceitos transformaram-se radicalmente.
Vi que precisava investir em mim, parar de brigar com o mundo e deixar minha mãe de lado.
Por isso sou grata a Christopher.
Ele apareceu na minha vida no momento certo.
Graças a ele, eu pude ter a vida que sempre quis.
Paloma terminou seu chá e mordiscou os lábios, dizendo pensativa:
- Bruna e Caíque sofreram acidente na mesma noite e não tiveram a mesma sorte.
- É - considerou Eduarda.
Eu e Christopher batemos o carro em um cruzamento e eles bateram em outro cruzamento, do outro lado da cidade.
Quase na mesma hora.
- Que loucura! E Bruna?
Tem notícias dela? Ainda manca?
- Fez cirurgias, mas uma perna ficou mais curta que a outra.
Concluiu a faculdade, formou-se advogada.
Trabalha na instituição criada pelo meu cunhado.
- Bom para Bruna.
Naquela noite no baile, notei em seus olhos como gostava de Juliana.
Fico feliz que elas continuem amigas.
- Amigas?
Juliana é mais ligada em Bruna do que em mim.
- Senti uma ponta de ciúme - brincou Eduarda.
- Um pouquinho.
- Também, você se afastou de todos.
Depois que você se envolveu com Javier, só vive para ele.
- O que fazer? Eu o amo!
- Ama nada, Paloma.
Isso é fogo de palha.
- Que é? Agora deu para agourar meu namoro?
- Hello-o! Javier é outro que não presta.
Você tem algum mecanismo no subconsciente que adora atrair homens cafajestes em seu caminho.
- Paciência. O que fazer?
Nunca tive sorte no amor.
- Porque escolheu.
Mude seu modo de pensar e tudo poderá ser diferente.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 9:09 pm

- Como mudar?
Javier me excita.
- Mas é um cara do mal.
Meu pai está tentando se livrar dele. Está difícil.
- Não sei nada dos negócios de Javier.
- Eu também não.
Meu pai nunca falou abertamente comigo sobre essa sociedade esquisita com Javier.
Não me interessa.
Ele já me passou quase todo seu património e eu tenho mais do que o suficiente para viver bem e criar meu filho com um pouco de luxo e sofisticação.
- Javier vai mudar porque eu vou mudá-lo.
- Hello-o, Paloma! Acorda.
Ninguém muda ninguém.
- Ele é o homem da minha vida.
- Por falar em homem da sua vida, tem notícias do Fernando?
- Nunca mais.
Desde que ele entrou na faculdade e mudou-se de cidade, nunca mais nos vimos.
Sei dele por intermédio de meus pais.
Por que pergunta de Fernando?
Eu estou aqui falando de Javier.
- Você ainda vai se estropiar com o Javier.
E não estou agourando. Eu sinto.
Terminaram o chá, saíram e resolveram caminhar um pouco.
O outono estava intenso, e as tardes eram bem geladas.
Paloma e Eduarda gostavam do frio e adoravam sentir a brisa fria do mar tocando-lhes a face.
Paloma tropeçou.
Uma moça a segurou, evitando que tomasse um tombo.
- Obrigada - respondeu Paloma, em espanhol.
Sou meio desastrada mesmo.
A moça tinha os olhos verdes e profundos.
Estava vestida com roupas ciganas.
Encarou-a e segurou sua mão.
- Buena dicha?s
- Não gosto de previsões - disse Paloma.
- Eu adoro - respondeu Eduarda.
Ela falou e abriu a palma da mão para a cigana.
- Pode ler para mim, cigana?
A moça sorriu e pegou a mão de Eduarda.
- Você não terá uma vida longa.
Eduarda deu de ombros.
- Não quero.
- Seu filho será um grande homem. Ilustre.
Eduarda sentiu-se toda prosa.
Em seguida, a mulher pegou a mão de Paloma.
Estremeceu e Paloma puxou a mão:
- O que foi?
- Nada. Senti um pouco de tontura.
Mas, se quiserem, podem ir à nossa tenda.
- Para quê? - indagou Paloma.
- Para saber o que ananke reserva para vocês.
- O... o quê?
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 9:10 pm

- Hello-o! - disparou Eduarda.
Você vive em Barcelona e não conhece as ciganas?
Ela perguntou se queremos saber o que o destino nos reserva.
- As mulheres velhas lêem muito bem as cartas - tornou a moça.
As cartas não mentem jamais.
- Vamos, Paloma - inquietou-se Eduarda.
Paloma olhou desconfiada para a moça.
- Quanto custa?
- O quanto quiserem nos pagar.
- E onde fica a tenda?
A moça apontou com os dedos.
Ficava ali perto.
- Confiem em mim.
Meu nome é Lia e eu não vou roubá-las.
- Eu vou de qualquer jeito - afirmou Eduarda.
- Não sei...
- Vamos perguntar sobre você e Javier.
O que acha?
Paloma foi convencida e resolveram seguir a moça.
Caminharam duas quadras e entraram em uma tenda.
O local era pequeno, mas bem-arrumado.
A cigana, já idosa, sentada sobre uma grande almofada, manipulava um baralho envelhecido que dava sinais de que fora utilizado muitas vezes.
A moça fez um sinal, e as duas entraram.
Eduarda sentou-se à frente da velha mulher.
- Você é muito bonita - elogiou a velha.
Eduarda sorriu e pensou:
"Claro, eu sou linda!"
A moça acendeu um incenso e disse:
- A velha Nadja é cega.
Eduarda emudeceu.
A velha levantou os cabelos acinzentados, e os olhos eram brancos como neve.
Completamente brancos.
Dava uma impressão aterradora.
- Jesus amado!
Como ela sabe que sou bonita?
- Porque Nadja vê com os olhos da alma.
A velha fez um sinal, e Lia saiu.
Paloma ajeitou-se nas almofadas logo atrás.
Nadja começou a embaralhar as cartas e pediu para Eduarda cortar.
Começou a leitura.
Nadja disse muitas coisas sobre a vida de Eduarda que evidenciavam a alta sensibilidade da velha cigana.
- Sua mãe é muito presa na beleza.
Ela sofre com isso.
- O que posso fazer?
- Sua mãe é assim porque foi rejeitada por um moço.
Ela achou que não era bonita o suficiente.
Agora o homem está maduro e viúvo.
Pensa em sua mãe todos os dias.
O nome dele é António.
- Não faço a mínima ideia de quem seja.
Mas, se um dia ela voltar do Himalaia, eu juro que contarei a ela...
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 9:10 pm

A velha a cortou:
- Seu filho vai ser um homem muito importante.
Tem muita espiritualidade.
Vai crescer em um lar com muito amor.
- Eu vou me casar de novo?
- Não vai - Nadja respondeu seca.
- Ainda bem.
Eu só quero saber de namorar.
Nadja disse algumas outras coisas.
Finalizou a leitura e chamou Paloma.
Ela sentou-se à frente da velha mulher.
Nadja embaralhou as cartas e, enquanto as manuseava, observou:
- Você também é muito bonita.
- Obrigada.
- Mas é muito insegura.
Sofreu muito por amor no passado.
"Eu nunca sofri por amor", pensou Paloma.
Essa velha está gagá, isso sim.
Nadja sorriu e devolveu:
- Você, sua irmã, essa moça - apontou para o lado onde Eduarda estava sentada - e mais a manca foram irmãs em outra vida.
Você acreditou ter sido traída por seu esposo, mas a verdade é que ela - apontou para Eduarda - armou uma cilada para separá-los.
Você jurou que nunca mais iria entregar seu coração a nenhum homem.
Por isso, está sempre se metendo em encrencas afectivas.
- Eu amo Javier.
- Ele não é para você.
Vai ter muita confusão.
- Mas...
Eduarda a cortou.
- Hello-o! Deixe a mulher falar!
Estou interessada - respirou e perguntou:
- Nadja, você diz que eu e Paloma fomos irmãs?
- Sim. E a gordinha e a manca também.
As duas se entreolharam, surpresas.
Nadja prosseguiu:
- A gordinha descobriu a trama que você armou para a própria irmã e, para se vingar, ajudada pela manca, roubou seu filho e foi viver em outra cidade.
Você ficou arrasada, sem nunca mais ter notícias do seu filho.
Vocês quatro enlouqueceram depois da morte do corpo.
Perseguiram-se por anos nas trevas e reencarnaram com o propósito de acertar-se.
- Paloma, a velha não nos conhece e falou de Juliana e Bruna! - cochichou.
Essa mulher é uma feiticeira! Das boas.
- A moça que mora com você foi sua protectora no passado. Confie nela.
Paloma deu de ombros.
- A mulher está falando de Lena - retorquiu Eduarda.
- Será?
Lena pega no meu pé, por conta desse namoro.
- Porque ela gosta de você, de verdade.
A velha está dizendo...
- E daí, Eduarda?
É pura adivinhação, mais nada.
Não vamos nos impressionar.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 8:04 pm

- Você é quem sabe.
Eu estou impressionadíssima.
Nadja fez um sinal para Eduarda parar de falar e continuou falando de passagens da vida de Paloma.
Falou do amor de Isabel e Paulo.
- Você pode ter o mesmo amor que seus pais têm.
- Com Javier.
A velha meneou a cabeça negativamente.
- Não. Esse homem cheira perigo.
Ele não serve para você.
Seu amor está do outro lado do Atlântico.
Paloma exasperou-se.
Levantou-se nervosa.
Lia entrou na tenda.
- Gostaram?
- Eu adorei - falou Eduarda.
- Quanto é? - perguntou Paloma, contrafeita.
- Quanto quiserem pagar.
Eduarda abriu a bolsa e apanhou um punhado de notas.
- Eu vou voltar.
Tem tanta coisa que eu quero saber!
- Impossível - tornou Lia.
Vamos embora amanhã.
- Para onde? - perguntou Eduarda.
Eu vou encontrá-las.
- Não nos veremos mais.
Agora sigam em paz.
Que Santa Sara as abençoe, com o sal, com o pão e com o ouro.
Elas saíram, e Nadja levantou o rosto para Lia.
- Pobre moça.
Que sorte mais triste!
Infelizmente, as cartas não mentem jamais...

7 Paloma refere-se ao filme Horizonte perdido, de 1973.
Durante uma tempestade, um avião cai em algum lugar do Himalaia.
Em busca de ajuda, os sobreviventes acabam encontrando um mundo estranho e maravilhoso chamado Shangrilá, onde existem a eterna juventude e a felicidade plena.

8 Boa sorte.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 8:05 pm

- 32 -

Magnólia vibrou com a notícia de que Fernando estava de mudança para São Paulo.
- Agora terei a chance de conversar e me acertar com Fernando.
- Ele não quer falar com você, Magnólia.
- Ora, Gina. Como não?
Eu sou a mãe dele! - exclamou.
- Ora, converse com ele e peça perdão.
- Eu não sou de pedir perdão! - indignou-se.
Não fiz nada de errado.
- Não fez, mas falou.
É só conversar abertamente com seu filho, abrir seu coração, contar sobre sua insegurança quando se descobriu grávida.
A verdade pode machucar, mas cicatriza rápido.
A mentira machuca sempre e jamais cicatriza.
- Terei de me dobrar, de novo?
- Não. Não veja dessa forma dramática.
Olhe para a situação e procure resolvê-la da melhor maneira possível, de forma que todos os envolvidos fiquem bem.
Você não está confortável.
Fernando, tenho certeza, sente a sua falta.
- Será?
Gina aproximou-se e puxou Magnólia na direcção da mesa da cozinha.
Sentaram-se pertinho uma da outra.
- Fernando é apaixonado por você, Magnólia.
- Mas...
- Não vá dizer que, se ele a amasse de verdade, jamais teria se afastado!
- Tirou as palavras da minha boca.
- Porque a conheço muito bem.
Sei o que se passa nesta cabeça cheia de minhocas - apontou.
- Ele gosta mesmo de mim?
- Gosta.
Aproveite que ele está voltando, mais maduro, dono de si, cheio de planos.
- Precisamos arrumar o quarto dele e...
Gina a cortou com amabilidade:
- Não será necessário.
- Não entendi.
Se Fernando vai voltar para cá, é natural que ocupe seu quarto novamente.
- Ele vai voltar para a cidade, mas não vai morar connosco.
Gina falou com cautela, prevendo a explosão.
Magnólia deu um pulo da cadeira.
- Como não?!
- Fernando decidiu ocupar um dos imóveis que tio Fabiano lhe deixou de herança.
Vai dividi-lo com os novos sócios.
- Espere aí! Que sócios?
Gina contou, por cima, sobre os planos de Fernando montar um bar na Vila Madalena, em sociedade com Alessandro e Peixão.
- Quem é Alessandro?
- Um amigo de faculdade.
- E Peixão?
Também é colega de faculdade?
Não me recordo de você mencionar nestes anos um nome tão peculiar - esbracejou Magnólia.
E o bar, vai se chamar A pequena sereia?
Gina achou graça, mas segurou o riso.
- Não sei ao certo.
Fernando é um bom rapaz e tem coração puro.
Acredito que esses rapazes também sejam pessoas do bem.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 8:05 pm

- Sei. O inferno está cheio de boas pessoas com óptimas intenções.
- Magnólia, deixe o pessimismo de lado.
Olhe a vida por uma óptica mais positiva.
A falta da percepção do bem em sua vida revela por que você sofre tanto e atrai para si cada vez mais dificuldades.
- Já disse que sou assim.
- Quem planta colhe.
Você vive em sintonia com o mal o tempo todo.
Cultiva os acontecimentos tristes e só enxerga tragédias no caminho, colecciona as queixas e as coisas desagradáveis que lhe acontecem.
Responda:
o que você pode esperar?
- Nesta altura de minha vida, não espero nada. Só dor.
- Suas atitudes determinam sua verdadeira escolha.
E, depois de semear, você vai ter de escolher.
A dor machuca e, quando aparece, cumpre sua finalidade.
Mas não se esqueça:
ela só aparece em último caso, quando foram esgotadas todas as demais alternativas.
A vida é misericordiosa sempre.
Gina falou e saiu.
Sua voz estava levemente modificada.
Ela não percebeu, mas fora intuída por Adelaide.
O espírito, depois de sussurrar nos ouvidos de Gina, aproximou-se de Magnólia e beijou-lhe a testa.
- Deixe de lado os sentimentos ruins.
Afaste-se dos maus pensamentos.
Cultive a felicidade e a alegria no coração.
Eu não poderei interceder por você.
Só posso alertá-la, minha filha.
Mude sua maneira de encarar a vida.
Adelaide aplicou em Magnólia um passe revigorante, limpou o ambiente, dissipando as energias negativas dos pensamentos e em instantes desapareceu.
Magnólia sentiu um calor no peito, uma leve sensação de bem-estar.
Contudo, não deu muita atenção à sensação. Logo estava implicando com Custódia e os efeitos positivos do passe revigorante se esvaíram.
Fernando entrou no apartamento com o pé direito, para dar sorte.
Alessandro veio logo atrás.
- É um apartamento grande - observou o amigo.
- É antigo - salientou Fernando.
São três quartos bem espaçosos.
Os rapazes entraram e percorreram os cómodos.
Era um bom apartamento.
Claro, arejado e recém-pintado.
O contrato vencera algum tempo atrás e Fernando pediu o imóvel ao inquilino.
O apartamento ficava em um predinho simpático, de três andares.
Alessandro aspirou o perfume de tinta fresca no ambiente.
- Adoro o cheiro de tinta fresca.
Parece que o apartamento nunca foi habitado.
- Imagine! Este apartamento tem mais de cinquenta anos.
Foi um dos primeiros que meu tio comprou.
- Mas está impecável.
- Sempre cuidamos bem dos nossos imóveis.
- Nem precisava ter pintado.
- Pintar foi a prioridade - tornou Fernando, checando os cómodos.
- Como? - indagou Alessandro, curioso.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 8:05 pm

- Minha tia Gina é espiritualista e me transmitiu ensinamentos do mundo espiritual.
Você sabia que as formas dos pensamentos das pessoas que habitam uma casa ficam impregnadas nas paredes?
Não sabemos quem aqui viveu, não sabemos o que pensavam.
- Eu me considero espiritualista, frequentei centro espírita, li muito da doutrina de Allan Kardec.
Mas não tinha conhecimento disso.
Está brincando!
- De forma alguma.
A tinta absorve as energias de um lar.
Por isso, para espantar os maus pensamentos e renovar o ambiente, nada como uma nova pintura.
- Bom saber. Sempre tive vontade de entender melhor como funciona este mundo invisível que nos cerca.
- Quando estivermos bem estabelecidos, vou marcar de você conhecer minha tia Gina.
Ela entende como ninguém de espiritualidade.
Adoro os ensinamentos que ela me transmite.
- Você não tem falado muito sobre sua mãe.
Ainda está triste com ela?
Fernando fechou o cenho.
Deu um passo rápido e entrou no banheiro, como se não tivesse escutado o comentário.
- Eu me esqueci de providenciar!
- O quê?
- O antigo inquilino me disse que o chuveiro havia queimado.
Preciso comprar um novo.
Vai sair mais barato que comprar uma nova resistência.
Alessandro era muito discreto e não quis repetir a pergunta.
Terminaram de verificar os aposentos e Fernando disse:
- Vou ficar com a suíte, no fim do corredor.
Você escolhe o seu quarto.
Alessandro deu de ombros.
- Para mim, fico em qualquer um.
São todos iguais.
- Eu virei para cá amanhã - retorquiu Fernando.
- Vou providenciar minha mudança.
Devo trazer meus pertences no fim de semana.
- E Peixão, será que vem na próxima semana?
- Foi o trato que ele fez com o dono do bar.
Prometeu ficar mais uma semana, cumprir aviso prévio.
Peixão é o mais animado dos três.
- É verdade.
Tenho certeza de que nosso negócio vai dar muito certo.
- Também acho, Fernando.
Eu o reencontrei na hora certa.
Continuaram a conversa e, na saída, foram almoçar em um restaurante de comida a quilo nas imediações.
Serviram-se e, depois de pesados os pratos, sentaram-se à mesa.
Fernando deu a primeira garfada e retomou o assunto:
- Você perguntou de minha mãe e não respondi.
- Não quero me meter em sua vida.
Sou seu amigo e seu sócio. Mais nada.
- Minha mãe é uma pessoa muito difícil.
- Você tem me contado muita coisa de sua vida.
Não precisa falar. Eu o respeito.
- Não tem problema.
Quero me abrir mais com você.
Eu o considero um irmão.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 8:05 pm

Alessandro sorriu.
- Obrigado. Gosto muito de você.
- Minha mãe tem um temperamento genioso, irascível.
É a negatividade em forma de pessoa...
Assim, Fernando começou a contar outros fatos de sua vida.
Falou do relacionamento difícil com a mãe, do carinho que sentia por Gina e Lena.
Por último, e não menos importante, abriu o coração e falou de seu amor por Paloma.
- A garota por quem sempre foi apaixonado agora tem nome. Paloma.
- É .
- Tem notícias dela?
- Não.
O tom monossilábico das respostas de Fernando fez
Alessandro mudar o rumo da conversa.
- Por que não volta a morar com sua mãe?
- Porque uma nova fase de minha vida se inicia.
Fiquei fora muitos anos e não me sentiria confortável morando sob o mesmo teto que ela.
Mamãe tem a vida dela, os hábitos dela, costumes arraigados.
Eu quero ter um espaço para ser eu mesmo, sem me preocupar em sair do banheiro.
Quero estar à vontade.
- Tem razão, meu amigo - concordou Alessandro.
- Liberdade é um prato que, quando o descobrimos, viciamos em degustá-lo.
O chope chegou e ambos ergueram suas tulipas:
- À nossa felicidade!
Depois de estalar a língua no céu da boca e dar mais uma garfada, Fernando perguntou:
- Você nunca me contou muita coisa sobre sua vida.
Agora que vamos ser sócios...
Alessandro riu.
- Está certo.
- Eu me lembro de que você morava com seu pai.
- É. Eu tenho um irmão mais velho.
Morávamos todos na mesma casa.
Depois que minha mãe faleceu, procuramos ficar juntos.
De repente meu pai se apaixonou por uma moça vinte anos mais nova e nossa vida mudou.
- Ele é feliz?
- Meu pai? - indagou Alessandro.
- Sim.
- É. Está casado há quase dez anos e tem uma filhinha de quatro.
Eu aceitei bem as mudanças e fui viver em uma república de estudantes.
- Eu me recordo dessa época em que nos conhecemos.
Mas você era bem reservado.
- Depois da faculdade e com um bom emprego, consegui comprar meu apartamento.
Meu irmão não digeriu bem a mudança.
Disse que papai estava conspurcando a memória de nossa mãe.
Alex mudou-se para Curitiba e cortou relações connosco.
- Com você também?
- Sim. Ele achou que eu enchi a cabeça de nosso pai com ideias de casamento.
Culpou-me pelo facto de papai querer seguir a vida ao lado de outra mulher.
Mas o que eu podia fazer?
Todos têm direito à felicidade.
Continuaram conversando e, a cada garfada, mais revelações sobre suas vidas.
A amizade dos dois se fortalecia.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 8:06 pm

- 33 -

Juliana chegou ao instituto.
Algumas crianças correram e grudaram em suas pernas.
- Tia! - chamava um.
- Saudades - resmungava outro.
- Você é fofa e bonita - elogiava outra menina, com muita dificuldade.
Juliana adorava as crianças.
Era costume deixar a bolsa sobre a mesa da recepção e abaixar-se para beijar todas.
Eram crianças que precisavam de muito amor e carinho.
E isso Juliana tinha de sobra.
Ela conversou com a recepcionista, depois apanhou o bloquinho com anotações e foi para sua sala.
Bateram levemente na porta e ela levantou o sobrolho.
- Já voltou de férias, Bruna?
- Voltei - respondeu ela, voz cansada e fisionomia triste.
- Pensei que uns dias na praia lhe fariam bem.
- Eu também achei, Juliana.
Mas não sei o que acontece.
- Não acha melhor consultar um médico?
Bruna deixou-se cair sobre uma cadeira.
Estava desalentada.
- Não aguento mais médicos e pedidos de exames.
Já me viraram do avesso e não encontram nada.
Bruna estava visivelmente abatida.
As olheiras eram proeminentes, e seu olhar, cansado.
Aparentava ser uma mulher bem mais velha do que era.
Juliana pousou a mão sobre a da amiga e sentiu um arrepio desagradável.
Bruna não se recordava ao certo quando os sintomas começaram.
Ela espremia os olhos, forçava a memória, mas não se recordava de algum evento que justificasse suas alterações de humor e o cansaço do corpo.
Sua mente sempre regredia até a noite do baile, dez anos antes.
Desesperada com o tratamento frio de Juliana, não tivera sossego enquanto não encontrasse a amiga e contasse a ela toda a verdade sobre o plano inicialmente traçado por Eduarda.
Caíque lhe deu carona, acelerou demais da conta e bateram o carro em um cruzamento movimentado e perigoso.
O carro capotou.
Caíque estava sem cinto e seu corpo foi violentamente projectado para fora do veículo.
Morte instantânea.
Bruna sofreu escoriações e fracturou uma das pernas.
Recuperou-se parcialmente bem e, depois de passar por cirurgias e pinos, ficou manca.
Após a tragédia, retomou a amizade com Juliana, entenderam-se.
Dedicou-se ao cursinho, ingressou no curso de direito e, depois de formada, passou a cuidar da parte jurídica da instituição.
Sem pensar, ela disparou:
- Se eu não tivesse saído com o Caíque naquela hora... - suspirou, melancólica.
- Ele iria bater o carro mesmo assim.
Infelizmente, Caíque sentia-se poderoso no volante.
Mais cedo ou mais tarde, iria atrair um acidente fatal.
- Não sei. Às vezes me pergunto:
como seria se tudo tivesse sido diferente?
- Se - enfatizou Juliana.
Mas não foi.
Ele morreu e você levou um tapa da vida.
Reavaliou suas crenças, sua maneira de enxergar o mundo.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 8:06 pm

Passou a dar maior importância aos pequenos fatos do dia a dia.
Quando passamos por situações traumatizantes, como no seu caso, aprendemos a dar valor a cada segundo.
- Tem razão. Eu era fútil.
Depois do acidente, amadureci.
Tornei-me outra pessoa.
Pena que Caíque não tenha tido a chance de mudar.
A conversa fluiu agradável.
Atrás de Bruna, o espírito de Caíque, entristecido, escutava tudo.
- Eu não posso deixá-la, querida - ele balbuciava, também abatido, com os ferimentos do acidente à mostra.
O sangue escorria pelo peito e pelo canto da testa.
As roupas estavam rotas, e a aparência de Caíque era digna daqueles personagens fantasmagóricos de filme de terror.
Bruna não percebia, mas sua aura estava ligada à de Caíque.
Depois da morte do corpo físico, a Terra não é mais o local adequado para o espírito.
Liberto do corpo, ele alça outros voos, alcança outros mundos, menos densos.
Alguns, abalados com a morte prematura, por exemplo, entram em desequilíbrio e automaticamente são transportados para zonas conhecidas como umbral.
Outros, que aceitam a nova condição, por assim dizer, são enviados para postos de socorro ou colónias de tratamento próximo do nosso planeta.
Caíque teve a chance de recuperar-se em um pronto-socorro do astral, contudo, como a maioria dos recém-desencarnados, não aceitou a nova realidade.
Passado algum tempo e sem esquecer Bruna, desejou procurá-la.
Encontrou-a quando ela, consciente do que havia ocorrido, julgou ter uma pequena parcela de culpa na morte do rapaz.
Daí juntou-se a fome com a vontade de comer.
Caíque, em espírito, ligou-se energeticamente a Bruna e a acompanhava havia três anos, época em que os sintomas de cansaço e mal-estar tornaram-se constantes na vida dela.
- Queira se retirar, por favor - solicitou o espírito de uma simpática moça, atrás de Juliana.
- Quem é você?
O que faz aqui? - protestou Caíque.
- Sou amiga da família e protectora das crianças deste instituto.
A sua energia atrapalha o desenvolvimento emocional das crianças.
- Não posso ficar longe de Bruna.
Eu ia pedi-la em namoro.
Ainda preciso me declarar.
- Seu corpo de carne morreu e você agora vive no mundo dos espíritos.
- Não! - gritou Caíque.
Eu vivo aqui. Não está vendo?
- É mesmo?
Se seu mundo é este aqui, por que Bruna não o vê?
- Ela não me vê, mas me sente.
- Você está fazendo mal a ela.
Não vê que Bruna está doente?
O que quer? Que ela morra e vá para seu lado?
- Não seria má ideia.
- Não. Seria péssima ideia.
Imagine Bruna saber que você acelerou o processo de desencarne dela.
Acredita que ela iria ficar ao seu lado?
- Eu a amo. Isso basta.
- Se você a ama de verdade, então deixe-a.
Quem ama liberta, certo?
- Humpf! - Caíque pronunciou palavras ininteligíveis e sumiu no ar.
O ambiente ficou mais sereno.
Bruna sentiu bem-estar.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 8:06 pm

- Conversar com você me faz sempre bem, Juliana.
Não sei o que seria de mim sem sua amizade.
- Somos amigas.
Eu quero vê-la bem. Sempre.
Do outro lado do Atlântico.
Paloma chegou a um bar e sentou-se.
Esperou, esperou. Nada.
A noite foi chegando e ela deixou-se hipnotizar pelo painel luminoso da loja de departamentos El Corte Inglês.
De repente, o celular tocou. Era Javier.
- Desculpe-me, meu amor - disse ele, em espanhol.
Não poderei encontrá-la.
Surgiu um carregamento urgente.
É perecível, não pode ficar parado no porto.
Se estragar, eu vou ter um prejuízo enorme e...
Paloma afastou o celular e virou os olhos, visivelmente irritada.
- Sei. Sei.
Você sabia que não nos vimos uma única vez nesta semana? - a voz dela era grave.
- São ossos do ofício, meu amor.
Prometo que amanhã vamos ter um dia só para nós dois. Juro.
Javier despediu-se, e Paloma bateu com o telefone sobre a mesa.
O garção aproximou-se, e ela pediu, nervosa:
- Uma tortilha e uma cerveja.
Remexeu-se na cadeira.
Ligou para Eduarda. Ela não atendeu.
Ligou de novo. Na terceira tentativa, Eduarda atendeu, voz cansada.
- O que foi? - indagou Paloma.
- Hoje eu não deveria ter saído da cama.
Dante passou mal a noite toda, vomitou.
Eu o levei ao médico e agora dorme tranquilo.
Estou acabada.
- Não quer me encontrar?
- Adoraria, Paloma, mas estou muito cansada.
Podemos almoçar amanhã?
- Pode ser. Até amanhã.
- Tchau. Um beijo.
Paloma desligou e vasculhou os contactos da agenda telefónica.
Tinha poucos conhecidos.
Os amigos da escola onde leccionava haviam se afastado, naturalmente.
Afinal, desde que conhecera Javier, não tinha mais tempo para os amigos, para ninguém.
Vez ou outra tinha a companhia de Eduarda e evitava encontrar Lena.
"Ela está insatisfeita com Ramón e está jogando charme para o Javier", pensou.
"Não sou boba.
Sei cuidar do que é meu.
Gosto muito dela, mas Lena que fique na dela."
Seus pensamentos foram interrompidos pela chegada do garção.
Ele depositou a torta sobre a mesa e Paloma apanhou a garrafa de cerveja.
Despejou o líquido no copo e bebeu de uma vez.
Passou as costas da mão nos lábios.
Depois de comer e beber mais outra cerveja, ela pediu a conta, pagou e saiu.
Estava frio, e noites de inverno a deixavam melancólica.
- Javier está me evitando - dizia baixinho, enquanto caminhava pelas Ramblas.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 8:06 pm

Paloma decidiu voltar para casa, mas ainda era cedo.
A noite em Barcelona começava depois do jantar, geralmente por volta das onze da noite.
Eram ainda, segundo costume do local, oito da tarde.
Ela viu um casal de enamorados na praça e pensou em Javier.
"Será que está me evitando?
Será que tem outra?
Será que está me traindo?"
As perguntas caíam feito cascata sobre a cabeça dela.
Os pensamentos mais horríveis e negativos invadiam a sua mente com a maior facilidade do mundo.
Invigilante e dando crédito à sua insegurança, mergulhou em pensamentos e sentimentos tristes, que só produzem mal-estar em quem os dá a devida atenção.
Atormentada, pensou no pai de Eduarda.
Ela teve um lampejo:
- Isso mesmo!
Javier está sempre com Octaviano.
Se não estiverem juntos, é porque Javier me trai.
Eu vou descobrir quem é a vagabunda que quer tomar o meu lugar!
Falou e estugou o passo.
Chegou ao endereço de Octaviano. Ele não estava.
- Devem estar juntos - disse para si, tentando se acalmar.
Ligou para Eduarda e caiu na caixa postal.
Na sequência, tomou um táxi e deu o endereço ao motorista.
- Tem certeza de que quer ir para este endereço? - o motorista perguntou, enquanto fitava-a pelo retrovisor.
- É caso de vida ou morte - respondeu dramática.
O senhor pára ali perto e eu desço.
O motorista deu de ombros e acelerou.
Depois de alguns minutos, ele a deixava em uma espécie de beco, onde havia galpões, aparentemente, abandonados.
Paloma pediu ao motorista que aguardasse, desceu e se embrenhou na escuridão.
Foi caminhando e viu um ponto de luz à frente.
- Javier está aí. Tenho certeza.
Ela se aproximou e, pelo vidro embaçado do galpão, viu duas sombras.
Sentiu raiva e trincou os dentes.
- Patife! Eu sabia que ele estava me traindo.
Mas isso não vai ficar assim.
Eu vou dar uma surra nessa piranha.
Enraivecida, acelerou os passos em direcção à porta lateral do galpão.
Paloma estivera ali algumas vezes e conhecia relativamente bem o lugar.
Controlou a respiração e esticou o olho pela porta entreaberta.
Sorriu aliviada, porque Javier não estava com uma mulher.
E, logo em seguida, sentiu pavor, porque Javier falou "adeus" e apertou o gatilho.
O homem caiu sobre os joelhos e Paloma não pôde ver o rosto.
Seu corpo todo tremeu e ela quase gritou.
Teve ímpetos de entrar, mas o bom senso a alertou para sair, o mais rápido possível.
Foi o que Paloma fez.
No meio do caminho, com medo de estar sendo seguida, pediu para o motorista parar.
"Se eu descer na casa de Lena e formos descobertas, será o nosso fim."
Paloma saltou do táxi e correu sem olhar para trás, aturdida, desesperada.
- Meu Deus! Ajude-me! - balbuciou, enquanto as pernas aceleravam os passos.
Ela correu o quanto pôde.
Chegou, transtornada, à casa de Lena e confessou, aturdida, ter visto Javier matar alguém.
Daí, a campainha tocou ao mesmo tempo que batiam na porta.
As batidas ficaram mais intensas e, segundos depois, Lena abriu.
Os olhos injectados de fúria à sua frente eram tão assustadores que Lena sentiu enjoo e as pernas ficaram bambas.
Escondida embaixo da cama, Paloma pedia a Deus que a tirasse de lá.
O mais rápido possível.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 8:07 pm

- 34 -

Dois meses haviam se passado.
Felizmente, Lena conseguiu pegar o passaporte no apartamento de Javier e Paloma deixou o país, pretextando que seu pai estava muito doente.
Javier, preocupado em livrar-se do corpo e apagar as evidências do crime, não deu muita trela.
Até achou óptimo ela se afastar por um tempo e largar do seu pé.
Sentada em um café no centro de Lisboa, Paloma reflectia sobre os últimos acontecimentos de sua vida.
Ficara atordoada ao saber que o homem morto por Javier era Octaviano, pai de Eduarda.
Sócios, os dois se desentenderam sobre valores de comissão de armas transportadas ilegalmente para o Paquistão.
- Cadé Eduarda que não chega?
Ela estava impaciente.
Batia o salto sobre o piso.
O garção - ou empregado de mesa, como se diz em Portugal - aproximou-se atencioso.
- Deseja alguma coisa?
- Um garoto9 e a ementa10, por favor.
A cada minuto, cravava os olhos impacientes no relógio.
Onde estaria Eduarda?
Javier descobriu as falcatruas de Octaviano e não hesitou.
Matou-o friamente, sem dó nem piedade.
A cena pulava e Paloma se via no apartamento de Lena.
O coração quase saltou pela boca quando Lena abriu a porta para Paco.
O homem estava desnorteado, precisava livrar-se do corpo de Octaviano e queria saber onde estava Paloma.
- Ela me disse que ia jantar com Eduarda, visto que Javier está ocupado.
- Tem certeza? - indagou o capanga, desconfiado.
- Sim. Ela me ligou há pouco - mentiu.
Deve estar com Eduarda.
- Sabe me dizer onde foram jantar?
Só para me certificar.
Lena foi tomada por uma súbita segurança:
- Paco, você vem até minha casa para saber onde Paloma está?
O que é isso? Um interrogatório?
O tom da voz dela era seguro e intimidador.
O homem moveu a cabeça para os lados.
- Tem razão.
Elas devem estar juntas.
- Por favor, se não tem mais nada a me dizer, queira se retirar.
Estou de saída.
Paco mordiscou os lábios.
Era bom que Paloma estivesse com Eduarda.
Ela não iria importunar Javier e eles teriam tempo para pensar em uma maneira de se livrarem do corpo de Octaviano, sem deixar rastro.
O homem saiu da casa de Lena preocupado.
Retornou ao galpão e piscou os faróis.
Javier meteu a cabeça para fora da porta e fez sinal com a mão.
Paco saiu do carro e o ajudou.
Transportaram o corpo, enrolado em um saco plástico, até um matagal.
Colocaram Octaviano sentado no banco do motorista, abriram os vidros e simularam um assalto.
Paco deu outro tiro em Octaviano, apanhou a carteira e o relógio para que a polícia acreditasse em roubo seguido de morte.
Nesse meio tempo, Lena conseguiu, por intermédio de Ramón, que Paloma viajasse para Lisboa naquela mesma noite.
Abalada com tamanha brutalidade debaixo de seu nariz, foi obrigada a repensar sobre sua vida.
Nos dias seguintes, teve dificuldade de pegar no sono e, quando conseguiu, sonhou com sua mãe.
Roseli estava com uma roupa clara, o semblante iluminado, um sorriso cativante nos lábios.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 8:07 pm

- Minha querida, quanto tempo!
Lena levantou-se e abraçou a mãe, emocionada.
- Como está?
- Muito bem.
- Oh, mamãe, não sabe como sinto saudades de você.
- Eu também sinto saudades.
- Pensei que este sentimento fosse exclusivo dos encarnados.
Roseli meneou a cabeça.
- Não. A saudade é um sentimento do espírito.
Portanto, encarnados e desencarnados têm este sentimento.
Por mais que esteja levando uma boa vida aqui no astral, sinto falta de você.
Abraçaram-se e Lena disse:
- Estou preocupada com Paloma.
- Não se preocupe.
Paloma vai ficar bem.
- Ela estava namorando um assassino! - exclamou Lena.
- Tudo na vida ocorre por meio de afinidade energética.
Paloma não tem tido sucesso nos relacionamentos afectivos porque sofreu por amor em última vida.
Desiludida e receosa de sofrer novamente, preferiu entregar-se a paixões fugazes, passageiras, superficiais.
- Agora sinto que ela corre perigo.
- Por que imaginar o pior?
- A situação não me permite ver por outro ângulo mais animador.
Roseli a abraçou.
- Minha filha querida, quantas vezes você já teve medo de tragédias que nunca aconteceram?
- Algumas vezes.
- Pois é.
A tendência para o negativo é um instrumento de auto-tortura que inferniza a vida de muita gente.
Viver imaginando coisas desagradáveis cria uma sintonia com o mal que é extremamente prejudicial à saúde do espírito.
- Eu sei, contudo...
- Contudo, sabe que se ligar neste padrão de pensamento acaba exalando esse tipo de energia, atraindo problemas, afastando pessoas queridas, prejudicando até seu trabalho.
Muitas pessoas fracassadas, sem amor, emprego, dinheiro ou saúde, estão nesta situação por pensar sempre no pior, por acreditar sempre no ruim, no negativo.
Nunca acreditam no bem, escondem-se temerosas, com medo de tudo e de todos.
Dessa forma, a alegria no coração desaparece e abre-se caminho fácil para obstáculos e doenças.
- Tenho percebido, ao longo dos anos, que a minha sensibilidade está mais fraca.
Quando eu era garota, lembro-me de que a intuição era bem afiada.
Eu via os espíritos com muita nitidez.
- Porque se deixou levar pelas ilusões do mundo.
Passou a acreditar mais no mundo do que na sua intuição.
As convenções sociais, a hipocrisia em geral dominam o coração e cegam nossa sensibilidade.
Não se contactar à sensibilidade é o mesmo que um viajante em alto-mar singrar sem bússola.
Viaja ao sabor dos ventos.
Viver sem o uso da intuição funciona da mesma forma:
você deixa de perceber a verdadeira intenção das pessoas e pode atrair situações desconfortantes em seu caminho.
- Como Paloma?
- Por certo, embora tudo indique que Paloma vai mudar o jeito de ser.
E quanto a você?
- O que tem eu, mamãe?
- Por que ainda insiste nessa relação sem sucesso com Ramón?
Lena sentiu-se envergonhada.
Namorava Ramón porque se acostumara à companhia dele.
Não porque o amava.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 8:07 pm

- Eu gosto de Ramón.
- Ele merece alguém que o ame de verdade, assim como você também merece ser feliz ao lado de um homem que a ame e a valorize.
As pessoas se deixam envolver por relações superficiais e sem gosto.
Amarram-se umas às outras por medo da solidão.
É por isso que a maioria das relações afectivas não é sólida.
Primeiro, é preciso entender-se, aceitar-se e amar-se incondicionalmente.
Só assim há condições de atrair alguém que vibre na mesma sintonia de amor que você.
- Confesso que estou cansada de viver aqui, embora ame esta terra.
Sinto saudades do meu país.
- Você tem fortes ligações com a Espanha.
Viveu muitas vidas aqui.
Em todo caso, quando garota, você sempre dizia que viria para cá e depois voltaria para o Brasil, que seu amor estava lá.
- Não me lembro...
Roseli sorriu e encostou a palma da mão na testa de Lena.
Imediatamente viu uma cena de anos atrás, na fazenda, afirmando mais ou menos isso.
Lena abriu os olhos, emocionada:
- Mamãe!
O meu amor não está aqui.
- Será que não é hora de voltar?
Lena disse, entristecida:
- O meu trabalho não é reconhecido no Brasil.
- Faça com que seja - tornou Roseli, amorosa.
- Mostre seu talento, sua capacidade.
Ame o seu trabalho.
Sempre haverá alguém que queira um prestador de serviço dedicado e que ame o que faz.
- Obrigada pelos conselhos.
E, em relação a Ramón...
- Deixe o tempo e as situações agirem.
- Eu tenho muita vontade de me apaixonar.
- Concentre-se nesse objectivo.
A vida sempre dá uma ajuda, trazendo pessoas que despertem esse sentimento em nós.
- Quando a verei de novo?
Fazia tanto tempo que não aparecia.
- Tenho uma vida corrida aqui no astral.
Trabalho, estudo, há uma rotina regada com disciplina, que procuro cumprir à risca.
E, além do mais, é prazeroso viver de acordo com os desejos de nossa alma.
Abraçaram-se com carinho.
Roseli depositou um beijo na testa de Lena e partiu.
Lena deitou-se e adormeceu.
Acordou no dia seguinte com uma gostosa sensação de bem-estar.
Virou-se na cama para se espreguiçar e o telefone tocou.
- Oi, Ramón, tudo bem?
- Indo.
- Por que esta voz?
- Fui promovido.
- Ora - ela bocejou e sentou-se na cama -, deveria estar feliz.
- É que terei de me mudar da Espanha.
A minha nova base será em Pequim.
- Nossa, que mudança!
- Pois é...
- A gente dá um jeito e...
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 8:07 pm

Ramón a cortou com amabilidade:
- Não dá para dar jeito.
Vou viver do outro lado do mundo.
Precisamos conversar... sobre nós.
- Vamos almoçar?
- Não tenho tempo.
Preciso fazer as malas, organizar a mudança.
- Já?
Ele estava um tanto desconcertado.
- Sim. É que estou para lhe falar há mais de uma semana.
Não tive coragem.
- Bom, então...
O segundo durou uma eternidade.
Ramón, por fim, disse:
- Tenho muita coisa para fazer.
- Eu posso ajudá-lo.
- Prefiro fazer tudo sozinho, do meu jeito.
Quanto ao nosso namoro... - ele pigarreou.
Creio que não temos condições de continuar juntos.
Lena sentiu uma fisgada no peito.
- Vai terminar assim, pelo telefone, depois de três anos?
- Sinto muito.
Você é uma óptima pessoa e merece ser feliz.
Boa sorte, Lena.
Ramón falou e desligou.
Lena mordiscou os lábios, olhou para o telefone.
Quando a ficha caiu, automaticamente apagou o nome de Ramón da lista de contactos.
Aos poucos, lembrou-se de fragmentos do sonho com Roseli:
"É preciso entender-se, aceitar-se e amar-se incondicionalmente.
Só assim poderá ter condições de atrair alguém que vibre na mesma sintonia de amor que você...".
- Homem que termina namoro pelo telefone não merece uma lágrima minha.
Ramón que seja feliz com suas chinesas.
Eu vou atrás da minha felicidade. Cansei.
Decidida, Lena levantou-se, tomou um bom banho e, enquanto se enxugava, ligou a tevê.
O noticiário falava de acontecimentos no mundo, sobre os eternos problemas no Oriente Médio, até que a apresentadora voltou-se aos assuntos da região da Catalunha.
- Um corpo foi encontrado dentro de um carro...
Lena tinha certeza de que haviam encontrado o corpo de Octaviano.
Na sequência, outro apresentador noticiou:
- Javier Rodriguez e Paco Cessa foram presos na manhã de hoje.
A polícia encontrou evidências que os ligam à vítima encontrada morta no veículo...
Ela suspirou.
- Javier é um homem esperto.
Como o prenderam?

9 Café pingado; mistura de café com leite.
10 Cardápio.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 8:07 pm

- 35 -

Depois de três xícaras de café com leite e umas torradinhas salgadas, Paloma levantou os olhos, e Eduarda entrou, empurrando o carrinho do bebé com dificuldade.
Ela se levantou para ajudá-la.
- Obrigada.
- Por que não responde às minhas ligações?
- Hello-o! - disse Eduarda, voz cansada.
Eu tenho um filho para criar e muitos problemas para resolver.
O pequeno Dante dormia a sono solto.
Era um bebé lindo.
Branquinho, cabelos ruivos bem clarinhos, parecia, evidentemente, um irlandês.
- Ele é todo o pai - comentou Eduarda.
O nariz é parecido com o meu.
- Não dá mesmo para negar.
Christopher tem cabelos castanhos.
Esse bebé é filho do segurança.
Eduarda sentou-se à mesa e riu.
- O próprio! O ruivo fortão...
Eduarda discorreu sobre os acontecimentos que a levaram a aproximar-se do segurança e engravidar.
Paloma ria das cenas.
- Você é terrível.
- Eu, não. Sou de carne e osso.
Christopher estava mais interessado na bolsa de valores do que em mim.
A ex-mulher vivia aporrinhando ele por conta daquelas crianças insuportáveis.
Eu fui ficando de lado, carente.
- E daí o segurança deu bola.
- Deu bola, deu beijo, deu tudo - Eduarda riu humorada.
Em seguida, sentiu uma tontura e Paloma notou.
- E os exames? Fez?
- Quanta insistência!
Parece o Christopher.
- Ele se importa com você.
- É verdade.
Ele não gostou nadinha da traição, assinamos os papéis.
Estamos definitivamente separados.
Mas não larga do meu pé.
Quer saber o que tenho.
- É natural. Viveram juntos muitos anos.
- Ele insistiu, mas não estou com cabeça para nada agora.
Eu mal tive um filho.
Nunca pensei que seria mãe.
- Mas é. Sua fisionomia não é das mais alegres.
- Preciso contar-lhe um segredo.
- Adoro segredos! - exclamou Paloma.
- É muito sério.
À medida que Eduarda falava, as expressões faciais de Paloma iam se transformando.
De interessada e surpresa, seu semblante passou a expressar tristeza, dor e indignação.
- Não pode ser!
Etí não acredito nisso - gritou Paloma.
- Psiu! Fale baixo - pediu Eduarda.
As pessoas estão olhando para nós.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 8:08 pm

Paloma baixou o tom de voz:
- Não posso crer.
Tem certeza do que afirma?
É um problemão.
- Não tem problema nenhum.
- Eduarda, por favor!
Isso tudo é muito sério.
Eduarda mudou de assunto.
- Viu o noticiário?
- Não vi nada.
- Dê uma olhada no meu celular.
Eduarda moveu os dedos e acessou uma página do noticiário espanhol.
À medida que Paloma lia, arregalava os olhos.
- Javier preso?
Eu mal acredito!
- Está vendo?
Esse aí não vai mais incomodar você.
- E se ele se safar e voltar a me procurar?
- Qual é, Paloma?
Você tinha um caso com o Javier, foi só mais uma na vida dele.
Mais nada.
- Não precisa falar assim.
- Mas é verdade. Você era diversão.
Uma boneca dos trópicos que ele usava a seu bel-prazer.
Paloma sentiu-se desconfortável.
Remexeu-se na cadeira, nervosa.
- Custa-me crer que ele foi preso e... - ela percebeu o sorriso malicioso nos lábios de Eduarda.
Você está metida nisso!
- Estou até o pescoço.
Pensa que não ia me vingar? - os olhos de Eduarda marejaram.
Eu podia não ter lá uma forte ligação com meu pai, mas esse canalha - apontou para o aparelho - tirou a vida dele.
Vai apodrecer na cadeia.
- Eduarda, mil perdões.
Eu aqui olhando para o meu umbigo, pensando na minha história com Javier e me esqueci de que seu pai foi morto por ele.
Eu não tenho palavras.
- Tudo bem - ela apanhou um lenço e assoou o nariz.
Dever cumprido.
O Harold, ex-segurança do Christopher e pai do meu filho, me ajudou.
Ele tem umas conexões com o submundo do crime, foi fácil plantar documentos do meu pai na casa de Javier e ligá-lo à morte de papai.
- Se fosse meu pai, eu seria capaz de matá-lo.
- Para quê?
Acaso diminuiria a dor? Não.
- Fico impressionada com sua atitude.
É um acto nobre.
- Não pensei se é nobre ou não, mas em justiça.
Cada um colhe o que planta.
Javier vai ter o que merece.
Estou ficando prática nesse tipo de entendimento.
final, não vou viver para sempre.
Paloma apertou a mão de Eduarda, transmitindo-lhe força.
- Há alguma coisa que posso fazer por você?
- Por nós, você quer dizer - rectificou, apontando para o filho.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 8:27 pm

- Vai falar com sua mãe?
- De forma alguma.
Glória não é a pessoa certa para cuidar de meu filho.
- Tem certeza de que vai entregá-lo?
Eduarda fez sim com a cabeça.
- Hum, hum.
Já contactei meus advogados no Brasil.
Os de Christopher me entregaram o documento com a guarda definitiva de Dante.
- Coloque-me a par do próximo passo.
- Vou voltar com você para o Brasil.
- Voltar?
- Sim. Meu pai está morto e enterrado.
Os negócios dele estão nas mãos de outros poderosos e, sinceramente, eu não quero saber de mais nada.
Christopher ajudou-me a transferir parte do dinheiro do meu pai para uma conta em um paraíso fiscal.
E há um documento garantindo a Dante retirar o dinheiro aplicado assim que completar a maioridade.
- Tem certeza de que é isso que quer?
- Sim.
- Estamos na Europa.
Aqui há centros bem desenvolvidos, médicos que...
Eduarda a interrompeu.
- Negativo. Vamos voltar ao Brasil.
Preciso ter uma conversa com seu cunhado.
Paloma fez cara de interrogação.
Erik?
- É. No voo eu lhe explico melhor.
Vamos.
- Para onde?
- Para o aeroporto.
Já fechei a sua conta no hotel e estou aqui com as passagens - abriu a bolsa e mostrou os bilhetes.
- O táxi está esperando lá fora, com as nossas malas.
- Mas... - Paloma estava confusa.
- Em relação a Lena, fique tranquila.
Ela vai nos encontrar assim que se desligar do trabalho.
Voltaremos nós todas para casa.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 8:27 pm

- 36 -

Bruna levantou indisposta, mais uma vez.
Caminhou lentamente até o banheiro.
Fez sua higiene pessoal, arrumou-se com dificuldade e saiu.
Entrou no carro cansada, desiludida.
Era como se a melancolia fizesse parte integrante de sua vida, para sempre.
Fez esforço para girar a chave, deu partida e foi para o trabalho.
Chegou atrasada à instituição, pegara um engarrafamento terrível.
Entrou soltando fogo pelas ventas.
- Estou cansada desta cidade, deste trânsito, desta gente...
- O que aconteceu? - indagou Juliana.
Bom dia para você também.
- Me desculpe, Juliana.
Mas hoje não acordei boa.
- Nem hoje, nem ontem.
Deixe-me ver... - ela levou o dedo à ponta do queixo.
Faz anos que você se comporta dessa maneira negativa.
- Fazer o quê?
Cada dia que passa vou ficando mais velha.
O que esperar da vida?
Fiquei manca da perna, não da cabeça.
Sei que nunca vou encontrar alguém que goste de mim desse jeito.
- De novo baixou o sentimento de auto-piedade?
Quer um chicote para se auto-flagelar?
- Brinca comigo, brinca - revidou irónica.
Eu nunca tripudiei sobre sua gordura.
- Pois tripudie.
Brinque, grite, me chame de gorda.
- Não seria capaz.
- Mas eu sou. Gorda. E feliz.
E apaixonada pela minha família.
- Sorte a sua.
- Bruna, minha querida, perceba que todos nós somos semelhantes, porém diferentes.
Eu sou gorda, você é manca, Erik tem barriga, meu pai tem unha encravada - elas riram.
Perfeitos mesmo, só os astros dos filmes, porque a gente não sente cheiro, não percebe as imperfeições físicas e intelectuais.
- É duro ser apontada na rua e ser motivo de chacota.
- Sofri preconceito desde que nasci.
Confesso que durante a adolescência quis morrer.
Foi um período duro, difícil.
Depois que amadureci e encontrei o amor nos braços de Erik, passei a questionar e reflectir sobre os valores impostos pela sociedade.
Mudei minha maneira de encarar a vida e hoje sou feliz, porque aprendi que não importa a forma que tenhamos, não importa a cara, a cor, nada.
A única coisa que importa na vida, de facto, é o amor.
- Não acredito.
- Mas é.
O que vamos levar daqui quando morrer?
As mágoas e dores vão nos arrastar para um mar de sofrimentos.
Eu não quero sofrer.
A alternativa são as boas lembranças, as memórias afectivas, o sentimento verdadeiro de amizade, de carinho, de amor.
O amor é a salvação, porque o amor é Deus em forma de sentimento.
Bruna arregalou os olhos.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 8:27 pm

- Nunca falou assim antes comigo.
Juliana estava sendo intuída por Tarsila.
Continuou a falar:
- Sabe, Bruna, cada nova encarnação traz oportunidades de crescimento, que ajudam você a usar melhor seu livre-arbítrio no momento presente.
O agora é o que importa.
É a partir do momento actual que você consegue criar condições para um futuro mais feliz.
É bom lembrar, sempre, que o seu sofrimento resulta de suas atitudes, que são consequência de suas crenças e de seus pensamentos.
- Me disseram que estou com encosto. Será?
- Pode ser.
Eu não sou especialista nessa área, entretanto, por que não procura ajuda espiritual?
Tem tanto centro espírita nesta cidade!
Tomar passes não dói e não mexe no bolso.
- Tenho tido muitos pesadelos.
A cena do acidente não sai do meu pensamento.
O espírito de Caíque estava ao lado de Bruna.
Era ele quem a fazia se lembrar constantemente da cena do acidente.
Tarsila fez-se presente.
- Quem é você? - perguntou ele, receoso e alteando a voz, numa tentativa de intimidação.
- Uma amiga da família.
- Nunca a vi antes.
- Porque nunca me fiz notar.
Este espaço é meu.
Tarsila fez um gesto delicado com os dedos e declarou, firme:
- Você é o intruso.
- Estou com Bruna.
- Eu sei. Como disse anteriormente, este espaço é meu.
Nenhum detalhe me escapa.
- Ela vai ser minha namorada.
- Como?
Vai esperar ela desencarnar para pedi-la em namoro?
- Senti uma ponta de ironia - rebateu ele.
- Quer que eu seja o quê?
Cordata? Que aceite esta sua interferência negativa?
- Não sou negativo.
- Mas está fazendo mal a Bruna.
- Eu gosto dela.
- Imagine!
Vocês nem tiveram nada.
- Por isso mesmo.
Minha vida foi interrompida.
Fui injustiçado.
- Por acaso sente-se morto?
- Para o mundo, sim.
- Não está conversando comigo?
- Hum, hum.
- Então está vivo.
Portanto, a sua vida não foi interrompida.
O que terminou foi mais um ciclo reencarnatório.
Caíque girou os olhos.
- De novo esse papo.
Já vieram atrás de mim com essa conversa de reencarnação.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 8:27 pm

- Pois vamos continuar a importuná-lo com esta conversa até o fim dos tempos.
- Pura perda de tempo.
Não saio de perto da Bruna.
- Veja o mal que está fazendo a ela.
- Eu gosto dela.
Não posso fazer-lhe mal.
- Mas está fazendo.
Está perdido, desorientado.
As suas energias não são puras nem saudáveis.
A sua ligação com Bruna está deixando-a descontente, triste e abatida.
O corpo físico dela começou a demonstrar sinais de desgaste.
- É porque ela não tem ninguém.
Se eu estivesse encarnado, tudo seria diferente.
- Falou certo: seria.
Mas não está. A realidade é outra.
Você morreu.
Caíque sentiu uma pontada no peito.
- Eu...
Tarsila prosseguiu:
- Você morreu porque era seu momento. Ponto final.
Sem grandes explicações.
Cada um de nós tem um tempo no planeta.
Alguns ficam mais, outros ficam menos.
Tudo depende da programação divina.
- Morri muito cedo.
- E continua vivo, em espírito!
Já percebeu quantos anos tem desperdiçado desejando mudar o que não pode?
- Se eu pudesse voltar atrás, seria mais cauteloso na direcção.
Tarsila bateu palmas.
- Parabéns!
A sua consciência lhe diz que correr demais é imprudente.
Em uma próxima oportunidade de reencarne, ao pôr as mãos em um volante, seu espírito vai recordar-se e ficar atento.
Garanto que você não vai mais correr feito um doido.
- Você fala de um jeito engraçado - riu Caíque.
Eu vou voltar a viver na Terra?
Tarsila fez gesto afirmativo.
- A maioria de nós vai voltar, muitas vezes ainda.
- Quantas?
- Quantas forem necessárias para o amadurecimento do nosso espírito.
Podem ser quatro, cem, mil, o número não importa.
Importa é que, a cada encarnação, possamos ampliar o nosso grau de lucidez, aumentar nossa inteligência e, consequentemente, diminuir nosso sofrimento.
Afinal, fomos designados pelas forças superiores para a felicidade.
- Não sou feliz - Caíque resmungou.
Tarsila aproveitou que ele se desligou temporária e mentalmente de Bruna.
Ela percebeu inconscientemente o desligamento e sentiu bem-estar.
- Está mais corada - disse Juliana.
- De repente, senti menos cansaço.
- Óptimo. Vamos dar uma volta.
Juliana a pegou pelas mãos e foram para o jardim, no meio das crianças.
Absorto em seus pensamentos, Caíque deixou-a ir por instantes.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 8:28 pm

Olhou para Tarsila, triste:
- Sou muito imperfeito.
Ela se aproximou e tocou-lhe no braço.
Caíque sentiu uma pontada de ânimo.
Não imaginava como era prazeroso o contacto com espíritos de alta luminosidade.
Tarsila disse, com voz amável, porém firme:
- Deus o criou perfeito à Sua imagem e semelhança.
Acredite que você é perfeito.
- Tem certeza?
- Afirmativo.
Dentro de você há todos os elementos de que precisa para progredir, aprender a fazer melhor e, consequentemente, crescer.
É esse conhecimento que vai diminuir seus sofrimentos, amenizar suas dores.
Quando você age de maneira adequada, os resultados só podem ser bons.
- Estou sendo punido por Deus.
- Não, meu querido.
A vida não cobra nem pune, apenas ensina.
Observe atentamente os valores que tocam sua alma, que lhe proporcionam alegria, felicidade e bem-estar.
Quando contacta-los, precisará valorizar cada um, não fazendo nada que os limite ou contrarie.
O que tem vontade de fazer?
- Eu queria ter meu próprio negócio, sair das asas do meu pai.
- Isso é bom.
Seu espírito anseia por independência e valor.
Valorizar-se é passo fundamental para uma vida melhor, não importa o mundo onde estejamos.
Agir de acordo com a própria natureza permite que você realize o seu melhor e tenha uma vida em equilíbrio e harmonia, dentro de seu nível de evolução espiritual.
- Não sei para onde poderia ir.
- Há muitas moradas na casa do Pai.
Nunca ouviu?
Ele sorriu.
- Na igreja, quando era garoto e ia à missa com minha avó.
Escutava bastante.
- É a mais pura verdade.
Não gostaria de aventurar-se em novas possibilidades, ter outra perspectiva de crescimento?
- Será? Não sei por onde começar.
- Jogue fora os pensamentos negativos e acredite na força divina dentro de você.
Essa é a sua parte.
O resto, entregue nas mãos de Deus.
- E Bruna?
- Ela também merece encontrar alguém e ser feliz.
A sua aproximação a impede de conhecer alguém.
Você a está infelicitando e também se fazendo tremendamente infeliz.
- Estou cansado.
- Escute. Não seja tão severo consigo.
O passado já acabou.
Você enganou-se ao escolher seus caminhos.
Contudo, neste exacto momento, Deus lhe concede a oportunidade de mudar, de procurar viver melhor e mais adequadamente.
- De maneira adequada?
Onde? - perguntou desconfiado.
- Em um lugar bem interessante, cheio de jovens como você.
O semblante de Caíque esboçou um sorriso.
- Verdade?
- Sim. É só me dar a mão e fechar os olhos.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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